OS BAIXOS NÍVEIS DOS RESERVATÓRIOS BRASILEIROS E OS RISCOS PARA A GERAÇÃO DE ENERGIA ELÉTRICA

Neste último ano, todas as atenções do mundo têm se concentrado na pandemia da Covid-19. Conforme já comentamos em postagem anterior, desde as grandes “pestes” da Idade média e da grande epidemia da Febre Espanhola entre os anos de 1918 e 1919, a humanidade não enfrentava uma crise médica e sanitária de tamanha magnitude. 

Notícias sobre a pandemia vêm ocupando a maior parte dos espaços dos noticiários na internet e nos meios de comunicação mais tradicionais, deixando outras notícias importantes relegadas a planos bem secundários. Uma notícia bastante preocupante e que tem conseguido pouco destaque nas mídias são os baixos níveis de grandes reservatórios de usinas hidrelétricas, uma situação que cria riscos para o abastecimento de energia elétrica do país

Segundo dados da ANEEL – Agência Nacional de Energia Elétrica, a geração de energia elétrica a partir de fontes hidráulicas responde por cerca de 61% de toda a eletricidade consumida no país. Apesar de ser considerada uma das fontes de geração mais sustentáveis do ponto de vista ambiental (desconsiderando-se, é claro, os grandes impactos ambientais criados pela construção das barragens e com o represamento das águas), a geração hidrelétrica é altamente dependente das condições normais do clima e das chuvas regulares de todos os anos.

Desde o final de 2020, a NOAA – Administração Atmosférica e Oceânica dos Estados Unidos, na sigla em inglês, vem observando uma redução de 1,2° C na temperatura das águas superficiais de uma extensa faixa do Oceano Pacífico, um dos sinais mais evidentes da ocorrência do fenômeno climático La NiñaE, segundo as projeções da NOAA, será o terceiro La Niña mais intenso dos últimos 20 anos

La Niña provoca uma série de mudanças nos padrões climáticos de todo o mundo. Aqui no Brasil, a presença de La Niña causou fortes tempestades e chuvas acima da média em algumas regiões como no Pantanal Mato-Grossense no início deste ano. Em outras regiões, porém, aconteceu justamente o contrário – as chuvas ficaram abaixo da média. Para completar o quadro, o inverno de 2020 foi um dos mais secos dos últimos anos e o retorno das chuvas em muitos lugares atrasou em cerca de 15 dias. 

As regiões mais fortemente atingidas pela seca foram o Sudeste o Centro-Oeste do Brasil, justamente onde se encontram os maiores e mais importantes sistemas de geração hidrelétrica do país. Cerca de 70% da energia elétrica gerada no Brasil vem de usinas hidrelétricas que estão concentradas nessas regiões

Como consequência direta dessa seca, nosso país poderá enfrentar a maior crise energética dos últimos 91 anos. Nas palavras do Ministro das Minas e Energia, Bento Albuquerque, “Isso tem levado a adoção de medidas excepcionais a fim de garantir a segurança e continuidade do suprimento”

Entre as medidas já adotadas pelo Governo Federal está o acionamento das usinas termelétricas, a maior parte delas movidas a partir da queima do carvão mineral, uma geração que além de muito poluente é muito mais cara que a geração hidrelétrica. A maior parte dessas usinas termelétricas foram construídos no início da década de 2000, tempos do famigerado “apagão” do sistema elétrico brasileiro. 

Há época, o país enfrentou uma situação de seca semelhante a atual, o que comprometeu fortemente a geração de energia elétrica – sem contar com fontes alternativas para a geração de eletricidade, foi decretado um “draconiano” racionamento de energia elétrica no país, uma medida que causou enormes problemas econômicos e que resultou em mudanças políticas no país. 

Além da falta de chuvas, a geração de energia elétrica no Brasil amargava àquela altura mais de uma década de falta de investimentos em geração e distribuição de energia elétrica. Um plano de racionamento de energia elétrica precisou ser elaborado às pressas e impôs uma redução obrigatória de 20% no consumo de energia para quase todas as regiões brasileiras. A única exceção foi Região Sul, que contava com reservatórios cheios, porém, não existiam linhas de transmissão que permitissem a distribuição dos excedentes de energia gerados para o restante do país. 

Para conseguir apoio da população às medidas de racionamento, o Governo Federal estipulou uma série de benefícios para os consumidores que conseguissem cumprir a meta e também se especulou criar punições para quem não conseguisse, o que, felizmente, acabou não sendo implementado. No dia 7 de dezembro de 2001 choveu fortemente em grande parte do país, o que contribuiu para uma sensível alta no nível de vários reservatórios.  

Em 19 de fevereiro de 2002 o racionamento de energia elétrica foi suspenso, mas não os estragos políticos e econômicos. De acordo com uma auditoria realizada pelo TCU – Tribunal de Contas da União, em 2009, o “apagão” do Sistema Elétrico Brasileiro causou um prejuízo ao Tesouro de R$ 45,2 bilhões em valores há época. Alguns cálculos indicam que essas perdas foram de R$ 320,00 para cada brasileiro

Em comparação à situação de 20 anos atrás, a atual crise energética encontra um país melhor estruturado. Foram construídas três grandes usinas hidrelétricas na Bacia AmazônicaSanto Antônio e Jirau no rio Madeira em Rondônia, e Belo Monte no rio Xingu no Pará, regiões que têm uma temporada de chuvas independente do que ocorre no restante do país 

Também se destacam os grandes investimentos feitos em fontes alternativas de geração de energia elétrica – solar, eólica e queima de biomassa. De acordo com informações da ABEEÓLICA – Associação Brasileira de Energia Eólica, a capacidade instalada do setor em setembro de 2020, era de 16,68 GW, o que corresponde a cerca de 10% da geração elétrica do país. 

A geração de energia fotovoltaica ou solar também teve um crescimento expressivo nos últimos anos e já representa cerca de 5% da geração de energia elétrica do Brasil. De acordo com dados da ABSOLAR – Associação Brasileira de Energia Solar, a geração de energia elétrica a partir de painéis fotovoltaicos no Brasil atingiu a marca de 7,5 GW em 2020, o que equivale à metade da capacidade instalada da Usina Hidrelétrica de Itaipu

queima do bagaço da cana-de-açúcar, um subproduto da produção do açúcar e do álcool também ganhou importância. De acordo com informações do CTBE – Centro Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol, entidade ligada ao CNPEM – Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais, a geração elétrica a partir da queima do bagaço da cana contribui com cerca de 7% da matriz elétrica do Brasil.   

Graças ao forte crescimento dessas fontes renováveis de geração de energia elétrica, a participação das fontes hidrelétricas na matriz elétrica do país caiu de 90% no início da década de 2000 para pouco mais de 60% nos dias atuais. A crise energética atual, apesar de muito grave, é menos dramática que a de 2001. 

Nas próximas postagens vamos analisar as condições dos principais reservatórios das Regiões Sudeste e Centro-Oeste para entendermos melhor a situação que estamos vivendo. 

OS RUMOS DO SANEAMENTO BÁSICO NO BRASIL

Na última postagem falamos dos novos rumos que se abriram para a CEDAE – Companhia de Água e Esgoto do Estado do Rio de Janeiro. A empresa teve a maior parte dos seus serviços de distribuição de água tratada e de coleta e tratamento de esgotos concedidos à iniciativa privada em leilão público realizado no final de abril. A CEDAE foi a primeira grande empresa do setor de saneamento básico no Brasil a ser “privatizada” após a aprovação do Novo Marco Legal do Saneamento em 2020. 

Antes de prosseguir, um esclarecimento: saneamento básico pode ser definido como o conjunto de serviços que garante as condições de higiene e saúde da população ou série de medidas que tornam uma área sadia, limpa, habitável, oferecendo condições adequadas de vida para uma população ou para a agricultura. Esses serviços ou medidas são: abastecimento de água, sistemas de drenagem de águas pluviais (chuva), serviços de limpeza urbana e coleta/destinação de lixo e resíduos sólidos, além dos sistemas de coleta e de tratamento de esgotos. Como o foco aqui do blog são os recursos hídricos, vamos nos ater aos serviços de abastecimento de água e os esgotos.

O Novo Marco do Saneamento Básico do Brasil foi aprovado em julho de 2020 e tem como principal objetivo garantir que, até 2033, 99% da população tenha acesso à água potável e 90% à coleta e ao tratamento do esgoto. Para tornar isso uma realidade, essa nova legislação facilita a entrada de empresas privadas no setor, o que será feito através de concorrências públicas – quem oferecer o melhor preço e o melhor serviço ganha. 

Muitos políticos e dirigentes públicos rasgaram elogios ao Novo Marco do Saneamento Básico, colocando esse novo arcabouço jurídico como uma espécie de “tábua de salvação do saneamento”. Na verdade, as coisas não são tão simples assim. O próprio leilão de concessão dos serviços da CEDAE mostrou isso: apenas três dos quatro lotes colocados para a concessão dos serviços foram arrematados pela iniciativa privada.  

Destaco aqui que o Rio de Janeiro é o segundo Estado brasileiro mais rico. Está cheio de problemas no momento, mas, tem um enorme potencial de mercado e vai render ótimos lucros para os novos concessionários. Imaginem então qual seria o interesse privado por um lugar pequeno com um nome como “Jiripoca do Brejo Grande” (um lugar fictício, é claro), lá nos “cafundó do Judas” como dizemos no meu bairro – será que alguma empresa privada se interessaria por um lugar desses? 

Pesquisando sobre o assunto, encontrei um estudo bem interessante feito pelo Instituto Trata Brasil: CENÁRIO PARA INVESTIMENTOS EM SANEAMENTO NO BRASIL APÓS A APROVAÇÃO DO NOVO MARCO LEGAL, leitura que recomendo a todos. Vou destacar alguns pontos mais relevantes para mostrar o tamanho do desafio do saneamento básico aqui no Brasil: 

De acordo com dados de 2018, 83,6% dos domicílios do Brasil são atendidos com redes de abastecimento de água potável – 97,8% desses domicílios ficam em áreas urbanas. A coleta de esgotos, porém, só atinge 60,9% dos domicílios, sendo que apenas uma parte desses esgotos recebe o tratamento adequado. Esses números indicam que cerca de 34 milhões de brasileiros não tem acesso a água potável em suas casas e mais de 81 milhões não tem acesso a redes de esgotos

Para que se consiga universalizar esses serviços até o ano de 2033, serão necessários grandes aportes financeiros para a construção de uma enorme infraestrutura com sistemas de produção e redes de distribuição de água potável, além de construir redes de coleta e estações de tratamento de esgotos.  

Segundo um levantamento feito pela ABCON – Associação Brasileira das Concessionárias Privadas de Serviços Públicos de Água e Esgoto, em parceria com a empresa de consultoria KPMG, o montante de recursos necessários para tornar tudo isso uma realidade é da ordem de R$ 520 bilhões. Isso significa que os investimentos anuais ao longo dos próximos anos precisa ser da ordem de R$ 34,7 bilhões

De acordo com os dados disponíveis, as redes de abastecimento de água aqui do Brasil cresceram de forma constante entre 2008 e 2018, saltando de 470 mil km para 662 mil km de extensão. A população atendida por esse serviço, que era de 146 milhões de habitantes, saltou para um total de 174 milhões ou o equivalente a 84% da população brasileira. 

Apesar de, aparentemente, serem ótimos números, eles escondem uma triste realidade: 2014, que foi o ano em que mais se investiu em água e esgotos na história do Brasil, com investimentos da ordem de R$ 14,9 bilhões, valor que não chega nem a metade do volume de investimentos anuais necessários para se conseguir atingir a universalização desses serviços até o ano de 2033. 

Para piorar o cenário já desolador, entre os anos de 2014 e 2018, houve uma redução de 12,3% nos investimentos totais em água e esgoto no Brasil. Citando um exemplo – em 2018, o investimento em sistemas de abastecimento de água foi de apenas R$ 5,7 bilhões, uma redução de 7,1% em relação ao investido em 2014. Em sistemas de coleta e tratamento de esgotos a redução foi ainda maior – houve uma diminuição de 30,9%. 

Além de se encontrarem em níveis muito aquém das necessidades do país, os investimentos em sistemas de água e esgotos se deram de forma desigual entre as diferentes Regiões do Brasil. Na Região Sudeste, por exemplo, onde vive cerca de 42% da população do Brasil, os investimentos em sistemas de abastecimento de água entre 2014 e 2017 responderam por uma fatia de 54,35% do volume total de investimentos do país nessa área – em 2018 houve uma pequena redução e o investimento correspondeu a 49,7% do total. 

Quando se trata de investimentos em redes de coleta e sistemas de tratamento de esgotos, os volumes da Região Sudeste totalizaram 54,65% dos investimentos totais do país. Em 2018, também houve uma redução desses valores, caindo para cerca de 51% do volume total. 

Já na Região Norte, que concentra a menor população entre todas as Regiões brasileiras, os investimentos em água e esgotos não chegaram a atender, proporcionalmente, nem a metade da população. A região abriga 8,72% da população brasileira, mas recebeu apenas o equivalente a 3,77% dos investimentos totais do país em sistemas de abastecimento de água entre 2014 e 2017 – em 2018, essa participação aumentou um pouco, atingindo o percentual de 4,29%. Os investimentos em sistemas de coleta e tratamento de esgotos foram de 3,3%, caindo para 2,91% em 2018. 

Após vários anos de turbulência política, recessão econômica e, atualmente, vivendo uma grande crise social e econômica por causa da pandemia da Covid-19, é fácil perceber que nosso país não dispõe de recursos para fazer todos os investimentos necessários para que se atinja a tão sonhada universalização dos serviços de abastecimento de água e de coleta e tratamento dos esgotos. É justamente aqui que o Novo Marco do Saneamento entra, abrindo espaço para o investimento privado nesse tão importante setor. 

No caso da concessão de parte desses serviços nas regiões de atuação da CEDAE no Rio de Janeiro, os dois consórcios vencedores do leilão assumiram o compromisso de fazer investimentos da ordem de R$ 30 bilhões ao longo do período da concessão que é de 35 anos. Considerando-se o tamanho da população do Rio de Janeiro, podemos estimar que grande parte da questão da universalização já está bem encaminhada no Estado, apesar de ser atingida apenas por volta do ano 2056 (estou considerando nessa conta o período total da concessão dos serviços). 

Privatizar esses serviços em Estados grandes e ricos é fácil – resta saber se nos demais Estados da Federação haverá o mesmo apetite das empresas privadas pela concessão dos mesmos serviços, uma questão que fica ainda mais delicada nos Estados mais pobres e nas cidades menores e/ou nos pequenos povoados mais isolados dos sertões do país. 

Pessoalmente, eu tenho minhas dúvidas sobre os rumos do saneamento básico aqui no país, especialmente no que se refere a sistemas de esgotos. Eu trabalhei por quase 10 anos em obras desse tipo – são obras caras, de realização problemática e bem demoradas. Sem a garantia de um bom e rápido retorno financeiro, não sei quantas empresas privadas vão querer “encarar” esses serviços nas “quebradas” do Brasil. 

Como sempre, espero estar errado… 

PARTE DOS SERVIÇOS DA CEDAE FORAM CONCEDIDOS À INICIATIVA PRIVADA. E AGORA?

No último dia 30 de abril, em leilão realizado na Bolsa de Valores de São Paulo, foram concedidos à iniciativa privada 3 dos 4 lotes dos serviços de água e esgotos da CEDAE – Companhia Estadual de Água e Esgoto do Rio de Janeiro. A concessão rendeu aos cofres públicos um total de R$ 22,7 bilhões, um valor que ficou 133% acima do mínimo esperado. Os dois consórcios vencedores da disputa, AEGEA e Iguá, terão a concessão desses serviços por 35 anos e se comprometem a realizar investimentos de cerca de R$ 30 bilhões.

A CEDAE foi criada em 1975, numa época que foi caracterizada pela grande intervenção estatal e criação de grandes empresas públicas. A empresa foi formada a partir da unificação de diversas empresas municipais de águas e esgotos da Região Metropolitana e do interior fluminense, tendo como objetivo a universalização dos serviços de abastecimento de água e de coleta e tratamento de esgotos, o que nuca foi atingido. O uso político da empresa, a má gestão da sua infraestrutura e a pura incompetência de muitos dirigentes, levaram a uma lista enorme de problemas nos serviços. 

Um dos maiores e mais recentes problemas da CEDAE, que apresentamos em postagem anterior, foi o fornecimento de água com péssima qualidade a milhões de consumidores. A origem do problema foi a geosmina, um composto orgânico presente nas águas e que é produzido por cianobactérias (algas azuis) e bactérias como a Streptomyces e a Actinomicetos. As águas altamente poluídas por esgotos do rio Guandu, o principal manancial de abastecimento da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, possibilitaram a proliferação dessas algas e bactérias. Os processos de tratamento da água feitos pela CEDAE não conseguiram eliminar todos os resíduos desse contaminante. 

Outro problema recente e muito marcante foi a interrupção dos serviços de distribuição de água da empresa, o que afetou perto de 1 milhão de consumidores. O problema foi criado pela queima de um grande motor elétrico de uma estação de bombeamento. A empresa precisou de várias semanas até conseguir realizar o conserto do equipamento e o reestabelecer plenamente os serviços. 

Com a concessão dos serviços de distribuição de água e de coleta e tratamento de esgotos para empresas privadas, há uma expectativa de uma melhoria geral nas operações. A produção de água potável, ou seja, os serviços de captação de água bruta e o tratamento final, continuarão nas mãos da CEDAE. As empresas privadas vão comprar a água tratada e vão se responsabilizar pelo ‘transporte” dessa água através das redes de distribuição até as residências dos consumidores. 

Para cada litro de água potável que “entra” em uma residência, indústria ou comércio, é gerado cerca de um litro de esgoto, o nome que é dado para as chamadas águas servidas. Os serviços das novas concessionárias também vão incluir a coleta, o transporte e o tratamento final desses esgotos. As empresas concessionárias serão remuneradas, através do pagamento das contas pelos usuários, pelos serviços de água e esgotos.  

Dentro da lógica do mercado, a remuneração das empresas concessionárias aumentará à medida que forem ampliados e melhorados os serviços de fornecimento de água potável e de coleta e tratamento de esgotos. Como sempre existirão riscos desses serviços serem concentrados em regiões com melhores infraestruturas (bairros com melhor urbanização, por exemplo) e haja a tão esperada “universalização’ dos serviços, é fundamental que o poder público crie órgãos de fiscalização eficientes e bem estruturados.

A história do abastecimento de água na Região Metropolitana do Rio de Janeiro é cheia de problemas. A escolha da região para a criação de importantes assentamentos humanos está ligada diretamente à Baía da Guanabara. Essa belíssima e muito poluída baía possui excelentes características para a operação de embarcações marítimas – ela é fechada e muito bem abrigada das ondas e ventos do mar aberto, as águas são profundas e sua área é muito grande. Essas características saltaram aos olhos dos primeiros exploradores portugueses já nos primeiros anos após o descobrimento do Brasil, que encontraram ali um dos melhores atracadouros de toda a costa brasileira. 

Foram, porém, os invasores franceses os primeiros a se valer do grande potencial da baía da Guanabara. Em 1555, eles fundaram a França Antártica, cujo objetivo principal era o de permitir à França o controle da navegação e do comércio em todo o Atlântico Sul. A cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro só seria fundada por Estácio de Sá em 1565, e os franceses só seriam expulsos em definitivo em 1570. 

A excepcional geografia da Baía da Guanabara, entretanto, escondia muitos dos problemas das suas áreas lindeiras. O principal deles era a pouca disponibilidade de água potável. A região não possui grandes rios, mas sim uma infinidade de pequenos rios com nascentes nas encostas das serras. Em épocas de seca, os caudais desses rios sofrem uma forte redução e falta água para o abastecimento das populações. O Rio de Janeiro, a maior cidade da região, enfrentou inúmeras crises de abastecimento de água ao longo de sua história.  

Um dos marcos arquitetônicos mais conhecidos da cidade, os Arcos da Lapa, que também já foi chamado de Aqueduto da Carioca, está relacionado diretamente aos antigos problemas de abastecimento de água da população. Construído entre 1725 e 1744 por ordem do Governador Gomes Freire de Andrade, o aqueduto permitia o transporte de água desde a nascente do rio Carioca até fontes públicas no centro da cidade, regularizando assim o fornecimento. A fonte mais importante ficava no Largo da Carioca. Nos bairros mais distantes da área central da cidade, o problema persistia. 

Um fator que contribuiu muito para a redução gradativa dos volumes de água dos riachos e ribeirões que existiam na região foram os desmatamentos para a abertura de campos para o cultivo da cana de açúcar, principalmente na Baixada Fluminense, uma atividade que vinha crescendo desde meados do século XVII. Em 1763, com a transferência da capital da Colônia de Salvador para a cidade do Rio de Janeiro, a população da cidade passou a crescer mais rapidamente e os problemas no abastecimento de água só aumentaram.  

Um outro marco para o aumento dos problemas de abastecimento de água na região foi o início do plantio do café a partir das últimas décadas do século XVIII. Uma região que foi transformada em um enorme cafezal foram as encostas dos morros da Tijuca, as mesmas onde se encontravam as nascentes de muitos dos riachos formadores do rio da Carioca, até então o principal manancial de abastecimento da cidade. 

A crise no abastecimento de água se agravou muito a partir de 1808, ano em que toda a Família Real de Portugal e toda a Corte vieram para a cidade do Rio de Janeiro fugindo das tropas invasoras de Napoleão Bonaparte. Toda essa massa de novos moradores representou um aumento entre 15 e 20 mil novos habitantes para a cidade . O Rio de Janeiro, que já era há época a maior cidade brasileira com cerca de 30 mil habitantes, viu sua população praticamente duplicar em um curtíssimo espaço de tempo. 

Um dos capítulos mais interessantes da história da cidade na busca da recuperação dos seus mananciais de abastecimento de água foi plantio de dezenas de milhares de mudas de árvores que formariam a atual Floresta da Tijuca. Com o renascimento da floresta, as águas voltaram a brotar nas nascentes e o abastecimento de água para a população foi sendo recuperado. 

A solução definitiva para o abastecimento de água na cidade do Rio de Janeiro e de grande parte dos municípios da Região da Baixada Fluminense veio com a instalação das unidades de geração de energia elétrica da empresa Light ao longo de todo o século XX. Parte importante do sistema da Light foi feito com a utilização de águas transpostas a partir da bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul. Após o uso, essas águas eram despejadas na direção do rio Guandu e assim podiam ser aproveitadas no abastecimento das populações. 

Uma das boas expectativas criadas pela concessão dos serviços da CEDAE é a recuperação da qualidade ambiental da bacia hidrográfica do rio Guandu pelas empresas concessionárias. O crescimento das cidades da região, como é de praxe aqui no Brasil, não foi acompanhado da adequada infraestrutura de saneamento básico – especialmente dos serviços de coleta e tratamento de esgotos, o que se mostrou fatal para as águas do rio Guandu. Outra grande expectativa da população é a recuperação da Baía da Guanabara, cujas águas hoje estão tomadas por esgotos e resíduos. 

Os desafios são enormes, mas vamos torcer para que tudo dê certo. Fluminenses e cariocas merecem um futuro melhor! 

BOAS NOTÍCIAS AQUI DO MEU BAIRRO: A DESPOLUIÇÃO DO RIO PINHEIROS COMEÇA A MOSTRAR BONS RESULTADOS

Fazer publicações diárias falando sobre meio ambiente e recursos hídricos nos leva, infelizmente, a uma torrente quase que contínua de más notícias. Em tempos de pandemia da Covid-19 e da reincidência de antigos problemas como a Dengue em nossas cidades, o “caldeirão” fica ainda mais indigesto. 

Esquecendo por hora tudo isso, vamos falar de uma ótima notícia para a cidade de São Paulo e, muito melhor, para o meu bairro – Santo Amaro: depois de muitos anos de promessas não cumpridas e de alguns projetos “ninja” que não lograram bons resultados (destaco aqui um sistema de flotação que foi testado no rio), a famigerada poluição no rio Pinheiros finalmente começa a mostrar sinais que está sendo reduzida. 

Cerca de três semanas atrás, um grupo de cidadãos paulistanos que circulava com suas “bikes” pela extensa ciclovia que margeia o rio Pinheiros flagrou um cardume de peixes nadando em um trecho do rio com sinais de águas mais limpas. Um vídeo feito por esse grupo viralizou nas mídias sociais e, inclusive, acabou virando pauta de reportagens em muitos meios de comunicação. Em tempos de desalento e más notícias, esse acontecimento alegrou muita gente. 

O rio Pinheiros nasce a partir da junção das águas dos rios Grande e Guarapiranga em Santo Amaro, bairro da Zona Sul de São Paulo, e segue por cerca de 25 km até desaguar no rio Tietê na Zona Oeste da cidade. Antes da construção da Represa Billings na década de 1930, o que exigiu o represamento de diversos rios da região do Alto da Serra do Mar, as nascentes do rio Grande ou Jurubatuba eram encontradas em Paranapiacaba, um distrito do município de Santo André, a mais de 50 km de distância do trecho inicial do rio Pinheiros. 

A foto que ilustra esta postagem, que aliás é muito parecida com a vista que se tem do apartamento da minha irmã, mostra o exato ponto em que as águas dos rios Grande e Guarapiranga se encontram para formar o rio Pinheiros. Ao fundo, a Represa Guarapiranga, chamada carinhosamente por nós de “praia de Santo Amaro”. Se vocês prestarem atenção na imagem notarão uma diferença expressiva na cor das águas dos dois rios – as águas do rio Guarapiranga, que são razoavelmente limpas, contrastam com a cor escura das águas do poluído rio Grande. 

A história do bairro remonta aos tempos da fundação do colégio e da vila de São Paulo de Piratininga pelos padres Jesuítas em 1554. A congregação instalou uma missão de catequese ao lado do Jeribatiba, antigo nome indígena do rio Pinheiros. Os indígenas chamavam o lugar yvirá-puera, nome que na língua tupi-guarani significa “pau podre” e que depois seria o nome dado a um dos parques mais queridos da cidade – o Ibirapuera.  

Durante quase quatro séculos, Santo Amaro foi uma cidade independente. O rio Pinheiros era uma importante via navegável, que permitia a comunicação e os transportes com as demais vilas da região, principalmente São Paulo de Piratininga. Em 1932, após um grande reordenamento regional, Santo Amaro teve grande parte de seu território incorporado ao município de São Paulo e partes transformadas e/ou agregadas a outros municípios. 

O primeiro grande aproveitamento dos recursos hídricos da região se deu em 1908, quando foi construída a Represa de Santo Amaro, depois rebatizada como Represa Guarapiranga. O objetivo da obra era criar um grande reservatório que permitisse regularizar as vazões do rio Tietê nos períodos de seca e assim garantir a operação contínua das turbinas da Usina Hidrelétrica de Santana de Parnaíba, primeira geradora de eletricidade da região metropolitana de São Paulo e uma das principais impulsionadoras do processo de industrialização regional. 

Outra obra marcante na região foi a já citada construção da Represa Billings e do seu complexo de geração de energia elétrica na década de 1930. Além do aproveitamento das águas de diversos rios da região, o projeto previa a transposição de águas da bacia hidrográfica do rio Tietê na direção da represa. Foram construídas duas estações de bombeamento ou de traição – uma na região da Vila Olímpia e outra na Pedreira. O curso do rio Pinheiros, que era extremamente irregular e cheio de curvas, foi totalmente retificado e transformado em um canal reto. A foto abaixo nos dá uma ideia de como eram as margens do rio na década de 1930.

Os problemas de poluição nas águas do rio Pinheiros, dos quais as Represas Billings e Guarapiranga não escaparam, começaram no final de década de 1950, quando inúmeras indústrias, especialmente dos setores de auto-peças e químicas, começaram a se instalar na região de Santo Amaro. Lembro aqui que há essa época teve início a instalação das indústrias automobilísticas aqui no Brasil, principalmente na chamada Região do ABC, sigla que se refere aos municípios de Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano. 

Santo Amaro fica exatamente ao lado de São Bernardo do Campo – a proximidade geográfica e os baixos preços dos terrenos no bairro atraiu um grande número de indústrias fornecedoras do segmento automobilístico. Nessa época, chaminés e esgotos de indústrias eram “sinais de progresso”. Os grandes córregos e ribeirões da região passaram a receber grandes volumes de efluentes, que acabavam sendo despejados na calha do rio Pinheiros. 

O grande número de indústrias na região acabou atraindo grandes contingentes de migrantes vindos de todas as regiões brasileiras – destaque para o Nordeste, que buscavam empregos e uma vida melhor. Assim como já estava acontecendo na Região do ABC, começaram a surgir grandes loteamentos populares em toda a região de Santo Amaro. Aqui é preciso destacar que muitas dessas ocupações se deram nas áreas dos mananciais das represas da região

A Represa Guarapiranga, que desde a década de 1930 havia sido elevada à condição de manancial de abastecimento da cidade de São Paulo, foi a que mais sofreu a princípio com essas ocupações. Como é de praxe nas cidades brasileiras, a formação desses bairros não foi acompanhada da implantação de redes coletoras e de ETEs – Estações de Tratamento de Esgotos. Lançados de forma improvisada nos corpos d’água da região, esses efluentes passaram a poluir as águas das represas, águas essas que eram e ainda são usadas no abastecimento dessas populações.

No caso da Billings há um agravante – o sistema de transposição de águas em operação transferia grandes volumes de esgotos das águas já bastante poluídas do rio Tietê para a represa. Esse bombeamento foi proibido em 1992, ficando restrito apenas a situações de emergência como enchentes e falta de água para as indústrias da região da Baixada Santista (as águas da Represa Billings são conduzidas Serra do Mar abaixo por grandes tubulações para a Usina Hidrelétrica Henry Borden em Cubatão e depois são despejadas em rios da região). 

Eu conheci muitos moradores antigos do bairro que nadaram, pescaram, lavaram roupa e se abasteceram com as águas limpas do rio Pinheiros. Na minha infância, desgraçadamente, o rio já era uma grande vala de esgotos a céu aberto. Felizmente, pude aproveitar, e muito, das ‘praias” e das águas da represa Guarapiranga

A melhoria da qualidade das águas do rio Pinheiros, que se diga de passagem ainda está muito longe do mínimo aceitável, já é um sinal de alento e de alegria para todos nós. Diversas redes de esgotos estão sendo construídas e ampliadas na região já há muito tempo, iniciativas que estão por trás da melhoria da qualidade das águas do rio. Também existem trabalhos para a retirada de sedimentos e resíduos que foram acumulados no canal do rio ao longo de muitas décadas.

Não me imagino nadando nas águas do rio Pinheiros num futuro a médio e longo prazo, mas, fico empolgado com a simples esperança de algum dia poder sentar nas suas margens e conseguir contemplar a cidade sem me enojar com o atual mal cheiro das águas. Se isso realmente acontecer, já será uma grande conquista para todos nós paulistanos.

FALANDO UM POUCO DA DENGUE E DE OUTRAS ARBOVIROSES EM TEMPOS DE PANDEMIA DA COVID-19

O mosquito Aedes Aegypti é um importante vetor de transmissão de doenças virais, especialmente os chamados arbovírus, há mais de 100 anos aqui no Brasil. De origem africana, esse mosquito chegou às Américas de carona em embarcações mercantis, principalmente nos famigerados navios negreiros, e se disseminou em áreas de clima tropical e subtropical do Norte da Argentina até o Sul dos Estados Unidos. 

Em tempos de pandemia da Covid-19, enfermidade que já matou mais de 400 mil brasileiros em pouco mais de um ano, notícias sobre o Aedes Aegypti e das doenças a ele associadas acabaram por ficar em um plano muito secundário e restrito. Aproveitando as informações comentadas na última postagem, vamos falar um pouco mais sobre essas doenças. 

De acordo com dados do Boletim Epidemiológico da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, foram notificados 979.764 casos prováveis de Dengue no Brasil em 2020. Esse número expressa uma taxa de incidência de 466,2 casos para cada 100 mil habitantes. Foram notificadas 541 mortes, sendo que 447 foram confirmadas por testes em laboratório e 93 por exames clinicos-epidemiológicos.   

Desse total, 503 mortes ou 92,9% ocorreram entre os meses de janeiro e junho, os mais chuvosos do ano. Outro dado relevante é que, do total dos casos prováveis de Dengue notificados, 887.767 ou 90% dos casos ocorreram nos Estados do Paraná, Mato Grosso do Sul, Distrito Federal, Mato Grosso, Espírito Santo e Goiás

A região com a maior incidência de casos de Dengue em 2020 foi o Centro-Oeste com a incrível marca de 1.200 casos para cada 100 mil habitantes. Na sequência vem a Região Sul, com uma taxa de incidência de 934,1 casos para cada 100 mil habitantes, a Região Sudeste com uma taxa de 376,4 casos, o Nordeste com 261,5 casos e o Norte com 120,7 casos. 

Outra importante arbovirose transmitida pelo mosquito Aedes Aegypti é a febre Chikungunya, com 80.914 casos prováveis em 2020. A taxa de incidência média foi de 38,5 casos para cada 100 mil habitantes. As Regiões brasileiras com as maiores taxas de incidência foram o Nordeste e o Sudeste, com taxas de incidência, respectivamente, de 102,2 casos e 13,1 casos para cada 100 mil habitantes. 

O período entre os meses de janeiro e junho concentrou 78,8% dos casos prováveis da doença, repetindo que esses são os meses mais chuvosos do ano e é a época de maior proliferação dos mosquitos Aedes Aegypti. Os Estados com a maior incidência de casos foram Espírito Santo, Bahia e Rio Grande do Norte. 

As mortes confirmadas por exames laboratoriais associadas a Chikungunya foram 26 e existem outros 21 casos em investigação. Os Estados com os maiores números de mortos foram Bahia, Paraíba, Maranhão, Ceará, Rio Grande do Norte, Espírito Santo, Rio de Janeiro e Mato Grosso. 

Também é relevante o número de casos prováveis de Zika foram 7.119 casos em 2020, uma taxa de incidência de 3,4 casos para cada 100 mil habitantes. A Região Nordeste é líder em casos de Zika, com uma taxa de incidência de 9,1 casos para cada 100 mil habitantes. Quase metade dos casos prováveis da doença notificados ocorreram no Estado da Bahia. Não houve nenhum caso registrado de morte por Zika no Brasil em 2020. 

Diferente do Corona, um vírus que a ciência descobriu há bem pouco tempo e sobre o qual há mais dúvidas do que certezas, os arbovírus que provocam a Dengue, a Zika e a Chikungunya já são bem mais conhecidos pelos médicos e cientistas, o que facilita muito o diagnóstico e o tratamento dos pacientes. Outro ponto importante é que um dos principais vetores – o Aedes Aegypti, tem seu ciclo de vida e os hábitos de reprodução muito bem conhecidos.  

O que falta, e muito, é a conscientização das populações para a eliminação de criadouros, o que inclui cuidados com a limpeza dos quintais e a boa destinação dos resíduos sólidos. Evitando o nascimento de “novas gerações” de mosquitos, os riscos de transmissão dos vírus são muito reduzidos. 

Uma outra medida muito simples e barata, que vem complementar as medidas já citadas, é a adoção do uso de telas “mosquiteiras” em portas e janelas. Um exemplo da eficiência dessas telas são os Estados Unidos, um país que enfrentou inúmeras epidemias de malária ao longo de sua história. O agente transmissor da malária é o Plasmodium, um parasita unicelular protozoário, que infecta os eritrócitos, causando a malária. Um mosquito que pica uma pessoa com esse parasita é contaminado e pode transmitir a doença para outras pessoas. 

A malária chegou aos Estados Unidos junto com os primeiros colonos, muitos dos quais estavam infectados com os agentes Plasmodium vivax e Plasmodium malariae, comuns na Inglaterra. Posteriormente, com a importação dos primeiros escravos vindos do continente africano a partir de 1620, foi introduzido no país o agente Plasmodium falciparum. A doença acabou se tornando endêmica em parte dos Estados da Costa Leste, do Centro e do Sul do País. 

O controle e a reversão das epidemias de malária nos Estados Unidos só foram possíveis com a massificação da infraestrutura de saneamento básico a partir das últimas décadas do século XIX, da aplicação de inseticidas para o controle das populações de mosquitos, da drenagem de áreas pantanosas e, principalmente, da obrigatoriedade da instalação de telas nas janelas e portas das residências.  

O governo americano também investiu pesadamente em campanhas educativas, mostrando à população quais eram os hábitos e os horários de maior incidência dos ataques dos mosquitos. Por volta do ano de 1950, a malária foi considerada erradicada dos Estados Unidos, restrita a alguns poucos casos anuais em regiões isoladas e densamente florestadas. 

Mosquitos existem em nosso mundo há mais de 170 milhões de anos e, por maiores que sejam os nossos esforços em controlá-los, eles sempre continuarão fazendo parte das nossas “paisagens”. Além do “africano” Aedes Aegypti, existem diversos mosquitos silvestres tupiniquins que transmitem os arbovírus.  

Com o crescimento das cidades brasileiras e da urbanização cada vez maior da população a partir da segunda metade do século XX, criou-se uma perigosa aproximação entre pessoas e áreas de matas e de remanescentes florestais ao redor dessas cidades. E são justamente nessas matas onde esses mosquitos vivem – essa aproximação cada vez maior entre pessoas e mosquitos aumentou as possibilidades de transmissão dos arbovírus. 

O Ministério da Saúde suspeita que o número de casos prováveis dessas doenças em 2020 está subnotificado ou que existem atrasos nas notificações devido aos esforços no combate a pandemia da Covid-19. Apesar dos casos suspeitos de doenças associadas aos arbovírus estarem muito aquém dos mais de 15 milhões de casos de Covid-19, todos precisamos nos cuidar e evitar a alta incidência dessas doenças. 

Além dos riscos de morte, essas doenças podem deixar graves sequelas. Citando dois exemplos: a Zika, como muitos devem se lembrar, causou o nascimento de muitas crianças com microcefalia há alguns anos atrás, principalmente em Estados da Região Nordeste. Já a febre Chikungunya, conforme estudos recentes, pode causar o nascimento de crianças com deficiência visual. 

Se pudermos evitar mais esses riscos de saúde em nossas vidas, é melhor tomarmos cuidado redobrado com o Aedes Aegypti e com outros mosquitos silvestres. 

O MOSQUITO AEDES AEGYPTI MANDA LEMBRANÇAS

Neste último ano, as notícias e as estatísticas sobre o número de contaminados e de mortos pela pandemia da Covid-19 vêm ocupando a maior parte dos espaços nos meios de comunicação. Desde as grandes “pestes” que assolaram a região Euroasiática na Idade Média ou dos tempos da Gripe Espanhola do início do século XX, nenhuma outra epidemia vem sendo tão devastadora como essa que estamos vivendo com o Corona vírus. 

A importante e dramática exposição da Covid-19, entretanto, tem eclipsado a divulgação de informações sobre doenças “tradicionais” provocadas por um velho conhecido – o mosquito Aedes Aegypti, além de outros mosquitos silvestres. Falo aqui da Dengue, da febre Chikungunya, febre amarela, Síndrome de Guillain-Barré, ZikaMayaro

Muitas dessas doenças vêm apresentando um crescimento preocupante nos casos sem maiores destaques nos meios de comunicação. Um exemplo é o que acontece na Região da Baixada Santista, no litoral de São Paulo. Somente nos primeiros quatro meses de 2021, foram registrados mais de 5.700 casos de Dengue com duas mortes confirmadas. Também foram confirmados mais de 1.900 casos de febre Chikungunya com uma morte confirmada. As cidades de São Vicente, Cubatão e Santos são as mais afetadas por essas doenças

Na cidade de Campinas, município sede da segunda maior Região Metropolitana do Estado de São Paulo, foi detectado um aumento de 104% em apenas três semanas. Foram 529 casos confirmados na primeira semana de abril contra 259 casos confirmados até meados do mês de março. Em cidades de todo o Brasil se repete os casos de doenças associadas aos mosquitos Aedes Aegypti

De acordo com informações do Boletim Epidemiológico de março de 2021 da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, foram notificados 103.595 casos prováveis de Dengue no Brasil neste ano. Esses números representam uma redução de 74,3% em relação aos números registrados em 2020. De acordo com avaliação do Ministério da Saúde, essa redução no número de casos pode ser resultado de uma subnotificação ou atrasos na notificação devido à prioridade dada ao combate da pandemia da Covid-19

O mosquito Aedes Aegypti é originário do continente africano, onde aprendeu a viver próximo dos assentamentos humanos desde milhares de anos atrás. Foi durante o período das grandes navegações europeias que esse mosquito “pegou carona” nas embarcações mercantis, especialmente nos chamados navios negreiros, e chegou ao continente americano, se fixando nas áreas tropicais e subtropicais, do Norte da Argentina até o estado da Flórida, nos Estados Unidos da América. 

O ciclo de vida dos mosquitos apresenta quatro fases distintas – ovo, larva, pupa e inseto adulto, destacando que os três primeiros estágios dependem da presença de água parada, o que nunca faltou nos assentamentos humanos e foi peça chave na predileção do inseto pela nossa companhia. A adaptação do mosquito Aedes aegypti ao convívio com os seres humanos foi tão grande que, de acordo com estudos especializados recentes, o inseto passou também a se reproduzir em águas paradas com altos índices de poluição como nos esgotos, o que explica os grandes níveis de infestações nas cidades brasileiras. 

Água parada e esgotos são encontrados em abundância nas cidades brasileiras: 

– Problemas nas redes de abastecimento de água em muitas cidades obrigam as populações a armazenar água nos mais diferentes tipos de recipientes: panelas, latas, latões, tambores e barris, entre outros. Sem maiores cuidados, esses recipientes podem se transformar em verdadeiros criadouros de mosquitos; 

Esgotos correndo a céu aberto e/ou eliminados de forma improvisada são facilmente encontrados nas nossas cidades, facilitando a formação de represamentos e poças, que atrairá as fêmeas dos mosquitos que buscam locais apropriados para a colocação dos ovos; 

– Os sistemas de drenagem de águas pluviais, sem manutenção e limpeza periódicas, são potenciais criadouros de mosquitos pois podem permitir a formação de represamentos e empoçamentos de água; 

– Os resíduos sólidos descartados incorretamente podem acumular a água da chuva e possibilitar a formação de importantes criadouros do mosquito. A lista inclui pneus, latas, embalagens plásticas e entulhos da construção civil; até cascas de ovos e tampinhas de refrigerante têm potencial para reter pequenas quantidades de água das chuvas e abrigar criadouros de mosquitos. 

Além da Dengue, os mosquitos Aedes Aegypti também são transmissores da febre amarela, que é causada por um arbovírus que também é transmitido por outras espécies de mosquitos silvestres. A febre amarela já foi responsável por grandes epidemias nas cidades brasileiras como no Rio de Janeiro do início do século XX. Após diversos esforços na área do saneamento básico, os casos foram bastante reduzidos, mas a doença frequentemente continua sendo diagnosticada nas cidades brasileiras. 

A febre Chikungunya tem sintomas muito parecidos com a Dengue, sendo transmitida pela picada de mosquitos contaminados com o vírus CHIKV. De acordo com o Ministério da Saúde, foram notificados 7.778 casos prováveis de Chikungunya no Brasil em 2021, uma taxa de incidência de 3,7 casos / 100 mil habitantes

O primeiro surto do vírus da Zika no Brasil foi identificado em 2015. Em 2021, foram notificados 448 casos suspeitos, uma taxa de incidência de 0,21 casos / 100 mil habitantes. No final de 2015 o vírus foi isolado em um bebê recém-nascido com microcefalia – estudos posteriores comprovaram a associação do vírus com o nascimento de crianças com a doença, o que chamou a atenção de todo o mundo para a gravidade da situação. Estudos científicos em andamento estão associando o vírus da Zika com o nascimento de bebês cegos.   

A síndrome de Guillain-Barré é uma doença auto imune que provoca uma fraqueza muscular de aparecimento súbito, causada pelo ataque do sistema imunológico ao sistema nervoso periférico. O vírus da Zika é um dos transmissores da doença. 

De alguns anos para cá, os noticiários passaram a falar do vírus Mayaro, que provoca uma doença caracterizada por uma febre hemorrágica similar à Chikungunya. Esse “novo” vírus também é transmitido pelo mosquito Aedes aegypti e é uma das mais novas preocupações das autoridades médicas e sanitárias do Brasil. 

A pandemia da Covid-19 é extremamente grave e requer o máximo cuidado de todos nós com as medidas de prevenção: distanciamento social, uso de máscara e assepsia das mãos, entre muitas outras. Entretanto, é fundamental que não nos esqueçamos das epidemias “já tradicionais” aqui do nosso país e que requerem seus cuidados específicos. 

Uma das medidas de prevenção das mais eficientes é combater os focos de proliferação dos mosquitos: as poças de água de água parada nos quintais e terrenos baldios, além das caixas d’água e outros reservatórios destampados

Já que muitos de nós estamos sendo obrigados a passar muito tempo confinados em nossas casas por causa da pandemia da Covid-19, talvez não seja uma má ideia gastar algum tempo fazendo uma boa limpeza em nossos quintais. 

AFINAL DE CONTAS: POR QUE AS FLORESTAS SÃO TÃO IMPORTANTES?

Na atual sequência de postagens temos falado bastante sobre os problemas ambientais decorrentes do aquecimento global, mais especificamente sobre os riscos de desaparecimento das geleiras de altitude em montanhas de todo o mundo. Essas geleiras formam nascentes de importantes rios. A nascente mais distante do rio Amazonas, citando apenas um exemplo, está localizada em uma geleira na Cordilheira dos Andes. 

Depois de séculos de grandes emissões de gases de efeito estufa como o dióxido de carbono (CO2) e o metano (CH4), as temperaturas de nosso planeta começaram a aumentar gradualmente e estão ameaçando a vida em muitos ecossistemas. Um outro problema ambiental grave de nossos dias é a devastação de grandes áreas florestais para aproveitamento das madeiras e aumento de áreas para agricultura e pecuária. 

Sobre essa questão, apresentamos na última postagem informações de um relatório da Forests & Finance, uma coalizão global de organizações não governamentais, onde foram analisados os financiamentos concedidos pelo sistema bancário da China a operações de desmatamento em todo o mundo. 

Falando de forma muito simplificada, as florestas têm um papel importantíssimo na regulação dos padrões climáticos mundiais. Florestas em crescimento absorvem grandes volumes de carbono e liberam o valioso oxigênio, um gás fundamental para a vida no planeta. As florestas também são essenciais para o ciclo da água, absorvendo parte da água das chuvas e ajudando na infiltração de outra parte nos solos, água essa que vai recarregar lençóis e aquíferos, fontes que alimentam a maior parte dos rios de nosso planeta. 

Os processos de evapotranspiração das árvores, por outro lado, lançam grandes volumes de vapor de água na atmosfera e auxiliam na formação de nuvens, que por sua vez serão arrastadas pelos ventos e cairão na forma de chuva sobre outras regiões. Um exemplo desse processo são os chamados “rios voadores” da Amazônia – grandes massas de nuvens que se formam sobre a floresta e que são arrastados para o Sul, provocando chuvas nas regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil. 

As florestas também abrigam parte importante da biodiversidade do planeta, onde se incluem as mais diferentes espécies de plantas, animais, bactérias e vírus, que ali vivem em perfeito equilíbrio há milhões de anos. Ações humanas estão degradando rapidamente esses ambientes, o que acaba se voltando contra a própria humanidade.  

Cito o exemplo do Corona, o vírus responsável pela grande pandemia que o mundo inteiro está enfrentando. Esse vírus, muito provavelmente, foi retirado de seu ambiente natural em uma floresta do Sudeste Asiático (há suspeitas que isso se deu a partir do consumo da carne de um animal silvestre) e acabou infectando pessoas, primeiro na China, depois em todo o mundo. 

Apesar de fundamentais, a situação das florestas é crítica. Vejam: 

Nosso planeta, como todos devem saber, tem cerca de 2/3 de sua superfície coberta pelas águas dos oceanos. As áreas continentais e insulares, que respondem pelo 1/3 restante, somam um total de pouco mais de 149,7 milhões de km². De acordo com informações da ONU – Organização das Nações Unidas, aproximadamente 30% das terras de nosso planeta já foram cobertas por florestas. 

Cerca de metade das chamadas florestas primárias – formadas por vegetação com mais de 8 mil anos de idade e que ainda não foram modificadas por ações humanas, já foram destruídas. No total, restam apenas 36% das florestas primárias do mundo, o que nos dá uma ideia do quão mal as coisas andam

Um grande exemplo das tragédias que envolvem as florestas – 99,7% das florestas primárias da Europa Ocidental já foram destruídas. Os fragmentos florestais que muitos países da região costumam apresentar com orgulho são fruto de programas de reflorestamento. Na França, do “combativo” defensor do meio ambiente Emmanuel Macron, a cobertura florestal remanescente (considerando bosques, florestas nacionais, praças e pequenos fragmentos florestais) é de apenas 30%. 

A situação das florestas francesas só não é pior devido as ações de um grande personagem histórico: Napoleão Bonaparte. Grande imperador da França entre 1801 e 1814 (além de 100 dias em 1815), Napoleão tinha planos para conquistar grande parte da Europa, uma tarefa que exigia um grande exército e uma poderosa marinha. E foi justamente para garantir o suprimento de madeiras para a construção naval que Napoleão ordenou o plantio de milhares de mudas de árvores na região dos Pirineus, na divisa da França com a Espanha. Os planos de conquista de Napoleão foram frustrados, mas as florestas sobreviveram. 

Já na Rússia, o grande país euroasiático, a situação das florestas ainda é bem confortável – cerca de 49% do país ou algo como 8,5 milhões de km² ainda são cobertos por florestas. Falo aqui da taiga ou floresta boreal. Todo esse território, que corresponde a área total do Brasil, representa 22% de toda a cobertura florestal do planeta. 

Esses números grandiosos escondem problemas igualmente grandes: de acordo com dados do Global Forest Watch, a Rússia desmatou cerca de 37 milhões de hectares de florestas entre 2001 e 2013. Somente na Floresta de Dvinsky, uma importante região florestal no Noroeste do país, foram derrubados quase 100 mil hectares entre 2002 e 2013. De lá para cá, as coisas só pioraram

Além dos desmatamentos, as florestas da Rússia vêm sofrendo cada vez mais com os incêndios florestais. De acordo com dados do Copernicus – Serviço Europeu de Observação das Mudanças Climáticas, os incêndios florestais, principalmente na região da Sibéria, consumiram cerca de 15 milhões de hectares da floresta boreal em 2019. Segundo o Greenpeace da Rússia, esses incêndios destruíram 13,5 milhões de hectares em 2020. O aumento das temperaturas na Rússia por causa do aquecimento global estão por trás desses incêndios. 

A lista dos países com grandes áreas cobertas por florestas apresenta logo após a Rússia o Brasil, os Estados Unidos, Canadá, Indonésia, China e República Democrática do Congo. Os problemas enfrentados pelas florestas nesses países não são muito menores. Um estudo publicado pela revista PNAS – Proceedings of the National Academy of Science, comparou os desmatamentos nesses países entre os anos 2000 e 2005. 

O Brasil, famoso mundialmente pela “destruição” da Floresta Amazônica, perdeu nesse período cerca de 165 mil km² de florestas. Na segunda posição, pasmem, vem o Canadá com 160 mil km² de florestas derrubadas ou 5,2% de sua cobertura nativa original. Na terceira colocação vêm os Estados Unidos, com uma devastação de 120 mil km² ou 6% de suas florestas remanescentes

Para que todos tenham ideia da situação crítica das florestas do nosso planeta, aqui vão mais alguns números: 90% das florestas do México já foram derrubadas. No paupérrimo Haiti, país mais pobre das Américas, esse índice já atingiu a marca dos 98%. Em Madagascar, algo entre 85 e 90% das florestas já foram destruídas. Outro campeão no quesito desmatamentos são as Filipinas – conforme a fonte consultada, entre 75 e 90% da cobertura vegetal do arquipélago já desapareceu. 

Estabelecer datas em que países atingirão a neutralidade das emissões de gases de efeito estufa e assinar acordos ambientais são ótimas iniciativas e merecem todo o nosso apoio. As questões ambientais, entretanto, vão muito além desses tópicos e necessitam do apoio irrestrito de todos os países. 

Ficar falando apenas da “destruição” da Floresta Amazônica, que aliás tem cerca de 85% de sua área preservada, como a “tábua de salvação” para o clima do mundo não vai nos levar muito longe. 

BANCOS CHINESES SÃO ACUSADOS DE FINANCIAR OPERAÇÕES DE DESMATAMENTO EM TODO O MUNDO

Reportagens em jornais, revistas e sites de notícias de todo o mundo publicadas nesse dia 4 maio, repercutiram as conclusões de um relatório da Forests & Finance, uma coalizão global de organizações não governamentais, onde se analisaram os financiamentos concedidos pelo sistema bancário da China a operações de desmatamento em todo o mundo. 

Os dados mostraram que entre janeiro de 2016 e abril de 2020, bancos da China concederam empréstimos e serviços de subscrição no valor de US$ 15 bilhões para empresas que comercializaram commodities ligadas ao desmatamento ilegal em países do Sudeste Asiático, África e também no Brasil

A divulgação dessas informações ocorre poucos dias depois do Secretário-Geral do PCC – Partido Comunista Chinês, Xi Jinping, afirmar na Cúpula do Clima que seu país irá neutralizar as emissões de carbono até o ano de 2026. O pronunciamento do líder chinês já havia deixado dúvidas entre os demais líderes mundiais, que questionaram a capacidade da China em cumprir tais promessas. 

O sistema bancário da China ultrapassou o da Comunidade Europeia em 2014 e, desde então, é o maior do mundo em ativos. Desde então, bancos chineses passaram a se destacar na concessão de créditos e empréstimos para economias em desenvolvimento em todo o mundo. As informações da Forest & Finance colocam em xeque a forma como tais transações financeiras são realizadas. 

Em uma postagem publicada em 15 de maio de 2020, tratamos exatamente dos desmatamentos em países do Sudeste Asiático e das importações de madeira pela China, país que está entre os maiores consumidores desse recurso no mundo. Indonésia e Malásia estão entre os maiores exportadores de madeira para a China. As áreas desmatadas nesses países são usadas principalmente para a ampliação de plantações da palmeira do dendê

As atividades de exploração intensa dos recursos florestais no Sudeste Asiático são antigas e começaram na época das grandes navegações, quando os primeiros exploradores europeus chegaram na região em busca das “especiarias do Oriente”. Além dos valiosos temperos, pimentas, pedras preciosas e corantes orientais, esses exploradores/mercadores também tinham grande interesse nas ótimas madeiras da região como o sândalo e o aloé, usadas tradicionalmente na construção de móveis e objetos de luxo. Depois passaram a ganhar importância as madeiras para a construção civil e naval.  

Países como Portugal, Espanha, Holanda, França e Inglaterra rapidamente foram conquistando seus espaços na região e estabeleceram suas colônias, entrepostos comerciais e protetorados. Falando de maneira bem resumida, surgiram as colônias portuguesas em Gôa, Damão e Diu na Índia, Macau na China e Timor no Extremo Leste do arquipélago indonésio; as Filipinas da Espanha, o vice-reino da Índia da Inglaterra, a Malásia da Holanda e a Indochina da França. Todas essas nações europeias usaram e abusaram dos recursos naturais da região por muito tempo.   

Citando um único exemplo: a criação dos grandes seringais produtores de látex nas colônias inglesas da região, que foram os responsáveis diretos pelo fim da demanda do látex da Amazônia a partir do final do século XIX. Milhares de quilômetros de florestas nativas do Sudeste Asiático foram derrubadas para a introdução das seringueiras “inglesas” (lembrando aqui que os ingleses roubaram as sementes da seringueira na Amazônia).  

Em décadas mais recentes, foi a expansão das plantações da palma da Guiné a grande vilã do desmatamento regional, principalmente na Indonésia e na Malásia. O óleo da palma, mais conhecido aqui no Brasil como azeite de dendê, foi elevado à falsa condição de “combustível renovável”. O óleo de palma passou a ser exportado em grande escala para ser usado como aditivo no óleo diesel em muitos países, principalmente na Europa. 

Nos últimos anos, a faixa de “grande vilã” dos desmatamentos no Sudeste Asiático passou para as mãos da China. Na condição de uma das economias que mais cresce no mundo, a China se transformou numa voraz consumidora de minerais, combustíveis, madeiras e outras matérias primas essenciais para o seu desenvolvimento. Pela proximidade geográfica, os países da região foram transformados em grandes fornecedores de muitos desses produtos.  

As importações de madeira pelos chineses tiveram um grande aumento a partir de 1998, quando a região central do país sofreu com as fortíssimas inundações do rio Yangtzé. A fim de prevenir futuras tragédias, o Governo Central da China passou a impor fortes restrições à exploração de madeira nas florestas dessa região. Até 1998, as importações de madeira pela China eram da ordem de 4 milhões de toneladas métricas – em 1999, logo após o início das restrições, essas importações saltaram para 10 milhões de toneladas métricas e não pararam de crescer desde então.  

Grupos empresariais chineses e dos países do Sudeste Asiático, financiados com generosos recursos financeiros concedidos pelo sistema bancário da China, conseguiram obter grandes concessões para exploração de áreas florestais na Malásia, Indonésia e em Papua Nova Guiné, países que possuem legislações ambientais muito fracas e altamente permissíveis, onde praticamente “tudo pode”.  

Os longos tentáculos chineses também se estendem para a Tailândia, Camboja, Laos e Vietnã. Em anos recentes, grupos empresariais vietnamitas passaram a avançar na direção dos paupérrimos Laos e Camboja, buscando terras para a implantação de seringais e plantações de palma da Guiné. Grandes áreas florestais nesses países também passaram a sofrer com os desmatamentos.  

No arquipélago das Filipinas, a situação é um pouco diferenciada – por causa de antigos laços comerciais e pela proximidade geográfica, o país foi transformado no grande fornecedor de madeiras para o Japão, nação que durante várias décadas foi a grande potência econômica da Ásia. Conforme comentamos em postagem anterior, as Filipinas ocupam a nada honrosa posição de país com um dos maiores percentuais de destruição de florestas nativas do mundo.  

A África é outra região onde os capitais chineses financiam grandes operações florestais. Conforme já tratamos em postagens anteriores, a África é vista como o “futuro celeiro” da China. Já há muitos anos, os chineses vêm trabalhando com muitos governos africanos para viabilizar a construção de obras de infraestrutura como hidrelétricas, rodovias, ferrovias e portos. Generosos financiamentos com aval do Governo chinês foram aportados nessas obras. 

De acordo com o teor do relatório, os mesmos mecanismos de poucas perguntas ao se conceder os financiamentos também se estenderam a empresas brasileiras do setor madeireiro que, bem por acaso, exportam seus produtos para a China.

Essa destruição massiva de recursos florestais e hídricos se junta aos enormes problemas sociais das populações desses países, transformando essas regiões nas mais insustentáveis do mundo. O moderno conceito de Sustentabilidade é formado pelo equilíbrio das áreas Social, Econômica e Ambiental. Infelizmente, o que mais se vê é uma busca frenética e selvagem apenas pelos ganhos econômicos de curto prazo

Em tempos em que muita gente está preocupada com os desmatamentos em todo o mundo e de suas consequências para as mudanças climáticas globais, derretimento de geleiras e redução de caudais em rios importantes, a divulgação das operações de financiamento dos bancos chineses a empresas madeireiras ‘suspeitas” é preocupante. 

Precisamos acabar de uma vez por todas com a hipocrisia e passar a trabalhar com seriedade pela saúde ambiental do planeta! 

O ICÔNICO MONTE FUJI E SUAS NEVES

O Monte Fuji, ou Fujiyama para os japoneses, é um vulcão ativo e a montanha mais altada ilha de Honshu, a maior do arquipélago do Japão. A montanha fica localizada a Oeste da cidade de Tóquio, na divisa entre as províncias de Shizuoka e de Yamanashi. Em dias com céu limpo, os moradores de Tóquio conseguem ver o monte numa linha próxima ao Oceano Pacífico. 

O formato cônico do Monte Fuji coberto de neve se transformou em um dos símbolos mais conhecidos do Japão. A imagem aparece em pinturas, gravuras, tecidos, tapeçarias e porcelanas antigas. Em tempos modernos, o Monte Fuji passou a ser reproduzido através de fotografias, filmes e material impresso. 

Durante os meses de inverno, em especial no mês de dezembro, a montanha costuma ficar coberta com uma capa de neve. Nessa temporada, a montanha é uma das grandes atrações turísticas da região. Nesse último ano, entretanto, o volume de neve que caiu sobre as encostas do Monte Fuji foi muito pequeno e a montanha ficou “pelada” por vários meses, um problema que se insere em um quadro mais amplo de mudanças climáticas mundiais. 

No final de setembro de 2020 caíram as primeiras neves da temporada sobre as encostas da montanha. Essa fina camada de neve derreteu em poucos dias, deixando a montanha praticamente sem cobertura até o final de dezembro, quando caiu uma nova camada de neve. Apesar das baixas temperaturas do mês de janeiro, a maior parte das neves desapareceram em poucos dias devido aos ventos com temperaturas acima de 0° C. 

De acordo com análises de imagens feitas pelo satélite Landsat-8 do Programa Earth Observatory da NASA – Administração de Aeronáutica e Espaço dos Estados Unidos, na sigla em inglês, a cobertura de neve no Monte Fuji foi a menor em 20 anos.  

Um detalhe interessante do ano de 2020 foi a formação de La Niña nas águas do Oceano Pacífico, um fenômeno climático que costuma deixar o Japão com as águas costeiras mais frias e com temperaturas mais baixas nas ilhas. Fortes nevascas caíram na costa Oeste do país, mas a região do monte Fuji, que fica na costa Leste, não foi atingida. 

Medições feitas através de estações meteorológicas terrestres instaladas ao redor do Monte Fuji mostraram um quadro ainda mais preocupante – a precipitação de neve até o dia 24 de dezembro atingiu apenas 10% dos volumes medidos em anos normais. Também foi verificado que as temperaturas na região foram bem mais altas que a média dos anos anteriores. 

Projeções climáticas de longo prazo indicam que as condições ambientais da montanha estão mudando. A temperatura média no cume do Monte Fuji nos meses de verão aumentou cerca de 2° C. Esse aumento de temperatura pode estar por trás do avanço da linha da floresta pela encosta da montanha – nos últimos 40 anos, a floresta “subiu” cerca de 30 metros. 

Uma outra indicação de mudanças climáticas no Japão está ligada ao tradicional espetáculo da floração das cerejeiras, um dos eventos naturais mais aguardados do país. Na cidade de Kyoto, a antiga capital do Japão, as primeiras árvores floresceram no dia 26 de março neste ano. De acordo com as anotações oficiais da cidade, que são cuidadosamente compiladas desde o ano 812, essa foi a floração mais precoce de todos os tempos. Até então, a florada mais precoce havia sido registrada em 27 de março de 1403 e a mais tardia em 5 de março de 1323. 

De acordo com declarações de cientistas japoneses, a floração das cerejeiras depende das temperaturas dos meses de fevereiro e março – quanto mais alta a temperatura, mais cedo as flores surgem. Análises feitas nas datas de floração das cerejeiras de Kyoto indicam que a flores estão surgindo cada vez mais cedo nos últimos 50 anos, um período que coincide com o aumento das temperaturas do planeta. 

Nesse mesmo período, o país passou a ser assolado por fortes ondas de calor na época do verão. Em 2018, citando um exemplo, a temperatura atingiu a marca de 41,1° C, uma das maiores já registradas no país. Registros da época indicam que mais de mil pessoas, principalmente idosos, morreram em decorrência dessa onda de calor. 

Nesse mesmo ano, a ilha Esanbe Hanakita Kojima, que ficava localizada no Nordeste do arquipélago japonês e ocupava menos de 2 km², foi dada como ”desaparecida”. Esse trágico evento, que passou totalmente despercebido das autoridades do país, só foi notado pelo escritor Hiroshi Shimizu, que estava escrevendo um livro sobre as ilhas da região e tentou visitar a ilha em 2018.  

De acordo com a Marinha do Japão, a última vez que a ilha foi visitada por uma de suas embarcações foi em 1978. Desde então, nenhuma outra visita oficial a ilha foi feita e, portanto, ninguém sabe afirmar ao certo quando e como foi que a ilha desapareceu. A hipótese mais provável é um aumento do nível do Oceano Pacífico na região, que foi encobrindo o pequeno pedaço de terra gradativamente, algo que lembra muito o que ocorreu com a ilha New Moore na costa da Índia há mesma época. 

Esse procedimento da Marinha japonesa pode parecer estranho, mas a verdade é que o arquipélago do Japão é formado por 6.852 ilhas. São quatro grandes ilhas – Honshu, Hokkaido, Kyushu e Shikoku, que formam 97% do território do país. Todas as demais ilhas são muito pequenas e a maioria é desabitada. Logo, não é de se estranhar que uma pequena ilha desapareceu e ninguém percebeu. 

Apesar de ocupar um território com pouco mais de 377 mil km², o Japão é um dos maiores emissores mundiais de gases de efeito estufa, especialmente o dióxido de carbono. O país é fortemente dependente da queima do carvão mineral para geração de eletricidade em usinas termelétricas. O país vinha reduzindo a sua dependência de combustíveis fósseis nessa área até o desastre na usina nuclear de Fukushima em 2011. 

A central nuclear foi atingida por um tsunami que foi gerado por um forte maremoto. Com o impacto das ondas, três dos seis reatores nucleares foram atingidos e derreteram. Esse foi o maior acidente nuclear desde a explosão de um reator na usina nuclear de Chernobil na Ucrânia em 1.986. Após o desligamento de Fukushima, diversas usinas termelétricas a carvão tiveram de ser reativadas para compensar a produção de energia elétrica. 

O Japão vem realizando grandes esforços ambientais nas últimas décadas e já anunciou que pretende alcançar a neutralidade nas emissões de carbono até 2050, ou seja, zerar todas as emissões de gases de efeito estufa. Para isso acontecer, estão sendo planejados pesados investimentos em diversas áreas, principalmente em fontes de energia renováveis. 

Torçamos para que todas essas medidas, que estão sendo implementadas no Japão e em outros países do mundo, consigam atingir a tão esperada neutralidade nas emissões de carbono e que consigamos, ao menos, estabilizar as grandes mudanças climáticas globais.

O DERRETIMENTO DE GELEIRAS NOS ALPES

Nas últimas postagens falamos do derretimento de geleiras em montanhas de lugares distantes do globo terrestre como a Cordilheira dos Andes, na América do Sul, as Montanhas Ruwenzori da África e na região das Himalaias, as grandes montanhas que ocupam um vasto território da Ásia. 

Na Ásia Central, essas regiões problemáticas costumam ter nomes terminados com o sufixo de origem persas “istão”, palavra que significa” lugar”. Aí se incluem o Afeganistão, Paquistão, Tadjiquistão, Quirguistão, Rajastão, Uzbequistão, entre outros. Muitas pessoas maldosas, quando querem se referir a lugares distantes e perdidos em nosso mundo, costumam usar o nome “fim-do-mundistão”. 

Entretanto, não são só as geleiras dessas regiões distantes que estão desaparecendo. O fenômeno está ocorrendo em todo o mundo, inclusive na civilizada Europa. Na rica e exclusiva Suíça, por exemplo, podemos ver isso claramente nas geleiras que formam as nascentes do rio Reno, um dos mais importantes da Europa. 

Desde a antiguidade, a navegação pelas águas do rio Reno vem sendo fundamental para a formação e manutenção de grandes impérios e nações da Europa. Com quase 1,3 mil quilômetros de extensão, desde as suas nascentes nos Alpes Suíços até sua foz no Mar do Norte nas proximidades de Rotterdam, o rio Reno é uma rota vital para a economia da Suíça, Áustria, Alemanha, Liechtenstein, França e Holanda.  

Porto de Rotterdam, localizado próximo do encontro das águas do Reno com o Mar do Norte na Holanda, exemplifica a importância dessa grande via de transporte fluvial: é um dos maiores portos do mundo, com cerca de 40 km de extensão linear entre cais e depósitos, movimentando cerca de 400 milhões de toneladas de carga a cada ano e empregando aproximadamente 300 mil trabalhadores. A cidade de Rotterdam, que tem 500 mil habitantes, também é sede de um importante complexo industrial, além de abrigar o maior polo petroquímico da Europa. 

Os Alpes são a maior cadeia de montanhas da Europa Ocidental. Além da Suíça, país que tem sua imagem associada diretamente aos Alpes, essas montanhas também abrangem terras da França, Principado de Mônaco, Itália, Alemanha, Áustria, Liechtenstein, Eslovênia e Hungria. Essa posição geográfica transforma as montanhas alpinas em uma verdadeira “caixa d’água” do continente. 

Além das geleiras que formam as nascentes do rio Reno, os Alpes abrigam outras geleiras formadoras de outros importantes afluentes de rios do continente como o Ródano, o Danúbio e o Pó. Em toda a extensão dos Alpes, geleiras estão perdendo grandes massas de gelo, o que está trazendo enormes preocupações para centenas de milhões de pessoas. 

Ao longo da última década, os efeitos do aquecimento global fizeram com que as geleiras no topo das montanhas dos alpes Suíços perdessem aproximadamente 1/5 de sua massa de gelo. Somente no ano de 2018, os glaciares alpinos do país perderam 2,5% do seu volume, resultado da combinação de uma baixa precipitação de neve e de altas temperaturas.  

Um exemplo do drama das geleiras suíças pode ser observado no cume da Montanha Weissfluhjoch, que se encontra a 2.400 metros de altitude. Nesse local está instalado o Instituto Suíço para o Estudo da Neve e Avalanches. Ao longo do mesmo ano de 2018, não houve nenhuma nevasca com precipitação superior a 1 cm. De acordo com os registros da instituição, essa foi a primeira vez que não ocorreram fortes nevascas na montanha desde o início dos registros há mais de 80 anos.  

Para quem está acostumado com um clima tropical como o do Brasil, esse tipo de informação talvez não signifique nada muito diferente de dias menos frios no inverno suíço. As geleiras das montanhas alpinas, entretanto, são importantes fontes de água para as planícies baixas do resto do país e muitas regiões da Europa. O derretimento gradual dos glaciares nas montanhas alimenta toda uma rede de pequenos córregos e riachos, que por sua vez são afluentes de grandes rios.   

As águas que formam as duas principais nascentes do Reno, os rios Hinterrhein e Vordebrhein, vem do derretimento de geleiras nos Alpes suíços. Nos últimos 25 anos, essas geleiras já perderam mais de 1/4 de suas massas em consequência do aquecimento global. Caso o ritmo do derretimento dessas geleiras se mantenha, em menos de um século não restará um único cubo de gelo nas montanhas e o rio Reno perderá uma parte considerável dos seus caudais. 

Em 2018, pela primeira vez na história, o tráfego de embarcações de carga na hidrovia do rio Reno precisou ser paralisado por causa da queda brusca do nível de suas águas devido à forte seca regional. Nas proximidades da cidade alemã de Frankfurt, um ponto crítico do rio, o nível do Reno baixou para apenas 1,5 metro de profundidade. É esse cenário assustador, que poderá se tornar cada vez mais frequente com a sistemática redução das geleiras alpinas formadoras do rio, que assusta empresários, políticos e cidadãos de toda a bacia hidrográfica do rio Reno.  

De acordo com o levantamento de alguns climatologistas, a Suíça perdeu mais de 500 geleiras desde 1850. Somente 50 dessas geleiras, as maiores, tinham um nome. Uma dessas geleiras, chamada de Pizol, perdeu entre 80% e 90% de sua massa de gelo desde 2006 e se transformou num símbolo da situação dos glaciares no país. A exemplo do que fizeram os islandeses após o derretimento da geleira Okjökull, os suíços também organizaram um funeral para a geleira Pizol, da qual resta apenas uma área menor do que 4 campos de futebol.  

Uma atividade econômica que está ameaçada de fortes impactos na Suíça por causa da perda de massa nas geleiras alpinas é a de geração elétrica. Cerca de 60% da energia consumida na Suíça vem de centrais hidrelétricas alimentadas por rios com nascentes nas geleiras alpinas. De acordo com estudos feitos pela Universidade Técnica EPFL, de Lausanne, a redução dos caudais dos rios do país provocará uma forte redução na geração hidrelétrica – em 2035, a participação dessa energia cairá para 46% do total.  

A velocidade do derretimento dessas geleiras também representa uma séria ameaça para uma série de pequenas cidades, vilas e fazendas localizadas às margens de pequenos rios. Nos meses de verão, quando o ritmo do derretimento é bem mais intenso, a forte enxurrada e as pedras arrastadas destroem casas, pontes e outras construções, deixando centenas de pessoas desabrigadas. Alguns especialistas vêm defendendo abertamente a construção de grandes barragens para controlar o fluxo dessas águas, ao mesmo tempo que a água armazenada poderá garantir a sobrevida de muitas das centrais hidrelétricas do país.  

Como se nota, os riscos de desaparecimento de geleiras e rios não afetará apenas “paisecos do terceiro mundo” como muita gente imagina. Esses problemas vão afetar o mundo inteiro!