A TEORIA DOS “FUNDO$” DE VALE

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O Plano de Avenidas do Engenheiro Francisco Prestes Maia, publicado em 1930, propôs a criação de uma rede de avenidas e vias radiais e perimetrais que orientariam e estruturariam o crescimento urbano da cidade de São Paulo. Uma das premissas desse Plano era a utilização das áreas de fundo de vale e das baixadas, formada por áreas alagadiças e de baixo valor imobiliário. A concepção e a construção destas vias (e de dezenas de outras) seguiu a Teoria de Fundo de Vale, encomendada em 1927 pelo então prefeito José Pires do Rio a um grupo de urbanistas, cuja equipe de formuladores contou com a participação do Engenheiro Prestes Maia. Nomeado prefeito em 1938, Prestes Maia executou grande parte do seu plano de Vias e Avenidas e, até o final de sua administração em 1945, foram canalizados 4.000 km lineares de córregos, riachos e ribeirões por toda a cidade.

Esse é o resumo do resumo da história de grandes avenidas que você vai encontrar hoje aqui na cidade de São Paulo, construídas ao longo de todo século XX. Porém, entre uma área de várzea e a inauguração de uma grande avenida de fundo de vale, muita água e “fundos” vão rolar. Deixe-me explicar meu ponto de vista.

Se seguirmos à risca a Lei n° 8.666, de 21 de junho de 1993, que instituiu as normas para licitações e contratos da Administração Pública, encontraremos que o objeto da licitação, no nosso caso seria a construção de uma avenida de fundo de vale, deve possuir um projeto definido, mostrando exatamente o que deverá ser feito e os custos estimados para a execução das obras, desapropriações de imóveis, obras de arte (pontes, pontilhões etc) entre outros serviços. De posse destas informações, o ente público (Prefeitura, Governo Estadual, Governo Federal, empresas públicas ou autarquias) elabora um Edital e se inicia um processo público para a contratação das empresas que vão realizar as obras – a empresa que oferecer a melhor proposta técnica e financeira ganha a licitação e vai realizar as obras. Como a maioria de vocês deve estar acompanhando nos noticiários, todo esse processo possui inúmeras brechas e descaminhos, que permitem todo o tipo de esquemas de corrupção. 

No nosso caso, o edital para a construção de uma avenida de fundo de vale, serão necessários vários estudos de geotecnia de solos para determinar o tipo de pavimento que deverá ser construído e a estabilização de encostas de morros e margens; a quantidades e os tipos de obras de arte, determinar a quantidade de famílias que precisarão ser desapropriadas, o volume de águas que vai correr no canal, as compensações ambientais que deverão ser realizadas etc. De posse de todas essas informações é possível estipular um orçamento com os custos globais da obra – serão esses custos que serão incluídos no orçamento do ente público e os valores ficarão reservados para custear a execução das obras.

No mundo real, as coisas não costumam seguir esse roteiro: muitos editais são publicados com base em pré-projetos bastante incompletos: a empresa que vence a licitação vai verificar que “muita coisa deixou de ser incluída no texto do edital” – isso abre espaço para os famosos Aditivos Contratuais, que nada mais são do que serviços e obras que precisam ser incluídos no orçamento para a realização das obras. O custo previsto inicialmente no edital começa a aumentar e, algumas vezes, o custo final é varias vezes maior do que a previsão inicial.

Um exemplo: no meu último post falamos das obras de canalização e pavimentação do Córregos das Águas Espraiadas, onde foi necessária a remoção de 40 mil famílias; se durante os estudos iniciais houve um “erro” de 5% no número de famílias a serem desapropriadas, teremos de fazer um aditivo para cobrir os custos de mais 2 mil famílias – se cada uma dessas “famílias” tiver direito a uma indenização de R$ 10 mil, teremos só nesse item um sobre preço de R$ 20 milhões. Reportagem publicada no jornal O Estado de São Paulo na última semana, só para citar um exemplo dos desvios que ocorrem nessas obras, indicou o pagamento de 1.764 indenizações fantasmas e um prejuízo de R$ 6,2 milhões aos cofres do Estado de São Paulo na execução das obras de extensão da Avenida Jacu-Pêssego. Cadastros fictícios de moradores foram criados para justificar os pagamentos das indenizações fantasmas.

O resultado de tudo isso são obras mal feitas, córregos e riachos que transbordarão em dias de chuvas fortes, grandes engarrafamentos, famílias pobres simplesmente remanejadas para bairros distantes e miseráveis e muitos “fundos” desviados do orçamento das obras.

CANALIZAÇÃO DO CÓRREGO DAS ÁGUAS ESPRAIADAS: UM ESTUDO DE CASO

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O Córrego das Águas Espraiadas é um velho conhecido dos moradores do meu bairro. Desde meados do século XVI, quando a pequena Vila de Santo Amaro foi fundada pelos padres Jesuítas, os caminhos de acesso à região tinham de, obrigatoriamente, cruzar o Águas Espraiadas. Como um exemplo da ligação do bairro com o curso d’água, observe a foto que ilustra esse post, tirada em 1966, que mostra o estrago causado nas fundações do pontilhão da antiga linha de bondes (atual Avenida Vereador José Diniz) por uma das incontáveis enchentes do Córrego das Águas Espraiadas.

No intenso processo de conurbação que ao longo do século XX uniu a mancha urbana da cidade de São Paulo à de Santo Amaro (O bairro foi incorporado à cidade de São Paulo em 1933), a várzea do Córrego das Águas Espraiadas seguiu intacta por algum tempo, mas acabou sucumbindo à ocupação por populações pobres – na década de 1980, cerca de 68 núcleos de favelas ocupavam uma faixa linear desde as proximidades da Marginal Pinheiros até as vizinhanças do Aeroporto de Congonhas, com uma população estimada em 80 mil pessoas. A ocupação descontrolada da várzea pela “gigantesca” favela provocava inundações cada vez mais fortes, que provocavam desmoronamentos e transtornos cada vez maiores aos moradores da favela – tanto a favela quanto o córrego incomodavam a vizinhança de classe média dos bairros do Brooklyn Paulista e do Campo Belo.

Depois de algumas tentativas frustradas por outras administrações, os Prefeitos Paulo Maluf (1993-1996) e seu sucessor Celso Pitta (1997-2000), levaram a cabo as obras de retificação do córrego e pavimentação de uma avenida de aproximadamente 5 km, ligando a Marginal Pinheiros até a região do Aeroporto de Congonhas. As obras estouraram o cronograma inicial devido as dificuldades de desapropriação e transferência dos antigos moradores (a maioria foi levada junto com os pertences de caminhão para um grande terreno na Zona Leste da cidade, onde foi formada a Comunidade Jardim Pantanal). As obras seguiram à risca os manuais de construção de avenidas de fundo de vale confinando o córrego num canal central concretado, cercado por estreitas faixas de terreno com vegetação e pelas pistas asfaltadas. A Avenida, foi batizada inicialmente de Águas Espraiadas, nome que depois foi mudado para Avenida Jornalista Roberto Marinho. Anos depois, a nova Avenida viu surgir em um dos seus extremos o novo cartão postal da cidade de São Paulo: a Ponte Estaiada. Atualmente, a Companhia do Metropolitano de São Paulo (Metrô) está construindo a Linha Prata do Monotrilho nesta Avenida. A valorização imobiliária das áreas circunvizinhas às antigas favelas foi de quase 1.000% após a inauguração da Avenida.

Até aqui o leitor não viu nada muito diferente de outros textos que escrevi falando da construção das avenidas de fundo de vale na cidade de São Paulo. Mas existe sim uma grande diferença das outras obras: a construção da Avenida custou a bagatela de aproximadamente US$ 600 milhões; considerando-se a extensão de 5 km, o custo por quilômetro linear chega aos impressionantes US$ 120 milhões, o que faz da Avenida a mais cara do mundo, com um custo por quilômetro equivalente ao do Eurotunnel, famoso túnel que liga a França à Inglaterra sob o Canal da Mancha.

O Ministério Público Federal denunciou 11 pessoas por desvio de recursos públicos, peculato, superfaturamento de obra e lavagem de dinheiro. Entre os acusados estão os ex-prefeitos Paulo Maluf e Celso Pitta (morto em 2009), diversos agentes públicos e funcionários de grandes empreiteiras. Entre muitos recursos e apelações ao longo dos últimos anos, corre-se o risco de prescrição das acusações, sem que a cidade de São Paulo consiga recuperar a maior parte do dinheiro desviado. Mas, a esperança sempre é a última que morre.

Vejam que resolver o problema das enchentes com a construção de uma grande avenida de fundo de vale é só uma parte do problema – sempre há outras questões escusas nessas obras. Certeza mesmo é a exclusão social cada vez maior das populações deslocadas das várzeas para os confins mais distantes da cidade…

PARQUE LINEAR TIQUATIRA: UM BOM COMEÇO

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A Zona Leste de São Paulo é a região mais populosa da cidade e é, ao mesmo tempo, a que possui a menor área verde per capita. Percorrendo as ruas e avenidas de alguns bairros deste “lado” da cidade, encontraremos uma paisagem com as tintas avermelhadas de um deserto, resultado de toda uma imensidão sem fim de casas semiacabadas com tijolos à mostra. Caso esse percurso inclua a Avenida Governador Carvalho Pinto no bairro da Penha, você irá se surpreender com uma ilha verde de 320 mil metros quadrados que surge repentinamente no canteiro central da via – é o Parque Linear Tiquatira.

A história da Avenida vai soar bastante familiar a você que leu meus últimos posts: seguindo a antiga lógica de ocupação das áreas de fundo de várzea do Córrego Tiquatira, a Prefeitura executou em 1988 obras de retificação do copo d’água, onde o leito natural foi substituído por um canal linear concretado; a várzea passou por um trabalho de “despobrezação” (ou seja, moradores em situação miserável transferidos para áreas mais miseráveis ainda), terraplenagem e pavimentação, surgindo aquela que hoje é conhecida como Avenida Governador Carvalho Pinto – a mesma história de dezenas e mais dezenas de grandes vias da Região Metropolitana de São Paulo. Por conta e obra da geografia da várzea local, foi deixada uma grande faixa de terra entre as pistas e o canal do córrego, inicialmente transformada em um gramado.

Em 2003, um empresário local chamado Hélio Silva caminhava pela avenida e se deparou com a imensa área descampada – imediatamente teve a ideia de plantar algumas mudas de árvores. Utilizando recursos próprios, o Sr. Hélio plantou inicialmente 500 mudas de espécies nativas da Mata Atlântica – 80% destas mudas ou foram arrancadas ou acabaram sendo destruídas pelas crianças e moradores do entorno. Persistente, o Sr. Hélio plantou mais 5.000 mudas de 170 espécies diferentes e, pouco a pouco mostrou a importância do seu trabalho para a comunidade, que se transformou numa grande aliada da sua causa.

Com o crescimento das mudas, especialmente das árvores frutíferas, os pássaros começaram a frequentar a pequena mata: cambacicas, sabiás, tico-ticos, beija-flores, sanhaços, corruíras, gaviões, papagaios e muitos outros. O arvoredo formado por espécies como pau-brasil, jatobás, embaúbas, jequitibás, ingás, canelas, goiabeiras, amoreiras, pitangueiras e tantas outras mudou, literalmente, o clima do lugar. Políticos oportunistas, percebendo o potencial do empreendimento alheio, se apressaram em votar uma lei em 2007 transformando o espaço no primeiro parque linear da cidade de São Paulo, batizado com o pomposo nome de Parque Linear Tiquatira Eng. Werner Eugênio Zulauf. Ao longo dos anos o parque recebeu equipamentos como quadras poli esportivas, pista de Cooper, campos de futebol, pista de caminhadas, de ciclismo e de skate, áreas de convivências e ainda um anfiteatro; aos domingos e feriados, a Prefeitura instala uma ciclo faixa de lazer com 14 km de extensão – o esforço inicial de um único morador mudou definitivamente a história da região.

Até o último mês de julho, o Sr. Hélio contabilizava 17.686 mudas plantadas no Parque. Contando com idade de 67 anos, ele afirma que ainda pretende plantar de 40 a 50 mil mudas. Em seu esforço pessoal, o empresário segue plantando suas mudas e gasta mensalmente entre R$1.000,00 e R$ 3.000,00 em recursos próprios na compra de mudas, adubos e insumos – vejam que exemplo.

Todos os anos, o Córrego Tiquatira ocupa espaço nas manchetes dos meios de comunicação com notícias de transbordamentos em dias de chuvas fortes, o que causa inúmeros transtornos para moradores e motoristas – a culpa recai sobre o tradicional modelo de retificação forçada do córrego e ao seu confinamento em um canal impermeável, reto e com poucos pontos de infiltração de água – a área vegetada do Parque Linear, ao menos, consegue fazer sua parte e ajuda a conter uma parte do excesso de águas pluviais. Se o projeto tivesse sido pensado desde o começo para ser um parque linear verdadeiro, esses transtornos seriam, com certeza, bem menores.

Sr. Hélio Silva – Valeu o grande esforço e o exemplo!

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ALTERNATIVAS A CANALIZAÇÃO DE CURSOS D’ÁGUA, OU QUESTIONANDO A TEORIA DE FUNDO DE VALE

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Prosseguindo com o texto de meu último post, a canalização desenfreada de corpos d’água na cidade de São Paulo, e em muitas outras Brasil afora, sempre teve como objetivos a liberação de áreas de várzea e de baixadas para a especulação imobiliária e também para a construção de vias urbanas para o tráfego de veículos, especialmente os automóveis particulares.

Alguns exemplos de famosas avenidas de São Paulo construídas a partir da canalização/retificação de rios, córregos e riachos: Avenida Pacaembu (Ribeirão Pacaembu), Avenida 9 de Julho (Rio Anhangabaú), Avenida Roberto Marinho (Córrego das Águas Espraiadas), Avenida Anhaia Melo (Córrego da Mooca), Avenida Juscelino Kubitschek (Córrego do Sapateiro), Avenida Aricanduva (Córrego Aricanduva), Avenida Jacu-Pêssego, onde eu trabalhei em um dos trechos (Córrego Jacu), Avenida Sumaré (Córrego do Sumaré), Avenida dos Bandeirantes (Córrego da Traição), Avenida Luís Dumont Vilares (Córrego do Carandiru), Avenida 23 de Maio (Córrego do Itororó), Avenida do Estado (Rio Tamanduateí), Avenida Eng. Caetano Álvares (Córrego do Mandaqui), Avenida Ricardo Jafet (Córrego do Ipiranga) e vou citar também o Córrego Anhanguera, do qual muitos nunca ouviram falar e onde foram construídos trechos de importantes ruas e avenidas da cidade: Rua da Consolação, Avenida Higienópolis, Rua General Jardim, Largo do Arouche entre outros. A concepção e a construção destas vias (e de dezenas de outras) seguiu a Teoria de Fundo de Vale, encomendada em 1927 pelo então prefeito José Pires do Rio a um grupo de urbanistas e mais tarde usada no projeto das grandes vias da cidade de São Paulo.

Na visão da época, as áreas de fundo de vale da cidade eram mal aproveitadas e, de alguma forma, apresentavam riscos para a saúde da população, especialmente como criadouros de mosquitos, pontos de acúmulo de lixo e dejetos, esgotos e, grifo meu, de gente pobre (não é de hoje que essas áreas são ocupadas por favelas ou “habitações subnormais”). Na cidade de Londrina, no Paraná, havia uma percepção semelhante e essas áreas foram transformadas em parques e áreas de lazer; em São Paulo optou-se pela canalização ou retificação dos corpos d’água e a construção de avenidas – os “obstáculos” foram transferidos para outras regiões distantes da cidade.

Em dias de fortes chuvas, não por uma mera coincidência, muitas dessas avenidas e ruas aparecerão nas televisões em notícias sobre engarrafamentos e pontos de alagamentos. “Cedo ou tarde, o rio se vinga” nas palavras de Jaime Lerner, ex-prefeito de Curitiba, engenheiro civil e arquiteto paisagista, que provavelmente lembrava o texto do escritor mato grossense Manoel de Barros:

“Assim, quando vêm as chuvas, todo ano o rio se vinga, transbordando da calha ou do duto que o aprisiona, feito o rio desbocado, mal comportado. Cheio de furos pelos lados, torneiral, ele derrama e destramela à toa. Só com uma tromba d’água se engravida. E empacha. Estoura. Carrega barrancos. Cria bocas enormes. Vaza por elas. Cava e recava novos leitos. E destampa adoidado.”

A lei n° 10.257, de 10 de julho de 2001, mais conhecida como Estatuto da Cidade, lançou uma nova luz sobre as chamadas áreas de fundo de vale, incorporando uma perspectiva ambiental para as sustentabilidade das cidades e passando a considerar essas desprezadas regiões como Áreas de Preservação Ambiental. Com essa mudança, a solução de canalizar desenfreadamente córregos e riachos deixa de ser a regra e passa a ser vista como a exceção da exceção. O conceito de Canais Verdes, onde há toda uma preocupação de preservar as margens dos corpos d’água com o plantio de vegetação, os Parques Lineares, que transformam as várzeas em áreas de lazer para a população, e os espelhos d’água, onde é criada uma fina lâmina d’água com espaço para acumular temporariamente grandes volumes de águas das chuvas, abriram toda uma gama de novas soluções para o manejo das águas pluviais.

Continuaremos nesse assunto no próximo post.

AINDA FALANDO DA CANALIZAÇÃO DE RIOS E CÓRREGOS

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A Rua 25 de Março é o maior centro popular de compras da cidade de São Paulo e, possivelmente, do Brasil. Diariamente, meio milhão de pessoas vindas de todos os lugares do Brasil, de países vizinhos da América do Sul e até da África, se acotovelam nas calçadas da Rua, buscando todo o tipo de pechincha. Nas vésperas de feriados como o Dia das Mães, Dias das Crianças e Natal, o número de visitantes chega a dobrar. É um verdadeiro formigueiro humano. É difícil de imaginar que há pouco mais de 100 cem anos, o local onde encontramos a Rua 25 de Março era um trecho do sinuoso Rio Tamanduateí – havia um grande porto fluvial no local, onde as mercadorias chegavam em barcas para serem vendidas ali perto no conhecido Mercado Caipira: a Ladeira Porto Geral, travessa da Rua 25 de Março é uma lembrança do acesso ao antigo porto fluvial (sinta um pouco do clima bucólico da Ladeira Porto Geral nesta pintura de 1893 que ilustra o post).

Assim como centenas e mais centenas de córregos e riachos que desapareceram canalizados, cedendo seu espaço para a abertura de ruas e avenidas por toda a cidade e ”criando” terrenos secos para a especulação imobiliária, os grandes rios da cidade – destaque para o Tietê, o Tamanduateí e o Pinheiros, cederam suas várzeas para que a cidade tivesse espaço para sua expansão; os antigos leitos sinuosos destes rios foram retificados, liberando centenas de quilômetros quadrados de terrenos para urbanização. O fascinante documentário Entre Rios lhe dará uma ótima visão de como esse processo se consolidou.

De acordo com informações do Professor Alexandre Deliajaicov, arquiteto e urbanista da FAU – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, somente na gestão do Prefeito Prestes Maia (1938-1945), foram canalizados 4.000 km lineares de córregos, riachos e ribeirões por toda a cidade, criando espaços para a implantação do seu famoso plano viário. Entre as justificativas, usadas desde o final do século XIX, citavam questões sanitárias, controle das enchentes e problemas ligados ao lixo e resíduos que a população despejava nos corpos d’água. Também se procurava esconder as águas já contaminadas pelos esgotos da cidade, que eram despejados descaradamente nos rios, riachos e córregos desde muito tempo atrás.

Felizmente, essa “concepção” urbanística e sanitarista está em grande parte ultrapassada e, apesar de muitas prefeituras insistirem na prática, muita gente séria fala em outras soluções para os cursos d’água como o uso de canais verdes (tratarei disto no próximo post) e também da “descanalização” – a cidade de Seul, na Coréia do Sul, tem reaberto e recuperado muitos cursos d’água que passaram décadas encobertos por asfalto e concreto.

Canalizar cursos d’água cria uma série de problemas para o meio ambiente. Listo alguns:

Um curso d’água é um ecossistema complexo, onde além da água existem margens com mata ciliar, plantas aquáticas, peixes, anfíbios, insetos, pássaros, mamíferos, répteis, bactérias, fungos entre outros seres vivos: a canalização simplesmente inviabiliza o ecossistema;

Esse ecossistema interage com a sua vizinhança, provocando mudanças no micro clima com alteração na temperatura e umidade;

Os cursos sinuosos e cheios de obstáculos reduzem a velocidade das águas das chuvas, ajudando a reter nutrientes do solo e também controlando o volume e a velocidade das águas que chegam aos rios principais; a canalização de cursos d’água insere as paredes lisas das tubulações no sistema – sem resistência, a velocidade do fluxo líquido aumenta consideravelmente, criando problemas para as comunidades biológicas dos rios receptores;

As margens com vegetação possibilitam que parte da água dos períodos de cheia infiltre no solo, recarregando o lençol freático e reduzindo o volume na calha;

As áreas verdes ao largo dos cursos d’água proporciona espaços públicos para o lazer e a contemplação da população, contribuindo para uma melhora na qualidade de vida.

Esse interessantíssimo assunto vai render muitos outros posts. Até mais!

CANALIZAÇÃO DE CÓRREGOS E RIOS URBANOS

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Cerca de três meses atrás, conversei longamente com uma arquiteta, proprietária de um renomado escritório de projetos aqui na cidade de São Paulo, que estava enfrentando um problema surreal: sua empresa projetou e fez todo o gerenciamento da construção de um edifício comercial na região de Pinheiros, zona oeste de São Paulo – todos os trâmites burocráticos para a autorização da construção foram solicitados e as autoridades municipais deram o sinal verde para a construção. Após o prédio ter sua construção totalmente concluída, a autorização de funcionamento (conhecido como “Habite-se”) foi negada pela própria Prefeitura da cidade: algum departamento descobriu em algum arquivo interno perdido que o edifício foi construído em um terreno sob o qual existe um córrego canalizado há muitas décadas atrás – a legislação municipal não permite construções sobre córregos canalizados.

O município de São Paulo possui, ao menos, 186 sub-bacias hidrográficas catalogadas pela Prefeitura, o que representa mais de 200 cursos de água – algumas fontes chegam a falar de 300 cursos de água – outras falam em até 2.000 se considerarmos os pequenos afluentes: na verdade, ninguém sabe exatamente quantos são e onde estão esses córregos, riachos e nascentes que existem escondidos no subsolo da cidade. Além dos inúmeros cursos d’água naturais, milhares de tubulações de esgotos foram sendo construídas e aterradas ao longo de várias décadas, para o despejo dos resíduos nestes cursos de água, o que complica um pouco mais a questão. É justamente essa falta de conhecimento do que existe no subsolo que gerou o problema para os construtores do edifício que citei – problema, aliás, de difícil solução.

A cidade de São Paulo até meados do século XIX era um fim de mundo perdido no alto da Serra do Mar – o censo demográfico de 1872 encontrou 30 mil habitantes espalhados em diversos vilarejos do município; foi a expansão da cultura cafeeira e a passagem das ferrovias que vinham do Porto de Santos rumo aos centros produtores no interior do Estado que, “acidentalmente”, colocaram a cidadezinha no mapa – em 1900 a cidade já tinha uma população de 240 mil habitantes. O forte crescimento populacional deste período levou a uma intensa demanda por terrenos para a construção de casas, lojas e galpões – nas últimas décadas do século XIX começou um intenso processo de canalização de córregos e riachos visando “liberar” grandes áreas de várzeas e baixadas para a especulação imobiliária; a importância geográfica dessas áreas no controle das cheias anuais dos períodos de chuvas foi simplesmente desprezada: as enchentes que assistimos no presente é parte do preço desse crescimento irracional. Através deste link, os mais curiosos poderão assistir a um vídeo produzido pela Associação Águas Claras do Rio Pinheiros que mostra um pouco do avanço da cidade sobre as várzeas dos rios de parte da cidade de São Paulo e suas consequências na atualidade.

Grande parte dessas canalizações simplesmente não existem nos mapas oficiais da cidade – se não existem oficialmente, não estão incluídas nos planos de manejo e manutenção; logo, é fácil imaginar o grau de assoreamento e entulhamento em que se encontram. Também é fácil concluir por que algumas regiões da cidade alagam com tanta frequência.

Na última quinta-feira, dia 20 de outubro, choveu muito forte na cidade de São Paulo – na zona oeste da cidade onde fica o bairro de Pinheiros, o índice pluviométrico passou dos 50 mm, o que é muita água para uma única chuva. Foi um caos, com enchentes generalizadas, queda de centenas de árvores, falta de energia elétrica em bairros inteiros e engarrafamentos gigantescos – ao menos uma morte registrada foi provocada por essa chuva. Muitos destes córregos canalizados desconhecidos pelas autoridades da cidade deixaram de cumprir seu papel na drenagem das águas desta chuva, inclusive o córrego que citei no começo deste post.

Além das obras que não foram feitas, a drenagem de águas pluviais em uma cidade grande como São Paulo têm de se preocupar com um sem número de obras mal feitas e esquecidas no subsolo. Haja incompetência.

UTILIZANDO CORRETAMENTE AS ÁGUAS PLUVIAIS – PARTE PRÁTICA

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No meu último post falamos da utilização das águas pluviais em usos não potáveis. Vamos entender isso na prática:

Uma das maneiras mais econômicas de armazenar águas pluviais em uma residência é utilizar tambores de aço ou bombonas plásticas grandes. Pesquisando na Internet você poderá encontrar esses recipientes a venda com preços a partir de R$ 25,00 (procure volumes na faixa de 200 litros). É importante que você pesquise bastante até encontrar unidades em bom estado de conservação e adequadas para o armazenamento de água.

Para que você tenha ideia do que estamos falando, um tambor ou bombona que consiga armazenar 200 litros de águas pluviais representa água suficiente para realizar pelo menos 30 descargas no vaso sanitário (considerando-se um vaso sanitário com caixa de descarga acoplada e consumo de 6 litros por descarga) – essa simples conta permite que você tenha uma boa ideia da economia que você poderá conseguir na sua conta de água. Mas é importante lembrar que essa água não poderá ser utilizada para consumo humano – somente poderá ser utilizada para usos não potáveis como em descargas sanitárias, limpeza de pisos, rega de jardins, lavagem de carros, preparação de argamassa e concreto etc.

Outra observação fundamental é que os recipientes que serão utilizados para o armazenamento de água precisam estar apoiados firmemente sobre uma base sólida – evite os improvisos feitos com blocos de concreto ou tijolos soltos; um litro de água pesa aproximadamente 1 kg – no nosso caso, estaremos trabalhando com um recipiente com 200 litros de água (ou aproximadamente 200 kg), mais o peso líquido do recipiente: o deslocamento acidental de um volume com esse peso pode provocar múltiplas fraturas numa perna ou em um pé – muito cuidado.

A foto que ilustra esse post lhe dará uma boa ideia da configuração dos recipientes, alinhados em paralelo com a parede da residência. Observe o seguinte:

Os recipientes tem tampa: isso é importante para evitar que sua reserva de água se transforme num criadouro de mosquitos;

Evite usar recipientes transparentes ou translúcidos – a incidência de luz solar facilita o crescimento e proliferação de micro algas na água e bactérias;

A água da chuva será coletada por um sistema de calhas – é importante instalar um sistema de filtragem (tela por exemplo) na tubulação de descida, com o objetivo de reter folhas, galhos e outros materiais particulados;

Quando começar a chover, é fundamental deixar a água escorrer livremente por alguns minutos antes de conectá-la aos recipientes – essa água carregará muita sujeira que estava acumulada sobre as telhas;

Observe que a configuração dos recipientes permite a inclusão sequencial de um novo recipiente em série, a jusante a quantidade de água armazenada à demanda da residência;

Cada recipiente deve ter uma torneira na base – faça um furo com uma serra copo que tenha o mesmo diâmetro da rosca da torneira; encaixar a torneira no furo e fixar usando massa epoxi ou borracha de silicone.

É importante higienizar a água armazenada: você vai precisar aplicar uma dose de 10 ml (uma colher de sobremesa) de água sanitária para cada 100 litros de água armazenada. Com esse cuidado, seu estoque de águas pluviais poderá ser utilizado com segurança e economia.

O IPT – Instituto de Pesquisas Tecnológicas, de São Paulo, publica um manual com ótimas informações para o armazenamento de águas pluviais. Faça o download deste manual e obtenha preciosas lições que lhe ajudarão a usufruir com muita segurança e qualidade dessa fonte de água tão preciosa que, literalmente, cai do céu sobre as nossas casas.

Existem também ótimos reservatórios em plástico de engenharia desenvolvidos especialmente para esse tipo de uso – se você não é do tipo com habilidades manuais, essa pode ser uma ótima alternativa.

Boa sorte e bom uso das águas pluviais.

UTILIZANDO CORRETAMENTE AS ÁGUAS PLUVIAIS

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Estive em Cuba há muitos anos atrás, numa visita organizada pelo governo local com o objetivo de divulgar os pontos turísticos da ilha e, assim, atrair turistas estrangeiros e dólares para socorrer a combalida economia do país. Povo muito simpático e alegre (lembram muito o pessoal da nossa Bahia), carros da década de 1950 com dezenas de camadas de tinta, hotéis cheirando a mofo, comida mediana – os anos de bloqueio econômico capitaneado pelos norte-americanos deixou a sua marca na história cubana. Acompanhados de perto por agentes do governo local, visitamos e vimos o que era considerado adequado pelos mandatários locais; os bairros mais paupérrimos, é claro, ficaram bem longe da vista do nosso grupo, formado basicamente por jornalistas especializados em turismo.

Uma coisa que me chamou bastante a atenção durante as caminhadas pela cidade de Havana eram as dezenas e mais dezenas de tambores de aço perfilados nos quintais das casas. Depois de alguma insistência, soube através de um motorista de ônibus que aqueles tambores eram usados pelos moradores para armazenar água da chuva (as autoridades negam, mas o abastecimento por lá é complicado); meu “informante”, inclusive, comentou que as famosas equipes dos programas de Saúde da Família cubanos começaram com as visitas de autoridades sanitárias às casas justamente para conscientizar os moradores dos perigos de proliferação de mosquitos nestes reservatórios.

O uso direto da água das chuvas faz parte da realidade de muitas regiões do mundo; no Brasil, especialmente na região do semiárido nordestino, a prática é muito comum e, muitas vezes, é a única fonte para o abastecimento de famílias inteiras no períodos críticos de estiagem. A construção de cisternas de concreto subterrâneas, inclusive na forma de programas governamentais de combate às secas, pode representar a garantia do abastecimento de água por muitos meses para as famílias sertanejas.

Nos centros urbanos que contam com infraestrutura de abastecimento de água, não é muito comum encontrarmos residências com cisternas instaladas – em bairros onde o abastecimento é irregular encontramos reservatórios improvisados que são usados para armazenar águas pluviais, muitas vezes sem maiores cuidados contra a proliferação de mosquitos, especialmente o odioso Aedes Aegypti. Estimular o armazenamento e uso das águas pluviais é uma política importante em tempos de carência cada vez maior de fontes de água para o abastecimento das cidades. Algumas razões práticas para isso:

  • Como já comentamos várias vezes, o crescimento das cidades cada vez mais vai provocar alterações no microclima por causa da formação dos polos ou “ilhas” de calor (a concentração de muitas construções e edifícios próximos um do outro eleva a temperatura local), levando à ocorrência de chuvas fortes nas áreas centrais das cidades e chuvas mais fracas nas regiões periféricas, onde costumam ficar os reservatórios de abastecimento;

  • A impermeabilização do solo dos centros urbanos provocará cada vez mais enchentes localizadas – o uso de cisternas nas residências é uma forma prática de reter parte da água das chuvas, aliviando os sistemas de drenagem de águas pluviais;

  • A escassez da água implicará cada vez mais em maiores custos para a captação e transporte, o que fatalmente implicará em maiores custos nas futuras contas de água;

  • Águas pluviais podem substituir a água potável em diversos usos: limpeza, regas de jardim, lavagem de veículos, descargas sanitárias etc.

Portanto, faz todo o sentido estimular e orientar os moradores das cidades no armazenamento e uso das águas pluviais para os usos não potáveis em suas residencias. No próximo post vou passar instruções técnicas e dicas para a construção de um sistema caseiro e bastante funcional para o armazenamento de águas pluviais usando tambores de aço de 200 litros ou bombonas plásticas (mostrado na foto que ilustra esse post).

Até lá!

SÃO PAULO DE PIRATININGA, OU A TERRA DAS ENCHENTES

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O Planalto de Piratininga, conjunto de campos de altitude alagáveis onde foi fundada a cidade de São Paulo em 1554, tem um nome de origem curiosa – Piratininga, na língua dos índios tupis-guaranis, significa literalmente lugar onde se encontra o peixe seco. Há uma razão muito simples para esse nome: o Rio Tietê, principal curso d’água do Planalto, transbordava na época das chuvas e alagava uma vasta extensão de campos e várzeas; quando o Rio voltava ao nível normal imensos cardumes de peixes ficavam presos em poças de água que secavam lentamente – quando completamente secas abrigavam grandes estoques de peixe seco, que eram recolhidos pelos índios que se fartavam com a iguaria. Antes de ser São Paulo, Piratininga já era sinônimo de enchente.

Contrariando os avisos dos índios, da história e da geologia, aterramos as várzeas, retificamos o curso dos rios e construímos no Planalto de Piratininga a maior cidade do Brasil, que hoje conta com uma população de aproximadamente 11 milhões de habitantes. Reclamar de enchentes na cidade de São Paulo é, literalmente, chover no molhado. É claro que a história da cidade é mais complexa do que esta descrição – os campos alagáveis foram fundamentais na produção de alimentos, que desde os primeiros anos da colonização eram exportados para as outras Capitanias do Brasil, com destaque para o trigo, feijão e marmelada.

Viver em São Paulo, para muita gente, é enfrentar enchentes ano após ano. Também é fato que, desde longa data, a cidade está sempre a buscar mecanismos para o controle das gigantescas enchentes anuais. Uma das grandes soluções encontradas foi o bombeamento das águas das cheias na direção da Represa Billings.

A Represa Billings, importante manancial de águas da Região Metropolitana de São Paulo, foi construída na década de 1920 pela empresa canadense Light & Power com o objetivo de gerar energia elétrica na Usina Henry Borden em Cubatão. Para reforçar o fluxo de águas para a Represa Billings a Light realizou obras no Rio Pinheiros, principal afluente do Rio Tietê na região do Planalto de Piratininga, que permitiu a reversão do curso do Rio a partir de 1950 na direção da Represa, através de duas usinas elevatórias (vide a foto deste post). Esse procedimento assegurava o nível mínimo de água na Represa nas épocas de estiagem, garantindo a contínua geração de energia elétrica na usina Henry Borden. Por outro lado, nos meses de chuva, a retirada de água das bacias dos rios Tietê e Pinheiros minimizava os efeitos das enchentes na capital paulista. Essa verdadeira “solução mágica” funcionou por várias décadas e evitou que enchentes mais graves assolassem a cidade.

Essa solução apresentava um custo ambiental que, gradativamente, começou a cobrar o seu preço: toda a carga de poluentes (especialmente esgotos domésticos e industriais) lançados nas bacias hidrográficas dos Rios Tietê e Pinheiros eram transferidas pelo sistema de reversão para a bacia hidrográfica da Represa Billings, que a essa altura, além de servir como geradora de energia elétrica, também era a responsável pelo abastecimento de água na Região conhecida como ABC (iniciais dos municípios de Santo André, São Bernardo e São Caetano do Sul). Os protestos dos ambientalistas e moradores foram crescendo até que, com a promulgação da nova Constituição Paulista em 1992, foi suspenso o bombeamento do Rio Pinheiros em direção à represa Billings, exceto em casos de emergência quando há risco iminente de enchente.

Observem que uma solução engenharia para o controle das enchentes de grande refinamento técnico foi derrubada pela gestão inadequada das águas dos Rios Tietê e Pinheiros (há dezenas de outros rios menores nesta bacia hidrográfica), que transformadas em esgotos foram proibidas de serem lançadas na Represa Billings.

Esse exemplo nos mostra o quão importante é a gestão integrada dos recursos hídricos – a água das enchentes que tanto transtorno traz para o dia a dia de muita gente, pode ser armazenada em uma represa para atender o abastecimento futuro de uma cidade. Só não vale repetir o que se fez em São Paulo e contaminar essa preciosa água com esgotos da cidade.

BACIAS DE DETENÇÃO ABERTAS

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No último post falamos do uso dos piscinões para o controle das enchentes localizadas. Nos exemplos mostrados foi destacado o gigantesco reservatório subterrâneo construído sob a Praça Charles Miller, no bairro do Pacaembu em São Paulo – ao final da construção do dispositivo, a Praça foi reconstruída e liberada para o uso pela população. Reservatórios fechados como o deste exemplo são ideais para as regiões de grandes centros urbanos onde não existem espaços disponíveis para a construção de equipamento similares abertos.

Quando a cidade ou o bairro possui áreas abertas disponíveis, existem outras opções de dispositivos para a retenção de águas pluviais altamente funcionais e de baixo custo. Esses dispositivos são chamados de Bacias de Detenção Abertas.

No exemplo mostrado na foto que ilustra esse post, você muito provavelmente está vendo uma quadra cimentada, cercada por um conjunto de arquibancadas. Localizada na Avenida Polônia, cidade de Porto Alegre, a quadra é o ponto de encontro dos jovens do bairro, onde são disputadas acirradas partidas de futebol acompanhadas de perto por uma torcida fanática formada por amigos e familiares dos jogadores. Se você olhar com um pouco mais de atenção, vai perceber que os degraus das arquibancadas e as rampas laterais formam uma grande bacia de retenção de águas pluviais – em dias de chuvas fortes as águas são encaminhadas para armazenamento nessa bacia; o fundo da bacia possui drenos que liberam a água vagarosamente por um período de até 24 horas. A retenção temporária desse grande volume de águas evita enchentes nas ruas da região e maiores transtornos para a população. Sendo uma instalação totalmente aberta, essa bacia de detenção pode ser facilmente limpa após o escoamento total das águas pluviais e devolvida para o uso recreativo da população. Considerando-se a frequência das grandes chuvas numa cidade, é possível afirmar que durante a maior parte do ano a instalação ficará disponível para o uso pela população. Pistas de skate, playgrounds e anfiteatros são outros modelos de equipamentos de lazer urbanos que podem ser utilizados em projetos de bacias de detenção abertas.

Quando a área disponível é grande, a melhor opção será a criação de áreas verdes como, por exemplo, os parques lineares, que nada mais são que grandes jardins implantados ao largo de córregos de drenagem. Essas áreas verdes são equipadas com bancos, coretos, áreas gramadas, trilhas e demais estruturas que permitam seu uso pela população como área de lazer. No projeto e construção são previstas barreiras para a retenção de grandes volumes de águas pluviais que, a exemplo do dispositivo mostrado anteriormente, também possuem drenos que permitem a liberação gradativa do volume armazenado. Dependendo do tipo de solo presente nessas áreas, poderão ser formados espelhos d’água permanentes, que em harmonia com a vegetação possibilitarão a criação de verdadeiros santuários urbanos para a vida selvagem (especialmente para os pássaros e aves aquáticas), formando espaços de grande beleza cênica contemplativos. Como também são estruturas abertas, a limpeza e a manutenção após o período de chuvas é facilitado, garantindo assim o uso do espaço pela população durante a maior parte do ano.

A chuva é um fenômeno natural que, graças ao crescimento desordenado das cidades, cada vez mais vem causando grandes transtornos às populações urbanas. Os espaços urbanos precisarão ser adaptados para o armazenamento de volumes cada vez maiores de águas pluviais a fim de se evitar alagamentos localizados. Também é um fato que existem cada vez menos espaços públicos para o lazer e a contemplação da natureza pela população. A criação de áreas ou bacias de retenção abertas para águas pluviais é uma forma eficiente de resolver os dois problemas de uma única vez, combinando áreas de lazer com espaços que podem armazenar grandes volumes de águas pluviais. Cabe a todos nós a busca de soluções criativas para estes problemas como nos exemplos citados.

Continuamos no próximo post.