A RIZICULTURA NO BAIXO RIO SÃO FRANCISCO E O AVANÇO DA SALINIZAÇÃO DAS ÁGUAS

Rizicultura

O arroz é uma planta da família das gramíneas e produz o grão responsável pela alimentação de mais da metade da população do mundo. A produção e o consumo de arroz só são superados pelo trigo e pelo milho. Além de fácil preparo, o arroz é um alimento saboroso e saudável, constituído principalmente por carboidratos, proteínas, lipídios, vitaminas e minerais. No Brasil, o arroz faz parte da alimentação diária de milhões de pessoas – estudos indicam que 95% dos brasileiros consomem arroz e mais da metade o fazem no mínimo uma vez por dia. O arroz forma uma dupla perfeita com todos os tipos de feijão, um hábito alimentar que faz parte da identidade cultural de todos brasileiros.

O cultivo do arroz requer água em abundância e necessita de cuidados especiais para se manter a temperatura da planta em condições ideais. As áreas marginais na região do baixo Rio São Francisco vem se transformando em um pólo de rizicultura (nome técnico da produção do arroz) nos últimos anos e está gerando emprego e renda para centenas de pequenos agricultores. A produção de arroz na região do baixo Rio São Francisco, apesar de pouco significativa diante da produção nacional do grão, é de extrema importância econômica e social a nível regional. Com incentivos do Governo Federal, diversos projetos foram implantados na região, com destaque para os perímetros irrigados Boacica (Igreja Nova), Marizeiro (Penedo), Itiúba (Porto Real do Colégio) e em Piaçabuçu, envolvendo cerca de 800 famílias de pequenos agricultores. No perímetro irrigado Betume, no município de Neópolis, Estado de Sergipe, cerca de 450 pequenos produtores cultivam 1.750 ha de arroz. Em alguns perímetros irrigados, é possível obter duas safras de arroz por ano. Levantamentos iniciais apontam que o perímetro Betume atingiu produtividade média de 10,5 toneladas por hectare, o que é praticamente o dobro da produtividade média nacional de 5,4 toneladas de grãos por hectare.

Ao mesmo tempo em que a cultura do arroz cria novas perspectivas econômicas para as áreas marginais do baixo São Francisco, o avanço das águas salgadas do mar calha do Rio adentro cria grandes preocupações e ilustra de modo inequívoco os problemas da salinização das águas nos usos agrícolas. A presença do sal em grandes quantidades na água utilizada na irrigação mata as plantas e, a longo prazo, pode comprometer a fertilidade dos solos, impossibilitando a produção do arroz e de outras culturas irrigadas. Um exemplo do problema da salinização das águas já pode ser constatado em Piaçabuçu, município alagoano na foz do Rio São Francisco, onde o plantio de arroz já está comprometido.

Historicamente, a vazão média das águas do Rio São Francisco na foz no Oceano Atlântico era de 2.943 metros cúbicos por segundo, o que assegurava ao rio uma extraordinária energia para empurrar e manter as águas salgadas do mar distantes da calha do Velho Chico. As sucessivas agressões ambientais, ao longo de séculos de ocupação das margens de todos os rios que formam a bacia hidrográfica, tiveram como consequência uma redução gradual dos caudais, o que gradativamente se refletiu na redução do volume e na energia das águas que chegam na foz do Rio. Ao longo de todo o século XX, especialmente devido à construção de diversas barragens de usinas hidrelétricas, a redução dos caudais aumentou significativamente, tornando ainda mais crítica a luta das águas do Velho Chico contra o avanço contínuo das águas do mar.

Um longo período de seca na região do Semiárido nos últimos anos teve reflexos intensos na bacia hidrográfica do Velho Chico, que está apresentando um dos mais baixos volumes de águas das últimas décadas. Um exemplo desta situação crítica pode ser observado no lago de Sobradinho, que está em um nível crítico, abaixo de 15% da sua capacidade. Para evitar o eminente colapso da barragem, a CHESF – Companhia Hidrelétrica do Rio São Francisco, com autorização do IBAMA – Instituto do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, iniciou no último dia 22 de maio uma redução no volume de água liberado pelas barragens de Sobradinho e de Xingó, reduzindo a vazão para 650 m³/s (menos de 1/4 da vazão histórica média).

Com essa vazão, uma das menores já vistas no baixo Rio São Francisco, o avanço das águas salgadas terra a dentro será ainda mais intenso, afetando diretamente o abastecimento de um número ainda maior de cidades e inviabilizando cada vez mais a irrigação de milhares de hectares de áreas agrícolas.

Esse é o mais novo problema, entre tantos outros, vividos pelo nosso tão sofrido Rio São Francisco.

A SALINIZAÇÃO DAS ÁGUAS DO BAIXO RIO SÃO FRANCISCO

Lavadeiras do Rio São Francisco - Mariana Garcia

O consumo de sal de cozinha, conhecido tecnicamente como cloreto de sódio, é fundamental para o correto funcionamento dos organismos de pessoas e de animais. O sal é responsável pelo controle de entrada e saída de substâncias e de água do interior das células, mantendo assim o balanço de nutrientes e de água em nossos corpos. Isso é conseguido com uma ingestão de 6 a 8 gramas de sal todos os dias.

Se consumido na quantidade ideal, o sal aumenta os chamados “movimentos peristálticos” dos intestinos, melhora a digestão, auxilia no funcionamento dos rins e na produção de energia. O sal também auxilia o organismo na reposição do sódio perdido junto com o suor. O consumo excessivo de sal, ao contrário, causa uma série de problemas: o organismo passa a reter grandes quantidades de líquidos, o que provoca o aumento da pressão arterial. Também prejudica o funcionamento dos rins e causa interferências na absorção de cálcio e de nutrientes pelo organismo. Em resumo: quando o assunto é o sal, vale aquele antigo ditado – nem tanto ao mar, nem tanto à terra: tem de se achar um ponto de equilíbrio.

Muitos de vocês que leem esse texto, seja por razões de saúde seja por conta de algum regime para perder peso, deve ter recebido instruções médicas para reduzir ou moderar o consumo de diário de sal que ingere nos alimentos; quando se tem a liberdade de controlar livremente o consumo de sal, sua saúde sempre irá agradecer. Muita gente, ao contrário, até que gostaria de ter esta liberdade de escolha, mas as condições em que vivem não lhes permite qualquer outra opção – estou falando de dezenas de milhares de moradores de regiões lindeiras do baixo curso do Rio São Francisco, na divisa entre os Estados de Alagoas e de Sergipe. Vamos entender melhor isso:

No último post falamos dos problemas enfrentados pela região da foz do Rio São Francisco onde, em função da intensiva redução do volume dos caudais provocado pelo represamento das águas nas barragens das hidrelétricas – em especial Sobradinho e Xingó, as águas do mar estão avançando dezenas de quilômetros terra a dentro. Um sintoma visível dessa salinização das águas do baixo Rio São Francisco são os relatos cada vez mais frequentes, feitos por ribeirinhos e pescadores, que tratam do avistamento e captura de tubarões em trechos do Rio cada vez mais distantes da foz. A alta salinidade da água que permite a sobrevivência de tubarões, é fatal para os seres humanos. A água doce ou potável que todos nós consumimos diariamente é aquela que apresenta uma concentração máxima de sal de 0,5 gramas por litro – já a água salgada ou dos oceanos, apresenta níveis de concentração de sal superiores a 30 gramas por litro; as águas que apresentam níveis de sal intermediários, acima de 0,5 gramas/litro e abaixo de 30 gramas / litro, são chamadas de águas salobras, justamente a classificação em que se encontram as águas do Rio São Francisco em trechos próximos da foz. O consumo de água salobra pelos habitantes da região tem afetado a saúde de muita gente.

No povoado de Potengy, que pertence ao município de Piaçabuçu em Alagoas, temos um exemplo desses problemas: pesquisa realizada por agentes de saúde da comunidade constatou que houve um aumento de 36% no número de moradores hipertensos acompanhados pelas autoridades de saúde. A água captada pela empresa de abastecimento local é retirada diretamente do Rio São Francisco e os processos de tratamento utilizados não conseguem retirar o excesso de sal da água – esse mesmo problema afeta dezenas de cidades nas margens do baixo Rio São Francisco. Para conseguir água fresca, muitos moradores do povoado são obrigados a se deslocar por 7 quilômetros para retirar água de uma cacimba (espécie de poço aberto no solo). A salinidade das águas do Rio São Francisco está afetando gradativamente os aquíferos locais, que produzem água cada vez mais salobra.

Até uma das atividades femininas mais típicas das mulheres ribeirinhas da região – a lavagem de roupas nas águas do Rio, cada vez mais é uma coisa do passado: as roupas ficam mal-lavadas e o sal estraga os tecidos, dizem elas. Para os moradores locais, é cada vez mais revoltante ver águas tão importantes se tornando cada vez mais “imprestáveis” para os usos mais comuns do seu dia a dia.

No próximo post vamos falar dos problemas da salinidade das águas usadas em atividades agrícolas.

OS PROBLEMAS NO BAIXO RIO SÃO FRANCISCO

Penedo

Consta nos livros de história que a descoberta da foz do Rio São Francisco se deu no dia 4 de outubro do ano de 1501, quando uma expedição exploratória comandada pelo navegador Américo Vespúcio fazia o primeiro mapeamento da costa brasileira. O rio foi batizado em homenagem a São Francisco de Assis, santo homenageado nesta data pelo calendário da Igreja Católica. Segundo o relato desses primeiros exploradores, a força da correnteza do Rio era tão intensa que suas águas doces avançavam até 4 quilômetros mar adentro. Esse fato também é relatado por antigos capitães de navios mercantes que entravam pelo canal do Rio São Francisco em direção da cidade de Penedo (vide foto), no Estado de Alagoas.

A primeira vez que visitei Penedo foi em 1990 – estava passando alguns dias de folga em Maceió e ouvi a recomendação de diversos moradores locais para visitar esta antiga cidade colonial, definida por muitos como a Ouro Preto do Nordeste. Eu nunca havia ouvido falar de Penedo e, curioso, acabei acatando a recomendação. Para minha grata surpresa, descobri que a cidade ficava às margens do lendário São Francisco – o encantamento foi duplo: pela cidade e pelo Rio. Com o passar dos anos, a minha alegria por ter feito essa viagem naquela época só aumentou – menos de quatro anos depois dessa primeira visita ao Rio São Francisco, a Usina Hidrelétrica de Xingó foi inaugurada e, com a redução da vazão do Rio, teve início a acentuada deterioração das condições ambientais na sua foz, que tive o “desprazer” de conferir in loco em uma nova visita no ano de 2007. Vamos entender um pouco disto:

Na época do descobrimento da foz do Velho Chico, conforme comentado em diversas postagens, a Mata Atlântica cobria a faixa litorânea do Brasil, desde o Rio Grande do Sul até o Rio Grande do Norte. No trecho do Nordeste, a Mata tinha uma largura média de  30 km entre o litoral e o Agreste – em alguns trechos, como no caso da região da foz do Rio São Francisco, essa largura podia chegar aos 80 km; como o processo de destruição da floresta começou junto com a colonização da terra e na época não foram feitos estudos sobre os recursos naturais do país, nunca teremos certeza da sua real extensão. O que é certo: em menos de 200 anos, a floresta sucumbiu aos canaviais.

Com a destruição da Mata Atlântica e, especialmente, de extensos trechos das matas ciliares, o assoreamento e o entulhamento de riachos e ribeirões na região do baixo São Francisco se transformou em uma espécie de “parte da paisagem” – muitos pequenos afluentes do Rio São Francisco, que formavam uma extensa rede hidrológica regional, desapareceram ao longo dos séculos. Os volumosos caudais do rio vindos desde os mais distantes sertões sempre mascararam estes problemas, garantindo a presença de água para o abastecimento, navegação e agropecuária – o eventual desaparecimento de uma fonte de água podia ser compensado com a migração da população e das culturas para um outro local São Francisco acima, onde podia se encontrar um outro afluente ainda intacto; a formação de pequenos bancos de areia em trechos do rio principal ou a redução das contribuições destes pequenos rios passava despercebida pela população.

Em décadas mais recentes, após a construção de grandes barragens como a de Sobradinho e a de Xingó, estes problemas aumentaram de forma exponencial, mostrando toda a fragilidade ambiental da região. A redução sistemática do volume de caudais na direção da foz minou as forças do Velho Chico, deixando-o cada vez mais vulnerável ao avanço das águas do mar terras a dentro. Hoje, a salinização das águas do Rio São Francisco é um dos maiores problemas regionais, afetando desde a pesca até a saúde das populações, cada vez mais exposta ao consumo de água com altos níveis de sal – em algumas cidades e vilarejos está acontecendo uma verdadeira epidemia de moradores com hipertensão arterial. Para ter acesso a água potável, moradores das margens do baixo Rio São Francisco precisam, muitas vezes, viajar vários quilômetros em busca de nascentes ou de cacimbas onde a água ainda não está contaminada com altos níveis de sal.

Vamos detalhar isso nas próximas postagens.

“IBAMA AUTORIZA REDUÇÃO DA VAZÃO DO RIO SÃO FRANCISCO PARA 600 m³s.”

Redução da vazão no baixo Rio São Francisco

Ao longo das últimas semanas, temos falado bastante sobre os problemas do Rio São Francisco nas regiões do Cerrado e do Semiárido, que vão desde a destruição da vegetação nativa nas áreas de nascentes dos afluentes à superexploração das águas em toda a bacia hidrográfica. Mas os problemas não param por ai: no Baixo São Francisco, na divisa entre os Estados de Alagoas e Sergipe, os problemas se acumulam. O mais novo deles diz respeito à redução da vazão das águas do Rio, iniciada no último dia 18 de maio – veja a notícia publicada no Portal G1 – Alagoas:

“Descarga mínima começa a ser praticada pela CHESF a partir do dia 18 de maio e deve prosseguir até 30 de novembro deste ano.

Com a autorização do Instituto do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para redução da vazão do Rio São Francisco, a Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf ) já poderá, a partir do dia 18 de maio, iniciar os testes para diminuir a vazão das águas do rio de 700 m³s para 600 m³s.

De acordo com a Autorização Especial N⁰ 11/2017, de 10 de maio de 2017, os testes para as novas reduções nas defluências mínimas devem acontecer nos reservatórios de Sobradinho e Xingó em dois momentos: em Sobradinho a redução vai de 700m³/s para 650m³/s a partir do dia 18 de maio e para 600 m³/s a partir do dia 29 de maio. Já em Xingó, a redução de 700 m³/s para 650 m³/s começa no dia 22 de maio e a partir do dia 29 de maio cai para 600 m³/s.

A autorização de redução da descarga miníma, que já havia sido autorizada pela ANA, mas aguardava parecer técnico do Ibama, está prevista para ser mantida até 30 de novembro de 2017.

Objetivo

De acordo com Agência Nacional de Águas (ANA) a redução das vazões mínimas liberadas visa preservar o estoque de água disponível nos reservatórios da bacia hidrográfica, frente sua importância para o atendimento dos usos múltiplos, em particular ao abastecimento de várias cidades.

No entanto, essa será a maior baixa de redução hídrica no Rio São Francisco, que já vem sofrendo as consequências das reduções de vazões ao longo dos anos. Como consequência, alguns trechos do rio, que ficam mais próximo do mar, vêm sofrendo com a salinização.

A bacia do rio São Francisco vem enfrentando condições hidrológicas adversas nos últimos anos, com vazões e chuvas abaixo da média. Por isso, desde 2013 a ANA vem autorizando a redução das vazões de defluência mínimas nesses reservatórios que, em condições normais, operam com descarga mínima de 1.300 m³/s, conforme previsto na licença ambiental de operação das usinas.

De outubro de 2016 a maio de 2017, choveu 51% abaixo da média para o período, o que faz do período chuvoso de 2016/2017 o pior ano hidrológico para a bacia do São Francisco. O último ano de precipitação acima da média foi em 2011.

Desde então, tem chovido abaixo da média em todos os anos. Em 14 de maio, o volume equivalente dos reservatórios da Bacia do Rio São Francisco acumulava 20,16% do volume útil. Para evitar que o reservatório de Sobradinho comece a operar no volume morto, a ANA apresentou proposta de adoção de medidas preventivas.”

PARACATU: O “RIO BOM”

 

Rio Paracatu

O rio Paracatu era até poucos anos atrás o mais caudaloso afluente do rio São Francisco, contribuindo com 26% do volume total de caudais. Com extensão total de 485 km, sendo aproximadamente 360 km navegáveis, a bacia hidrográfica do Paracatu ocupa uma área equivalente a 8% da área total da bacia hidrográfica do Velho Chico. Era um rio de respeito com lugar de destaque na hidrografia regional.

Em tupi-guarani, Paracatu quer dizer “rio bom”. Conhecedores como ninguém da fauna e da flora, os antigos indígenas tiveram suas razões para dar ao rio tal nome – com margens repletas de pequenas lagoas, o Paracatu era um rio extremamente piscoso e com uma correnteza tranquila por um longo trecho, o que deve ter rendido excelentes pescarias para uma infinidade de gerações destes antigos moradores locais.

Típico rio do Cerrado, o Paracatu nasce no Estado de Goiás, bem próximo da divisa com Minas Gerais, numa região relativamente seca, com baixa pluviosidade, porém, até bem pouco tempo atrás, muito rica em vegetação típica como as veredas de buritis, cerradões e campos cerrados, que eram as nascentes naturais dos cursos d´água que formam ribeirões e rios. O rio Paracatu é retratado por Guimarães Rosa como “o Moreninho”, onde, segundo o escritor, os moradores da região costumavam caçar capivaras. Em sua obra mais famosa – Grande Sertão: Veredas, Guimarães Rosa descreveu como ninguém a relação dos habitantes locais com o bioma Cerrado, as veredas ao longo dos cursos d’água, os descampados e as estradas ao longo das margens sutis dos rios da bacia hidrográfica do São Francisco. O narrador-personagem dessas histórias é Riobaldo, um velho jagunço que relembra seus antigos dias, seus amores, medos, frustraçoes e conflitos.

Das narrativas poéticas deixadas por Guimarães Rosa, muito se perdeu. O avanço da agricultura destruiu muitas das belezas da terra descritas em prosa apaixonada pelo eterno viajante dos antigos sertões. A agricultura mecanizada e as grandes pastagens transformaram em simples lembrança a imagem dos antigos homens da terra. Os cavalos foram aos poucos abandonados e as grandes máquinas tomaram os seus lugares nos imensos campos. A tranquila espera pela estação das chuvas foi substituída pelas tubulações dos sistemas de irrigação com pivô central, que arrancam a força as águas dos ribeirões e rios, e as dispersam abundantes sobre a terra seca, fazendo brotar os valorizados grãos. As antigas matas de galeria – as veredas, foram derrubadas para garantir o máximo aproveitamentos dos campos ou para facilitar o acesso das grandes boiadas às beiradas dos rios – como se fosse possível separar as águas das veredas…

Sedentos pelos grãos valiosos, esses incautos homens arrasaram as matas, as margens e as águas. As típicas lagoinhas, que eram uma marca do rio Paracatu, simplesmente desapareceram, levando junto a antiga fartura de peixes. Os fartos caudais viraram algo como caldinhos ralos para a tristeza de todos. O bom rio sentiu muito.

Á primeira vista, o Paracatu continua com sua aparência imponente e curso largo – só aparência: o assoreamento do seu leito chega a representar hoje risco de vida para os “piloteiros” menos experientes, que a qualquer momento podem atingir um banco de areia e acabar virando com sua embarcação. Os pescadores tradicionais do rio e também os amantes da pesca esportiva, que sempre conseguiam capturar belos espécimes de peixes como o dourado e o pintado, hoje reclamam das dificuldades em se capturar um único peixe de qualquer espécie. A destruição das pequenas lagoas acabou com os berçários que eram utilizados pelos alevinos em sua fase de crescimento em seus primeiros meses de vida. A exemplo dos manguezais do litoral que abrigam entre suas raízes aéreas os pequenos habitantes dos oceanos em sua primeira fase da vida, as lagoas marginais do rio Paracatu abrigavam as crias dos peixes do rio, aumentando o número de filhotes que sobreviviam aos primeiros meses de vida e garantiam grandes populações de todas as espécies nas águas largas e profundas. A derrubada das matas ciliares e o desmatamento das terras resultou no carreamento de grandes volumes de sedimentos e no entulhamento do leito dos rios – a típica receita repetida em todos os rios da região.

Além de todo o arcabouço de problemas típicos da bacia hidrográfica do Velho Chico, nós hoje encontramos no rio Paracatu um problema novo: a destruição da prática da pesca esportiva, que atraia um número enorme de aficionados para a região, em busca dos grandes pintados, dourados, cachorras, matrinxãs, piraputangas, trairões entre outras espécies. O velho “rio bom” já não é tão bom assim.

Diadorin, o emblemático personagem de Grandes Sertões: Veredas, deixou seu ponto de vista sobre o lugar: “Depois de Paracatu é o mundo…”

Se o personagem visse o que aconteceu com sua região nos nossos dias, muito provavelmente sua fala seria bastante diferente…

AS GRANDES BACIAS HIDROGRÁFICAS BRASILEIRAS E O CERRADO

Rio Araguaia

O Cerrado é, reconhecidamente, o “berço das águas” do Brasil. Ocupando uma área equivalente a um quarto do território brasileiro, a região possui um clima com uma marcante estação de chuvas, além de solos altamente porosos e adequados para o armazenamento de grandes volumes de águas em seus aquíferos. A combinação de todas estas características resulta nas fecundas nascentes de águas de importantes rios que formam 8 grandes bacias hidrográficas brasileiras: Paraguai, Paraná, Parnaíba, São Francisco, Tocantins/Araguaia, Atlântico Leste, Atlântico Nordeste Ocidental e Amazônica.

Para que você consiga visualizar o que tudo isso significa, segue uma descrição resumida de cada uma destas bacias hidrográficas, com a indicação das áreas totais de drenagem e das regiões onde estão localizadas, que se espalham por todos os cantos do Brasil:

bacia hidrográfica do rio Paraguai tem uma área total de 1,1 milhão de km² e abrange áreas dos estados do Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, incluindo também áreas em territórios da Argentina, do Paraguai e da Bolívia. O Paraguai é o principal rio da bacia hidrográfica.

bacia do rio Paraná abrange uma área de 879 mil km², distribuídos pelos Estados de Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso do Sul, São Paulo, Paraná e Santa Catarina, além do Distrito Federal. O Rio Paraná é o principal rio da bacia hidrográfica, que conta ainda com importantes rios como o Grande, Paranaíba, Tietê, Paranapanema e Iguaçu. As bacias hidrográficas do Paraguai e do Paraná se juntam, formando parte da bacia hidrográfica do Rio da Prata, uma das mais importantes da América do Sul.

bacia hidrográfica Araguaia-Tocantins é formada pela junção das águas dos rios Tocantins e Araguaia, se estendendo pelos Estados de Goiás, Tocantins, Mato Grosso, Pará e Maranhão, além do Distrito Federal. É a maior bacia hidrográfica totalmente brasileira. Esta bacia ocupa uma área de aproximadamente 767 mil km², equivalente a 7,5% do território brasileiro.

bacia hidrográfica do Atlântico Leste ocupa uma área de 388 mil km², se estendendo desde o Nordeste do Estado de Minas Gerais, Norte do Espírito Santo, Leste da Bahia, além do Estado de Sergipe. Os principais rios formadores desta bacia hidrográfica são o Paraguaçu, das Contas, Salinas, Pardo, Jequitinhonha, Mucuri e Itapicuru.

bacia do rio Parnaíba abrange quase totalmente o Estado do Piauí e partes do Maranhão e do Ceará, com uma área total de 344 mil km². O Parnaíba é o principal rio da bacia hidrográfica, com aproximadamente 1.400 km de extensão e com nascentes no Sul do Piauí.

bacia hidrográfica do Atlântico Nordeste Ocidental possui uma área de 254 mil km², que engloba grande partes dos Estados do Maranhão e do Pará. Tem como principais formadores os rios locais: Gurupi, Turiaçu, Pericumã, Mearim, Itapecuru, Kabrelindzom e Murim.

Rios com nascentes no Cerrado também são tributários da maior bacia hidrográfica do mundo – a do Rio Amazonas, que ocupa uma área de quase 7 milhões de km². Os principais tributários com nascentes em áreas da região do Cerrado no Estado de Mato Grosso são o rio Xingu e os rios Teles Pires, Arinos e Juruena, formadores da bacia hidrográfica do rio Tapajós. Também se inclui nesta lista o rio Guaporé, afluente da bacia hidrográfica do Rio Madeira, com nascente no Estado do Mato Grosso, entre outros rios.

E não menos importante, a bacia hidrográfica do Rio São Francisco, que drena uma superfície com uma área total de 639 mil km² e se estende naturalmente pelos Estados de Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe, e através do Sistema de Transposição já atinge o Estado da Paraíba e, em breve, chegará também aos Estados do Ceará e Rio Grande do Norte.

Apesar de fornecer água para a maioria das bacias hidrográficas do Brasil, existe uma grande diferença no volume destas contribuições: enquanto as águas de rios com nascentes na região do Cerrado contribuem com apenas 4% das águas da gigantesca bacia Amazônica, na bacia hidrográfica do Rio São Francisco essa contribuição corresponde a 94%. Isto significa que a eventual destruição das fontes de água da região do Cerrado seria quase irrelevante para a região da bacia Amazônia e catastrófica para a região do Semiárido.

A conservação do bioma Cerrado, como se observa, não é importante apenas para os Estados onde o ecossistema está contido – ela tem importância vital para todo o Brasil e também para países vizinhos como o Paraguai, Argentina e Uruguai, além de trecho da Bolívia. As bacias hidrográficas dos importantes rios Paraná e Paraguai, entre outras, se juntam para formar a bacia hidrográfica do Rio da Prata, a segunda mais importante da América do Sul. Essa bacia hidrográfica é tão importante que Argentina, Paraguai e Uruguai são conhecidos internacionalmente como Países Platinos.

Infelizmente, o avanço das fronteiras agrícolas em áreas do Cerrado já apresenta como resultados uma visível redução nos caudais destas bacias hidrográficas – e no Rio São Francisco essa redução é muito mais do que visível: é alarmante!

BAMBUÍ, URUCUIA E GUARANI: OS GRANDES AQUÍFEROS DO CERRADO BRASILEIRO

Veredas

Conforme já comentado em post anterior, as áreas de Cerrado concentram nascentes de rios que abastecem 8 das 12 grandes bacias hidrográficas brasileiras. Antes de tratarmos destas bacias hidrográficas, é importante analisarmos os sistemas de aquíferos que alimentam os grandes rios da região.

Aquíferos são formações ou grupos de formações geológicas constituídas por rochas porosas e permeáveis que permitem o armazenamento de grandes volumes de águas das chuvas – essas águas alimentam as nascentes de rios e também podem ser captadas em poços semi-artesianos e artesianos para abastecimento de populações humanas. Apesar de serem apresentados sempre no singular, essas formações são agrupadas na forma de sistemas de aquíferos interligados, que se estendem por grandes áreas geográficas. A região do Cerrado brasileiro possui três grandes aquíferos: o Bambuí, o Urucuia e o Guarani. Vamos analisar esses aquíferos:

O aquífero Bambuí se divide entre áreas do Cerrado e do Semiárido, tendo seu trecho mais importante na região Norte de Minas Gerais, porém sua área natural de recarga abrange uma superfície total de mais de 180 mil km² nos Estados de Minas Gerais, Bahia, Goiás e Tocantins, atendendo um total de 270 municípios, especialmente na região conhecida como Polígono das Secas. Está inserido dentro da bacia hidrográfica do Rio São Francisco, alimentando nascentes de importantes afluentes do rio. As águas deste aquífero são consideradas de boa qualidade e se encontram em profundidades entre 50 e 100 metros. Poços de captação retiram grandes volumes de água deste aquífero para uso no abastecimento de diversos municípios no Norte de Minas Gerais e no Sul da Bahia.

O aquífero Urucuia está localizado integralmente na região do Cerrado e se estende por toda a região Oeste do Estado da Bahia, que concentra entre 75 e 80% da área total, além de trechos nos Estados do Tocantins, Goiás, Piauí, Maranhão e Noroeste de Minas Gerais, ocupando uma área total de 120 mil km². Este sistema de aquíferos têm importância fundamental na regularização da vazão de rios que nascem na região e que correm na direção do Rio São Francisco e que são fundamentais para o abastecimento de cidades e uso em sistemas de irrigação.

As águas dos aquíferos Urucuia e Bambuí são estratégicas para a Região do Semiárido, pois são elas que garantem a perenização de importantes rios da região em épocas de seca prolongada, quando diversos rios menores literalmente secam. Uma característica importante deste sistema de aquíferos é que suas águas se concentram em baixas profundidades e estão sujeitas a contaminação por atividades agropecuárias e destruição da vegetação nativa, o que também compromete a recarga de águas. Outra fonte importante de problemas é a superexploração das águas para fins de irrigação, especialmente na região do Cerrado baiano, uma das frentes agrícolas que mais tem crescido nos últimos anos.

O imenso aquífero Guarani ocupa uma área total de 1,2 milhão de km², se estendendo por áreas das regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil, avançando por regiões do Paraguai, Argentina e Uruguai. É considerado o segundo maior aquífero conhecido do mundo, ficando atrás apenas do sistema de aquíferos Alter do Chão da região amazônica. Alguns cálculos indicam que o Guarani possui uma reserva total de águas que seria suficiente para abastecer toda a população brasileira por até 2.500 anos.

Oito Estados brasileiros abrigam trechos do aquífero Guarani: Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Nestas áreas de ocorrência do aquífero no Brasil, que compreendem 70% da área total da formação, vive uma população estimada em, pelo menos, 30 milhões de habitantes (o mapeamento da área total do aquífero é atualizada constantemente). O aquífero tem 50% de sua extensão em terras brasileiras concentrada em áreas do Cerrado. Cidades do interior de São Paulo são as maiores utilizadoras de águas captadas no aquífero Guarani, a exemplo de Ribeirão Preto, cidade que retira toda a água utilizada para seu abastecimento de poços alimentados pelo aquífero.

Os aquíferos são reservas de água estratégicas, responsáveis pelo fornecimento de até 90% das águas que formam os caudais dos rios da região do Cerrado, especialmente na época da estação da seca. Apesar de serem aparentemente abundantes, as águas dos aquíferos dependem da recarga periódica nas estações das chuvas, quando a vegetação natural do Cerrado permite a infiltração da água no solo. A substituição intensa da vegetação nativa por plantações aumenta grandemente o fluxo de águas na superfície do solo, levando a grandes perdas por evaporação em prejuízo aos aquíferos, provocando reduções importantes na produção de água nas nascentes das bacias hidrográficas da região. É fundamental que se encontro um ponto de equilíbrio entre as atividades agropecuárias e a preservação das matas nativas do Cerrado como forma de se garantir a tradicional abundância das águas na região.

Continuamos no nosso próximo post.

O LOBO GUARÁ, A SOJA E A DESTRUIÇÃO DO CERRADO

Lobo Guará

Se você estiver viajando por uma rodovia e de repente avistar um lobo guará andando nos campos ao redor, com certeza você estará passando por uma área do Cerrado – o lobo guará é uma espécie-chave deste bioma. Por definição, uma espécie-chave, animal ou vegetal, “é aquela que desempenha um papel crítico na manutenção da estrutura de uma comunidade ecológica e cujo impacto é maior do que seria esperado com base na sua abundância relativa ou biomassa total”. A presença de espécies-chave fala muito sobre as condições do meio ambiente, uma vez que esses animais ou plantas interagem direta ou indiretamente com todo o ecossistema, especialmente regulando as cadeias tróficas, que são os fluxos de matéria e energia do sistema. O lobo guará é um canídeo adaptado para a vida em ambientes abertos, com hábitos de vida noturna e com uma alimentação onívora, comendo qualquer coisa que encontre, especialmente pequenos roedores, ovos e aves, raízes e frutas, especialmente a lobeira, uma fruta silvestre muito parecida com o tomate e que pode representar até 50% da dieta do animal. Essa preferência por frutas torna o lobo guará uma espécie com um importante papel na dispersão de frutos do Cerrado a partir das sementes não digeridas, que são expelidas junto com as fezes. Casais de animais da espécie ocupam sozinhos grandes extensões territoriais que podem ter mais de 120 km². O lobo guará é uma espécie que representa o Cerrado brasileiro.

Se você estiver viajando por uma rodovia e de repente se ver cercado por plantações de soja por todos os lados, há uma chance muito grande de se encontrar dentro de uma antiga área de Cerrado, onde a antiga vegetação natural foi substituída por plantações. Dificilmente você conseguirá ver um lobo guará andando por esses campos, porque a soja não faz parte da dieta do animal e, no meio dos imensos campos da cultura, sobra muito pouco espaço para as plantas frutíferas e animais endêmicos do Cerrado. E, infelizmente, o avanço da fronteira agrícola que se viu nos últimos 50 anos já consumiu aproximadamente metade do bioma, fragmentando o Cerrado em inúmeras ilhas – ilhas de vegetação cercadas por campos de grãos por todos os lados.

Conforme comentado no post anterior, as áreas de Cerrado foram consideradas por muito tempo como inadequadas para a agricultura comercial de larga escala. Com solos extremamente ácidos e considerados pouco férteis, extensas regiões do território brasileiro ficaram ocupadas por pequenas propriedades rurais e por reduzidas lavouras de subsistência durante vários séculos. Com o desenvolvimento de tecnologias para a correção do solo e com o desenvolvimento de sementes adaptadas para crescimento em regiões do Cerrado, esse panorama começou a mudar rapidamente já na década de 1970, quando os grandes projetos de ocupação de todo o território brasileiro passaram a ser implementados pelos governos militares. A região do Cerrado era considerada plana e com farta disponibilidade de recursos hídricos para a irrigação. Com a mudança da capital brasileira para a nova cidade de Brasília em 1960, foram feitos grandes investimentos na construção de rodovias em direção ao Planalto Central e em toda a Região Centro-Oeste, o que favorecia tanto o escoamento da produção de grãos quanto o fluxo de imigrantes de outras regiões na direção da nova fronteira agrícola. A expansão dos campos agrícolas se expandiu rapidamente na direção de Mato Grosso, que acabou dividido em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, Rondônia e Acre, de um lado, e Norte de Goiás, que acabou se transformando no Estado de Tocantins, Oeste da Bahia e, mais recentemente, na direção do Sul do Estado do Piauí e do Maranhão. Regiões do Cerrado nos Estados de Minas Gerais, São Paulo e Paraná, que já estavam ocupadas por cidades e plantações experimentaram saltos na produtividade. Atualmente, os antigos domínios do Cerrado concentram 36% de todo o rebanho bovino, 63% da produção de grãos – 30% do Cerrado foi transformado em pastagens para boiadas.

Nos últimos dez anos, o Cerrado foi o bioma brasileiro que sofreu a maior perda de área nativa – 50 mil km², área maior do que o território do Estado do Rio de Janeiro. A região conhecida como Matopiba, que incorpora áreas dos Estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, é a maior fronteira agrícola atual de expansão da cultura da soja e apresenta as maiores perdas de vegetação nativa do Cerrado.

Toda essa expansão de campos agrícolas e de pastagens em áreas de Cerrado tem um alto custo ambiental, que se traduz na redução dos caudais das bacias hidrográficas com nascentes no bioma – das 12 grandes bacias hidrográficas brasileiras, 8 tem nascentes em áreas do Cerrado, com destaque para a bacia do Rio São Francisco. A redução nos volumes de água faz-se sentir por todo o território brasileiro.

Vamos detalhar isso em nosso próximo post.

FALANDO DO CERRADO E DE SUAS RELAÇÕES COM A BACIA HIDROGRÁFICA DO RIO SÃO FRANCISCO

Nascente do Rio São Francisco

No meu último post comecei a falar de uma questão chave para o entendimento da situação de degradação das águas do Rio São Francisco – a destruição sistemática das áreas de Cerrado pela expansão da agricultura. Dentro de todo um mosaico de problemas que, somados, estão destruindo e inviabilizando o Velho Chico, a redução das áreas de Cerrado destaca-se. Esse bioma é reconhecido como “o berço das águas” do Brasil e sua manutenção é essencial para garantir o volume dos caudais da bacia hidrográfica do Rio São Francisco e de outros grandes rios brasileiros. Vamos entender melhor essa questão.

De acordo com informações do Ministério do Meio Ambiente, o Cerrado é o segundo maior bioma da América do Sul, ocupando uma área de 2 milhões de km², somente ficando atrás da Floresta Amazônica, que ocupa uma área de 5,5 milhões de km² em 9 países – 60% da Floresta Amazônica fica em território brasileiro, ocupando cerca de 22% do território nacional. A área do Cerrado abrange os estados de Goiás, Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Bahia, Maranhão, Piauí, Rondônia, Paraná, São Paulo e Distrito Federal, além dos encraves no Amapá, Roraima, Amazonas, e também pequenos trechos na Bolívia e no Paraguai. Neste espaço territorial encontram-se as nascentes de importantes bacias hidrográficas da América do Sul como a Amazônica, Tocantins, Paraguai, Paraná e São Francisco, o que resulta em um elevado potencial aquífero e favorece a sua biodiversidade.

Quando comparado a Floresta Amazônica e a Mata Atlântica, o Cerrado não impressiona à primeira vista – árvores pequenas e retorcidas, com no máximo 15 metros de altura na região dos campos e com até 25 metros nas matas ciliares, espalhadas em grandes espaços de campos abertos com alguns arbustos. Mas isso é só ilusão: o Cerrado é considerado como uma das áreas de savanas mais ricas em biodiversidade do mundo, com 11.627 espécies de plantas nativas já catalogadas em seus diversos tipos de habitats. Em termos de vida animal, o Cerrado também se destaca: são 199 espécies de mamíferos, 837 espécies de aves, 180 espécies de répteis e de 150 espécies de anfíbios. Já foram catalogadas mais de 1.200 espécies de peixes, porém, devido ao encontro de importantes bacias hidrográficas na região, ainda não foi possível se determinar quais espécies são endêmicas do Cerrado. Estimativas recentes mostram que o bioma é refúgio de 13% das borboletas, 35% das abelhas e de 23% dos cupins dos trópicos.

Três dos principais aquíferos da América do Sul encontram-se total ou parcialmente sob áreas do Cerrado: o Guarani, o Bambuí e o Urucuia. As águas das chuvas que caem em áreas do Cerrado infiltram em grande parte nos solos porosos e ficam armazenadas nestes aquíferos. As nascentes em áreas do Cerrado abastecem 8 das 12 principais bacias hidrográficas brasileiras – essa água do subsolo responde por cerca de 90% da vazão dos rios do bioma. A preservação da vegetação é fundamental para que se permita a recarga destes aquíferos.

Os solos do Cerrado são muito antigos e apresentam uma alta porosidade – expostos às chuvas e ao intemperismo ao longo de milhões de anos, esses solos sofreram um processo de lavagem da camada externa pela água, o que diminuiu, em elevado grau, a sua fertilidade ao longo do tempo. Também são solos que apresentam uma elevada acidez e, durante muito tempo, foram considerados inadequados para a agricultura em larga escala. Graças a essas características, o bioma permaneceu praticamente inalterado até meados do século XX. A partir das últimas décadas, tecnologias para a correção dos solos do Cerrado passaram a ser utilizadas, como a calagem – correção da acidez mediante a aplicação de calcário, a adubação fosfatada e a adubação potássica. Por outro lado, a Embrapa – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, desenvolveu variedades de grãos especialmente adaptados às características do Cerrado, com destaque para a soja – o Cerrado deixou de ser o “patinho feio” e se transformou na mais importante fronteira agropecuária do Brasil dos últimos 50 anos, quebrando recordes de produtividade ano após ano. A estimativa da colheita de grãos em 2017 é de 225 milhões de toneladas – o Estado de Minas Gerais deve contribuir com 6% desta produção, concentrando plantações em grande parte das áreas do Cerrado mineiro, lembrando que nestas áreas concentram-se importantes nascentes dos principais rios formadores da bacia hidrográfica do Rio São Francisco.

Depois da Mata Atlântica, o Cerrado é o bioma brasileiro que mais sofreu alterações com a ocupação humana, onde se estima que mais de 50% de suas áreas originais de vegetação natural já foram substituídas por campos agrícolas e pastagens para rebanhos. Além da supressão da vegetação nativa, o que compromete as nascentes de água, essas atividades pressionam os corpos hídricos captando grandes quantidades de água para uso em irrigação, onde excedentes voltam para os leitos dos rios contaminados por fertilizantes e agrotóxicos; sem a proteção da vegetação nativa, grandes volumes de sedimentos dos solos expostos acabam sendo arrastados na direção das calhas dos rios, assoreando e entulhando os canais. Como resultado, bacias hidrográficas como a do São Francisco recebem quantidades de água cada vez menores e com qualidade cada vez mais baixa dos seus antigos tributários do Cerrado.

Continuaremos a falar do Cerrado no próximo post.

AS NASCENTES DE ÁGUAS NAS MINAS GERAIS

Belo Horizonte

A bacia hidrográfica do Rio São Francisco abrange uma área total de 639.217 km² e se estende por sete unidades da federação, englobando um total de 521 municípios, o que corresponde a cerca de 9% do total de municípios do país – mais de 15 milhões de brasileiros vivem na região, o que equivale a 7,5% da população do Brasil. Uma característica interessante da bacia hidrográfica é que ela tem aproximadamente 37% de sua área dentro das fronteiras do Estado de Minas Gerais, porém a contribuição de águas que ela recebe dos inúmeros rios tributários mineiros corresponde a aproximadamente 75% do total de caudais do Rio São Francisco. Para efeito de comparação, o trecho baiano do médio São Francisco desde a divisa de Minas Gerais e Bahia até a cidade de Juazeiro, que representa 45% da área total da bacia hidrográfica, possui afluentes que contribuem com apenas 20% das águas do Velho Chico. Logo, a responsabilidade maior pela qualidade e quantidade das águas da bacia hidrográfica se dá em terras mineiras.

Tomemos como exemplo o Rio das Velhas, o mais extenso e um dos mais importantes afluentes do Rio São Francisco. Durante o histórico Ciclo do Ouro, que já tratamos em post anterior, o Rio das Velhas foi um dos principais eixos da mineração na região central de Minas Gerais, ligando as regiões de Ouro Preto, onde fica a nascente do Rio, Sabará e Santa Luzia ao Rio São Francisco. A importante cidade histórica de Ouro Preto é um marco importante na história do saneamento básico no Brasil – foi uma das primeiras cidades brasileiras a implantar um sistema de águas e esgotos com estações de tratamento, a partir da década de 1870. O Museu da Inconfidência que fica na cidade tem entre suas peças em exposição algumas curiosas manilhas de esgotos antigas, feitas em pedra sabão, datadas do século XVIII. Infelizmente, essa iniciativa pioneira do saneamento básico não avançou e os cuidados com as preciosas águas ficaram muito aquém do que seria esperado.

A bacia hidrográfica do Rio das Velhas abrange 34 municípios, com destaque para grandes cidades como Belo Horizonte (vide foto), Contagem, Betim Nova Lima e Lagoa Santa. A Região tem forte concentração industrial – somente nas sub-bacias dos Ribeirões Arrudas e do Onça existem mais de 3.100 indústrias, das quais metade são consideradas poluidoras, uma vez que as indústrias não realizam um adequado tratamento dos efluentes. Além dos esgotos industriais, as águas recebem enormes quantidades de esgotos domésticos e resíduos da mineração, além de resíduos sólidos descartados de forma inadequada pelas cidades.

O Rio das Velhas é hoje um corpo hídrico altamente poluído e malcheiroso, especialmente a jusante da Região Metropolitana de Belo Horizonte, apresentando altos volumes de esgotos nas suas águas barrentas e em tons vermelhos, cores resultantes da grande quantidade de resíduos de mineração, atividade econômica das mais importantes do Estado de Minas Gerais e causadora de inúmeros problemas ambientais. O alto grau de assoreamento da calha do rio das Velhas também é marcante.

Com uma população de mais de 6 milhões de habitantes, os municípios da Região Metropolitana mineira têm o Rio das Velhas como um dos seus principais mananciais de abastecimento. A água é captada a montante da região, em um trecho onde a água apresenta condições de qualidade um pouco mais favoráveis. A água tratada e potabilizada é distribuída para a população e, após o uso, é devolvida para a bacia hidrográfica do Rio das Velhas com muito esgoto in natura, despejados em afluentes como o Ribeirão Arrudas e Ribeirão do Onça, . Esta situação se repete em centenas de rios que abastecem pequenas e médias cidades em toda a região das Geraes, onde a água dos rios é tratada da mesma maneira. Grandes volumes de esgotos são lançados in natura nos leitos dos rios, se misturando aos resíduos da mineração e da agricultura e degradando cada vez mais os caudais que chegam ao Rio São Francisco.

A cobertura vegetal do Estado de Minas Gerais vem sofrendo um intenso processo de destruição ao longo da história, o que se traduz em impactos importantes nos rios, riachos e demais corpos d’água, especialmente na forma de assoreamento. É importante lembrar que a preservação da cobertura vegetal também é fundamental para a proteção das nascentes e essencial para a recarga dos aquíferos. Dos três biomas originais do Estado, o cerrado é o que mais perdeu vegetação, restando apenas 40% da cobertura original. Da Mata Atlântica e da Caatinga restam, respectivamente, 23% (algumas fontes citam valores menores) e 57%. A bacia hidrográfica do Rio São Francisco em Minas Gerais está localizada, predominantemente, em áreas de cerrado – o grau de devastação deste bioma no Estado, se reflete na situação degradante das águas do Velho Chico.

No próximo post vamos avaliar a situação das áreas do cerrado, bioma conhecido como o “berço das águas” e que concentra grande parte das nascentes da bacia hidrográfica do Velho Chico, que vem sofrendo um intenso processo de destruição devido ao avanço da agricultura nas últimas décadas.