E O VERÃO CHEGA ARREBENTANDO!

 

Rio 40° Graus

Hoje, às 20h22 no horário de Brasília, começa oficialmente o Verão. A depender da região brasileira, essa estação tem características diferentes: na chamada região Centro-Sul, que abrange toda a região Sul, a maior parte da região Sudeste (exceto o Norte de Minas Gerais) e a parte mais ao Sul da região Centro-Oeste, isso significa muito calor e fortes chuvas; nas outras regiões, também muito calor e seca. 

E pelo que se pode observar até agora, este Verão promete ser dos mais quentes em muitos anos. Nas últimas semanas, várias cidades vêm apresentando temperaturas recordes: na última quarta-feira, dia 18 de dezembro, a cidade de Antonina, no litoral do Estado do Paraná, apresentou temperaturas que chegaram à marca dos 41,8° C. De acordo com informações do SIMEPAR – Sistema Meteorológico do Paraná, a sensação térmica na cidade chegou a incríveis 81° C. No mesmo dia, a temperatura na cidade do Rio de Janeiro também superou a barreira dos 40° C, com alguns bairros mais distantes da orla marítima apresentando uma sensação térmica na casa dos 50° C – em linguagem popular, isso é “quente prá dedéu”

Com essas fortes ondas de calor, os temporais de final de tarde são inevitáveis, assim como são as suas consequências: alagamentos e enchentes, deslizamento de morros, trânsito complicado e muita gente desabrigada. Como todos sabem, na maioria das cidades entra governo e sai governo, mas os problemas de saneamento básico continuam os mesmos. Lamentavelmente, postagens tratando de todos esses problemas e suas tragédias anunciadas terão destaque aqui no blog mais uma vez. 

Hoje também é o dia da última postagem deste ano. Hora de agradecer a todos os leitores habituais e aqueles esporádicos, que nos honram com suas visitas. Superamos a marca de 80 mil visitas no ano, o que é pouco quando comparado a outros blogs, mas o número corresponde a quase três vezes o número de visitantes em 2017 e mais de cem vezes o de 2016, quando iniciamos as postagens. Faço votos que as informações e os temas apresentados tenham sido úteis a todos. 

Quando comecei a escrever os primeiros posts em junho de 2016, confesso que tinha material suficiente para 20 publicações talvez. Com a postagem de hoje, atingimos a marca de 653 postagens e ideias para novas publicações não param de surgir. Isso demonstra o quanto os recursos hídricos e o saneamento básico são importantes na vida de todos nós. 

Os melhores desejos de Boas Festas e um ótimo Final de Ano a todos. 

Até 2019! 

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JALAPÃO: O GRANDE “DESERTO” BRASILEIRO

Jalapão

O Jalapão é um grande território natural que ocupa uma área de mais de 34 mil km² no Tocantins e, há vários anos, é considerado como o principal destino turístico desse Estado. O bioma da região é o Cerrado, onde predomina a vegetação de cerrado ralo e a de campos limpos com veredas. A temperatura local média é de 30° C e podem ser encontradas dentro de seus domínios dunas de areia alaranjadas com até 40 metros de altura, característica que lhe rendeu o título de “maior deserto do Brasil”. 

À primeira vista, pode até parecer uma grande contradição o fato de um site que se diz voltado aos recursos hídricos dedicar uma publicação inteira para falar de um deserto. Mas não é – toda a área do Jalapão é cortada por uma imensa rede de rios, riachos e ribeirões de águas cristalinas, além de se encontrar por todos os lados os famosos “fervedouros”, nascentes onde a água brota com força dos solos. A região é, na verdade, um deserto de gentes, com uma densidade demográfica de apenas 0,8 habitante por km². 

O Jalapão fica no Leste de Tocantins, a cerca de 200 km da Capital do Estado, Palmas. Desconhecido da grande maioria dos brasileiros, a região começou a ser descoberta pelo turismo há poucos anos atrás e não saiu mais dos noticiários e programas de TV. Recentemente, suas paisagens foram parte dos cenários de uma novela brasileira; em 2008 foi o palco de um reality show de uma grande rede de TV dos Estados Unidos. 

O nome do lugar deriva de uma flor, a Exogonium officinale, conhecida popularmente como jalapa-do-Brasil, que pode ser encontrada por todos os lugares, desde as formações de cerrado baixo, nos paredões rochosos e até nas matas de galeria encontrada nas margens dos muitos rios do Jalapão como o Rio do Sono, do Soninho, Novo, das Balas, Preto e do Caracol. Destaques da paisagem local, além das famosas dunas, são as serras e os chapadões, com altitude de até 800 metros, de onde despencam inúmeras cachoeiras e nascentes, formando verdadeiros “oasis” no meio desse “deserto”. 

Um dos únicos aglomerados humanos no Jalapão é a comunidade dos Mumbucas, formada por ex-escravos vindos da Bahia, que sobrevivem basicamente da produção de artesanato, onde se destacam as famosas peças feitas com o capim dourado, uma técnica que foi criada nessa comunidade. Bem mais numerosas são as comunidades da fauna típica do Cerrado, onde se destacam os veados-campeiros, lobos-guará, antas, capivaras, tamanduás-bandeiras, macacos, gambás, onças e jacarés, além de cobras como sucuris, cascavéis e jiboias. A avifauna também é bastante rica, incluindo tucanos, papagaios, araras-azuis, emas e urubus. Observem que uma diversidade animal tão grande jamais seria encontrada na região se ela fosse mesmo um deserto. 

A diversidade ecológica de paisagens, de vida animal e vegetal do Jalapão é ampliada graças a existência de outras duas unidades de conservação contíguas: a Estação Ecológica Serra Geral do Tocantins e o Parque Nacional das Nascentes do rio Parnaíba, sob administração do ICMbio – Instituto Chico Mendes de Proteção a Biodiversidade. A essas duas unidades de conservação se junta o Parque Estadual do Jalapão, criado em 2001 pelo Governo do Tocantins, uma unidade de proteção integral com uma área total de 158 mil hectares. Essas três áreas extrapolam os limites do Tocantins e avançam pelos territórios dos Estados vizinhos: Maranhão, Piauí e Bahia, totalizando mais de 959 mil hectares de área de Cerrado sob proteção ambiental. 

O elemento água é, contraditoriamente, uma das grandes atrações do “deserto brasileiro”: são inúmeras as nascentes, praias fluviais, piscinas naturais e quedas d’água espalhadas por todos os cantos do Jalapão e que fazem a festa dos turistas. Uma das grandes opções de banho são os “fervedouros”, grandes poças onde a água morna brota com força do chão e faz a areia e os cascalhos do fundo vibrarem. O nome fervedouro vem da sua semelhança com a água fervendo numa panela e/ou do efeito efervescente de um comprimido de antiácido ao se dissolver num copo de água.

Nas formações rochosas e nos grandes paredões de arenitos se escondem grutas com nascentes de água e cânions, que atraem os visitantes mais aventureiros. Existem diversas trilhas por toda a região, com diferentes graus de dificuldade, que permitem que os visitantes acessem as diferentes atrações do Jalapão, que estão espalhadas por uma área bastante grande e onde nem sempre é possível a utilização de veículos. 

Como é comum nas áreas de Cerrado, as estações do ano no Jalapão se dividem em dois períodos bastantes distintos: a seca e o período das chuvas. A estação das chuvas vai de outubro a abril, o que causa um aumento substancial no volume dos rios, cachoeiras e piscinas naturais da região. No período seco, que vai de maio a setembro, o volume de água dos rios cai bastante, o que favorece o aparecimento dos afloramentos rochosos do leito dos rios – essa é a época ideal para os praticantes de rafting. Durante os meses de verão, o período da seca, as temperaturas no Jalapão variam de 25 a 35°C; no inverno local, período das chuvas, as temperaturas se situam entre 13 e 20° C. 

O Jalapão é, sobretudo, um resumo das belezas naturais, recurso hídricos e ecossistemas do Cerrado Brasileiro, um dos nossos biomas mais ameaçados pelo avanço das fronteiras agrícolas, especialmente na região onde se encontra o nosso “deserto” – o MATOPIBA, formada por trechos dos Estados do MAranhão, TOcantins, PIauí,  e BAhia. 

Vale muito a pena conhecer para aprender a preservar.

Chapada do Jalapão

A CHAPADA DOS GUIMARÃES

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Localizada nos arredores da cidade de Cuiabá, no Estado do Mato Grosso, a Chapada dos Guimarães está localizada no ponto de junção de três formações geológicas diferentes: a Formação Botucatu que, conforme já comentamos em uma postagem anterior, corresponde aos solos de um antigo deserto; a Formação Furnas, que já foi o fundo de um mar interno e a Formação Ponta Grossa, que está ligada à bacia hidrográfica do rio Paraná e onde predominam solos com rochas argilosas (folhelhos) ricas em fósseis. O bioma predominante na região é o Cerrado, mas também se encontram fragmentos da vegetação do Pantanal Mato-Grossense e da Floresta Amazônica.  

Em alguns trechos da Chapada dos Guimarães encontramos formações com árvores de grande porte, com espécies típicas da Mata Atlântica, bioma cujos limites se encontram a mais de mil quilômetros de distância. Alguns estudiosos sugerem que, em tempos mais antigos e com um clima diferente, a Mata Atlântica poderia ter avançado na direção da formação geológica, tendo retrocedido depois para os limites atuais. A formação da Chapada dos Guimarães começou a cerca de 500 milhões de anos, tempo de sobra para testemunhar as mais diferentes mudanças climáticas regionais e mundiais. 

A localização bastante particular da Chapada dos Guimarães se reflete em uma enorme biodiversidade animal e vegetal. Só de aves existem registros de, pelo menos, 400 espécies dos biomas Cerrado, Pantanal e Amazônico. Essa riqueza de espécies se reflete em mamíferos, répteis, anfíbios, peixes, insetos e também em espécies vegetais. Os recursos hídricos são um destaque da formação, que concentra inúmeras nascentes de rios importantes como o Coxipó-açu, o Manso e o Cuiabá, que estão entre os principais formadores do Pantanal Moto-Grossense. 

A água é um dos elementos de destaque entre as paisagens rochosas da Chapada dos Guimarães. Existem centenas de quedas d’água que brotam, literalmente, das rochas – a Cachoeira Véu de Noiva (vide foto), com cerca de 86 metros de altura, é a mais famosa e é um dos cartões postais da formação. Uma das mais conhecidas rotas turísticas da Chapada dos Guimarães é o Circuito das Cachoeiras, onde se encontram seis quedas d’água: das Andorinhas, da Prainha, do Pulo, dos Degraus, 7 de setembro e da Independência. 

Entre as formações rochosas, um dos destaques é o Morro de São Jerônimo, um enorme chapadão no formato de uma mesa, com altitudes que atingem a casa dos 805 metros em relação ao nível do mar. Consta que o nome do morro foi dado pelos primeiros bandeirantes que visitaram a região a partir de 1719, época das primeiras descobertas de ouro na região de Cuiabá. Consta que esses primeiros explorados rogavam a proteção de São Jerônimo ao se aventurar pelo alto dos penhascos e platôs; batizaram o morro com este nome em homenagem ao seu santo protetor. Outro ponto de visitação obrigatória é a Cidade de Pedra, conjunto de formações rochosas que lembram as ruínas de uma cidade antiga. 

Determinado pela Expedição Rondon no início do século XX, o Marco Geodésico é outro ponto turístico muito visitado. A Chapada dos Guimarães está no centro geodésico da América do Sul, alinhada com as cidades de Brasília e de Porto Seguro, além do Lago Titicaca, na divisa entre a Bolívia e o Peru. Os mais místicos acreditam que, graças a essa localização privilegiada, a Chapada dos Guimarães é um grande “centro de energia”. 

Um passeio que muitos turistas classificam como imperdível é a visita à Caverna Aroe Jari, “a morada dos deuses”, que fica a cerca de 45 km da Chapada dos Guimarães, dentro de uma propriedade particular. Trata-se da maior gruta de arenito do Brasil, medindo cerca de 1,5 km de extensão, com vários trechos alagados e paredes com muitas pinturas rupestre, herança das diversas tribos indígenas que viveram na região antes da chegada dos “brancos”. A grande surpresa está no final da gruta, onde se encontra a Lagoa Azul, formada por águas ricas em calcário, com uma grande transparência e uma cor azul impressionante.  

A história da região, conforme já comentamos, está ligada diretamente ao descobrimento das minas de ouro de Cuiabá pela bandeira de Pascoal Moreira Cabral em 1719. Como todos devem recordar, à época das grandes expedições marítimas de Portugal e de Espanha, no final do século XV, foi celebrado o Tratado de Tordesilhas, assinado em 1494 pelo Reino de Portugal e a Coroa de Castela. Pelo Tratado, as terras descobertas a Leste do Meridiano de Tordesilhas pertenceriam à Espanha e a Oeste ficariam com o Portugal.  

O Meridiano de Tordesilhas cruzava o território brasileiro na altura da cidade de Belém do Pará, o que colocava toda a região do antigo Mato Grosso dentro de território espanhol. Desde o início do século XVII, expedições de bandeirantes paulistas invadiam esse território na caça aos índios “mansos”, já catequizados pelos jesuítas espanhóis – foram inúmeros os conflitos armados com as tropas da Espanha na região. As descobertas de ouro em Cuiabá e, poucos anos depois, em Goiás por esses paulistas, levou a uma revisão dos limites territoriais entre Portugal e Espanha, consolidadas pelos Tratados de Madri, em 1750, e de Santo Ildefonso, em 1777.

A preservação ambiental de toda a Chapada dos Guimarães remonta ao início do século XX, quando as autoridades do antigo Estado de Mato Grosso se mostraram preocupadas com o avanço dos desmatamentos na direção da formação geológica, onde se concentram as nascentes do rio Cuiabá. A navegação pelas águas desse rio era fundamental para a cidade e toda a região – qualquer possível ameaça aos seus caudais precisava ser contida. Um decreto de 1910, assinado pelo Vice-Presidente do Estado do Mato Grosso, Coronel Pedro Celestino Corrêa da Costa, transformou em área de utilidade pública (algo que chamaríamos hoje de área de preservação ambiental) todas as terras de uma faixa de 2 km a partir da base das encostas da Chapada dos Guimarães.

Em 1989 foi criado no local o Parque Nacional da Chapada dos Guimarães, que está sob a administração do ICMbio – Instituto Chico Mendes de Preservação da Biodiversidade. O Parque Nacional possui uma área total de 33 mil hectares e está dividido entre os municípios de Chapada dos Guimarães e Cuiabá, município que concentra 65% da área protegida do Parque. A visão da área urbana da cidade de Cuiabá, com seus muitos edifícios e construções, é uma das principais paisagens vistas a partir do alto do Morro de São Jerônimo, o que não deixa de ser algo inusitado em uma grande área de preservação ambiental.

CAPARAÓ: A SERRA DO BOI BRAVO

A Serra do Caparaó

Conta um antigo “causo” popular, daqueles que se conta e reconta de geração para geração, que existia numa região serrana um boi selvagem e muito bravo, que os locais chamavam de “Ó”. Esse boi aterrorizava e atacava qualquer viajante desavisado que, porventura, se atrevesse a cruzar por qualquer um dos muitos caminhos da região. Cansados de ouvir relatos dos ataques covardes desse boi selvagem, três destemidos boiadeiros resolveram colocar um ponto final nessa história – eles se embrenharam nas matas da serra, laçaram o boi e o caparam. Com o passar do tempo, a descrição do triste fim do boi correu por todos os lados da serra – “caparam o Ó”.  Dizem que vem daí a origem do nome que foi dado àquelas montanhas – Serra do Caparaó. 

Localizada na divisa dos Estados de Minas Gerais e Espírito Santo, a Serra do Caparaó apresenta a segunda maior quota de altitudes do Brasil e possui a terceira montanha mais alta do país, o Pico da Bandeira, que tem 2.892 metros em relação ao nível do mar. A Serra também é palco de belíssimas paisagens, com montanhas, rios, cachoeiras e vales, além de possuir as maiores plantações de café arábica do país. 

A Serra do Caparaó é considerada a “capital” dos montanhistas do Brasil, país que apresenta pouquíssimas regiões com elevações superiores aos 2 mil metros. Além do famoso Pico da Bandeira, a Serra possui outras montanhas cobiçadas por esses esportistas: o Pico do Calçado, com 2.849 metros, e o Pico do Cristal, com 2.770 metros, no lado mineiro da Serra. No lado capixaba, que concentra 80% da formação geológica, os destaques são: o Morro da Cruz do Negro, com 2.658, o Pico da Pedra Roxa, com 2.649 metros, o Pico dos Cabritos ou do Tesouro, com 2.620 metros, o Pico do Tesourinho, com 2.584 metros e a Pedra da Menina, com 2.037 metros de altitude. 

As encostas e vales da Serra do Caparaó abrigam alguns dos mais representativos fragmentos preservados da Mata Atlântica no Estado do Espírito Santo, onde são encontradas diversas espécies animais e vegetais endêmicas do bioma. Entre essa vegetação nativa se destacam os campos de altitude, um tipo de vegetação que ocorre nos platôs e encostas mais altas da Serra do Caparaó. Na formação geológica também se encontram inúmeras nascentes associadas a três importantes bacias hidrográficas: dos rios Itabapoana, Itapemirim e Doce.

A importância ambiental das áreas florestais e formações geológicas da região levou à criação do Parque Nacional da Serra do Caparaó através de Decreto Federal de 1961. A história da proteção ambiental da área é, porém, mais antiga e data de 1911, quando os maciços de grande altitude da região começaram a ser estudados e se determinou, pela primeira vez, a altitude do Pico da Bandeira. As diversas expedições científicas brasileiras e estrangeiras que se sucederam, especialmente a partir de 1922, observaram a grande concentração de espécies animais e vegetais em uma área relativamente pequena. Diversas reportagens sobre as descobertas nessa região criaram uma mobilização social no sentido da criação de uma área de preservação ambiental. Em 1948, um Decreto Estadual do Espírito Santo criou a Reserva Florestal do Pico da Bandeira, que foi o embrião para a futura criação do Parque Nacional. 

O Parque Nacional da Serra do Caparaó ocupa uma área de 31.800 hectares e se encontra sob a administração do ICMbio – Instituto Chico Mendes de Preservação da Biodiversidade, e se distribui entre os municípios de Alto Caparaó, em Minas Gerais, e Dores do Rio Preto, no Espírito Santo. A principal atração do Parque, como não poderia deixar de ser, é o Pico da Bandeira. Entretanto, ele não é a única: o visitante encontrará diversos mirantes, cachoeiras, piscinas naturais e vales, abertos para visitação pública durante o ano todo. Outra grande atração, conforme já comentamos, são diversas outras montanhas com altitudes acima dos 2 mil metros, que fazem a alegria de turistas, aventureiros e montanhistas de todo o Brasil. 

O Parque está organizado através de um sistema de trilhas bem sinalizadas, que permitem que os turistas encontrem as principais atrações sem maiores dificuldades. As principais trilhas são as que levam ao Pico da Bandeira, que pode ser alcançado tanto pelo lado mineiro, pela Trilha Tronqueira – Terreirão – Pico da Bandeira, quanto pelo lado capixaba do Parque, conhecida como Trilha Casa Queimada – Pico do Calçado – Pico da Bandeira. Outras trilhas permitem a visitação às diferentes formações vegetais do Parque, especialmente os campos de altitude. Os visitantes têm à sua disposição quatro áreas de acampamento, dotadas de banheiros, lava-pratos, mesas e bancos. Alguns desses acampamentos possuem quiosques e churrasqueiras. 

Durante séculos, toda a região da Serra do Caparaó foi habitada por agrupamentos indígenas das etnias dos Botocudos, Puris e Tapuias; posteriormente, a região passou a ser ocupada por índios Tupis. Os primeiros aventureiros de origem europeia chegaram na região no início do século XVII em busca de ouro e pedras preciosas; os povoados  locais surgiram em função da mineração. A partir do século XVIII, com o esgotamento das reservas de ouro, a região passou a assistir ao início do cultivo do café arábica e de outras culturas de subsistência.  

Foi a partir do início do século XIX, quando o café passou a conquistar o paladar de europeus e norte-americanos e a commodity passou a ser altamente valorizada, que a Serra do Caparaó começou a ganhar destaque na cafeicultura. Também foi no final desse século que a região passou a atrair grandes contingentes de imigrantes estrangeiros como italianos, alemães, suíços, espanhóis e portugueses. 

Há uma particularidade histórica importante na Serra do Caparaó – os tropeiros mineiros. Conforme já comentamos em uma postagem anterior, a região da foz do rio Doce era controlada pelos ferozes índios antropófagos da tribo dos Botocudos. Os ataques desses índios impediram, por mais de dois séculos, o uso da navegação fluvial para o transporte de mercadorias e de pessoas por esse rio para as regiões de mineração nas Minas Geraes. As comunicações entre o interior e o litoral só podiam então ser feitas por via terrestre.

Os transportes de pessoas e de produtos, incluindo-se aqui o café, passou a ser feito com animais de carga através de trilhas pela Serra do Caparaó, que se tornaram uma das poucas opções para as comunicações entre importantes regiões dos sertões das Minas Gerais e o litoral do Espírito Santo. Essas rotas tropeiras influenciaram consideravelmente o povoamento e a cultura de toda a região serrana do Caparaó. 

Como se vê, não é de hoje que os mineiros têm essa preferência pelas belas praias capixabas… 

A SERRA DO CASTELO, MAIS CONHECIDA COMO SERRA CAPIXABA

Serra do Castelo

A Serra da Mantiqueira é uma cadeia montanhosa com cerca de 500 km que estende desde a divisa de São Paulo e Minas Gerais, nas proximidades da cidade de Bragança Paulista, segue na direção do Estado do Rio de Janeiro e depois vira para o Norte, na direção da cidade mineira de Barbacena. Uma ramificação da Serra da Mantiqueira resolveu dar uma “esticada” até o Espírito Santo, gostou do clima e acabou ficando por lá. Falamos da Serra do Castelo, que é mais conhecida entre os locais como Serra Capixaba. 

A Serra do Castelo ocupa a região central do Espírito Santo, indo das cercanias da famosa cidade de Cachoeiro de Itapemirim até Colatina, marcando o relevo com uma altitude média na casa dos 750 metros, com muitos vales e fartos recursos hídricos. Essa formação geológica ocupa aproximadamente 1/3 da superfície do Espírito Santo, Estado que tem mais da metade de seu território ocupado por serras, onde a altitude média é superior aos 600 metros. 

Abrangendo mais de vinte municípios capixabas, a Serra do Castelo também concentra algumas das maiores elevações do Espírito Santo, com destaque para o Pico do Forno Grande, localizado no município de Castelo, que tem 2.039 metros de altitude, a quinta maior do Estado. A pedra Três Pontões vem na sequência, com 1.968 metros, seguida pela Cordilheira do Empoçado com perto de 1.900 metros, em Afonso Cláudio, e a Pedra das Flores com 1.909 metros de altitude, localizada em Domingos Martins. 

Herdeira do DNA da Serra da Mantiqueira, a Serra do Castelo abriga importantes nascentes e afloramentos de água, que formam importantes rios do Espírito Santo. Além de possuir solos de origem sedimentar propícios à infiltração e ao acúmulo de água, a Serra do Castelo possui uma precipitação média anual de 2.300 mm, muito acima da média das regiões da planície litorânea do Espírito Santo, onde a precipitação média anual das chuvas é da ordem de 1.200 mm.  

A temperatura média na Serra do Castelo é bastante amena, quando comparada às regiões da planície litorânea, variando entre 12 e 20° C. Importantes fragmentos da vegetação original de Mata Atlântica estão preservados nas encostas dos seus morros e vales, oferecendo habitats importantes para a preservação de inúmeras espécies animais e vegetais sob risco de extinção. Assim como acontece em outras regiões serranas do Brasil onde há altos níveis de precipitação, a Serra do Castelo costuma apresentar forte neblina em algumas regiões, o que pode causar graves acidentes nas rodovias que cruzam a formação, o que requer atenção redobrada dos motoristas. 

Os primeiros aventureiros chegaram na região ainda no século XVII em busca do cobiçado ouro. A semelhança que viram entre os grandes paredões de pedra de uma formação rochosa, conhecida atualmente como Pico do Forno Grande, e as muralhas das antigas cidades medievais da Europa, acabou inspirando  o nome que seria dado a região – Serra do Castelo. Os primeiros assentamentos na região datam de meados do século XVII, quando os jesuítas criaram as suas missões para catequização dos indígenas, que ficaram conhecidas na história como as Missões de Montes Castellos. Essas Missões formaram as bases urbanas de muitas cidades que viriam a ser fundadas na Serra do Castelo.

No final do século XIX começaram a chegar na região os primeiros imigrantes italianos e alemães, especialmente da Pomerânia, que mudariam para sempre a Serra do Castelo. Vivendo em pequenas propriedades, nas cercanias de cidades como Santa Maria de Jetibá, Venda Nova do Imigrante e Domingos Martins, esses imigrantes passaram a se dedicar ao cultivo do café, produto que ainda hoje é uma das principais atividades econômicas regionais. Também são importantes os cultivos de frutas de clima temperado, com destaque para a uva e o morango – a cidade de Domingos Martins é a maior produtora dessa fruta no Brasil. 

A cultura dos imigrantes deixou marcas profundas na Serra do Castelo, que hoje fazem parte da sua própria identidade cultural. Conforme as tradições de seus países e regiões de origem, esses imigrantes, especialmente os italianos, tinham o hábito de produzir a maior parte dos alimentos consumidos pelas famílias nas próprias casas. Essa produção incluía pães, queijos, as massas, entre outros produtos. Mantidas essas tradições ao longo de várias gerações, elas acabaram se transformando em atrações turísticas na Serra – falamos do agroturismo, uma atividade que não para de crescer. 

A cidade de Venda Nova do Imigrante foi a primeira cidade capixaba a organizar, um tanto que aleatoriamente, o seu agroturismo. Visitantes de outras regiões do Estado e do país começaram a visitar a cidade e muitas das suas propriedades rurais a fim de conhecer e comprar esses produtos caseiros.  A atividade foi ganhando cada vez maior volume e visibilidade, empregando muita gente e trazendo muitos recursos para as famílias e para a cidade.  

A ideia começou a se espalhar por outras cidades, onde as famílias começaram a vender sua própria produção, onde se incluem geleias, bolos, pães, massas, doces, biscoitos, fubá, leites, queijos, ricota e iogurte, além de vinhos, licores e cachaças. Algumas propriedades também vendem frutas produzidas sem agrotóxicos. Essa atividade, que mistura turismo, cultura, produção e comércio, é hoje uma importante atividade econômica regional e muitas das Prefeituras locais vem trabalhando para a criação de um Selo de Qualidade para os produtos da Serra de Castelo, a exemplo do que já é feito na Serra da Canastra, em Minas Gerais. 

E na esteira dessa tradição gastronômica, foram surgindo diversas festas regionais que atraem um grande público para a região serrana, Entre os destaques temos o Festival de Inverno de Guaçuí, a Festa da Polenta de Venda Nova do Imigrante e a Festa da Pizza em São José do Alto Viçosa (Venda Nova do Imigrante), e por aí vai. 

Fica assim mais um registro dessa nossa série de postagens sobre as Serras e as Águas – Serra do Castelo, no Espírito Santo. 

 

 

A ESTRADA REAL DOS DIAMANTES, OU SE AVENTURANDO PELA SERRA DO ESPINHAÇO

Estrada Real dos Diamantes

Ao longo de várias postagens consecutivas, apresentamos aspectos gerais da Serra do Espinhaço, uma imponente formação geológica que se estende por mais de 1.000 km, desde de Ouro Branco, no Estado de Minas Gerais, até a grande região de Morro do Chapéu, no interior da Bahia. A formação é dividida em vários trechos, que recebem nomes como Serra de Deus-te-livre ou Serra de Ouro Branco, Serra do Cipó, Serra dos Cristais, Serra Geral ou, simplesmente, Chapada Diamantina. Para muitos especialistas, a formação geológica é na verdade uma cordilheira, a Cordilheira Brasileira. 

Para nós da área dos recursos hídricos, a Serra do Espinhaço, de uma ponta até a outra, é uma sucessão de “caixas d’água” – suas rochas de origem sedimentar e seus solos porosos armazenam grandes volumes das águas das chuvas, que afloram em milhares de nascentes e olhos d’água por todos os lados, formando riachos, rios, cachoeiras, corredeiras e piscinas naturais de todos os tipos. Em muitas locais, como no interior da Bahia, essa fartura de água forma verdadeiros oásis verdejantes no meio dos sertões da Caatinga, como no caso das formações da Chapada Diamantina. 

Além dos aspectos naturais, a Serra do Espinhaço ainda guarda surpresas ligadas à longa ocupação humana em seus domínios – entre as cidades de Diamantina e Ouro Preto existe um interessante caminho histórico criado ainda nos tempos do domínio Colonial – a Estrada Real dos Diamantes. Com cerca de 290 km de extensão, essa Estrada foi construída com o objetivo de permitir o transporte seguro e controlado dos diamantes e do ouro garimpados no Distrito Diamantino até a antiga cidade de Ouro Preto, um dos mais importantes pólos de mineração no período conhecido como Ciclo do Ouro. Dali, os carregamentos seguiam para Parati, no chamado Caminho Velho, e para a cidade do Rio de Janeiro, no chamado Caminho Novo. 

 O Distrito Diamantino era tão estratégico para a Coroa Portuguesa na época que acabou sendo transformado em uma área de segurança fechada, com acesso controlado por tropas militares. Às autoridades do Governo Geral da Colônia cabia o direito de cobrar o Quinto, um imposto correspondente a 20% do valor do ouro e dos diamantes, além de garantir o monopólio do transporte, fundição (no caso do ouro) e comercialização. A construção das Estradas Reais era uma estratégia dos Governantes para evitar o “descaminho” desses bens minerais, ou seja, o transporte por trilhas e caminhos alternativos para se fugir do rígido controle da Coroa Portuguesa.  

A Estrada Real dos Diamantes, assim como outros desses importantes caminhos, sobreviveu ao tempo e é hoje uma importante atração turística de Minas Gerais, que segue paralela a Serra do Espinhaço por um longo trecho. Grupos de turistas e aventureiros, seguindo a pé, de bicicleta, de motocicleta, em veículos 4 x 4, ou até a cavalo, se embrenham por esse magnífico caminho nos sertões de Minas Gerais em busca de belezas naturais, arquitetura colonial e vestígios arqueológicos, cultura, folclore e boa comida.

Cerca de 2/3 da Estrada Real dos Diamantes é formado por caminhos de terra atravessando áreas pouco habitadas, característica que exige um bom planejamento logístico de qualquer aventureiro – comida, água, kits para emergências médicas, mapas, aparelhos GPS (Posicionamento Global por Satélite), gasolina extra, entre outras providências. Os entendidos no assunto recomendam fazer a travessia somente em grupo e nunca tentar seguir pelas trilhas à noite. 

Alguns trechos da antiga Estrada foram incorporados por rodovias asfaltadas que, apesar de oferecer maior conforto devido ao nivelamento do piso, requerem atenção redobrado por causa do tráfego simultâneo de carros e caminhões. No trecho de 11 km da rodovia que separa as cidades de Mariana e Ouro Preto, a cautela precisa ser ainda maior – a pista é estreita, cheia de curvas e muito movimentada. 

Existem algumas regiões onde há forte atividade de mineração, com tráfego intenso de caminhões, o que também deve exigir grande cautela ao trafegar. Esses locais permitem que o viajante perceba claramente os danos que as atividades mineradoras causam ao meio ambiente, especialmente em áreas de relevo acidentado das Serras. 

O Instituto Estrada Real, uma entidade sem fins lucrativos mantida por parcerias com empresas da iniciativa privada, realizou um importante trabalho de sinalização de todos os trechos da Estrada Real, inclusive no Caminho dos Diamantes. A cada 2 km, um marco de concreto com o símbolo da Estrada Real indica que o viajante está no caminho correto (vide foto). Com um detalhe interessante – se o marco estiver no lado direito da Estrada, o viajante deve manter a direção à direita; se estiver na esquerda, ele deve virar à esquerda. Funcionários do Instituto percorrem frequentemente os trechos dos 1.660 km das Estradas Reais fazendo a manutenção desses marcos. 

Para incentivar ainda mais o turismo, o Instituto Estrada Real criou o Passaporte Estrada Real, que é gratuito e individual. O interessado faz um cadastro no site da instituição, recebe um número de registro via email. Esse número deve ser apresentado num dos postos de retirada, momento em que o viajante deve entregar 1 kg de alimento não perecível ou um agasalho, que serão doados para as famílias carentes da região. Com o Passaporte em mãos, o viajante receberá carimbos nos Postos de Carimbo das cidades visitadas e poderá ganhar um certificado digital emitido pelo Instituto Estrada Real. A ideal segue o padrão usado por alguns caminhos religiosos como o de Santiago de Compostela, entre a França e a Espanha. 

Fica essa dica cultural para todos – um verdadeiro curso de educação ambiental ao longo da Serra do Espinhaço, com muita aventura, cultura e boa culinária, que poderá lhe render um certificado digital no final. 

Vamo bora lá! 

A SERRA DE DEUS-TE-LIVRE, OU FALANDO DA SERRA DE OURO BRANCO

Serra de Ouro Branco

A Serra de Ouro Branco é uma formação rochosa com aproximadamente 20 km de extensão, 1.614 hectares de área e com altitudes médias entre 1.250 e 1.568 metros, que surge abruptamente sobre o relevo nas proximidades da cidade homônima. A formação geológica marca o limite Sul da Serra do Espinhaço, província geológica que se estenderá por mais de 1.000 km na direção Norte, até o interior do Estado da Bahia. Nos tempos do Ciclo do Ouro, que perdurou ao longo de todo o século XVIII, ela era conhecida pelos populares como Serra de Deus-te-livre.  

A Estrada Real, um caminho criado para escoar o ouro e os diamantes extraídos nas Minas Gerais para cidade de Parati, no litoral Sul do Estado do Rio de Janeiro, e que depois seguiam para Portugal, atravessa a Serra de Ouro Branco através de uma passagem difícil. Salteadores e bandidos de todas as espécies se escondiam ao longo dessa passagem, buscando oportunidades de atacar os carregamentos Reais. A prece “Deus te livre” era invocada pelos religiosos nas bênçãos dadas aos soldados e tropeiros que partiam de Ouro Branco e que teriam a difícil missão de cruzar a Serra de Ouro Branco. Vem daí o nome dado pelos populares a Serra.

Apesar de ser relativamente pequena, a Serra de Ouro Branco possui uma grande diversidade de formações vegetais, a começar pelos campos rupestres, sobre os quais falamos na última postagem. O mosaico inclui ainda matas de galerias, capões, afloramentos rochosos, campos de gramíneas, campos de brejos e, por fim, os chamados campos de Vellozia squamata, uma planta conhecida popularmente como canela-de-ema. Muitas das espécies encontradas na Serra são endêmicas, ou seja, só são encontradas na formação.

Além dessa complexa e rica cobertura vegetal, a Serra de Ouro Branco ainda apresenta em suas paisagens inúmeros sítios arqueológicos, antigas fazendas e casarios com arquitetura colonial. Entre os vestígios arqueológicos existentes, há alguns bem vergonhosos – existe um trecho da Estrada Real, inclusive com várias pontes de pedra finalizadas e nunca usadas, que teve a sua construção abandonada pelas autoridades da época. O desperdício de dinheiro público em obras inúteis, talvez até com superfaturamento, faz parte da história de nosso país.

A Serra de Ouro Branco teve uma grande importância histórica no povoamento das Minas Gerais – exploradores da bandeira paulista de Manuel Borba Gato encontraram veios de ouro na região no final do século XVII. O ouro encontrado tinha uma coloração pálida, sendo chamado de “ouro branco” pelos bandeirantes. O nome da Serra e do povoado, fundado por volta de 1694 com o nome de Santo Antônio de Ouro Branco, tem ligação direta com os achados auríferos. Até a chegada dos primeiros bandeirantes, a região era habitada pelos ferozes índios Carijós. 

Os solos de origem sedimentar, em sua maioria do tipo arenoso oriundo de rochas quatzíticas, proporcionam fartos recursos hídricos e formam importantes áreas de recarga dos aquíferos que alimentam as bacias hidrográficas dos rios Paraopebas e Doce. Algumas das suas nascentes alimentam o lago da Barragem de Soledade, construído na década de 1970 e responsável pelo abastecimento da cidade de Ouro Branco. Os moradores locais, como bons mineiros que são, contam muitos “causos” e estórias de assombração envolvendo a Serra de Ouro Branco e seus arredores. 

Uma dessas estórias envolve justamente a Barragem de Soledade – contam os locais que o espectro fantasmagórico de um antigo frade costuma aparecer durante as noites, após a meia-noite como sempre se diz nesses contos, assustando qualquer transeunte desavisado. Existia na área inundada da barragem uma espécie de convento religioso e um dos frades da ordem lutou bravamente contra as autoridades, tentando evitar que a construção fosse desapropriada. Como a área era de um particular que simplesmente emprestava o lugar para os frades, a justiça ordenou que os religiosos desocupassem o lugar. Diz-se então que, mesmo depois de morto, o fantasma do frade inconformado volta para protestar. 

Outras narrativas populares, das mais deliciosas, falam de um grande tesouro  escondido numa gruta nas encostas íngreme da Serra, tendo como protagonista ninguém menos que Joaquim José da Silva Xavier, mais conhecido entre nós como Tiradentes, o mártir da Inconfidência Mineira. Segundo se conta, lembrando do antigo ditado popular “quem conta um conto aumenta um ponto”, Tiradentes era amigo dos responsáveis pela coleta dos dízimos nas igrejas da região, que também eram os encarregados pelo transporte dos valores, numa rota que passava pela cidade de Ouro Branco..

É justamente aqui onde reside o problema: dizem que os valores registrados como “saída” de dízimo nas igrejas em Ouro Preto, a cidade mais rica da região, são maiores do que os valores efetivamente registrados como “entrada” nas igrejas da cidade de Ouro Branco. De acordo com os entusiastas dessa teoria da conspiração mineira, Tiradentes e seus comparsas roubavam parte do dinheiro, que era escondido na dita gruta dos paredões da Serra. 

Há nesse particular, inclusive, descrição de atos com requintes de crueldade – um escravo era baixado até a gruta por meio de cordas, com a missão de esconder o tesouro, e, para evitar que ele revelasse o local para outras pessoas, acabava sendo largado na gruta; os mais trágicos afirmam que muitos escravos, em desespero, acabavam se jogando paredão abaixo. Essa lenda, por mais sem pé nem cabeça que seja, já povoou os sonhos de muita gente – muitos desses saíram em aventura pelos rincões da Serra de Ouro Branco, na esperança de comprovar a veracidade da conversa. 

Mesmo que você não acredite nas narrativas sobre fantasmas ou sobre esse tesouro escondido, a Serra de Ouro Branco tem muitos tesouros naturais que estão as sua espera, que vão te surpreender positivamente. Aventure-se por lá!