FALANDO DE LATAS DE AÇO, OU OS MENINOS CARVOEIROS

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Comecemos com um pouco de poesia:

Os meninos carvoeiros
Passam a caminho da cidade.
— Eh, carvoero!
E vão tocando os animais com um relho enorme.

Os burros são magrinhos e velhos.
Cada um leva seis sacos de carvão de lenha.
A aniagem é toda remendada.
Os carvões caem…

Esses são os versos iniciais do antológico poema Meninos Carvoeiros, escrito em 1921 por um dos maiores poetas da história do Brasil – Manuel Bandeira.

Eu imagino que sua pergunta inicial é: o que tem a ver latas com meninos carvoeiros? Muita coisa – vou explicar:

Existe uma extensa faixa à leste do território do Estado de Minas Gerais (faixa existente também em estados da região Nordeste) conhecida por Zona da Mata – ironicamente, você vai ter de viajar por muitos e muitos quilômetros nessa região para conseguir avistar alguns fragmentos florestais remanescentes da antiga mata, a Mata Atlântica. E por que isso?

O Brasil, apesar de possuir algumas das maiores reservas de minerais ferrosos do mundo, é extremamente pobre em carvão mineral. Esse mineral, fundamental para a operação dos altos-fornos das empresas metalúrgicas e siderúrgicas, só é encontrado em minas na região sul do país, particularmente em Santa Catarina. Esse carvão brasileiro é de baixa qualidade, com baixo poder calórico e quantidade de elevada cinza – mais da metade do carvão mineral usado aqui no Brasil é importado.

Desde o início da atividade mineradora, com destaque ao ciclo do ouro nos séculos XVII e XVIII, o carvão vegetal foi o combustível que ardeu nos fornos, transformando os minerais extraídos do chão em metais – do cobiçado ouro ao ordinário ferro do dia a dia da população. E foram as árvores dos antigos domínios da Mata Atlântica que foram derrubadas e transformadas no carvão que alimentou ininterruptamente as fornalhas insaciáveis dos fornos mineiros. Respondendo ao mistério do desaparecimento da Mata: virou carvão.

Apesar de todos os esforços que são feitos até hoje pelo uso de carvão vegetal de florestas plantadas de eucaliptos, são muitas as pequenas produtoras de ferro gusa (ferro pré processado que vai para as grandes siderúrgicas) que ainda fazem vista grossa e compram o produto de carvoarias familiares que usam árvores derrubadas dos fragmentos florestais que teimam em sobreviver. Com a escassez cada vez maior de matas, são as folclóricas veredas (tipo de formação vegetal do Cerrado encontrada nas florestas de galeria), dos textos de Guimarães Rosas, que estão nos fornos carvoeiros dos sertões do norte das Minas Gerais a arder nos dias de hoje. E como é difícil separar o meio ambiente dos meios econômico e social, essas carvoarias clandestinas utilizam da mão de obra infantil, transformando o delito ambiental num crime completo: “Nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligencia punindo na forma da lei qualquer atentado, por ação ou omissão, aos seus direitos fundamentais (Artigo 5 da Lei nº, 8.069/90, de 13 de julho de 1990 – Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA).”

Se você pesquisar os gráficos que mostram a evolução dos índices de desmatamento em Minas Gerais, vai perceber um intenso crescimento a partir de meados da década de 1950 – o início da produção dos automóveis do Brasil também foi um marco do início do fim da Zona da Mata mineira. Os fornos arderam dia e noite para produzir o ferro gusa, matéria prima básica para a produção do cobiçado aço, que por fim seria transformado em carros, caminhões, eletrodomésticos, panelas, talheres e também nas singelas latas, embalagens das mais comuns do nosso cotidiano.

Nas Minas Gerais de hoje, talvez pela falta de matas ou pelo controle cada vez maior das autoridades, é cada vez menos frequente o uso de carvão vegetal clandestino; infelizmente, nos Estados do Maranhão e do Pará, o uso deste tipo de carvão é crescente, alimentando as grandes siderúrgicas que foram instaladas na região. Mas há um grande diferencial – lá se queimam árvores da Floresta Amazônica. E no encalço de um crime seguem-se todos os outros, especialmente o uso de crianças nos trabalhos insalubres das carvoarias.

Continuaremos a falar das latas nos próximos posts.

PS: Para nossa tristeza, pouco tempo após a conclusão deste texto, foi divulgada a morte do maior poeta do Brasil contemporâneo : Ferreira Gullar. RIP

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