“AS NEVES DO KILIMANJARO”, OU FALANDO DO DESAPARECIMENTO DE GELEIRAS NA ÁFRICA

As primeiras notícias conhecidas sobre montanhas com picos cobertos de neve no escaldante continente africano remontam a Cláudio Ptolomeu – matemático, geógrafo, astrônomo e cartógrafo da antiguidade. Ptolomeu era de origem grega, mas nasceu em Alexandria, no Egito, no ano 90 a.C. A descrição de Ptolomeu, baseada em relatos de viajantes, cita as Montanhas da Lua, uma pequena cordilheira com altas montanhas na região das nascentes do rio Nilo. A existência de montes nevados na África seria considerada uma verdadeira fantasia por muitos e muitos séculos. 

A primeira expedição europeia para a região, conhecida atualmente como os Montes Ruwenzori ou Rwenzori, ocorreu em 1889 e foi comandada por Henry Morton Stanley, um jornalista britânico que ficou famoso em todo o mundo por sua viagem a procura de David Livingstone através da África. A região foi elevada à categoria de Patrimônio Mundial pela Unesco – Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, e tem a maior parte de sua área distribuída entre o Parque Nacional dos Montes Ruwenzori, em Uganda, e o Parque Nacional de Virunga, na República Democrática do Congo. Uma parte das montanhas fica dentro do território da Tanzânia

A fama mundial da região e de suas montanhas nevadas veio em 1936, quando o já famoso escritor norte-americano Ernest Hemingway publicou o conto “As neves do Kilimanjaro” na Revista Esquire. Em 1952, o conto foi adaptado para o cinema com o mesmo nome e foi estrelado por Gregory PeckSusan Hayward e Ava Gardner. Com o sucesso do livro e do filme, os Montes Ruwenzori e, em particular, o Monte Kilimanjaro foram transformados numa das maiores atrações turísticas da África. 

A grande atração africana, infelizmente, está com os seus dias contados – de acordo com declaração do Secretário-assistente da ONU – Organização das Nações Unidas, Satya Tripathi em 2019, as últimas neves do Monte Kilimanjaro irão derreter até 2030 devido aos efeitos do aquecimento global. As fotos abaixo foram tiradas por um satélite da NASA – Administração de Espaço e Aeronáutica dos Estados Unidos, na sigla em inglês, e mostram o Monte Kilimanjaro em 1994 e em 2001. A diferença no volume de gelo é alarmante!

Quando a expedição liderada por Luisi Amadeu de Saboia atingiu o cume do Monte Kilimanjaro, que tem uma altura de 5.900 metros, pela primeira vez em 1906, existiam nas montanhas da região 43 glaciares ou geleiras, distribuídos em seis picos de montanhas e ocupando uma área total de 7,5 km². Em 2005, o número de glaciares já havia caído pela metade e a massa de gelo estava reduzida a apenas 1,5 km². Estimativas atuais afirmam que mais de 80% dos glaciares da cordilheira já desapareceram

A cordilheira onde se encontram os Montes Ruwenzori tem cerca de 120 km de comprimento e 65 de largura, e surgiu a partir dos choques entre as placas tectônicas da África e da Arábia. Foram essas mesmas forças que formaram o  Rift Valley ou a Grande Fenda da África. As geleiras se formaram há cerca de 12 mil anos atrás, período que foi muito chuvoso na região, e estavam resistindo até os nossos dias. 

As geleiras dos Montes Ruwenzori enfrentam os mesmos problemas de geleiras na Cordilheira do Himalaia, na Cordilheira dos Andes, nos Alpes e em outras montanhas de todo o mundo – o aumento das temperaturas globais. Alguns dos mais importantes rios do mundo são formados a partir da água resultante do degelo desses glaciares no alto de montanhas. O aumento acelerado das temperaturas do planeta ameaça as geleiras, um problema que põe em cheque o abastecimento de centenas de milhões de pessoas em todo o mundo. 

Conforme comentamos na postagem anterior, as temperaturas do nosso planeta estão aumentando devido à uma concentração cada vez maior de gases de efeito estufa na atmosfera. Entre esses gases destacam-se o dióxido de Carbono (CO2) e o Metano (CH4), além do vapor de água. O efeito estufa é um fenômeno natural e essencial para a vida no planeta Terra, porém, quando suas consequências ultrapassam certos limites, ele se transforma em um grande vilão do clima.

A queima de combustíveis fósseis como o carvão mineral e os derivados de petróleo estão entre as maiores fontes dos gases de efeito estufa. Também entram na lista as queimadas, a agricultura, as indústrias, os rebanhos bovinos e ovinos, entre outros. O derretimento de grandes massas de gelo em todo o mundo é o sinal mais evidente das mudanças climáticas em andamento. 

Além do derretimento dessas geleiras, as mudanças climáticas na África ficam muito evidentes quando se observa o avanço do Deserto do Saara rumo ao Sul do Continente e o aumento das chuvas em regiões do Leste Africano. Também merece destaque o aumento da intensidade das secas em Áreas do Sul, do Sudeste e Leste africano, problemas que estão ligados diretamente a mudanças climáticas no Oceano Índico

Na Tanzânia, os caudais de diversos rios com nascentes formadas a partir do derretimento do gelo dos glaciares dos Montes Ruwenzori já foram reduzidos à metade, o que vem criando uma série de problemas para o abastecimento de inúmeras aldeias.  

A fama e as paisagens das geleiras em meio ao clima quente das Savanas (vide foto principal) trazem cerca de 20 mil turistas a cada ano para a região do Monte Kilimanjaro, onde inclusive existe um grande aeroporto internacional. As autoridades da Tanzânia e dos países vizinhos temem a perda dessa importante fonte de receitas em moeda estrangeira. Sem as neves do Kilimanjaro e de outras montanhas, o interesse pela região deverá cair muito – existem inúmeras montanhas cobertas por gelo na Europa, na América do Norte e na Ásia, países de origem da grande maioria dos turistas que visitam essa região da África.

Em 2010, uma geleira localizada no Pico Margherita, um dos cumes gêmeos do Monte Stanley, partiu ao meio. Essa é a terceira montanha mais alta da África e está localizada na divisa entre Uganda e o Congo, fazendo parte da cordilheira dos Montes Ruwenzori. Grandes blocos de gelo se deslocaram e bloquearam uma rota segura que os alpinistas usavam para chegar ao cume. Com a mudança nas condições de segurança, muitos alpinistas deixaram de visitar a formação. O ocorrido, é claro, se deu por causa da diminuição da massa de gelo e ilustra claramente os impactos que o derretimento das geleiras já vem provocando no turismo da região.

Torçamos todos para que a Cúpula do Clima 2021, que começou a ser realizada virtualmente ontem, consiga chegar a resultados práticos no controle e redução das emissões de gases de efeito estufa e que consigamos salvar o pouco que ainda restou das geleiras africanas.

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