O SURURU DAS ALAGOAS E A DEGRADAÇÃO DA QUALIDADE DAS ÁGUAS

Sururu

A degradação ambiental das águas do baixo curso do rio São Francisco, conforme comentamos em nossa última postagem, está provocando profundos impactos biológicos nessa região de limite entre os Estados de Alagoas e Sergipe. A salinização das águas do rio está provocando uma intensa colonização de um longo trecho nas proximidades da foz por espécies marinhas, onde destacamos a presença cada vez mais constante dos tubarões da espécie cabeça-chata. Não muito distante dali, é a degradação ambiental das lagoas da faixa litorânea do Estado de Alagoas que está causando profundos impactos em uma espécie de molusco fundamental para a alimentação e a renda de milhares de famílias – o sururu

O sururu (Mytella charruana) é um molusco bivalve, aparentado com os mexilhões, que é muito comum na culinária regional do Nordeste, especialmente nos Estados do Maranhão, Bahia, Pernambuco, Sergipe e Alagoas. Um dos pratos feitos com a iguaria e um dos mais conhecidos é o caldo de sururu, onde o molusco é preparado com leite de coco e azeite de dendê. No Estado de Alagoas, uma das mais tradicionais áreas de coleta do sururu é o Complexo Estuarino-Lagunar Mundaú-Manguaba. A intensa degradação ambiental e poluição das águas dessas lagunas está reduzindo sistematicamente a produção do sururu, asssim como as populações de peixes, crustáceos e moluscos.  

A história do povoamento do Estado de Alagoas está diretamente ligada às lagoas ou lagunas de Manguaba e Mundaú – a partir do século XVI, surgiram os povoados de Alagoa do Norte e Alagoa do Sul. Com o passar do tempo, esses povoados e outros que foram surgindo na região passaram a ser chamados genericamente de “as Alagoas”, nome que acabou sendo adotado para o Estado. As margens das lagoas também abrigam extensos manguezais, áreas que sempre garantiram bons estoques de peixes, crustáceos e moluscos como o sururu para o sustento das populuções da região. 

A Lagoa Manguaba é a maior do Estado, ocupando uma área com cerca de 42 km² entre os municípios de Pilar e Marechal Deodoro. Os principais formadores dessa lagoa são os rios Paraíba do Meio e Sumaúna. A Lagoa Mundaú se estende por uma área de 27 km² entre os municípios de Maceió, Santa Luzia do Norte e Coqueiro Seco. O principal formador da lagoa é o rio Mundaú. Essas duas importantes lagoas, entre outras menores ao longo do litoral, sofrem de problemas comuns, onde se destacam a intensa poluição das águas e as mudanças dos padrões de circulação das águas, o que têm reflexos nos níveis de salinidade das águas e afeta as comunidades de animais aquáticos. 

O crescimento das cidades sem uma infraestrutura adequada para a coleta e o tratamento dos esgotos, problema comum em todo o país, se configura como uma das principais ameaças à qualidade das águas das lagoas. Se juntam a esse problema os efluentes lançados por indústrias e por atividades agrícolas, especialmente do setor sucroalcooleiro, corte e aterro de áreas de manguezais, supressão de vegetação nativa, ocupação das encostas dos tabuleiros e construções irregulares nas orlas das lagoas. Além da poluição, essas agressões ambientais resultam em um intenso assoreamento das águas, o que, entre outros problemas, compromete os canais de ligação entre as lagoas e o oceano.  

A circulação de água marinha nas lagoas é fundamental para a manutenção dos níveis ideais de salinidade, essencial para a sobrevivência de espécies animais como o sururu. O molusco depende de águas com um nível de salinidade superior a 2 PSU (Practical Salinity Units ou Unidades Práticas de Salinidade). Estudos científicos comprovam que o sururu não consegue sobreviver por mais de sete dias em águas com salinidade inferior a este índice, algo que tem acontecido com muita frequência nas lagunas alagoanas. A quantidade excessiva de água doce nas lagoas tem provocado uma massiva mortandade de animais aquáticos como o sururu, o que pode ser comprovado através da redução sistemática na produção do molusco ao longo dos anos. 

De acordo com dados do extinto Departamento Estadual de Estatística de Alagoas, compilados em pesquisa pelo professor Carlos Ruberto, autor de um importante estudo sobre as lagoas do Estado, a produção média anual de sururu durante o período de 1954 e 1964 era de 2.725 toneladas, com um pico de produção de 5.500 toneladas em 1959. No final da década de 1980, essa produção já havia caído para 2.500 toneladas/ano e em 1997, a produção registrada foi de apenas 1.500 toneladas. Estimativas indicam que, nos últimos 20 anos, a produção de sururu caiu em, pelo menos, 25% (não existem registros oficiais para esse período)

O estudo também indica que em anos de fortes cheias nas bacias hidrográficas dos principais rios formadores das lagoas, quando as águas das chuvas saturam os ambientes lagunares, há uma forte redução na produtividade do sururu. Nos anos de 2010 e 2017, quando ocorreram fortes enchentes na região, foi observada uma redução média de 20% na produção anual do molusco.  

Os períodos de estiagem, épocas em que a salinidade das águas aumenta fortemente, também afetam a produtividade do sururu. Níveis de salinidade acima de 16 PSU diminuem as taxas de crescimento e aumentam a mortalidade da espécie. Em casos extremos, quando a salinidade supera o índice de 25 PSU, as larvas do sururu não conseguem se fixar no substrato e há uma forte redução da população dessa espécie nas lagoas. Mesmo depois da normalização dos níveis de salinidade nas águas, o processo de recolonização e recuperação das populações de sururu pode levar vários anos. 

Além dos profundos impactos ao meio ambiente, todas essas agressões desencadeiam uma série de problemas sociais e econômicos regionais: as lagoas possuem mais de 5.500 pescadores, que vem testemunhando uma redução contínua dos estoques de peixes nessas águas. Também existem dezenas de milhares de marisqueiras, que tiram o sustento de suas famílias da coleta, limpeza e venda do sururu. Também não é nada desprezível o número de famílias que sobrevive graças a coleta de caranguejos, para consumo ou venda, nas áreas de manguezais. Calcula-se que cerca de 300 mil pessoas que vivem nas áreas de entorno das lagoas dependem, direta e indiretamente, dos recursos naturais dessas águas para se alimentar ou ganhar o seu sustento

A faixa litorânea da Região Nordeste, especialmente no trecho entre o Recôncavo Baiano e o Rio Grande do Norte, é uma das regiões brasileiras mais impactadas e degradadas do ponto de vista ambiental. A vegetação nativa dessa região, a Mata Atlântica, foi praticamente dizimada para a implantação dos gigantescos canaviais nos tempos do Brasil Colônia, uma prática que ainda se mantém em nossos dias. A grossa camada de solos de massapê da região foi levada gradualmente pelas chuvas para as calhas de rios, lagoas e estuários da região, o que comprometeu a fertilidade dos solos, além da qualidade e quantidade das águas. Os imensos coqueirais da região são um testemunho dessa degradação – a planta, de origem asiática, ocupou os grandes trechos de terra desnuda abandonados após a decadência da indústria açucareira. 

O quadro da degradação ambiental foi completado com o crescimento da população na faixa litorânea de Alagoas. Muitas famílias, que foram expulsas de áreas do sertão pela seca, migraram para a faixa da costa e passaram a ocupar desordenadamente as áreas de entorno das lagoas e as periferias de grandes cidades como Maceió, contribuindo para aumentar a geração de esgotos e resíduos que são carreados para as águas das lagoas. Atividades de matadouros, plantações, olarias, pedreiras e de indústrias também deram a sua colaboração para se chegar a atual degradação ambiental desses importantes sistemas lagunares. 

O desaparecimento do sururu é apenas um dos sintomas mais visíveis de todo esse conjunto de agressões ambientais. 

OS TUBARÕES DO RIO SÃO FRANCISCO

Tubarão cabeça-chata

O título da postagem de hoje se parece com as manchetes de alguns jornais e tabloides sensacionalistas, que fazem jogos de palavras para chamar a atenção do público e vender mais exemplares nas bancas. Apesar de, aparentemente, parecer absurdo, as águas do baixo curso do rio São Francisco estão sendo visitadas por tubarões numa frequência cada vez mais alta. Deixem-me explicar o que está acontecendo: 

Consta nos livros de história que a descoberta da foz do Rio São Francisco se deu no dia 4 de outubro do ano de 1501, quando uma expedição exploratória comandada pelo navegador Américo Vespúcio fazia o primeiro mapeamento da costa brasileira. O rio foi batizado em homenagem à São Francisco de Assis, santo homenageado nesta data pelo calendário da Igreja Católica. Segundo o relato desses primeiros exploradores, a força da correnteza do rio era tão intensa que suas águas doces avançavam até 4 quilômetros mar adentro. Esse fato também é relatado por antigos capitães de navios mercantes, que entravam pelo canal do Rio São Francisco em direção da cidade de Penedo, no Estado de Alagoas, distante cerca de 40 km da foz. Os indígenas que habitavam essa região chamavam o rio de Pará, palavra que em tupi-guarani significa “rio-mar” ou “rio do tamanho do mar”, o que confirma essa percepção da grandeza do rio São Francisco. 

Em décadas mais recentes, após a construção de grandes barragens como a de Sobradinho e a de Xingó, a força dos caudais do rio São Francisco diminuiu de forma exponencial, mostrando toda a fragilidade ambiental da região. Essa redução dos caudais na direção da foz minou as forças do Velho Chico, deixando-o cada vez mais vulnerável ao avanço das águas do mar terras a dentro. Hoje, a salinização das águas do Baixo São Francisco é um dos maiores problemas regionais, afetando desde a pesca e a agricultura até a saúde das populações, cada vez mais exposta ao consumo de água com altos níveis de sal. Para ter acesso a água potável, moradores das margens do Baixo São Francisco precisam, muitas vezes, viajar vários quilômetros em busca de nascentes dos pequenos afluentes do rio ou de cacimbas, onde a água ainda não está contaminada com altos níveis de sal. 

A alta salinidade da água consumida por essas populações é fatal para a saúde dos seres humanos. A água doce ou potável que todos nós consumimos diariamente é aquela que apresenta uma concentração máxima de sal de 0,5 gramas por litro. Já a água salgada ou dos oceanos, apresenta níveis de concentração de sal superiores a 30 gramas por litro. As águas que apresentam níveis de sal intermediários, acima de 0,5 gramas/litro e abaixo de 30 gramas/litro, são chamadas de águas salobras, justamente a classificação em que se encontram as águas do rio São Francisco em trechos próximos da foz. O consumo de água salobra pelos habitantes da região tem afetado a saúde de muita gente. Em algumas cidades e vilarejos próximos da foz está acontecendo uma verdadeira epidemia de moradores com hipertensão arterial, entre outros problemas de saúde. 

Um dos sintomas mais visíveis dessa salinização das águas do baixo São Francisco é uma verdadeira invasão de espécies marinhas, que estão colonizando trechos do rio cada vez mais distantes da foz. A lista inclui diversas espécies de peixes, crustáceos e moluscos. Outra evidência do avanço das águas salinas são as formações de mangue, espécies de plantas adaptadas a áreas de águas salobras, que cada vez mais avançam continente a dentro. Também estão se tornando frequentes os relatos feitos por ribeirinhos e pescadores, que tratam do avistamento e captura de tubarões na calha do Baixo São Francisco. 

Os tubarões da espécie cabeça-chata (Carcharhinus leucaslideram as ocorrências de avistamento e captura no Baixo São Francisco. Os cabeças-chatas são uma das espécies de tubarões que mais se envolvem em ataques a pessoas em todo o mundo. A espécie é muito comum em águas tropicais e, por esta razão, é frequentemente avistada nas águas do litoral da Região Nordeste. Numa extensa lista de ataques de tubarões a banhistas na Região, especialmente nas praias do Estado de Pernambuco, os cabeças-chata são os agressores mais citados pelas autoridades. 

A espécie, que também é conhecida como tubarão-touro, possui um corpo avantajado e uma boca desproporcionalmente grande para o seu tamanho. Possui dentes serrilhados e uma mordida muito forte, o que torna seus ataques quase sempre fatais paras as presas, incluindo-se aqui banhistas. Os animais tem uma tonalidade cinza escura, uma camuflagem que torna a sua visualização no momento dos ataques bastante difícil para as presas. As fêmeas da espécie, que são maiores que os machos, podem atingir até 3,5 metros de comprimento. 

Uma característica dos tubarões cabeça-chata é a sua capacidade de sobreviver por longos períodos em águas salobras e doces. Há relatos de espécimes que foram capturados no rio Amazonas, nas proximidades de Manaus, cidade que fica a mais de 1.500 km das águas do Oceano Atlântico. Com a redução dos caudais do São Francisco e com o avanço das águas salinas para o interior da calha do rio, os tubarões cabeça-chata passaram a se sentir praticamente em casa. Essa mudança na fauna aquática, que seria equivalente a uma raposa passar a morar no galinheiro, está alterando toda a cadeia trófica ou alimentar, onde os tubarões passaram a ocupar o posto de principal predador. 

Vivendo em seu habitat marinho natural, os tubarões cabeça-chata enfrentam uma competição ferrenha por alimentos com outras espécies de tubarões, como o tubarão-tigre, uma outra espécie bastante comum nas costas do Nordeste. Como os estoques de alimentos, apesar de muito grandes, são limitados, as populações das espécies animais encontram um ponto de equilíbrio. Aqui é importante lembrar que, dentro desse ambiente de intensa competição por alimentos, os filhotes dos temidos cabeças-chatas também se tornam presas de outras espécies, um outro fator que limita o crescimento da população dessa espécie. 

Com a colonização de um novo ambiente, onde o tubarão cabeça-chata passa a ocupar o topo da cadeia alimentar, há uma tendência de um aumento progressivo da sua população e um avanço da espécie na predação dos peixes de água doce, animais que sempre habitaram a calha do Baixo São Francisco. Essa competição “quase” natural pelos peixes vai afetar um outro grande predador que, até bem pouco tempo atrás, ocupava o topo da cadeia alimentar local: o homem. E essa não é uma das melhores notícias para os pescadores locais – os estoques pesqueiros do rio, há muito tempo, já não são os mesmos de décadas atrás devido à grande degradação das águas do São Francisco. 

A colonização da região da foz do São Francisco por tubarões cabeça-chata pode trazer no seu encalço os riscos de ataques a banhistas, pescadores, ribeirinhos e lavadeiras, mulheres que, tradicionalmente, se reúnem em grupos para lavar roupas na beira do rio. Sem nunca ter se preocupado com a presença desse feroz predador em suas “vizinhanças”, qualquer uma dessas pessoas pode ser surpreendida com uma grande sombra avançando na sua direção através das águas do rio. Na última década, foram registrados mais de 40 ataques de tubarão nas praias do Estado de Pernambuco e, pelo menos, 13 pessoas morreram – a maioria desses ataques foi de tubarões da espécie cabeça-chata. Esse é o risco a que as populações da região podem estar expostas

E se as águas são boas para a vida dos cabeça-chatas, nada impede que outras espécies comuns na região como o tubarão-tigre e o tubarão-galha-preta também queiram desfrutar das oportunidades e recursos desse novo habitat. 

ACONTECEU MAIS UMA VEZ: UMA BARRAGEM SE ROMPEU NO NORTE DO ESTADO DA BAHIA

Rompimento de Barragem na Bahia

No início da tarde de hoje (11/07/2019), como parece estar se tornando rotina em nosso país, começaram a ser divulgadas notícias sobre o rompimento de uma barragem no rio do Peixe, localizado na região Nordeste do Estado da Bahia, próximo da divisa com Sergipe. De acordo com as informações divulgadas, a Barragem do Quati apresenta duas rachaduras e a forte inundação atingiu o povoado de Pedro Alexandre (vide foto), localizado a cerca de 430 km de Salvador, e também bairros do município vizinho, Coronel João de Sá, localizado a 30 km a jusante da barragem. Até o momento não há notícias de vítimas. 

De acordo com informações do superintendente da Defesa Civil da Bahia, Pedro Luz, publicada em reportagem da EBC – Empresa Brasil de Comunicação, “de ontem para hoje a região foi afetada por chuva de mais de 100 mililitros. Isso causou rompimentos de pequenas barragens que acabaram por afetar a Barragem do Quati”. Segundo o que já foi possível se apurar sobre o acidente, o grande volume de água no reservatório provocou uma rachadura no sangradouro e uma outra na extremidade da barragem. A Defesa Civil está trabalhando na remoção das famílias das áreas mais próximas da barragem, uma vez que existe o risco da ruptura total da estrutura. 

As Autoridades do Estado da Bahia estão preocupadas com o risco de rompimento da Barragem do Gasparino, localizada a jusante no mesmo rio do Peixe. O reservatório de água, que já está no seu nível máximo e com todas as comportas abertas, poderá apresentar riscos de colapso com a chegada do grande volume de água que está vazando da Barragem do Quati. Populações que vivem nas proximidades da calha do rio do Peixe nesse trecho estão sendo alertadas e removidas para abrigos em terrenos mais altos. 

Em meio aos esforços da Defesa Civil, Corpo de Bombeiros e Prefeituras locais no atendimento da população atingida pelo rompimento da estrutura, a ANA – Agência Nacional de Águas, não perdeu tempo e emitiu uma nota, onde informa que a “barragem é de usos múltiplos de água, e que o açude e a represa estão sob responsabilidade de fiscalização do INEMA – Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Governo da Bahia.” Ou seja, a tragédia ainda está em andamento (a ruptura da barragem é parcial até o momento) e o tão conhecido jogo de empurra-empurra entre os órgãos que, legalmente, teriam a responsabilidade pela fiscalização já começou. 

Como é do conhecimento de todos e já tratamos do assunto em diversas postagens aqui no blog, os acidentes e/ou quase acidentes com barragens estão se tornando perigosamente frequentes aqui no Brasil. Há pouco mais de 5 meses, uma barragem de rejeitos de mineração se rompeu em Brumadinho, no Estado de Minas Gerais. Até o momento, já foram confirmadas 247 vítimas fatais e ainda existem 23 desaparecidos. A empresa responsável pela barragem, a Vale do Rio Doce, que já recebeu uma primeira condenação por causa dessa tragédia, ainda não apresentou uma resposta convincente sobre o que causou o colapso da barragem.  

Uma das linhas de investigação das autoridades é o relato de alguns prestadores de serviço da empresa, que estavam próximos da barragem, e afirmam que houve uma explosão momentos antes do colapso. Funcionários da Vale do Rio Doce confirmam que houve uma detonação de explosivos em um paredão rochoso, porém, cerca de 1 hora e meia após o rompimento da barragem. 

Um outro caso que vem ocupando as manchetes dos telejornais e que tem tirado o sono de muita gente é de uma outra barragem de rejeitos de mineração, também de propriedade da Vale do Rio Doce, na cidade de Barão de Cocais, cidade da Região Metropolitana de Belo Horizonte. Desde o mês de fevereiro, um talude rochoso da mina vem se movimentando e há riscos de um grande desmoronamento. A eventual onda de choque provocada pela queda desse paredão rochoso poderá levar a barragem de rejeitos ao colapso. Inclusive, um pequeno pedaço do talude já caiu, sem provocar maiores problemas. 

As autoridades locais – Prefeitura, Defesa Civil e Corpo de Bombeiros, em parceria com a Vale do Rio Doce, já removeram e realocaram milhares de pessoas que viviam em áreas próximas e que poderiam ser atingidas por uma eventual onda de lama e de rejeitos minerais. A espera por essa tragédia iminente, que já dura meses, paralisou toda a economia da cidade de Barão de Cocais e vem causando inúmeros problemas de saúde na população. Os atendimentos médicos com casos de ansiedade, hipertensão e problemas com o sono, aumentaram muito no hospital municipal e nos diversos postos médicos da cidade. 

Um outro caso que não pode faltar nesse texto é o do rompimento da Barragem do Fundão, em Mariana, também no Estado de Minas Gerais, ocorrido em 2015. Nesse acidente, cerca de 62 milhões de m³ de lama e rejeitos minerais foram liberados, comprometendo praticamente toda a extensa calha do Rio Doce. Morreram, entre funcionários da mina e moradores, 19 pessoas. Por uma “estranha coincidência”, os proprietários dessa mina são a Vale do Rio Doce e a empresa australiana BHP Billiton Brasil LTDA. 

De acordo com dados da ANA – Agência Nacional de Águas, existem aproximadamente 24 mil barragens em todo o Brasil. Desse total, cerca de 10 mil são barragens para uso em irrigação, 780 são barragens de rejeitos de mineração e as demais se distribuem em represas para o abastecimento de água, controle de cheias, geração de energia elétrica, entre outros usos. Para fiscalizar todo esse universo de estruturas, existem 43 órgãos de fiscalização, sendo 4 federais e 39 estaduais. E a grande preocupação que fica é – esse pessoal todo está fazendo um bom trabalho de fiscalização? 

No final da tarde, surpreendentemente, informações divulgadas pelo Governo do Estado da Bahia passaram a negar o rompimento da barragem e informavam que as enchentes  nas cidades e povoados estavam sendo provocadas pelo excesso de água no reservatório, que está escapando por cima da barragem. Essa nova versão deixa a situação mais preocupante ainda, uma vez que mostra nitidamente que as “otoridades” locais não sabem exatamente o que está acontecendo.

Esse novo “acidente” de hoje, com todos esses desdobramentos e versões, deixa todos nós com uma enorme pulga atrás da orelha. 

 

PS: Na manhã do dia 12/07/2019, técnicos da Defesa Civil do Estado da Bahia sobrevoaram a Barragem do Quati e confirmaram a ruptura da barragem.

OS CARAMUJOS DO RIO IPOJUCA, A FALTA DE SANEAMENTO BÁSICO E A ALTA INCIDÊNCIA DA ESQUISTOSSOMOSE EM PERNAMBUCO

Esquistossomose

Nos Banhados do Rio Grande do Sul, conforme apresentamos em postagem anterior, existem muitas preocupações sobre o futuro das pomáceas, uma espécie de caramujo aquático. Esses caramujos costumam invadir as grandes plantações de arroz, onde são combatidos com moluscicidas, pesticidas que matam esses animais. O grande problema é que resíduos desses agrotóxicos são carreados na direção das áreas dos Banhados, onde também eliminam populações de pomáceas desses biomas. Isso compromete a cadeia alimentar de uma série de aves e peixes, prejudicando especialmente o gavião-caramujeiro, espécie que se alimente quase que exclusivamente desse caramujo. 

Em regiões do litoral da Região Nordeste, ao contrário dos Pampas Gaúchos, sobram caramujos nos rios, especialmente das espécies Biomphalaria glabrata (vide foto) e Biomphalaria straminea, e faltam predadores como o gavião-caramujeiro e outras espécies de aves e peixes. Estes caramujos, que vivem nas águas de rios e de açudes, são os hospedeiros das larvas do verme (cercarias) responsáveis pela esquistossomose, também conhecida como doença do caramujo, barriga d’água, xistose ou bilharzíase. A esquistossomose é uma doença parasitária grave e que pode trazer sérias consequências para estas populações.  

Em sua fase crônica, a esquistossomose pode provocar o aumento do fígado e a cirrose hepática, aumento do baço, hemorragias causadas pelo rompimento de veias no esôfago e a dilatação do abdômen (a conhecida “barriga d’água”), devido ao acúmulo do plasma que sai do sangue e vai parar nos tecidos. Diagnosticada adequadamente, a doença pode ser tratada através de medicamentos que neutralizam o parasita. 

Pernambuco é o campeão nacional em mortes por esquistossomose – são cerca de 150 mortes por ano provocadas pela doença no Estado. De acordo com dados oficiais, 101 municípios pernambucanos são classificados como endêmicos para a esquistossomose, o que corresponde a mais de 54% dos municípios de Pernambuco. As áreas com maior incidência da doença são a Região Metropolitana do Recife, a Zona da Mata e parte do Agreste. De acordo com dados da Secretaria Estadual de Saúde, entre 2013 e 2017, foram diagnosticados 33.213 casos positivos de esquistossomose em Pernambuco, sendo que 23.256 pessoas receberam tratamento. Das cinco localidades do Estado com o maior número de infestações, duas se encontram às margens do rio Ipojuca: Escada e Ipojuca. 

O rio Ipojuca tem aproximadamente 320 km de extensão, com nascentes na Serra das Porteiras no município de Arcoverde, no Agreste de Pernambuco, e foz no Oceano Atlântico, no município de Ipojuca. O nome Ipojuca tem origem na antiga língua Tupi, sendo formado a partir da junção das palavras ‘y (água), apó (raiz) e îuka (podre), significando “água das raízes podres”. Algumas fontes afirmam que o significado é um pouco diferente, significando água turva ou barrenta. Os antigos indígenas tiveram suas próprias razões para dar esse nome ao rio; tragicamente, a história só fez por confirmar o acerto na escolha do nome: o Ipojuca é o terceiro rio mais poluído do Brasil, apresentando águas muito turvas e, literalmente, podres em alguns trechos. 

O transmissor da esquistossomose é um verme – Schistosoma mansoni, um platelminto tremátode de origem africana, que chegou em terras brasileiras durante o período Colonial, quando perto de 4 milhões de africanos escravizados chegaram ao país. Como acontece com outros parasitas, quando o Schistosoma mansoni se aloja no corpo humano, ele chega a produzir cerca de 300 ovos por dia ao longo de até 40 anos. Parte desses ovos são eliminados junto com as fezes do doente. Quando em contato com a água, os ovos do verme eclodem e as larvas procuram hospedeiros, especialmente os caramujos. Após quatro semanas em crescimento, as larvas desenvolvidas abandonam o caramujo e passam a nadar livremente nas águas dos rios. A contaminação dos seres humanos se dá através da ingestão da água ou ainda pela penetração das larvas através da pele e das mucosas de pessoas que estejam em contato com as águas. 

No rio Ipojuca, cerca de 60% da poluição das águas tem origem no lançamento de esgotos domésticos sem qualquer tipo de tratamento, num processo que perpetua o ciclo de contaminação das populações – fezes de pessoas contaminadas pelo verme Schistosoma mansoni chegam diariamente as águas do rio, os ovos eclodem e as larvas se alojam nos caramujos, que são espécies silvestres nativas das águas. Apesar de apresentar águas altamente poluídas e degradas, o rio Ipojuca é uma das mais importantes fontes de abastecimento de água do Estado, o que leva a uma contaminação contínua de mais e mais pessoas com a esquistossomose. 

Em ambientes naturais preservados, existe um equilíbrio natural entre as populações de plantas e animais das mais diferentes espécies. Uma forma de entender isso de maneira didática é pensar em cadeias alimentares – plantas servem de alimentos para insetos, que são predados por aves, que são predadas por animais maiores como felinos ou tem seus ovos predados por répteis e outros animais menores. A disponibilidade de alimentos ao longo dessa cadeia alimentar mantém o número de indivíduos de cada grupo em constante equilíbrio. Se as aves, eventualmente, desaparecerem ou tiverem as suas populações diminuídas por alguma interferência externa, as populações de insetos aumentarão muito, destruindo desordenadamente grandes quantidades de plantas; os predadores das aves perderão sua fonte de alimentos e terão suas populações diminuídas. Todo antigo equilíbrio do bioma ficará comprometido. 

Grande parte da degradação ambiental do rio Ipojuca está ligada à destruição do trecho nordestino da Mata Atlântica, um processo que já tratamos inúmeras vezes aqui no blog e que está ligado ao Ciclo do Açúcar em Pernambuco. Com a destruição das matas, inúmeras espécies de aves que se alimentavam dos caramujos aquáticos do rio Ipojuca também desapareceram – sem predadores naturais, as populações de caramujos cresceram. Em outra frente, a poluição das águas por esgotos domésticos, resíduos de agrotóxicos e pesticidas das plantações de cana, efluentes líquidos de matadouros e, mais recentemente, por efluentes químicos gerados pela forte indústria têxtil que se instalou na região do Agreste, se encarregou de dizimar populações de peixes e anfíbios do rio, espécies predadoras que poderiam ajudar no controle das populações de vermes do Schistosoma mansoni. 

A esquistossomose, porém, não fica limitada somente nas áreas da calha do rio Ipojuca. A mesma destruição da Mata Atlântica que reduziu as populações de aves predadoras dos caramujos, também se prestou ao progressivo aumento de grandes enchentes no rio Ipojuca, eventos que ajudaram a espalhar os caramujos para outras localidades, onde destacamos a vila de Porto de Galinhas, um distrito do município de Ipojuca. A vila, que é um dos mais importantes destinos turísticos do Estado de Pernambuco, foi invadida por caramujos das espécies Biomphalaria glabrata e Biomphalaria straminea. Sem contar com uma infraestrutura de saneamento básico minimamente satisfatória, Porto de Galinhas passou a representar um risco para a saúde de dezenas de milhares de turistas que, sem consciência, estão expostos aos riscos de contaminação pela esquistossomose

Uma outra fonte de disseminação da doença é a extração de areia da calha do rio Ipojuca para uso na construção civil – larvas do Schistosoma mansoni conseguem sobreviver por curtos períodos na areia molhada, o que cria a possibilidade de as larvas atingirem outras bacias hidrográficas do Estado, contaminando novas populações de caramujos e de pessoas

Resumindo essa ópera bufa: a degradação da bacia hidrográfica do rio Ipojuca teve impactos positivos nas populações dos caramujos das espécies Biomphalaria glabrata e Biomphalaria straminea, hospedeiro do verme Schistosoma mansoni, responsável pela transmissão da esquistossomose, criando um ciclo contínuo de transmissão da doença.

É como diz um velho ditado: quem planta, um dia colhe… 

APÓS FORTE RESSACA, JACARÉS APARECEM NA PRAIA DO RECREIO, NO RIO DE JANEIRO

Jacarés na Praia do Recreio

Há poucos dias atrás, publicamos uma postagem falando dos graves problemas vividos pelos jacarés-do-papo-amarelo da região do Complexo Lagunar de Jacarepaguá, na Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro. Com cerca de 280 km², o complexo é formado pelas Lagoas da Tijuca, Camorim, Jacarepaguá, e Marapendi. Essa região tem apresentado um forte crescimento imobiliário nos últimos anos e possui uma população de mais de 400 mil habitantes. Centenas de condomínios e prédios residenciais foram construídos na região, confinando os grandes bandos de jacarés que habitavam as lagoas a espaços cada vez mais restritos. Especialistas calculam que, apenas no Complexo Lagunar de Jacarepaguá, vivam perto de 4 mil animais. Uma curiosidade – a palavra Jacarepaguá vem do tupi-guarani e significa, literalmente, “enseada ou lugar dos jacarés”.

Pois bem: a situação de alguns desses animais conseguiu ficar um pouquinho pior. Uma forte ressaca, que foi sentida em uma grande extensão do litoral da Região Sudeste, atingiu a orla da cidade do Rio de Janeiro, forçando a interdição de várias pistas de avenidas ao largo das praias para a retirada de areia. Na região do Recreio dos Bandeirantes, além de muita areia nas avenidas, os moradores também passaram a encontrar inúmeros jacarés andando nas areias e calçadões da praia (vide foto). A violenta ressaca atingiu o Canal de Sernambetiba, que liga as lagoas ao oceano, e arrastou grandes ilhas de gigogas (Eichhornia), um gênero de plantas flutuantes abundante nas lagoas e no canal, e muitos jacarés-do-papo-amarelo na direção da praia.

A Polícia Ambiental e Bombeiros Militares de diversos grupamentos da cidade foram acionados e passaram grande parte dessa segunda-feira, dia 8 de julho, “caçando” jacarés nas praias do bairro. Os animais capturados foram levados de volta para as lagoas e soltos no seu habitat natural. Felizmente, nenhum incidente entre os jacarés e os frequentadores da orla litorânea foi registrado.

Os jacarés-do-papo-amarelo (Caiman latirostris) são encontrados nas bacias hidrográficas dos rios Paraná, Paraguai, Uruguai e São Francisco, além de ser encontrados em ecossistemas costeiros como manguezais, estuários de rios e regiões lagunares como é o caso da Barra da Tijuca. Em média, os jacarés dessa espécie têm cerca de 2,5 metros de comprimento, mas já foram encontrados espécimes com até 3,5 metros e com um peso da casa dos 90 kg. Raramente, os jacarés atacam seres humanos, exceto nos casos em que o animal se sinta acuado e tente se defender.

Encontrar um animal silvestre desse porte e periculosidade solto no calçadão da praia durante uma caminhada não é um dos melhores programas para os cariocas. Apesar da notícia curiosa, é uma situação preocupante, que, infelizmente, poderá se repetir inúmeras vezes nesse trecho da orla da cidade.

 

A POMÁCEA, O GAVIÃO-CARAMUJEIRO E A DESTRUIÇÃO DOS BIOMAS

Gavião-caramujeiro

Na nossa última postagem falamos dos impactos da poluição do rio Cubatão sobre os guarás-vermelhos (Eudocimus ruber). Essa ave apresenta uma vistosa plumagem num tom de vermelho vivo, o que faz a espécie se destacar na paisagem. A cor das penas se deve a dieta dos guarás, constituída por moluscos e crustáceos ricos em betacaroteno, um pigmento natural rico em vitamina A e que possui uma cor vermelha intensa. No rio Cubatão, a poluição das águas exterminou muitas populações da fauna aquática e os guarás perderam a sua fonte principal de alimentos, passando a apresentar somente penas na cor branca. Conforme a poluição no rio Cubatão foi sendo reduzida e as águas e manguezais voltaram a ser recolonizados pela sua fauna original, os guarás recuperaram a sua dieta rica em betacaroteno e as penas vermelhas voltaram a aparecer. 

Na natureza, porém, não são todas as espécies que tem uma segunda chance nas suas vidas ou que podem sobreviver com uma dieta alternativa. O gavião-caramujeiro (Rostrhamus sociabilis), também conhecido como gavião-de-uruá e gavião-pescador, é um exemplo de animal com dieta altamente especializada e que não se pode dar ao luxo de consumir outros tipos de alimentos. A ave é o que se chama na biologia de malacófago, espécies de carnívoros especializados, cuja dieta é predominantemente à base de moluscos.  

O nome científico da espécie – Rostrhamus, já é uma indicação dessa especialização. O nome vem da junção das palavras em latim rostrum – bico, e hamus – gancho, o que significa, literalmente, gavião com gancho no bico. Essa adaptação evolutiva no bico da ave é perfeita para extrair a carne dos caramujos do interior da concha – a ave segura o caramujo com um dos pés e introduz o bico na concha, puxando o corpo do molusco para fora. Existem três subespécies de gavião-caramujeiro, que ocupam um extenso território que vai das áreas pantanosas do Sul dos Estados Unidos ao Norte da Argentina. No Brasil, a espécie é encontrada em todos os biomas. 

Essa alimentação especializada representa uma vantagem competitiva para os gaviões, que não precisam brigar com outras espécies pela captura dos caramujos. Por outro lado, depender exclusivamente de uma única espécie da fauna como fonte de alimentação se apresenta como um grande risco – caso qualquer impacto ambiental venha afetar os caramujos, reduzindo as suas populações, os gaviões ficam, literalmente, sem ter o que comer. É justamente isso o que está acontecendo em vários biomas brasileiros, deixando os gaviões-caramujeiros privados da sua fonte de alimentos. Um bioma onde isso está acontecendo com uma velocidade assustadora são os Banhados dos Pampas Sulinos. 

Os Banhados são ecossistemas típicos do Extremo Sul do Brasil, ricos em vida e que podem ser comparados aos bancos de corais dos oceanos. Funcionando como uma espécie de “esponja natural”, as áreas de Banhados acumulam grandes volumes de água nos períodos de chuva, auxiliando inclusive no controle das cheias dos rios; nos períodos de seca, fornecem água para as lagoas, garantido a sobrevivência de um sem número de espécies animais e vegetais. Os solos úmidos dos Banhados são ricos em matéria orgânica, resultante da decomposição dos juncos e gramíneas – essa excepcional fertilidade dos solos tornou essas áreas em alvo para a expansão das fronteiras agrícolas. 

As algas estão na base da cadeia alimentar das áreas de Banhado. Estes vegetais se nutrem a partir da filtragem das partículas em suspensão na água, desempenhado um papel de filtro biológico do ecossistema. Diversas espécies de moluscos se alimentam destas algas e, por sua vez, servem de alimento para diversas espécies de peixes – aves locais e migratórias buscam alimento e abrigo nos Banhados, assim como toda uma cadeia de animais como capivaras, lontras, ratões-do-banhado e jacarés-do-papo-amarelo. Toda uma frágil teia de vida e de inter-relações entre espécies animais e vegetais sobrevive nos Banhados. 

Um exemplo da fragilidade do equilíbrio ambiental desses ecossistemas pode ser visto numa espécie de caramujo encontrado nos Banhados – a pomácea. Esse caramujo é uma importante fonte de alimento para diversas espécies de aves, sobretudo ao gavião-caramujeiro, espécie que, no Extremo Sul, se alimenta exclusivamente desta “iguaria”. A drenagem dos banhados para a implantação de culturas de grãos, especialmente o arroz, ou o carreamento de grandes volumes de resíduos de defensivos agrícolas, pode levar à extinção de grandes colônias deste caramujo – a maioria das aves perderá um dos seus alimentos: o gavião-caramujeiro, entretanto, perderá a sua única e exclusiva fonte de comida. 

Os gaviões-caramujeiros não estão sozinhos no drama da destruição sistemática dos Banhados, o que mostra a importância do bioma para diversas comunidades de animais. Essas áreas abrigam uma série de aves migratórias, que utilizam estes ecossistemas como áreas de descanso, alimentação e até como territórios de nidificação. Uma dessas espécies de ave é o cisne-do-pescoço-preto (Cygnus melanocoryphus)que tem seu território distribuído desde a Terra do Fogo, no extremo Sul da América do Sul até áreas na região Sudeste do Brasil. Esse extenso território inclui, além do nosso país, regiões da Argentina, Chile, Uruguai, Paraguai e Ilhas Malvinas.  

Diversos Banhados dos Pampas Gaúchos ficam no caminho das rotas migratórias dos cisnes. Uma outra espécie, a coscoroba (Coscoroba coscoroba), também chamada de cisne-coscoroba e capororoca, é uma ave migratória com território indo desde a Patagônia, no sul da Argentina e do Chile, até as regiões Sul do Brasil e Estados como São Paulo e Mato Grosso do Sul. Estas aves utilizam áreas de Banhados do Extremo Sul para descanso, alimentação e nidificação ao longo de suas migrações. O comportamento instintivo destas aves é o resultado de milhares de anos de adaptação ao meio ambiente e, quando um dos seus habitats é destruído ou modificado, estes animais não conseguem mudar seus hábitos rapidamente – grupos inteiros de animais podem morrer de fome ou simplesmente não conseguir se reproduzir, colocando a espécie sob pressão e ameaça de extinção. 

As áreas de Banhado também têm importância ímpar para os rios gaúchos. Conforme já comentamos em postagens anteriores, elas atuam na regulação dos níveis de água tanto nos períodos de cheias quanto de secas. Também são fundamentais para a manutenção da biodiversidade das espécies animais que vivem nos rios, incluindo-se peixes, crustáceos, mamíferos, aves e répteis, que têm nos banhados importantes áreas de alimentação e reprodução. Uma função crítica desempenhada pela vegetação dos banhados é a retenção e a depuração de sedimentos e despejos que correm na direção da calha dos rios, auxiliando na manutenção da qualidade das águas. 

Nos Banhados também se encontram nascentes que contribuem com substanciais volumes de água, recurso importante nos períodos de seca. Diversos rios em todo o Estado do Rio Grande do Sul têm sofrido fortes impactos devido a esta sistemática e contínua destruição dos banhados, onde destacamos os problemas dos rios CaíGravataí e dos Sinos, corpos d’água que, infelizmente, integram a lista dos dez rios mais poluídos do Brasil. 

Dentro da complexidade de relações entre as diversas formas de vida de um ecossistema, o desparecimento de uma única espécie tem potencial para levar junto outras tantas espécies. Se os gaviões-caramujeiros desaparecem dos Pampas, várias outras espécies, desgraçadamente, desaparecerão também. 

PS: 3° Aniversário de Água, Vida & Cia. Obrigado a todos os leitores!

OS GUARÁS-VERMELHOS E O RIO CUBATÃO

Guará-vermelho

Uma forma bastante “didática” para entender os impactos da poluição das águas de um rio sobre uma espécie animal é acompanhar a saga dos guarás-vermelhos do rio Cubatão, na região da Baixada Santista, Estado de São Paulo. Durante décadas, a intensa poluição desse rio fez os vistosos guarás “desaparecerem” do mapa. Em anos recentes, após um intenso projeto governamental para o controle das fontes de poluição em Cubatão, os guarás-vermelhos, milagrosamente, reaparecem. Deixem-me explicar: 

A história da poluição em Cubatão remonta à década de 1950, quando o município foi escolhido para sediar a Refinaria Arthur Bernardes da Petrobras. Localizado a apenas 12 km do Porto de Santos, a 47 km da cidade de São Paulo, servido por rodovias e ferrovias e ao lado da Usina Hidrelétrica Henry Borden, o município oferecia todas as condições para sediar um importante pólo petroquímico. No início da década de 1970, Cubatão já havia se transformado no maior pólo industrial do país, sediando empresas dos setores petroquímico, químico e de fertilizantes, além de possuir uma grande empresa siderúrgica, a Cosipa – Companhia Siderúrgica Paulista. 

Sem entrarmos em maiores detalhes, é bastante fácil perceber que estas indústrias lidam com matérias primas e produtos altamente poluentes e foram implantadas na região de Cubatão numa época em que não existiam maiores preocupações com a poluição do ar, da água e dos solos. Aqueles eram tempos do desenvolvimento a qualquer custo, cujo ápice foi a era do chamado “Milagre Econômico Brasileiro” no início da década de 1970. Não tardou muito para a região passar a ser conhecida como o “Vale da Morte”. Alguns dados ambientais do município à época: 

  • As empresas do Pólo Industrial de Cubatão lançavam na atmosfera aproximadamente 40 toneladas/dia de gases tóxicos e material particulado; 
  • Despejo clandestino de centenas de toneladas de rejeitos e resíduos industriais de todos os tipos, incluindo-se na lista o perigoso Pó da China, um desinfetante, fungicida, inseticida, bactericida e moluscocida sintético e altamente tóxico para os seres humanos e para o meio ambiente, banido do mercado na década de 1980. 
  • Despejos de efluentes industriais dos mais diversos tipos e origens nas águas, combinado com os esgotos domésticos da população, águas pluviais ácidas e águas subterrâneas contaminadas pelos aterros de resíduos químicos. O rio Cubatão, o principal curso d’água do município, era o principal destino de toda essa carga poluidora e, consequentemente, era um retrato da devastação ambiental regional. 

O rio Cubatão é formado pela junção das águas de vários rios na vertente da Serra do Mar, com destaque para os rios Pilões, das Pedras, Perequê e Capivari. O rio atravessa todo o município de Cubatão e se abre num extenso delta ao chegar na região do estuário de Santos, onde forma uma grande região de importantes manguezais. Somente para relembrar a importância histórica e econômica desta região, a primeira cidade fundada no Brasil foi São Vicente em 1532 e, na cidade vizinha – Santos, funciona o maior e mais importante porto do Brasil. Esses manguezais, durante séculos, garantiram o fornecimento de pescados e frutos do mar para a população de toda a região, até que a intensa poluição inviabilizasse as atividades pesqueiras e de coleta nestes manguezais.  

As águas do rio Cubatão são captadas na base da Serra do Mar e sempre foram uma importante fonte de abastecimento de água da população da região. A Sabesp – Companhia de Abastecimento de São Paulo abastece 1 milhão de habitantes, em 5 cidades da região com águas captadas na bacia hidrográfica do rio Cubatão, demonstrando a importância regional do rio e a preocupação com os danos provocados pela intensa poluição de suas águas. 

Uma das primeiras fontes de poluição observadas no rio Cubatão foram as águas que desciam da represa Billings em direção da Usina Henry Borden, que apresentavam sinais de contaminação por esgotos, transpostos a partir das águas do já poluído rio Tietê a partir de 1950. Na mesma época, após a construção da Refinaria Arthur Bernardes e de todas as indústrias associadas instaladas no Polo Industrial de Cubatão, o rio passou a receber cargas de poluentes em volumes crescentes. Dados da Cetesb – Companhia Ambiental de São Paulo, mostram que até julho de 1984 eram despejadas 64 toneladas/dia de poluentes no rio Cubatão, sem contar os volumes de poluentes carreados para o canal do rio pelas águas pluviais e percolados a partir das águas subterrâneas. 

O município de Cubatão passou por um intenso e dramático programa de despoluição a partir do ano de 1984, capitaneado pelas autoridades do Governo do Estado de São Paulo, pelas indústrias e sociedade civil. Foram criados diversos programas para o controle da poluição do ar, do solo e das águas, além de programas para o reflorestamento e contenção das encostas da Serra do Mar, construção de conjuntos habitacionais para a transferência de moradores das áreas de risco, investimentos em saúde, educação e saneamento básico. Os resultados de todos estes esforços gradativamente passaram a ser vistos na qualidade do ar e das águas, que melhoraram a olhos vistos. 

Dados da Cetesb, referentes ao ano de 2010, mostram que as águas do rio Cubatão tiveram uma redução de 93,8% no nível de poluentes, sendo 93% de redução da DBO – Demanda Bioquímica de Oxigênio, 90% de redução na carga de resíduos sólidos, 97% de redução no lançamento de metais pesados, 80% nos fenóis e 96% nos fluoretos. A totalidade das fontes geradoras de poluentes nas indústrias é controlada e monitorada em tempo real, porém ainda existem fontes de poluição difusa, especialmente percolações originadas nos muitos aterros de resíduos (frequentemente, novas áreas de aterros clandestinos são descobertas na região). O combate a este tipo de poluição depende a remoção dos volumes de solo contaminados, que precisam ser transportados para uma usina onde receberão um tratamento térmico – esse processo é lento, caro e vários Estados proíbem a entrada destes resíduos em suas fronteiras (a fumaça gerada no processo de queima pode liberar dioxinas, compostos químicos altamente tóxicos). 

Uma das consequências mais marcantes observadas ao longo do processo de despoluição do município de Cubatão pode ser observada no uso racional da água – 96% da água doce utilizada pelas indústrias passou a ser recirculada – a água passa por processos de tratamento por decantação, floculação e filtragem antes de ser reutilizada nos processos industriais. Com isso, há uma substancial redução na necessidade de captação de água na bacia hidrográfica e também no descarte de efluentes líquidos – tudo isso contribuiu para a preservação e recuperação ambiental do rio Cubatão. 

Os guarás vermelhos (Eudocimus ruber), espécie de ave que também é conhecida como íbis-escarlateguará-rubro e guará-pitanga, que sempre habitou a região e que havia desaparecido, voltou a habitar as margens do rio Cubatão. A cor vermelha de suas penas tem origem em substâncias químicas encontradas nos moluscos que compõem a sua dieta – ao longo dos anos de poluição intensa, estes moluscos desaparecem dos manguezais e os pobres guarás passaram a apresentar uma plumagem branca e sem graça. Com a melhoria da qualidade das águas, os guarás voltaram a exibir sua vistosa plumagem vermelha, num sinal de tempos cada vez melhores em Cubatão, apesar dos muitos problemas que ainda persistem. 

Ou seja, os guarás-vermelhos voltaram sem nunca ter ido a lugar nenhum.