AS TRÁGICAS CHUVAS NA REGIÃO METROPOLITANA DO RECIFE, OU FALANDO DO DISTÚRBIO ONDULATÓRIO DO LESTE

As fortes chuvas que estão caindo na Região Metropolitana do Recife já causaram, ao menos, 91 mortes e 26 pessoas estão desparecidas. Cerca de 5 mil pessoas estão desabrigadas e seguem alojadas em escolas, creches e centros sociais. Esses são dados ainda preliminares divulgados pelo Governo do Estado. Desmoronamentos de encostas de morros provocaram a maioria dessas mortes. 

Conforme comentamos em postagem publicada na última semana, toda a faixa Leste do Litoral Nordestino, especialmente entre o Rio Grande do Norte e Sergipe, está sofrendo com chuvas provocadas pelo Distúrbio Ondulatório de Leste. Esse fenômeno provoca uma perturbação nos ventos e na pressão que atuam na faixa tropical do globo terrestre que fica entre a África e o litoral do Brasil. Essa perturbação interfere no regime dos ventos alísios. 

Os ventos alísios sopram no sentido Leste-Oeste, formando nuvens de chuvas, que atravessam o Oceano Atlântico e chegam ao litoral Leste do Brasil. O distúrbio está provocando chuvas nos Estados de Alagoas, Sergipe, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. As chuvas se concentram na faixa Leste destes Estados. 

Como toda grande metrópole brasileira, a cidade do Recife não suporta chuva fortes. Assim como acontece em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, basta uma chuva mais forte para rios e córregos transbordarem, trechos de ruas e avenidas alagarem e áreas de risco entrarem em estado de alerta.

A situação é sempre agravada por causa da intensa ocupação de encostas de morros, um sintoma da falta de políticas para a construção de moradias populares. Esses morros tiveram a cobertura florestal suprimida e ainda sofreram grandes cortes no talude para a construção de moradias. Qualquer chuva mais intensa pode desestabilizar essas encostas e resultar provocar grande tragédia, justamente o que aconteceu nos últimos dias. 

Grandes enchentes fazem parte das paisagens pernambucanas há muito tempo. O primeiro registro histórico de uma enchente no Capibaribe data do ano de 1632, pouco tempo depois da invasão holandesa e a consolidação da Suickerland, a terra do açúcar. Registros da época informam que as chuvas foram muito fortes, “causando perdas de muitas casas e vivandeiros estabelecidos às margens do Rio Capibaribe”.  

Anos mais tarde, em 1638, o Conde Maurício de Nassau autoriza a construção da primeira barragem do Rio Capibaribe – o Dique dos Afogados, com o objetivo de proteger a cidade do Recife das constantes enchentes. Há registros históricos de uma infinidade de enchentes na cidade: 1824, 1842, 1854, 1862, 1869, 1914, 1920, 1960, 1966, 1970, 1977, 2004 e 2005 – a lista é muito maior e estou apenas citando alguns casos. 

Entre os dias 17 e 18 de julho de 1975, a cidade do Recife viveu a maior catástrofe natural da sua história: o transbordamento do rio Capibaribe atingiu 31 bairros e alagou 80% da superfície da cidade (vide foto) – 350 mil pessoas foram desalojadas de suas casas e, tragicamente, 104 pessoas morreram. As fortes enchentes também atingiram outros 25 municípios da bacia hidrográfica do rio Capibaribe.  

Grande parte da culpa por essa sucessão de enchentes se deve a escolha do local onde foi fundada a cidade do Recife. O litoral brasileiro, apesar de muito extenso, não dispõe de muitos locais abrigados e adequados para a construção de grandes portos. Há época do início da nossa colonização, quando ainda não existiam dragas para o rebaixamento do leito marinho, a situação era ainda mais complicada. 

No litoral de Pernambuco, os antigos cartógrafos a serviço da Coroa de Portugal identificaram uma região que combinava duas características excepcionais para a fundação de uma grande cidade – uma área abrigada na foz de um grande rio e com grande capacidade para receber embarcações de alta tonelagem. Exatamente ao lado, um terreno elevado, que possibilitava o monitoramento de uma grande extensão de terras e mares.  

No alto das ladeiras desse terreno elevado Duarte Coelho, o Donatário da Capitânia de Pernambuco, fundou a cidade de Olinda em 1535. Na carta dos direitos feudais – o foral, concedido por Duarte Coelho em 1537, havia uma referência a um certo “Arrecife dos Navios”, uma pequena vila de marinheiros e pescadores localizada na foz do rio Capibaribe junto ao porto, que se transformou no embrião da futura Cidade do Recife.   

As margens do rio Capibaribe e seus afluentes eram planas e cercadas de extensos manguezais. Engenhos e grandes plantações de cana-de-açúcar foram ocupando os espaços vazios criados com a derrubada e queima da densa Mata Atlântica. Lembro aqui que o trecho pernambucano da floresta avançava até 80 km continente a dentro. 

Como acontece em qualquer sistema natural, a Mata Atlântica se adaptou ao longo dos milênios aos ciclos periódicos de chuva. Canaletas naturais para o escoamento da chuva foram escavadas no solo e os diferentes tipos de vegetação se adaptaram para armazenar parte da água da chuva, com raízes adaptadas para forte fixação no solo e para evitar o arrastro com a enxurrada. Leitos de córregos e rios foram dotados de áreas de várzeas dimensionadas para absorver o excedente da água nos momentos de cheia. 

Com a derrubada da floresta para o plantio da cana-de-açúcar, todos esses mecanismos naturais de controle de cheias foram perdidos e as calhas dos rios passaram a receber, de forma abrupta, a maior parte da água das chuvas. A cidade do Recife nasceu justamente no trecho final da bacia hidrográfica do rio Capibaribe e virou uma espécie de ”terra das enchentes”. 

A cidade do Recife foi crescendo e avançando sobre os manguezais. que foram sendo aterrados e urbanizados. O resultado dessa urbanização foi uma cidade com grande parte de seus bairros com pouca declividade em suas ruas e sujeitas a alagamentos em dias de chuva mais forte. Em décadas mais recentes, a cidade começou a avançar e ocupar terrenos mais altos, onde se destacam as encostas de morros. 

A situação, que já era crítica, foi piorando ao longo do tempo devido ao forte assoreamento dos canais dos rios. Sem a proteção da vegetação, grandes volumes de sedimentos passaram a ser carreados para o leito dos rios, que foram ficando cada vez mais rasos e sem espaço para absorver as águas excedentes dos períodos de chuva. 

Somando-se a destruição da floresta, o assoreamento da calha dos rios, a ocupação desordenada de encostas de morros e o aterramento sistemático de manguezais, chegamos à fórmula perfeita para a ocorrência de grandes enchentes com todas as suas catástrofes associadas. 

Essa, infelizmente, é a sina do Recife e seus arredores. 

A POLÊMICA DERRUBADA DE UMA FLORESTA PARA EXPLORAÇÃO DE CARVÃO NA ALEMANHA 

Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço

Esse é um sábio conselho que todos nós ouvimos desde a infância. Entretanto, parece que as autoridades da Alemanha, famosas por acusar o Brasil de desmatar a Amazônia, não conhecem o dito popular. 

Está havendo uma enorme repercussão nas mídias sociais e nos canais de informação a notícia da derrubada de uma floresta de carvalhos com idade de aproximadamente 12 mil anos e demolição de uma série de vilarejos no seu entorno. Essa área de mata nativa com cerca de 5,5 mil hectares ficava em Lützerath, no Estado da Renânia do Norte-Vestfália, o coração industrial da Alemanha. 

O pedido para a supressão da vegetação foi feito pela mineradora Rhenish-Westphalian Power Plant (RWE) AG, segunda maior empresa do setor de energia na Alemanha e uma das maiores concessionárias da Europa. A empresa opera uma mina de carvão nos arredores e a área desmatada permitirá a expansão das suas atividades. A mina conhecida como Garzweiler produz a lignite ou o carvão marrom, um combustível fóssil altamente poluente. 

De acordo com as alegações da RWE, existem diversas outras minas de carvão em operação na região que estão com suas reservas próximas do esgotamento. A nova mina, que está em estágio inicial de trabalhos, estará apta a suprir a produção de carvão já a partir de 2024. Os veios de carvão ficam a cerca de 400 metros de profundidade, por isso a necessidade da supressão da vegetação. 

A Alemanha, conforme já tratamos em postagens anteriores, é um dos países da Europa Ocidental que mais dependem do gás natural da Rússia. As políticas para uma economia cada vez mais verde adotadas nas últimas décadas levaram a uma forte redução do uso do carvão mineral, tanto em indústrias quanto em usinas de geração termelétricas, e a estímulos ao uso de fontes alternativas como o gás, além de energia eólica e solar. 

Especialistas afirmam que 55% do gás natural usado no país é importado, sendo que 50% vem diretamente da Rússia. Essa dependência começou ainda em meados da década de 1950, quando a então Alemanha Oriental passou a receber gás da antiga URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Após a recente invasão da Ucrânia por tropas russas, os países europeus passaram a impor boicotes ao gás e ao petróleo da Rússia. 

A Alemanha foi pega no contrapé e agora corre contra o tempo buscando fontes alternativas de energia – as antigas minas de carvão do país acabaram sendo “redescobertas”. Uma outra fonte energética do país que está em franco processo de desativação – a geração de energia elétrica em usinas nucleares, também voltou a ser reconsiderada. 

A grande ironia desse processo é que o Governo da Alemanha vem sendo um dos maiores críticos da “destruição” da Floresta Amazônica por parte dos brasileiros. É sempre importante lembrar que a maior floresta equatorial do mundo ocupa áreas em outros oito países (Bolívia, Equador, Peru, Colômbia, Venezuela, Guiana, Suriname e Guina Francesa), onde também existem enormes agressões ambientais, porém, nunca são lembrados por governos estrangeiros, artistas e celebridades. 

Na mesma época em que essa floresta se formou na Alemanha há cerca de 12 mil anos, a Amazônia passava por uma série de mudanças climáticas. Até então, a região onde fica a Floresta Amazônica tinha grande parte dos seus domínios ocupados por campos como o atual Cerrado Brasileiro, quando então a floresta começou a avançar até chegar na atual conformação vegetal. 

Essa verdadeira hipocrisia dos governantes alemães não é nova. Citando um exemplo: em 2020, o Tribunal Administrativo Superior de Berlim-Brandenburg decidiu a favor da Tesla, a fabricante de automóveis elétricos do “bom moço” Elon Musk, a fim de continuar derrubando as árvores de uma floresta nos arredores para a construção de uma mega fábrica da empresa. 

A área em questão tem 92 hectares e fica dentro dos limites da área de proteção ambiental Grüne Liga Brandenburg. Segundo as alegações dos advogados da Tesla, tese que foi aceita pela Justiça alemã, a área em questão é usada para o plantio de árvores para uso na fabricação de papel e não uma floresta natural. 

A Tesla está instalando no local uma grande fábrica de automóveis elétricos e de baterias, que vem se juntar a outras duas unidades nos Estados Unidos e uma na China. Essa unidade produzirá inicialmente 150 mil veículos por ano, podendo atingir a cifra de 500 mil em pouco tempo. Serão gerados até 12 mil postos de trabalho, algo que interessa muito ao Governo da Alemanha

Essa nova decisão da Justiça alemã tem poucos dias e, até o momento, as vozes de grandes defensores do meio ambiente como Emmanuel Macron, presidente recém reeleito da França, de Greta Thunberg e de Leonardo di Caprio, entre muitos outros, não ressoaram em defesa das florestas milenares da Alemanha. 

Falando hipoteticamente, imaginem que essa fábrica da Tesla viesse a ser instalada no meio da Floresta Amazônica no Pará, a meio caminho das minas de ferro de Carajás e da Usina Hidrelétrica de Tucuruí. Fico imaginando o tamanho dos pulos de Greta e de Leonardo, além dos discursos incendiários de Macron. Porém, como estamos falando de empregos na super desenvolvida Alemanha e de carros elétricos que vão proteger o meio ambiente na Europa, aí tudo bem… 

Em um mundo que já está vivendo mudanças climáticas importantes, é fundamental que todos se preocupem com uma defesa real e apaixonada dos poucos sistemas naturais ainda preservados, onde um dos grandes destaques é a Floresta Amazônica. 

Entretanto, conforme sempre destacamos em nossas postagens aqui no blog, é fundamental que essa defesa seja honesta e isenta de “lacrações ideológicas”. Esse exemplo recente na Alemanha mostra o tamanho da hipocrisia dos “defensores da Amazônia” – se é para gerar empregos e desenvolvimento econômico para os locais, tudo bem derrubar uma floresta milenar. 

Agora, se os beneficiários fossem populações de pobres miseráveis na nossa Região Norte, onde vivem mais de 22 milhões de brasileiros, aí não pode. 

A BIENAL DO LIXO EM SÃO PAULO, OU FALANDO DO PROBLEMA DOS RESÍDUOS SÓLIDOS

A imagem que ilustra esta postagem reproduz de maneira bem humorada uma das fotos mais famosas do século XX. Ela foi tirada no dia 14 de março de 1951, dia do aniversário de Albert Einstein. O mundialmente famoso físico estava saindo de uma festa com ex-alunos, professores e pesquisadores da Universidade de Princeton

Depois de ser fotografado por dezenas de jornalistas e paparazzi que aguardavam na porta do clube onde aconteceu a festa, o físico finalmente conseguiu entrar num automóvel que o levaria para a casa. Foi então que um fotógrafo da agencia UPI – United Press Internacional, insistiu para Einstein desse um sorriso. E o que ele fez foi mostrar a língua – se foi como gozação ou simplesmente por malcriação não se sabe. 

O artista plástico Jota Azevedo reproduziu a icônica fotografia de Albert Einstein usando apenas material de descarte, o que costumamos chamar de lixo em nosso dia a dia. Essa obra e muitas outras fazem parte da Bienal do Lixo, evento que foi aberto ao público no último dia 26 e que ficará até o dia 5 de julho no Parque Vila Lobos, na Zona Oeste da cidade de São Paulo. 

Além de obras de arte, o evento terá intervenções artísticas, oficinas, mostras de cinema, palestras e painéis ligados à temática dos resíduos sólidos com acesso gratuito. Entre as temáticas são destaque a logística reversa, economia circular, consumo consciente, educação ambiental, o uso de energias renováveis e a gestão dos resíduos. No comando dos diferentes eventos estão profissionais da área, artistas, agentes culturais, autoridades, cientistas e jornalistas. 

Entre os principais objetivos desse evento destacamos a conscientização da importância de uma boa gestão dos diferentes resíduos produzidos por nossa cidade. Conforme tratamos frequentemente em nossas postagens, ambientes inteiros estão sendo tomados por restos de plásticos, pneus, embalagens metálicas entre outros descartes de peças e produtos de grandes dimensões. Citando como exemplos temos as ilhas de resíduos plásticos do Oceano Pacífico e do Mar do Caribe

Resíduos são, essencialmente, sobras resultantes de processos de produção e de consumo: embalagens de produtos, cascas e sobras de alimentos, papel usado, equipamentos eletrônicos antigos, ferragens, madeiras e móveis, entulho da construção civil, aparas diversas entre outros tipos de resíduos. Além dos resíduos propriamente sólidos, que formam a maioria dos materiais, existem aqueles que são líquidos: sobras de tintas, solventes, combustíveis, óleos lubrificantes usados entre outros. 

Esses resíduos costumam ser classificados em categorias diferentes de acordo com as fontes geradoras: 

Resíduos Domiciliares: é o nosso famoso lixo doméstico formado por restos e cascas de alimentos, embalagens plásticas e metálicas, vidros, papéis diversos, papel higiênico etc; 

Resíduos Comerciais: caixas de papelão, isopor, pallets de madeira, plásticos, embalagens, sacarias em geral etc; 

Resíduos Industriais: aparas de chapas plásticas, de madeira e metálicas, limalhas e outros resíduos do corte de materiais, tintas, solventes, resíduos químicos diversos etc; 

Resíduos Agrícolas: embalagens de adubos e defensivos químicos, peças metálicas, pneus, restos de madeira, pedras etc; 

Resíduos Hospitalares: seringas, gases, instrumentos cirúrgicos, embalagens e restos de remédios e drogas hospitalares, e demais materiais diversos contaminados por patógenos; 

Resíduos da Construção Civil: entulho, madeiras, telhas, pedregulho, tintas, tijolos, tubulações, embalagens etc; 

Resíduos de Portos, Aeroportos, Terminais Ferroviários e Rodoviários: embalagens, restos de alimentos, papéis, papel higiênico etc; 

Resíduos de Mineração: rejeitos e sobras de materiais minerais não utilizáveis (só para lembrar: o acidente ambiental que, literalmente, matou o Rio Doce em 2015, foi provocado pelo rompimento de uma barragem de resíduos da mineração); 

Resíduos Radioativos: combustível de usinas nucleares e resíduos de medicamentos e materiais de clínicas radiológicas e de hospitais. 

Existem também materiais muito específicos dentro dos resíduos hospitalares como os materiais perfuro-cortantes e materiais contaminados por patógenos, que não podem ser descartados junto com os resíduos comuns e devem ser encaminhados para incineração em unidades de destinação especiais.  

Outro caso importante é do lodo sanitário resultante do tratamento de esgotos nas ETEs – Estações de Tratamento de Esgotos, que ainda não possuem uma destinação definitiva. Junto a tudo isso, falaremos ainda da coleta seletiva e das políticas para a redução e a reutilização dos materiais.  

Na área dos recursos hídricos, um dos temas favoritos aqui do blog, os resíduos descartados de forma incorreta, muitas vezes irresponsável, estão na raiz de grandes enchentes e alagamentos que ocorrem nas cidades brasileiras nos meses de chuvas. E não falamos aqui só de embalagens plásticas e outros resíduos pequenos – falo de sofás, móveis, geladeiras e outros produtos velhos que são jogados nas ruas e nas calhas de rios e córregos. 

Também não se pode esquecer da poluição da água de córregos, rios, lagos e represas, águas que frequentemente são as mesmas usadas para o abastecimento de cidades. Um exemplo que vejo diariamente aqui da minha janela é a Represa Guarapiranga, responsável pelo abastecimento de, pelo menos, 20% da população da cidade de São Paulo. 

Além de receber milhares de litros de esgotos domésticos in natura, carreados por dezenas de córregos e pequenos rios, a Guarapiranga também é o destino final de enormes quantidades de resíduos sólidos de todos os tipos, inclusive grandes volumes de entulhos da construção civil. 

A Bienal do Lixo de São Paulo vai colocar todas essas nuances do problema em discussão nos mais diferentes formados, buscando levar a população a pensar sobre os diferentes problemas e a agir de forma construtiva na busca por soluções. 

Quem por acaso estiver em Sampa nos próximos dias já tem uma boa opção de programa. 

FORTES CHUVAS EM ALAGOAS COLOCAM MAIS DE 30 CIDADES EM SITUAÇÃO DE EMERGÊNCIA 

O Governador de Alagoas, Paulo Dantas, assinou um decreto na tarde dessa quinta-feira, dia 26 de maio, colocando 33 municípios do Estado em Situação de emergência por causa das fortes chuvas. Esse decreto permite uma agilização na liberação de verbas para o atendimento das vítimas, contratação de serviços e compra de materiais. 

O Estado de Alagoas vem enfrentando fortes chuvas desde a última terça-feira, dia 24. Em algumas regiões o volume acumulado de chuvas nesse período já ultrapassou 250 milímetros, um valor bem acima da média histórica para essa época do ano. 

Chuva demais e em pouco tempo numa região que já sofreu um forte desmatamento ao longo da história e com cidades sem uma infraestrutura de drenagem de águas pluviais minimamente adequada é um sinal de tragédia anunciada. Riachos, rios e lagoas transbordaram e mais de 3 mil pessoas tiveram de abandonar suas casas. 

O excesso de chuvas também provocou deslizamentos de encostas de morros e o desabamento de casas. Os incidentes foram registrados em Maceió, a capital do Estado, e em cidades do interior. Entre as cidades afetadas estão Barra de São Miguel, Coruripe, Maragogi, Marechal Deodoro, Paripueira, Penedo e Teotônio Vilela. 

De acordo com informações do CEMADEN – Centro Nacional de Monitoramento de Desastres Naturais, as chuvas devem continuar com intensidade moderada em toda a faixa Leste do Estado. O órgão alerta que há riscos de alagamentos e deslizamentos de terra por causa dos grandes volumes de chuva acumulados nas últimas horas. 

Segundo o INMET – Instituto Nacional de Meteorologia, essas fortes chuvas estão sendo provocados pelo Distúrbio Ondulatório de Leste em associação com resquícios da frente fria que derrubou as temperaturas em grande parte do país há poucos dias atrás. 

O Distúrbio Ondulatório de Leste, também conhecido como Ondas de Leste, é uma perturbação dos ventos e da pressão que atuam na faixa tropical do globo terrestre que fica entre a África e o litoral do Brasil. Essa perturbação interfere no regime dos ventos alísios. 

Os ventos alísios sopram no sentido Leste-Oeste, formando nuvens de chuvas que atravessam o Oceano Atlântico e chegam ao litoral Leste do Brasil. O distúrbio está provocando chuvas em 5 Estados do Nordeste: Alagoas, Sergipe, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. As chuvas se concentram na faixa Leste destes Estados. 

Os meses de junho, julho e agosto marcam o pico das chuvas na faixa Leste da Região Nordeste e já foi emitido um alerta pelo INMET sobre chuvas acima da média neste ano. Ou seja, tragédias como esta que está assolando dezenas de cidades em Alagoas no momento vão se repetir em outros Estados da Região nos próximos meses. 

Países como o Brasil, onde são predominantes os climas Equatorial e Tropical, estão sujeitos a fortes períodos de chuvas todos os anos. Isso pressupõe que cidades e Estados deveriam concentrar esforços para construir as infraestruturas para o controle e escoamento dessas águas pluviais, na remoção de famílias que vivem em áreas de risco e em encostas de morros, entre outras providencias. 

Infelizmente, como é do conhecimento de todos, nossos governantes fazem planos mirabolantes, porém, executam muito pouco do que foi planejado. Reportagens sobre desvios de verbas e superfaturamento de obras são constantes em todo o país. Chegam as chuvas e, no seu encalço, as enchentes e os desmoronamentos de encostas. Desgraçadamente, centenas de pessoas morrem todos os anos nessas tragédias. 

Um detalhe que sempre costumo lembras nas postagens são os decretos de situação de emergência. Em qualquer órgão público, a compra de materiais e a contratação de serviços só podem ser feitas mediante concorrência pública. Em situações de emergência, espertamente, essa exigência deixa de valer e as compras e contratações de serviços podem ser feitas livremente. 

Isto é uma espécie de “liberou geral” para prefeituras e Governos, onde autoridades e funcionários públicos sempre conseguem dar um jeitinho para ganhar “uns trocos” por fora dos fornecedores de materiais ou contrataram empresas de amigos para a realização de obras, onde certamente serão comtemplados com generosas gratificações. 

Um caso vergonhoso é a Região Serrana do Rio de Janeiro onde, frequentemente, as cidades são assoladas por fortes tempestades e decretos de situação de emergência são decretados. Entra ano e sai ano sem que os problemas mais elementares sejam resolvidos. A ALERJ – Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, inclusive, já criou uma CPI – Comissão Parlamentar de Inquérito. Essa comissão investigou muito e não puniu ninguém. 

É lamentável saber que tem muita gente se aproveitando dessas situações de catástrofe para ganhar dinheiro, mas isso acontece com muita frequência. Alagoas é um desses casos, onde hora falta água, hora se tem excesso de chuva. Muito triste, mas isso é uma realidade por lá. 

O AUMENTO DO NÚMERO DE CASOS DE DENGUE NO ESTADO DE SÃO PAULO

Nesses últimos dois anos e meio, todos nós ficamos perplexos e preocupados ao extremo com a pandemia da Covid-19. Os números mais recentes indicam que mais de 30 milhões de brasileiros foram infectados e, desgraçadamente, 666 mil pessoas perderam suas vidas. Felizmente parece que o pior já passou e a vida vai voltando ao normal, ou, novo normal como adam dizendo. 

Enquanto a Covid-19 concentrou a atenção de todos nós, doenças mais triviais e cotidianas de nossas vidas acabaram sendo relegadas a um segundo plano. Muitos relaxaram com o tratamento de problemas cardíacos e de outras doenças, tendo havido um grande aumento no número de vítimas dessas doenças. 

Uma das doenças negligenciadas nesses últimos anos foi a dengue, um vírus arbóreo transmitido pela picada de mosquitos – especialmente o famigerado mosquito Aedes aegypti. Silenciosamente, a dengue vem crescendo e fazendo muitas vítimas sem chamar muito a atenção. 

Dados da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo publicados há poucos dias atrás mostram que houve um aumento do número de casos e de vítimas no último ano. Foram 153.300 casos neste ano, com 119 mortes confirmadas. Ao longo de todo o ano de 2021 foram 145.800 casos, com 71 mortes confirmadas

Para que todos uma ideia exata do aumento do número de casos foram 117,5 casos e 44 vítimas nos primeiros cinco meses de 2021, o que indica que houve um aumento de 30% nos casos. Com a redução das chuvas nos próximos meses há uma tendência de redução do número de casos. 

Na cidade de São Paulo os números indicam que houve um pequeno declínio nos casos – foram confirmados 5.543 casos até o dia 10 de maio. No mesmo período de 2021 foram 5.878 casos confirmados. Não foram registradas mortes nos dois períodos. 

A dengue, assim como outras arboviroses com a Zika, a febre Chikungunya e a febre amarela urbana, são doenças transmitidas por Arbovírus. Esses são vírus que circulam e são transmitidos para hospedeiros vertebrados por artrópodes vetores da doença. O mais conhecido desses vetores é o mosquito Aedes Aegypti.  

O mosquito Aedes Aegypti é originário do continente africano, onde aprendeu a viver próximo dos assentamentos humanos desde milhares de anos atrás. Foi durante o período das grandes navegações europeias que esse mosquito “pegou carona” nas embarcações mercantis, especialmente nos chamados navios negreiros, e chegou ao continente americano, se fixando nas áreas tropicais e subtropicais, do Norte da Argentina até o estado da Flórida, nos Estados Unidos da América.    

O ciclo da reprodução dos mosquitos depende da presença de água parada, onde as fêmeas depositam seus ovos. Esses ovos primeiro se transformam em larvas, um ciclo que leva de dois a três dias, e depois em pupas. Nessa última fase surge o mosquito propriamente dito, que eclode em cerca de 48 horas. Um mosquito Aedes aegypti costuma “colonizar” uma área com raio de 200 metros a partir do local do seu nascimento, ou seja, o recipiente com a água parada.  

Entulhos da construção civil, caixas d`água destampadas, resíduos sólidos descartados incorretamente (o famoso lixo jogado em terrenos baldios), construções abandonadas, entre muitos outros locais, formam pontos de acúmulo de água e se transformam em verdadeiras maternidades para a procriação dos mosquitos, o que resultar em grandes ondas de contaminação pela dengue.  

Uma das medidas mais eficientes para a prevenção dessa e de muitas outras Arboviroses é combater os focos de proliferação dos mosquitos: as poças de água de água parada nos quintais e terrenos baldios, além das caixas d’água e outros reservatórios destampados. 

Durante a pandemia da Covid-19 todos nos adaptamos a uma série de medidas preventivas – evitar aglomerações, usar máscaras, higienizar as mãos com álcool gel, entre muitas outras. Com a dengue é a mesma coisa – a prevenção, ou seja, a eliminação dos criadouros dos mosquitos Aedes aegypti será sempre o melhor remédio. 

Infelizmente, entra ano e sai ano e as pessoas não conseguem aprender a se prevenir contra a dengue e outras doenças transmitidas por mosquitos. Precisamos deixar de lado a nossa tradicional passividade e acabar de vez com esse tipo de doença que é facilmente evitável. 

Para o bem de sua família e de seus vizinhos, faça uma verificação geral em seu quintal e em terrenos próximos, eliminado qualquer recipiente que possa acumular água e se transformar em criadouro de mosquitos. 

Sua saúde vai lhe agradecer muito! 

O “PÃO NOSSO DE CADA DIA”, OU FALANDO DA PRODUÇÃO DE TRIGO NO BRASIL 

O pão é um dos alimentos mais característicos de nossa espécie. Existem evidencias arqueológicas da produção desse alimento pelo Homo sapiens há cerca de 30 mil anos. Nossos antepassados moíam raízes de plantas até obter um extrato de amido que era assado sobre uma pedra plana. Uma espécie de padaria com cerca de 14,5 mil anos foi encontrada na Jordânia e há 10 mil anos usamos grãos de cereais para produzir pão. Qualquer povo de respeito tem sua própria receita e sua técnica para a produção de pão. 

Em grande parte do Brasil o chamado “pão francês” (vide foto), é quase uma unanimidade. Apesar do nome, esse tipo de pão vem de uma receita 100% carioca. Antes da vinda da Família Real Portuguesa, a farinha de trigo consumida aqui no Brasil era escura e de péssima qualidade. Após a chegada da nobreza ao Rio de Janeiro, passou a ser utilizada a farinha de trigo francesa, de melhor qualidade e branca.  

As padarias da Corte começaram a fazer pães macios e crocantes com essa farinha e a população batizou a iguaria de “pão francês”. Apesar da receita ser praticamente a mesma em todo o país, o nome do pão muda conforme a região. No Maranhão é chamado de pão massa grossa; no Paraná é pão careca; na Paraíba é pão aguado e no Ceará pão carioquinha. Já no Rio Grande do Sul e na Bahia é mais conhecido como cacetinho. 

Comecei fazendo esse brevíssimo histórico por que o conflito entre a Rússia e a Ucrânia é uma ameaça ao “pão nosso de cada dia” e outros alimentos feitos à base de trigo. Os dois países respondem juntos por cerca de 30% da produção e exportação do mundo. O conflito armado já está prejudicando a produção do trigo na Ucrânia e a Rússia está sofrendo uma enormidade de bloqueios comerciais aos seus produtos. O preço da commodity já subiu e há riscos de desabastecimento. 

Felizmente, nós brasileiros temos uma EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias, para chamar de nossa. Em nossa última postagem falamos das pesquisas da empresa para a produção de fertilizantes organominerais à base de biocarvão, produtos que poderão substituir para dos insumos que hoje precisam ser importados.

Outro marco histórico da EMBRAPA para o Brasil foi o desenvolvimento de variedades de soja especialmente adaptadas para as condições e clima do Cerrado Brasileiro. De origem chinesa, a soja era melhor adaptada para regiões de clima temperado e a solos de boa qualidade. Os pesquisadores brasileiros conseguiram adaptar o grão ao clima quente e aos solos ácidos e pobres do nosso Cerrado. Essa conquista começou no final da década de 1970 e o Brasil é hoje um dos maiores produtores de soja do mundo.

Desde 2012, pesquisadores da EMBRAPA vem trabalhando na tropicalização do trigo, cultura que se adaptou muito bem ao clima subtropical do Sul do Brasil. Cerca de 90% da produção brasileira de trigo, estimada em 7,7 milhões de toneladas, está concentrada em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul. O consumo brasileiro é de 12,7 milhões de toneladas, o que obrigada a importação de mais de 5 milhões de toneladas a cada ano. 

Os esforços dos pesquisadores levaram à criação das variedades de trigo BRS 264, BRS 394 e BRS 404, todas adaptadas para o cultivo no Cerrado. Plantios experimentais dessas variedades começaram a ser feitos em Goiás, no Distrito Federal e em Minas Gerais, onde se obteve uma produtividade acima da média brasileira. Em 2021, um produtor de Cristalina, em Goiás, obteve uma produtividade de 9,6 toneladas por hectare, mais de três vezes a média obtida no Sul do Brasil. 

No final de 2020, a EMBRAPA conseguiu outro feito impressionante – em parceria com a iniciativa privada foi realizada a primeira colheita de trigo no quente e seco Ceará. A produtividade ficou em 5,5 toneladas por hectare, menos que a obtida na região do Cerrado, porém, mais alta do que a dos Estados do Sul do país. Experimentos também estão sendo feitos no Piauí e no Maranhão. 

A mais nova frente de pesquisas são os Campos Amazônicos de Roraima, que são muito parecidos com os do Cerrado. O plantio experimental foi feito no final de 2021 e os resultados da primeira colheita foram promissores. As variedades utilizadas foram as mesmas desenvolvidas para o Cerrado. 

A produtividade obtida mais uma vez foi superior à do Sul do Brasil, com um período de desenvolvimento das plantas na faixa de 75 dias, enquanto na Região Sul esse período pode chegar aos 180 dias. As perspectivas para a cultura nessa região da Amazônia são extremamente promissoras. 

Segundo os pesquisadores da EMBRAPA, essas novas variedades vão garantir que o Brasil saia da condição de importador de trigo para a situação de grande exportador. Em tempos de riscos ao abastecimento mundial, essa é uma notícia animadora. 

Um outro lado extremamente positivo do trabalho da EMBRAPA é a possibilidade de estender a produção de trigo a outros países amazônicos como a Venezuela e a Guiana. Nesses países existem biomas muito parecidos com os Campos Amazônicos de Roraima e onde predomina o mesmo clima quente. 

O Bioma Amazônico não é formado apenas por grandes árvores em uma mata densa como muita gente imagina. Ele é formado por uma verdadeira colcha de retalhos de diferentes sistemas florestais, onde coexistem florestas densas, várzeas e florestas alagáveis, campos, florestas de altitude, restingas, manguezais, entre muitos outros. Cerca de 14% do Bioma Amazônico é formada por áreas de vegetação aberta como cerrados e campos naturais

Perto de 20% do território de Roraima é coberto por campos naturais, ou seja, é possível transformar o Estado em um grande produtor de trigo sem que para isso seja necessário derrubar ou queimar as árvores da Floresta Amazônica. Lembro que 46% do território de Roraima é Área Indígena e, de acordo com a legislação atual, essas terras não podem ser usadas para culturas agrícolas comerciais.  

Também é importante citar que existe no Brasil cerca de 90 milhões de hectares com pastagens degradadas e áreas que já foram desmatadas e que não estão sendo utilizadas para produção agrícola e/ou pecuária. Essas áreas estão localizadas majoritariamente nas Regiões Nordeste e Sudeste e poderiam ser usadas para a produção agropecuária – em especial para a produção de trigo. 

Isso mostra quanto espaço ainda existe em nosso país para o crescimento da produção agrícola. E com os pesquisadores da EMBRAPA trabalhando no desenvolvimento de novas variedades de cultivares, poderemos produzir cada vez mais alimentos sem a necessidade de derrubar florestas.  

Nada mal para um país que ganhou fama de “queimador de florestas” pelo mundo afora…

UM FERTILIZANTE FEITO A PARTIR DE BIOCARVÃO PARA A AGRICULTURA BRASILEIRA

O conflito entre a Rússia e a Ucrânia, como todos devem estar acompanhando nos noticiários, vai muito além de uma disputa territorial – há enormes repercussões econômica e sociais. A Rússia é uma grande produtora de petróleo e gás, sendo um importante fornecedora para países europeus. O país também é um grande produtor e exportador de grãos. 

Já a Ucrânia sempre foi um importante celeiro agrícola. O país é um grande produtor de cereais – especialmente trigo, cevada e milho, óleo de semente de girassol, entre outros produtos. Um exemplo dos impactos do conflito para o mercado mundial de alimentos: Ucrânia e Rússia juntas respondem por 30% de toda as exportações mundiais de trigo. 

Um insumo fundamental para a agricultura brasileira que foi afetado pelo conflito são os fertilizantes. A Rússia é um dos principais produtores mundiais de fertilizantes nitrogenados – 95% da demanda brasileira desse tipo de fertilizante depende de importações da Rússia, da China e de países do Oriente Médio. 

A conta também inclui os fertilizantes fosfatados – 75% da oferta no mercado brasileiro vem da Rússia, da China e do Marrocos. Também existem os fertilizantes a base de potássio, onde 95% de nossas importações vem de Belarus, do Canadá e da Rússia. Ou seja – dependemos quase que totalmente de produtos importados para produzir nossos alimentos.

Mais de 27% do nosso PIB – Produto Interno Bruto, vem do agricultura e das exportações de proteína animal. Vale lembrar que a produção de ração para a alimentação dos rebanhos animais depende dos grãos produzidos nos nossos campos. Logo, os fertilizantes se transformaram no “tendão de Aquiles” do nosso país.

Como sempre acontece nessas situações, as primeiras notícias tratando de uma crise no fornecimento de fertilizantes levou muitos produtores rurais ao desespero. As coisas, felizmente, foram se acomodando pouco a pouco – alguns dias atrás, mais de 20 navios cargueiros russos com fertilizantes conseguiram chegar até portos brasileiros, o deverá garantir o consumo até o início do próximo ano.  

Funcionários do Ministério da Agricultura começaram a correr o mundo em busca de outros fornecedores e existem boas perspectivas para o futuro. Canadá e países do Oriente Médio, que inclusive já fornecem parte da demanda do país, poderão passar a condição de grandes fornecedores de fertilizantes para o Brasil. 

Também começaram a surgir algumas soluções tupiniquins, no melhor sentido da palavra. Uma dessas soluções promissoras tem no seu DNA pesquisas feitas pela Embrapa Meio Ambiente. Trata-se do uso de fertilizantes organominerais à base de biocarvão

Segundo as pesquisas, essa fonte garante uma boa disponibilidade de nutrientes, especialmente nitrogênio e fósforo. Esses elementos são liberados lenta e gradualmente quando comparados aos fertilizantes químicos, porém, isso previne as perdas excessivas e aumenta o potencial de absorção pela cultura. 

Numa fase anterior da pesquisa foram feitos testes para a validação das diferentes proporções de biocarvão e da fonte hidrogenada (29% a 51% de biocarvão e de 5% a 20% de nitrogênio). Esses testes permitiram encontrar a eficiência agronômica e ambiental dos fertilizantes. 

Entre as melhores formulações encontradas está a proporção com 10% a 17% de nitrogênio e de 40% a 51% de biocarvão. Nos testes realizados na produção, essa fórmula permitiu um ganho de produtividade de até 21% na produção de milho e de 12% na eficiência do uso do nitrogênio pelas plantas. 

Um dado interessante encontrado nos testes foi a redução das emissões de óxido nitroso (N2O) pela cultura. Esse é um dos gases responsáveis pelo efeito estufa e pelo aumento das temperaturas do nosso planeta. Também houve um incremento do sequestro de carbono pelo solo, um dos “antídotos” para essa verdadeira catástrofe ambiental. 

É evidente que a Embrapa não tirou esse “coelho da cartola” como num passe de mágica. Desde 2011, a empresa vem trabalhando em parceria com o IAC – Instituto Agronômico, com a ESALQ – Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, ligada a USP – Universidade de São Paulo, além de empresas do setor privado. 

A EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias, foi criada em 1973, tendo como principal objetivo o desenvolvimento de tecnologias, conhecimentos e informações técnico-científicas destinadas ao pleno desenvolvimento da agricultura brasileira. Muitos dos mais jovens podem não saber, mas o Brasil daqueles tempos ainda dependia da importação de muitos alimentos. 

Cerca de 5 anos depois, o Centro Nacional de Pesquisa da Soja, uma das unidades de pesquisa da EMBRAPA, já começava a revolucionar a agricultura brasileira. A empresa conseguiu desenvolver variedades de soja perfeitamente adaptadas às características de solos e ao clima do Cerrado Brasileiro. Em quatro décadas, o Brasil se transformou no maior produtor de soja do mundo. 

Como toda tecnologia nova, não poderemos esperar grandes resultados desse fertilizante organomineral no curto prazo. Serão necessários ainda muitos anos para transformar essa tecnologia nova em um produto comercial plenamente aceito pelo mercado e, especialmente, pelos agricultores. 

Porém, falamos aqui de um produto que poderá contribuir muito para uma sustentabilidade ainda maior da agricultura brasileira. Muitos consumidores, especialmente na Europa, se recusam a comprar produtos agropecuários brasileiros por causa de notícias que falam das queimadas e da destruição da Floresta Amazônica. Para esse público, os nossos produtos saem dessas áreas “destruídas” da grande floresta tropical. 

Esse fertilizante feito a partir de biocarvão poderá ajudar a mudar a percepção de muita gente sobre o agronegócio brasileiro.

ONDA DE FRIO INVADE A REGIÃO CENTRO SUL DO BRASIL 

Tem feito bastante frio nos últimos dias aqui na cidade de São Paulo e em outras cidades e regiões do país, especialmente na área conhecida como Região Centro Sul. Há dois dias atrás, a temperatura na cidade ficou próxima dos 8° C, com algumas áreas mais altas registrando uma sensação térmica de –2° C por causa dos fortes ventos. 

Hoje mesmo eu estava conversando com minha irmã e lembrando de nossa avó – sempre que vinha passar uns dias na nossa casa, ela costumava comprar tecido de flanela para fazer camisas quentes para nós. O inverno paulistano era, até algumas décadas atrás, bem mais rigoroso e ainda tinha a “tal” da garoa nos finais de tarde. 

Essa onda de frio, que trouxe inúmeras lembranças da minha infância, não afetou só os Estados do Sul, Sudeste e Centro-Oeste – os termômetros também despencarem no Nordeste e no Norte do país, regiões pouco acostumadas com temperaturas mais baixas. 

Na Região Norte as áreas mais afetadas foram o Acre, Rondônia e o Sul do Amazonas. Em Rio Branco, capital do Estado do Acre, estavam sendo esperadas temperaturas entre 14° e 16° C, o que é bastante frio para as médias normais para essa época do ano. Em Porto Velho, capital de Rondônia, as temperaturas mínimas podem chegar a 16° C.  

O Nordeste também vai “sofrer” com temperaturas abaixo da média. No Sul da Bahia, citando um exemplo, as temperaturas devem cair para valores entre 15° e 16° C. Em Teresina, os termômetros deverão chegar aos 22° C – em Fortaleza e em São Luís a mínima poderá chegar a 24° C. Nós aqui no Sudeste e no Sul do país vamos para a praia com essas temperaturas, mas, para nordestinos, isso é um “frio lascado”… 

Ondas de frio mais severo como esta que estamos vivendo hoje deixaram de ser comuns aqui na cidade de São Paulo já há uns 30 anos. Agora, o que está chamando mesmo a atenção é a época – falta mais de um mês para a chegada do inverno e um frio com essa intensidade seria esperado só em julho. 

O responsável pela “friagem” foi um ciclone extratropical que se formou no litoral do Rio Grande do Sul e que passou a impulsionar ventos frios para o interior do continente. O fenômeno meteorológico evoluiu e se transformou na tempestade subtropical Yakecan, provocando ventos de até 100 km/h, chuva intensa, ressaca no mar, neve na Serra Gaúcha e uma onda de frio que se espalhou pelo país. 

Segundo informações do INMET – Instituto Nacional de Meteorologia, essa onda de frio provocou quedas de mais de 5° C nas temperaturas. Além dos Estados da Região Sul e São Paulo, os mais afetados, essa da onda de frio está sendo Goiás, Mato Grosso, Distrito Federal, Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro, além do Sul do Tocantins. Em menor intensidade, como já citamos, o Norte e o Nordeste.

Além do frio, a tempestade subtropical está provocando fortes chuvas em algumas regiões, principalmente no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. Na última terça-feira, inclusive, os moradores da Região Metropolitana do Rio de Janeiro foram surpreendidos por uma forte chuva seguida por queda de granizo, um evento raríssimo na Região. 

No litoral de Santa Catarina o problema foram os fortes ventos e o mar agitado. Na terça-feira, a Marinha do Brasil proibiu a navegação no canal de acesso ao Complexo Portuário de Itajaí e de Navegantes. As rajadas de vento chegaram próximo a 100 km/h, tornando a navegação no canal impraticável. 

O clima aqui nesse nosso canto do mundo, aliás, está ficando complicado. Em meados de janeiro, como muitos devem recordar, uma poderosa massa de ar quente e seco se formou no Sul da Argentina e elevou as temperaturas no Centro e no Norte da Argentina, no Paraguai, no Uruguai e também no sul do Brasil. 

Na cidade de San Antonio Oeste, na Patagônia argentina, os termômetros registraram a temperatura recorde de 42,8° C. Essa onda de calor chegou na região de Buenos Aires um dia depois e elevou as temperaturas para valores próximos dos 40° C, as maiores em mais de um século na cidade. 

Uma das consequências dramáticas desse calor temporão foi um blackout que atingiu boa parte das cidades da Grande Buenos Aires – a rede elétrica antiga não suportou uma infinidade de ventilares e equipamentos de ar condicionado ligados ao mesmo tempo. Cerca de 700 mil porteños ficaram as escuras por muitas horas.

No Rio Grande do Sul, essa onda de calor elevou as temperaturas entre 10° e 15° C, amplificando os problemas que o Estado vivia há época por causa da seca. O INMET, inclusive, emitiu um alerta de calor extremo para 216 municípios gaúchos. 

Mal se passaram quatro meses e agora estamos vivendo uma onda anormal de frio vinda de latitudes muito próximas. Pode até ser uma grande coincidência a ocorrência de dois extremos climáticos num espaço de tempo tão curto, porém, não podemos deixar de imaginar que a causa pode estar ligada às mudanças climáticas globais. 

Conforme já apresentamos em outras postagens aqui do blog, o aumento das temperaturas do planeta está provocando um derretimento acelerado das massas de gelo nos polos e das altas montanhas. O derretimento da capa de gelo do Continente Antártico, que está bem próximo de nós sul-americanos, está provocando mudanças nas correntes marinhas e nos regimes de vento. 

No Oceano Índico essas mudanças já são bastante visíveis – medições sistemáticas mostram que a temperatura superficial das águas está se elevando, o que tem alterado, entre outras coisas, o regime de chuvas na África Austral, no Sul e no Sudeste da Ásia. 

O Atlântico Sul é uma extensão a Leste do Oceano Índico e já pode estar sofrendo de interferências semelhantes. Porém, como sempre ressaltamos, serão necessários muitos estudos para que se determine com exatidão o que está acontecendo por esses nossos lados. 

Enquanto as respostas científicas não vêm, o jeito é irmos nos adaptando a esses extremos climáticos que parecem estrar se tornando cada vez mais frequentes… 

ESTUDO INDICA QUE A POLUIÇÃO MATOU 9 MILHÕES DE PESSOAS EM 2019 

Ao longo dos últimos dois anos e meio, todos nós temos convivido com a Pandemia da Covid-19. Existem dados que indicam que cerca de 6,2 milhões de pessoas já morreram por causa da doença. A OMS – Organização Mundial da Saúde, acredita que esse número de mortos está subestimado e calcula que o número de vítimas pode ter chegado aos 15 milhões

Enquanto a Covid-19 ocupa amplos espaços nos meios de comunicação, existem outras doenças que também vem matando muita gente e muito pouco se fala sobre isso. A poluição é uma dessas assassinas silenciosas e pouquíssimo espaço consegue nos meios de comunicação. 

De acordo com um estudo realizado por um consórcio de cientistas e que foi divulgado na última edição da revista The Lancet Comission on Pollution and Health, a poluição foi responsável pela morte de 9 milhões de pessoas em todo o mundo em 2019. Isso representa 16% do total de mortes do período. Os cientistas alertam que esse número de vítimas ficou praticamente inalterado em relação à mesma pesquisa feita em 2017, o indica que não foram tomadas medidas para amenizar os problemas. 

A poluição do ar é, disparada, a campeã em mortos, sendo responsável por 6,67 milhões de mortes a cada ano. Em seguida vem a poluição química, com 1,8 milhão de vítimas, a poluição da água, com 1,8 milhão de mortes e os riscos ocupacionais tóxicos, com 870 mil vítimas. 

A exposição ao chumbo, metal pesado extremamente tóxico, é responsável por metade dos casos de poluição química. O chumbo é muito usado na produção de baterias para veículos, na composição de tintas industriais e residenciais, cabos elétricos e também como aditivo para a gasolina, entre outras aplicações. 

O estudo indica que mais de 90% das mortes ocorreram em países de renda baixa e média, sendo que entre os 10 países com os maiores números de vítimas 7 ficam na África. Um dado curioso: dos 54 países que formam a África, apenas 7 realizam um monitoramento confiável e em tempo real da poluição do ar.

Nos quesitos água e solos contaminados, além do ar mais poluído, o Chade, a República Centro-Africana e o Níger ocupam as primeiras posições com os dados ajustados de acordo com o tamanho da população. Completam a lista dos 10 países mais afetados pela poluição as Ilhas Salomão, no Sul do Oceano Pacífico, Somália, África do Sul, Coreia do Norte, Lesoto, Bulgária e Burkina Faso.  

Uma constatação interessante feita pela pesquisa foi a identificação de um aumento substancial de óbitos relacionados à exposição a poluentes derivados da atividade industrial, especialmente em países da Ásia. Em países como a China e a Índia, os níveis crescentes de exposição a produtos tóxicos se somam ao aumento da expectativa de vida da população. 

A queima de combustíveis fósseis é o grande destaque na poluição do ar. Ela começa com veículos automotores movidos a gasolina e diesel, passando pelas chaminés de industrias e atingindo o seu auge na queima de carvão em usinas siderúrgicas e em usinas termelétricas. 

Vou citar como exemplo a minha cidade – São Paulo, onde circulam cerca de 6 milhões de veículos diariamente. Felizmente, a maioria desses veículos utilizam catalizadores nos escapamentos e também sistemas de injeção eletrônica de combustível, o que ajuda a reduzir as emissões. Também é importante citar que uma parte significativa desses veículos utilizam motor flex, o que permite o uso de etanol, combustível que polui bem menos que a gasolina. 

Já em Lahore, cidade do Paquistão que é considerada a mais poluída do mundo, a situação é bem mais complicada. Com uma população igual à da cidade de São Paulo, Lahore possui uma frota de veículos bastante antiga, onde os motores utilizam tecnologias antigas e muito mais poluentes.  

Outro complicador para o ar da cidade são as centrais termelétricas movidas a carvão, um combustível altamente poluente. Essas unidades são responsáveis pela maior parte do fornecimento da energia elétrica usada pela população. Aliás, o carvão é um dos grandes vilões da poluição do ar em todo o mundo.

Medições feitas pela IQAir, uma empresa suíça especializada em tecnologia da qualidade do ar, em dia 18 de novembro de 2021, mostrou que o ar de Lahore Lahore tinha uma concentração de 311 micro gramas de partículas PM2.5 para cada metro cúbico de ar  

Uma medição equivalente feita em São Paulo no mesmo dia pela CETESB – Companhia Ambiental do Estado de São Paulo, mostrava a cidade na 55ª posição com uma concentração de partículas PM2.5 de 17 microgramas para cada metro cúbico de ar. Além da grande diferença nas características da frota de veículos, São Paulo não possui termelétricas a carvão em suas cercanias. 

No caso da poluição da água, precisamos destacar o lançamento de esgotos domésticos e industriais em rios e outros corpos d`água. Esse problema é mais comum em países pobres e em desenvolvimento. Em São Paulo esse é um problema crônico onde se destacam os rios Tiete, Pinheiros e Tamanduateí

Conforme já tratamos em inúmeros postagens aqui do blog, São Paulo sofre muito com as enchentes nos meses de verão. É justamente nesses momentos em que a poluição das águas entra em contato com a população, principalmente aquela camada mais pobre e que mora em regiões próximas da calha dos rios. 

Outro problema, também já tratado em postagens aqui do blog, é o uso da água poluída de rios e córregos na irrigação de verduras e legumes nas regiões chamadas de “cinturão verde” das cidades. Além de uma infinidade de bactérias e de patógenos de todos os tipos, essa água possui grandes quantidades de metais pesados. 

Um exemplo que mostramos em uma postagem anterior que exemplifica muito bem os problemas de poluição nas águas são os cachorros azuis da Índia. Esses animais costumam entrar nas águas de rios altamente poluídos do país para buscar alimentos e ficam altamente contaminados com todo um coquetel de produtos químicos, combinação que deixa o pelos dos animais na cor azul. 

Pessoas que consomem, direta ou indiretamente, essas águas ou alimentos irrigados com elas, ou ainda que entram em contato com essas águas durante momentos de enchentes, ficam sujeitas, é claro, a toda uma infinidade de doenças e problemas de saúde, sendo que muitas acabam morrendo. 

O mesmo ocorre com pessoas que ficam expostas a atmosferas altamente poluídas ou que tem contato frequente com produtos químicos e metais pesados, especialmente em seus ambientes de trabalho. Esse contato frequente costuma resultar em uma série de doenças, muitas delas fatais. 

Deferentemente de doenças de evolução rápida como a Covid-19, a poluição costuma “matar aos poucos” e silenciosamente. Talvez por isso, essas mortes não chamam tanto a atenção e, consequentemente, não chocam as populações. 

As cifras, entretanto, são alarmantes e clamam a atenção urgente dos nossos governantes. 

A CRISE ECONÔMICA E A FALTA DE ALIMENTOS, DE ENERGIA E DE COMBUSTÍVEIS NO SRI LANKA 

O Sri Lanka é um daqueles países que raramente ouvimos falar aqui no Ocidente. Localizado ao largo da costa Sul da Índia, esse país insular tem cerca de 65 mil km2, área um pouco maior que a do nosso Estado da Paraíba, contando com uma população de aproximadamente 22 milhões de habitantes. 

Existem evidencias de assentamentos humanos na ilha datados em cerca de 125 mil anos, porém a história escrita do país está documentada há apenas 3 mil anos. A população foi formada a partir de uma mistura de grupos tâmeis do Sul da Índia, malaios, mouros e aborígenes vedas, entre outros grupos étnicos. A maioria da população professa a fé budista. 

Como sempre acontece com esses países, é preciso que ocorra alguma tragédia para que virem notícia. O Sri Lanka está ocupando manchetes dos meios de comunicação por causa de uma enorme crise econômica e social que se desenrola na ilha. Com a epidemia da Covid-19, o país perdeu grande parte de suas receitas em moeda estrangeira – o turismo e as exportações de chá, duas das principais atividades econômicas do país, caíram fortemente desde 2020. 

Sem dinheiro para fazer compras no mercado internacional, o país reduziu ao máximo possível as importações de fertilizantes, o que prejudicou imensamente a produção local de alimentos. Com a redução da oferta, os preços subiram e centenas de milhares de cingaleses estão passando fome. 

E os problemas não param por aí – a falta de dinheiro também prejudicou as importações de combustíveis e a população sofre com a falta e com os altos preços desses produtos. Falta combustível até para as usinas de geração de energia elétrica e os cortes no fornecimento são diários. A situação da população é caótica. 

O país também suspendeu os pagamentos de sua dívida externa de US$ 51 bilhões, perdendo assim o crédito no mercado financeiro internacional. O Sri Lanka está enfrentando a pior recessão desde 1948, ano em que conseguiu a independência do Reino Unido. Segundo analistas internacionais, o país precisaria de US$ 7 bilhões para honrar seus compromissos internacionais este ano, mas dispõe de reservas de apenas US$ 1,9 bilhão. 

Manifestações diárias de milhares de pessoas (vide foto) pedem a renúncia do Presidente Gotabaya Rajapaksa, a quem acusam, entre outros problemas, de inabilidade na gestão da crise. A família Rajapaksa, aliás, ocupa diversos cargos na administração do país – são filhos, irmãos e outros parentes do Presidente. Esse nepotismo aumenta ainda mais a revolta da população. 

No início de 2020, já antevendo as dificuldades para a importação de insumos agrícolas, o Presidente do Sri Lanka anunciou que seu país estava proibindo o uso de fertilizantes e pesticidas na agricultura com o objetivo de tornar toda a produção orgânica. Muitos ambientalistas internacionais aplaudiram essa iniciativa demagógica. 

Entretanto, a realidade acabou falando mais alto – logo após o anúncio dessas medidas, cerca de 1/3 das culturas não foram plantadas pelos produtores rurais. A razão é muito simples – culturas orgânicas não costumam ser viáveis economicamente. A produção cai, os custos aumentam e o mercado não paga o valor real dos produtos. A produção de arroz, um dos alimentos básicos da população e onde já não havia autossuficiência, diminuiu 20%, o que obrigou o Governo a gastar cerca de US$ 450 milhões com a importação do cereal. 

O Governo do Sri Lanka também foi obrigado a desembolsar cerca de US$ 350 milhões em subsídios e indenizações para os agricultores que não conseguiram se adaptar as novas diretrizes. Para os consumidores o impacto se deu num aumento de 50% no preço de venda do arroz. 

Um outro produto que teve sua produção fortemente afetada foi o chá, o principal produto de exportação do país. Desde a época das grandes navegações europeias nos séculos XV e XVI (os portugueses chegaram ao Sri Lanka em 1505), que os chás do Ceilão, nome antigo do país, fazem sucesso na Europa. As exportações anuais do produto registraram prejuízos da ordem de US$ 425 milhões no último ano. 

De acordo com dados da Foreign Policy, uma publicação norte-americana que analisa a política internacional e a relação entre os países, a desastrada medida do Governo cingalês prejudicou fortemente a segurança alimentar da população. Calcula-se que cerca de 500 mil cingaleses foram levados para um padrão de vida abaixo da linha da pobreza. 

Com o visível colapso da produção agrícola, o Governo não tardou em suspender a política de proibição do uso de fertilizantes e de pesticidas. Entretanto, os estragos já estavam feitos, o que agravou ainda mais a crise econômica e a possibilidade de importar esses insumos. 

É importante citar que o Sri Lanka enfrentou uma guerra civil entre os anos de 1983 e 2009, conflito que matou mais de 40 mil pessoas. O embate se deu entre o grupo político Tigres de Libertação do Tâmil, que queria a independência do seu território, e o Governo Central do país. 

Esse conflito deixou profundas sequelas em um país historicamente já marcado pela pobreza. Milhares de camponeses foram obrigados a abandonar suas terras e migrar para outras regiões do país, o que agravou muitos dos conflitos agrários. Cerca de metade da população do Sri Lanka depende da agricultura, especialmente da produção de arroz, chá, borracha e coco.  

Existe ainda um agravante – apenas 1/3 das terras da ilha podem ser utilizadas para a produção agrícola. Imaginar que seria possível manter a produção sem o uso de fertilizantes e defensivos agrícolas foi, no mínimo, um ato de enorme ingenuidade por parte do Governo do país. E como sempre acontece, a fatura chegou e o Governo não tem dinheiro para pagar a conta. 

Com um forte desemprego, altos preços dos alimentos, com cortes no fornecimento de energia elétrica, falta de combustíveis e com uma queda brutal na entrada de recursos externos, o país está vivendo uma situação explosiva. A combinação de tantos problemas num único país não costuma acabar nada bem. 

Desgraçadamente, parece não haver uma solução no curto prazo para o pobre Sri Lanka.