FLORESTAS IRRIGADAS COM EFLUENTES DE ESGOTOS NO DESERTO DO EGITO

Floresta Serapium

O Egito é, há pelo menos 4 mil anos, uma referência quando o assunto é agricultura irrigada. Ocupando uma área de 1 milhão de km², pouco maior que o Estado de Mato Grosso, o país é um “mar sem fim” de terras áridas e desérticas – a exceção é uma longa faixa verde, que corta o território de Norte a Sul às margens do precioso rio Nilo. Essa região fértil, que ocupa apenas 5,5% da área total do país, concentra 99% da população egípcia. Logo, não há nenhum exagero em se afirmar que o Egito é o rio Nilo – é impossível um existir sem o outro. 

De acordo com estudos arqueológicos feitos na região, as primeiras tribos nômades se estabeleceram nas margens do rio Nilo há cerca de 8 mil anos. Esses povos rapidamente adaptaram suas vidas às cheias anuais do rio que, naturalmente, fazem as águas avançar contra as margens e fertilizar os solos com sedimentos ricos em nutrientes. Com o passar dos séculos, esse povo aprimorou os mecanismos criados pela natureza e desenvolveu sofisticadas técnicas de irrigação por valas de inundação, transformando-se depois num dos mais importantes celeiros agrícolas do mundo antigo. Infelizmente, passados vários milênios, os egípcios modernos continuam usando as mesmas técnicas de irrigação – os tempos e o rio Nilo, porém, já não são os mesmos. 

Com uma população na casa dos 100 milhões de habitantes, o Egito depende como nunca do rio Nilo para irrigar suas lavouras, dessedentar os rebanhos animais e abastecer suas cidades. Essa dependência é bastante simples de se explicar – 96% da água disponível no país vem do rio Nilo. E esse recurso está bem próximo do esgotamento – a demanda está chegando perigosamente perto da oferta de água. Como se tudo isso já não fosse desesperador, ocorre hoje uma intensa disputa pelas águas do rio Nilo entre o Egito e os demais países que compõem a bacia hidrográfica – falaremos disso no próximo post

Falemos por hora de um projeto de pesquisa, coordenado por cientistas egípcios e alemães da Universidade Técnica de Munique, que teve início na década de 1990 – águas residuárias de uma ETE – Estação de Tratamento de Esgotos, de uma região com uma população de 500 mil pessoas, passaram a ser usadas na irrigação de florestas artificias em 36 áreas de deserto. Uma dessas áreas, a Floresta Serapium, já mostra excelentes resultados. 

Antes, uma rápida explicação: dependendo da tecnologia usada no tratamento dos esgotos ou do projeto dessas estações de tratamento, os efluentes de saída ou águas residuárias ainda podem conter grandes quantidades de matéria orgânica não tratada e patógenos de todos os tipos. Se esses efluentes forem lançados diretamente em um rio, há riscos de contaminação das águas, numa proporção bem menor, é claro, se comparado com o lançamentos de esgotos in natura.

A ideia dos pesquisadores era utilizar essas águas residuárias, onde se encontram altas concentrações de fosfato e nitrogênio, fertilizantes naturais, para a irrigação de várias espécies de árvores nativas do Egito e de espécies exóticas como o eucalipto e o mogno, essas últimas com alto valor comercial. O transporte da água até as florestas, que ficam na região de Ismaília – a duas horas de carro do Cairo, é feito por um sistema de adutoras. A irrigação das plantas é feita por gotejamento localizado, a partir de uma rede de tubulações flexíveis distribuídas no solo. Cada uma das árvores recebe, em média, 5 litros de água a cada dia. 

Na preparação do solo arenoso para o plantio, os pesquisadores utilizam um composto preparado a partir de folhas e galhos de árvores triturados, que, em conjunto com os fertilizantes presentes nas águas residuárias, se encarregarão de nutrir as plantas. Com toda essa “fartura”, as árvores conseguem se desenvolver em tempo recorde: um eucalipto, que leva cerca de 60 anos para se desenvolver completamente na Alemanha, no calor do deserto do Egito consegue atingir a mesma maturidade em apenas 15 anos

O sucesso da pesquisa, que poderá criar uma nova fonte de renda para o país, tem um forte apelo ecológico e social, ajudando a resolver dois problemas ao mesmo tempo: evita que os resíduos de esgotos ainda presentes nas águas residuárias sejam lançados no leito do já combalido rio Nilo, ao mesmo tempo em que está criando oportunidades de trabalho e renda (vide foto) na combalida economia do Egito, um país que há vários anos vem perdendo preciosas receitas na área do turismo, a mais importante “indústria” do país. 

 

NA CIDADE DO MÉXICO, O ENCONTRO ENTRE MITO, CULTURA E AGRICULTURA

Chinampas

Os astecas eram um povo formado por um aglomerado de tribos guerreiras e nômades, que há vários séculos vagavam pelas planícies e regiões semiáridas do México. Uma antiga profecia afirmava que, quando encontrassem o lugar exato para a construção da capital do seu império, eles receberiam um sinal dos deuses. De acordo com a mitologia asteca, o deus da guerra Huitzipochtli mostraria uma águia pousada sobre um cacto com flores, com uma serpente presa em seu bico. Depois de muitas buscas, finalmente encontraram esse sinal dos deuses numa pequena ilha no pantanoso lago de Texcoco – foi ali que fundaram a cidade de Tenochitlan, que séculos mais tarde passaria a ser conhecida como a Cidade do México. A águia com a serpente, inclusive, está estampada na bandeira mexicana. Esse encontro aconteceu por volta do século XII – já no século XVI, quando da chegada dos primeiros espanhóis ao México, Tenochitlan já era uma cidade com perto de 1 milhão de habitantes. 

Existe uma infinidade de teorias para explicar essa súbita evolução de um grupo humano, nômade e sem maiores conhecimentos em ciência e agricultura, que se transformou num dos maiores impérios do continente americano em um espaço de tempo relativamente curto. Essas teorias vão do contato com sobreviventes do lendário continente de Atlântida à visita de extraterrestres. Porém, fugindo dessas questões polêmicas, podemos afirmar que foi o desenvolvimento de técnicas agrícolas altamente sofisticadas a chave para o sucesso e o crescimento do Império Asteca

A congestionada e poluída Cidade do México dos nossos dias, com perto de 9 milhões de habitantes, ainda conserva muitos vestígios da civilização asteca, que acabou subjugada pelo conquistador espanhol Hernán Cortés no ano de 1521. Na zona Sul da Cidade do México, na região conhecida como Xochimilco, ainda encontramos uma parte do antigo lago, onde ainda resistem os jardins flutuantes criados pelos astecas – os chinampas

Essas ilhas flutuantes passaram a ser construídas logo após a fundação da cidade de Tenochitlan. Os astecas escolhiam as áreas mais rasas do lago, onde misturavam os sedimentos do fundo com estruturas de galhos, formando sucessivas camadas até superar o nível do espelho d’água. Era nesses “terraços” que plantavam o precioso milho, alimento básico da população, e todos os tipos de vegetais, legumes e plantas medicinais. Entre essas ilhas existia um impressionante conjunto de canais, que facilitavam o transporte dos alimentos até os núcleos populacionais. A água do lago se infiltrava com extrema facilidade no subsolo dessas ilhas, mantendo assim uma irrigação permanente das plantas, muito parecido com as técnicas de plantio hidropônico usadas hoje em dia. A extrema fertilidade e umidade dos solos dessas ilhas permitiam a produção de alimentos em larga escala, o que sustentou o Império Asteca por séculos. 

Se você fizer uma pesquisa histórica, vai perceber facilmente que todos os grandes impérios que surgiram ao longo da história da humanidade, só se expandiram após o desenvolvimento e a consolidação de sistemas autossuficientes de produção de alimentos – somente após ter soldados com barriga cheia e com estoques de alimentos para longos períodos, é que os reis do passado saíam em busca da conquista de novos territórios. No caso do Império Asteca, os chinampas garantiam alta produtividade durante todo o ano, apesar da grande capital estar localizada num platô a 2.250 metros de altitude e com um longo período de seca na época do inverno.

Essa antiga rede de canais e ilhas pouco a pouco foi desaparecendo – com a destruição do Império Asteca e o domínio espanhol no México, o lago Texcoco passou a ser aterrado sistematicamente para permitir a ampliação da Cidade do México. Na região de Xochimilco muitos desses canais e ilhas ainda resistem, formando um importante ponto turístico da moderna Cidade do México. Nas ilhas ainda continuam sendo produzidos diversos alimentos e também flores e bonsais. Em 1987, a técnica agrícola dos chinampas foi incluída na Lista do Patrimônio da Humanidade da UNESCO – Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura. A região de Xochimilco tem 800 hectares de chinampas. A técnica agrícola foi “exportada” para outras regiões do México e atualmente existem cinco áreas chinampeiras no país, com um total de 2 mil hectares de solos agricultáveis.

Essa verdadeira “Veneza mexicana” é hoje um ponto de encontro de famílias e de turistas, que circulam pelos canais em embarcações típicas, conhecidas como trajineras (vide foto). Essas embarcações possuem mesas e cadeiras, onde se pode apreciar os mais típicos alimentos da culinária mexicana, como o milho cozido e assado na espiga e as tortilhas, e relembrar os tempos de glória do antigo Império Asteca. 

 

A IMPORTÂNCIA DA IRRIGAÇÃO NA DECADENTE AGRICULTURA DA GRÉCIA

Oliveiras

Ao contrário do que muitos de vocês imaginam, não são todas as regiões da Europa que são verdejantes, com extensos campos cobertos por plantações de trigo, cevada e alfazema. Países do Sul do continente como Grécia, Itália, Portugal, Chipre, Espanha e o Sul da França apresentam áreas de clima árido e semiárido, com baixa disponibilidade de água. Nessas regiões, a agricultura só é possível através do uso intensivo de sistemas de irrigação, onde volumes da ordem de 80% da água doce disponível é consumida, índice superior à média mundial que é de 70% e muito acima da média de consumo no Norte da Europa, onde esse índice é de 30%. Um complicador extra para a produção agrícola nessas regiões é o Clima Mediterrâneo, que apresenta verões quentes e secos – as chuvas só ocorrem no inverno, estação que não é propícia para o desenvolvimento das plantas no Hemisfério Norte

De acordo com a AEA – Agência Europeia do Ambiente (em inglês: EEA – European Environment Agency), as antigas políticas de preços da água para uso na agricultura, fortemente subsidiadas pelos Governos, não exigiam da parte dos agricultores um uso eficiente e racional dos recursos hídricos – as culturas gastavam muita água, sem qualquer preocupação com os custos ambientais e econômicos. Em diversas regiões da Europa, onde Governos estão reduzindo gradativamente os subsídios agrícolas, tem-se observado uma redução gradual no consumo de água na agricultura. Um exemplo é a Província de Córdoba, na Espanha – após a redução parcial dos subsídios para a produção do algodão, foi observada uma melhoria de 40% na eficiência dos sistemas de irrigação. 

Dentro desse contexto de mudanças e melhorias da agricultura no continente europeu, a Grécia é um caso à parte. O pequeno país do Sudeste da Europa, com área de pouco mais de 130 mil km² e uma população de 11 milhões de habitantes, vem apresentando uma agricultura em franca decadência nos últimos 20 anos, uma situação setorial que complica ainda mais a situação econômica da Grécia. De acordo com dados do Banco Mundial, a produção agrícola em 1995 correspondia a 8% do PIB – Produto Interno Bruto, grego; em 2015, essa participação caiu para apenas 4%. Apesar da baixa participação no PIB, a agricultura emprega 13% da população economicamente ativa do país – na Inglaterra, esse índice é inferior a 2%

Berço da cultura, das artes, da literatura e da filosofia ocidental, a Grécia moderna, porém, sempre foi uma economia periférica da Europa, fortemente dependente do setor de serviços, responsável por 80% da economia, dentro do qual a indústria do turismo representa  20% de toda a circulação de riquezas da Grécia. A situação econômica do país só passaria a ter uma relevância maior após a Segunda Guerra Mundial, quando diversas políticas de reconstrução e de subsídios para as regiões mais pobres do continente europeu passaram a ser implantadas – foi a partir daí que a economia da Grécia apresentou substancial melhoria. A partir de 1960 e até 1991, a produção agrícola do país apresentou um crescimento contínuo, passando de uma produção de 2 milhões de toneladas/ano para 6,25 milhões de toneladas anos de acordo com dados da FAO – Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura. Entre as principais culturas destacam-se o milho, o trigo, as laranjas e a azeitona (vide foto), matéria prima do famoso azeite de oliva, além é claro das uvas, usadas na produção dos tradicionais vinhos gregos. 

Após a adesão da Grécia à União Europeia em 1981, as coisas gradativamente começaram a desandar no país. Tentando equiparar as suas políticas sociais e econômicas à dos demais países do bloco europeu, a fraca economia da Grécia, gradativamente, passou a acumular déficits no orçamento público, que chegou a atingir uma relação dívida/PIB de quase 200%. Dentro desse grave quadro fiscal, também passa a se observar uma gradual redução da produção agrícola do país a partir de 1991, que caiu para 4,24 milhões de toneladas em 2015. A área cultivada, que em 1960 correspondia a 180 mil hectares, caiu para 50 mil hectares em 2015. O grave desemprego no país atinge hoje 24% da população economicamente ativa

Dentro de um quadro econômico tão caótico, a modernização da decadente agricultura grega passou a ser fundamental para o fechamento da balança de pagamentos do país, que em 2016 apresentou um déficit de US$ 18,35 bilhões – vários dos produtos de exportação da Grécia vem do campo: azeites, vinhos, frutas frescas e em conserva, além de cigarros. Com apoio de várias agências de financiamento e de fomento da União Europeia, estão sendo feitos pesados investimentos para a modernização da agricultura, com destaque para a construção de novos sistemas de irrigação. Alguns resultados estão se mostrando animadores: a melhoria da eficiência em redes de transporte e de distribuição de água está permitindo um ganho de eficiência de até 95% em sistemas de irrigação de lavouras

Com o perdão do trocadilho, a modernização dos sistemas de irrigação está no centro da “salvação das lavouras” da Grécia. Que outros países sigam este exemplo. 

A CONTAMINAÇÃO DE VERDURAS E LEGUMES POR ESGOTOS NO BRASIL: UM ESTUDO DE CASO

Verduras e vegetais

Na última postagem, nós apresentamos alguns dados preocupantes sobre o uso de águas contaminadas por esgotos na irrigação de lavouras de verduras e de legumes. Hoje, apresentamos um raro estudo de caso feito aqui no Brasil, publicado pela Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical em sua edição de março-abril de 2007

Entre fevereiro de 2000 e setembro de 2001, a Vigilância Sanitária Municipal de Ribeirão Preto, cidade localizada na região Noroeste do Estado de São Paulo, realizou um estudo sobre a qualidade das hortaliças vendidas na cidade, onde também foi avaliado o uso de águas contaminadas na irrigação de plantações produtoras dessas hortaliças. O estudo avaliou a qualidade de 103 hortaliças e suas respectivas águas de irrigação, provenientes de 88 hortas diferentes. As amostras de água foram recolhidas em frascos de 250 ml, esterilizados e específicos para análise microbiológica. Das hortas selecionadas para o estudo, 47 já haviam sido avaliadas em um estudo anterior e 41 nunca haviam sido avaliadas. 

Alguns números da pesquisa: 

  • 67 hortas passaram por testes para avaliação da presença de coliformes fecais a 45° C na água e nas hortaliças – 30 hortas ou 44,8% apresentaram níveis acima do limite tolerado
  • 21 hortas foram analisadas de acordo com a legislação em vigor da Autarquia – 6 hortas ou 28,5% apresentaram água de irrigação com níveis de coliformes fecais acima do limite tolerado a uma temperatura de 45° C. Relembrando: coliformes fecais são encontrados nos intestinos de animais de sangue quente como bovinos, suínos, aves e seres humanos, o que indica a contaminação das águas por fezes
  • A presença simultânea de parasitas foi detectada em 15 hortas ou 17% das 88 hortas avaliadas, sendo que em uma das amostras foi encontrada a Giardia spp, um parasita altamente resistente, que pode contaminar água e alimentos; 
  • 40,9% das hortas avaliadas estavam em desacordo com a legislação higiênico-sanitária em vigor no município;
  • Parte dos problemas identificados no estudo tinham como origem a contaminação por patógenos encontrados no esterco animal in natura, utilizado como fertilizante em diversas das plantações.

Em qualquer lugar do mundo, esse índice de contaminação das hortas seria considerado alarmante. Porém, há um detalhe neste estudo que nos enche de preocupação: Ribeirão Preto é uma das cidades paulistas mais ricas e com uma infraestrutura de saneamento básico muito acima da média brasileira. No último ranking geral do saneamento básico, edição de 2018, publicado pelo Instituto Trata Brasil, Ribeirão Preto apareceu na 21ª colocação entre as 100 maiores cidades brasileiras. Esse ranking utiliza dados do SNIS- Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento

Em comparação à imensa maioria dos municípios brasileiros, Ribeirão Preto está, há muito tempo, entre as cidades brasileiras que lançam as menores quantidades de esgotos em suas águas; logo, as águas utilizadas na irrigação das hortas do cinturão verde da cidade estão entre as que apresentam os menores índices de contaminantes. Agora, tente avaliar as condições das águas utilizadas na irrigação de hortas de verduras e de legumes aí na sua cidade e nas demais regiões e municípios do Brasil.

Como se não bastasse a falta de infraestrutura de saneamento básico das cidades brasileiras, a própria natureza conspira contra os cinturões verdes: conforme as águas poluídas de córregos e rios correm, os próprios mecanismos naturais se encarregam de depurar e limpar as águas. O grande exemplo que podemos citar é o rio Tietê, considerado o mais poluído do Brasil – de rio praticamente morto dentro da Região Metropolitana de São Paulo, o rio renasce a pouco mais de 250 km da cidade de São Paulo, sem qualquer interferência humana. No caso das áreas dos cinturões verdes, que estão sempre muito próximas das cidades, não há tempo suficiente para a natureza depurar e limpar as águas – elas sempre estarão contaminadas ao atravessarem as áreas das plantações e serem usadas na irrigação das plantas. Nesses casos, a única alternativa será a intervenção humana, construindo e operando ETEs – Estações de Tratamento de Esgotos

Como, frequentemente lembramos nas postagens aqui do blog, construir e tratar esgotos é o tipo de obra “invisível”, que não costuma render votos para os políticos, reforço a recomendação: antes de consumir hortaliças e vegetais, faça sempre uma higienização desses alimentos numa solução de hipoclorito de sódio

Se você quiser saber mais sobre os problemas ligados aos esgotos e à contaminação dos corpos d’água, consulte nos arquivos do blog uma série completa de postagens sobre o tema a partir de 23 de agosto de 2016.

O USO DE ÁGUA CONTAMINADA COM ESGOTOS NA IRRIGAÇÃO DE VERDURAS E VEGETAIS

Irrigação de hortas

Nos meus tempos de infância, meu bairro ficava exatamente no limite entre a área urbana e a zona rural da cidade de São Paulo – minha rua, inclusive, era chamada na época de rua da Divisa. Perto de casa existiam diversas chácaras que produziam verduras e legumes, que eram vendidos diretamente para os moradores e em algumas feiras da região. Diversos córregos do bairro, àquela altura já altamente contaminados pelos esgotos das casas, tinham suas águas utilizadas para a irrigação dessas plantações. O tempo passou, a cidade cresceu incontrolavelmente e já não existem mais hortelões aqui nas redondezas – porém, no chamado Cinturão Verde da Região Metropolitana de São Paulo, existem milhares de pequenos produtores rurais, muitos deles usando água de origem suspeita na irrigação de suas plantações. Isso ocorre em todo o Brasil e em grande parte do mundo.

Um estudo publicado em julho de 2017 pela respeitada revista Environmental Research Letters confirmou as minhas impressões: em todo o mundo, uma área equivalente à da Alemanha (aproximadamente 30 milhões de hectares) é irrigada com água contaminada pelos esgotos das cidades. De acordo com modelos matemáticos elaborados pelos autores desse estudo, cerca de 885 milhões de pessoas consomem verduras e vegetais produzidos sob essas condições, ficando expostas a uma infinidade de patógenos, como parasitas e bactérias, com significativos riscos à saúde.

A Environmental Research Letters é uma revista científica trimestral em língua inglesa, publicada exclusivamente no formato eletrônico e com acesso aberto, especializada na divulgação de pesquisas em todos os aspectos da ciência ambiental. A revista é publicada desde 2006, tendo como editor-chefe Daniel Kammen, da conceituada Universidade da Califórnia, em Berkeley. Os dados dessa pesquisa vão de encontro a estudos da OMS – Organização Mundial da Saúde, que demonstram que mais de 10% da população mundial, ou 700 milhões de pessoas, consome regularmente alimentos produzidos a partir da irrigação com águas residuais. Com o crescimento da urbanização em todo o mundo, a tendência é de um aumento cada vez maior do uso dessas águas nas lavouras.

Cinturões verdes são uma espécie de subproduto da urbanização – desde a antiguidade, se observa que sempre que uma aglomeração humana era organizada, surgia um pequeno cinturão verde ou área agrícola nas vizinhanças, com o papel de fornecer frutas e vegetais frescos para a população, além de aves, ovos, leite e outros produtos de origem animal. Outro produto dessas aglomerações é o esgoto, tradicionalmente lançado nas águas para o transporte e dispersão. Logo, a combinação de águas poluídas e irrigação é uma prática muito antiga, que só fez aumentar ao longo do tempo.

Não custa lembrar que, diariamente, 5,5 mil toneladas de esgotos não tratados são lançadas em rios e córregos de todo o Brasil – quase metade dos esgotos gerados em nossas cidades não recebe qualquer tipo de tratamento. A situação não é muito melhor em países como China, Índia, Paquistão, México, Irã, Argentina, África do Sul, entre outros países mundo afora, que despejam bilhões de litros de esgotos em suas águas todos os dias. E são, justamente, as águas usadas pelos pequenos agricultores na irrigação de suas hortas e culturas.

O problema é mais complexo do que parece ser: essas mesmas águas poluídas são usadas para o abastecimento de populações e se os sistemas de tratamento não forem eficientes, a água servida à população poderá chegar já contaminada com todo o tipo de patógenos. Ou seja, a população poderá sofrer contaminações tanto através da água que consome, quanto pelas verduras e legumes que come.

Para que você não ache que eu estou exagerando em minhas afirmações, a cidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, vive hoje um surto de toxoplasmose, uma doença que é provocada por um protozoário. Até o dia 21 de junho de 2018, foram confirmados 569 casos da doença na cidade, sendo que 50 eram mulheres gestantes e 7 bebês que contraíram a doença ainda no útero das mães. E a principal suspeita pela transmissão da doença é a água fornecida para a população.

Além de todos esses problemas, ainda é preciso lembrar dos milhões de trabalhadores rurais, que ficam em contato diário com essas águas contaminadas e expostos a todos os tipos de patógenos e outros poluentes presentes nos esgotos de uma cidade, com destaque para os metais pesados como mercúrio, zinco, cádmio e níquel. 

Um recado final: na dúvida sobre a origem das verduras e legumes que você consome, use sempre uma solução com hipoclorito de sódio para a higienização antes do consumo desses alimentos.

 

OS REVOLUCIONÁRIOS SISTEMAS DE IRRIGAÇÃO EM ISRAEL, OU “FAZENDO O DESERTO FLORESCER”

Irrigação por micro gotejamento

Falando em eficiência e economia de água em sistemas de irrigação agrícola, o pequeno Estado de Israel é a referência máxima – lembrando das raízes cristãs na região, podemos afirmar que o país faz verdadeiros “milagres” quando o assunto é água. Vejam: 

O Estado de Israel ocupa uma área de 22 mil km², incluindo-se algumas áreas em litígio: isso equivale a pouco menos que três vezes a área da Região Metropolitana de São Paulo ou ainda, uma área equivalente a Sergipe, o menor Estado brasileiro. A população israelense é de pouco mais de 9 milhões de habitantes, equivalente à soma das populações das cidades de Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Para completar o quadro, o território de Israel é formado por terrenos difíceis para as atividades agrícolas: 60% do território fica dentro de regiões semiáridas e desérticas – metade da área restante é formada por solos rochosos

As primeiras experiências em agricultura na moderna Israel datam da última década do século XIX, quando os primeiros colonos judeus chegaram a Palestina e se estabeleceram em terras compradas por companhias internacionais. Fazendas foram adquiridas em regiões semiáridas abandonadas havia séculos, consideradas como “impossíveis” de serem cultivadas pelos palestinos e árabes de diversas etnias que habitavam na região. Com apoio internacional de dezenas de entidades judaicas de todo o mundo, esses colonos pioneiros iniciaram um intenso trabalho de pesquisa, desenvolvendo técnicas de recuperação de solos, limpeza de terrenos rochosos, dessalinização de campos, construção de terraços agrícolas e contenção de encostas, drenagem de pântanos, reflorestamento entre outras atividades. Paulatinamente, foram dominadas as técnicas no trato e cultivo dos solos locais, possibilitando a expansão dos projetos agrícolas e a aquisição de novas e maiores propriedades. 

A moderna colonização de Israel foi baseada em produção pelo sistema de cooperativas, com dois tipos de assentamentos: o kibutz, comunidades coletivas em que os meios de produção, as responsabilidades e os eventuais lucros são de propriedade geral, e o moshav, vila agrícola onde cada família tem o direito a manter sua própria casa e trabalhar em sua própria terra, vendendo a sua produção para uma cooperativa. Foi a partir dessas bases de produção agrícola que foi formado o Estado de Israel, alçado à independência em 1947, e em conflito permanente com os palestinos, antigos habitantes da região, assunto que não discutiremos aqui. 

Um ponto chave no desenvolvimento da agricultura israelense foi a criação de tecnologias de irrigação altamente eficientes, com destaque para a irrigação por micro gotejamento, técnica que transformou o país em referência mundial. Graças ao alto grau de desenvolvimento tecnológico em irrigação, sistemas de cultivo e ao desenvolvimento de espécies vegetais altamente adaptadas às condições de solo e clima, Israel consegue uma produção por hectare até 30 vezes maior que a maioria dos países. Entre as espécies vegetais desenvolvidas em institutos de pesquisa do país são destaques o tomate cereja, o melão Gália, diversas espécies de frutas cítricas e uvas, além de morangos, caquis e framboesas que crescem fora das estações. As variedades de algodão desenvolvidas também são destaque, com uma produtividade de 55 kg por hectare. 

Diferentemente do que aconteceu na Ásia Central com seus sistemas de irrigação ineficientes e onde as perdas de água superam 90% entre absorção pelo solo e evaporação, a baixíssima disponibilidade de recursos hídricos em Israel obrigou, desde os primeiros anos da consolidação do país, a uma busca incessante pela excelência no uso racional de cada litro de água. O setor agropecuário representa 2,5% do PIB – Produto Interno Bruto, de Israel e 3,6% das exportações, respondendo por 95% do consumo interno de produtos naturais do país. 

As áreas irrigadas em território israelense, incluindo áreas de deserto, possibilitam a produção de uma infinidade de culturas, com destaque para: cereais como o sorgo, trigo e milho; mais de quarenta tipos de frutas e legumes como o tomate, pepino, pimentão e abobrinha, além de diversas espécies de uvas, o que tem impulsionado o crescimento da indústria vinícola no país. Outra área com intenso crescimento e exportações é produção de flores. Na área de produtos de origem animal, o leite é destaque, com espécies locais de vacas com produtividade superior às congêneres holandesas, consideradas grandes produtoras.  

Apesar dos inevitáveis problemas ambientais que estão sendo criados no Mar Morto, apresentados em post anterior, a eficiência dos sistemas de irrigação e a altíssima produtividade da agricultura de Israel merecem ser estudadas e copiadas pelas regiões semiáridas do Brasil, particularmente neste momento em que as preciosas águas da transposição do Rio São Francisco começam a chegar ao sertão Nordestino e onde não há espaço para o desperdício.

QANAT: UMA EFICIENTE TECNOLOGIA DE IRRIGAÇÃO DA ANTIGUIDADE

MOROCCO. Jorf near Erfoud. Underground canals. 1993.

Nas últimas postagens temos apresentado alguns exemplos gritantes de problemas criados pelo uso abusivo de água em sistemas de irrigação. A agricultura é, de longe, a atividade humana que mais consome água – na média, 70% da água disponível é usada com fins agrícolas, onde há um desperdício da ordem de 50%. Porém, há alguns bons exemplos, que podem e devem ser copiados. O qanat iraniano é um deles.

Qanat é um sistema de distribuição e gestão de água, criado na antiga Pérsia (atual Irã) no primeiro milênio antes de Cristo. O sistema é usado em regiões áridas e semiáridas, permitindo o transporte e a distribuição da água entre um poço e centros habitacionais e lavouras, com extrema eficiência e baixas perdas. A partir da Pérsia, o sistema passou a ser usado no Afeganistão, Paquistão e Ásia Central, sendo introduzido depois em todo o Oriente Médio, Norte da África e Espanha. Em cada um desses lugares, o qanat recebe diferentes nomes. O sistema de qanats é utilizado atualmente em 34 países do mundo – somente no Irã, existem cerca de 40 mil qanats ativos, que somados têm uma extensão total de 217.800 km, o que mostra a importância desse sistema para o abastecimento da população e para uso pela agricultura.

O qanat é construído a partir da escavação de poços verticais, alinhados desde uma região com reservas de água no subsolo até um centro habitacional ou uma área agrícola. Entre os poços são escavados túneis de ligação, através dos quais a água corre por força da gravidade. Todo o processo de escavação dos poços e túneis é manual, feito com o uso de ferramentas simples como martelos, talhadeiras e níveis; os entulhos da escavação são colocados em cestas, que são içadas por uma equipe de apoio na superfície. A escavação é um trabalho penoso e demorado, normalmente feito por um único homem. A vida útil dessas estruturas subterrâneas é extremamente longa – alguns qanats do Irã estão em uso contínuo há mais de 2.000 anos.

Esses conjuntos de poços e túneis, que podem ter dezenas de quilômetros de extensão, formam verdadeiros aquedutos subterrâneos, onde a água flui continuamente e livre das perdas por evaporação, comum em canais superficiais ou em represas. Toda a infraestrutura dos qanats é construída de forma a permitir o fácil acesso de equipes de manutenção, cujo papel é manter os túneis livres de entulhos arrastados pela correnteza ou originados a partir de desmoronamentos provocados por movimentações do solo ou terremotos – é esse o segredo da longevidade dos qanats.

A parte final do sistema de aquedutos é conhecido no Irã como “pishkar“, onde é escavado um poço mais largo, a partir do qual a água é retirada para uso pela população e pelos agricultores, sendo usada com muito critério e economia. Nas regiões onde o sistema de qanats é utilizado, a disponibilidade de água por habitante é baixíssima, da ordem de 1.000 m³ por habitante/ano. Em muitas regiões, essa disponibilidade média mal chega aos 500 m³ por habitante/ano, carência que moldou os hábitos de consumo da população a uma constante economia e racionalização do uso da água. 

Um dos qanats mais importantes e impressionantes do Irã, elevado à condição de Patrimônio da Humanidade pela UNESCO – Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura, é conhecido como Ghasabe. Construído há cerca de 2.500 anos, o aqueduto tem cerca de 33 km de extensão, onde foi necessária a abertura de 470 poços – os túneis têm uma profundidade média de 340 metros. Cerca de 2 mil hectares de áreas agrícolas da província são irrigados com a água desse aqueduto. De acordo com cálculos de especialistas, um volume equivalente a 56 mil toneladas de terra e rocha foi removida durante a construção desse qanat, o que o coloca entre as grandes obras da antiguidade.

O sistema dos ganats é um exemplo do uso racional da água em sistemas agrícolas, um exemplo que deve ser seguido e aperfeiçoado por populações e países mundo afora.

O LAGO SALTON E SUAS AREIAS VENENOSAS

Lago Salton

A paisagem na região desértica do Imperial Valley mudou radicalmente, já nos primeiros anos do século XX, após a chegada das águas transpostas a partir do Rio Colorado e o início da irrigação das terras em larga escala – o deserto floresceu. Os infinitos tons terra foram substituídos por toda uma paleta de tons verdes, salpicados por pontos em cores quentes das flores e das frutas. Completando a paisagem surreal do deserto, as águas excedentes da irrigação escorreram para uma depressão ao Norte, perenizando o Lago Salton.  

Fazendo uma primeira leitura, você poderá até ficar com a sensação que a irrigação transformou a região desértica do Imperial Valley numa espécie de paraíso na terra. Mas essa primeira impressão é enganosa – as culturas irrigadas na região, desde o início do século XX, sempre utilizaram volumes de água em excesso nas plantações; a água excedente, repleta de resíduos de fertilizantes e de pesticidas, escorria na direção do Lago Salton (vide foto), criando uma espécie de “bomba relógio química”. Vamos entender isso: 

A primeira fonte de águas para irrigação do Imperial Valley foi o Rio Álamo, um antigo leito de rio seco utilizado para transportar as águas captadas no Rio Colorado. Entre a cabeceira desse antigo leito e a margem do Rio Colorado foi construído um canal com 23 km de extensão, o Canal Álamo, e um sistema de bombeamento para vencer um desnível de 38 metros. O sistema começou a operar em 1901 e funcionou continuamente até 1942 quando foi inaugurado o canal All-American, que aumentou substancialmente o volume de águas que chegava até o Imperial Valley, além de fornecer água para 6 cidades da Califórnia. A desativação do sistema do Rio Álamo gerou inúmeros protestos da parte do Governo do México – como parte do rio atravessava o território mexicano, agricultores locais utilizavam suas águas em sistemas de irrigação – o novo canal, All-American, corre exclusivamente por território dos Estados Unidos. 

Até a chegada da irrigação nas terras do Imperial Valley, o Salton era um lago temporário que surgia apenas em anos de cheias anormais do Rio Colorado, quando as águas avançavam pelo deserto e se acumulavam numa depressão. Com a irrigação sistemática das lavouras, toda a água excedente passou a escorrer para a depressão, passando a manter o nível da lâmina d’água estabilizado. A chegada dessas águas, porém, passou a carrear todo o tipo de resíduos agrícolas, de fertilizantes a pesticidas, produtos químicos que passaram a se acumular no fundo arenoso do Lago. Durante décadas a fio, com os níveis constantes de água da irrigação alimentando o Salton, estes sedimentos tóxicos nunca foram um problema. 

Com a grande seca dos últimos anos na bacia hidrográfica do Rio Colorado e após um acordo de quantificação para aumentar os volumes de águas destinados às grandes cidades do Sul da Califórnia, houve uma redução expressiva no volume de água utilizado para a irrigação das lavouras do Imperial Valley e, consequentemente, a quantidade de água que escorria para o Lago Salton diminuiu. Sem a reposição do volume de água perdido por evaporação, o Lago começou a secar, expondo a areia contaminada por agrotóxicos e fertilizantes aos fortes ventos, que passaram a espalhar uma nuvem tóxica pela região, lembrando em muito os efeitos nocivos dos ventos salgados do Aralkum na Ásia Central. Como resultado dessa nuvem tóxica, a região do Imperial Valley passou a conviver com uma baixa qualidade do ar ao longo de 200 dias no ano e agora detém o triste recorde americano de casos de asma, com um índice três vezes superior à média dos Estados Unidos

A situação criou um dilema de difícil solução – aumentar o volume de água para as áreas irrigadas e assim voltar a encher o lago, controlando a quantidade de areia tóxica espalhada pelos ventos, ou manter o controle da escassa água e sofrer as consequências da poeira tóxica? 

Esse desperdício de água nas culturas irrigadas do Sul da Califórnia e em outras regiões da bacia hidrográfica do rio Colorado, tem um lado que nem sempre é mostrado: a região da foz do rio, já em território do México, há muitos anos está praticamente seca, tamanha a redução dos caudais. Os verdejantes canais naturais que o rio Colorado formava na região do delta, agora estão tomados por águas salgadas, comprometendo todo ecossistema e inviabilizando grande parte da agricultura no lado mexicano da bacia hidrográfica. Esses problemas ambientais também estão ameaçando a sobrevivência da vaquita (Phocoena sinus), uma espécie pequena de golfinho que habita as águas da região do delta do rio Colorado e um trecho de mar ao norte do Golfo da Califórnia, que está em risco de extinção eminente.

Consulte os arquivos do blog a partir de 19 de abril de 2017 e leia uma série completa de postagens sobre a grande seca e os problemas do rio Colorado.

RIO COLORADO: A BACIA HIDROGRÁFICA MAIS APROVEITADA DO MUNDO

Imperial Valley

O rio Colorado é um dos mais longos rios da América do Norte, com nascentes nas Montanhas Rochosas, no Estado americano do Colorado, e, ao longo dos seus 2.320 quilômetros, banha os Estados de Utah, Arizona, Nevada e Califórnia, entrando a seguir no México, onde encontra a sua foz no Golfo da Califórnia. O rio Colorado é sempre presença obrigatória em discussões onde o assunto é o uso da água em sistemas de irrigação agrícola

O rio Colorado é responsável pelo abastecimento de 40 milhões de pessoas em sete Estados americanos e quase 90% do total das suas águas é desviado para fins de irrigação em 2 milhões de hectares, o que torna sua bacia hidrográfica uma das mais aproveitadas do mundo. Várias cidades importantes dos Estados Unidos como Los Angeles, Las Vegas, San Bernardino, San Diego, Phoenix e Tucson utilizam sistemas de abastecimento que captam água do rio Colorado

Com o aumento da população e o crescimento das necessidades energéticas do Sudoeste americano a partir das primeiras décadas do século XX, o Governo dos Estados Unidos criou em 1922 um comitê especial com a missão de gerenciar o uso das águas do Rio Colorado – em 1944, o Governo do México foi convidado a participar das discussões. Esse comitê estabeleceu um rigoroso sistema de cotas, estabelecendo o volume de água disponível para uso por cada um dos Estados localizados dentro da bacia hidrográfica do rio Colorado. Na Califórnia, o Imperial Valey (vide foto), localizado no Sul do Estado, acabou se transformando no maior consumidor local das águas do rio Colorado, sendo um exemplo dos problemas criados pela irrigação em larga escala. 

Imperial Valey fica no Deserto de Sonora, no meio do caminho entre as cidades de Las Vegas e Los Angeles. Em meados do século XIX, a região foi transformada em uma importante rota de acesso dos pioneiros rumo ao Estado da Califórnia. Foi somente a partir de 1901, com a construção do Canal do rio Álamo, que o transporte da água do rio Colorado permitiu o desenvolvimento da agricultura irrigada nessa região, transformando-a numa importante fornecedora de alimentos para o Sul da Califórnia. Em 1942, foi construído um novo canal, o All-American, em substituição ao Canal do rio Álamo. 

Atualmente, um sistema com 2.300 quilômetros de canais de irrigação e 1.800 quilômetros de tubulações passou a distribuir um volume de água correspondente a 83% da cota de água do Rio Colorado a que tem direito o Estado da Califórnia por todo o Imperial Valley. Com fartura de água, terras férteis e muito sol, a região acabou transformada na principal fornecedora de frutas e de vegetais de inverno dos Estados Unidos, produzindo duas colheitas a cada ano, feito raro em um país de clima temperado. A região também é grande produtora de alfafa, vegetal utilizado na alimentação do gado, especialmente nos meses de inverno quando as pastagens naturais ficam cobertas por grossas camadas de neve ou secam. 

A intensa utilização de água na irrigação das terras do Imperial Valley, especialmente através do dispendioso processo de inundação de valas, criou um “subproduto” inesperado já nos primeiros anos do século XX – a percolação dos excedentes de água na direção de uma depressão ao Norte levou à formação do Lago Salton, transformado em uma atração turística no meio do deserto. Apesar de toda a beleza cênica, a água formadora do Lago Salton sempre apresentou altos níveis de contaminação por agrotóxicos e fertilizantes utilizados nas plantações, formando uma grossa camada tóxica no fundo de areia. Durante décadas, a lâmina de água do lago manteve estes resíduos tóxicos longe da população. 

Enquanto o rio Colorado pode disponibilizar grandes caudais de água para os sistemas de irrigação do Imperial Valley, a “farra da água” continuou, sem maiores preocupações dos produtores com as perdas de água e com a percolação de resíduos na direção do Lago Salton. Foi somente a partir do ano de 2010, com o surgimento de uma fortíssima seca em toda a bacia hidrográfica do rio Colorado, considerada a maior seca na região em 1.200 anos, que os agricultores do Imperial Valley passaram a tomar consciência dos imensos problemas ambientais que estavam produzindo em toda a região Sul da Califórnia. 

Falaremos disso na próxima postagem. 

DELTA DO RIO OKAVANGO: UM PARAÍSO DE ÁGUAS NO DESERTO DO KALAHARI

Delta do rio Okavango

Quando o curso de um rio está chegando perto da sua foz e se divide em vários braços, essa formação recebe o nome de delta. Essa configuração de foz é bastante comum em rios de áreas de planície, onde a baixa declividade do terreno favorece o acúmulo de areia e de sedimentos. Alguns exemplos de rios que têm sua foz no formato de delta são o Amazonas e o Parnaíba aqui no Brasil, o Paraná na Argentina, o Mississipi nos Estados Unidos, o Nilo no Egito, o Danúbio e o Reno na Europa. 

O Okavango, um dos rios mais importantes da África Austral com 1.600 km de extensão, também forma um delta na sua foz, porém, diferente da grande maioria dos deltas do mundo. Com nascentes nos planaltos do interior de Angola, o rio Okavango recebe grande parte das águas das chuvas de verão do país, seguindo para o Sul em direção da Namíbia e do Deserto do Kalahari, onde encontra uma grande fossa tectônica que desvia as águas do rio para o interior do continente. Essa grande depressão canaliza as águas na direção Leste, onde forma o maior delta interior do mundo com uma área de mais de 15 mil km² no meio do deserto do Kalahari.  

O Kalahari tem uma área total de 900 mil km², combinando áreas de deserto e de semiáridos em Angola, Namíbia, Botsuana e África do Sul. A palavra Kalahari na língua de tribos locais significa “grande sede”, o que nos dá uma ideia da carência de fontes de água na região. O Delta do rio Okavango forma um pequeno oásis no meio da paisagem árida, abrigando milhares de seres vivos, que se nutrem de vida neste paraíso, enquanto as águas do rio evaporam lentamente, aguardando a chegada da nova temporada de chuvas, num ciclo, até hoje, interminável. É esse delicado equilíbrio que pode ser ameaçado pela implantação de grandes projetos de agricultura irrigada, especialmente em Angola. 

Em uma região tão seca, as águas existentes são fortemente disputadas entre as populações, o que coloca o rio Okavango em uma espécie de estado de atenção permanente. A Namíbia, por exemplo, tem grande parte do seu território tomado por desertos e qualquer fonte permanente de água é considerada como uma verdadeira benção para uma escassa população de 2 milhões de habitantes. A agricultura responde por 6% do PIB – Produto Interno Bruto, do país e emprega 70% da população. A criação de animais, com rebanhos de 2,4 milhões de bovinos, 2,7 milhões de ovinos e 2.1 milhões de caprinos, consome volumes da ordem de 90 milhões de metros cúbicos de água ao ano (dados de 2008), onde há um desperdício médio de 50% entre infiltrações no solo e evaporação. O Governo da Namíbia tentou por diversas vezes implementar a construção de canais de irrigação a partir das águas do rio Okavango, com vistas ao desenvolvimento de grandes projetos de agricultura irrigada. Esses projetos foram vetados por Angola e Botsuana, países que compartilham o uso das águas e a gestão do comitê internacional da bacia hidrográfica do rio Okavango. 

Esse aparente rigor na administração dos recursos hídricos do rio Okavango, na verdade, não é tão rigoroso assim. Um dos grandes riscos para o futuro do rio é a absoluta falta de transparência nas decisões de alguns governos locais. Em Angola, citando um exemplo, o governo está na mão do mesmo grupo político desde 1975, ano em que o país alcançou sua independência de Portugal. Sem uma efetiva participação popular nas decisões da vida pública e com países, como a China, exercendo forte influência econômica, decisões das mais controversas podem ser tomadas. Nos últimos anos, a China se transformou no maior investidor na África, especialmente em obras de infraestrutura. O país também se transformou numa importante fonte de empréstimos e linhadas de crédito para Governos e estatais africanas, um esforço que pode reder “privilégios” especiais para os investidores chineses em solos africanos.

Dentro desse ambiente político e econômico fortemente “influenciável”, o meio ambiente vira uma espécie de refém e grandes projetos de agricultura irrigada podem ser liberados sem maiores preocupações com os eventuais impactos ambientais – na postagem anterior citamos que grupos empresariais chineses têm interesse na implantação de projetos de agricultura irrigada em Angola, valendo-se das águas do rio Okavango. A eventual retirada de grandes volumes de água para uso na irrigação de extensas áreas agrícolas poderá colocar em risco a sobrevivência do grande pantanal do Delta do rio Okavango. Aliás, diversas áreas alagadiças do mundo correm o mesmo risco, incluindo-se na lista o nosso Pantanal Mato-grossense

Como se não bastassem todos os riscos antrópicos locais, o rio Okavango ainda poderá ser vítima do clima mundial – projeções meteorológicas baseadas em modelos matemáticos indicam grandes alterações nos padrões das chuvas das montanhas de Angola nas próximas décadas devido às mudanças climáticas globais. Sem estas chuvas regulares, o Delta do Okavango poderá desaparecer em poucos anos e a humanidade perderá mais um dos seus grandes tesouros naturais. 

Ou seja: se ficar, o bicho “homem” pega; se correr, o “aquecimento global” come. 

Como a humanidade é esperta…