“ALTA DO NÍVEL DO MAR PODE AFETAR ATÉ CIDADES QUE ESTÃO LONGE DELE”

Mudanças Climáticas

As Mudanças Climáticas estão sempre sendo tratadas como tema transversal em minhas postagens pois afetam diretamente as fontes de abastecimento de água, seja pelo derretimento de glaciares em montanhas, seja por mudanças nos padrões das chuvas e redução do caudal de rios por todo o planeta. Leiam esta interessante reportagem que aborda as alterações provocadas nos níveis dos mares e seus impactos em cidades distantes das costas oceânicas:

“No debate sobre mudanças climáticas, o aumento do nível do mar, acompanhado de maior incidência de inundações, é comumente associado a riscos e prejuízos para as cidades costeiras. Mas seus impactos geográficos podem ir muito além — continente a dentro.

Quando o furacão Katrina atingiu o estado americano de Louisiana em 2005, devastando a cidade de Nova Orleans, localizada às margens do Rio Mississippi, milhares de evacuados correram para as cidades do interior em busca de segurança, aumentando a pressão nessas regiões.

Um novo estudo da Universidade da Geórgia, nos Estados Unidos, prevê que isso poderia acontecer novamente como resultado do aumento do nível do mar. Em artigo publicado nesta semana na Nature Climate Change, pesquisadores estimam que, só nos EUA, aproximadamente 13,1 milhões de pessoas poderiam ser deslocadas pela subida das águas oceânicas.

O estudo é a primeira tentativa de modelar o destino de milhões de migrantes potencialmente deslocados de comunidades costeiras densamente povoadas. Em busca de abrigo, os forçados a se mudar naquele país teriam como destino principal cidades como Atlanta, Houston e Phoenix.

“Nós normalmente pensamos sobre a elevação do nível do mar como uma questão costeira, mas se as pessoas são forçadas a se mover porque suas casas são inundadas, a migração pode afetar muitas comunidades sem acesso ao mar”, disse o principal autor do estudo, Mathew Hauer.

Segundo o pesquisador, embora as avaliações sobre o aumento do nível do mar sejam numerosas e ajudem a planejar o desenvolvimento de infraestruturas críticas nas zonas costeiras, poucos estudos investigam o destino das pessoas deslocadas e como a migração afetará essas regiões.

O novo estudo combina estimativas de populações em risco de elevação do nível do mar dentro de uma simulação de sistemas de migração para estimar o número  de afetados e destinos potenciais de migrações nos Estados Unidos ao longo do próximo século.

“Alguns dos destinos inesperados sem litoral, como Las Vegas, Atlanta e Riverside, na Califórnia, já enfrentam problemas de gestão da água ou de crescimento”, disse Hauer, destacando que “incorporar, no planejamento, estratégias de acomodação de longo alcance poderia ajudar a aliviar a intensificação futura desses desafios”.

Segundo o estudo, entender as relações entre estressores ambientais, como a alta das águas oceânicas, e os movimentos migratórios é uma tarefa complexa. As migrações podem ser tanto temporárias de curto prazo quanto permanentes, mas uma coisa é certa: o aumento do nível do mar é um estressor ambiental único porque converte permanentemente terra habitável em água inabitável.

Embora restrita a um único país, a pesquisa dá uma ideia do efeito dominó que as mudanças climáticas podem ter sobre as cidades. Considerando o cenário mundial, os impactos da elevação do nível do mar ganham contornos ainda mais sombrios. Segundo pesquisa recente, atualmente, cerca de 1,9 bilhão de habitantes, ou 28% da população mundial, vivem a menos de 100 km das zonas costeiras em áreas menos de 100 metros acima do nível do mar.”

Vanessa Barbosa em Exame.Com

A DIÁSPORA BOVINA, OU A DESCOBERTA DO VALE DO RIO SÃO FRANCISCO

Gado

Para conseguirmos entender corretamente o que significa ter um rio como o São Francisco em nosso país, será importante entender primeiro sua relevância dentro de um contexto histórico e social, para depois analisarmos sua importância dentro de um contexto ambiental e econômico. Para fazermos isso, é necessário voltar ao período do início da colonização do Brasil, quando a cultura da cana e a produção do açúcar moviam a nossa economia. Em 2012, eu publiquei um livro – A República dos Gafanhotos, onde trato longamente deste assunto. Vou fazer um resumo do resumo para mostrar a importância do Rio São Francisco nestes primeiros tempos.

Imagine, de um lado, uma gigantesca plantação de cana de açúcar, com milhões de brotos suculentos e adocicados; do outro lado, uma enorme boiada, com milhares e milhares de cabeças de bois e vacas esfomeados – na primeira chance que aparecer, esta boiada vai invadir a plantação de cana e devorar toda e qualquer deliciosa folha verde que encontrar pela frente (imagine uma nuvem de gafanhotos atacando a plantação). Foi justamente para se evitar tais embates entre bovinos e canaviais que, desde meados do século XVI, bem no início da colonização a partir do litoral brasileiro, os senhores da terra criaram normas e regras que forçaram os criadores a se embrenharem sertão a dentro com suas boiadas. O objetivo desse ordenamento era se manter as boiadas o mais longe possível dos domínios da cana de açúcar, o que forçou criadores e bois a buscarem pastagens e cursos de água no interior da região Nordeste. Eu chamei esse processo de diáspora (dispersão) bovina em um dos capítulos do livro, nome que repeti neste post.

Expulsos do litoral, os criadores de gado não tardaram a descobrir o Vale do Rio São Francisco, onde encontraram um curso de águas perenes e espaço de sobra para se estabelecer e ver as boiadas se multiplicarem. Ao longo das margens do Velho Chico foram surgindo, uma após outra, as grandes fazendas de criação. O antropólogo Darcy Ribeiro, em seu clássico O Povo Brasileiro, descreveu assim esse processo:

“O gado trazido pelos portugueses das ilhas de Cabo Verde vinha já, provavelmente, aclimatado para a criação extensiva, sem estabulação, em que os próprios animais procuram suas aguadas e seu alimento. Os primeiros lotes instalaram-se no agreste pernambucano e na orla do recôncavo baiano, suficientemente distanciados dos engenhos para não estragar os canaviais. Daí se multiplicaram e dispersaram em currais, ao longo dos rios permanentes, formaram as ribeiras pastoris. Ao fim do século XVI, os criadores baianos e pernambucanos se encontravam já nos sertões do Rio São Francisco, prosseguindo ao longo dele rumo ao sul e para além, rumo às terras do Piauí e do Maranhão. Seus rebanhos somariam então cerca de 700 mil cabeças, que dobrariam no século seguinte.”

Esse crescimento populacional de bichos e de gentes, cada vez mais desordenado, foi se espalhando por todo o sertão, se distanciando cada vez mais do litoral. Grandes contingentes de pessoas e animais – bovinos, caprinos e ovinos, iam se organizando em currais cada vez mais espaçados; ao longo dos caminhos das boiadas foram se organizando pequenos núcleos populacionais, onde pequenas lavouras de subsistência produziam mandioca e farinha, milho, feijão e outros gêneros para alimentação dos locais e também para os sertanejos errantes que tocavam suas boiadas pelo sertão. Homens e boiadas acabaram crescendo muito além da capacidade de carga do meio ambiente.

Os primeiros colonos evitavam os chamados caatingais. Porém, com o crescimento das populações e a necessidade de pastagens para os gados bovinos e caprinos, foram se acomodando e incorporando essas áreas nas suas produções. Entre uma área de caatinga e outra há sempre uma pequena extensão de campos. Para ampliar as extensões destes campos, utilizou-se indiscriminadamente do poder do fogo das queimadas, consumindo as árvores ressequidas da caatinga e criando espaços artificiais para o crescimento dos campos. Os animais foram se adaptando ao consumo de várias espécies de vegetais que cresciam nesses campos e caatingais, especialmente os bodes e as cabras.

O grande mercado consumidor para os bois criados no sertão eram os maiores centros de população, isto é, as capitais da Bahia e Pernambuco, além das pequenas vilas que pouco a pouco iam se desenvolvendo por todo o litoral açucareiro. A partir do século XVIII, com descoberta das minas de ouro na região das Geraes e o grande afluxo de gentes para os trabalhos de pesquisa, mineração e transporte do metal rumo ao litoral, essas boiadas se transformariam numa importante fonte de alimentação e seguiriam o curso do rio São Francisco a caminho dos sertões das Minas Gerais.

Esse avanço de gados e gentes pelos sertões e margens do Rio São Francisco não foi tão simples quanto parece: centenas de etnias indígenas já ocupavam essas terras e os embates foram violentos.

Falaremos disto no próximo post.

AS PRECIOSAS ÁGUAS DO VELHO CHICO

Gravura Rio São Francisco

Ao longo de uma sequência de mais de vinte postagens, foram apresentados diversos exemplos de problemas antrópicos e naturais que estão destruindo e/ou comprometendo importantes corpos d’água em diferentes partes do mundo: falamos do Mar de Aral na Ásia Central, do Mar Morto no Oriente Médio, do Lago Chade e do Delta do Rio Okavango no continente Africano, dos Lagos Poopó e Titicaca na América do Sul e, finalmente, do Rio Colorado e dos tristes desdobramentos de uma fortíssima seca em toda a sua bacia hidrográfica, que vai do Estado americano do Wyoming ao Golfo da Califórnia no México. Como fontes destes problemas podemos citar as alterações nos ciclos das chuvas e o derretimento de glaciares nas cadeias montanhosas de todo o mundo provocados pelos efeitos do aquecimento global, a superexploração das fontes de água em sistemas de irrigação e abastecimento de cidades, obras de engenharia que provocaram mudanças na dinâmica das águas em bacias hidrográficas, desmatamentos em áreas de mananciais e de recarga de aquíferos para exploração de madeiras, formação de pastos e para a implantação e desenvolvimento de atividades agrícolas, ou ainda implantação de atividades de mineração, entre outras agressões menores.

É hora de falarmos dos problemas das fontes de água do território brasileiro que, dentro de um conjunto específico de problemas, também mostram sinais de esgotamento e de stress, ameaçando o abastecimento de milhões de pessoas. Para se demonstrar o que acontece aqui no lado de baixo do Equador, vamos apresentar uma sequência de postagens sobre uma das mais importantes bacias hidrográficas do Brasil – a do Rio São Francisco ou, simplesmente, Velho Chico para os íntimos. Muitos dos problemas mostrados nos diversos posts anteriores poderão ser reconhecidos ao longo dos 2.830 quilômetros do Velho Chico; já os problemas do Rio Colorado poderão quase que ser espelhados no Rio São Francisco tamanha a similaridade das duas bacias hidrográficas.

O Rio São Francisco nasce, oficialmente, no município de Medeiros na Serra da Canastra, em Minas Gerais. Outras fontes afirmam que a nascente do rio fica em São Roque de Minas – o ponto exato da nascente de um rio é, em grande parte dos casos, uma convenção geográfica e gera todo o tipo de discussões. Em regiões de serra, especialmente nos domínios do Cerrado, existem inúmeros vertedouros de água ou nascentes nas encostas, que vão se juntando e formando diversos rios importantes do Brasil. Aliás, das 12 grandes bacias hidrográficas brasileiras, 8 tem rios com nascentes nos domínios do Bioma Cerrado, chamado por muitos de “berço das águas” – trataremos disto em outro post.

Bem à moda mineira, o Rio São Francisco desce discretamente as encostas da Serra da Canastra recebendo contribuições de inúmeros pequenos cursos de água e, conforme vai ganhando corpo e volume, vira para o Norte, na direção do Estado da Bahia. Apesar de ter apenas 37% da sua bacia hidrográfica em terras mineiras, o Velho Chico recebe 75% de toda as suas águas de rios tributários do Estado de Minas Gerais. Da Serra da Canastra até a sua foz no Oceano Atlântico, será um total de 168 afluentes – 90 na margem direita e 78 na margem esquerda, com destaque para alguns rios importantes como o Rio das Velhas, Abaeté, Paracatu, Jequitai, Rio Verde Grande, Carinhanha, Pajeú, Salitre, Corrente, Pará e Urucuia. No total, as águas da bacia hidrográfica do Rio São Francisco servem 521 municípios em 6 Estados da Federação: Goiás, Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Sergipe e Alagoas, além do Distrito Federal. Após a conclusão de todas as obras do Sistema de Transposição, as águas do Rio São Francisco que já estão chegando ao Estado da Paraíba, chegarão também aos sofridos sertões do Ceará  e do Rio Grande do Norte – apesar de não ser a maior bacia hidrográfica brasileira, posto ocupado com louvor pela bacia Amazônica, o São Francisco tem a mais importante pelo “conjunto da obra”.

Um rio não é apenas um rasgo ou depressão no solo, através da qual as águas drenadas de toda uma região escorrem rumo ao oceano. Rios alimentam e sustentam comunidades inteiras de seres vivos – plantas, animais e pessoas, são fontes de trabalho, renda, transporte e de muitas histórias e lendas. Eles são, simplesmente, as veias que irrigam e mantém a vida em todos os recantos de sua bacia hidrográfica – o Velho Chico, pela imensa população das cidades e regiões que dele dependem, pelo clima e aridez de grande parte das terras que atravessa e também pela sua importância na história e na economia do Brasil, merece destaque entre todos os demais rios brasileiros.

Apesar de tudo isso, o Velho Chico é um dos mais maltratados rios brasileiros, sofrendo de todos os tipos de males: desmatamento de matas ciliares – especialmente a perda das famosas veredas dos contos de Guimarães Rosa, contaminação das suas águas com rejeitos de um sem número de mineradoras, despejo de esgotos in natura e de todos os tipos de resíduos, assoreamento intenso, represamento das águas para geração de eletricidade, além do uso cada vez maior de suas águas para alimentar sistemas de irrigação. Como se não bastasse isso tudo, observa-se nitidamente uma mudança climática que está alterando os padrões de chuva em parte da sua bacia hidrográfica, que recebe cada vez menos água para alimentar um rio cada vez mais explorado – o resultado é um corpo d’água cada vez mais seco e enfraquecido, cada vez mais necessário para o abastecimento e usos na região com menor disponibilidade de recursos hídricos do país.

Vamos tentar mostrar um pouco de tudo isso nos próximos posts.

LAS VEGAS: A CIDADE DO PECADO E DOS EXCESSOS, OU O LAGO MEAD NO VOLUME MORTO

Las Vegas

A localidade onde encontramos a atual cidade de Las Vegas foi no passado uma parada no meio do deserto para as caravanas de pioneiros na época da “Grande Marcha para o Oeste”; a partir de 1900 foi transformada numa pequena estação da ferrovia sem maiores atrativos. A pequena Las Vegas começou a ganhar alguma relevância da década de 1930, quando dois fatos aparentemente desconexos criaram as bases para o crescimento da cidade mais efervescente da América: em 1931 o jogo foi legalizado na cidade e em 1932 foi iniciada a construção da Represa Hoover no Rio Colorado. Imagine milhares de homens trabalhando no meio do deserto, nos tempos da polêmica Lei Seca, legislação que “proibia” a produção e venda de bebidas alcoólicas em território americano, e uma cidadezinha a pouco mais de 50 km de distância onde havia jogo legalizado e muita bebida “ilegal”. A combinação de tudo isso se transformou na Las Vegas dos grandes cassinos, hotéis, gangsters e todo o tipo de extravagâncias que se puder imaginar – o resto virou história, talvez lenda.

A Represa Hoover foi concebida num momento em que a economia mundial enfrentava alguns dos seus piores dias – a grande depressão econômica criada após a quebra da Bolsa de Valores de Nova York em 1929 e que afetou o mundo inteiro. Aqui no Brasil, as exportações de café, produto fundamental da nossa economia na época, entrou em colapso – o preço da saca caiu 90% em curtíssimo espaço de tempo e o governo brasileiro, na tentativa de ajudar os produtores e evitar uma queda ainda maior dos preços, comprou e queimou 80 milhões de sacas. Nos Estados Unidos, um quarto da população economicamente ativa ficou desempregada e o governo passou a criar uma série de programas emergenciais para auxiliar os desamparados – surgiu o New Deal, uma política de grandes obras públicas com alto potencial de utilização de mão de obra – a construção da Represa Hoover e sua usina hidrelétrica, que já estava em andamento, entrou nesse pacote de obras.

Além da geração de energia elétrica, a Represa Hoover também tinha o objetivo de regularizar as águas do Rio Colorado, que alternava períodos de seca intensa aos de violentas e devastadoras enchentes em anos de chuvas fortes. Com o represamento do Rio Colorado, surgiu o Lago Mead, o maior lago artificial dos Estados Unidos e fonte de água fundamental para o desenvolvimento de um extenso programa de canais e complexos sistemas de irrigação na região do Sudoeste americano. A Represa também possibilitou uma estabilização da vazão do Rio Colorado a jusante, beneficiando inúmeras cidades e projetos de irrigação como o Imperial Valley, que passaram a contar com volumes constantes de água ao longo de todo o ano, ficando livres da violência das enchentes. Foi a partir deste contexto de estabilidade no fornecimento de água potável que Las Vegas floresceu no meio de um deserto árido.

A Região Metropolitana de Las Vegas cresceu muito após a construção da Represa Hoover, abrigando atualmente 2 milhões de habitantes e recebendo 40 milhões de turistas a cada ano. A cidade é totalmente dependente das águas da Represa, que responde por 90% da água consumida (e esbanjada) pelos habitantes. Dois túneis de abastecimento e de transporte de água foram construídos ao longo dos anos, captando água em profundidades diferentes: 33 e 48 metros, em uma lâmina d’água que já atingiu uma profundidade máxima superior aos 100 metros. Tudo ia bem até que a intensa seca, que atingiu toda a bacia hidrográfica do Rio Colorado a partir do ano 2000, reduziu imensamente os volumes de água que abasteciam o Lago Mead, que passou a ter seu nível sistematicamente reduzido, chegando aos atuais 40% em relação à capacidade máxima.

A cidade de Las Vegas foi obrigada a criar programas emergenciais para a economia de água e de busca de novas fontes de abastecimento orçados em US$ 1 bilhão, construindo inclusive um terceiro túnel de abastecimento na Represa Hoover para captação de água a uma profundidade de 91 metros. Essa obra ficou pronta no final de 2015, quando o segundo túnel de captação estava chegando ao “volume morto”, ponto em que a lâmina de água fica abaixo dos pontos de captação; nós paulistanos sabemos muito bem o que isso significa – nesta mesma época, uma seca na região Sudeste do Brasil colocou o Sistema Cantareira no “volume morto” e todos sofremos com o risco de colapso no abastecimento de água da Região Metropolitana de São Paulo.

De acordo com dados oficiais do US Geological Survey, o consumo de água dos moradores do Distrito de Clark, onde fica Las Vegas, era de astronômicos 886 litros de água por dia em 2010. Após toda uma série de campanhas de economia de água e de descontos por redução no consumo, proibição da rega de jardins e gramados, controle no uso de água em piscinas, forte fiscalização e multas pesadas aos esbanjadores, dados extraoficiais falam de um consumo atual próximo dos 300 litros por morador ao dia.

A cidade de Las Vegas conseguiu superar momentaneamente o problema do abastecimento de água. Nuvens negras, porém, continuam a assolar o horizonte do deserto de Mojave – algumas projeções pessimistas afirmam que há 50% de chances do Lago Mead secar completamente até o ano de 2036.

Façam, desde já, as suas apostas!

 

 

OS VENTOS E AS AREIAS VENENOSAS DO LAGO SALTON

Crise de Asma

A paisagem na região desértica do Imperial Valley mudou radicalmente, já nos primeiros anos do século XX, após a chegada das águas transpostas a partir do Rio Colorado e o início da irrigação das terras em larga escala – o deserto floresceu. Os infinitos tons terra foram substituídos por toda uma paleta de tons verdes, salpicados por pontos em cores quentes das flores e das frutas. Completando a paisagem surreal do deserto, as águas excedentes da irrigação escorreram para uma depressão ao Norte, perenizando o Lago Salton. Vamos entender isso:

A história do Imperial Valley se inicia oficialmente em 1859, quando um grupo de empreendedores percebeu o potencial agrícola da região e iniciou estudos para a construção de um canal que permitisse a transposição de águas do Rio Colorado. Fazia pouco mais de 10 anos que a Califórnia havia passado ao controle dos Estados Unidos, vencedor da Guerra Mexicano-Americana (1846-1848), e a corrida do ouro atraía milhares de novos colonos para o Território, que crescia sem parar: para se ter uma ideia deste crescimento, a população saltou de 15 mil habitantes em 1848 para 100 mil habitantes em 1849. Essa população crescente criava um mercado descomunal para os produtores de alimentos – o Imperial Valley foi concebido para ser o grande celeiro deste mercado. A explosão da Guerra Civil Americana (1861-1865) adiou o projeto, que só seria retomado nos últimos anos do século XIX.

A partir de 1900, podia se encontrar uns poucos homens trabalhando em meio as terras escaldantes do deserto, a grande maioria engenheiros e topógrafos realizando a demarcação dos trechos dos futuros canais de irrigação – em 1905 a população local já era de 12 mil habitantes, trabalhando uma área irrigada de 67 mil acres, contando com os trilhos da ferrovia South Pacific para escoar a sua produção até a cidade de Los Angeles.

A primeira fonte de águas para irrigação do Imperial Valley foi o Rio Álamo, um antigo leito de rio seco utilizado para transportar as águas captadas no Rio Colorado. Entre a cabeceira desse antigo leito e a margem do Rio Colorado foi construído um canal com 23 km de extensão, o Canal Álamo, e um sistema de bombeamento para vencer um desnível de 38 metros. O sistema começou a operar em 1901 e funcionou continuamente até 1942 quando foi inaugurado o canal All-American, que aumentou substancialmente o volume de águas que chegava até o Imperial Valley, além de fornecer água para 6 cidades da Califórnia. A desativação do sistema do Rio Álamo gerou inúmeros protestos da parte do Governo do México – como parte do rio atravessava o território mexicano, agricultores locais utilizavam suas águas em sistemas de irrigação – o novo canal, All-American, corre exclusivamente por território dos Estados Unidos.

Até a chegada da irrigação nas terras do Imperial Valley, o Salton era um lago temporário que enchia apenas em anos de cheias anormais do Rio Colorado, quando as águas avançavam pelo deserto e se acumulavam numa depressão. Com a irrigação sistemática das lavouras, toda a água excedente escorria para a depressão, passando a manter o nível da lâmina d’água estabilizada. A chegada dessas águas, porém, passou a carrear todo o tipo de resíduos agrícolas, de fertilizantes a pesticidas, produtos químicos que passaram a se acumular no fundo arenoso do Lago. Durante décadas a fio, com os níveis constantes de água da irrigação alimentando o Salton, estes sedimentos tóxicos nunca foram um problema.

Com a grande seca dos últimos anos na bacia hidrográfica do Rio Colorado e após o acordo de quantificação para aumentar os volumes de águas destinados às grandes cidades do Sul da Califórnia, houve uma redução expressiva no volume de água utilizado para a irrigação das lavouras e, consequentemente, a quantidade de água que escorria para o Lago Salton diminuiu. Sem a reposição do volume de água perdido por evaporação, o Lago começou a secar, expondo a areia contaminada por agrotóxicos e fertilizantes aos fortes ventos, que passaram a espalhar uma nuvem tóxica pela região, lembrando em muito os efeitos nocivos dos ventos salgados do Aralkum na Ásia Central. Como resultado dessa nuvem tóxica, a região do Imperial Valley passou a conviver com uma baixa qualidade do ar ao longo de 200 dias no ano e agora detém o triste recorde americano de casos de asma, com um índice três vezes superior à média dos Estados Unidos.

A situação criou um grande dilema – aumentar o volume de água para as áreas irrigadas e assim voltar a encher o lago, controlando a quantidade de areia tóxica espalhada pelos ventos, ou manter o controle da escassa água e sofrer as consequências da poeira tóxica?

Mudam os lagos, mudam os continentes e os países, mas os problemas são exatamente os mesmos, sem respostas fáceis ou soluções mágicas.

CIDADES E AGRICULTORES DISPUTANDO A ÁGUA DO RIO COLORADO, OU A GUERRA DA ALFAFA

Feno de Alfafa

A alfafa é uma leguminosa de folhagem perene, altamente nutritiva, que apresenta excelentes qualidades para alimentação animal, com destaque para os altos níveis de proteína, cálcio e fósforo, muito superiores às de outras fontes como a cana de açúcar, o milho e o capim. Em países de clima temperado, com invernos rigorosos e verões muito secos como os Estados Unidos, a alfafa é um alimento fundamental para os rebanhos, substituindo as pastagens cobertas por neve ou secas (vide foto). A alfafa passa por um processo de desidratação e a seguir é compactada na forma de fardos, que podem receber uma mistura de outras plantas, passando a ser chamada de feno. O feno produzido na região do Imperial Valley é considerado um dos melhores do mundo, com mercado garantido nos Estados Unidos e Canadá. Magnatas árabes importam o feno da Califórnia para alimentar seus plantéis de camelos e cavalos premiados.

O cultivo da alfafa é o maior consumidor de água na região do Imperial Valley na Califórnia, representando um consumo até quatro vezes maior de água que outras culturas. Após o início do ciclo de secas severas na região Sudoeste dos Estados Unidos a partir do ano 2000, a singela planta esteve envolvida em uma disputa feroz entre grandes cidades que precisavam aumentar os volumes de água para distribuição às populações e os produtores rurais que alegam direitos históricos sobre o uso da água para a irrigação de suas plantações. Muitos críticos afirmam que é necessário priorizar o uso da água para o consumo humano e a alfafa, um alimento para animais, era usada como exemplo do desperdício de água; os produtores rurais rebateram, afirmando que o feno produzido a partir da alfafa é um insumo básico e fundamental para a produção de carne, leite e derivados, produtos fundamentais para a alimentação humana e indispensáveis na mesa de qualquer família americana. A guerra da alfafa, expressão que estou usando para descrever as agressões de lado a lado, acabou transformada num símbolo do colapso da bacia hidrográfica do Rio Colorado.

Para entendermos melhor o problema, é necessário voltar ao ano de 1922 quando foi assinado o Colorado Compact, ou Pacto do Rio Colorado, um acordo entre sete Estados do Sudoeste dos Estados Unidos estabelecendo os direitos de utilização compartilhada das águas do rio. Pelo acordo, a bacia hidrográfica do Rio Colorado foi dividida em duas áreas: a Divisão Superior e a Divisão Inferior. O acordo estabeleceu quotas de água para cada uma das divisões: na Divisão Superior, formada por Colorado, Novo México, Utah, Wyoming e uma parte do Arizona, os Estados teriam direito a quotas de água de, respectivamente, 51,75%, 23%,14%, 11,25% e 0,70%; na Divisão Inferior, formada por Nevada, Arizona e Califórnia, as quotas percentuais de água seriam, respectivamente, 4%, 37,30% e 58,70%.

Há época da assinatura do Pacto do Rio Colorado, a população do Estado da Califórnia era muito menor que atual e tinha necessidade de um volume de água infinitamente menor; por isso, a quota de água pactuada para o Estado foi destinada ao uso para irrigação na região do Imperial Valley, que passou a absorver 83% do volume total. Foi a partir deste contexto histórico que os agricultores assumiram o controle da água e os direitos prioritários de uso.

Com o intenso crescimento das cidades do Sul da Califórnia e a necessidade cada vez maior de reforços na oferta de água potável, teve início em 1990 um movimento pela repactuação da divisão da água entre os agricultores e as cidades. Com o advento da seca extrema a partir de 2011, as grandes cidades intensificaram o confronto pela repactuação na distribuição da quota de água do Rio Colorado com os agricultores do Imperial Valley. A cidade de San Diego, por exemplo, conseguiu chegar num acordo com os produtores, financiando investimentos em novas tecnologias de irrigação mais eficientes como o micro gotejamento. A contrapartida negociada previa que toda a água economizada nos sistemas financiados pela cidade de San Diego seria revertida para o uso pela população da cidade. Como metade da irrigação usada nos campos utilizava o sistema de inundação de valas, volumes substanciais de água puderam ser revertidos para San Diego, apesar dos inúmeros protestos de agricultores que achavam que a cidade deveria pagar um valor adicional pelo uso das águas. Los Angeles e San Bernardino fizeram acordos emergenciais próprios com os agricultores.

A seca extrema no Sul da Califórnia finalmente chegou ao fim entre 2013 e 2014, com uma excelente estação chuvosa, que encheu grande parte dos reservatórios secos e adiou uma solução final para a repactuação das cada vez mais escassas águas do Rio Colorado.

A guerra da alfafa ainda terá muitos capítulos e batalhas…

“DESAPARECIMENTO REPENTINO DE RIO NO CANADÁ ASSUSTA CIENTISTAS”

Rio Slims Canadá

Enquanto tratamos da seca no Sudoeste dos Estados Unidos e dos problemas criados na bacia hidrográfica do Rio Colorado, surgiu uma notícia preocupante publicada pela Revista Exame.Com: o derretimento repentino de um glaciar no Canadá fez um rio desaparecer em apenas quatro dias:

“Geralmente, são necessários milhões de anos para um rio desaparecer ou reverter seu curso natural. Mas para o rio Slims, no Canadá, quatro dias foram suficientes.

Em artigo publicado nesta semana na revista Nature Geoscience, cientistas descrevem o sumiço repentino do rio, em maio do ano passado, como o primeiro caso conhecido de “pirataria fluvial” nos tempos modernos por influência das mudanças climáticas, o que levanta preocupações.

A pirataria de rios, também chamada de captura fluvial (do inglês “river capture” ou “stream piracy”), corresponde ao desvio natural das águas de uma bacia hidrográfica para outra, processo que promove a expansão de uma drenagem em detrimento da vizinha.

Segundo os pesquisadores, as altas temperaturas registradas na primavera passada contribuíram para um derretimento abrupto do glaciar Kaskawulsh, que alimenta o rio Slims, fenômeno que acabou gerando um novo canal de drenagem da água.

Ao invés de fluir para o norte e alimentar o rio Slims (que se une ao rio Yukón e desemboca no mar de Bering), a água do degelo foi desviada para o sul, rumo ao rio Alsek, que deságua no oceano Pacífico, um fenômeno geológico que normalmente levaria milhões de anos para acontecer.

Anteriormente, os dois rios tinham quase o mesmo tamanho. Mas, agora, o rio Alsek – popular pela prática de rafting e considerado um Patrimônio Mundial da Unesco, está maior do que o rio Slims.

“Podemos nos surpreender com o que a mudança climática nos reserva e alguns dos efeitos podem ser muito mais rápidos do que esperamos”, disse o principal autor do estudo, Daniel Shugar, da Universidade de Washington, ao jornal The New York Times.

Mudança abrupta

Segundo Shugar, até agora, muito do trabalho científico que envolve as geleiras e as mudanças climáticas tem se concentrado no aumento do nível do mar, porém o novo estudo mostra que pode haver outros efeitos subestimados e imprevistos.

A alteração do padrão de drenagem de um rio reserva ameaças preocupantes. O caso do rio canadense ocorreu em área selvagem relativamente pouco povoada e, portanto, sem grande impacto nas populações humanas.

Porém, o sumiço do rio teve um impacto dramático sobre o ecossistema, redistribuindo as populações de peixes, alterando a química dos lagos próximos e assolando a região com uma série de novas tempestades de areia.

No contexto global, outros rios alimentados por glaciares, que fornecem energia hidrelétrica e abastecimento de água a regiões mais povoadas, também poderiam estar em risco.

“Este não será o último evento”, avisou Lonnie Thompson, paleoclimatologista da Universidade Estadual de Ohio, em entrevista ao The Guardian. “Incidentes semelhantes podem acontecer nos Himalaias, nas montanhas dos Andes da América do Sul, ou outras partes do Alasca e Canadá, à medida que a mudança climática se acelera”.

Revista Exame.Com”