O RENASCIMENTO DA FLORESTA DA TIJUCA, OU ERA UMA VEZ NO RIO DE JANEIRO…

Na última postagem apresentamos um resumo do quadro caótico que tomou conta do abastecimento de água na cidade do Rio de Janeiro nas primeiras décadas do século XIX. Os intensos desmatamentos das florestas ao redor da cidade, principalmente para a criação de grandes cafezais, comprometeram inúmeras das nascentes que forneciam a água que corria para as fontes públicas.

Um dos corpos d’água mais degradados há época foi o rio da Carioca, uma das principais fontes de água do sistema de abastecimento do Rio de Janeiro. Esse rio era tão importante que compartilhava o nome com os naturais da cidade – os cariocas. 

A situação foi agravada pelo rápido crescimento da cidade a partir da chegada da Família Real portuguesa e toda a sua Corte – diferentes fontes falam de um acréscimo entre 12 e 20 mil pessoas à população da cidade após esse evento. Esse aumento da população foi seguido por um forte crescimento da demanda por mão de obra e transformou o Rio de Janeiro no maior mercado de venda de escravos do Brasil. Milhares de novos escravos passaram a ser incorporados à população da cidade a cada ano, pressionando cada vez mais as fontes de abastecimento de água. 

O dia a dia dos cariocas, tanto os nativos quanto os recém chegados, não era dos mais confortáveis e salutares. Mesmo tendo sido elevada à categoria de Metrópole do Império Ultramarino Português, as ruas da cidade do Rio de Janeiro eram feias, sujas e cheiravam pessimamente mal – os canais de drenagem de águas pluviais, que também eram usados para a dispersão dos esgotos e do lixo, estavam quase sempre secos e cobertos com uma grossa camada de excrementos humanos e detritos. Os nobres e os demais membros da Corte não paravam de reclamar das péssimas condições de saneamento ambiental daquele “fim de mundo”. 

Ao longo das décadas de 1820 e 1830, a cidade do Rio de Janeiro enfrentou vários períodos de seca prolongada, o que agravou ainda mais a escassez de água potável e aumentou as dificuldades para a dispersão do esgoto residencial que se acumulava nos canais. Agora não eram apenas os nobres e ricos que reclamavam – toda a opinião pública da cidade passou a exercer uma forte pressão sobre os Governantes para a adoção de políticas para o aumento da capacidade dos sistemas produtores de água. 

Data da década de 1820 a primeira decisão de se desapropriar terras na Tijuca para reflorestar as nascentes de água potável, cada vez mais escassas. Acreditava-se, de forma empírica, que o reflorestamento aumentaria o volume dos riachos. E foi revegetando as encostas da Tijuca que se reparou, em parte, os danos causados pela exploração indiscriminada de toda a sua vegetação para se produzir, sucessivamente, cana-de-açúcar, café, lenha e carvão vegetal e, finalmente, abrigar a produção de alimentos e criação de animais destinados ao consumo da crescente população. 

A partir de 1845, inicia-se, de fato, o trabalho sistemático de recomposição florestal das encostas e as desapropriações de fazendas se intensificaram. As primeiras experiências de reflorestamento haviam apresentado ótimos resultados e partia-se, agora, para um aumento na escala nas intervenções florestais. 

A partir de 1861, por ordem do imperador Dom Pedro II, grandes fazendas na região da Tijuca foram desapropriadas e iniciou-se um processo contínuo de reflorestamento em grande escala. A realização deste trabalho foi confiada ao Major Manuel Gomes Archer que, de forma totalmente amadorista e sem nenhum critério científico, iniciou os trabalhos de plantio de árvores.  

Contando com uma pequena equipe de trabalhadores, entre escravos e assalariados, foram plantadas ao longo de 13 anos mais de 100 mil mudas de árvores, especialmente mudas de espécies da Mata Atlântica, que ainda resistiam em pequenos fragmentos florestais, e muitas espécies exóticas. Ao longo de várias décadas, os trabalhos de reflorestamento foram sendo ampliados e a oferta de água potável se estabilizou.

Esse gradual renascimento da Floresta da Tijuca foi responsável pela recuperação dos caudais do rio da Carioca e, consequentemente, pelo reestabelecimento da capacidade de produção do sistema de abastecimento de água da cidade. O crescimento gradual dos volumes de água garantiria parte importante do abastecimento da população carioca até o final do século XIX, quando novas fontes passaram a ser incorporadas ao sistema. 

Em 1961 a floresta foi elevada a condição de Parque Nacional do Rio de Janeiro, nome alterado anos depois para Parque Nacional da Tijuca, ou simplesmente Floresta da Tijuca (vide foto) para os cariocas, com área total de 3.953 ha. Além de abrigar excepcional patrimônio natural da Mata Atlântica, o Parque concentra dentro dos limites de sua área valiosos bens culturais e históricos, constituindo a maior floresta artificial urbana do mundo, contemplando maciços rochosos, quedas d’água, riachos, fauna e flora da Mata Atlântica, mirantes, ruínas de antigas fazendas e da Real Fábrica de Pólvora, entre outras atrações. 

Junto com as praias e as montanhas que envolvem a cidade do Rio de Janeiro e a transformaram no cartão postal mais conhecido do Brasil em todas as partes do mundo, a Floresta da Tijuca é um dos grandes patrimônios naturais da capital fluminense, fornecendo ainda hoje preciosos serviços ambientais e atraindo milhares de turistas a cada ano.

Entre as melhores lembranças que eu tenho da cidade do Rio de Janeiro, onde tenho raízes familiares, estão caminhadas que fiz quando adolescente em trilhas no meio dessa floresta. Uma espécie de árvore que abunda nessas matas são as jaqueiras, uma planta de origem asiática que se adaptou perfeitamente ao clima local. O cheiro adocicado dessas frutas ao longo das trilhas era marcante e inesquecível. 

Desgraçadamente, esses trabalhos de reflorestamento e recuperação de áreas devastadas pela cultura do café não se estenderam a outras regiões do interior da Província do Rio de Janeiro. Áreas que no passado foram cobertas por uma densa floresta de Mata Atlântica e que foram transformadas em fazendas produtoras de café, foram abandonadas a própria sorte após a exaustão dos solos. O que foi floresta, na melhor das hipóteses, acabou transformado em ralas matas de capoeira – a maior parte dessas áreas virou pastagem para o gado ou terras para uma agricultura de pequena escala. 

Não existem estudos antigos sobre as florestas e bacias hidrográficas da Província do Rio de Janeiro anteriores ao ciclo do café, o que dificulta se fazer uma comparação da situação do meio ambiente antes e depois. É possível especular, genericamente, que toda a devastação ambiental que se seguiu ao início da cafeicultura na Província causou uma grande diminuição dos volumes de água das principais bacias hidrográficas e que expressivos volumes de sedimentos resultantes da erosão dos solos ocuparam importantes espaços na calha dos corpos d’água. 

Também podemos supor que populações animais foram reduzidas, ou até mesmo extintas, e que houve uma importante redução na diversidade botânica das matas. De acordo com estimativas, cerca de 97% do território do Rio de Janeiro era coberto por Mata Atlântica e ecossistemas associados como matas de altitude, restingas e mangues há época do descobrimento do Brasil. Atualmente, pouco mais de 15% das terras fluminenses ainda são cobertas com vegetação do bioma, especialmente em encostas de morros e serras, o que nos dá uma clara ideia da herança que foi deixada pela cultura do café no Estado. 

Como eu comentei em uma postagem anterior, a situação lembra uma área atacada por uma grande nuvem de gafanhotos – depois de comer a última folha da vegetação, os gafanhotos levantaram voo em busca de matas virgens para atacar. 

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