“SIMIOCÍDIO”, ESTUPIDEZ E O AVANÇO DA FEBRE AMARELA EM ÁREAS URBANAS

Mico-leão-dourado

Eu fiz uma busca na internet e não achei nenhuma referência à palavra que estou usando no título deste post – “simiocídio”, que significa literalmente “o assassinato de símios”. Símio é a palavra usada em zoologia para definir as espécies da ordem dos primatas, a grande família composta por macacos de todos os tamanhos e seres humanos; cídio é o sufixo nominal de origem latina, que ocorre em substantivos e exprime a ideia de morte ou extermínio – juntando as duas palavras chegamos ao “simiocídio”. Como os seres humanos formam um grupo à parte, o gênero Homo, o termo usado há muito tempo é outro – homicídio. Ninguém parece ter dado muita atenção à matança de macacos ao longo da história – imagino que esta seja a razão para não existir um termo específico para esse ato. Nas últimas semanas, porém, a situação mudou radicalmente e os macacos foram transformados em alvos inocentes da fúria dos humanos.

Pessoas ignorantes, que fazem lembrar das histórias dos caçadores de bruxas da Idade Média, decidiram que os macacos são os responsáveis pela transmissão da febre amarela e, usando dos mais diferentes artifícios – iscas envenenadas, armadilhas, tiros, flechas e qualquer outro tipo de arma disponível, começaram a matar macacos em diversas cidades nas regiões onde a febre amarela parece estar se tornando epidêmica (favor não confundir epidemia com pandemia, que é uma situação muito mais grave). As autoridades, cautelosas como sempre, tem preferido dourar a pílula e chamar a situação de surto – surto da doença e também de bestialidade humana.

Para completar o quadro, órgãos da imprensa não conseguem passar corretamente as informações corretas sobre os acontecimentos paras as populações e ainda se sentem em condições de ficar questionando, inclusive, medidas acertadas como a vacinação em massa com doses fracionadas da vacina contra a febre amarela (melhor seria a vacinação com a dose completa – na falta desta, o fracionamento vem em boa hora). Como comentei em uma outra postagem, passamos a viver a “2ª Revolta da Vacina”. No futuro, imagino que alguém poderá eternizar esse momento negro de nossa história com um filme: Os Caçadores dos Macacos Escondidos, ou qualquer outro título nessa linha.

Macacos vivendo nas cercanias de comunidades humanas são um fato histórico. Em muitas partes do mundo, especialmente em regiões tropicais da Ásia, os macacos ainda hoje são considerados como animais sagrados. Na Índia, para citar um único exemplo, os macacos da espécie langur são considerados como divindades em muitas regiões do país, existindo até templos dedicados a estes animais. De acordo com a tradição, foram esses macacos que descobriram a manga no jardim secreto de um gigante chamado Ravana – os macacos roubaram a fruta e a deram aos seres humanos (lembra muito a lenda grega de Prometeu, que roubou o fogo dos deuses e o deu para os seres humanos).

Nas cidades brasileiras, saguis e micos, entre outras espécies de macacos, sempre habitaram ou são visitantes ocasionais de matas localizadas nas periferias. Aqui vale lembrar que o Brasil concentra a maior variedade de espécies de primatas do mundo – são, pelo menos, 118 espécies, distribuídas em 4 famílias e 19 gêneros; novas espécies são descritas com uma frequência impressionante. Lembro de uma matéria de capa de uma importante revista que afirmava que o “Brasil é o planeta dos macacos”. Em todas as regiões e cidades brasileiras, sempre haverá, pelo menos, uma espécie de primata vivendo nas proximidades de algum agrupamento humano. Se estes macacos fossem de fato transmissores de doenças, nosso país seria um deserto de matas tropicais – todos os seres humanos já teriam morrido com alguma doença supostamente transmitida por primatas.

Mas o que temos visto em reportagens de TV são dezenas de macacos sendo mortos sistemática e impiedosamente em muitas cidades, por moradores assustados com os surtos de febre amarela. Numa destas reportagens, a imagem chocante de uma mesa de um centro veterinário com dezenas de macacos mortos, inclusive um mico-leão-dourado (vide foto), uma espécie sob forte risco de extinção nas matas brasileiras. Na base deste morticínio (ou “simiocídio”), a crença de muitas pessoas ignorantes sobre a responsabilidade dos indefesos e inocentes primatas na disseminação da febre amarela. Na cabeça destes “animais” (em referência às pessoas mal esclarecidas, é claro), eliminando-se os macacos de uma região, automaticamente se estará eliminando a origem do surto da doença.

Primatas e seres humanos (que bem por acaso são primatas um pouco mais evoluídos) convivem juntos em grande parte do planeta Terra a milhões de anos, em razoável harmonia – não será agora, de um momento para o outro, que eles passarão a ser considerados inimigos da raça humana e, portanto, passíveis de condenação à morte sem qualquer chance de defesa.

Macacos não são os responsáveis pela transmissão da febre amarela – seres humanos, sim, são transmissores da raiva e da estupidez, entre outros males.

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