CONCESSIONÁRIA ÁGUAS DO RIO ASSUMIRÁ PARTE DAS OPERAÇÕES DA CEDAE EM 1° DE NOVEMBRO

Na última postagem falamos dos problemas com a água fornecida pela Sanepar – Companhia de Saneamento do Paraná, aos consumidores da cidade de Ponta Grossa. A água “potável” que está chegando nas torneiras dos moradores está repleta de pequenos camarões brancos com cerca de 1 mm de comprimento. Apesar da concessionária afirmar que a água está em condições adequados para o consumo, a população está reclamando muito e se recusando a consumir essa água. 

Um outro caso que citamos na postagem é o da CEDAE – Companhia Estadual de Águas e Esgotos, concessionária que atende grande parte dos municípios do Estado do Rio de Janeiro. O principal manancial de captação de água da empresa, o rio Guandu, foi transformado em uma grande vala de esgotos a céu aberto. Os problemas com a qualidade da água fornecida para os consumidores são enormes. 

Em uma antiga postagem aqui do blog publicada em 2016, falamos das dificuldades enfrentadas pela empresa para tratar a água captada no rio Guandu. A ETA – Estação de Tratamento de Água, do Guandu (vide foto) utiliza, nada menos, que 140 toneladas de Sulfato de Alumínio, 20 toneladas de Cloreto Férrico, 15 toneladas de Cloro, 25 toneladas de Cal Virgem, 10 toneladas de Ácido Fluossilícico (o famoso flúor) entre outros produtos químicos, a cada dia. 

Apesar de todo esse volume de produtos químicos, que muitas estações de tratamento de água de pequenas cidades gastam ao longo de todo um mês, a qualidade da água nem sempre é das melhores. No início de 2020, citando um exemplo, centenas de milhares de consumidores em vários bairros da cidade do Rio de Janeiro e também da Baixada Fluminense receberam uma água escura e malcheirosa em suas torneiras por vários dias

Em sucessivas notas e comunicados encaminhados aos meios de comunicação, a CEDAE afirmava que essa água era potável e que poderia ser consumida pela população sem nenhum risco. Os consumidores, é claro, optaram por não acreditar na empresa e passaram a consumir água mineral – aliás, o preço da água mineral aumentou brutalmente na região ao longo de mais essa “crise” no abastecimento de água. 

Pois bem – vamos à boa notícia (pelo menos é o que se espera): de acordo com um comunicado do Governo do Rio de Janeiro, a concessionária Águas do Rio, que venceu a disputa em leilão pelo controle das operações de distribuição de água potável e coleta/tratamento de esgotos em 27 municípios fluminenses, irá assumir as operações do seu “quinhão” da CEDAE já em 1° de novembro. A data prevista anteriormente era o início de 2022. 

Relembrando, uma boa parte das operações da CEDAE foi levada a leilão público no final do último mês de abril. O modelo da concessão, que foi estruturado pelo BNDES – Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, dividiu essas operações em quatro grandes blocos – 30 cidades fluminenses optaram por manter esses serviços nas mãos da CEDAE. 

A concessionária Águas do Rio, que faz parte do grupo Aegea Saneamento, arrematou os blocos 1 e 4, com ofertas de R$ 8,2 e R$ 7,2 bilhões, respectivamente. No total, as operações da concessionária abrangerão 26 municípios fluminenses e 124 bairros da cidade do Rio de Janeiro. 

De acordo com as regras, a empresa terá a concessão dos serviços por 35 anos e assumiu o compromisso de atingir a universalização dos serviços de fornecimento de água potável e coleta/tratamento de esgotos até 2033. A empresa comunicou ao mercado a contratação de cerca de 1,5 mil colaboradores até o momento, com a perspectiva de contratar outros 5 mil até o final deste ano. 

Uma característica interessante dessa concessão é que a CEDAE continuará operando a ETA Guandu e venderá a água que será distribuída pelas novas concessionárias. O sistema produtor de águas do rio Guandu atende aproximadamente 85% da população da cidade do Rio de Janeiro e cerca de 70% das populações da Região da Baixada Fluminense, especialmente nos municípios de Nova Iguaçu, Duque de Caxias, São João de Meriti, Belford Roxo, Nilópolis, Itaguaí, Queimados e Mesquita.   

A Baía da Guanabara foi descoberta em 1° de janeiro de 1502 pela primeira expedição exploratória portuguesa. As águas calmas e protegidas da baía forneciam as melhores condições para a construção de um grande porto. Essa cobiçada geografia atraiu a atenção dos franceses, que pretendiam construir uma grande base naval para controlar todo o Oceano Atlântico Sul. Os franceses invadiram a região em 1555 e ali ficaram até 1570, quando foram expulsos por forças portuguesas. 

Em meio a toda essa disputa, a cidade do Rio de Janeiro foi fundada em 1565. Apesar de toda a exuberância da Baía da Guanabara, a história mostrou que a região não apresentava as melhores condições naturais para a vida de uma cidade – as fontes de água doce são escassas, principalmente durante os meses de seca. Esse é um tema que já tratamos em várias postagens anteriores. 

Sem nos alongarmos muito, a derradeira solução para os graves problemas de abastecimento de água na cidade do Rio de Janeiro e municípios vizinhos só teria início nas primeiras décadas do século XX, quando começaram a ser construídas várias usinas hidrelétricas no interior do Estado do Rio de Janeiro. 

A empresa concessionária dos serviços de geração e de distribuição de energia elétrica no Estado, a Light, realizou diversas obras para possibilitar a transposição de águas da bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul. Essas águas eram direcionadas primeiro para as usinas hidrelétricas da empresa e depois eram despejadas na direção do rio Guandu, um curso de água com nascentes nas encostas da Serra do Mar e foz na Baía de Sepetiba. 

A crescente demanda por energia elétrica, especialmente no antigo Estado da Guanabara, levou a um aumento cada vez maior dos volumes de águas lançados na bacia hidrográfica do rio Guandu – o antigo riozinho acabou sendo transformado num grande manancial, que em pouco tempo se tornou o principal manancial de abastecimento de grande parte da população da Região Metropolitana do Rio de Janeiro. 

Com a concessão de grande parte das operações da CEDAE para a iniciativa privada, criou-se a expectativa de uma solução a médio e longo prazo dos problemas de poluição no rio Guandu. A maior parte dessa poluição é formada por esgotos domésticos lançados nas águas do rio – com a implantação de redes de coleta e de estações de tratamento pelas novas concessionárias, a tendência será uma redução drástica da poluição no rio Guandu. 

A privatização de empresas públicas aqui no Brasil criou inúmeros cases de grande sucesso. Nessa lista podemos incluir os serviços de telefonia, a Embraer e a Companhia Vale do Rio Doce. Cariocas e fluminenses torcem por um destino semelhante no saneamento básico de seus bairros e cidades. 

Como dizemos aqui em casa – que os anjos digam amém! 

A PRESENÇA DE MICROCRUSTÁCEOS NA ÁGUA SERVIDA À POPULAÇÃO DE PONTA GROSSA NO PARANÁ 

Imagine a seguinte situação: a água que é fornecida pela empresa de saneamento básico de sua cidade chega até as suas torneiras com centenas de pequenos camarões brancos com pouco mais de 1 mm de comprimento. Você reclama da qualidade da água e recebe a seguinte resposta da concessionária: pode beber essa água tranquilamente pois ela é potável! 

Por mais absurdo que isso possa lhe parecer é exatamente o que está acontecendo hoje na cidade de Ponta Grossa. Vamos entender a situação: 

Ponta Grossa fica a cerca de 100 km de Curitiba, a Capital do Paraná, e conta com uma população de mais de 350 mil habitantes. Observem que se trata de uma cidade média, a quarta em tamanho de população no Estado e a nona da Região Sul do país. 

Nos últimos dias muitos moradores passaram a observar pequenos pontos brancos em suspensão na água de suas casas. Um exame mais minucioso mostrou que eram pequenos camarões. Rapidamente, os canais de atendimento da Sanepar – Companhia de Saneamento do Paraná, ficaram congestionados com reclamações dos consumidores. O problema também foi comunicado ao Ministério Público do Paraná, que abriu um inquérito para investigar o caso. 

De acordo com a Sanepar, esses microcrustáceos são nativos dos rios da região e, devido ao aumento da poluição das águas por lançamentos irregulares de esgotos e por carreamento de resíduos de fertilizantes de plantações, a espécie passou a apresentar uma reprodução descontrolada. As estações de tratamento de água da empresa não estando dando conta de filtrar a grande quantidade de animais encontrados na água. 

De acordo com os laudos técnicos feitos por especialistas da concessionária, a presença desses pequenos animais na água não traz qualquer risco para os consumidores. Basta filtrar ou coar a água, que assim pode ser consumida sem maiores riscos. Só que a maioria dos consumidores não acredita nisso. 

Assim como acontece nas águas salgadas dos oceanos, as águas doces ou frescas de rios, lagos e represas são povoadas por criaturas microscópicas – animais e vegetais, que formam a base da cadeia alimentar desses ecossistemas. Entre essas criaturas destacam-se micro algas e pequenos crustáceos. 

Normalmente, as micro algas ficam em suspensão na água a pequenas profundidades, o que lhes permite captar a luz solar. Já os pequenos animais dessa fauna costumam viver nos sedimentos do fundo dos lagos e dos rios, agrupamentos que costumam ser chamados de bentos ou comunidades bentônicas. 

Para que todos tenham uma ideia da ordem de grandeza dessas criaturas – existem casos em que a densidade dessas criaturas é de até cinco indivíduos por grão de areia. Essas plantas e pequenos animais tem uma enorme importância ambiental para as espécies maiores, que predam e se alimentam dessas criaturas. 

A presença de resíduos de esgotos e de fertilizantes nas águas aumenta a proliferação e o crescimento das micro algas, que por sua vez alimentam as pequenas espécies animais. Se existe abundancia de alimentos, os pequenos animais também vão procriar em quantidades cada vez maiores, exatamente o que parece estar acontecendo em rios e represas de Ponta Grossa. 

Segundo a Sanepar, o problema está concentrado nas represas de Alagados e de Pitangui, que são os mananciais onde a empresa capta a água bruta que será tratada e distribuída para a população da cidade. Como é usual aqui no Brasil, essas áreas de mananciais não receberam a atenção adequada e suas águas passaram a sofrer com o despejo de esgotos de bairros e vilas periféricas, além de receber resíduos de agrotóxicos e de fertilizantes usados em plantações nas vizinhanças. 

Coletar e tratar esgotos sanitários nunca foi uma prioridade aqui em nosso país. Obras desse tipo são consideradas “invisíveis” pelos governantes de plantão, que preferem investir os parcos recursos públicos disponíveis em pontes, viadutos, grandes edifícios ou outras iniciativas de grande visibilidade. 

Estações de Tratamento de Água, as ETAs, são preparadas para transformar a água bruta em água potável. Numa etapa conhecida como tratamento primário, essas unidades removem toda a sujeira mais grosseira presente na água – lixo, restos de galhos, pedras e areia. 

Na etapa seguinte, conhecida como tratamento secundário, a água recebe diversos produtos químicos que facilitam a separação dos resíduos, que decantam e/ou se agregam em pequenos flocos. A seguir, a água passa por diversos sistemas de filtragem, onde os resíduos ficam retidos. Na etapa final, antes da água ser encaminhada para os consumidores, é aplicado cloro, um poderoso bactericida, e flúor, um elemento químico que atua na prevenção das cáries dentárias. 

De uma forma extremamente resumida, esse é o processo de tratamento da água. No caso de Ponta Grossa, fica muito claro que está havendo algum problema muito sério na etapa de filtração da água. Esse sistema é formado por várias camadas de sedimentos, onde se incluem cascalho, areia e antracito, um carvão em pó muito fino. Em condições normais, esse sistema de filtragem consegue reter sedimentos microscópicos – se um camarão com cerca de 1 mm está conseguindo passar pela filtragem, algo está muito errado nas estações de tratamento da cidade. 

Além da grande redução nos volumes disponíveis, os mananciais de água que atendem os grandes centros urbanos sofrem cada vez mais com a poluição, principalmente por causa do lançamento irregular de esgotos sanitários e carreamento de resíduos sólidos. Um caso que já tratamos em diversas postagens aqui no blog é o da ETA Guandu, o maior centro de produção de água potável da Região Metropolitana do Rio de Janeiro. 

O grande manancial da região é o rio Guandu, cuja maior parte do seu volume de água tem origem no sistema de transposição das águas do rio Paraíba do Sul. Esse sistema foi construído com a missão de garantir o fornecimento de água para movimentar as turbinas de usinas de geração de energia elétrica. Após o uso, a água é lançada na bacia hidrográfica do rio Guandu e usada para o abastecimento de grande parte da população da cidade do Rio de Janeiro e da Baixada Fluminense. 

De solução para o problema crônico de água na capital fluminense e região de entorno, o rio Guandu se transformou numa enorme fonte de problemas por causa da poluição de suas águas. Frequentemente, os consumidores recebem água de péssima qualidade – os sistemas de tratamento não estão conseguindo dar conta de tanta poluição.  

Esse parece ser o caso de Ponta Grossa. Os pequenos camarões que estão chegando junto com as águas nas torneiras é o menor de todos os problemas. 

OS MIL DIAS DO ROMPIMENTO DA BARRAGEM DE BRUMADINHO 

O tema segurança de barragens frequentemente é citado aqui nas páginas do blog. Na última postagem falamos do risco de colapso da barragem de uma represa de água na Serra da Mantiqueira, mais especificamente no município de Paraisópolis, no Sul de Minas Gerais. 

Entre os comentários feitos, foi lembrado o trágico acidente com uma barragem de rejeitos de mineração em Brumadinho, também em Minas Gerais. Essa tragédia é considerada como o maior acidente de trabalho do Brasil em número de vítimas – foram 170 mortos, sendo que 8 corpos ainda não foram recuperados. 

Por uma estranha coincidência (para não dizer trágica), hoje completam mil dias desde o rompimento dessa barragem. Equipes do Corpo de Bombeiros de Minas Gerais, que nunca descansaram no seu trabalho de busca aos corpos dos desaparecidos, receberam homenagens dos moradores de Brumadinho, em especial de familiares das vítimas. 

O rompimento da barragem ocorreu no dia 25 de janeiro de 2019 – imagens de uma câmera de segurança registraram o momento exato em que a barragem 1, literalmente, se dissolveu – 12h28min25s. As imagens deixam claro o completo estado de liquefação dos rejeitos minerais, características que explica a velocidade da onda que correu morro abaixo. 

A onda de lama e rejeitos precisou de poucos segundos para atingir diversos prédios e instalações da Mina do Córrego do Feijão, empreendimento de propriedade da Vale do Rio Doce. Um dos prédios atingidos foi justamente o refeitório da unidade, onde centenas de funcionários estavam reunidos para almoçar. A poderosa vaga engoliu a construção a um só golpe. 

Em pouco mais de 3 minutos, cerca de 12 milhões de metros cúbicos de lama e rejeitos minerais se espalharam por todo o vale do Córrego do Feijão até chegar na calha do rio Paraopeba, afluente do rio São Francisco. Casas ribeirinhas, plantações, matas e até um segmento de uma ponte ferroviária foram destruídos. 

De acordo com o IEF – Instituto Estadual de Florestas, cerca de 150 hectares de matas nativas foram destruídas pela lama. Essas matas eram importantes remanescentes da Mata Atlântica na região, onde se encontrava uma valiosa biodiversidade. 

Além da destruição da vegetação nativa e de plantações comerciais de muitas propriedades, essa onda de rejeitos poderá prejudicar a fertilidade dos solos por um longo tempo. Os rejeitos minerais contêm uma grande diversidade de metais pesados e outras substancias tóxicas prejudiciais ao meio ambiente. Mesmo com a remoção dessa camada de lama, os efeitos poderão ainda ser sentidos por muito tempo. 

As maiores perdas dessa tragédia foram mesmo as vidas humanas, onde se incluem funcionários e prestadores de serviço da empresa, assim como pessoas que estavam em casas próximas na hora do acidente. Um desses locais foi a pousada Nova Estancia, que na hora do acidente abrigava cerca de 35 pessoas. 

As equipes de socorro e de busca, formadas inicialmente por soldados do Corpo de Bombeiro de Minas Gerais, começaram seus trabalhos pouco tempo após a ruptura da barragem. Essa força recebeu apoio de tropas do Exército e da Aeronáutica, além de 130 militares de Israel, que se juntaram ao esforço emergencial. 

Cerca de uma semana depois, um total de 110 corpos de vítimas já haviam sido encontrados e começava uma fase complicada para a identificação das vítimas. Devido às características do acidente, os corpos encontrados se apresentavam bastante mutilados e as únicas formas para se fazer o reconhecimento era através de exames dentários, pela identificação de sinais particulares como tatuagens ou cicatrizes de fraturas, ou ainda por exames de DNA. 

Além dessas vítimas já localizadas, o balanço feito até então pelas autoridades falavam de outros 238 desaparecidos. Esse número foi sendo reduzido pouco a pouco à medida que supostos desaparecidos começaram a ser localizados. O número oficial de vítimas ficou em 270 mortos. 

Nas semanas que se seguiram, flashes ao vivo nas TVs e reportagens dos telejornais gravadas no local apresentaram todo o drama do resgate das vítimas. Reportagens especiais também buscavam mostrar as razões que levaram a essa tragédia. Cerca de três anos antes, não custa lembrar, um outro acidente do mesmo tipo e em um empreendimento da mesma empresa, acabou com a destruição do distrito de Bento Rodrigues, em Mariana, onde 19 pessoas morreram e a calha do rio Doce foi praticamente destruída. 

No início desse mês de outubro, o MPF – Ministério Público Federal, recebeu um estudo feito por especialistas em engenharia da UPCUniversitat Politècnica de Catalunya, onde as causas mais prováveis da tragédia foram estabelecidas. 

Como as imagens da onda de lama e rejeitos já mostravam, os especialistas afirmaram que a excessiva liquefação dos rejeitos foi a causa determinante para o colapso da barragem. O estudo também concluiu que a instalação de um dreno na barragem cerca de três meses antes do colapso também contribuiu para a tragédia. 

Todo esse conjunto de novas informações contidas nesse estudo, que foi acompanhado por especialistas da Polícia Federal e de instituições brasileiras, deverá auxiliar o Ministério Público Federal na formulação do processo de apuração das responsabilidades pela tragédia. Ressalte-se que, até o momento, ninguém ainda foi condenado e/ou responsabilizado em definitivo pelas mortes. 

De acordo com registros de organizações internacionais, ocorreram 35 acidentes com barragens de rejeitos de mineração em todo o mundo entre os anos de 2001 e 2018. Esse número indica a ocorrência de uma média de quatro acidentes desse tipo a cada ano, sendo que, pelo menos, um desses acidentes é de grandes proporções

Após a ocorrência de dois grandes acidentes com barragens de rejeitos de mineração, além de outras dezenas de acidentes menores, dentro de um período relativamente curto aqui no Brasil, era de se esperar que a fiscalização da segurança de estruturas desse tipo fosse uma prioridade de nossas autoridades. 

No milésimo dia após o acidente de Brumadinho, é lamentável constatar que ainda existem inúmeras barragens, de rejeitos minerais e de água, cheias de problemas, sendo que uma grande parte delas sequer está devidamente cadastrada nos órgãos responsáveis. Isso me leva a acreditar que “acidentes” similares ainda poderão acontecer em breve. Isso é lamentável. 

Como sempre, espero estar enganado quanto a isso… 

O RISCO DE ROMPIMENTO DE UMA BARRAGEM NO SUL DE MINAS GERAIS 

As fortes chuvas que estão caindo em extensas áreas do Estado de Minas Gerais são muito bem-vindas num período de seca extrema e de risco de racionamento de energia elétrica. Entretanto, conforme apresentamos na postagem anterior, nossas cidades não foram preparadas para suportar chuvas intensas e, sempre que uma cidade é atingida por um desses eventos, registram-se enchentes, alagamento e escorregamentos de encostas, muitos desses com vítimas fatais. 

Um exemplo do descaso com os problemas criados pela chegada do período das chuvas é o caso da represa do Parque Municipal Brejo Grande, localizada em Paraisópolis, um município mineiro localiza a cerca de 420 km de Belo Horizonte e bem próximo da divisa com o Estado de São Paulo. 

Essa represa foi construída no início da década de 1970, ocupando uma área de 12 hectares de um vale na Serra da Mantiqueira. Localizada a uma altitude de 1.400 metros acima do nível do mar, é considerada a maior represa artificial de altitude do Brasil. O objetivo inicial da obra era garantir o abastecimento de água da população, mas acabou transformada em uma atração turística da cidade. 

Em novembro de 2018, uma vistoria técnica encontrou diversas rachaduras e infiltrações no aterro da barragem. Um laudo técnico elaborado pelos especialistas determinou a realização de obras de recuperação em caráter de urgência, obras que não foram realizadas. 

Desde o último dia 1 de outubro, a Defesa Civil e o Corpo de Bombeiros iniciaram a remoção de famílias que vivem nas proximidades da barragem e que correm riscos em caso de colapso da estrutura. Segundo a Defesa Civil, essa evacuação é necessária por que a barragem foi colocada na classificação 3 – estrutura com alto risco de ruptura. 

De acordo com as autoridades, todos os moradores do Bairro Serra da Usina, que fica abaixo da crista da represa, precisam ser evacuados. As famílias que vivem na região, estimadas em número de 25, estão sendo encaminhadas para a casa de parentes ou para quartos de hotéis disponibilizados pela prefeitura. 

Segundo a Prefeitura de Paraisópolis, estão sendo feitos estudos para a recuperação da barragem desde o início de 2021. Como medida de segurança, o nível da represa foi rebaixado em 5 metros. A represa também possui um sistema de bombeamento monitorado 24 horas por dia que permite a redução do nível da represa a qualquer momento caso seja necessário. A Prefeitura não pretende esvaziar a represa. 

Um dado interessante que surgiu após a repercussão do risco de rompimento da barragem – apesar da construção já ter 50 anos, o projeto ainda não está cadastrado no IGAM – Instituto Mineiro de Gestão das Águas. Por mais absurdo que possa parecer, isso é algo que acontece com relativa frequência. 

De acordo com dados da ANM – Agencia Nacional de Mineração, o Estado de Minas Gerais possui 364 barragens de rejeitos de minerais, sendo que 46 apresentam problemas de segurança de diversos níveis nos últimos anos. Segundo o IGAM existem mais de 2.300 barragens de água outorgadas em Minas Gerais, além de 28 mil pequenas barragens classificadas como de “uso insignificante”. 

Notícias sobre o risco de colapso da barragem dessa represa surgem no momento em que um relatório preparado pelo CIMNE – Centro Internacional de Métodos Numéricos em Engenharia, na sigla em catalão, entidade vinculada a UPC – Universitat Politècnica de Catalunya, apresentou um estudo sobre o rompimento da barragem de Brumadinho, acidente ocorrido em 25 de janeiro de 2019. 

A produção do relatório de 500 páginas, que foi requisitado pelo MPF – Ministério Público Federal, foi acompanhada por peritos da Polícia Federal e por consultores técnicos independentes. O Relatório foi entregue ao MPF no dia 4 de outubro. 

De acordo com as conclusões do estudo, a ruptura da barragem aconteceu devido ao fenômeno da liquefação, ou seja, uma mudança do estado do material represado para a forma líquida. Segundo os estudos, a “maioria dos rejeitos minerais da barragem eram fofos, contráteis, saturados e mal drenados e, portanto, altamente sujeitos à liquefação”. 

Para se chegar a essas conclusões, os pesquisadores coletaram amostras de materiais e realizam uma série de estudos e testes em laboratórios. O estudo também incluiu a construção de um modelo matemático da barragem em computador, o que permitiu a realização de diversas simulações do processo de ruptura da estrutura. 

O colapso da barragem de rejeitos minerais da Mina do Córrego do Feijão em Brumadinho é classificado como o maior acidente de trabalho no Brasil em perda de vidas humanas, além de ser o segundo maior acidente industrial deste século. O acidente deixou 270 mortos, sendo que os corpos de 8 vítimas ainda não foram recuperados. 

O impacto ambiental provocado pelo rompimento da barragem liberou cerca de 12 milhões de metros cúbicos de rejeitos minerais na bacia hidrográfica do rio Paraopeba, que é afluente do rio São Francisco. Esse desastre ambiental só é superado pelo rompimento da barragem de Mariana, ocorrido em 2015, que liberou um volume de mais de 62 milhões de metros cúbicos de rejeitos minerais e lama na bacia hidrográfica do rio Doce, além de causar 19 mortes. 

Entre outras informações importantes, o estudo cita um incidente ocorrido durante a instalação de um dreno em junho de 2018, cerca de 7 meses antes da ruptura da barragem. O procedimento resultou em vazamentos de lama em vários pontos da barragem, vazamentos esses que foram contidos logo depois. Esse dreno e os vazamentos provocaram um aumento local e temporário nas pressões da água, além de algum dano na barragem. 

Dados sismográficos, que registram ondas geradas pela movimentação do solo, sugerem a ocorrência de alguma liquefação contida dos rejeitos há época. Todos esses problemas foram determinantes para o desenvolvimento das condições que levaram ao colapso da barragem meses depois. 

Todas essas novas informações são essenciais para o processo judicial que busca identificar e responsabilizar todos os profissionais e autoridades com alguma responsabilidade nessa grande tragédia. 

Apesar do potencial de risco da represa do Parque Municipal Brejo Grande estar muito aquém daquele das grandes barragens de rejeitos mineiros, o eventual colapso da barragem pode colocar vidas em risco. Com o histórico recente de vítimas fatais em acidentes com barragens em Minas Gerais, todo o cuidado é pouco. 

Agora, o que chama mesmo a atenção nesse caso é o tempo que demorou para a tomada de providencias – foram quase três anos entre a elaboração do laudo com a indicação do risco de colapso e a efetiva evacuação dos moradores. Isso é “abusar da sorte”. 

AS FORTES CHUVAS CHEGAM A BELO HORIZONTE 

Enquanto muitas regiões do país ainda estão sofrendo com os efeitos de uma seca prolongada, as chuvas começam a voltar gradativamente em outras, trazendo no seu encalço todo um conjunto de problemas. Nessa última segunda-feira, dia 18, uma extensa área entre a Região Metropolitana de Belo Horizonte e a Represa de Três Marias sofreu com a forte chuva. 

No início da noite, o INMET – Instituto Nacional de Meteorologia, já havia emitido um Alerta Laranja, informando que eram esperadas chuvas entre 30 e 60 mm em toda a região, com ventos intensos, riscos de corte no fornecimento da energia elétrica, quedas de árvores, riscos de alagamentos e de descargas elétricas. 

Na capital mineira, Belo Horizonte, choveu metade de todo o volume esperado para todo o mês de outubro em apenas três horas. De acordo com o balanço da Defesa Civil do município, o volume médio acumulado na cidade de 51,7 milímetros. A média histórica de precipitações no mês na cidade é de 104,7 mm. 

A região mais castigada com as fortes chuvas foi a Região Leste, onde o volume acumulado foi de 93,2 mm. Na sequencia as regiões Nordeste, com 61,2 mm, Oeste, com 59,2 mm e Centro-Sul, onde os volumes acumulados chegaram aos 57 mm. 

No volume acumulado mensal, considerando o intervalo entre os dias 1 e 18 de outubro, algumas regiões da cidade já receberam um volume de chuvas duas vezes maior do que o esperado para todo o mês. Um desses casos é a Região Leste da cidade, onde o volume acumulado já atingiu a marca dos 219,2 mm. 

Por mais animadoras que as notícias dessas chuvas sejam em um momento em que muitas regiões estão sofrendo com uma escassez hídrica histórica, somos obrigados a lembrar que as cidades brasileiras não estão preparadas para conviver com fortes chuvas. Belo Horizonte, que historicamente sofre com enchentes a cada chuva mais forte, apresentou inúmeros pontos de alagamentos. 

A Defesa Civil interditou três avenidas da cidade por risco de alagamento. Uma dessas vias foi a Rua Joaquim Murtinho, no bairro Santo Antônio, onde eram visíveis os grandes volumes de lixo e resíduos sendo arrastados pelas fortes enxurradas. 

Belo Horizonte foi uma cidade planejada e construída especialmente para sediar o Governo de Minas Gerais. A região escolhida para o empreendimento foi uma grande planície que se estendia entre as Serras do Curral e de Contagem, com uma altitude de 800 metros e um clima agradável. A inauguração da cidade se deu em 12 de dezembro de 1897. Já em seus primeiros anos de vida, a população de Belo Horizonte chegou aos 10 mil habitantes. 

O principal curso d`água da cidade é o Ribeirão dos Arrudas, que tem suas nascentes na Serra do Rola Moça e que deságua no rio das Velhas. Ao longo do seu curso de cerca de 40 km, o Ribeirão Arrudas recebe contribuições de uma infinidade de córregos: Jatobá, Barreiro, Bonsucesso, Cercadinho, Piteiras, Leitão, Acaba Mundo, Serra, Taquaril, Navio-Baleia, Santa Terezinha, Ferrugem, Tijuco e Pastinho, entre muitos outros. 

Assim como aconteceu em outras grandes cidades brasileiras, o rápido crescimento da população de Belo Horizonte resultou numa ocupação desordenada dos solos urbanos. Áreas de várzeas foram aterradas para a criação de novos terrenos para a especulação imobiliária, córregos tiveram seus cursos retificados e restritos a canais com paredes de concreto. Outros tantos cursos d`água foram canalizados e tiveram suas antigas várzeas transformadas em avenidas de fundo de vale

Os grandes “milagres” da urbanização transformaram Belo Horizonte na terceira maior metrópole do país e centro de uma importante região metropolitana. Esse crescimento todo, é claro, teve um grande custo ambiental e, nos períodos de chuva, a natureza sempre lembra de “mandar a fatura”. 

Todos os anos, a cidade é palco de enchentes catastróficas no período das chuvas. Muitas das enchentes recorrentes têm endereço certo como longos trechos da Avenida do Contorno e da Avenida Andradas, vias construídas na antiga várzea do Ribeirão dos Arrudas. A temporada de chuvas deste ano, ao que tudo indica, será acompanhada pelas grandes enchentes de sempre. 

Outra cidade próxima que foi fortemente castigada por chuvas nesse mesmo dia foi Ouro Preto, localizada a cerca de 100 km de Belo Horizonte. A cidade histórica e antiga capital do Estado registrou um volume total acumulado de 220 mm em poucas horas. Os rios Maracujá e Cachoeira do Campo transbordaram, causando uma série de transtornos. 

Em vários bairros localizados próximos das margens desses rios, os moradores foram obrigados a subir nos telhados das casas para fugir das fortes correntezas criadas pela enchente. De acordo com a Defesa Civil, pelo menos 25 famílias tiveram de ser removidas de suas casas e abrigadas em uma escola pública. 

No distrito de Cachoeira do Campo, a enchente tomou conta das ruas em poucos minutos, com o nível da água atingindo a marca de 1,5 metro. Um rio de lama tomou conta das ruas locais e das casas. Segundo relatos dos moradores, essa foi a “uma das piores enchentes de todos os tempos” na localidade. 

Como sempre acontece nessas situações, moradores tiveram as suas casas invadidas e destruídas pelas águas das enchentes, pela lama e também pelo lixo trazido pela enxurrada. Carros foram arrastados e danificados, muitos inclusive sendo considerados como perda total. Governantes e funcionários públicos repetiram mais uma vez exaustivos discursos, afirmando que inúmeras providencias e ações preventivas foram tomadas para evitar os transtornos e prometeram redobrar os esforços no futuro. 

Felizmente, até onde foi possível acompanhar nos relatos das chuvas desse dia, não foi registrada nenhuma morte por afogamento ou por desabamento de alguma construção. Porém, quando fazemos um retrospecto dos anos anteriores, essas são tragédias anunciadas e com hora marcada, e que fatalmente farão suas vítimas nos próximos eventos. 

Chuvas de verão em um país de clima essencialmente tropical como o Brasil são mais do que esperadas e, o mínimo que se pode prescindir é que nossas cidades tenham uma infraestrutura adequada para suportar grandes volumes acumulados em poucas horas. Por mais elementar que isso possa parecer, não é o que acontece. 

Entra ano, sai ano e as tragédias continuam a se repetir.  Lamentavelmente, notícias sobre enchentes, alagamentos, desabamentos de encostas de morros e outros problemas ligados à temporada de chuvas de verão voltarão a ocupar postagens aqui do blog nessa e outras temporadas de chuva. 

Quem sabe, ainda veremos chegar um dia em que tais notícias serão lembranças de um passado distante…

A “LENDÁRIA” TRANSPOSIÇÃO DAS ÁGUAS DO RIO SÃO FRANCISCO 

Na última postagem fizemos um rápido apanhado dos problemas históricos vividos pelas populações do Semiárido Nordestino por causa dos ciclos constantes de grandes estiagens. A seca na região é um problema crônico criado por uma combinação de correntes marítimas e de ventos no Oceano Atlântico, além de particularidades no relevo e no clima da região.  

A mão humana também deu suas contribuições para o agravamento do problema – grandes extensões da cobertura nativa da região, a caatinga, foram derrubadas e queimadas para a formação de pastagens para o gado. Cerca de metade da vegetação original do bioma já foi devastada ao longo de cinco séculos de história do nosso país. 

Entre as muitas ideias que foram formuladas para amenizar os impactos da seca no Semiárido Nordestino destacava-se um projeto para a transposição das águas do rio São Francisco. Essas águas seriam conduzidas na direção de terras extremamente áridas nos Estados do Ceará, Paraíba, Rio Grande do Norte, além de regiões de Pernambuco. Esse projeto foi pensado inicialmente na década de 1840. 

Apesar de todas as boas intenções dos idealizadores, o projeto não poderia ser realizado por falta de tecnologias e recursos de engenharia adequados à época. Citando um único exemplo: a tecnologia para bombear a água a grandes alturas com o uso da eletricidade só estaria disponível 50 anos depois.  

A discussão acerca de um sistema de transposição voltou a ser considerada nas décadas de 1940, época do Governo Vargas, e de 1980, no Governo do Presidente João Batista de Figueiredo. Em 1994, durante o Governo do Presidente Itamar Franco, foi iniciado um estudo sobre os potenciais hídricos das bacias hidrográficas do Semiárido nos Estados de Pernambuco, Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba, estudos que prosseguiram durante o Governo do Presidente Fernando Henrique Cardoso.   

Em 2007, já no Governo do Presidente Luís Inácio Lula da Silva, um projeto de transposição das águas do Rio São Francisco começou a ser implantado, com obras sendo executadas por batalhões especializados em engenharia do Exército Brasileiro e por construtoras privadas. Depois de inúmeros atrasos, suspeitas de fraude e superfaturamentos, o primeiro trecho do Eixo Leste do Sistema de Transposição do Rio São Francisco foi inaugurado oficialmente no início de março de 2017 pelo Presidente Michel Temer, que havia assumido o Governo após o impeachment da Presidente Dilma Rousseff em 2016.  

Projeções oficiais do Governo Federal estimavam que, quando as obras do projeto estivessem totalmente concluídas, o Sistema de Transposição das águas do rio São Francisco poderia atender até 12 milhões de pessoas nos Estados de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará, levando as águas do Rio São Francisco para uma extensa área do Semiárido. Infelizmente, como todos sabemos, as coisas não saíram exatamente como muitos haviam sonhado ao longo de muitas gerações.  

Orçadas inicialmente em R$ 4,5 bilhões e com previsão de conclusão em 5 anos, as arrastadas obras do Projeto de Transposição entraram num nada seleto conjunto de obras superfaturadas e mal feitas, onde o principal objetivo dos governantes e autoridades de plantão era o desvio de verbas públicas. Os poucos trechos inaugurados, rapidamente passaram a apresentar problemas de vazamentos de água, estações de bombeamento estavam trabalhando com capacidade muito abaixo do projetado e grandes trechos de canais foram abandonados inconclusos. De acordo com os últimos levantamentos, os custos das obras já superaram a barreira dos R$ 10 bilhões.  

Desde que assumiu o comando do Executivo em 2019, o Governo atual passou a priorizar a conclusão de obras inacabadas por uma questão de economia, uma vez que obras, mesmo quando paradas, consomem recursos públicos e não geram benefícios para a população. Pela sua importância social (e também política), o Projeto de Transposição foi colocado como obra prioritária desse Governo. 

O rio São Francisco, chamada carinhosamente de Velho Chico pelos sertanejos, é maior e mais importante rio da Região Nordeste. Com nascentes na Serra da Canastra, em Minas Gerais, o rio São Francisco percorre cerca de 2.800 km até atingir a sua foz no Oceano Atlântico na divisa dos Estados de Alagoas e Sergipe. 

O Sistema de Transposição do rio São Francisco se divide em duas partes principais: o Eixo Leste, com extensão de 217 km, que deverá atender cerca de 170 cidades nos Estados de Pernambuco e Paraíba, beneficiando cerca de 5,5 milhões de pessoas. O Eixo Norte terá cerca de 260 km e atenderá cerca de 6,5 milhões de pessoas em 220 cidades do Ceará, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. Além dos canais, o sistema contará com 13 aquedutos, 9 estações de bombeamento, 4 túneis e 28 reservatórios, além de 270 km de linhas de transmissão em alta tensão. 

Um marco importante do andamento das obras aconteceu no início do último mês de marco, quando as águas da transposição começaram a chegar no Açude Castanhão, no Ceará. Inaugurado em 2002, o Castanhão tem capacidade para armazenar cerca 6,7 bilhões de m³ de água, tendo como missão principal o abastecimento de mais de 4 milhões de pessoas na Região Metropolitana de Fortaleza. Apesar de sua enorme capacidade de armazenamento, o Castanha vinha sofrendo com os baixos níveis de água armazenada. 

Outro destaque recente foi a assinatura do contrato para a construção do Ramal do Apoti, obra que corresponde ao trecho final do Eixo Norte. Esse ramal terá cerca de 115 km de extensão e permitirá a chegada das águas da transposição no Reservatório Caiçara, na Paraíba, e depois ao Reservatório de Angicos, no Rio Grande do Norte. A obra vai atender 54 municípios nos Estados do Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte, beneficiando um total de 750 mil habitantes. 

Sem jogar confete para nenhum Governo (que nada mais fazem do que cumprir a sua obrigação e assim garantir o bem estar das populações do Semiárido), parece que o Projeto de Transposição das águas do rio São Francisco caminha finalmente para a sua conclusão. A solução definitiva para a escassez crônica de água em grande parte do Semiárido Nordestino ainda estará longe de ser resolvida, mas, se os números anunciados no Projeto estiverem corretos, mais de 12 milhões de sertanejos deixarão de sofrer com a falta de água. 

Existem duas lições importantes a tirar desse grande projeto. Em primeiro lugar, ressaltar a capacidade da engenharia na busca de soluções para o abastecimento de água. Em tempos de grandes mudanças climáticas em todo o mundo, essas lições serão fundamentais para a realização de inúmeras obras hidráulicas. Em segundo lugar, a inominável capacidade de Governantes em desviar recursos de uma obra tão fundamental para a vida de milhões de pessoas. De um orçamento inicial de R$ 4,7 bilhões, já foram gastos mais de R$ 10 bilhões e as obras ainda não foram concluídas. 

É a tal da “indústria da seca”, que de lenda não tem nada…

A GRANDE SECA DE 1580-1583 E OUTROS GRANDES PROBLEMAS DE ESCASSEZ HÍDRICA NO NORDESTE BRASILEIRO

De acordo com o relato do historiador Marco Antônio Villa em seu livro “Vida e Morte no Sertão”, a primeira seca relatada por documentos portugueses no Nordeste Brasileiro data de 1552. Entre os anos de 1580 e 1583, a região canavieira do litoral da região sofreu enormes prejuízos com a estiagem prolongada e há relatos do deslocamento de 5 mil índios em direção ao Sul em busca de água, comida e melhores condições de vida. 

Existem registros deixados por antigos cronistas, religiosos e médicos com testemunhos de secas de grandes proporções nos anos de 1744, 1790 e 1846. A “Grande Seca”” que se abateu durante o Reinado de Dom Pedro II, entre os anos de 1877 e 1879, foi bem documentada e divulgada pela imprensa há época. De acordo com informações de Marco Antônio Villa, as fortes estiagens no Sertão Nordestino entre 1825 e 1983, deixaram cerca de 3 milhões de mortos

Em tempos mais contemporâneos, as secas de 1915 e 1932 foram marcantes. Além de afetar milhões de sertanejos e deixar milhares de mortos, essas catástrofes foram incorporadas ao patrimônio cultural brasileiro. Grandes obras de nossa literatura como “O quinze”, da escritora cearense Rachel de Queiróz, e “Vidas Secas”, do alagoano Graciliano Ramos, eternizaram o drama das inúmeras vítimas dessa tragédia. 

Mesmo longe da região conhecida como “Polígono das Secas”, muitos artistas deixaram obras onde registraram as suas emoções pelo drama de seus compatriotas. Um exemplo foi o pintor paulista Candido Portinari que criou pinturas com essa temática. Exemplos são “Os retirantes” e “O menino morto” (vide imagem), ambas pinturas feitas em 1944.  

Um dos primeiros documentos oficiais onde se registra uma ação governamental para o combate à seca é uma Carta Régia de 17 de março de 1796, onde é nomeado um juiz conservador das matas. Outro documento, esse de 11 de junho de 1799, decretava: 

“se coíba a indiscreta e desordenada ambição dos habitantes (da Bahia e Pernambuco) que têm assolado a ferro e fogo preciosas matas… que tanto abundavam e já hoje ficam a distâncias consideráveis.” 

A ideia de grandes obras hidráulicas para o combate às secas do Sertão Nordestino data da década de 1840, quando técnicos passaram a estudar a possibilidade de transpor as águas do rio São Francisco na direção de terras altamente áridas da região. Um estudo realizado em 1877 pelo engenheiro austríaco Guilherme Schüch, mais tarde nomeado Barão de Capanema, indicava não existir recursos técnicos há época para transpor a Chapada do Araripe, localizada na divisa dos Estados do Ceará, Piauí e Pernambuco. 

Entre os anos de 1877 e 1879, o Governo Imperial criou uma comissão de engenheiros que tinha como missão estudar alternativas para o combate à seca. Entre as soluções que foram propostas destacam-se a perfuração de poços, a construção de ferrovias e de estradas, além de obras para o armazenamento de água como barragens e açudes.  

O Açude do Cedro, localizado em Quixadá no Ceará, foi uma das primeiras obras construídas por indicação dessa comissão técnica. A ordem para o início das obras foi assinada pelo Imperador Dom Pedro II, que foi deposto com a Proclamação da República em 1899. As obras só seriam iniciadas em 1890 e concluídas em 1906. 

Em 1909, já no período dos governos republicanos, foi criada a IOCS – Inspetoria de Obras Contra a Seca. Em 1919, a autarquia passou a ser chamada de IFOCS – Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas; em 1945, passou a ser chamado de DNCOS – Departamento Nacional de Obras Contra as Secas. 

Ao mesmo tempo em que surgiam ações governamentais voltadas a criação de políticas e obras contra as secas, surgiu informalmente o que se convencionou chamar de “a indústria da seca”. Políticos, fazendeiros e industriais das regiões que eram assoladas frequentemente pelas fortes estiagens passaram a manipular os recursos liberados para seu benefício próprio. Aqui se incluíam benefícios fiscais, créditos e perdão de dívidas, além é claro do controle das obras. 

Foram inúmeros os casos onde a construção de poços, canais, barragens e açudes foram feitos em terras ou em regiões controladas política e economicamente por esses grupos. De acordo com dados do historiador Villa, dos mais de 8 mil açudes que foram construídos no Estado do Ceará até 1998, menos de 100 eram públicos – todos os demais foram construídos em áreas particulares com uso de dinheiro público. Isso nos dá uma ideia de como os recursos públicos destinados ao combate das secas foram usados na região. 

Em 1959, no Governo do Presidente Juscelino Kubistchek, foi criada a SUDENE – Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste. Essa autarquia federal tinha a missão de “promover o desenvolvimento includente e sustentável de sua área de atuação e a integração competitiva da base produtiva regional na economia nacional e internacional“. A área de atuação da SUDENE se estendia por todos os Estados da Região Nordeste, além de trechos do Norte dos Estados de Minas Gerais e do Espírito Santo. 

Entre outras atividades, a SUDENE concedia uma série de incentivos fiscais para a instalação de indústrias na região. Ao longo da década de 1980, eu trabalhei para uma empresa multinacional que instalou uma fábrica em Recife, justamente para se aproveitar desses incentivos. Componentes e peças eram importadas da Europa isentos de impostos e a montagem dos equipamentos era feita na fábrica local, o que garantia preços altamente competitivos no mercado. 

Esses incentivos fiscais permaneceram até o início de década de 1990. Com o fim dessa política, a empresa simplesmente fechou essa fábrica e transferiu a produção para Manaus, onde continuavam a existir os incentivos fiscais da SUFRAMA – Superintendência da Zona Franca de Manaus. Simples assim… 

Uma outra fonte inesgotável para o desvio de recursos públicos destinados ao combate dos efeitos das secas na região são os caminhões-pipas, veículos usados para o transporte de água potável para as populações. Grandes grupos econômicos e políticos costumam manipular esses recursos, que acabam sendo direcionadas para frotas próprias desses grupos. O Exército Brasileiro realiza há mais de 20 anos o Programa de Distribuição de Água Potável na região do Semiárido Brasileiro como uma forma de combater uma parte importante desses desvios

Em resumo – as grandes estiagens que se abatem periodicamente nos Sertões do Nordeste causam muita dor e enormes tragédias na vida de milhões de sertanejos. Entretanto, essas tragédias geram grandes ganhos para grupos econômicos e políticos locais. Nessa luta desproporcional, as populações pobres sempre levam a pior… 

COMO ANDA A SECA NO SERTÃO NORDESTINO?

Regiões do Brasil Central estão passando por uma fortíssima seca. Importantes rios como os formadores da bacia hidrográfica do Alto Rio Paraná estão apresentando caudais bastante reduzidos. Represas de importantes usinas hidrelétricas estão com níveis perigosamente baixos, o que ameaça a geração de energia elétrica no país. 

Felizmente, a temporada das chuvas na Região Centro-Sul está começando e, gradativamente, a situação mostra sinais de reversão. Especialistas ainda não tem certeza se essa temporada de chuvas será intensa o suficiente para resolver todos os problemas de escassez hídrica de uma só vez, mas, a esperança “é sempre a última que morre” como diz aquele velho ditado. 

Com toda essa atenção na seca do Brasil Central, o nosso bom e velho Sertão Nordestino, famoso historicamente por assistir a períodos antológicos de seca, parece ter ficado um pouco de lado. Por lá também a seca tem mostrado as suas garras e muitas regiões tem convivido com a falta de água. 

A região conhecida oficialmente como Semiárido Brasileiro ocupa uma área com quase 1 milhão de km² dentro de Estados da região Nordeste, além de uma faixa ao Norte do Estado de Minas Gerais. O bioma Caatinga é o maior sistema florestal que cobre toda essa imensa região, dividindo espaço com o Agreste, formação intermediária entre a Caatinga e a Zona da Mata, e o Alto Sertão, localizado entre a Caatinga e o Cerrado. 

A área do Semiárido Brasileiro corresponde a 18,2% do território do Brasil e a cerca de 53% da área da Região Nordeste. No total 1.133 municípios têm seus territórios inseridos nessa região, onde vivem mais de 22 milhões de pessoas (algumas fontes falam de 30 milhões de habitantes), ou seja, cerca de 10% da população do país. São números impressionantes assim como o tamanho dos problemas. 

Devido a toda uma combinação de fatores geográficos e climáticos, o Semiárido é sujeito ciclos periódicos de grandes secas. Uma das mais trágicas foi a “Grande Seca” que se abateu sobre a região entre os anos de 1877 e 1879. Segundo as estimativas da época, o número de vítimas fatais ficou entre 400 e 500 mil mortes. Para que todos tenham uma ideia do tamanho da tragédia, a população da região do Semiárido Nordestino era de 800 mil pessoas há época. 

Outras secas marcantes na região foram as de 1915 e de 1932. Grandes obras literárias como os romances “O quinze”, de Rachel de Queiróz, e “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, imortalizaram personagens que viveram essas grandes tragédias. Toda a cultura nordestina está impregnada com toda uma sucessão de dramas pessoais das populações em diferentes ciclos de seca na região. 

De acordo com informações do Monitor de Secas, um processo de acompanhamento regular e periódico da situação da seca da ANA – Agencia Nacional de Águas, foi observado um avanço grave da seca nos Rio Grande do Norte nos últimos meses. Já o Leste do Maranhão e o Oeste do Piauí estão enfrentando uma seca moderada. 

Graças a chuvas acima da média, houve um recuo da seca moderada que assolava parte do litoral da Bahia e também no Leste de Pernambuco, região que passava por uma seca fraca. As áreas de seca sofreram um recuo em partes dos Estados de Pernambuco e do Piauí. Nos demais Estados Nordestinos as áreas de seca permanecem inalteradas. 

O território de Alagoas segue com áreas com seca grave, moderada e fraca, ocupando respectivamente 16%, 28% e 11% da área total do Estado. Apenas 43% da superfície do Estado está livre do problema. Em Sergipe, o menor Estado do Brasil, a área sujeita a seca moderada sofreu uma grande redução, passando de 28% para 14% da superfície total. As áreas sujeitas a seca grave permaneceram inalteradas, abrangendo cerca de 31% da superfície do Estado. 

A situação na Bahia é complicada – o Estado só ficou atrás de Minas Gerais e de Mato Grosso na soma total de áreas afetadas pela estiagem. Cerca de 567 mil km² de terras no Estado estão enfrentando o fenômeno com diferentes intensidades. 

O Ceará, Estado que historicamente sempre foi um dos mais susceptíveis ao fenômeno, está com 60% do seu território enfrentando problemas de escassez hídrica. Para efeito de comparação, a área total que enfrentava o problema em janeiro de 2020, correspondia a 28% da superfície do Estado, o que mostra como houve um agravamento da situação desde então. 

No Maranhão, cerca de 70% da superfície do Estado está enfrentando problemas com a seca, sendo 41% com seca moderada e 29% com seca fraca. Cerca de 30% da superfície do Estado segue livre do fenômeno. Há cerca de um ano atrás, apenas 4% da superfície do Estado apresentava sinais de seca grave. 

A área que apresenta sinais de seca grave na Paraíba sofreu um leve aumento, passando de 26% para 27% da superfície do Estado. Em Pernambuco, cerca de 1% da superfície do Estado está enfrentado seca grave – 64% e 21% do Estado enfrentam, respectivamente, seca moderada e fraca. A área de seca no Estado subiu de 7% para 12% entre os meses de julho e agosto. 

No Piauí, as áreas livres de seca sofreram um ligeiro aumento, passando de 13% para 14% do território do Estado. As áreas sujeitas a seca moderada passaram de 57% para 62% e as áreas com seca grave se mantiveram na casa de 8% da superfície do Estado. 

Conforme já comentamos, o Rio Grande do Norte foi o Estado que mais sofreu com o agravamento das áreas sujeitas a seca grave nos últimos meses. Essas áreas passaram de 38% para 52% da superfície do Estado. Essa é a maior área com seca grave no Estado desde 2018. 

A seca é um fenômeno “natural que sempre fez parte das “paisagens” do Semiárido Brasileiro. Conforme já comentamos em inúmeras postagens anteriores, a ocupação gradativa dos Sertões por populações humanas e por atividades agropecuárias contribuiu muito para a amplificação do fenômeno. Um exemplo sempre lembrado aqui foi a queima constante de grandes extensões da Caatinga para a ampliação das áreas de pastagens para o gado. 

Uma das formas mais eficazes para amenizar as graves consequências dos graves ciclos de seca na região são as obras de segurança hídrica como canais, açudes, perfuração de poços, instalação de usinas para a dessalinização da água (muitas das fontes de águas subterrâneas da região são salobras), sistemas de transposição entre bacias hidrográficas, entre muitos outros. 

A ˝trancos e barrancos˝ são muitos os projetos que se encontram em andamento na região, mas muita coisa ainda precisa ser feita. Em pleno século XXI, é inconcebível que grandes áreas do Semiárido Nordestino ainda tenham os mesmos problemas de escassez hídrica de séculos atrás. 

E AS CHUVAS ESTÃO COMEÇANDO A CAIR NO BRASIL 

Depois de uma longa estiagem, as tão esperadas chuvas paulatinamente estão voltando a cair em diversos pontos da Região Centro-Sul do país. A distribuição das chuvas ainda é bastante irregular e os volumes ainda estão muito abaixo das necessidades de muitas regiões, mas é um momento de esperanças renovadas para muita gente. 

Confirmando as previsões dos institutos de meteorologia, o feriado prolongado deste dia 12 de outubro – Dia da Padroeira do Brasil, foi bastante chuvoso em diversas cidades. Em Santa Catarina, por exemplo, chuvas intensas provocaram grandes transtornos na Grande Florianópolis, no Sul e no Oeste do Estado. Foram registrados deslizamentos de terra, destelhamentos e alagamentos em várias regiões. 

O rio Cubatão, que atravessa vários municípios da Grande Florianópolis, sofreu um forte aumento na vazão e transbordou em vários pontos. Na região de Brusque, os problemas foram criados pelo rio Itajaí-Açu. Nesta época do ano, o rio costuma ter uma profundidade média de 1 metro na região, porém, chegou a registrar 5,58 metros após as fortes chuvas. 

Nos últimos cinco dias, a Região Sudeste foi a que registrou os maiores volumes de chuva, com os volumes mais expressivos em Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo. Algumas dessas áreas chegaram a registrar um volume acumulado acima dos 60 mm. 

Na Região Centro-Oeste, onde muitas áreas estavam enfrentando uma forte seca, foram registrados volumes acumulados entre 20 e 30 mm. Na região do MATOPIBA, que engloba trechos dos Estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, as chuvas também começam a voltar. De acordo com informações do Inmet – Instituto Nacional de Meteorologia, essa região apresentou chuvas irregulares com valores acumulados de até 20 mm. 

Na Região Sul, onde já começou o plantio de vários grãos, os maiores acumulados nos últimos dias estão na região Centro-Oeste do Rio Grande do Sul, com volumes entre 30 e 40 mm. Em Santa Catarina e no Paraná, os volumes de chuva acumulados nos últimos dias se situam entre 20 e 30 mm. 

Em grandes áreas do Brasil Central, que está enfrentando a maior seca dos últimos 91 anos, a chegada das chuvas é motivo de alívio e de muita comemoração. Existem dúvidas sobre o volume total de chuvas que cairá nos próximos meses na região e se essas águas serão suficientes para recompor os níveis de grandes reservatórios de usinas hidrelétricas.  

Uma das regiões que mais sofre com a forte seca é a bacia hidrográfica do Alto Rio Paraná, inserida nos Estados de Goiás, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, São Paulo e Paraná. Importantes afluentes dessa bacia hidrográfica como os rios Paranaíba, Grande, Tietê, Paranapanema e Iguaçu, tem apresentado vazões bem abaixo da média histórica. Um sintoma desses baixos volumes de água podia ser visto claramente nas Cataratas do Iguaçu – nas últimas semanas, com a volta das chuvas na Região Sul, os volumes já aumentaram consideravelmente. 

As ameaças à geração de energia elétrica no país figuram entre as maiores preocupações dos brasileiros. Cerca de 2/3 de toda a energia elétrica consumida no país provém de fontes hidráulicas, o que coloca o Brasil numa posição de destaque em energia renovável no mundo. Mudanças climáticas globais, um tema constante nas publicações aqui do blog, podem estar alterando significativamente a distribuição das massas de chuva no país e afetando a geração hidrelétrica

Desde o final de maio, quando o Governo Federal emitiu um alerta de emergência hídrica em cinco Estados do país, diversas medidas para economia de água nos grandes reservatórios de usinas hidrelétricas vêm sendo tomadas. Um destaque é o acionamento gradual de usinas de geração termelétrica a gás, a carvão, a óleo e também a partir da queima de biomassa. 

De acordo com a ANEEL – Agencia Nacional de Energia Elétrica, o Brasil possui 3.168 centrais termelétricas, com uma potência outorgada de 51.797.907,79 kW e potência fiscalizada de 43,003.675,89 kW. Desse total, 41 empreendimentos ainda se encontram na fase de projeto e outros 67 estão em construção. Cerca de 65% dessas centrais termelétricas são movidas a partir da queima de combustíveis fósseis e 35% por queima de biomassa.   

Essa grande quantidade de centrais termelétricas foi uma consequência direta do grande “apagão de 2001″. Para quem não conhece a expressão, ela foi o resultado de uma grande crise de geração de energia de energia elétrica há época. Essa crise foi o resultado da soma de falta de chuvas e também de um planejamento inadequado do Sistema Elétrico Brasileiro. Após a crise, o Governo Federal incentivou a formação de uma grande rede de centrais termelétricas para acionamento em momentos de emergência. 

Apesar da relativa segurança oferecida por esse sistema, o custo dessa geração é bem maior do que nas centrais hidrelétricas e as contas dos consumidores passam a pagar uma taxa adicional, as chamadas bandeiras. Até o momento existem a bandeira amarela e a vermelha

A decretação da bandeira amarela sinaliza um acréscimo de R$ 1,874 na conta do consumidor a cada 100 kW/hora consumido. A bandeira vermelha é dividida em dois níveis – no primeiro, o acréscimo é de R$ 3,971 a cada 100 kW/hora consumido; no segundo patamar, esse acréscimo é de R$ 9,492.  

Em função da grave crise hídrica, está sendo estudada a criação de uma nova bandeira – a de “Escassez Hídrica”. No caso de decretação dessa bandeira, o valor da tarifa extra seria da ordem de R$ 14,20 para cada 100 kW/hora consumido, um grande desestímulo ao consumo exagerado de energia elétrica. 

A chegada gradual das chuvas a grande parte do território do país poderá até não conseguir resolver todos os nossos problemas, principalmente o de geração de energia elétrica, mas já mexe com os humores e com a esperança de todos nós.  

Então, que sejam bem-vindas as chuvas! 

O MILHETE, O TRIGO E A SOJA 

Agricultura moderna e de alta produtividade, como a que sendo desenvolvida no Cerrado Brasileiro, costuma ser o alvo da crítica furiosa de grupos ambientalistas internacionais. O enredo dessas críticas já foi mostrado inúmeras vezes aqui nas postagens do blog – essa produção decorre da destruição e da queima de grandes áreas da Floresta Amazônica.  

Parte dessas críticas até tem fundamento – áreas agrícolas e de pastagens no Sul e no Leste da Amazônia realmente surgiram em solos tomados “à forca” da grande floresta equatorial. Na maior parte dos casos, entretanto, essa premissa está errada – a grande fronteira agrícola brasileira fica dentro dos limites do Cerrado

Essa confusão teve início na década de 1950, período em que começaram a ser gestadas algumas das primeiras políticas para a ocupação e colonização da Região Amazônica. Em 1953, foi criada a SPVEA – Superintendência de Valorização Econômica da Amazônia. Essa iniciativa levou a criação da Zona Franca de Manaus em 1957. 

Essas iniciativas governamentais ofereciam grandes subsídios e incentivos fiscais com o objetivo de fomentar o desenvolvimento econômico da região. Muitos Governadores de Estados vizinhos à Amazônia fizeram um forte lobby político para conseguir abocanhar uma parte desses recursos, surgindo assim a criação do conceito “Amazônia Legal”.  

O Estados do Maranhão, do Tocantins (que há época era o Norte de Goiás) e o Mato Grosso (que depois teve o Sul desmembrado para formar o Mato Grosso do Sul), passaram a ser “Estados 100% amazônicos”. Porém, quando analisamos os mapas dos biomas desses Estados, concluímos que a maior parte de suas terras ficam dentro dos limites do Cerrado. Foi criada assim a eterna confusão da ocupação e da destruição da Amazônia brasileira pela agricultura e pela pecuária. 

A questão ambiental ganha cores ainda mais dramáticas para os grupos ecologistas quando se contabilizam os enormes volumes de fertilizantes e de defensivos químicos usados pela agricultura dessa extensa região brasileira. Além da destruição da floresta equatorial pelo fogo e pelas motosserras, nossos agricultores estão contaminando as águas da maior bacia hidrográfica do mundo com resíduos químicos. Guardadas as devidas proporções, esse é um problema real e que merece uma busca por soluções. 

Fugindo um pouco dessa verdadeira cruzada ambiental a que foi elevada a questão da Amazônia, gostaria de mudar um pouco a perspectiva – a Revolução Verde desencadeada em meados do século XX e sobre a qual falamos na última postagem, permitiu a transformação dos piores solos do Brasil em verdadeiros campeões de produtividade agrícola. Em meio século, nosso país passou da condição de importador para a posição de um dos maiores exportadores de alimentos do mundo. 

Se o leitor quiser conhecer essa história de sucesso de nossa agricultura, pesquise nos arquivos aqui do blog temas como Cerrado e soja – existem dezenas de postagens que falam desses assuntos. 

Agora, para fazer um contraponto ao sucesso da agricultura e da produtividade agrícola do nosso Cerrado, vou falar um pouco do milhete, um dos cereais mais importantes para a alimentação de populações na África. 

O milhete (vide foto), também chamado de milho-miúdo, milho-alvo, painço, mileto e pão-de-passarinho, é um cereal originário do Sahel, uma extensa região semiárida da África. De acordo com estudos arqueológicos e botânicos, o milhete foi domesticado no Norte do Mali entre 2500 e 2000 antes de Cristo. Graças à sua fácil adaptação a terrenos de baixa fertilidade, a cultura se espalhou por toda a África Subsaariana, especialmente nas regiões de savanas, bioma que guarda muitas similaridades com o Cerrado. 

Por volta do ano 1500 a.C, o milhete chegou à Índia, onde se adaptou bem às áreas semiáridas de regiões como o Rajastão. A partir da Índia, o grão começou a se espalhar por extensas áreas semiáridas da Ásia, se transformando em um importante alimento para grandes contingentes populacionais. No Brasil, os primeiros registros do milhete datam da década de 1960. 

As principais espécies de milhete cultivadas são o Pennisetum robustum e o Pannisetum glaucum. No Brasil é comum o cultivo da espécie Panicum miliaceum, que é mais conhecida pelo nome de painço. 

Nas regiões semiáridas da África Austral, em países como Angola, Namíbia, Zâmbia, Botswana, África do Sul, Zimbabwe, Moçambique, entre outros, o milhete é um grão de extrema importância para a alimentação humana. Se valendo de técnicas agrícolas das mais rudimentares e lutando contra a baixa fertilidade dos solos e a escassez de água, os agricultores conseguem arrancar da terra baixíssimos volumes de grão. 

Um exemplo desse grande drama humano é o que se passa na região Leste de Angola, uma área de transição entre a savana africana e o Deserto do Kalahari. A preparação inicial dos solos é feita com a derrubada da rala vegetação, que é seguida pela queima dos restos de lenha, uma técnica que lembra muito a coivara praticada pelos nossos indígenas, quilombolas e agricultores mais tradicionalistas. 

Após a limpeza e a adubação rudimentar dos solos com as cinzas das madeiras queimadas, a terra é sulcada com arados puxados por animais, nada muito diferente do que era feito no Egito ou na Mesopotâmia há milhares de anos atrás. Esse trabalho de preparação do solo e a semeadura do milhete, que em Angola é conhecido como massango, coincide com o período das chuvas na região. 

A saga dos agricultores locais não termina aí – devido as técnicas agrícolas rudimentares, à baixa fertilidade dos solos e a escassez cada vez maior de água, a produtividade do milhete é extremamente baixa – são conseguidas safras médias de 100 kg de grãos para cada hectare plantado. Para efeito de comparação, a produtividade média da soja no Brasil é de 3 toneladas/hectare e em algumas regiões da Europa, a produtividade do trigo chega a 7 toneladas/hectare

Países como a China e a Índia são frequentemente lembrados pelas suas grandes populações e pelo crescimento contínuo dos seus respectivos consumos de alimentos. A China, que é um grande importador de grãos, carnes e de outros alimentos do Brasil, conta como uma população da ordem de 1,4 bilhão de habitantes. A população atual da Índia é de 1,38 bilhão de habitantes e, dentro de poucos anos, deverá superar a da China. 

O que quase nunca aparece nos meios de comunicação é o tamanho da população do Continente Africano – são mais de 1,2 bilhão de habitantes atualmente, número que deverá chegar aos 2 bilhões até o final deste século. A maior parte dessas populações sobrevive com uma produção agrícola tão rudimentar quanto essa citada de Angola, onde o milhete é uma das principais culturas. 

Esquecendo por um breve momento todas as restrições criadas por ambientalistas dos países mais desenvolvidos em respeito ao desenvolvimento de uma agricultura moderna e de alta produtividade, onde se possa usar de todos os benefícios dos fertilizantes e dos defensivos agrícolas – será que essas populações pobres e subalimentadas da África não poderiam ter direito a todos os benefícios de uma boa produção agrícola e de uma boa alimentação? 

Como dizia o falecido jornalista Joelmir Beting, “essa é para você pensar na cama”…