JANEIRO DE 2020 FOI O MÊS MAIS QUENTE DESDE 1880

Janeiro mais quente da história

De acordo com informações divulgadas no último dia 13 de fevereiro pela NOAA – Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos, na sigla em inglês, o mês de janeiro de 2020 foi o mês mais quente já registrado desde 1880, ano em que as medições sistemáticas das temperaturas do planeta começaram a ser registradas.

De acordo com a NOAA, a média das temperaturas terrestres e oceânicas no último mês superaram em 1,14° C a média registrada nos meses de janeiro ao longo do século 20 – essa média era de 12° C. O mês foi ainda o 44° janeiro consecutivo e o 421° mês seguido com temperaturas acima da média registrados desde o século passado.

Em regiões com temperaturas tradicionalmente baixas na Rússia, na Escandinávia e no Leste do Canadá, os termômetros chegaram a marcar temperaturas até 5° C acima das médias. Alguns exemplos da “loucura” climática:

Outras consequências desse aumento da temperatura do planeta estão a nossa volta, sem nos darmos conta do que está acontecendo. Um grande exemplo recente foi a Tempestade Ciara, sobre a qual falamos numa postagem anterior, que causou enormes estragos em toda a Europa e surpreendeu a todos por ocorrer no meio do inverno europeu.

Também podemos citar o volume recorde de chuvas na cidade de São Paulo neste mês de fevereiro. De acordo com dados do INMET – Instituto Nacional de Meteorologia, o volume de chuvas acumulado na cidade em fevereiro chegou a 449 mm, o maior valor já registrado em 77 anos. Não é a toa que São Paulo sofreu, como nunca, com as enchentes deste ano.

Para encerrar, a cidade de Urupema, na Serra Catarinense, amanheceu hoje com temperaturas abaixo de 1° C em pleno verão. Em São Joaquim, cidade próxima que é famosa pelas baixas temperaturas nos meses de inverno, os termômetros amanheceram marcando 5° C.

Por todos os cantos do mundo se notam, em maior ou menor escala, mudanças nos padrões climáticos. Alguns lugares estão mais quentes, enquanto outros estão mais frios. As chuvas aumentaram em algumas regiões e diminuíram em outras. O nível do mar, um verdadeiro indicador das mudanças climáticas, já mostra sinais claros de mudanças – um exemplo é o visível aumento na altura das marés na Baixada Santista, no litoral de São Paulo.

Querendo ou não, todos vamos ter de nos adaptar a essas mudanças e a novos padrões climáticos em nossas vidas. Aquela conversa de primavera, verão, outono e inverno, com características bem definidas, será, cada vez mais, uma lembrança de um passado recente.

Só o tempo dirá o que teremos pela frente!

UMA QUARTA-FEIRA DE CINZAS, RESÍDUOS E MUITO LIXO

Lixo carnavalesco

O Carnaval é época de muita festa, desfiles, bailes e muita alegria. Outra forma de se definir o Carnaval em todo o Brasil é como um período em que a produção e o descarte irregular de lixo e resíduos sólidos explode de Norte a Sul em nosso país. São restos de fantasias, garrafas e latas de cervejas e refrigerantes, embalagens de alimentos, restos de alegorias e de decorações de carros carnavalescos, entre muitos outros. 

De acordo com informações da Prefeitura da Cidade de São Paulo, já foram recolhidas 456 toneladas de “resíduos carnavalescos” desde o chamado período pré-Carnaval, quando centenas de blocos que agregam dezenas de milhares de pessoas começam a tomar conta de ruas da cidade. Somente no Sambódromo do Anhembi (vide foto), endereço oficial dos desfiles do Carnaval paulistanos, foram recolhidas 51,8 toneladas de resíduos. Já foram utilizados quase 500 mil litros de água de reúso e mais de 1.500 litros de desinfetante na lavagem de ruas e avenidas da cidade. 

No Rio de Janeiro, cidade que abriga o maior e mais famoso Carnaval do país, os números são ainda maiores. A COMLURB, empresa municipal de limpeza urbana, já recolheu mais de 700 toneladas de lixo e resíduos por toda a cidade, especialmente nas regiões onde ocorreram desfiles de blocos e escolas de samba. A empresa estima que até o próximo final de semana, quando acontece o Desfile das Campeãs do Carnaval, grandes volumes de lixo ainda serão recolhidos das ruas e avenidas da cidade. 

No quesito “produção de resíduos”, Salvador também não faz feio. De acordo com a LIMPURB, empresa responsável pela limpeza urbana de Salvador, 715,8 toneladas de resíduos já foram retiradas das ruas da cidade. A empresa informou que, no mesmo período do ano passado, foram retiradas 605,28 toneladas de resíduos, o que demonstra um crescimento preocupante na produção de “lixo carnavalesco” na cidade. O principal polo gerador de resíduos é o famoso Circuito Ondina-Barra. 

Na cidade do Recife, os números ainda não foram totalizados, mas o volume “promete” ser surpreendente – a EMLURB, empresa municipal de limpeza urbana da cidade, recolheu 148,4 toneladas de resíduos somente no sábado, dia 22, dia em que acontece o desfile do tradicional Galo da Madrugada. Desse total, apenas 5,4 toneladas de resíduos foram recicladas. 

Pessoas que trabalham duro durante um ano inteiro tem todo o direito de dar uma parada durante o Carnaval para relaxar e se divertir – não há como cobrar civilidade dessas pessoas e exigir que todo o seu lixo e resíduos sejam depositados em lixeiras e conteineres. Aliás, falta muita infraestrutura nos locais onde são “organizados” esses eventos. O grande problema é que o período do Carnaval coincide com o das chuvas de verão e quantidades tão grandes de resíduos largados pelas ruas e avenidas podem resultar nas famosas enchentes e alagamentos, algo que pode estragar a festa de muita gente. 

Algum dia, quem sabe, nossos governantes aprendam a organizar melhor essas festas e lembrem de dotar os locais com uma infraestrutura mais adequada. Quem sabe assim, num futuro próximo, nossos foliões até se animam a descartar seu lixo de forma civilizada. 

UMA MARÉ “EXTREMAMENTE” ALTA NA BAIXADA SANTISTA, EM SÃO PAULO

Maré alta na Baixada Santista

Neste último domingo, dia 23 de fevereiro, municípios da Baixada Santista, litoral do Estado de São Paulo, sofreram com uma forte maré alta, que cobriu toda a faixa de areia de algumas das praias, calçadões, quiosques e chegou a invadir alguns trechos de avenidas ao largo das praias. Os municípios de Santos, Praia Grande e Bertioga foram os mais atingidos. 

No município da Praia Grande, o mar cobriu a faixa de areia entre o Canto do Forte e a Vila Mirim, chegando até no calçadão em alguns trechos. Em Bertioga, a faixa de areia das praias da Riviera de São Lourenço, do Sesc e Guaratuba, ficou encoberta – o mar agitado forçou banhistas e ambulantes a abandonarem as praias. Em municípios como Mongaguá e Itanhaém, a maré não subiu muito, mas o mar muito agitado forçou muitos turistas a voltarem para suas casas. 

O fenômeno não é novo e faz parte de um processo sistemático de aumento gradual do nível do mar observado em vários pontos do litoral brasileiro. Em postagens publicadas em 2018, falamos desse problema na Ponta da Praia (vide foto), na cidade de Santos, em Florianópolis, Santa Catarina e também na Praia da Macumba, na cidade do Rio de Janeiro. 

Um projeto de pesquisa em andamento desde 2013, batizado de Metrópole, está avaliando fenômenos climáticos derivados dos efeitos do aquecimento global e aferindo quais serão os seus impactos ambientais. Os estudos estão sendo feitos na cidade Broward, nos Estados Unidos, e em Selsey, na Inglaterra. A cidade de Santos foi incluída na pesquisa por possuir uma grande base de dados sobre o tema, inclusive com registros fotográficos do avanço do mar ao longo dos anos. O Projeto Metrópole é uma iniciativa internacional com a participação de pesquisadores brasileiros, norte-americanos e ingleses, que vêm desenvolvendo estudos sobre adaptação às mudanças climáticas em áreas costeiras, inclusive contando com apoio da FAPESP – Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo. 

Os estudos aqui no Brasil estão sendo feitos em dois setores da cidade de Santos, considerados “contrastantes” pelos pesquisadores: a Zona Noroeste, uma área de manguezais ocupada por palafitas e sujeita a inundações frequentes, que inclusive criam diversos problemas para a entrada de veículos na cidade. A outra região é Zona Sudeste da cidade, num trecho que vai do Bairro do Gonzaga até a Ponta da Praia. 

De acordo com as conclusões de alguns trabalhos já finalizados, o nível médio do mar em Santos, quando comparado ao nível médio da década de 2000, deverá ficar até 18 centímetros mais alto em 2025; no ano de 2050, a elevação do nível do mar na cidade poderá chegar até 35 centímetros. Além da visível elevação do nível do mar, a região da Ponta da Praia também sofre há vários anos com fortíssimas ressacas – a faixa de areia neste trecho da orla desapareceu já há um bom tempo. Ressacas frequentes causam enormes transtornos e alagamentos na região, inundando as garagens subterrâneas de vários edifícios da orla e lançando dezenas de toneladas de areia nas calçadas e vias do bairro. 

Como os pesquisadores científicos, de um modo geral, são extremamente cautelosos ao anunciar as conclusões de suas pesquisas, ainda não é possível afirmar “cientificamente” que a recorrência das marés extremamente altas em vários pontos do litoral brasileiro estão diretamente ligadas ao tão propalado aquecimento global. As evidências visíveis das mudanças no padrão do oceano nessas regiões, entretanto, fazem crer que alguma coisa ‘grande” está em andamento. 

Bem diferente do que muitos podem imaginar, as mudanças climáticas não são bruscas e violentas, mas sim graduais e muito sutis. 

A PODEROSA TEMPESTADE CIARA

Tempestade Ciara

No último dia 9 de fevereiro, enquanto noticiávamos aqui no blog os sofrimentos de grandes cidades brasileiras com as enchentes de verão, grande parte da Europa sofria com uma das maiores tempestades do século, comparável somente a uma que caiu em 2013. Além da magnitude e grande área atingida, essa tempestade chamou atenção pela época inusitada de sua ocorrência em pleno inverno no Hemisfério Norte, o que mostra que o grande “relógio” climático do mundo está bem fora de sincronismo

A Tempestade Ciara, nome dado pelos meteorologistas europeus, provocou ventos de até 180 km/h, deixando um rastro de destruição, vítimas fatais e inúmeros problemas em diversos países da Europa: 

  • Em algumas partes da Inglaterra, o volume de chuvas em 24 horas foi o equivalente a um mês e meio. Mais de 180 alertas de inundação foram emitidos apenas no dia 9 – a foto que ilustra esta postagem, tão familiar em cidades brasileiras, mostra uma cena de alagamento numa cidade do país; 
  • Na França, cerca de 130 mil casas no Norte do país ficaram sem o abastecimento de energia elétrica, água e gás. Na região de Paris, estradas e ferrovias foram bloqueados por quedas de árvores. Centenas de voos foram cancelados; 
  • Mais de 600 km de congestionamentos foram registrados em estradas da Holanda. Mais de 220 voos foram cancelados no país; 
  • Na Alemanha, a circulação de trens em importantes ferrovias foi paralisada por falta de segurança. Quedas de árvores causaram inúmeros ferimentos em pedestres por todo o país. Um guindaste em Frankfurt foi derrubado pela força dos ventos, causado danos no teto de uma catedral. Mais de 700 voos foram cancelados em aeroportos de todo o país; 
  • Na Polônia, foram registrados ventos com velocidade acima dos 100 km/h. Uma mulher e filha foram mortas numa calçada após serem atingidas por um telhado de uma casa que foi arrancado pelo vento; 
  • Na República Checa, foram registrados ventos com velocidade de 180 km/h. Árvores foram arrancadas e feriram diversas pessoas – um homem morreu ao bater com seu carro contra uma árvore lançada pelo vento numa rodovia; 
  • Na Eslovênia, um homem morreu esmagado dentro do seu carro após ser atingido por uma árvore. 

Também foram registrados problemas na Suécia, Dinamarca, Luxemburgo, Noruega, Hungria e Ilha da Córsega, o que dá uma ideia da extensa área do continente atingida pela tempestade. Inúmeras cidades ficaram inundadas, com centenas de desabrigados e com diversos problemas nos sistemas de abastecimento de água, eletricidade, gás e transportes. 

Tempestade Ciara

A passagem da Tempestade Ciara chama a atenção pelo grande volume de estragos que provocou em países já preparados para a ocorrência de eventos climáticos extremos. Imaginem algo semelhante ocorrendo aqui no Brasil, onde nossas grandes cidades mal conseguem suportar as fortes chuvas típicas dos nossos verões. 

Eventos climáticos extremos fazem parte do “pacote” que vem junto com as mudanças climáticas globais. Precisamos nos preparar e adaptar a infraestrutura de nossas cidades (que em muitos, muitos casos mal existem) para esses novos e tumultuados tempos modernos.

“CHINA CONVOCA UM EXÉRCITO COM 100 MIL PATOS PARA COMBATER UMA NUVEM COM 400 BILHÕES DE GAFANHOTOS”

Patos x gafanhotos

O título da postagem faz referência a uma notícia divulgada nos últimos dias pelos principais meios de comunicação mundiais. Uma gigantesca nuvem com cerca de 400 bilhões de gafanhotos-do-deserto (Schistocerca gregaria) se encontra atualmente no Paquistão e se aproxima das fronteiras da China e da Índia, o que colocou esses países em estado de alerta máximo. Pode até não parecer, mas esse tipo de evento está associado a graves problemas ambientais. 

Os gafanhotos-do-deserto são encontrados em regiões desérticas e semiáridas da África, Ásia e Oceania. Parte dessa grande nuvem de insetos surgiu no final de 2019 no Leste da África, após uma temporada anormal de fortes chuvas. Conforme apresentamos em postagens anteriores, as mudanças climáticas globais estão aumentando as temperaturas do Oceano Índico, o que, por sua vez, tem provocado mudanças regionais no clima da África e da Ásia – algumas regiões sofrem com fortes secas e outras com fortes chuvas

A praga de gafanhotos começou atacando plantações na Etiópia e na Somália, ameçando também regiões vizinhas no Djibuti, Eritréia, Sudão do Sul e Sudão. De acordo com informações da FAO – Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, cada quilômetro quadrado de uma nuvem de gafanhotos pode conter até 150 milhões de insetos, que podem comer em um único dia o total de alimentos consumidos por 35 mil pessoas ao longo de todo um ano. Os gafanhotos conseguem viajar mais de 150 km a cada dia

Voando sobre o Sul da Península Arábica, essa nuvem de gafanhotos chegou ao Paquistão, distante mais de 3 mil km do Chifre da África, se juntando a uma outra nuvem de insetos vinda do Irã. O Governo do Paquistão, preocupado com os impactos dessa verdadeira “invasão aérea” sobre a produção de alimentos do país, vem bombardeando os gafanhotos com agrotóxicos lançados por aviões agrícolas. Essa medida não tem sido totalmente eficiente e a nuvem de insetos continua a avançar na direção das fronteiras com a China e Índia, dois países com populações gigantescas e que já dependem da importação de grandes quantidades de alimentos. 

Diferente dos seus vizinhos, os chineses optaram por uma estratégia “biológica” para combater a praga dos gafanhotos – o uso de aves domésticas, que comem grandes quantidades de insetos. No ano 2000, os chineses usaram essa mesma “técnica” para combater, com sucesso, uma outra invasão de gafanhotos. Há época, usaram forças “combinadas” de patos e galinhas. De acordo com informações dos chineses, cada uma dessas aves consegue comer até 400 gafanhotos por dia, sem qualquer risco de contaminação ao meio ambiente como nos casos de uso de agrotóxicos

De acordo com informações do Governo Chinês, esses patos foram treinados para perseguir e comer gafanhotos a partir de comandos feito por apitos. Emissoras de televisão da China divulgaram imagens de estradas do Oeste do país, próximas da fronteira com o Paquistão, tomadas por milhares de patos a caminho da “frente de batalha” (vide foto). 

Boa sorte e um bom apetite a todos esses patinhos. 

JARDINS VERTICAIS NA CIDADE DE SÃO PAULO – UMA IDEIA QUE “QUASE” DEU CERTO?

Jardim vertical do Minhocão

A ideia de se construir jardins elevados é bastante antiga – os míticos Jardins Suspensos da Babilônia talvez sejam um dos mais conhecidos e considerados uma das “Sete Maravilhas do mundo antigo”. O historiador romano Flávio Josefo (37-100 d.C), nos deixou descrições bem interessantes sobre esses jardins: 

Neste palácio ele (o rei Nabucodonosor) ergueu calçadas muito altas, sustentadas por pilares de pedra; e plantou o que foi chamado de paraíso suspenso, e encheu-o com todos os tipos de árvores, o que lhe rendeu a perspectiva exata de um país montanhoso. Ele fez isso para satisfazer sua rainha, pois ela havia sido criada em Media, e gostava de locais montanhosos.” 

Em tempos modernos, o pai da “matéria” é o botânico francês Patrick Blanc, que desde a década de 1980 começou a usar as fachadas de antigos edifícios para a criação de jardins verticais. Esses jardins são construídos a partir de uma estrutura metálica fixada na parede do prédio, na qual é fixado um suporte para solos férteis feito em tecido sintético, onde ficam as plantas. Esses solos recebem água e nutrientes através de um sistema por micro gotejamento. O resultado final são grandes painéis com centenas de metros quadrados cobertos por vegetação em meio a toda uma massa de edifícios “cinzas”. Eu tive a chance de conhecer vários exemplares desses jardins verticais em viagens ao exterior. 

O primeiro projeto para a construção de um jardim vertical na cidade de São Paulo foi desenvolvido em 2013 por uma empresa privada, em um edifício ao lado do Elevado Presidente João Goulart, o famoso “Minhocão”. Esse projeto foi financiado com verbas publicitárias de uma empresa do ramo de bebidas e ganhou uma enorme repercussão na mídia. Desde 2007, vigora na cidade de São Paulo a Lei Cidade Limpa, que passou a regulamentar a publicidade de rua na cidade e proibiu a veiculação de cartazes e outdoors nas ruas e avenidas. O uso de verba publicitária de uma empresa para financiar esse projeto foi uma estratégia inteligente para divulgar sua marca em meio às restrições impostas pela lei. 

A região de entorno do Minhocão, conforme apresentamos na postagem anterior, é uma das mais densamente povoadas da área central de São Paulo e também uma das mais deterioradas. Após a inauguração do Elevado em 1971, a poluição do ar e o barulho dos automóveis passou a afugentar os moradores e provocou uma grande desvalorização dos imóveis. Como ocorre em todo o centro de São Paulo, os trechos dos bairros de Vila Buarque, Santa Cecília e Campos Elísios, que são atravessados pelo Minhocão, são extremamente carentes de áreas verdes e sofrem, há muito tempo, com o efeito da Ilha de Calor Urbano

Uma característica arquitetônica dessa região são os edifícios antigos, onde se encontram uma grande quantidade de empenas cegas – paredes laterais sem aberturas como janelas, portas e varandas. De acordo com estudos feitos pela empresa que criou o primeiro jardim vertical na cidade, existem perto de 100 edifícios em condições para a instalação desses jardins na região de entorno do Minhocão, com potencial para abrigar 58 mil m² de áreas verdes

A repercussão altamente positiva criada pelo primeiro jardim vertical da cidade de São Paulo levou a Prefeitura da cidade a publicar o Decreto 55.994, que estendeu a construção e a manutenção dessas áreas verdes como uma forma de compensação ambiental para as empresas que receberam multas da Secretaria de Meio Ambiente. Essas multas normalmente geram um TAC – Termo de Ajuste de Conduta, onde a empresa assume algum mecanismo de compensação ambiental como forma de remediar os danos criados. Esse foi o “pulo do gato” para se financiar diversos projetos de jardins verticais na cidade. Somente na região do Minhocão foram 7 projetos. 

Os bons ventos ambientais continuaram soprando com força na região: em 2016, o então prefeito de São Paulo, Fernando Hadad, anunciou um projeto que transformaria o Elevado Presidente João Goulart em um parque elevado em pleno coração da cidade, a exemplo do High Line de Nova York. Como raramente acontece na política brasileira, o novo Prefeito da cidade, Bruno Covas, comprou a ideia e muito se esforçou para levar adiante o projeto do Parque do Minhocão. Infelizmente, conforme já comentamos anteriormente, a ideia não avançou. 

O projeto dos jardins verticais, que animou muita gente na região, também começou a patinar. O Ministério Público de São Paulo entendeu que o uso dos jardins verticais não poderia ser usado como um mecanismo de compensação ambiental. Empresas de construção civil, citando um exemplo, são obrigadas a cortar árvores em terrenos onde vão construir edifícios. Nesses casos, elas são obrigadas a replantar árvores em locais indicados pelos órgãos públicos como forma de compensação ambiental. No entendimento do Ministério Público, a vegetação plantada nos jardins verticais não substitui as funções das árvores em processos de fotossíntese, sequestro de carbono e evapotranspiração

Um outro problema surgiu nas parcerias entre as empresas construtoras e mantenedoras dos jardins verticais e a Prefeitura da São Paulo. Nos acordos firmados, os edifícios que cederam suas paredes para a instalação dos jardins verticais não arcariam com nenhum custo financeiro – todos as despesas com a instalação, manutenção, energia elétrica e água seriam arcados por uma empresa técnica responsável em parceria com a Prefeitura. Foi justamente aqui que começaram a surgir os problemas – nem a Prefeitura nem a empresa “dita” responsável conseguiu realizar a contento a manutenção dos jardins verticais. Muitos dos edifícios acabaram assumindo os custos com a água e energia elétrica, o que segundo informações de alguns síndicos chega a ter um custo próximo de R$ 20 mil por mês. 

Muitos desses jardins acabaram sendo abandonados e se transformaram em um grande painel vertical de folhas e galhos secos. Muitos moradores dos edifícios passaram a reclamar de invasões de grilos, gafanhotos e outros insetos em seus apartamentos, passando a exigir a remoção imediata dos esqueletos desses jardins verticais. O próprio Corpo de Bombeiros do Estado de São Paulo passou a enxergar essas estruturas abandonadas como uma perigosa fonte de riscos de incêndios para os edifícios. 

Desde meados de 2019, diversos condomínios entraram com ações na Justiça pedindo o cancelamento dos convênios assinados com a Prefeitura de São Paulo e exigindo a remoção do que sobrou dos jardins verticais das paredes de seus edifícios. Esse trágico desfecho da história dos jardins verticais na região do Minhocão se junta a outra página da mesma história – a Prefeitura da cidade de São Paulo, acuada por uma série de problemas jurídicos, também resolveu engavetar, por tempo indeterminado, o projeto de criação do Parque Elevado do Minhocão. 

Os problemas ambientais são encontrados por todos os lados em cidades grandes como São Paulo, onde destacamos os resíduos sólidos e os entulhos criados pela construção civil, as enchentes, a ocupação de encostas de morros, as Ilhas de Calor Urbanos, entre muitos outros. Sempre que alguém surge com uma nova ideia que tem potencial para resolver algum desses problemas, aplaudimos com muita alegria. 

Infelizmente, nem sempre essas boas ideias se mostram efetivamente tão boas como imaginávamos. Uma grande pena.

PARQUE ELEVADO DO MINHOCÃO, UMA DOCE UTOPIA PAULISTANA

Minhocão

O renascimento do rio Cheonggyecheon e a criação de um fantástico parque linear no centro da cidade de Seul, na Coreia, foi tema de uma postagem recente e um exemplo do que pode ser feito para melhorar uma área urbana altamente degradada e poluída. Para a realização dessa complexa obra, a Prefeitura de Seul primeiro teve de trabalhar para desmontar e remover uma imensa via elevada com perto de 5 km de extensão, Só depois desse trabalho monumental é que foi possível reverter a canalização do rio Cheonggyecheon e construir o parque linear. 

A semelhança de Seul, o centro da cidade de São Paulo também possui uma problemática via elevada – o Elevado Presidente João Goulart, mais conhecido entre os paulistanos como “Minhocão”. Na falta de espaço no meio urbano para construir uma avenida convencional, os planejadores urbanos de então optaram por construir um elevado com 3,5 km de extensão através de uma área predominantemente residencial. Essa via foi inaugurada em 1971 e passou a funcionar como um eixo de ligação entre as Zonas Leste e Oeste da cidade.  

Com a chegada do Minhocão e de seus milhares de automóveis circulando incessantemente 24 horas por dia, a então elegante região que englobava partes da Vila Buarque, Santa Cecília e Campos Elísios, iniciou um lento e gradual processo de desvalorização imobiliária e de decadência urbana. A certa altura, a Prefeitura de São Paulo chegou a proibir o tráfego de veículos na pista elevada entre as 10 horas da noite e as 6 horas da manhã, numa tentativa de frear a decadência da região, mas já era tarde demais. 

Há poucos anos atrás, enfim, surgiu uma boa notícia para a região do entorno do Minhocão – um ramal da rede de trens urbanos que cruza a região central de São Paulo, num percurso quase paralelo ao do Minhocão, seria desativado e os terrenos poderiam ser usados na construção de uma avenida de ligação Leste-Oeste. Com essa nova avenida, os carros que hoje circulam através do Minhocão poderiam ser desviados e o desastroso viaduto poderia, enfim, ser desativado. 

Começaram então as discussões sobre qual seria o melhor fim a se dar para o grande “esqueleto de dinossauro” em pleno centro de São Paulo. Uma das alternativas – a demolição total do viaduto, foi defendida por muita gente. Porém, ela esbarra em um grande problema logístico: o transporte de milhares de toneladas de resíduos sólidos. No caso de Seul, a demolição do viaduto gerou cerca de 620 mil toneladas de resíduos, onde perto de 75% foram reciclados e reutilizados na construção do parque linear do Cheonggyecheon 

No caso do minhocão, a Prefeitura não prevê a construção de nenhuma grande obra no lugar, onde parte dos resíduos poderiam ser reutilizados. Restaria então a necessidade de transportar todo o material gerado pela demolição para uma área de descarte. Lembro que há época das primeiras discussões sobre essa possibilidade, as estimativas falavam de custos de transporte entre R$ 150 e R$ 200 milhões. Isso sem contar os custos de demolição do viaduto. 

Uma outra ideia bem interessante que surgiu ao longo das discussões foi a de se manter o Minhocão em pé, transformando o seu leito em um grande parque linear elevado. A ideia foi inspirada no High Line, um parque elevado de Nova York que foi construído em um antigo viaduto desativado da cidade. Esse parque ocupa uma área total de 3,75 km², sendo que o trecho do elevado tem uma extensão de 2,5 km. O parque foi inaugurado em 2009 e é um sucesso de crítica e público. 

Maquetes virtuais, reportagens e muitas ilustrações mostrando a “nova cara” do Minhocão rapidamente começaram a circular pelos noticiários e redes sociais, o que deu um novo ânimo para muitos dos moradores que ainda insistiam em continuar vivendo nas áreas do entorno. Aqui é importante citar que já há muitos anos, o Minhocão é fechado durante os finais de semana e transformado em uma área de lazer. Paulistanos de todas as idades se dirigem para as pistas fechadas com skates, bicicletas, patinetes e até mesmo a pé para curtir o espaço (vide foto). Surgiram bares e restaurantes ao lado das rampas de acesso justamente para atender esse “novo público”

Um dos espaços mais interessantes criados por esse novo uso esporádico do Minhocão aos finais de semana é um teatro que foi montado num apartamento no terceiro andar de um edifício com a fachada voltada para a via elevada. Nas janelas desse apartamento, grupos de atores realizam performances gratuitas para o público. Para esse grupo de usuários do Minhocão, a construção de um parque elevado seria a “8° maravilha do mundo paulistano”. 

Infelizmente, no caminho desse sonho da população existem inúmeros interesses de comerciantes, empresários e até mesmo de moradores da região, os quais acreditam que a remoção da pista elevada vai reduzir o número de veículos em circulação na região central da cidade e, consequentemente, diminuirá o número de clientes de suas respectivas empresas. Inúmeras ações contra a desativação do viaduto e construção do parque elevado passaram a ser protocoladas na Justiça. A Prefeitura da cidade de São Paulo, que em 2016 havia anunciado a construção do parque e em fevereiro de 2019 já pretendia fechar um trecho de 900 metros do viaduto, foi obrigada a anunciar em novembro de 2019 a suspensão do projeto. 

O principal estopim para se chegar a essa decisão foi um pedido do Procurador-geral da Justiça do Estado de São Paulo, que ingressou com uma ação judicial pedindo a inconstitucionalidade da lei que criou o parque suspenso. Entre os principais motivos alegados houve “falta de um estudo urbanístico capaz de prever os impactos da medida no conjunto da cidade”. É bastante difícil de se prever quais serão os rumos desse projeto daqui para a frente, mas sabemos com toda a certeza que se levarão alguns anos para se chegar a uma conclusão. 

O imbrólio criado para a transformação do caótico Minhocão em um parque elevado nos dá uma ideia cristalina das dificuldades criadas para se tentar resolver qualquer tipo de problema que afeta a população. Uma obra importante, bonita e com grande aceitação pela população não pode avançar por causa de burocracia. Para que todos tenham uma ideia do significado desta obra – o autor da ideia foi Fernando Hadad, ex-prefeito da cidade que é do PT – Partido dos Trabalhadores; quem está tentando viabilizar o projeto é Bruno Covas, que é do PSDB. Se é possível que dois partidos políticos que se odeiam consigam chegar a um entendimento sobre um projeto urbano, por que não o resto?

A construção maciça de edificações e a impermeabilização em grande escala dos solos das cidades está provocando o efeito das Ilhas de Calor Urbano em grandes cidades de todo o mundo. Entre outros problemas, as Ilhas de Calor tendem a provocar fortes chuvas nas áreas centrais de grandes cidades em regiões de clima Tropical e Subtropical. Em cidades de regiões frias, o efeito se dá na formação de invernos menos frios. A área central da cidade de São Paulo é, frequentemente, assolada por fortes tempestades nos meses de verão, sofrendo muito com enchentes e alagamentos. 

Conforme comentamos em postagem anterior, o centro paulistano chega a ter temperaturas até 10° C maiores que as encontradas nos extremos da Zona Sul, onde fica a Serra do Mar, e da Zona Norte, onde encontramos a Serra da Cantareira. Um outro problema grave é geração do ozônio, um gás altamente tóxico, que se dá por reações químicas entre os diferentes gases liberados por escapamentos de veículos e fábricas. A criação desse parque suspenso traria uma animadora contribuição para a suavização desses problemas, além de contribuir na retenção temporária de parte das águas pluviais

Paulistanos, porém, são criaturas que se adaptam facilmente às situações mais adversas. Enquanto o parque elevado do Minhocão não vem, começaram a surgir diversos jardins verticais nas fachadas de muitos edifícios da região de entorno da pista elevada. Além de tornar a região mais bonita, esses jardins dão sua pequena contribuição para a melhoria do clima local. 

Falaremos disso na próxima postagem. 

O USO DOS PISCINÕES NO COMBATE ÀS ENCHENTES DAS GRANDES CIDADES

Praça Charles Miller

A construção de cisternas subterrâneas para o armazenamento das águas das chuvas vem sendo feito há milhares de anos em diferentes cantos do mundo. Um exemplo é Jerusalém, cidade sagrada para judeus, cristãos e muçulmanos. Existem diversas cisternas para o armazenamento de água nos subsolos da cidade e, de quando em vez, os arqueólogos encontram novas estruturas. Em 2012, foi encontrada uma cisterna com capacidade para armazenar 250 m³ de água nas proximidades das ruínas do Templo de Salomão, construída há mais de 2.500 anos. 

Outro fabuloso exemplo são as Cisternas da Basílica, em Istambul, na Turquia, também conhecidas em turco como Yerebatan Sarnıcı ou Yerebatan Sarayı. Construídas no século VI da Era Cristã, essas estruturas ocupam uma área total de 10 mil m² e têm capacidade para armazenar até 30 milhões de m³ de água. O desfecho do filme Inferno, baseado no livro homônimo de Dan Brown (do Código Da Vinci), se passa nessas cisternas. 

A partir dessa ideia ancestral de cisternas subterrâneas para o armazenamento de água das chuvas para o abastecimento de populações na antiguidade, surgiu a ideia da construção dos piscinões para o combate das enchentes nas modernas cidades brasileiras. O conceito é simples – cria-se um reservatório subterrâneo para o armazenamento temporário de grandes volumes, o que alivia a pressão sobre os canais naturais de drenagem de águas pluviais. Passado o período crítico das chuvas, bombas de recalque começam a bombear a água armazenada nesses depósitos na direção dos canais de drenagem, preparando o piscinão para a próxima enchente. 

A primeira estrutura do tipo foi construída na Praça Charles Miller, no charmoso bairro do Pacaembu, cidade de São Paulo, em 1995. É nesse mesmo endereço que encontramos o Estádio Municipal Paulo Machado de Carvalho, mais conhecido pelos paulistanos com Estádio do Pacaembu. Poucos anos atrás, foi instalado nesse Estádio o Museu do Futebol, o que consolidou de vez o local como um dos grandes pontos turísticos da cidade de São Paulo. A Praça Charles Miller já era notória entre os cidadãos da cidade, porém por uma característica das mais negativas – bastava uma chuva mais forte para os alagamentos tomarem conta do local. 

O bairro do Pacaembu nasceu em 1925, quando a famosa Companhia City, empresa inglesa de arquitetura, iniciou o loteamento e a urbanização da região. Uma das primeiras ações da empresa foram os trabalhos de drenagem e aterro de grandes áreas, que culminaram com a canalização do ribeirão Pacaembu e a construção da avenida homônima, até hoje a principal via do bairro. Foi a Companhia City quem doou para a Prefeitura de São Paulo, em 1935, o terreno de 75 mil m² onde seria construído o famoso Estádio do Pacaembu, inaugurado em 1940 (vide foto).  

Além da criação de um dos bairros mais charmosos da cidade, as ações da City, involuntariamente, acabaram por consolidar todo um ambiente favorável à formação de fortes enxurradas em dias de chuva, com a formação de enchentes violentas na parte baixa do bairro onde fica a Praça Charles Miller

O famoso “endereço” das enchentes criou transtornos no bairro por várias décadas até que, em 1993, as autoridades da Prefeitura e do Governo do Estado juntaram forças e iniciaram as obras de um gigantesco reservatório subterrâneo com capacidade para armazenar 75 milhões de litros de água das chuvas. O projeto pioneiro na cidade, mais conhecido Piscinão do Pacaembu, foi inaugurado em 1995 e se transformou rapidamente numa referência no combate de enchentes localizadas. Até a data de hoje, já foram construídos 27 piscinões na cidade de São Paulo e existe uma forte demanda reprimida para mais algumas dezenas dessas estruturas.  

O grande desafio para a construção do Piscinão do Pacaembu não foi exatamente na área de engenharia, mas na área da burocracia – tanto o Estádio do Pacaembu quanto a Praça Charles Miller eram construções tombadas pelo Conselho do Patrimônio Histórico e Cultural da cidade e, por este motivo, não poderiam sofrer qualquer tipo de intervenção. Foram necessárias incontáveis reuniões e acordos entre todas as partes envolvidas no processo para que se autorizasse o início das obras. Todo esforço acabou valendo a pena! 

Cerca de dez anos atrás, eu trabalhei em obras para a ampliação da rede coletora de esgotos em alguns bairros de São Paulo. Para fazer qualquer tipo de intervenção nos solos da cidade, indo da instalação de redes de água até cabos subterrâneos de energia elétrica, é necessário entrar com um pedido da construtora ou concessionária na Prefeitura da Cidade. Naquela época, nossos pedidos para a realização de obras em bairros da periferia levavam de 4 a 7 meses apenas para a análise dos técnicos e um período semelhante para a liberação do alvará. Imaginem então o tempo que seria necessário para analisar e liberar uma obra de grande porte em áreas tombadas pelo Patrimônio Histórico… 

Como temos comentado ao longo dessa série de postagens, o crescimento das cidades e a constante impermeabilização dos solos urbanos com concreto, asfalto e edificações de todo o tipo, a canalização indiscriminada de córregos e riachos e os desmatamentos, criam as condições ideais para a formação de grandes pontos de alagamentos nas cidades, com riscos tanto materiais quanto para a segurança dos moradores. Cada vez mais serão necessários estudos e projetos urbanos que visem a criação de pontos de retenção e acúmulo temporário de águas pluviais como os piscinões, evitando assim a formação das enchentes nos pontos mais baixos. 

Piscinões subterrâneos, como o que foi construído sob a Praça Charles Miller, são exemplos práticos de como resolver os problemas extremos provocados pelas enchentes nas cidades – na falta de áreas livres para a construção dos dispositivos em meio ao disputado espaço nos centros urbanos, o subsolo de praças e avenidas pode ser utilizado para as construções, restaurando-se posteriormente os espaços, que voltarão rapidamente para o uso pela população da cidade. 

Em diversos pontos críticos da cidade de São Paulo onde já foi possível a construção dos piscinões, a ocorrência de enchentes ou foi eliminada ou foi fortemente reduzida. Apesar dos grandes benefícios gerados por esse tipo de obra, elas têm um gravíssimo “defeito de nascença” – obras subterrâneas são consideradas invisíveis por muitos políticos e, portanto, tem pouco potencial para a geração de votos. Obras vistosas como pontes, avenidas e hospitais têm muito maior visibilidade e potencial para gerar votos. Para muitos desses políticos, enchentes são apenas “desastres naturais”

Em 2017, foi inaugurado o Piscinão Guamiranga, no bairro da Vila Prudente – Zona Leste da cidade, que tem capacidade para armazenar 850 milhões de m³ de águas pluviais. Esse piscinão fica dentro da bacia hidrográfica do rio Tamanduateí, uma das regiões que mais sofrem com as enchentes em São Paulo. Apesar do tamanho colossal desse piscinão, seriam necessárias outras 58 estruturas desse mesmo porte apenas para substituir as perdas de áreas de várzea devido à construção das Marginais Tietê e Pinheiros e também da Avenida do Estado, de acordo com minhas estimativas. Isso dá uma ideia do quanto ainda precisamos avançar para resolver o problema das enchentes em São Paulo, quiçá em outras grandes cidades brasileiras. 

Em tempo: o paulistano Charles Miller (1874-1953) foi o responsável pela introdução do futebol no Brasil em 1895 e nada mais natural que homenageá-lo batizando com seu nome a praça onde fica o estádio de futebol mais tradicional da cidade. Já os políticos que não se esforçam para aumentar o número de piscinões na cidade, esses merecem um belo “cartão vermelho” por parte da população. 

UMA “VÁRZEA VIRTUAL” PARA O TIETÊ E OUTROS RIOS BRASILEIROS

Rio Tietê no passado

Na última postagem falamos de uma série de mudanças urbanísticas que estão sendo implementadas em Seul, a capital da Coreia do Sul. Com quase 10 milhões de habitantes, Seul tem problemas bastante parecidos com os da cidade de São Paulo – entre eles as enchentes e as Ilhas de Calor Urbanas.  

Uma das mais fantásticas “terapias urbanas” realizadas na cidade foi a reabertura do Cheonggyecheon, um rio do centro de Seul que havia sido canalizado na década de 1960 e que foi transformado em um maravilhoso parque linear. Uma outra frente de trabalho dos coreanos é a construção de túneis ao largo do rio Han, que receberão futuramente as pistas das avenidas marginais de Seul – com a liberação dos terrenos, os solos voltarão a ser cobertos com vegetação. 

A canalização indiscriminada de córregos, riachos e rios nas grandes cidades, para a construção de avenidas de fundo de vale, está entre os principais problemas que levam a formação de enchentes durante as chuvas de verão. Citando um exemplo: durante a administração do Prefeito Francisco Prestes Maia, entre 1938 e 1945, a cidade de São Paulo teve 4 mil km lineares de córregos, riachos e rios canalizados e transformados em avenidas. Esse tipo de intervenção urbana é comum nas grandes cidades brasileiras. 

Entre as grandes avenidas construídas nas áreas de várzea da cidade de São Paulo, vou destacar três: a Marginal Tietê, a Marginal Pinheiros e a Avenida do Estado. Essas avenidas ocuparam, respectivamente, áreas de várzea dos rios Tietê, Pinheiros e Tamanduateí, os três principais rios do Planalto de Piratininga. A foto que ilustra esta postagem mostra a várzea do Tietê cheia no início da década de 1940, onde se vê, inclusive, mulheres lavando roupas nas águas limpas do rio.

Estudando antigos mapas da cidade de São Paulo da década de 1920, época em que esses rios ainda corriam “livres” ao longo de suas calhas sinuosas e cercadas por vegetação, eu calculei que aproximadamente 50 km² de áreas de várzea foram perdidas após os trabalhos de retificação das calhas dos rios, aterro e ocupação urbana. Essa é uma estimativa pessoal, uma vez que nunca encontrei em literatura a medida exata dessas áreas perdidas na Pauliceia “desvarzeada” (brinco aqui com o título do antológico livro de poemas “Pauliceia Desvairada” de Mario de Andrade, publicado em 1922) . 

Em rios de planalto, as áreas de várzea oferecem um espaço alagável para os períodos de chuva dos verões, quando as calhas não conseguem comportar toda a água das chuvas. Essas áreas assumem características semelhantes ao Pantanal Mato-grossense e, com o final das chuvas, lentamente vão secando. De acordo com fontes históricas, as áreas de várzea dos rios paulistanos abrigavam jacarés-do-papo-amarelo, garças, cervos do pantanal, capivaras, macacos, onças e tamanduás, entre outros animais, o que lhe dava um verdadeiro ar de mini pantanal. 

Se, num exercício rápido de matemática, imaginarmos que toda essa área alagável acomodasse uma lâmina de água com 1 metro de profundidade durante o período das cheias de verão, chegaremos a um volume total de 50 milhões de m³ de água. Somente com a apresentação desse impressionante número, fica fácil entender porque a cidade fica inundada nos dias em que é assolada pelas fortes tempestades de verão. Além da perda dessa área de várzeas, a cidade também teve uma grande parte dos seus solos impermeabilizados com concreto, asfalto e construções, além de ter perdido extensa áreas de mata. Sem possibilidade de infiltração nos solos, a quase totalidades das águas pluviais corre rapidamente na direção dos canais de drenagem.

Você não precisa ser um expert em recursos hídricos para concluir que é necessário recompor artificialmente essa área perdida das várzeas para recuperar a capacidade dos nossos rios em absorver e acomodar os excedentes de águas pluviais nos meses de verão. Eu chamo isso de criação de várzeas virtuais

Dadas as dificuldades orçamentárias e políticas aqui em nosso país, eu acho muito difícil, no curto e no médio prazo, conseguirmos reabrir córregos e riachos já canalizados em nossas cidades ou construirmos grandes túneis para substituir avenidas como as Marginais Tietê e Pinheiros e Avenida do Estado. Aqui na cidade de São Paulo, até já foi possível restaurar um trecho do Córrego da Coruja, na Vila Madalena, e do Córrego Pirarungauá, no Jardim Botânico da cidade. Nada mais do que isso. 

Mesmo sem contar com essas alternativas, existem várias formas de se criar as tais “várzeas virtuais”. Vejam: 

  • O Laboratório de Tecnologia de Pavimentação da USP – Universidade de São Paulo, criou, há quase 10 anos, o CPA – Camada Porosa de Asfalto. Esse revestimento é um asfalto absorvente de água, feito usando pedras de brita maiores, onde existem espaços ocos entre as pedras. Essa característica permite que o asfalto armazene um volume de água equivalente a 25% de seu volume total. Essa água fica retida dentro da camada de asfalto por até 3 horas e, só então, começa a escorrer na direção dos canais de drenagem. Esse tempo em que a água fica retida é essencial para permitir a drenagem do excedente de águas pluviais e evitar alagamentos localizados. De acordo com informações dos pesquisadores, esse asfalto tem um custo 30% maior que o asfalto convencional; 
  • Uma outra ideia que segue nesta mesma linha é o concreto permeável, que poderia ser largamente utilizado na construção de calçadas de passeios públicos, praças e até mesmo em quintais de edifícios e casas. A diferença principal na produção deste tipo de concreto em relação ao concreto convencional é que na mistura não entra o chamado agregado fino ou areia. Graças a isso, o concreto fica altamente poroso, permitindo que a água da chuva atravesse facilmente a camada pavimentada e consiga infiltrar nos solos; 
  • Outra alternativa de fácil implantação nas casas dos moradores de uma cidade são as caixas de detenção provisória. Falamos aqui de caixas d’água plásticas no formato de uma pequena torre (3 metros de altura, 1 metro de largura e 0,5 metro de profundidade), ligadas na saída das calhas do telhado. Essa caixa tem capacidade para armazenas 1,5 m³ de água ou o equivalente a 1.500 litros. Na base da caixa existe um pequeno furo que libera a água lentamente, o que ajuda muito os sistemas de drenagem locais. O morador da casa também teria a opção de manter essa água armazenada para usos onde não há necessidade de água potável como a lavagem de quintais, automóveis e motos;
  • Finalmente, temos os piscinões, gigantescos depósitos subterrâneos de águas pluviais, que permitem o armazenamento temporário de grandes volumes. A cidade de São Paulo já possui 27 desses equipamentos, sendo que o maior deles tem capacidade para armazenar mais de 900 mil m³ de água. Na próxima postagem falarei mais demoradamente sobre essse dispositivos.

Observem que são ideias simples, que podem ser implantadas lentamente nas cidades. Calçamentos e revestimentos asfálticos, por exemplo, precisam ser refeitos de tempos em tempos e essas alternativas com materiais porosos poderiam ser usadas nesses trabalhos. 

Além dessas alternativas indicadas para o Poder Público, os cidadãos podem ser estimulados a remover calçamentos e revestimentos dos seus quintais e, no seu lugar, plantar grama, flores, plantas ornamentais, árvores frutíferas ou, até mesmo, criar uma pequena horta. Cada metro cúbito de água que deixa de seguir pelos canais de drenagem de águas pluviais das cidades vai fazer diferença no combate às enchentes e alagamentos localizados. 

A REVOLUÇÃO URBANA EM SEUL E SEU EXEMPLO PARA AS GRANDES CIDADES BRASILEIRAS, OU FALANDO DOS RIOS CHEONGGYECHEON E HAN

Antigo rio Cheonggyecheon

O surpreendente filme sul coreano “Parasita”, que acabou de ser premiado com o Oscar de Melhor Filme de 2020, mostra uma cena muito familiar a muitos moradores de cidades grandes como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte – uma forte enxurrada de água barrenta descendo pela escadaria de um bairro inundado de Seul. Um pai e seus dois filhos correm sob uma chuva torrencial e quando finalmente conseguem chegar em casa, encontram uma inundação com água até a cintura, com móveis e objetos flutuando.  

Depois de colocar os poucos pertences pessoais que conseguiram salvar sobre uma porta flutuante, eles saem andando por uma rua alagada até um ginásio próximo, onde vão passar a noite com outras centenas de desabrigados. Muito mais do que ficção cinematográfica, essas cenas ainda fazem parte da vida de muitos dos moradores da grande capital da Coreia do Sul e da sua Região Metropolitana. 

Seul é pouca coisa menor que a cidade de São Paulo. A cidade tem 10 milhões de habitantes e fica no coração de uma Região Metropolitana onde vivem 25 milhões de pessoas. As enchentes na região de Seul são históricas e aumentaram exponencialmente nas últimas décadas devido ao forte crescimento populacional. Os problemas começaram ainda na década de 1950, quando a Guerra da Coreia (1950-1953) trouxe para o Sul centenas de milhares de famílias refugiadas do Norte. Para completar o caótico quadro ambiental, a cidade vem enfrentando fortíssimas ondas de calor no verão, como as que aconteceram em 2012, 2015 e 2017. 

Em julho de 2003, urbanistas apresentaram um projeto revitalizar a área central de Seul, como parte de um vasto projeto de revitalização urbana, com o objetivo de tornar a cidade moderna e ecologicamente correta. O plano previa a remoção de uma via elevada e a reabertura e revitalização do Cheonggyecheonum rio que foi canalizado na década de 1960. Num trabalho de 2 anos e custo de US$ 280 milhões, o viaduto foi demolido e o rio foi recuperado e transformado em um impressionante parque urbano linear de 5.8km de extensão, 400 hectares e 80 metros de largura – 30 mil pessoas visitam o parque a cada fim de semana. Para que vocês tenham noção do tamanho da obra, somente a demolição do viaduto gerou 600 mil toneladas de entulho – 75% deve entulho foi reciclado e utilizado na construção do parque.  

Rio Cheonggyecheon

O rio Cheonggyecheon é um canal artificial que foi construído durante a Dinastia Joseon (1392-1410) com a função de drenar as águas pluviais e controlar as enchentes da antiga cidade de Seul. A tradução literal do nome do coreano para o português significa “rio das águas límpidas”. Conta-se que na fundação da cidade, os antigos governantes se valeram de princípios do feng chui e construíram as ruas e edifícios alinhados entre montanhas e cursos d’água. Na tradição oriental, o feng chui reúne os conhecimentos das forças necessárias para conservar as influências positivas que supostamente estariam presentes em um espaço e redirecionar as negativas de modo a beneficiar seus moradores. 

Durante centenas de anos, o rio manteve suas características originais como um oásis no centro da cidade de Seul. Com a eclosão da Guerra da Coreia em 1950, Seul foi invadida por milhares de refugiados – as margens do Rio Cheonggyecheon, como mostrado na imagem do alto,  foram transformadas em imensas favelas (algo muito parecido com o que acontece nas grandes cidades brasileiras). Em pouco tempo, as antigas águas límpidas se transformaram num canal de esgotos a céu aberto. 

O rápido crescimento econômico da Coreia na década de 1960, com o natural crescimento da frota de veículos, levou a Prefeitura de Seul a criar o seu plano de novas avenidas, aliás muito parecido com o Plano de Avenidas que o Prefeito Prestes Maia implantou em São Paulo a partir da década de 1930. Entre outras mudanças, a Prefeitura decidiu canalizar o rio Cheonggyecheon, um processo que exigiu o remanejamento de milhares de famílias das suas margens. E mais: sobre o leito canalizado foi construído um extenso viaduto, muito parecido com o Elevado Presidente João Goulart (o popular Minhocão) de São Paulo. 

O crescimento desordenado, o excesso de carros e a poluição do ar degradaram imensamente a região central de Seul. Eliminar uma via elevada desse tamanho na área central da cidade traria, provavelmente, grandes problemas para o trânsito da cidade. A Prefeitura fez grandes investimentos em faixas exclusivas para ônibus e campanhas para estimular o uso de transportes coletivos. Contrariando as expectativas de muitos, a população passou a usar ônibus e metrô – os coreanos redescobriram o prazer de caminhar pelo centro da cidade. Muitos comerciantes reclamam de queda nas vendas pela falta dos carros, mas a maioria esmagadora da população gostou da mudança e do renascimento do rio. 

Um outro trabalho fabuloso que vem sendo desenvolvido na Região Metropolitana de Seul é a revitalização do rio Han, o Tietê coreano. Todo o crescimento desordenado vivido pela Região transformou o rio em uma vala de esgotos a céu aberto, uma saga que nós brasileiros conhecemos bem. O projeto de despoluição do rio teve início em meados da década de 2000 e tem previsão de estar totalmente concluído no ano de 2033. Uma das primeiras providências efetivas foi o início do controle da qualidade das águas dos 40 córregos e riachos que atravessam a cidade de Seul e desaguam no Rio Han – a cidade possui seis Estações de Tratamento de Esgotos e era preciso garantir que nenhum lançamento irregular atingisse o Han. Outra providência importante foi a proibição da instalação de qualquer tipo de empresa poluidora ao longo das margens do rio. 

Uma segunda frente de trabalho está aproximando os moradores da cidade do seu rio – entre parques novos e reformados já são 12 unidades nas margens do rio – um deles, o Seul Forest tem 1 milhão de metros quadrados, tamanho equivalente ao Parque do Ibirapuera em São Paulo. As margens do Rio Han foram dotadas de espaços públicos para corridas, ciclovias, áreas de piquenique, além de toda uma gama de esportes náuticos realizados dentro das águas do rio. Passeios de barco e restaurantes flutuantes transformaram as águas do Han num ambiente para passeios das famílias

Rio Han

Apesar de já se encontrarem num estágio que provoca inveja em nós brasileiros, os coreanos pensam grande: querem elevar as áreas naturais que hoje ocupam 14% das margens do Rio Han para impressionantes 90%. Como? Construindo túneis que possam substituir as atuais vias marginais, muito parecidas com as Marginais Tietê e Pinheiros de São Paulo, liberando assim os espaços hoje ocupados pelas pistas para a implantação de áreas cobertas por vegetação, facilitando ainda mais o acesso e a aproximação dos moradores de Seul de seu rio

Essas e muitas outras iniciativas já em andamento visam aumentar a permeabilidade e revegetação de grandes áreas de solo, com o duplo objetivo de diminuir os impactos das fortes chuvas de verão e de reduzir gradativamente os grandes efeitos de Ilha de Calor Urbano em Seul e cidades vizinhas. 

Grandes cidades brasileiras como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Recife sofrem imensamente, ano após ano, com as chuvas e enchentes de verão e sofrerão cada vez mais com as consequências dos efeitos das Ilhas de Calor Urbano. A revolução urbana que Seul vem implementando nos últimos anos é um exemplo de mudança que nós podemos seguir aqui no Brasil.