AS FORTES NEVASCAS NOS ESTADOS UNIDOS E SEUS IMPACTOS NO FERIADO DO DIA DE AÇÃO DE GRAÇAS

Nevasca nos EUA

Conforme estamos mostrando em nossas últimas postagens, uma série de eventos climáticos incomuns têm causado grandes problemas em diferentes partes do mundo. Na Austrália, a forte seca e os ventos estão provocando os mais intensos incêndios florestais registrados nas últimas décadas. Na maravilhosa Veneza, no Nordeste da Itália, são as enchentes, as maiores desde 1966, que estão ameaçando o inestimável patrimônio artístico, arquitetônico e cultural. Por fim, falamos das violentas chuvas e suas trágicas consequências no Leste da África – enormes desmoronamentos de encostas e enchentes já mataram centenas de pessoas e centenas de milhares estão desabrigadas. 

Apesar das enormes distâncias geográficas que separam essas diferentes localidades no mapa mundial, existe um ponto em comum por trás de todos esses eventos climáticos extremos – as mudanças climáticas globais. A grande liberação de gases de efeito estufa, emitidos principalmente pela queima de combustíveis fósseis como o carvão e os derivados de petróleo, é uma das principais vilãs dessa tragédia global.  

Os desmatamentos e as queimadas em áreas florestais, a pecuária, a agricultura, a produção industrial e a geração de energia elétrica, entre outras atividades humanas, completam a extensa lista dos emissores dos gases de efeito estufa. A grande concentração desses gases na atmosfera tem provocado um lento e gradual aumento da temperatura no planeta Terra, o que, por sua vez, vem provocando toda uma série de eventos climáticos extremos

A mais recente peça pregada pelo clima nesses últimos dias foram as fortes nevascas fora de época em diferentes regiões dos Estados Unidos. O NWS – Serviço Nacional do Clima na sigla em inglês, classificou esses eventos climáticos como “históricos e sem precedentes“. Além de fortes ventos e inundações em áreas litorâneas, o Serviço fez previsões de precipitações de até 120 cm de neve em regiões de montanha, o que é muita coisa considerando-se que ainda é outono no Hemisfério Norte. 

A situação fica ainda mais dramática quando verificamos a semana em que essas nevascas temporãs ocorrem – dia 28 de novembro é o Dia de Ação de Graças, o Thanksgiving, o mais importante feriado norte-americano. A data rememora a época da chegada dos primeiros 102 peregrinos protestantes ao Novo Mundo, a bordo do lendário navio Mayflower no final de 1620. Sem alimentos para sobreviver ao rigoroso inverno daquele ano, esses peregrinos foram salvos pelos indígenas, que de bom grado ofereceram alimentos para os recém-chegados.  Em 28 de novembro de 1621, exatamente um ano após o desembarque dos pilgrims em terras americanas, foi celebrado The First Thanksgiven, ou, o Primeiro dia de Ação de Graças. 

Entre os norte-americanos, o Dia de Ação de Graças é considerado um dos feriados mais importantes do calendário nacional e uma forte razão para uma boa reunião familiar. As estimativas falam que perto de 55 milhões de norte-americanos viajarão por todo o país para se reunir com suas famílias. Nevascas fora de época nessa data representam uma enorme fonte de problemas para todos esses viajantes. Muitas rodovias estão cobertas por neve e quem já teve a experiência de dirigir nessas condições sabe das dificuldades de manter uma trajetória segura de um veículo nessas situações.  

Outra forma usual de viagens nos Estados Unidos é por via aérea. Diversos aeroportos do país foram obrigados a cancelar centenas de voos devido as condições climáticas. Um exemplo é o aeroporto da cidade de Denver, no Estado do Colorado, que no dia 27 cancelou cerca de 500 voos e outros tantos sofreram atrasos. Segundo informações divulgadas pelo aeroporto, cerca de mil pessoas foram obrigadas a passar a noite acomodadas de forma improvisada nos bancos dos terminais

As nevascas também interromperam os serviços de distribuição de energia elétrica em cinco Estados do Meio-Oeste, onde se incluem o Michigan, Ohio e Wisconsin. De acordo com os levantamentos mais recentes, cerca de 300 mil imóveis ficaram sem energia elétrica. Numa extensa faixa no centro do país, que vai do Oeste do Texas até os Estados do Missouri Ohio, os Serviços de Meteorologia previam ventos de até 95 km/h e fortes tormentas no Dia de Ação de Graças, condições que tornam as viagens rodoviárias extremamente perigosas e desaconselháveis. 

Fugindo um pouco dos problemas ligados ao feriado nacional, essas nevascas trouxeram uma série de impactos negativos aos agricultores de diversas regiões do país. Os Estados Unidos, para que não sabe, ocupam a posição de maior produtor agrícola do mundo, principalmente de grãos, e o outono é a época de colheita de diversas culturas, especialmente o milho e a soja. Há notícias de diversas fazendas onde as plantações, já em vias da colheita, foram cobertas pela neve – será preciso esperar essa neve derreter e as plantas secarem para se avaliar as possíveis perdas. 

Os agricultores norte-americanos disputam com os brasileiros, saca a saca, o título de maior produtor mundial de soja. Mesmo assim, a demanda pelo grão no mercado chinês está em fortíssima alta e já está faltando soja no mercado – eventuais perdas nas culturas dos campos norte-americanos poderão elevar ainda mais o preço dessa commodity, com reflexos nos preços de diversos produtos que consumimos em nosso dia a dia. A soja é um importante ingrediente para a produção de rações para animais e qualquer aumento de preços terá reflexos nos custos de ovos, carnes e seus derivados. 

Em meados do mês de outubro, uma outra nevasca fora de época já havia atingido os Estados de Minnesota, Dakota do Norte, Montana, Iowa e Wisconsin, importantes produtores de soja do país. Alguns fazendeiros fizeram relatos de uma camada de neve com 35 cm cobrindo suas plantações. Diversos produtores nesses Estados já estavam realizando a colheita do grão e foram obrigar a paralisar os trabalhos por causa do tempo. A chegada de outras nevascas temporãs num espaço tão curto de tempo poderá comprometer de vez as colheitas de muitas dessas propriedades. 

Como fica fácil de perceber, os extremos climáticos estão se tornando cada vez mais comuns em todo o mundo e eles têm trazido muitos prejuízos financeiros e problemas de todos os tipos. Desgraçadamente, muitas tragédias humanas também já estão se desenrolando, com muitas mortes relatadas e milhares de pessoas desabrigadas. 

Essas nevascas fora de época nos Estados Unidos revelam, além de tudo, uma grande ironia do destino – o Governo do país está entre os que mais resistem em reduzir as emissões de gases de efeito estufa. Inclusive, o país acaba de se retirar do Acordo de Paris, uma iniciativa internacional dos países para a redução das emissões de gases causadores do aquecimento global.  

Para encerrar – os americanos, ao lado dos chineses, são os maiores emissores desses gases no mundo; a única diferença é que a China continua no Acordo de Paris. 

 

AS FORTES CHUVAS E OS DESLIZAMENTOS DE TERRA NO QUÊNIA

Enchentes no Quênia

Nesses últimos dias, fortes chuvas estão atingindo o Quênia, país do Leste da África, e mais de 100 pessoas já morreram por causa de grandes deslizamentos de terra. Cerca de 22 mil casas foram atingidas pela lama e entre 80 e 120 mil pessoas estão desabrigadas – informações da Cruz Vermelha falam de 160 mil desabrigados. As enchentes e a lama também destruíram pontes e rodovias, criando uma situação caótica em uma extensa região.  

Problemas semelhantes estão atingindo países próximos como o Sudão do Sul, a Tanzânia, a Etiópia e a Somália. No Sudão do Sul, país que já sofre uma grande crise humanitária devido aos conflitos entre diferentes grupos religiosos, quase um milhão de pessoas já foram atingidas e há temores de epidemias e de fome. Dezenas de mortes já foram confirmadas na Etiópia e na Tanzânia, além de dezenas de milhares de desabrigados nesses países e também na Somália. 

O resgate às vítimas está sendo dificultado pela falta de infraestrutura – pontes e estradas foram destruídas pelos deslizamentos e em muitos locais o socorro só está conseguindo chegar com o uso de helicópteros das forças militares e policiais. De acordo com informações da Cruz Vermelha da Nigéria, “os sobreviventes não tem água ou comida e não podem receber assistência médica”. A situação poderá piorar nos próximos dias – o serviço de meteorologia do país afirma que mais chuvas fortes são esperadas. 

O Quênia é considerado o país mais rico do Leste da África. É famoso no mundo inteiro por suas Savanas e reservas naturais, onde vivem grandes manadas de animais selvagens. Milhões de turistas são atraídos ao país todos os anos e chegam ansiosos para viver as aventuras de um safari. Outra grande atração turística do país é o Monte Quênia, a segunda montanha mais alta da África com 5.199 metros de altitude. O Quênia ocupa uma área total de 581 mil km², pouco maior que a área do Estado da Bahia, e tem uma população de 45 milhões de habitantes. 

A produção agrícola é fundamental para a economia do país, respondendo por 25% do PIB – Produto Interno Bruto, além de ser a grande geradora de postos de trabalho. O Quênia é um grande exportador de café, uma planta originária da vizinha Etiópia, e de chá, cultura que foi introduzida pelos ingleses nas últimas décadas do século XIX. O país fez parte da chamada África Oriental Britânica entre 1895 e 1920 como um protetorado, e entre 1920 e 1963 passou a ser a Colônia Britânica do Quênia. Em 1963 o Quênia se tornou um país independente. 

Com o início da colonização britânica na região, teve início um intenso processo de derrubada da cobertura florestal original das regiões Oeste e Sul do país para permitir a implantação de grandes lavouras comerciais, especialmente de chá, café, tabaco e algodão. Para facilitar o escoamento da produção agrícola, os britânicos construíram uma ferrovia, concluída em 1902, ligando a cidade de Mombaça, no litoral do Quênia, ao Lago Vitória. Esse modelo de agricultura baseado em intensos desmatamentos está na raiz dos problemas de deslizamentos de terras provocados pelas chuvas no Quênia. 

De acordo com estimativas de grupos conservacionistas internacionais, atualmente o Quênia possui apenas 2% da sua cobertura florestal original. Além do corte de matas para a abertura de campos agrícolas, grandes extensões de florestas foram derrubadas para a exportação das madeiras de lei e também para a criação de florestas comerciais com árvores de espécies exóticas. Essa radical redução da cobertura florestal trouxe graves impactos nos corpos d’água de uma parte do país, onde se observa uma forte redução dos caudais e um intenso assoreamento dos canais. 

Conforme já comentamos em inúmeras postagens aqui no blog, a presença de vegetação é fundamental para a proteção dos solos contra os efeitos da erosão e também para permitir a infiltração da água das chuvas nos solos, recarregando aquíferos e lençóis subterrâneos. Um exemplo brasileiro da importância da cobertura vegetal é o Cerrado, o segundo maior bioma do país. A vegetação nativa dos solos do Cerrado possui sistemas de raízes bem desenvolvidas e profundas, fundamentais para a infiltração da água das chuvas nos solos. Com o avanço das frentes agrícolas em toda a Região Centro-Oeste do Brasil, onde grandes extensões de vegetação do Cerrado estão sendo derrubadas, nota-se uma clara redução dos caudais dos rios

As raízes de culturas como a soja e o milho, plantadas em larga escala no Cerrado, possuem raízes muito curtas e, portanto, ineficientes para ajudar na absorção de água pelos solos. Sem a cobertura da vegetação original do Cerrado, os solos também sofrem com os processos erosivos. São exatamente esses problemas que estão acontecendo no Quênia, porém, com um agravante – diferente dos solos planos do nosso Cerrado, o relevo das regiões agrícolas do Quênia é bem mais acidentado, o que potencializa a formação de fortes enxurradas e o desmoronamento de encostas. 

O clima no Quênia apresenta variações conforme a região do país – no litoral o clima é Tropical, variando para Temperado nas regiões Oeste e Sul do país, e para um clima Árido nas regiões Norte e Nordeste. O país possui duas temporadas de chuva ao longo do ano – as “chuvas de longa duração”, que ocorrem entre os meses de março/abril e maio/junho. No final do ano, entre outubro e dezembro, ocorre a temporada das “chuvas de curta duração”. Nos últimos anos, entretanto, o Quênia vem enfrentando extremos climáticos, com ciclos alternados de fortes secas em alguns anos e de fortes chuvas, em outros. 

Fortes temporadas de chuvas são frequentes em toda a África Oriental. Neste ano, porém, o volume e a intensidade das chuvas estão muito acima da média histórica. De acordo com as observações dos cientistas, intensos fenômenos climáticos no Oceano Índico estão por trás dessas fortes chuvas. Conforme já comentamos em postagem anterior, a temperatura das águas do Oceano Índico vem aumentando sistematicamente nos últimos anos, causando uma série de mudanças no clima de grandes áreas da África e da Ásia. 

As medições sistemáticas da temperatura das águas do Oceano Índico começaram em 1880. Nos últimos anos, estas medições têm encontrado aumentos sucessivos nas temperaturas das águas: em 2010, foi observado um aumento de 0,70° C em relação à média histórica; em 2011, a temperatura média caiu um pouco e mostrou um aumento de 0,58° C; em 2012, o aumento foi de 0,62° C e em 2013, o aumento  foi de 0,67° C. Nos anos seguintes, foram registrados recordes sucessivos de aumento da temperatura: 0,74° C em 2014, 0,90° C em 2015 e 0,94° C em 2016. 

De todos os grandes oceanos do planeta, o Índico é o que, proporcionalmente, mais sofre com as interferências das mudanças climáticas na Antártida. O aumento da temperatura do planeta vem causando o derretimento de grandes massas de gelo no Polo Sul, o que tem provocado alterações nas correntes marinhas do Oceano Índico. Combinadas com o aumento da temperatura das águas, essas correntes marinhas tem reflexos diretos na formação e no deslocamento das massas de umidade que atingem a África e a Ásia – algumas áreas estão sofrendo com chuvas abaixo da média e outras com volumes muito acima da média histórica, como o que está acontecendo no Quênia nos últimos dias. 

As mudanças climáticas estão por aí e vieram para ficar. 

AS GRANDES INUNDAÇÕES EM VENEZA. CULPA DAS MUDANÇAS CLIMÁTICAS?

Veneza

A maravilhosa cidade de Veneza, na Itália, não tem saído dos noticiários nessas últimas semanas. Infelizmente, as notícias que vem de lá não tem nada a ver com o inestimável patrimônio artístico e cultural, cada vez mais ameaçado pelo turismo descontrolado. Veneza está vivendo, mais uma vez, o drama das enchentes, um evento que faz parte da história da cidade, mas, que dessa vez, está com uma intensidade muito acima do normal . A cidade passou vários dias completamente inundada, com grande parte de suas construções históricas sob ameaça.

A Lagoa de Veneza foi ocupada originalmente por tribos de pescadores, chamados de incola lacunae (habitantes da lagoa) em documentos romanos do início da era cristã. Existiam nessa lagoa mais de 110 pequenas ilhas e inúmeros canais. A formação da cidade, muito provavelmente, começou por volta do século V da Era Cristã, quando moradores de cidades romanas como Pádua, Aquileia, Altino e Concórdia fugiram dos invasores Germânicos e Hunos, passando a se refugiar nas ilhas da Lagoa de Veneza. Poucos séculos mais tarde, Veneza se transformaria numa das cidades mais poderosas e importantes da Europa. 

Com sua localização pouco comum e graças a grande riqueza acumulada com o comércio marítimo, Veneza foi transformada em uma cidade com uma arquitetura diferenciada, cortada por inúmeros canais e repleta de construções monumentais como a Praça de São Marcos e sua famosa basílica, diversos palácios góticos e bizantinos, a Torre do Campanário, a Ponte dos Suspiros, entre outras. O Carnaval de Veneza também é famoso em todo o mundo e costuma atrair verdadeiras multidões. A cidade é o terceiro maior destino turístico da Itália. 

O fenômeno das enchentes na cidade é chamado pelos venezianos de “acqua alta” e geralmente está associado às altas marés do Mar Adriático. Oficialmente, a “acqua alta” ocorre quando o nível da maré supera a marca de 90 mm acima do nível normal do mar. Na grande maioria dos casos, a “alta” afeta as partes mais baixas da cidade, criando apenas alguns transtornos para a circulação dos pedestres e alagando algumas casas e lojas. Porém, em casos mais graves, a “acqua alta” pode atingir a maior parte de Veneza. 

Um dos casos mais graves já documentados de enchentes em Veneza aconteceu em 1966, quando a maré atingiu a marca de 180 mm acima do nível normal e mais de 96% da cidade ficou inundada. Em outubro de 2004, a maré atingiu a marca de 135 mm e inundou 80% da cidade. Um outro evento marcante aconteceu em 2008, quando fortes tempestades no Mar Adriático provocaram uma forte elevação da maré, que atingiu a marca de 156 mm

No último dia 13 de novembro foi registrada a maior enchente de Veneza nos últimos 50 anos – o nível da maré atingiu a marca de 187 mm. A mundialmente famosa Praça de São Marcos ficou encoberta com uma lâmina de água com altura de 144 mm. A inundação também atingiu a Basílica de São Marcos, que ficou com uma lâmina de água com altura de 110 mm. Essa foi a sexta vez em 1.200 anos que a Basílica foi inundada, sendo que quatro dessas inundações ocorreram nos últimos 20 anos

Nos dias que se seguiram, as condições no Mar Adriático não se alteraram e a “acqua alta” se manteve forte e foram registrados níveis de 144, 154 e 150 mm, o que manteve Veneza inundada por quase uma semana. De acordo com informações do Prefeito da cidade, Luigi Brugnaro, as inundações dessa temporada já provocaram prejuízos da ordem de 1 bilhão de Euros, além de ter colocado em risco os importantes patrimônios arquitetônicos e históricos da cidade. 

O fenômeno da “acqua alta” é comum entre o final do outono e o começo do inverno na Europa. As altas marés são influenciadas por uma combinação do ciclo lunar, de tempestades no Mar Adriático e também pelos ventos de siroco, fortes correntes de ar quente que vêm da região do Deserto do Saara, no Norte da África. Os cientistas suspeitam que mudanças climáticas associadas ao aquecimento global podem estar por trás do aumento das intensidades das altas marés que invadem Veneza. O assoreamento da Lagoa de Veneza também pode estar contribuindo para a intensificação do fenômeno

Apesar dos transtornos criados pela multidão de turistas que invadem a cidade diariamente, essa atividade é de vital importância para a economia de Veneza. Os poucos turistas que estão visitando a cidade neste momento estão sendo obrigados a se deslocar sobre passarelas de madeira improvisadas (vide foto). As águas invadiram hotéis, restaurantes e lojas, prejudicando imensamente a infraestrutura de atendimento aos visitantes. Os vaporettos, os barcos de transporte público, e as tradicionais gôndolas estão com sua circulação limitada por razões de segurança. A população local também está sendo muito prejudicada pelas enchentes, sofrendo com cortes de energia, no sistema de abastecimento de água potável e também com a falta de produtos nos mercados da cidade. As escolas estão com as aulas suspensas até a melhoria da situação. 

Desde 2003, a Prefeitura de Veneza vem tentando implementar o Projeto Mose, que consiste em um conjunto de comportas móveis que terão a função de fechar a ligação entre a Lagoa de Veneza e o Mar Adriático. Quando esse sistema estiver totalmente concluído, as comportas poderão ser acionadas sempre que se detectar a formação da “acqua alta”, protegendo a cidade de Veneza das enchentes. O grande problema é que as obras, estimadas em US$ 7 bilhões, estão cercadas de suspeitas de superfaturamento e há enormes indícios de corrupção, algo muito parecido com muitas obras que conhecemos aqui no Brasil. De acordo com as últimas projeções, as obras só serão concluídas em 2021.  

Como se toda essa situação de Veneza já não fosse suficientemente dramática, violentas tempestades estão assolando o Sul da França, o Norte da Itália – inclusive a região do Vêneto, e o Oeste da Grécia desde o último final de semana. Até o dia 25 de novembro, as autoridades desses países já haviam contabilizado sete mortes por causa das enchentes e dos desmoronamentos de construções. Essas fortes chuvas aumentaram os problemas em Veneza. 

De acordo com informações do Météo France, o serviço de meteorologia do Governo da França, essas tempestades estão associadas a um fenômeno recorrente no Mar Mediterrâneo, chamado de cévenols em francês. De acordo com as informações divulgadas, esse fenômeno ocorre de três a seis vezes por ano, levando à formação de fortes chuvas entre os meses de setembro e outubro – algumas vezes, as chuvas se estendem até novembro. O serviço francês garante que essas forte chuvas são normais e que não tem qualquer relação com as mudanças climáticas globais.

O aquecimento global está sendo provocado pelo aumento da quantidade de gases de efeito estufa na atmosfera terrestre, que acabam por provocar um lento e gradual aumento da temperatura média do planeta.  Entre os principais responsáveis por esse efeito está a queima de combustíveis fósseis como o carvão e os derivados de petróleo, as queimadas em florestas, entre outras atividades humanas. O aumento do nível dos oceanos é uma das principais consequências do aquecimento global e muitas cidades costeiras poderão, em um futuro não muito distante, enfrentar problemas semelhantes ao que Veneza está sofrendo atualmente. 

Apesar de fortes evidências que essa elevação dos níveis dos oceanos já está acontecendo, ainda tem gente que não acredita no aquecimento global. 

OS VIOLENTOS INCÊNDIOS FLORESTAIS NA AUSTRÁLIA E AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS

Incêndios Florestais na Austrália

Na última postagem comentamos sobre o mais recente relatório sobre os desmatamentos na Floresta Amazônica. De acordo com dados do INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, a Amazônia perdeu 9.762 km² de sua vegetação nativa, o que representa uma perda de 0,22% da sua área total. Esses desmatamentos são uma consequência do aumento das atividades econômicas na Região e, para desespero de muita gente, vão continuar a acontecer ao longo dos próximos anos. 

A demanda por alimentos, produtos e matérias-primas de origem agropecuária vai se manter em alta ainda por muito tempo, pressionando a expansão das fronteiras agrícolas do país na direção da Amazônia. Grupos empresariais da China estão fazendo pesados investimentos em infraestrutura e na compra de terras por todo o continente africano e, dentro de poucos anos, a África vai se transformar em uma grande potência agrícola com foco no abastecimento da China. Na minha modesta opinião, somente quando isso se consolidar daqui uns 15 ou 20 anos, é que vamos sentir a pressão sobre os recursos naturais da Amazônia diminuir. 

Infelizmente, não é só a Floresta Amazônica que vem sofrendo fortes agressões ambientais – nesse exato momento, grandes extensões de florestas na Austrália estão ardendo em grandes incêndios. Desde o mês de setembro, grandes incêndios vêm devastando grandes áreas de florestas nos Estados de New South Wales e Queensland, com uma ferocidade jamais vista no país. Segundo as estimativas oficiais, cerca de 1,6 milhão de hectares já foram atingidos pelo fogo

A Austrália, chamada por muitos de ilha-continente, é pouca coisa menor do que o Brasil – o país ocupa uma área de 7,7 milhões de km², exatamente 10% a menos do que o nosso território. Apesar da localização do país ocupar praticamente as mesmas latitudes das regiões Central e Sul do Brasil, o clima australiano é bem diferente do nosso – aliás, podemos afirmar que é praticamente o inverso. No Brasil, o clima Semiárido é encontrado em uma área relativamente pequena do interior da região Nordeste e no Norte do Estado de Minas Gerais – a maior parte do país tem clima Equatorial e Tropical; na região Sul, o clima é subtropical.  

Na Austrália, a maior parte do território tem climas Semiárido e Desértico; uma estreita faixa ao longo das costas do Sul e uma grande área no Sudeste do país têm um clima Mediterrâneo, que nada mais é do que um clima temperado. Pequenas faixas ao Sudoeste e Leste do continente tem um clima Subtropical e uma faixa no extremo Norte apresenta características Tropicais (clima quente com uma forte temporada de chuvas de Monção).  As áreas do país cobertas por florestas se concentram justamente nessas zonas de climas Mediterrâneo, Subtropical e Tropicais. 

De todos os continentes habitados do mundo, a Austrália é o mais seco. Para efeito de comparação, o Brasil possui 12% das reservas de água doce do mundo (lembrando que a maior parte dessas águas se encontram na Bacia Amazônica), com chuvas regulares na maior parte do território. A Austrália, ao contrário, detém apenas 1% das reservas mundiais de água doce. Grande parte do território australiano sofre com a falta de chuvas, que além de ocorrerem somente numa temporada específica, caem em volumes muito pequenos.

Como se não bastassem todos esses problemas, o país enfrentou uma fortíssima estiagem generalizada entre os anos 2000 e 2009. Neste ano de 2019, a temporada de chuvas ficou bem abaixo da média histórica e as altas temperaturas vêm batendo sucessivos recordes. Esse verdadeiro “caldeirão australiano” tem favorecido os incêndios florestais. 

Incêndios florestais são comuns na Austrália durante o verão, assim como o são no Cerrado brasileiro e nas Savanas africanas. Em alguns anos, entretanto, a intensidade desses incêndios é muito maior, como está sendo o caso desse ano, Além da falta de chuvas e das altas temperaturas, neste ano os ventos estão mais fortes na Austrália, o que vem agravando a propagação das chamas. Seis pessoas já morreram e cerca de 450 casas já foram destruídas. Existem, pelo menos, 140 focos de incêndio no país. 

As maiores e principais cidades do país estão tomadas por uma forte cortina de fumaça, o que vem causando diversos problemas respiratórios. O volume e a intensidade da fumaça dos incêndios na Austrália estão tão intensos que estão sendo percebidos aqui na América do Sul, a mais de 12 mil km de distância. Segundo dados do SMN – Serviço Meteorológico Nacional da Argentina, desde o último dia 14 de novembro, traços dessa fumaça estão sendo detectados no país. 

Além dos graves prejuízos às populações humanas das áreas rurais e urbanas, principalmente do Nordeste, Sul e Sudeste da Austrália, esses grandes incêndios florestais estão sendo devastadores para várias espécies animais, particularmente para os coalas, animal só encontrado nas florestas do país. Os coalas são marsupiais que parecem pequenos ursos de pelúcia e estão seriamente ameaçados de extinção. A dieta desse animal é constituída basicamente de folhas de eucalipto, espécie de árvore nativa da Austrália e que há várias décadas vem tendo suas florestas nativas derrubadas para a abertura de campos agrícolas – o país é um grande produtor de trigo e de cana-de-açúcar, além de abrigar importantes rebanhos de bovinos e ovinos. 

Centenas de coalas já morreram nos incêndios e outros tantos estão internados em hospitais veterinários com queimaduras graves e problemas respiratórios. Uma cena que correu o mundo nesses últimos dias mostra uma mulher salvando um coala que estava preso em meio as chamas (vide foto abaixo). A mulher correu para o meio do fogo, tirou a própria camisa e enrolou no animal assustado, que já apresentava diversas queimaduras no corpo. O animal está em recuperação em um hospital universitário. 

Coalas

Os serviços de meteorologia do país esperam a chegada de duas frentes frias entre os últimos dias desse mês de novembro e primeiros dias de dezembro, o que pode trazer algumas chuvas e um pouco de alívio para as regiões afetadas pelos incêndios florestais. Entretanto, como a temporada dos incêndios no país costuma ocorrer entre os meses de outubro e março, as autoridades da Austrália estão bastante pessimistas – o pior dos incêndios ainda pode estar por vir. 

Desde meados do século XIX, quando as observações meteorológicas passaram a ser rigorosamente anotadas e estudadas, o padrão climático da Austrália vem se mantendo constante, com a temporada das chuvas ocorrendo com bastante regularidade – a colonização e a ocupação do país foram baseadas nessa regularidade dos padrões climáticos. Nessas últimas três décadas, entretanto, vem ficando cada vez mais evidente que o clima do país vem mudando, o que muitos cientistas estão associando às mudanças climáticas globais. Entre os anos 2000 e 2009, a Austrália enfrentou uma fortíssima seca, chamada de Seca do Milênio, a temporada anual de chuvas tem ficado irregular e os incêndios florestais estão ficando mais intensos a cada ano que passa, problemas que vêm preocupando muito os dirigentes do país. 

Um país-continente que já é considerado o mais seco do mundo e que poderá ficar ainda mais seco – isso tem tirado o sono de muita gente. 

OS MAIS RECENTES NÚMEROS DOS DESMATAMENTOS NA AMAZÔNIA

Desmatamentos na Amazônia 2019

Nas últimas postagens, falamos um pouco dos graves problemas ambientais criados pelos derramamentos acidentais (ou não) de petróleo nas águas de mares, rios e lagos aqui no Brasil e em o todo o mundo. Como todos devem estar acompanhando nos telejornais e redes sociais, misteriosas manchas de óleo começaram a aparecer por todo o litoral do Nordeste a partir do final do mês de agosto, causando imensos impactos ambientais em praias, manguezais e em áreas estuarinas de toda a Região. Nos últimos dias, fragmentos de óleo passaram a ser encontrados em praias dos Estados do Espírito Santo e do Rio de Janeiro. Felizmente, a intensidade e a frequência do aparecimento dessas manchas e fragmentos de óleo estão diminuindo – os responsáveis pelo incidente, apesar de fortes suspeitas, ainda não foram identificados. 

Antes de tratarmos dos problemas ambientais criados pela extração e transporte do petróleo, estávamos falando da Amazônia e dos seus muitos problemas. Em meados do último mês de agosto, redes sociais e noticiários dos principais telejornais do mundo passaram a mostrar, à exaustão, imagens da Floresta Amazônica sendo consumida pelo fogo. Líderes internacionais como Emmanuel Macron, Presidente da França, ambientalistas, artistas e celebridades de todos os “naipes”, entre muitos outros, se transformaram em verdadeiros experts em Amazônia e passaram a falar abertamente da “destruição iminente da maior floresta equatorial do mundo pelo fogo”. 

Um dos grandes destaques desse verdadeiro espetáculo de horrores amazônicos foram os pronunciamentos da jovem sueca Greta Thunberg, que se notabilizou por faltar às aulas nas sextas-feiras para ir protestar em prol do meio ambiente em frente ao Parlamento da Suécia. Se somarmos tudo o que foi mostrado e falado por todos esses “especialistas” sobre as queimadas na Amazônica nesse período, hoje teríamos apenas um gigantesco deserto de cinzas às margens dos rios da Bacia Amazônica. 

Agora um fato curioso – passado o anúncio do ganhador do Prêmio Nobel da Paz de 2019 – Abiy Ahmed Ali, Primeiro-Ministro da Etiópia, os “especialistas” em Amazônia sumiram dos noticiários e das redes sociais. Aparentemente, toda essa gritaria estava sendo orquestrada na forma de um grande lobby, com o claro objetivo de induzir o Comitê do Nobel a indicar a jovem Greta à premiação. Já os incêndios que estavam consumindo “toda” a Floresta Amazônica, essas foram debelados em muitos lugares por forças civis e militares a serviço dos Governos Federal e dos Estados, além de serem controladas gradativamente com a chegada do inverno amazônico e suas salvadoras chuvas. 

Um novo capítulo dessa “saga” das queimadas na Amazônia começou a ser escrito no último dia 18, quando o INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, publicou um relatório sobre os desmatamentos na região no período entre agosto de 2018 e julho de 2019. De acordo com os dados, a Amazônia perdeu uma cobertura florestal estimada em 9.762 km², ou o equivalente a 8 vezes a área total da cidade de São Paulo. O dado “bomba” desse relatório é que isso representou um aumento de 29,54% em relação ao período medido anteriormente entre agosto de 2017 e julho de 2018. 

Esse brusco crescimento da área total desmatada nesse período contrariou as expectativas dos especialistas, que esperavam um número inferior a 7 mil km². De acordo com os dados históricos do INPE, esse foi o maior desmatamento desde o ano de 2008, quando foi registrada uma perda de vegetação nativa de quase 13 mil km². Foi justamente a “surpresa” de todo esse crescimento dos desmatamentos na Amazônia que deu um novo fôlego aos ecologistas e “especialistas” em Amazônia de plantão. 

Matérias publicadas em páginas das redes sociais e nos telejornais passaram a mostrar o grande crescimento dos desmatamentos na Floresta Amazônica, relembrando as “grandes queimadas que devastaram” a região meses antes. Gráficos com complexos dados estatísticos passaram a ser mostrados incansavelmente; “especialistas” das mais diferentes áreas passaram a traçar os cenários mais sombrios sobre o futuro do bioma – ”a continuar esse nível de devastação, a Floresta Amazônica desaparecerá dentro de poucas décadas”.  Pouca atenção foi dada aos números absolutos.

Quando se analisam os dados com maior atenção, se observa que 84% desses desmatamentos se concentraram nos Estados do Pará, Mato Grosso, Amazonas e Rondônia. O Pará foi responsável por quase 40% da área total desmatada ou cerca de 3.900 km². Na sequência, temos os Estados do Mato Grosso, Amazonas e Rondônia, com participações respectivas de 17,26%, 14,56% e 12,75%. Por coincidência, são estes os Estados amazônicos que apresentaram as maiores taxas de crescimento populacional nas últimas décadas e onde os assentamentos rurais e urbanos estão consolidados já há vários anos. 

A maioria desses desmatamentos estão ligados diretamente ao crescimento das atividades econômicas já instaladas nesses Estados. Existem centenas de milhares de fazendas e pequenas propriedades rurais na Região – muitas dessas propriedades ampliaram as suas áreas produtivas e realizaram desmatamentos. Também podemos especular, para efeito de exemplo, que foram criadas milhares de novas propriedades rurais, onde foi necessária a derrubada de trechos de matas – uma propriedade rural típica da Amazônia tem 100 hectares ou 1 km². Somadas todas essas áreas, se chega facilmente aos 9.762 km² desmatados no período e se concluirá que essa área não é tão grande quanto muitos “especialistas” fazem supor. 

Uma outra forma de se analisar esses desmatamentos é se observar a perda de cobertura vegetal em relação à área total da floresta: se considerarmos que a Floresta Amazônica em território brasileiro ocupava originalmente 4,5 milhões de km², a perda de cobertura florestal no período 2018-2019 foi de 0,21%. Considerando que a Floresta Amazônica brasileira já perdeu 15% de sua cobertura original, seriam necessários mais de 400 anos para devastar o restante da Floresta se mantida essa taxa de desmatamento.

A perda de qualquer quantidade de área de florestas em nosso mundo atual é sempre preocupante, mas estamos muito longe da situação apocalíptica pregada por muita gente em relação à Floresta Amazônica. Para efeito de comparação, perto de 70% das florestas equatoriais da Malásia desapareceram nos últimos 30 anos por causa da expansão das plantações de palma e produção de azeite de dendê – isso sim é verdadeiramente dramático.

É claro que existem inúmeros problemas na Região – áreas indígenas, reservas naturais, florestas nacionais e áreas de preservação permanente estão sendo ocupadas ilegalmente por grileiros, madeireiros e garimpeiros, que estão derrubando matas sem qualquer controle. Todas essas infrações devem ser combatidas com o máximo rigor da lei e muita fiscalização. 

A população atual da Região Amazônica brasileira está na casa dos 23 milhões de habitantes e toda essa gente precisa fazer alguma coisa para ganhar o seu “pão de cada dia” – isso fatalmente provoca impactos nas matas da região. Aqui é importante lembrar que grandes esforços para a ocupação de toda a Região foram feitos por sucessivos Governos nos últimos 50 anos. Muitas estradas foram abertas, foram criados projetos de colonização e reforma agrária, projetos de mineração, entre outros esforços. Milhões de brasileiros se predispuseram a migrar para a Amazônia e começar uma vida nova.  

Também vale a pena citar que, logo após a II Guerra Mundial (1939-1945), surgiu a ideologia da Hileia Amazônica, onde muitos líderes políticos mundiais propuseram a internacionalização da Amazônia e sua “administração” por um organismo multinacional – o temor dessa eventual internacionalização foi um dos grandes estímulos à uma ocupação rápida e intensa da Amazônia brasileira.

De resto e como sempre, existe “muita fumaça e pouco fogo” nesses dados sobre os desmatamentos na Amazônia. É precisa muita cautela e bom senso ao se analisar e contextualizar essas informações – ainda falta muito para o “fim do mundo”…

O NAUFRÁGIO DO NAVIO PETROLEIRO AMOCO CADIZ NO LITORAL DA FRANÇA EM 1978

Amoco Cadiz

A Europa é, já há muitos anos, o continente que adota as práticas de segurança mais rígidas para o transporte de petróleo e seus derivados. O último grande acidente envolvendo o transporte de petróleo em águas europeias ocorreu em 1978, quando o navio Amoco Cadiz naufragou nas costas da Bretanha e provocou o maior desastre ambiental da história, só superado pela tragédia com o Exxon Valdez onze anos depois. 

Cadiz era um superpetroleiro da classe VLCC – Very Large Crude Carrier, ou Transportador de Óleo Muito Grande, de propriedade da empresa petrolífera norte-americana Amoco. A embarcação foi construída em 1974 por um estaleiro espanhol localizado em Cádiz, sendo batizado com o nome dessa cidade. Há época do acidente, a embarcação era nova e considerada uma das mais modernas da frota mundial.  Com um comprimento total de 334 metros, o Amoco Cadiz tinha capacidade para transportar cerca de 270 mil toneladas de petróleo bruto

Em sua última viagem, o Amoco Cadiz estava transportando uma carga de petróleo iraniano embarcado no Golfo Pérsico e seguia na direção a uma refinaria na Europa. Na manhã do dia 16 de março, enquanto a embarcação enfrentava uma forte tempestade ao largo da costa da Bretanha, no Noroeste da França, ela foi atingida por uma onda gigantesca. O impacto da onda no casco danificou o sistema do leme, deixando o navio à deriva. Um navio rebocador foi enviado em auxílio ao Amoco Cadiz, porém, devido as más condições do mar, não foi possível realizar qualquer tipo de manobra ou operação. O superpetroleiro encalhou num afloramento rochoso localizado a 3 milhas da costa, próximo do pequeno porto de Portsall

O grave acidente acabou transformado numa gigantesca tragédia no dia seguinte – atingindo continuamente por fortes ondes, o casco do Amoco Cadiz foi partido ao meio (vide foto), liberando a maior parte de sua carga de petróleo nas águas do Atlântico Norte. Uma grande mancha de óleo foi espalhada ao longo de 1.300 km, atingindo toda a costa Oeste da França e também praias do Nordeste da Espanha. 

De acordo com levantamentos realizados pela NOAA – Administração Nacional Oceânica e Atmosférica na sigla em inglês, instituição ligada ao Governo dos Estados Unidos, o acidente com o Amoco Cadiz liberou 22.280 toneladas métricas de petróleo nas águas do oceano. Durante as operações de limpeza das águas que se seguiram, foram recuperadas cerca de 100 mil toneladas de água misturada com óleo e, desse total, apenas 20 mil toneladas de petróleo foram recuperadas em refinarias. A maior parte do petróleo que vazou acabou sendo dispersada de forma difusa pelo meio ambiente, se acumulando principalmente no leito oceânico

As consequências desse acidente ao meio ambiente vêm sendo intensamente estudadas por inúmeros cientistas de diversas áreas e existe uma farta quantidade de dados para consulta. Cerca de 300 km de praias de areia, de pedras e de cascalho foram atingidas. O óleo também atingiu paredões rochosos, molhes de pedras de áreas portuárias, além de ter atingido locais de vegetação costeira como lodaçais e sapais. Os locais atingidos pelo óleo tiveram 30% de sua fauna e 5% de sua flora destruídos

O primeiro grande impacto às comunidades da fauna aquática foi mostrado cerca de duas semanas depois do acidente, quando as praias da região foram cobertas com os restos mortais de milhões de moluscos, ouriços-do-mar, crustáceos e outras espécies marinhas. As praias também foram tomadas por cerca de 20 mil aves marinhas mortas, principalmente de espécies que mergulham para capturar seus alimentos. O óleo presente na água fica impregnado nas penas das aves, que não conseguem mais regular a temperatura corporal e acabam morrendo por hipotermia. 

O petróleo também atingiu inúmeras “fazendas” de criação de ostras, vieiras e outras espécies de moluscos de alto valor comercial e bastante usadas na culinária francesa. Cerca de 9 mil toneladas desses produtos tiveram de ser descartados por riscos de contaminação, prejudicando milhares de pequenos produtores e trabalhadores do setor. A pesca de diversas espécies de peixes e também a coleta de algas foram afetados. O turismo em toda a região, uma importante atividade econômica, também ficou seriamente prejudicado. 

Durante os processos de limpeza de rochas e paredões rochosos, as equipes utilizaram jatos de alta pressão, onde a água recebe produtos químicos a base de solventes. Apesar de remover satisfatoriamente o óleo que ficou preso na superfície das rochas e melhorar a paisagem das praias e costões rochosos, esse processo apenas transferiu o problema para o fundo do oceano – as equipes de limpeza lançavam pó de giz sobre as manchas de óleo, o que criava aglomerados pesados e que afundavam rapidamente. 

No acompanhamento dos impactos ambientais às espécies bentônicas, ou seja, que vivem no fundo marinho, os especialistas perceberam que diversas espécies, principalmente os equinodermos, filo onde se incluem as estrelas-do-mar, e pequenos crustáceos desapareceram completamente de muitas áreas. Foram necessários mais de ano para que essas áreas voltassem a ser colonizadas, o que demonstra a intensidade dos impactos da presença de óleo no fundo oceânico. Essa limpeza com jatos de alta pressão também prejudicou inúmeras comunidades de seres vivos que vivem nas chamadas “zonas de maré”, onde se incluem ostras e cracas que vivem presas nas pedras e costões rochosos – foram necessários vários anos para a recuperação dessas comunidades. 

Nas áreas alagadiças da costa, de difícil acesso e limpeza, os impactos da presença do óleo foram sentidos por vários anos. Esses ecossistemas, onde os sapais são os mais importantes, são áreas de terras baixas ao longo da costa que são sujeitas ao alagamento por água do mar durante a maré alta. Nessas águas salobras se encontra uma vegetação características, conhecida como halofítica, ou seja, dotada de grandes raízes adaptadas para a vida na água como os manguezais das regiões tropicais. Algumas dessas espécies de planta crescem sobre uma grossa camada de sal. 

Os sapais da Europa, assim como ocorre com os manguezais, são ecossistemas de grande importância ambiental, fornecendo grande quantidade de matéria orgânica para os oceanos. Existem diversas espécies marinhas que se reproduzem e vivem parte do seu ciclo de vida nos sapais e que são fundamentais na cadeia trófica de diversas espécies marinhas de grande valor comercial. Como consequência da contaminação dessas áreas alagadas por óleo, a produtividade pesqueira de uma extensa região da França ficou prejudicada por vários anos.

O Governo da França, em conjunto com pescadores, criadores de moluscos marinhos, empresas da área de turismo, entre outros prejudicados com o acidente, entrou com um pedido de indenização na Justiça dos Estados Unidos, país onde fica a sede da empresa propritária do Amoco Cadiz. Em 1992, as partes chegaram a um acordo, quando foi acertada uma indenização de US$ 200 milhões, menos da metade do valor reinvindicado pelos europeus.

O gravíssimo acidente com o superpetroleiro Amoco Cadiz provocou uma série de mudanças na legislação dos países europeus, tornando muito rigorosas as regras de segurança exigidas para o embarque, transporte, desembarque e armazenamento de petróleo no continente. Graças a todas essas mudanças, nenhum outro acidente de grande porte como o do Amoco Cadiz voltou a ser registrado.

Felizmente, existem lugares do mundo onde as pessoas aprendem alguma coisa a partir de seus próprios erros. Ai que inveja que dá…

A INVASÃO DO KUWAIT PELO IRAQUE EM 1990, O INCÊNDIO DE POÇOS E O DESPEJO PROPOSITAL DE 500 MILHÕES DE BARRIS DE PETRÓLEO NO MAR

Vazamentos de petróleo no Kuwait

Quando se fala em derrame de petróleo no mar, é obrigatório citar o despejo intencional de 500 milhões de barris por tropas do exército do Iraque ao longo da desastrosa invasão do Kuwait entre 1990 e 1991. Esse gigantesco derramamento de petróleo é considerado o maior da história da humanidade e suas consequências nas águas do Golfo Pérsico são sentidas até hoje. Para entender a origem do conflito entre o Iraque e o Kuwait, é preciso relembrarmos um pouco da história do antigo Império Otomano:

A partir do final do século XIII, começou a se formar na região da Anatólia, na Turquia, aquele que seria conhecido no mundo todo como o Império Otomano. Esse Império foi fundado pelo líder tribal Oguz Osmã I por volta do ano 1299. Ocupando inicialmente todo o território da Turquia, o Império Otomano começou a se expandir em direção ao Cáucaso, Sudeste da Europa, Ásia Ocidental, Norte da África e também na região conhecida como Chifre da África. Esse grande Império sobreviveu até 1922 – os turcos se aliaram aos alemães na I Guerra Mundial e, terminado o conflito, grande parte do território do derrotado Império Otomano acabou na mão das Potencias Aliadas vencedoras da Grande Guerra Mundial. 

As fronteiras atuais do Iraque e do Kuwait foram demarcadas pela Sociedade das Nações em 1920, quando foi assinado o Tratado de Sèvres, acordo internacional para a divisão dos territórios do Império Otomano entre os Aliados (Reino da Grécia, Reino da Itália, Império Britânico e República Francesa). Essa região ficou submetida a autoridade do Reino Unido, onde foi criado o Mandato Britânico da Mesopotâmia. Essa divisão foi feita de forma a atender os interesses econômicos dos Britânicos, entenda-se aqui a exploração do petróleo, e não levou em conta os povos que viviam nesses territórios desde a antiguidade. 

Historicamente, a região onde foi formado o Kuwait fazia parte de uma grande região ocupada por tribos sunitas, o principal grupo étnico do Iraque. Em 1932, o Iraque conquistou sua “independência” do Império Britânico e, desde então, a ideia de integrar o Kuwait ao território iraquiano passou a ser gestada. O Kuwait se manteve como um protetorado independente do Império Britânico até 1961, o que inibiu por muito tempo as intenções expansionistas do Iraque. 

Em agosto de 1990, quando o Iraque era dirigido pelo sanguinário ditador Saddam Hussein, tropas do país invadiram o Kuwait, que foi transformado em uma província do Iraque. As justificativas de Saddam para essa invasão citavam a ligação histórica da região e dos seus habitantes ao Iraque, falavam de roubo de petróleo do subsolo iraquiano pelo Kuwait e que estava sendo vendido abaixo do preço do mercado internacional, entre outras desculpas esfarrapadas. Segundo muitos analistas internacionais, a real intenção do Governo do Iraque era se livrar de uma grande dívida junto Kuwait, resultante de um empréstimo tomado durante a Guerra Irã-Iraque, conflito que se estendeu de 1980 a 1988 e que arrasou a economia do país.

O grande “golpe de mestre” de Saddam Hussein não durou muito tempo – uma grande coalizão militar liderada pelos Estados Unidos e com a participação de 30 países aliados foi formada com autorização do Conselho de Segurança da ONU – Organização das Nações Unidas. Vigorosas sanções econômicas foram impostas ao Iraque, que foi intimado a sair do Kuwait até o início de janeiro de 1991. O Iraque não atendeu aos apelos da ONU. 

No dia 17 de janeiro de 1991 teve início a chamada “Operação Tempestade no Deserto”, também chamada de I Guerra do Golfo. Essa foi a maior operação militar desde o final da II Guerra Mundial e foi transmitida ao vivo por televisões de todo o mundo. Quem é um pouco mais velho deve se lembrar dos poderosos mísseis Tomahawk lançados pelos navios de guerra americanos, que iluminavam as noites do deserto com suas explosões. Os iraquianos respondiam os ataques lançando seus antiquados mísseis Scud. Caças bombardeiros dos países aliados decolavam a todo momento de porta-aviões e bases áreas próximas, atingindo com “precisão cirúrgica” as posições iraquianas. Dados históricos falam de 85 mil toneladas de bombas lançadas nesse conflito. 

O poderio desproporcional das forças aliadas levou o Iraque a abandonar o Kuwait em 26 de fevereiro. As estimativas falam de baixas entre as tropas do Iraque entre 60 mil e 200 mil, além de um número de civis iraquianos mortos estimados entre 40 mil e 180 mil. Entre os kuwaitianos, as estimativas falam de 4 mil a 7 mil mortos. As forças aliadas perderam 148 soldados em combate, além de 145 mortes por motivos diversos, entre eles o chamado “fogo amigo”. Essa retirada vergonhosa dos iraquianos não foi gratuita –Saddam Hussein ordenou a abertura de todas as válvulas dos reservatórios de petróleo, oleodutos e navios petroleiros do Kuwait, o que levou ao vazamento de cerca de 500 mil barris de óleo nas águas do Golfo Pérsico. O ditador talvez imaginasse incendiar todo esse óleo, de forma a prejudicar as ações militares das forças aliadas.  

Outra ordem dada por Saddam Hussein a seus soldados foi a de destruir e incendiar todos os poços de petróleo em operação no Kuwait (vide foto). Essa é uma antiga tática militar usada por forças em debandada – a “terra arrasada”. A ideia dessa “política” é a de destruir toda a infraestrutura dos territórios abandonados – ferrovias, rodovias, pontes, fábricas, redes de energia elétrica e de telecomunicações, refinarias de petróleo, entre outras, o que evitará seu uso pelas tropas inimigas. De acordo com as imagens de satélite da época, cerca de 500 poços de petróleo foram incendiados no Kuwait. 

As colunas de fumaça geradas por esses incêndios chegavam a se estender por distâncias de até 1.300 km, lançando grandes quantidades de fuligem sobre o deserto, que em muitos lugares ficou totalmente negro. A atmosfera local ficou tomada por grandes quantidades de dióxido de enxofre, causando uma série de problemas respiratórios na população local. Um geólogo egípcio que trabalhou nas operações de contenção dos incêndios nos poços de petróleo afirmou que os incêndios e a grande mancha de óleo no Golfo Pérsico eram a “mãe de todos os desastres ambientais”. Essa afirmação ironiza uma fala frequente do ditador iraquiano, que dizia se essa era “mãe de todas as guerras”.

Foram necessários quase dez meses de trabalho de equipes especializadas somente para apagar os incêndios de todos os poços de petróleo, a um custo estimado de US$ 12 bilhões. Cerca de metade do petróleo que vazou no Golfo Pérsico pode ser recuperado com o uso de embarcações com equipamentos especiaisde sucção. Grandes quantidades de petróleo foram lançadas contra as praias do Kuwait e da Arábia Saudita, onde foi necessário o emprego de grandes equipes de trabalhadores e o uso de muitas máquinas para a limpeza da areia. Uma parte considerável desse petróleo acabou afundando e se acumulando sobre o fundo marinho e os recifes da região. 

Passados quase trinta anos dessa tragédia, os ecossistemas locais ainda não se recuperaram completamente. As marcas negras do petróleo ainda podem ser vistas nos recifes e nas algas da região; as populações de peixes, aves e outros animais marinhos ainda não se recuperaram. De acordo com especialistas da área médica, a incidência dos casos de problemas cardíacos e de câncer aumentou consideravelmente na população do Kuwait, uma consequência direta da poluição. Doenças respiratórias que antes eram consideradas pouco frequentes na região passaram a ser consideradas comuns e muito preocupantes

Saddam Hussein acabaria sendo deposto e preso em 2003 durante a chamada II Guerra do Golfo. Ele foi julgado por um Tribunal Especial iraquiano por genocídio e crimes contra a humanidade, sendo condenado a morte e enforcado em 2006. Seu “legado” para as gerações futuras, entretanto, ainda demorará muito até ser completamente superado (se é que isso venha a ser totalmente possível). 

Os tiranos se vão, mas as tragédias ambientais ficam…