O DRAMÁTICO ACIDENTE COM O NAVIO PETROLEIRO EXXON VALDEZ NO ALASCA EM 1989

Exxon Valdez

Os leitores que têm mais de quarenta anos devem lembrar do gravíssimo acidente com o navio petroleiro Exxon Valdez em 1989. Após ser carregado com petróleo e sair do Porto de Valdez, que fica no Sul do Estado americano do Alasca, o navio Exxon Valdez colidiu com rochas subterrâneas na Enseada do Príncipe Guilherme, no Golfo do Alasca. O acidente abriu um grande rasgo no casco da embarcação, através do qual vazaram entre 257 mil e 759 mil barris de petróleo. Uma gigantesca mancha de óleo atingiu as costas da região, provocando o maior desastre ambiental por derramamento de petróleo até então. Vamos entender o acidente: 

O Alasca é o maior Estado norte-americano, com uma área de mais de 1,7 milhão de km². Para efeito de comparação, o Amazonas, o maior Estado brasileiro, tem uma área de 1,56 milhão de km². Até 1867, o Alasca era um território da Rússia, quando foi comprado pelo Governo dos Estados Unidos. Nos últimos anos do século XIX, com a descoberta de reservas de ouro, a região viveu a chamada “Corrida do Ouro”, o que atraiu um grande número de aventureiros para então Território do Alasca. Em poucos anos, com o esgotamento das reservas de ouro, o gelado Alasca acabou sendo praticamente esquecido pela maioria dos norte-americanos. 

A grande virada na história do Alasca veio em 1968, quando a maior reserva de óleo cru dos Estados Unidos foi descoberta. Desde então, a exploração do petróleo se transformou na espinha dorsal da economia do Estado, respondendo por cerca de 80% das receitas financeiras e pela geração da maior parte dos empregos locais. Em 1977, foi inaugurado um oleoduto com 1.300 km de extensão, ligando a Baía de Prudhoe, a maior região produtora de petróleo, ao terminal petrolífero do Porto de Valdez, no Sul do Estado, através do qual toda a produção “alaskan” de óleo é exportada. 

O intenso tráfego de navios petroleiros no Golfo do Alasca mudaria radicalmente no dia 24 de março de 1989. Após ser carregado com mais de 400 mil toneladas de petróleo, O Exxon Valdez saiu do Porto e se dirigiu para as águas abertas do Oceano Pacífico através do complicado Golfo do Alasca. Segundo os relatórios da época, o capitão do navio, Joseph Hazelwood, abandonou o comando da embarcação e foi para a sua cabine preencher “alguns documentos” – as investigações demonstraram que os tais “documentos” eram na verdade uma garrafa de whisky. O comando da embarcação de 330 metros de comprimento foi deixado sob a responsabilidade de um tripulante com pouca experiência

Passavam poucos minutos da meia noite quando a irresponsabilidade do capitão cobraria um alto preço – a embarcação atingiu um bloco de recifes submersos, o que rasgou o casco simples do petroleiro (os atuais navios petroleiros são construídos com um casco “duplo”) e teve início um grande vazamento de óleo nas águas oceânicas. Ao longo das oito semanas seguintes ao acidente, uma grande mancha de óleo foi espalhada pelas fortes correntes oceânicas através de mais de 750 km, afetando aproximadamente 2 mil km da costa irregular do Sul do Alasca. Algumas das praias atingidas ficaram cobertas com uma grossa camada de piche com até 90 cm de espessura. 

A empresa Exxon, uma das maiores companhias petrolíferas do mundo e dona da embarcação, foi obrigada a mobilizar um verdadeiro exército para a contenção do vazamento e limpeza ambiental. Foram 11 mil homens, 1.400 embarcações, 85 aviões e milhares de máquinas e equipamentos para uso na sucção do óleo e lavagem de rochas. Os trabalhos se estenderiam até 1992, com um custo total na casa de US$ 2 bilhões

Entre as trágicas imagens que passaram a ocupar grandes espaços nos telejornais e causaram extrema indignação ao mundo, destacam-se os animais resgatados com os corpos completamente cobertos com petróleo. Esses animais eram lavados com solventes para a remoção do óleo e eram encaminhados para centros de tratamento intensivo e recuperação, coordenados por médicos veterinários e biólogos. Apesar de todos os cuidados médicos, os índices de mortalidade eram altíssimos.  De acordo com estimativas oficiais, a tragédia provocou a morte de mais de 260 mil aves marinhas, 2.800 lontras-marinhas, 250 águias e 22 orcas, além de dezenas de milhares de peixes, crustáceos e moluscos marinhos

Vazamento de petróleo no Alasca

Após o acidente, todas as atividades ligadas à pesca, a segunda atividade econômica mais importante do Alasca, foram paralisadas no Sul do Estado, afetando diretamente uma população de 32 mil pessoas ligadas direta e indiretamente ao setor. Após um longo e tumultuado processo judicial, a empresa Exxon foi condenada a pagar uma indenização total de US$ 5 bilhões, valor que seria dividido entre todas as pessoas afetadas pelo desastre. Após recorrer da decisão em todas as instâncias da Justiça norte-americana, a Exxon teve uma apelação aceita pela Suprema Corte e as indenizações foram reduzidas para US$ 500 milhões

Passados 30 anos, o derramamento de óleo no Sul do Estado do Alasca ainda afeta a vida de milhares de pescadores da região. A produtividade pesqueira da região não é mais a mesma – os volumes de salmão, bacalhau, pollock e caranguejos, as espécies de maior importância comercial das águas da região, ainda são inferiores aos números de antes do vazamento. A captura de várias espécies de crustáceos e moluscos que vivem no fundo oceânico e que estão sujeitas à contaminação por resíduos remanescentes de petróleo continuam proibidas. Para estes pescadores, esse acidente acabou saindo “muito barato” para os cofres da Exxon

A tragédia com o navio petroleiro Exxon Valdez teve um conjunto de desdobramentos, provocando uma série de mudanças na legislação ambiental dos Estados Unidos. As normas de segurança para a extração, processamento e transporte de petróleo e seus derivados ficaram mais rigorosas, sendo inclusive proibido o uso de petroleiros de casco simples – essa norma acabou sendo adotada pelos principais países do mundo. As multas e indenizações a serem pagas pelos infratores também aumentaram substancialmente – no acidente com a plataforma Deepwater Horizon no Golfo do México em 2010, a empresa responsável, a BP –British Petroleum, teve de arcar com multas da ordem de US$ 20 bilhões. 

Exxon Valdez conseguiu ser resgatado e passou por uma grande reforma, sendo depois transferido para operações na Ásia, continente onde as regras para o transporte de petróleo eram bem menos rigorosas que nos Estados Unidos. Para não chamar a atenção, o navio foi rebatizado com o nome de Mediterranean. Em 2007, o navio passou por uma grande reforma e foi transformado em navio graneleiro para o transporte de minerais, quando recebeu um novo nome – Dong Fang Oceanuma mistura de chinês e inglês que significa algo como “Oceano Oriental”. 

Em 2011, o navio foi retirado do serviço e vendido como sucata para uma empresa da Índia. Em 2012, a trágica história do Exxon Valdez chegou ao final – o navio foi completamente desmontado num processo que durou 4 meses e parte dos seus equipamentos e maquinarias passaram a ser utilizados por outras embarcações; a sucata foi encaminhada para reprocessamento em usinas siderúrgicas locais. 

Um detalhe irônico da história do Exxon Valdez é que, nos seus últimos anos de atividade, ele singrou os mares da Ásia com o singelo nome de Oriental Nicetyque pode ser traduzido como “Escrúpulo Oriental”. 

O GIGANTESCO VAZAMENTO DE PETRÓLEO NAS ÁGUAS DO GOLFO DO MÉXICO EM 2010

Plataforma Deepwater Horizon

Em meio as notícias preocupantes que nos falam das manchas de petróleo que estão atingindo as praias da Região Nordeste, uma notícia semelhante passou desapercebida da maior parte da população: quatro praias do Estado de Tabasco, no México, foram tomadas por manchas de petróleo. O caso dessas misteriosas manchas de petróleo lembra muito o caso das nossas praias nordestinas – ninguém sabe a origem do óleo. A situação mexicana é muito preocupante – o Estado de Tabasco fica ao lado da Península de Yucután, o “paraíso caribenho do turismo”, onde fica a famosa cidade de Cancún. Em 2018, Cancún recebeu 4,2 milhões de visitantes, o que injetou cerca de US$ 21,3 bilhões na economia local, números que dão uma ideia das preocupações do Governo mexicano com essa tragédia ambiental.

As preocupações dos mexicanos são bem fundamentadas – com uma área de aproximadamente 1,6 milhão de km², o Golfo do México possui grandes reservas de petróleo, onde estão instaladas centenas de plataformas de exploração. Somente as empresas americanas produzem cerca de 1,9 milhão de barris de petróleo/dia nas águas da região, o que corresponde a 15% da produção total dos Estados Unidos. Além dos riscos de acidentes nas operações das plataformas de exploração, no carregamento de navios tanques e em vazamentos dos sistemas de oleodutos, que podem resultar em grandes vazamentos de óleo, a região do Golfo do México enfrenta tempestades e furacões cada vez mais fortes a cada ano

O maior acidente com petróleo no Golfo do México aconteceu em 2010, quando a plataforma Deepwater Horizon da empresa BP – British Petroleum explodiu e afundou. No acidente, 22 trabalhadores ficaram feridos e 11 morreram (vide foto). Com o naufrágio da plataforma, três dutos de óleo localizados a uma profundidade de 1.525 metros começaram a vazar, lançando cerca de 800 mil litros de petróleo por dia nas águas do Golfo do México. Esse vazamento durou 87 dias e lançou uma mancha de óleo que se espalhou por 1.500 km do litoral Sul dos Estados Unidos

A plataforma Deepwater Horizon operava a cerca de 80 km da costa do Estado da Lousiania, a região atingida com maior intensidade pelo vazamento. A mancha contínua de óleo que se formou após o acidente cobria uma área equivalente a onze vezes o tamanho da cidade do Rio de Janeiro. Diferente do vazamento de um navio tanque, que transporta um volume finito de petróleo, o vazamento que se seguiu ao colapso dessa plataforma era contínuo, com o óleo jorrando diretamente dos poços abertos no fundo oceânico. 

A importante região do Delta do rio Mississipi foi uma das áreas mais impactadas por esse grande vazamento de petróleo. Essa região é formada por pântanos com vegetação densa, conhecidos localmente como Bayou, e abriga cerca de 40% dos pântanos e manguezais dos Estados Unidos, número que nos dá uma ideia da sua importância ambiental para a flora e a fauna locais.  

Uma espécie local que foi seriamente ameaçada pelas manchas de óleo foi pelicano-marrom, ave ameaçada de extinção e símbolo do Estado da Louisiania. Essas aves precisam mergulhar para capturar os peixes e crustáceos que formam a sua dieta e acabavam ficando com as penas cobertas de óleo, o que as impede de regular a temperatura corporal, podendo resultar na morte dos animais por hipotermia.  

Equipes especializadas de resgate passaram a recolher as aves contaminadas, que passavam depois por uma lavagem com doses de solventes para a remoção do óleo e eram encaminhadas para áreas de recuperação. Apesar desses esforços, muitas aves que estavam escondidas em meio a densa vegetação do Bayou acabaram morrendo por falta de socorro. 

O Golfo do México também é o refúgio de inúmeras espécies migratórias como baleias e cachalotes, que migram para a região durante o inverno, buscando suas águas quentes para procriar. O Golfo também possui uma grande fauna local com peixes, golfinhos e quatro espécies de tartarugas-marinhas. Todas essas espécies foram afetadas pelos vazamentos de petróleo, embora seja bastante difícil de quantificar as perdas de indivíduos e os impactos da contaminação no longo prazo. 

O óleo também afetou profundamente a produção de crustáceos do Delta do Mississipi, principalmente os caranguejos, camarões e lagostins, iguarias famosas da culinária cajun da Louisiania. Criadores de camarão em cativeiro tiveram de suspender as suas atividades, o que causou prejuízos milionários. O Estado da Louisiania é o maior produtor de camarões dos Estados Unidos. 

De acordo com estudos coordenados pela Virginia Tech University dos Estados Unidos e publicados em 2017, o vazamento de petróleo da plataforma causou prejuízos aos recursos naturais da região calculados em mais de US$ 17 bilhões. A BP declarou ter gasto cerca de US$ 14 bilhões nos trabalhos de limpeza e mitigação dos efeitos do vazamento. A empresa também foi condenada pela Justiça do Estado da Louisiania em 2016 a pagar uma multa de US$ 20,8 bilhões por danos econômicos e ambientais. De acordo com informações da British Petroleum, os danos globais do acidente representaram perdas de US$ 53 bilhões aos cofres da empresa

Além dos danos ambientais e econômicos contabilizados na região do Golfo do México, existem danos difusos e incalculáveis que podem ter atingido uma extensa área que vai do Estreito da Flórida até o Mar Báltico e a Islândia, em território da Europa. As águas quentes do Golfo do México formam uma forte corrente marítima, conhecida como Corrente do Golfo (ou Gulf Stream, em inglês), e que segue através do Atlântico Norte na direção da Europa. Grandes quantidades de óleo podem ter sido espalhadas por essa corrente oceânica e podem estar criando problemas ainda não detectados em diversos ecossistemas. Ou seja, os problemas decorrentes desse vazamento podem ser muito maior do que se imagina até agora.

Até então, o maior acidente com vazamento de petróleo em território americano havia sido o naufrágio do navio petroleiro Exxon Valdez em 1989, que trataremos na próxima postagem. Nesse acidente, o navio colidiu com rochas submersas, que resultaram em um grande rasgo no casco da embarcação – um volume entre 257 mil e 759 mil barris de petróleo vazou no mar e contaminou uma extensa área do litoral do Estado do Alasca. 

Passados quase dez anos desde o acidente com a plataforma Deepwater Horizon, as consequências ao meio ambiente ainda são sentidas pelas populações. Pescadores locais afirmam que a atual produção pesqueira nas águas do Golfo do México é menor do que em anos anteriores. Ecologistas também afirmam que populações locais de aves, peixes, mamíferos aquáticos e de tartarugas-marinhas, que foram duramente afetadas pela tragédia ambiental, ainda não recuperaram o número total de indivíduos que viviam nos ecossistemas locais de antes do acidente. 

Esse acidente no Golfo do México é apenas mais um dos trágicos capítulos da exploração do petróleo em alto mar e dos acidentes que podem acontecer, com todas as suas consequências previsíveis e imprevisíveis.

O SUCATEAMENTO DA INDÚSTRIA PETROLÍFERA NA VENEZUELA

Lago Maracaibo

Nos últimos dois meses, as notícias sobre as manchas de óleo em praias da Região Nordeste se tornaram diárias, com novas localidades sendo atingidas diariamente. Nos últimos dias, fragmentos de óleo foram encontrados no Norte do Estado do Espírito Santo, felizmente em quantidades bem pequenas. De acordo com análises feitas em laboratórios em dezenas de amostras, esse óleo é uma mistura de, pelo menos, três tipos diferentes de petróleo de origem venezuelana. 

A Venezuela fica ao Norte da América do Sul, fazendo fronteira com a Amazônia brasileira ao Sul, com a Colômbia a Oeste e com a Guiana a Leste. O país tem uma área com mais de 910 mil km² e possui as maiores reservas confirmadas de petróleo e gás do mundo, superando inclusive a poderosa Arábia Saudita. Essas reservas petrolíferas se concentram na região do Lago Maracaibo e na bacia hidrográfica do rio Orinoco (ou Orenoco), a maior do país. As reservas de petróleo da Venezuela foram descobertas no início do século XX e sua exploração comercial teve início em 1922, se transformando na espinha dorsal da economia do país desde então. 

Durante várias décadas, a exploração do petróleo na Venezuela foi feita exclusivamente por empresas estrangeiras, onde os lucros com as vendas do produto eram divididos com o Governo do país. Em 1973, uma votação determinou a nacionalização da indústria petrolífera e em 1976 foi criada a PDVSA – Petróleos de Venezuela, estatal que passou a comandar a exploração, refino e as exportações do petróleo e seus derivados. A PDVSA cresceu rápido e em poucos anos se transformou em uma das maiores empresas petrolíferas do mundo, se tornando cada vez mais independente do Governo. Na década de 1990, a empresa iniciou um processo de abertura do capital e atração de investidores estrangeiros, como forma de aumentar consolidar o seu crescimento e sua posição no mercado mundial. 

Em 1999, com a eleição de Hugo Chávez para a Presidência da República, a PDVSA inverteu sua curva de crescimento e iniciou um gradual processo de declínio. Chávez, que em 1992 comandou um frustrado golpe de estado, implantou o chamado Bolivarianismo na Venezuela, uma espécie de socialismo sul-americano piorado. Entre outras medidas populistas, o Governo passou a limitar os investimentos e a participação de grupos estrangeiros na PDVSA a partir de 2001, além de criar todos os tipos de empecilhos para a atuação de empresas estrangeiras no país.  

Apesar do forte processo de desindustrialização e da necessidade cada vez maior de importação de alimentos e bens de consumo de todos os tipos, os altos preços do petróleo no mercado internacional permitiam a prática de fortes políticas para a redução da pobreza e de intervenção do Estado na economia do país. O Governo da Venezuela “surfou nessa onda” enquanto pode. O barril de petróleo, que no ano de 2008 chegou a valer perto de US$ 160.00, despencou bruscamente para pouco mais de US$ 40.00 em 2009. Sem essas receitas externas do petróleo que irrigavam e nutriam a economia, a Venezuela iniciou sua caminhada rumo ao colapso atual

Além da queda nos preços internacionais, a Venezuela já vinha sofrendo uma redução sistemática da produção de petróleo, onde a raiz do problema está na má gestão da PDVSA, que passou a ser comandada por “companheiros” Bolivarianos. No início da década de 2000, a Venezuela apresentava uma produção diária de mais de 3 milhões de barris de petróleo – atualmente, a produção do país mal consegue superar a barreira de 1 milhão de barris/dia. As unidades de extração e produção de petróleo também vêm diminuindo gradativamente – no início de 2016, o país dispunha de 70 plataformas de exploração de petróleo e, hoje, são pouco mais de 20 unidades. Essa queda brusca da produção e exportação do petróleo e seus derivados está ligada diretamente às sanções econômicas internacionais enfrentadas pela Venezuela. 

Além da queda nas vendas e a redução das receitas externas do país, o que devastou a economia da Venezuela, o país passou a enfrentar dificuldades para a importação da nafta, um produto químico essencial para a produção local de petróleo. O petróleo bruto venezuelano é muito denso, apresentando uma consistência quase sólida. Para tornar o produto viscoso e fluído para o bombeamento em tubulações e oleodutos, o petróleo venezuelano precisa receber a adição de diluentes químicos como a nafta. O maior fornecedor de nafta para a Venezuela eram os Estados Unidos, país que também ocupava a posição de maior comprador de petróleo da Venezuela e que acabou alçado à condição de grande inimigo do país pelo regime Bolivariano. 

Com a decadência da PDVSA, veio o sucateamento de toda a indústria petrolífera da Venezuela. Um exemplo dessa situação pode ser visto nitidamente no Lago de Maracaibo, um dos maiores centros de produção de petróleo do país. Com mais de 13 mil km² de área, as águas verdes do Lago de Maracaibo estão sendo tomadas por manchas de óleo. Há cerca de dez anos, a produção local de petróleo era da ordem de 1 milhão de barris/dia e, atualmente, essa produção mal consegue superar a barreira dos 160 mil barris/dia. Com a queda da produção e das receitas, a PDVSA ficou sem recursos para a manutenção das plataformas e das tubulações – há vazamentos de petróleo por todos os lados (vide foto). 

De acordo com análises feitas em laboratório, metade das espécies aquáticas do Lago de Maracaibo, que vão de peixes e crustáceos até espécies locais de botos e peixes-boi, apresentam sinais de contaminação por óleo. Essa contaminação atinge em cheio os milhares de ribeirinhos que vivem na região e que dependem da pesca para a sua sobrevivência e alimentação. A Venezuela, vale lembrar, é um dos países com uma das maiores biodiversidades do mundo e que apresenta a maior concentração de espécies justamente na região da bacia hidrográfica do rio Orinoco, o maior centro de produção de petróleo do país. Com o sucateamento das instalações petrolíferas, toda essa biodiversidade está ameaçada pelos vazamentos de petróleo. 

Infelizmente, esse sucateamento da indústria petrolífera não fica limitado apenas ao território da Venezuela. Com as sanções econômicas enfrentadas pelo país, o que entre outras coisas cria inúmeras dificuldades para a venda legal de petróleo no mercado internacional, foi criado um perigoso “mercado negro” para a venda do óleo local. Navios petroleiros “fantasmas” passaram a frequentar os terminais petrolíferos do país para o embarque e o transporte do produto para uns poucos compradores internacionais – a Índia é um exemplo e compra aproximadamente a metade da atual produção petrolífera da Venezuela. 

Os navios petroleiros “fantasmas” são famosos por navegar pelos oceanos com o transponder desligado. Esses equipamentos, que também são usados nos aviões, permitem o rastreamento e o acompanhamento do posicionamento geográfico das embarcações nos oceanos em tempo real. Caso ocorra algum acidente ou vazamento de petróleo no mar, as Guardas Costeiras ou Marinhas dos países afetados pela mancha de óleo podem identificar a embarcação responsável. No caso das manchas de óleo que atingiram a costa do Nordeste brasileiro, uma das suspeitas em investigação foi o uso de um desses navios petroleiros “fantasmas” para o transporte do petróleo até águas internacionais no Oceano Atlântico, onde a carga foi transferida para uma embarcação legalizada em alto mar, numa operação conhecida como ship-to-ship

Ao que tudo indica, ocorreu uma falha durante essa operação de transferência e um grande volume de petróleo cru caiu no mar. A mancha de óleo que se formou foi arrastada pelas correntes oceânicas na direção da costa do Nordeste e resultou nesse grande desastre ambiental que assistimos em nossas praias. As autoridades brasileiras já identificaram um navio de bandeira grega supostamente envolvido nessa operação – a empresa proprietária nega qualquer participação no vazamento de petróleo. A Venezuela também nega que tenha vendido ou embarcado petróleo ilegalmente em petroleiros “fantasmas”. 

Como se nota, também estamos sendo vítimas e estamos pagando um alto preço por causa do sucateamento da indústria petrolífera da Venezuela. Lamentável. 

O VAZAMENTO DE 4 MILHÕES DE LITROS DE PETRÓLEO NO RIO IGUAÇU NO ANO 2000. LEMBRA?

Vazamento de petróleo no rio Iguaçu

Existe uma fala popular que diz que “o brasileiro tem memória curta”. Muita gente pode até discordar dessa expressão, mas a nossa “capacidade” de esquecer fatos de nossa história, inclusive acontecimentos bem recentes do ponto de vista histórico, é muito grande. Um exemplo dessa memória curta foi um grave derramamento de petróleo na Refinaria Presidente Getúlio Vargas, a REPAR, em Araucária, na Região Metropolitana de Curitiba, no ano 2000. Esse acidente foi considerado como o maior desastre ambiental já ocorrido no Estado do Paraná e um dos maiores da história da Petrobras. A mancha de poluição cobriu uma grande área do rio Iguaçu. Apesar de toda essa gravidade, é bem provável que você nem se lembre desse ocorrido. 

O Iguaçu, conforme já apresentamos em postagens aqui no blog, é o maior e mais importante rio do Estado do Paraná. Com nascentes na Serra do Mar e foz nas mundialmente conhecidas Cataratas do Iguaçu, o rio percorre aproximadamente 1.300 km, com uma área total da bacia hidrográfica correspondendo a 70 mil km², englobando 109 municípios e onde vivem 4,4 milhões de habitantes – 33% do território e 42% da população do Estado do Paraná. A história geológica e as características físicas do rio Iguaçu o transformam numa espécie de primo-irmão do rio Tietê de São Paulo. Infelizmente, essas semelhanças familiares têm seu preço: o Iguaçu é o segundo rio mais poluído do Brasil, só ficando atrás do rio Tietê

A REPAR faz parte do conjunto de refinarias de petróleo da Petrobras e foi inaugurada em 1977. A unidade tem capacidade para processar mais de 200 mil barris por dia, o que corresponde a cerca de 12% da produção de derivados de petróleo do Brasil. A REPAR é considerada a maior planta industrial da Região Sul do Brasil e abastece os mercados do Paraná, Santa Catarina, Mato Grosso do Sul e parte do Estado de São Paulo, além de fornecer combustíveis para o Paraguai e a Bolívia.  

Entre outras instalações, a refinaria possui dois terminais marítimos, um no litoral do Paraná e outro em Santa Catarina, além de um sistema de oleodutos entre a refinaria e o Estado de Santa Catarina. Foi justamente uma falha nesse sistema de oleodutos que levou ao vazamento de petróleo. No dia 16 de julho de 2000, um rompimento nas tubulações de um oleoduto desse sistema em Araucária terminou com o vazamento de 4 milhões de litros de petróleo cru, um volume equivalente ao de 115 piscinas olímpicas. O óleo atingiu inicialmente o Arroio Saldanha, chegando depois aos rios Barigui e Iguaçu. A mancha de óleo cobriu uma extensão de águas com aproximadamente 100 km. 

Esse acidente aconteceu num momento particularmente tenso da história da Petrobras no Governo do Presidente Fernando Henrique Cardoso. Os partidos de oposição ao Governo afirmavam que a Petrobras estava sendo sucateada, tendo em vistas um futuro processo de privatização da empresa. Houve inclusive, nessa mesma época, uma proposta para mudar o nome da empresa para PetroBrax, palavra mais fácil de ser pronunciada por estrangeiros e que facilitaria a internacionalização da empresa – para os partidos de oposição, essa mudança era um argumento a mais para a venda da empresa para grupos estrangeiros. O clima tenso na Petrobras teve seu auge no início de 2001, quando explosões seguidas por um incêndio levaram a Plataforma P-36 a naufragar na Bacia de Campos, litoral do Estado do Rio de Janeiro. 

Logo após o vazamento de óleo, centenas de trabalhadores da REPAR foram designados para os trabalhos de limpeza dos rios, munidos apenas de baldes e de pás para recolher o óleo que vazou. Sem treinamento para atuar nesse tipo de situação e sem EPIs – Equipamentos de Proteção Individual, muitos trabalhadores passaram mal durante as operações de limpeza e não contavam com um atendimento médico adequado. Um dos trabalhadores dessas frentes de serviço, inclusive, viria a falecer meses depois em consequência da exposição aos elementos químicos tóxicos do petróleo. Houve também o caso de um outro trabalhador de uma das equipes que desenvolveu doenças neurológicas logo após esses trabalhos e ficou paraplégico. 

Além da falta de equipamentos básicos de segurança para as equipes de limpeza, a Petrobras também não conseguiu disponibilizar a mínima infraestrutura para as refeições dos trabalhadores, que eram feitas nas margens dos rios, com solos e vegetação cobertos por óleo e sem as mínimas condições de higiene. A Petrobras foi duramente criticada na época pela falta de preparo das equipes de emergência para o enfrentamento desse tipo de acidente. 

De acordo com levantamentos do IAP – Instituto Ambiental do Paraná, a flora e a fauna dos trechos de rios afetados pelo vazamento de óleo foram completamente devastadas. Dados do Instituto indicam que para cada oito animais resgatados das águas, apenas um conseguiu sobreviver. O abastecimento de água em toda a Região Metropolitana de Curitiba também foi fortemente prejudicado – apesar dos problemas de poluição, o rio Iguaçu é o maior manancial de abastecimento regional. 

Já se passaram quase 20 anos desde a ocorrência desse acidente e as causas ainda não estão claras. Relatórios internos da REPAR afirmam que houve um problema em uma das válvulas das tubulações e que foi seguida por falhas na operação e no desrespeito aos procedimentos de segurança. Já para o CREA – Conselho Regional de Engenharia e Agronomia, do Estado do Paraná, um acidente de tal magnitude não poderia ser explicado simplesmente por uma falha em equipamentos e em procedimentos de segurança, mas também em “falhas e/ou fragilidades estruturais e organizacionais, o que inclui as decisões gerenciais.” 

As operações de limpeza se estenderam por vários meses e se concentraram na remoção de manchas de óleo superficiais e impregnadas em troncos de árvores e em pedras. Barreiras de contenção instaladas no leito do rio Iguaçu evitaram que as manchas de óleo se espalhassem ainda mais pela calha dos rios. Perícias e testes que são feitos até hoje por determinação da Justiça, dentro do processo jurídico que levou a Petrobras à condenação e ao pagamento de uma multa bilionária, ainda detectam a evaporação de gases associados ao petróleo que afundou no leito dos rios. Além de poluir o ar, esses gases podem causar uma série de problemas aos seres vivos que habitam as águas e margens desses rios, inclusive as populações humanas. 

Os efeitos negativos e os impactos ao meio ambiente no longo prazo criados por um vazamento de petróleo devem sempre nos lembrar dos cuidados e procedimentos de segurança que sempre devem ser seguidos durante a exploração, transporte e processamento desse óleo. Qualquer falha ou erro trará consequências para muitas e muitas gerações de seres vivos.

Se a nossa memória é curta, a da natureza não é.

 

O VAZAMENTO DE GASOLINA EM UM OLEODUTO DA PETROBRAS E O TRÁGICO INCÊNDIO NA VILA SOCÓ EM 1984

Incêndio na Vila Socó

Um dos maiores e mais trágicos acidentes com derivados de petróleo no Brasil ocorreu no município de Cubatão, em São Paulo, em 1984. Um provável erro na operação de um oleoduto de transporte de uma refinaria da Petrobras terminou com o vazamento de 700 mil litros de gasolina e num gigantesco incêndio em uma comunidade popular. Extraoficialmente, mais de 500 pessoas morreram nessa tragédia. Vejam os detalhes: 

O município de Cubatão fica na região da Baixada Santista, no litoral Sul do Estado de São Paulo. Para quem é de outro Estado, esta região vai do município de Bertioga, ao Norte, até Peruíbe, ao Sul, com a cidade de Santos e seu famoso Porto como área central. Cubatão é o único município da região que não tem fachada oceânica, ficando espremido entre a Serra do Mar e o estuário de Santos. O rio Cubatão é o mais importante da região, ligando o município ao Oceano Atlântico. 

Com a farta disponibilidade de energia elétrica e de água, a localização estratégica distante apenas 12 km do Porto de Santos e 47 km da cidade de São Paulo, além da facilidade de acesso à Região Metropolitana de São Paulo e ao interior do Estado através da malha ferroviária e pela Rodovia Anchieta (acesso melhorado anos mais tarde com a construção da Rodovia dos Imigrantes), a cidade de Cubatão se transformou rapidamente no maior polo industrial do país, englobando empresas dos setores petroquímico, siderúrgico, químico e de fertilizantes, com destaque para a Refinaria Arthur Bernardes da Petrobras e a COSIPA – Companhia Siderúrgica Paulista. 

Entre as décadas de 1950 e 1980, o município de Cubatão viveu um intenso e descontrolado surto de crescimento industrial “a qualquer custo”, abrigando indústrias altamente poluídoras ao meio ambiente, estabelecidas ao redor da Refinaria Arthur Bernardes da Petrobras. Vale lembrar que esse foi um período onde “valia tudo” para se chegar ao crescimento econômico e quando não existia uma legislação ambiental que regulasse a implantação de indústrias poluentes e/ou perigosas para as populações vizinhas. 

Acidentes industriais de todos os tipos aconteciam com grande frequência, fossem vazamentos de produtos químicos nos rios, incêndios e explosões em linhas de produção, tombamentos de caminhões em rodovias com derrame de produtos químicos e, é claro, morte de dezenas de trabalhadores em “acidentes de trabalho”. Para não prejudicar a imagem do país no exterior, que já não era das melhores, tudo era minimizado ou até mesmo escondido pelo implacável Serviço de Censura do Governo Militar.  

Entre todos os problemas de Cubatão, a falta de moradia para a imensa massa de trabalhadores que foi atraída para o município era um dos menos discutidos pelas autoridades. Como sempre aconteceu nas grandes cidades brasileiras, foi a própria população que “criou” uma solução para o problema – extensas áreas de manguezais do município tiveram a vegetação suprimida e foram aterradas, surgindo ocupações ou comunidades populares nesses locais. 

Uma dessas ocupações, com o nome oficial de Vila São José, conhecida pelos moradores simplesmente como Vila Socó, surgiu do nada e rapidamente passou a abrigar uma população de 6 mil pessoas (algumas fontes falam de 6 mil famílias). Sem que essas famílias tivessem ciência plena, elas construíram suas palafitas em uma “Área de Segurança Nacional”, sob a qual estavam enterradas tubulações da Petrobrás, responsáveis pelo transporte de gasolina, óleo diesel, óleo combustível entre outros produtos derivados de petróleo e altamente inflamáveis. Sem qualquer providência mais enérgica por parte das autoridades responsáveis para a sua remoção da área, as famílias foram ficando e levando suas vidas. 

Essa falta de providências teve um alto custo em vidas humanas: no dia 25 de fevereiro de 1984, um vazamento de 750 mil litros de gasolina de uma das tubulações, aparentemente provocado por um erro de operação da Petrobrás, deu início ao que muitos classificam como o maior incêndio já ocorrido no Brasil. Rapidamente, a combinação de gasolina com o madeiramento das construções precárias se transformou em chamas com dezenas de metros de altura, surpreendendo os moradores que dormiam tranquilamente.  

Oficialmente, o Governo Militar divulgou informações dando conta de 93 mortos na tragédia. Dados não oficiais do processo de apuração, reaberto no ano de 2014, falam da morte de até 508 pessoas – escolas da região informaram o desaparecimento de cerca de 300 alunos, que nunca mais apareceram para as aulas depois do incêndio. Dezenas de pessoas deram queixa nas delegacias da região informando o desaparecimento de parentes, sendo que em alguns casos famílias inteiras sumiram sem deixar vestígios. Mesmo com toda a censura dos meios de comunicação, notícias sobre a tragédia da Vila Socó correram o mundo. 

Por uma trágica coincidência, poucos meses após o incêndio na Vila Socó ocorreu um outro grande acidente industrial na cidade indiana de Bhopal, o que criou uma forte pressão da comunidade internacional sobre os chamados países em desenvolvimento e suas políticas industriais locais. Em Bhopal, 40 toneladas de gases tóxicos vazaram da fábrica de pesticidas da Union Carbide, uma empresa de origem norte-americana.  

Considerado até hoje como o maior acidente industrial da história, o vazamento contaminou mais de 500 mil pessoas, que foram expostas a diversos gases tóxicos. Dados oficiais afirmam que aproximadamente 3 mil pessoas morreram no acidente – porém, como é comum nestes tipos de “acidentes”, dados extraoficiais falam de até 10 mil mortes. Parte desta discrepância no número de mortes se deve ao grande número de moradores de rua nas grandes cidades indianas – a população do país é dividida através de um sistema de castas e as classes mais baixas deste sistema nascem, vivem e morrem morando nas ruas, sem documentos oficiais e sem aparecer adequadamente nos censos e estatísticas oficiais dos Governos, o que “facilitou” a ocultação do número real de mortos. 

Pressionado pela opinião pública local e internacional, o Governo do Estado de São Paulo se viu obrigado a iniciar, ainda em 1984, uma série de programas para o controle da poluição do ar, dos solos e das águas de Cubatão, além de desenvolver um programa de moradias populares para a retirada de populações de áreas de alto risco. Mesmo sendo uma empresa do Governo Federal e dirigida com mão de ferro pelos representantes dos militares, a Petrobras foi obrigada a realizar uma série de mudanças e adaptações em suas instalações industriais e nos seus sistemas de oleodutos em Cubatão. Os esforços do Governo paulista foram facilitados com o processo de redemocratização do país iniciado em 1985 e com a criação do CONAMA – Conselho Nacional do Meio Ambiente, e instituição da Política Nacional do Meio Ambiente em 1986. 

Com muita pressão popular, vontade política e investimentos públicos e privados, Cubatão deixou para trás o estigma de “Vale da Morte” e de “Cidade mais poluída do mundo”, se transformando num paradigma de recuperação ambiental mundial. E, coincidência ou não, incidentes relevantes nas instalações da refinaria Arthur Bernardes e nos sistemas de dutos de óleo da Petrobras não foram mais registrados desde então. 

Interessante, não é? 

UM BREVE HISTÓRICO DOS VAZAMENTOS DE PETRÓLEO NA COSTA DO BRASIL

Petroleiro Vicuña

A incessante onda de manchas de petróleo que vem chegando as praias do Nordeste brasileiro já atingiu todos os Estados da Região e se estendem por mais de 2 mil km de costa. O desastre ambiental, de acordo com as investigações em andamento, foi provocado por um navio de bandeira grega – o Boubolina, de propriedade da empresa Delta Tankersque nega qualquer irregularidade. A origem do petróleo também já foi identifica – a Venezuela, país que sofre uma série de embargos econômicos internacionais e que, por isso, vende óleo no “mercado negro”. 

Apesar da grande repercussão e comoção nacional provocada por essa tragédia, o Brasil coleciona uma longa lista de acidentes com derramamento de petróleo em suas águas territoriais. Acompanhe na sequência: 

A primeira referência a um grande acidente envolvendo petróleo no mar em nosso litoral ocorreu em 6 de dezembro de 1960, quando o navio Sinclair Petrolore explodiu e afundou nas proximidades da Ilha de Trindade, no litoral do Espírito Santo. Nesse acidente, que aparece listado na revista Internacional Spill Statistics de 1977, houve o vazamento de mais de 66 mil m³ de petróleo no mar. Um dos tripulantes do navio desapareceu no naufrágio e outros 29 foram resgatados no dia seguinte. Não existem registros sobre os impactos do vazamento do óleo no nosso litoral. 

No canal de São Sebastião, que separa Ilhabela do continente no litoral do Estado de São Paulo, foram registrados dois grandes acidentes envolvendo navios de transporte de petróleo. A Petrobrás possui um terminal para o desembarque de petróleo no Porto de São Sebastião – Terminal Almirante Barroso, o que atrai um grande número desse tipo de embarcações para a região. Em 1974, o navio petroleiro Takimya Maru se chocou com uma rocha submersa no interior do Canal, o que provocou um corte no caso da embarcação e levou ao vazamento de 6 mil m³ de óleo.  

Em 1978, houve um acidente muito parecido com o navio petroleiro Brazilian Marina, que depois de se chocar com rochas também assistiu ao derramamento de 8 mil m³ de petróleo nas águas do mar. Em 1989, 150 mil litros de óleo foram lançados ao mar por causa de uma falha nas operações de descarga do petroleiro Japurá neste mesmo terminal

Esses acidentes provocaram grandes manchas de poluição por óleo nas praias e costões rochosos da região, onde se incluem São Sebastião, Ilhabela, Caraguatatuba e Ubatuba, algumas das mais belas e badaladas praias do litoral paulista. Os trabalhos de limpeza e remoção do óleo levaram várias semanas e a Petrobrás recebeu diversas multas há época. A legislação ambiental, relembrando, só se tornaria mais rigorosa aqui no Brasil a partir de 1986, quando foi criado o CONAMA – Conselho Nacional do Meio Ambiente, e publicada a famosa Resolução CONAMA 001 . Entre as décadas de 1970 e 1980, foram registrados mais de 80 acidentes com vazamento de petróleo no mar somente nessa região

Outro grande acidente que merece ser destacado envolveu o navio petroleiro iraniano Tarik Ibn Zyiad que, em 1975, lançou cerca de 6 mil toneladas de petróleo nas águas da Baía da Guanabara. A Petrobrás opera na região a Refinaria Duque de Caxias e o vazamento ocorreu durante uma operação de descarregamento de óleo. Em 1988 na Bahia, durante as operações de carregamento do navio petroleiro Neuza, houve uma falha semelhante e 700 mil litros de óleo diesel vazaram para as águas da Baía de Todos os Santos.  

Em 1989, ocorreram dois graves acidentes com embarcações petroleiras no litoral Sul do Estado do Rio de Janeiro: o rompimento do casco do navio petroleiro Felipe Camarão deixou um rastro de óleo nas águas da Baía da Ilha Grande com uma extensão de 18 km; em Angra dos Reis, erros de operação no petroleiro José do Patrocínio resultaram no vazamento de 50 toneladas de óleo cru nas águas do mar. Na mesma região, em 1992, o navio grego Theomana, a serviço da Petrobrás, teve um rompimento em um dos tanques de lastro e despejou 200 toneladas de óleo no mar

Em 2004, o navio químico Vicuña, de bandeira chilena, sofreu uma explosão seguida de incêndio no Porto de Paranaguá, no litoral do Paraná (vide foto). Nesse acidente, vazaram cerca de 4 mil toneladas de metanol e 285 toneladas de derivados de petróleo, que afetaram uma extensão de costa com cerca de 170 km, onde se incluem praias,  costões rochosos, manguezais e um total de seis Unidades de Conservação. Quatro tripulantes morreram no acidente, que também danificou instalações do terminal portuário e navios que estavam próximos. 

Os acidentes com vazamentos de petróleo e contaminação das águas não se limitam apenas aos casos associados aos navios de transporte – outros tipos de operação também já resultaram em grandes acidentes ambientais. No início do ano 2000, houve o rompimento de um oleoduto que liga a Refinaria de Duque de Caxias ao Terminal da Ilha d’Água, na Baía da Guanabara. Um volume equivalente a 1,3 mil m³ de óleo combustível marítimo vazou nesse acidente e contaminou uma extensa área onde se incluem praias, manguezais, costões rochosos, Unidades de Conservação e muitas áreas urbanas.  

Anos antes, em 1997, um vazamento muito parecido nesse mesmo sistema de oleodutos levou ao vazamento de 600 mil litros de óleo cru. Esse óleo escorreu em direção das águas da Baía da Guanabara e causou enormes problemas aos ecossistemas locais. Um problema semelhante ocorreu no sistema de oleodutos que liga as cidades de Bertioga e Santos, no litoral de São Paulo, e que atravessa uma importante área de remanescentes de manguezais, acabou com o vazamento de 1,5 milhão de litros de óleo em 1983

Um incidente que também merece ser destacado foram as explosões seguidas por um grande incêndio na Plataforma P-36, da Petrobras, que resultou em 11 mortes e no naufrágio da estrutura em 2001. Instalada na Bacia de Campos, a 130 km da costa do Estado do Rio de Janeiro, a maior região produtora de petróleo offshore do Brasil, essa plataforma afundou com cerca de 1,5 mil toneladas de petróleo em seus tanques, sendo que parte desse óleo vazou para o mar.

Além desses grandes vazamentos, que pela extensão dos danos ambientais tiveram maior destaque e foram registrados na história através de grandes reportagens, existem centenas, talvez milhares, de vazamentos menores e mais localizados, que tiveram uma menor repercussão ou que atingiram trechos de praias ou costões rochosos mais afastados de centros urbanos. Se valendo dessa aparente “falta de testemunhas”, muitas das empresas e embarcações envolvidas nesses acidentes fingiram que não fizeram ou viram nada e as eventuais manchas de óleo que apareceram em uma ou outra praia foram atribuídas a alguma embarcação que passou ao largo de nossa costa em alto mar. 

Esse é, aparentemente, o caso do navio Boubolina, que segundo fotos de satélite recuperadas e analisadas pela Marinha do Brasil e a Polícia Federal, lançou, de propósito ou acidentalmente, um grande volume de petróleo ao mar. Segundo as informações já divulgadas, os peritos identificaram uma mancha de óleo com cerca de 200 km de extensão a cerca de 700 km ao largo da costa do Nordeste brasileiro. A partir de cálculos reversos, os peritos concluíram o tempo que essa mancha de óleo levou para chegar ao nosso litoral e, a partir daí, chegaram ao navio grego. 

O petróleo é essencial na nossa vida moderna e seu transporte por via marítima é fundamental para o abastecimento dos países, o que abre espaço para um número cada vez maior de acidentes. A exploração de petróleo em águas territoriais, como é o caso do Pré-Sal aqui no Brasil, também cresce sem parar. É fundamental que se desenvolvem e se aprimorem cada vez mais os sistemas de segurança para a prevenção dos acidentes e que se aprimorem os mecanismos para a punição dos infratores. 

AS MANCHAS DE ÓLEO E OS RISCOS AOS “HOMENS-CARANGUEJOS” DOS MANGUEZAIS DO NORDESTE

Homem-caranguejo

Grande parte da população brasileira vem acompanhando com muita angústia e preocupação as notícias diárias que dão conta do aparecimento de manchas de óleo nas praias da Região Nordeste. Essa é uma tragédia ambiental inédita em termos mundiais e, como não se sabe qual foi o volume total de petróleo que vazou ou que foi despejado de propósito, não há como saber qual o volume de óleo que ainda deverá chegar as nossas praias. 

Nas reportagens mostradas nos noticiários, percebemos que a primeira preocupação das pessoas entrevistadas está relacionada com a “sujeira” das praias e com as eventuais perdas de receita com o turismo. Já os moradores dos locais atingidos, esses se mostram mais preocupados com os impactos do óleo na pesca e na coleta de crustáceos e moluscos, fonte de sustento de milhares de famílias na Região. Essas atividades, inclusive, estão proibidas temporariamente, assim como a venda dos produtos por causa dos riscos de contaminação por óleo e metais tóxicos. 

Os importantes manguezais, conforme comentamos na última postagem, são ecossistemas fundamentais para a vida marinha. Suas águas salobras possibilitam a reprodução de cerca de 70% das espécies marinhas de alto valor comercial, o que coloca os manguezais na posição de “maternidades dos oceanos”. Em regiões onde as áreas de mangue estão bem preservadas, a produtividade da pesca é muito maior que em locais onde essas áreas estão degradadas. 

Além de abrigar centenas de espécies de peixes, crustáceos, moluscos, vermes, insetos, aves, répteis e mamíferos, que encontram abundância de alimentos e abrigos seguros em seus domínios, os manguezais do Nordeste também são o “habitat” de uma espécie humana típica da região – o “homem-caranguejo”. Falamos aqui de populações pobres das áreas litorâneas do Nordeste, que vivem nas proximidades das áreas alagadas dos manguezais e que tiram o seu sustento da lama, literalmente, capturando e vendendo caranguejos. 

Existem vários trabalhos de pesquisadores que estudaram profundamente as relações entre essas populações, os manguezais e os caranguejos e que estão na origem da criação do termo homem-caranguejo. Uma publicação de destaque foi escrita pelo grande médico e cientista Josué de Castro (1908-1973), grande pesquisador sobre a fome no Brasil: Homens e caranguejos, de 1967. Apresentado na forma de um romance, o livro conta a história de um menino pobre, que aos poucos é obrigado a trocar as brincadeiras da infância pelo duro trabalho de captura de caranguejos na lama dos manguezais da cidade do Recife. 

A primeira vez que vi alguns exemplares dessa “espécie” humana foi no início da década de 1990, quando estava indo de carro com alguns amigos locais para a cidade de Cururipe, no litoral Sul do Estado de Alagoas. Seguíamos devagar pela rodovia quando eu avistei um homem e dois meninos com os corpos completamente cobertos por uma lama negra, que seguravam cordas com caranguejos amarrados. Conforme nos aproximamos mais dessas estranhas figuras, pude ver com maior detalhe que só a região ao redor dos olhos estava livre da lama – um dos meninos tinha olhos claros, o que aumentava ainda mais o contraste com a lama escura e dava ares mais dramáticos à cena. 

Comentando com os amigos sobre o choque que senti vendo aquela imagem, percebi uma certa indiferença e um conformismo com a situação daquelas pessoas. Um dos ocupantes do carro comentou que essas populações “vivem bem, pois, diferente de outros pobres da região, elas têm o que comer”. Eu fiquei em silêncio junto aos meus pensamentos durante o resto da viagem. 

A rotina dos “homens-caranguejos” começa ainda de madrugada, quando eles se dirigem para as áreas dos manguezais para se aproveitar da maré baixa, quando a lama fica exposta e é mais fácil encontrar as tocas dos animais. Deitados na lama, eles enfiam os braços nessas tocas e tateiam o fundo até sentir a “mordida” dos tenazes dos caranguejos, momento em que tentam segurar e puxar o animal para fora da lama. Quando não conseguem, eles usam um pedaço de madeira com um gancho metálico na ponta. Conforme os caranguejos vão sendo capturados, eles são amarrados com um cordão, normalmente de sisal, formando “cordas” com uma dúzia de animais ou colocados em um saco de juta.

As “cordas” de caranguejos são vendidas nas estradas e nas praias, onde é essencial que os animais estejam vivos para atestar aos compradores que estão “frescos”. Muitas vezes, os animais são arrematados em lotes por intermediários, que revendem os caranguejos em mercados das cidades. Em muitos bares do litoral nordestino, os caranguejos são um dos principais petiscos no acompanhamento de rodadas de cerveja e cachaça. Por várias vezes eu lembro de ter ouvido muitos desses consumidores se gabarem de comer, no mínimo, “uma corda de caranguejos a cada noite”. 

Uma região famosa pela produção de caranguejos no Nordeste é o Delta do rio Parnaíba, na divisa dos Estados do Piauí e do Maranhão. Os caranguejos capturados nessa região abastecem grandes cidades do Nordeste, com destaque para Fortaleza, no Ceará. Um ponto trágico dessa atividade é a mortalidade de animais durante o transporte – amontoados na caçamba de caminhões, até 30% dos caranguejos morrerão durante a viagem e serão descartados

A grande cadeia de comercialização e consumo dos caranguejos, que dá um bom dinheiro para os comerciantes e donos de bares, não remunera adequadamente os “homens-caranguejos” que tanto se esforçaram na captura dos animais. O pouco dinheiro que é ganho com a venda dos animais garante apenas uma vida de subsistência, permitindo a compra de arroz, feijão e farinha de mandioca, além do pagamento de umas poucas despesas dos seus casebres e mocambos. 

É justamente esse lado mais fraco da cadeia que poderá ser o mais prejudicado pelas manchas de óleo que estão chegando ao litoral do Nordeste. Caso esse óleo entre nas áreas dos manguezais, os prejuízos para esses catadores de caranguejos serão imensos. A intrincada rede de raízes aéreas da vegetação do mangue forma um labirinto de difícil acesso aos menos experientes, o que dificultará qualquer trabalho das equipes de limpeza. A lama escura que forma os solos dos mangues também dificultará a localização das manchas de óleo.  

Para muitos dos leitores pode não parecer muita coisa um pouco de óleo numa área que já é coberta de lama e que para muita gente é um “lugar sujo, feio e malcheiroso”. Ao contrário disso, os manguezais são áreas fundamentais para a vida marinha e ainda mais – são a única fonte de renda para os “homens-caranguejos”. Para essas populações pobres do litoral do Nordeste, e olhem que estamos falando de dezenas de milhares de famílias, a destruição ou contaminação dessas áreas de mangue por petróleo poderá significar um risco enorme à sua sobrevivência. 

Para todos nós brasileiros, a situação do litoral do Nordeste é preocupante em virtude dessa tragédia ambiental. Já para os “homens-caranguejos”, a situação é simplesmente desesperadora.