A POLUIÇÃO DA REPRESA BILLINGS: UMA QUESTÃO RECORRENTE

Represa Billings

Nas últimas postagens falamos bastante dos problemas ambientais enfrentados pelas regiões brasileiras cobertas pela vegetação de Cerrado. A causa principal destes problemas é o avanço das fronteiras agrícolas que, a partir do melhoramento genético e da adaptação de cultivares para os solos e climas do bioma, cada vez substituem áreas de vegetação nativa por gigantescas plantações, especialmente de soja. Vamos dar uma pequena parada nesse tema – gostaria de falar sobre um outro assunto preocupante: a poluição da Represa Billings, na Região Metropolitana de São Paulo. 

A Represa Billings foi formada a partir do represamento dos rios Grande, Pequeno, Capivari, Pedra Branca, Taquacetuba, Alvarengas, Bororé, Cocaia e outros rios menores, perfazendo cerca de 560 km² de área de drenagem, com uma vazão somada total de 16,5 m³/s. O espelho d’água da Represa ocupa uma área inundada de aproximadamente 172 km² e tem capacidade para armazenar 1,2 bilhões de metros cúbicos de água. A represa se espalha por áreas dos municípios de São Paulo, São Bernardo do Campo, Santo André, Diadema, Ribeirão Pires e Rio  Grande da Serra.  

O rápido crescimento da cidade de São Paulo nas primeiras décadas do século XX, tanto em termos de população quanto no número de indústrias instaladas, criou uma fortíssima demanda por energia elétrica. As pequenas usinas hidrelétricas instaladas em munícipios de entorno da cidade não estavam conseguindo atender a essa demanda e seria necessária a construção de uma unidade geradora de grande porte. Em 1920, a empresa canadense Light & Power Company conseguiu a concessão para a construção da Represa Billings e da Usina Henry Borden no município de Cubatão, região da Baixada Santista. As águas da represa, situadas em uma altitude de aproximadamente 800 metros acima do nível do mar, seriam lançadas por grandes tubulações na direção das turbinas geradoras, aproveitando-se assim do forte desnível e da força da gravidade para gerar muita eletricidade. 

Apesar da Represa Billings ter sido construída com a finalidade de gerar energia elétrica, o decreto presidencial que autorizou a sua construção deixou muito claro que o manancial deveria ser preservado a fim de atender também as necessidades de consumo da população da Região Metropolitana de São Paulo. Infelizmente, as autoridades responsáveis, de todos os níveis, não cuidaram dessa preservação e a represa Billings é hoje um corpo d’água altamente comprometido pela poluição, especialmente por causa do lançamento de grandes quantidades de esgotos domésticos

Durante várias décadas, as margens da Billings funcionaram com uma espécie de praia para as populações das diversas cidades próximas. Clubes náuticos, chácaras de lazer e clubes de pesca ocupavam grandes extensões de suas margens. Vários trechos foram transformados em áreas de banho. Esse verdadeiro paraíso ecológico ficou praticamente intacto até o final da década de 1950, quando teve início a instalação das indústrias automobilísticas, especialmente na chamada região do ABCD Paulista, sigla que identifica os municípios de Santo André, São Bernardo, São Caetano e Diadema. A forte demanda por mão de obra levou a uma migração maciça de trabalhadores para a região do ABCD.  

Esse forte crescimento populacional criou uma forte demanda por habitações populares – grandes áreas de mata nas margens da Represa Billings acabaram sendo transformadas em loteamentos (a maioria irregulares) e bastaram poucos anos para serem transformados num mar sem fim de casas (vide foto). Como é de praxe nas grandes cidades brasileiros, as águas da represa Billings foram transformadas no corpo receptor da maior parte dos esgotos gerados por essa grande população que ali se instalou. Para que você tenha uma ideia do tamanho do problema, calcula-se que aproximadamente 1 milhão de pessoas vivam nas áreas de entorno da Represa Billings atualmente, grande parte em bairros com condições de infraestrutura das mais precárias. Para piorar a situação, cerca de 2 milhões de pessoas em diversos municípios da Região Metropolitana de São Paulo dependem das águas da represa para o abastecimento de suas casas – ou seja, os esgotos da população poluem as águas que serão usadas no abastecimento dessa mesma população – um ciclo vicioso dos mais insanos.

A poluição da Billings é um gravíssimo problema ambiental e já foi tema de diversas postagens aqui no blog. Na semana passada, passando por uma rodovia que atravessa a represa, eu fiquei simplesmente assustado com o grau de poluição das águas – o reservatório está com as águas totalmente verdes (resultado da multiplicação de microalgas que se nutrem dos resíduos orgânicos dos esgotos), um processo que é chamado de eutrofização. Esse processo, que ocorre a muitos anos na represa, normalmente era visto apenas em alguns braços, especialmente em regiões com maior despejo de águas poluídas com esgotos – a visão de grande parte da represa com águas completamente verdes foi uma trágica novidade. 

O período final do inverno e começo da primavera, que aqui na nossa região é uma época de poucas chuvas, ajuda a explicar em parte o grau de deterioração das águas da Represa Billings. Entretanto, é preciso cobrar das autoridades maiores providências para a solução deste problema. A Região Metropolitana de São Paulo tem hoje uma população superior aos 16 milhões de habitantes, que precisam contar com fontes confiáveis para o abastecimento de água. Na recente seca de 2015, quando o Sistema Cantareira, principal manancial de abastecimento da Região Metropolitana, literalmente secou, foram as águas de um dos braços da represa Billings que, após a realização de obras emergenciais, forneceram água extra para reforçar o combalido sistema de abastecimento local. O grande volume de água armazenada na  Represa Billings é uma reserva fundamental e estratégica para toda a grande população da Região Metropolitana e, na minha opinião, não é mais possível que se tolere tamanho grau de degradação ambiental e descaso. 

Enquanto populações de muitas regiões do Brasil e do mundo lutam para ter alguns poucos litros diários de água, nós transformamos a magnífica Represa Billings em um  repulsivo depósito de esgotos. Que vergonha…  

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