VOCÊ FAZ IDEIA DO QUE É A TAIGA?

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Na última postagem falamos rapidamente da proposta de criação do Conselho da Amazônia, cuja finalidade principal será a coordenação das ações e políticas dos diferentes Ministérios do Governo Federal para a região. Também falamos do Fórum Econômico Mundial em Davos na Suíça, onde o Brasil foi, literalmente, “metralhado” por causa das agressões ambientais na Amazônia. Todos devem se lembrar dos supostos grandes incêndios florestais que estariam “transformando a Amazônia em cinzas” poucos meses atrás. 

Em um comentário que fiz sobre a hipocrisia atual das questões ambientais no mundo, citei a questão dos grandes incêndios florestais que destruíram perto de 100 mil km² de vegetação nas florestas da taiga na Sibéria, uma longínqua região da Rússia. Essa área devastada é 10 vezes maior do que aquela que foi destruída pelos incêndios na Floresta Amazônica. A repercussão nos meios de comunicação desses incêndios ficou muito aquém de tudo o que se falou e se mostrou na Amazônia. 

Uma explicação importante para ajudar todos a entenderam exatamente do que estamos falando – quem afinal é essa tal de taiga? 

A taiga (vide foto), também conhecida como Floresta Boreal ou Floresta de Coníferas, é a maior floresta do planeta Terra. É isso mesmo! Você provavelmente passou toda a sua vida escolar ouvindo dos seus professores que a maior floresta do mundo é a Amazônia. A Floresta Amazônica é muito grande, ocupando uma área total com mais de 5 milhões de km² – já a desconhecida taiga ocupa uma área 3 vezes maior, ou algo como 15 milhões de km². Precisamos ressaltar que essa confusão se deve a um detalhe – a Amazônia é a maior floresta equatorial do mundo

A taiga circunda toda uma faixa de terras do planeta no Hemisfério Norte entre os paralelos 40 e 70 graus. A floresta engloba terras na Escócia, Noruega, Suécia, Finlândia, Rússia, Cazaquistão, Coreia e Norte do Japão. A taiga prossegue do outro lado do Estreito de Bering no Alasca, região que pertence aos Estados Unidos, no Canadá e chega até na Groenlândia, ilha autônoma que pertence à Dinamarca. As principais espécies dessa floresta são pinheiros, piceas, bétulas e lariços.  

Ocupando terras remotas e pouco habitadas do “Norte gelado”, a taiga permaneceu praticamente intocada por vários séculos. As grandes agressões ao bioma começaram após a formação da União Soviética, quando a exploração da madeira passou a atender cotas da burocracia soviética. Frentes de trabalhadores, muitos deles presos políticos do regime, eram enviadas para as regiões onde o bioma predominava. Outra frente importante de pressão, essa no lado ocidental, começou no Canadá, país que se transformou em importante produtor de madeira, celulose e papel. 

Devido ao clima extremo das regiões boreais, com longos invernos congelantes, as árvores da taiga têm um ritmo de crescimento muito mais lento do que vemos nas áreas tropicais e equatoriais. Enquanto as árvores da Floresta Amazônica recebem uma forte radiação solar durante praticamente todos os dias do ano, a vegetação da taiga conta com insolação adequada entre 3 e 5 meses ao logo do ano – quanto mais ao Norte, menos dias de forte insolação.  

Essa lenta taxa de crescimento das árvores da taiga resulta numa menor absorção de carbono da atmosfera em relação às florestas tropicais e equatoriais. Entretanto, como a área total ocupada pela Floresta Boreal é muito grande, sua importância para o clima global não pode ser subestimada. Infelizmente, grande parte dessas florestas estão expostas à uma superexploração, como no caso da Rússia, país que concentra perto de 60% das florestas da taiga. Grandes extensões de floresta no país foram concedidas a empresas da iniciativa privada, que derrubam ferozmente as árvores sem maiores preocupações ecológicas ou sociais – o que lhes interessa é apenas o lucro. De acordo com informações da organização não-governamental Clube Florestal Russo, as áreas protegidas da taiga na Rússia correspondem a valores entre 2 e 3%.

Além dos grandes desmatamentos, a vegetação da taiga está sofrendo cada vez mais com os grandes incêndios florestais. Assim como ocorre em outros diferentes biomas, o fogo faz parte da ecologia da taiga há milhares de anos. Incêndios iniciados naturalmente consomem restos de galhos e de árvores mortas, ajudando a revitalizar as florestas. Com o aumento das temperaturas globais nas últimas décadas, os cientistas passaram a observar um aumento no volume e na intensidade dos incêndios florestais no bioma. Somente na Sibéria, conforme já comentamos, foram perto de 100 mil km² de vegetação carbonizada , apenas em 2019. 

Além dos desmatamentos e dos incêndios florestais, as áreas de taiga estão sofrendo também com o descongelamento do permafrost – os solos congelados do extremo Norte, que sempre subsistiram aos verões mais quentes. Esses solos duros possuem uma grossa camada de água congelada que, entre outras características, atua como uma barreira para retenção de grandes volumes de gás metano armazenado nos solos, acumulados ao longo de milhares de anos. Sem o permafrost, grandes volumes desse metano estão sendo liberados na atmosfera, o que vem contribuir ainda mais para o aquecimento global. 

Em áreas onde a taiga continua preservada, os cientistas observaram que as emissões de gás metano a partir do descongelamento dos solos é menor do que em áreas onde a floresta foi derrubada. De acordo com afirmações do Greenpeace, uma grande organização ambiental internacional, a devastação das florestas da taiga é uma “bomba-relógio climática”. 

Um outro problema grave que vem sendo observado em toda a região ocupada pela taiga é o aumento da ocorrência de pragas de insetos destruidores da madeira e das folhas das árvores. Nas regiões de Yukon, no Canadá, e no Estado norte-americano do Alaska, os riscos são representados pelo besouro-do-mato (Dentroctonus rufipennis). Na Colúmbia Britânica, no Canadá, a ameaça é o besouro-do-pinheiro-da-montanha (Dendroctonus ponderosae). Em outras áreas do bioma as ameaças atendem por nomes como mosquito-do-lariço, lagarta-dos-pinheiros (Choristoneura fumiferana), entre muitos outros. O ataque dessas pragas pode levar as árvores a uma morte precoce. 

Existem, felizmente, bons exemplos de utilização racional dos recursos florestais da taiga, onde a maior e melhor referência é a Finlândia, país do Norte da Europa com a maior cobertura florestal de todo o continente. Cerca de 76% do território da Finlândia é coberto por florestas, na sua grande maioria formadas pela taiga. 

A Finlândia é uma grande processadora e exportadora de produtos de origem florestal, especialmente madeiras, papel e celulose. A indústria florestal responde por 8% do PIB – Produto Interno Bruto, e por cerca de 30% das exportações do país. Desde o final da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a Finlândia passou a adotar uma silvicultura sustentável com o claro objetivo de garantir o futuro das novas gerações. A razão para esse posicionamento é muito simples – nenhum outro país do mundo depende tanto de suas florestas quanto a Finlândia. 

A seleção das áreas onde serão realizados os cortes de árvores é feita utilizando rigorosos critérios climáticos e geográficos, além de se levar em conta aspectos ecológicos e sociais. O corte de árvores é feito de forma altamente seletiva, onde o principal objetivo é o de se minimizar os impactos globais nas florestas. Uma das consequências diretas desse extremo cuidado com a exploração das florestas é o aumento das taxas anuais de crescimento das árvores, que estão entre 20 e 30% acima dos cortes de árvores, ou seja, a exploração de madeira é sustentável no longo prazo. 

Apesar deste e de outros bons exemplos de uso sustentável dos recursos florestais da taiga, a maior parte do bioma segue sofrendo com grandes impactos ambientais. E, diferentemente do que acontece na Floresta Amazônica, as notícias sobre os grandes problemas enfrentados pela taiga seguem escondidos da grande maioria da população. 

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