FORTE SECA PROVOCA QUEBRA DA SAFRA DO MILHO NOS ESTADOS UNIDOS 

O mercado do milho anda mesmo bastante complicado. 

Em uma postagem anterior falamos da redução da produção do grão na Europa e do aumento das exportações brasileiras. O continente europeu está sofrendo com fortes ondas de calor e com a seca, problemas que estão se refletindo diretamente na produtividade de muitas culturas agrícolas. 

Existem também os desdobramentos do conflito entre a Rússia e a Ucrânia. Esses dois países são grandes produtores de grãos. Um exemplo que já citamos mais de uma vez aqui no blog é o trigo, onde Rússia e Ucrânia respondem por quase um terço da produção mundial. O conflito reduziu os fluxos de grãos para o mercado europeu, que passou a buscar alternativas de fornecimento no mercado internacional. 

Ontem foi divulgada mais uma notícia negativa para o mercado do milho. A USDA – Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, na sigla em inglês, reviu para baixo as expectativas da safra de milho do país, indicando que haverá uma redução de 4,2% em relação as previsões feitas há apenas duas semanas. 

Essa constatação veio depois da Pro Farmer, uma associação que reúne produtores rurais, analistas e especialistas do agronegócio, fazer uma visita de inspeção através de sete Estados do Meio Oeste norte-americano. A forte seca e a falta de chuvas nessa região prejudicou fortemente a produção do milho. 

Os Estados Unidos são, de longe, os maiores produtores mundiais de milho, com China e Brasil ocupando, respectivamente, a segunda e a terceira posição no ranking global. A previsão da safra para este ano está estimada em 367,4 milhões de toneladas – isso corresponde a três vezes a produção brasileira, prevista para 118 milhões de toneladas para este ano. 

O milho é um grão essencial para a elaboração de rações para animais, para a produção de óleos comestíveis e combustíveis, além de ser um importante ingrediente para uma infinidade de alimentos que consumimos em nosso dia a dia. A redução da oferta da commodity terá reflexos diretos nos preços de toda uma cadeia de produtos, uma notícia complicada em um momento em que a maioria dos países pelo mundo a fora está enfrentando altos índices de inflação. 

As notícias, infelizmente, ainda ficam piores. 

As estimativas da USDA indicam que haverá uma redução da área plantada de milho para a safra 2022/2023, que deverá ocupar cerca de 37,23 milhões de hectares. Essa redução será da ordem de 1,5%, o que se refletirá em uma safra entre 15 e 20 milhões de toneladas a menos em relação à safra atual. 

Os produtores estão desanimados com a baixa lucratividade da cultura e estão optando por grãos mais rentáveis como a soja e o trigo. Segundo as estimativas da USDA, a área plantada do trigo, citando um exemplo, deverá aumentar cerca de 2,78% e deverá alcançar pouco mais de 19,4 milhões de hectares. 

Outra cultura que está chamando a atenção dos agricultores é o algodão. Segundo as projeções dos especialistas, a área plantada deverá sofrer um aumento de 13%, alcançando 5,13 milhões de hectares. Ao contrário da maioria dos grãos, a produção do algodão é beneficiada com tempo quente e seco em sua fase final de desenvolvimento. 

Somando os problemas criados pela seca na América do Norte, na Europa e também na China, além dos percalços criados pelo conflito no Leste Europeu, a commodity está ficando cada vez mais valorizada. No curto prazo, essa situação beneficiará muito os produtores brasileiros. 

Por outro lado, preços elevados no mercado internacional reduzem a oferta do grão no mercado interno, problema que se refletirá no aumento de custos de alimentos e produtos que utilizam derivados de milho em sua produção. Muito pior: essa elevação de custos afetará diretamente a produção de carnes – especialmente de suínos e de aves, além dos ovos. 

Então, fiquem preparados: a pipoca, o angu e a pamonha (vide foto) – alimentos tradicionais do dia a dia dos brasileiros, vão ficar mais caros logo, logo… 

AS TORRENCIAIS CHUVAS DA MONÇÃO NO PAQUISTÃO 

Monção são ventos sazonais, geralmente associados a alternâncias entre as estações das chuvas e da seca, que ocorrem em regiões costeiras tropicais e subtropicais de todo o mundo. No Oceano Índico o fenômeno é bastante intenso e está ligado diretamente a um período de fortes chuvas conhecido como Chuvas da Monção. 

Essas correntes de ventos sazonais empurram grandes massas de nuvens de chuva formadas no Oceano Índico na direção do Sul e Sudeste da Ásia, criando assim um período chuvas que marca o ritmo da vida em diversos países. Essas chuvas sempre foram fundamentais para a produção agrícola dessas regiões. 

No Paquistão e na Índia em particular, essas nuvens de chuvas são bloqueadas pelas montanhas da Cordilheira do Himalaia, onde ocorrem grandes precipitações e se formam grandes fluxos de águas montanhas abaixo. Grandes rios da região como o Indo, o Ganges e o Brahmaputra recebem essas águas e sofrem grandes cheias. Os sedimentos carreados pelas águas fertilizam os solos de grandes extensões das várzeas desses rios e vão garantir fartas colheitas agrícolas assim que as águas baixarem. 

Esse período de verão e das chuvas é conhecido como kharifas no Paquistão. A partir da região das terras altas da Caxemira as chuvas da Monção costumam provocar fortes inundações em todo o vale do rio Indo (ou Indus), região que concentra a maior parte das terras agrícolas do país. Dos 22 milhões de hectares de terras agrícolas do Paquistão, 16 milhões ficam no vale do rio Indo.  

O Paquistão ocupa uma área total de 796 mil km², entre o Noroeste da Índia, o Afeganistão e a China. É um país de economia essencialmente agrícola, onde perto de 43% da população economicamente ativa trabalha em atividades agropecuárias. 

Mudanças climáticas no Oceano Índico estão provocando importantes mudanças nos padrões das Chuvas da Monção, o que tem afetado a vida de centenas de milhões de pessoas. As chuvas que sempre foram regulares estão se tornando muito irregulares e com intensidades variáveis. 

Nesta temporada, o Paquistão está sofrendo com chuvas torrenciais e muito acima da média. De acordo com a Autoridade Nacional de Gestão de Desastres do Paquistão, mais de mil pessoas já morreram em função das chuvas e das inundações desde o mês de julho. 

A província de Sindh, no Sul do Paquistão, é uma das mais afetadas. O nível do rio Indo não para de subir e, nas palavras do Primeiro Ministro Shehbaz Sharif, “alguns vilarejos foram aniquilados e milhões de casas destruídas. Há uma destruição enorme“. 

Nas proximidades da cidade de Sukkur, citando um exemplo da situação caótica, as autoridades foram obrigadas a abrir as comportas de uma grande represa do rio Indo para aliviar um fluxo de água de mais de 600 mil metros cúbicos por segundo. Dezenas de milhares de moradores dessa região estão sendo obrigados a buscar refúgio em terrenos mais altos, onde o Governo está montando acampamentos provisórios. 

De acordo com dados oficiais, mais de 33 milhões de paquistaneses estão sendo afetados pelas chuvas, ou seja, um em cada sete habitantes do país. Os mesmos dados indicam que quase um milhão de casas foram destruídas ou muito danificadas pelas chuvas. Isso significa que, passada essa situação emergencial, serão necessários vários anos para recuperar todas as perdas em infraestrutura. 

Apesar de possuir armas nucleares, um poderoso conjunto de forças armadas e a quinta maior população do mundo, o Paquistão é um país subdesenvolvido e cheio de problemas. Um exemplo: o país possui uma das menores rendas per capitas do mundo. Também possui uma economia com forte dependência da agricultura e da pecuária, atividades que estão sendo muito afetadas pelas chuvas e enchentes. 

E, desgraçadamente, os problemas não param por aí. 

De acordo com estudos de ambientalistas, o Paquistão ocupa a oitava posição entre os países mais ameaçados por mudanças climáticas. O rio Indo, o maior e mais importante corpo d`água do país ocupa aqui uma posição de destaque – as nascentes do rio, que se formam a partir do degelo de glaciares nas Montanhas Himalaias, estão ameaçadas. 

Conforme já tratamos em postagens anteriores, as Montanhas Himalaias concentram as nascentes de alguns dos maiores e mais importantes rios da Ásia. Além dos já citados rios Indo, Ganges e Brahmaputra, entram nessa lista os rios Mekong, Yangtzé, Huang He ou Huang Ho, Amu Daria e Syr Daria, entre muitos outros. Todos esses rios tem uma característica em comum – nascentes que se formam a partir do degelo de glaciares nas Himalaias. 

O aumento das temperaturas globais está derretendo glaciares em montanhas de todo o mundo, especialmente em grandes cordilheiras como os Andes, os Alpes e as Himalaias. Centenas de milhões de pessoas em todo o mundo estão ameaçadas de perder seus principais mananciais de fornecimento de água potável. 

Além dos riscos climáticos, os paquistaneses ainda precisam enfrentar uma outra questão importante – as nascentes do rio Indo ficam na Caxemira, uma região que vem sendo disputada com a Índia desde a independência da Inglaterra em 1947. A disputa pela região levou os dois países a entrar em guerra em três ocasiões – 1947, 1965 e 1971. A questão ainda não foi resolvida e tropas dos dois países vivem se “estranhando” nas fronteiras da região. 

É provável que muitos dos leitores nunca tenham ouvido falar do rio Indo até hoje. Para mais de 220 milhões de paquistaneses, entretanto, esse rio é a principal fonte de vida e de trabalho no país. Grande parte dessa população está sofrendo hoje com as fortes cheias do rio Indo e correndo o risco de, num futuro não muito distante, de padecer com o gradual desaparecimento de suas águas. 

A situação do Paquistão é das mais complicadas nesses tempos de mudanças climáticas. 

AUMENTAM AS EXPORTAÇÕES DE MILHO DO BRASIL PARA A EUROPA

O clima quente e seco em grande parte da Europa e o conflito entre a Rússia e a Ucrânia estão mantendo o preço do milho alto no mercado internacional. Segundo estudos de empresas de consultoria especializadas nessa área, os problemas climáticos atingiram os milharais europeus no fim do período de floração, quando as plantas estavam entrando na fase de enchimento dos grãos. 

De acordo com levantamentos do USDA – Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, na sigla em inglês, os problemas climáticos vão levar a uma quebra de safra e a uma redução da oferta de milho nos países do bloco europeu da ordem de 8 milhões de toneladas em relação às estimativas feitas no último mês de julho. 

Por outro lado, o conflito entre a Rússia e a Ucrânia continua prejudicando o escoamento da produção local via Mar Negro. As estimativas indicam que a produção ucraniana de milho deverá aumentar na temporada 2022/2023, porém, as dificuldades logísticas para o escoamento da produção devem continuar. Ou seja, a oferta do grão no mercado europeu vai continuar em baixa e os preços vão continuar elevados. 

E o que tudo isso significa para nós aqui no Brasil? 

O Brasil já é o terceiro maior produtor mundial de milho, ficando atrás dos Estados Unidos e da China. Os três países, aliás, respondem por mais de 60% da produção mundial de milho. De acordo com as estimativas do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, a safra de milho neste ano deverá superar a marca das 111 milhões de toneladas. 

Com o “produto na mão” e com gente precisando comprar, é claro que as vendas para o mercado externo estão aquecidas, principalmente para países da Europa, muitos dos quais, até outro dia, boicotavam produtos agropecuários brasileiros por causa da “destruição e das queimadas” na Floresta Amazônica. 

De acordo com estudos de analistas do mercado de grãos aqui do Brasil, países como Espanha, Portugal, Holanda, Itália, Irlanda e Reino Unido já elevaram drasticamente as suas compras de milho brasileiro. Esses aumentos no volume de compras oscilaram entre 29% e 161%, para Espanha e Portugal respectivamente, chegando a incríveis 325.842%, que foi o aumento das vendas para o Reino Unido. 

É interessante notar que a França, um dos países com a maior quebra na safra de milho, não aparece na lista dos grandes compradores de milho brasileiro. O Governo francês, que vem sendo um dos maiores críticos do Brasil por causa da “destruição” da Amazônia, não daria é claro o “braço a torcer” nesse momento. É curioso, porém, que a Holanda aumentou muito as suas compras de milho e soja brasileiros nesses últimos tempos – será que não pode estar acontecendo uma espécie de triangulação por aqui? 

De acordo com informações da EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias, cerca de metade da produção brasileira de milho está concentrada no Cerrado Brasileiro, especialmente nos Estados da Região Centro Oeste. Os maiores produtores da Região são Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás. O segundo maior produtor brasileiro é o Estado do Paraná. 

Uma das características da produção do milho aqui no Brasil, que assusta os produtores norte-americanos e europeus, é que o grão é considerado por aqui como uma cultura de rotação. Como nosso país não tem um inverno rigoroso como o que ocorre no Hemisfério Norte, a nossa agricultura nunca para. O ciclo de produção do milho vai de 80 a 100 dias e se encaixa perfeitamente entre os ciclos de produção da soja. 

Quando os produtores fazem a colheita da soja, toda a palha resultante da cultura é deixada sobre o solo e é feito o plantio direto do milho – essa palha ajuda a melhorar a fertilidade do solo. Na colheita do milho, o mesmo processo é repetido e a uma nova semeadura de soja é feita – ou seja, uma cultura sucede a outra. Esse é o segredo da alta produtividade da agricultura brasileira. 

A quebra da safra de milho na Europa também tem reflexos na redução na produção de proteína animal. Tanto o milho quanto a soja são ingredientes fundamentais para a produção de ração para bovinos, suínos e aves. Essa redução da produção na Europa abre amplas possibilidades de negócios para os produtores brasileiros de carnes. 

De acordo com estimativas da ABPA – Associação Brasileira de Proteína Animal, o Brasil deverá produzir cerca de 14,7 milhões de toneladas de carnes de aves e 4,8 milhões de carnes de suínos. A esses números se somam 10,3 milhões de toneladas de carne bovina. Grande parte dessa produção já é exportada, especialmente para a China, e os produtores pretendem abrir novos mercados em todo o mundo – destaque aqui para países da Europa. 

Pois é – na hora de resolver o problema da segurança alimentar de suas populações, esses países esqueceram temporariamente as questões ambientais e partiram para o pragmatismo puro… 

OS PROBLEMAS DA ENERGIA NUCLEAR EM UMA EUROPA EM CRISE ENERGÉTICA, CLIMÁTICA E DE SEGURANÇA 

A geração de eletricidade partir de fontes nucleares é fundamental para diversos países europeus. Um grande exemplo é a França, onde cerca de 70% de toda a energia elétrica consumida pela população vem de centrais nucleares. Outros exemplos são a Finlândia e a Bélgica, onde essa geração responde por 35% da oferta de energia elétrica. 

As primeiras especulações sobre a constituição da matéria remontam ao século 4° a.C., quando os filósofos gregos Leucipo e Demócrito se questionaram sobre a divisão da matéria em partes cada vez menores até chegar ao elemento formador da matéria. Esse elemento passou a ser chamado de átomo, palavra grega que significa indivisível.  

O aprofundamento dos estudos e o uso prático da energia nuclear, entretanto, só ganharia força a partir do final do século XIX, quando começaram a se destacar cientistas como Joseph John Thompson, Marie e Pierre Curie, Albert Einstein, Niels Bohr, Ernest Rutherford e Enrico Fermi, entre inúmeros outros. Graças a todos os conhecimentos acumulados, Otto Hahn e Fritz Straßmann conseguiriam realizar a primeira fissão nuclear em Berlim em1938.   

Vista inicialmente pelo seu enorme potencial bélico e militar, o desenvolvimento da energia nuclear levou a uma verdadeira corrida entre os principais países do mundo, em especial os Estados Unidos e a Alemanha nazista em plena Segunda Guerra Mundial. Felizmente, se é possível usar essa palavra, essa corrida foi vencida pelos norte-americanos, que lançaram duas bombas atômicas sobre o Japão em 1945. A derrotada Alemanha estava, segundo muitos historiadores, a seis meses de conseguir construir armas nucleares naquele momento.

As aplicações da energia nuclear para fins civis remontam ao final da década de 1940, quando foram iniciadas as obras das primeiras centrais para geração de energia elétrica. A primeira dessas unidades foi a Usina Nuclear de Obninsk, na então URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, em 1954. Atualmente, existem cerca de 440 reatores nucleares em operação em mais de 30 países do mundo, que geram cerca de 390 GW de energia elétrica. 

Uma página negra da energia nuclear foi escrita entre os dias 25 e 26 de abril de 1986. Durante um desastrado teste de segurança, o reator número 4 da Usina Nuclear de Chernobyl explodiu e criou o maior acidente deste tipo na história. Além de contaminar imediatamente centenas de pessoas e provocar a morte de algumas pessoas, a radiação e os materiais radioativos liberados na atmosfera contaminaram centenas de milhares de pessoas que viviam dentro de uma vasta região da Ucrânia, então uma das Repúblicas da União Soviética e sede da Usina, além de atingir áreas da Bielorrússia, da Rússia e países da Europa Ocidental.   

Apesar de sua ligação direta com armas de destruição de massa e de tragédias como a que ocorreu em Chernobyl, a tecnologia das centrais nucleares evolui muito ao longo das últimas décadas, atingindo altos patamares de segurança e de eficiência. Para muitos especialistas, a geração de energia elétrica em centrais nucleares é uma das menos danosas ao meio ambiente – para outros grupos, a geração de resíduos radioativos e os riscos de acidentes ainda são problemas gravíssimos. 

Entre prós e contras, é fato que as centrais nucleares em operação estão fazendo um bom trabalho em muitos países, especialmente em um momento delicado de crise ambiental mundial. Quando comparadas às centrais de geração termelétricas a carvão mineral ou a gás natural, as emissões de gases de efeito das centrais nucleares são baixíssimas. 

Desgraçadamente, essa importante fonte de geração de energia elétrica vem enfrentando problemas bem particulares nesses últimos meses em países da Europa. Entre esses problemas desacatam-se a forte seca que está assolando diversos países do continente e o conflito entre a Rússia e a Ucrânia

A falta de chuvas e o forte calor que está assolando grande parte da Europa tem provocado uma baixa recorde do nível de importantes rios como o Reno, o Pó, o Danúbio, o Tâmisa, entre muitos outros. Isso está causando problemas para o abastecimento de água de populações e também para a produção agrícola e pecuária de muitas regiões. 

Os baixos níveis de muitos desses rios também está afetando a produção de energia elétrica. Um exemplo é o caso do rio Pó, na Itália, responsável por cerca de 15% de toda a geração de eletricidade do país. As centrais hidrelétricas instaladas na calha do rio estão operando com cerca de metade da capacidade em relação aos níveis de 2021 por causa da seca. 

Os baixos níveis dos rios também estão afetando a geração em diversas usinas nucleares. Apesar da energia dessas unidades ser originada pela fissão de materiais nucleares, a água é fundamental tanto para a operação quanto para o resfriamento dos reatores. Com os baixos níveis dos rios, muitas dessas centrais foram obrigados a reduzir a sua produção de energia elétrica. 

Durante a fissão dos elementos nucleares nos reatores, grandes volumes de calor são liberados – esse calor é usado para transformar a água em vapor que será usado para mover as pás de turbinas geradoras de energia elétrica. A água quente resultante desses processos é descarregada em rios próximos. A temperatura dessas águas deve respeitar certos limites para não afetar a fauna e a flora aquática. 

Com os baixos níveis dos rios, o volume de água quente que pode ser liberado pelas usinas nucleares precisa ser reduzido, o que está afetando diretamente a produção de energia elétrica. Cerca de metade das 19 centrais nucleares da França estão sendo afetadas por esse problema, o que é uma verdadeira tragédia em um momento de crise energética mundial. 

Além do clima, muitos países que operam centrais nucleares dependem do fornecimento de pastilhas de urânio enriquecido e de peças de reposição fabricadas na Rússia. Muitos desses países faziam parte da Antiga URSS e suas usinas foram fabricadas com tecnologia nuclear e equipamentos russos. 

Um desses casos é a República Tcheca, país que possui duas dessas centrais nucleares, que respondem por cerca de 40% de toda a produção de energia elétrica consumida pela população. Há poucos dias atrás, os tchecos receberam um carregamento de pastilhas de urânio enriquecido vindas da Rússia, elementos que garantirão o funcionamento das centrais nucleares de Temelín e Dukovany por até 4 anos. 

Por causa do conflito com a Ucrânia, a Rússia está sofrendo toda uma série de embargos econômicos, o que vai afetar a continuidade do fornecimento de combustível nuclear e de peças de reposição para a República Tcheca e diversos outros países. Ou seja, além de não poder mais contar com o gás natural da Rússia, que vinha sendo usado para a geração de energia “limpa” em muitos países – especialmente na Alemanha, a bola da vez agora são essas centrais nucleares. 

Para encerrar, ainda existe o problema da Usina Nuclear de Zaporizhia em Enerhodar, Ucrânia. Essa é a maior usina do tipo em operação atualmente na Europa e se encontra em meio ao fogo cruzado de soldados russos e ucranianos. Existe um temor generalizado que um novo acidente nuclear possa acontecer no local. Notícias divulgadas nas últimas horas dão conta que a usina foi desconectada da rede elétrica da Ucrânia no ultimo dia 25 de agosto.

Sem outras alternativas, muitos países da Europa estão mesmo é reativando as boas e velhas usinas termelétricas a carvão que, apesar de altamente danosas ao meio ambiente, garantem todos os confortos da vida moderna. O meio ambiente, literalmente, “que se dane”… 

UMA “TEMPESTADE PERFEITA” ATINGIU A EUROPA

De acordo com um estudo do EDO – Observatório Europeu da Seca, divulgado no dia 22 de agosto, quase metade do território da UE – União Europeia, está sofrendo com a falta de chuvas. Até o dia 10 de agosto, 47% do território da UE apresentava risco de seca e17% estava em estado de alerta com risco para a vegetação e as colheitas. 

Grande parte da Europa vem sofrendo com fortes ondas de calor, com temperaturas batendo sucessivos recordes. Em 19 de julho, conforme apresentamos em postagem aqui no blog, os termômetros próximos ao Aeroporto de Heathrow, em Londres, marcaram 40,2° C, Temperaturas semelhantes foram atingidas em diversos países do continente. 

Com altas temperaturas e poucas chuvas, importantes rios do continente estão apresentando níveis baixíssimos. Um desses caso é o rio Reno, um dos mais importantes corpos d`água da Europa – o rio está apresentando metade do nível que seria esperado para essa época do ano. 

Com aproximadamente 1,3 mil km de extensão, o Reno é uma das mais importantes hidrovias da Europa, fundamental para países como a Suíça, Áustria, Alemanha, Liechtenstein, França e Holanda. A navegação de grandes barcaças de carga está comprometida e o transporte de cargas vitais para a economia dos diferentes países servidos pela hidrovia está ameaçado, especialmente na Alemanha.   

Os baixos níveis dos rios também começam a afetar o abastecimento de cidades e populações. Somente na França, são mais de 100 cidades com reservatórios de água praticamente secos e dependendo da água transportada por caminhões-pipa, uma cena rara em território francês, mas comum em regiões do Semiárido Nordestino aqui no Brasil. 

A falta de água também já está impactando na produção agrícola e pecuária de muitas regiões. O abastecimento de populações e a dessedentação de animais tem sido priorizados, o que tem levado muitos produtores rurais a abandonar a irrigação de suas culturas – a quebra de safras de muitas culturas é esperada. 

Em algumas regiões, como é o caso de terras altas nos Alpes, as fontes de água superficiais já se esgotaram. Só para relembrar, as fontes de água em regiões montanhosas surgem do derretimento da neve e do gelo acumulados durante o inverno. Já há vários anos que se vem observando uma redução da precipitação de neve em vários trechos dos Alpes, o que acaba resultando em uma menor disponibilidade de águas superficiais. 

Nos Alpes franceses, citando um exemplo, muitos pecuaristas estão sendo obrigados a buscar água para a dessedentação dos animais nas planícies baixas usando caminhões-pipa. Além de encarecer substancialmente a produção de leite e carne, essa dificuldade extra vai levar a uma redução da produtividade. 

Além de todos as dificuldades criadas por problemas climáticos, os europeus sofrem também com uma crise energética e com dificuldades para a importação de grãos do Leste Europeu. Conforme já tratamos em inúmeras postagens aqui do blog, esses problemas são o resultado do conflito entre a Rússia e a Ucrânia. 

Falando resumidamente, os dois países são grandes produtores de grãos e outros alimentos, produtos que tradicionalmente eram exportados para os países da Comunidade Europeia. Citando um único exemplo – Rússia e Ucrânia respondem juntas por cerca de um terço da produção mundial de trigo. Com o início do conflito, tanto a produção quanto as exportações de grande parte desses grãos foram comprometidas. 

Ainda falando da produção de alimentos, o conflito também afetou parte do fornecimento mundial de fertilizantes. A Rússia e sua aliada Bielorrússia são grandes produtoras de fertilizantes, produtos que deixaram de ser exportados para os países da Comunidade Europeia devido a uma série de sanções econômicas impostas aos russos. 

Mas essa ainda não é a questão mais grave – a Rússia vinha fornecendo parte substancial do gás natural usado por muitos países, especialmente a Alemanha. Em represália às sanções econômicas que foram impostas aos russos, o fornecimento de gás natural passou a ser sistematicamente reduzido, o que desencadeou numa crise energética sem precedentes. 

Devido a todo um conjunto de políticas ambientais implementadas ao longo das últimas décadas na Comunidade Europeia, centrais termelétricas movidas a carvão mineral passaram a ser sistematicamente substituídas por unidades alimentadas com gás natural. Essas políticas, inclusive, levaram à desativação gradual de muitas plantas de geração nucleares. 

Essa crise energética foi potencializada por um aumento da demanda internacional por petróleo e carvão mineral num momento de recuperação econômica pós-pandemia da Covid-19. Relembrando, a maioria dos países enfrentou um ciclo de desaceleração econômica a partir de 2020, devido as políticas de restrição de circulação de pessoas. A partir do final de 2021, com a retomada forte de muitas economias, houve um forte aumento da demanda por combustíveis, o que resultou num forte aumento dos preços internacionais. 

Resumindo a situação caótica em que se encontra a Comunidade Europeia – tempo quente e muito seco em muitos países, falta de água para atividades agropecuárias e para o abastecimento de populações em algumas regiões, problemas que também se refletem em dificuldades para o transporte hidroviário. Crise energética e, possivelmente, dificuldades para a produção e abastecimento de alimentos no médio prazo. 

Desde o final da Segunda Guerra Mundial em 1945, quando a economia e a infraestrutura de muitos países acabaram completamente arruinadas pelo conflito, que os europeus não enfrentavam uma combinação tão grande e complexa de problemas em tantas áreas diferentes. 

E, diferente de nós brasileiros “terceiro mundistas” acostumados a enfrentar problemas desse tipo, esses europeus passaram as últimas décadas usufruindo de um bem-estar social generalizado e estão tendo enormes dificuldades para enfrentar todas essas adversidades. 

Desejamos boa sorte a todos e que consigam enfrentar essa “tempestade” da melhor maneira possível! 

QUASE METADE DO TERRITÓRIO DA UNIÃO EUROPEIA ESTÁ ENFRENTANDO SECA EXTREMA 

Uma postagem “ultra rápida”:

A forte onde calor e a seca que estão assolando grande parte do território europeu não estão deixando de gerar manchetes. Vejam na íntegra essa notícia que acaba de ser divulgada pela Deutsche Welle, uma empresa pública de radiodifusão da Alemanha – comentarei com mais calma em outra postagem: 

“O Observatório Europeu da Seca (EDO) informou nesta segunda-feira (22/08) que quase metade do território da União Europeia está padecendo com a falta de chuva. 

De acordo com um relatório, até 10 de agosto, 47% da UE estavam em risco de seca, com 17% da área em estado de alerta, com prejuízos para a vegetação e as colheitas. Em julho, o índice já era de 46%. 

`A severa seca que afetou muitas regiões da Europa desde o início do ano continuou se espalhando e piorou desde o início de agosto`, diz o relatório. 

Segundo os especialistas, o fenômeno está relacionado a uma persistente falta de precipitação combinada com uma série de ondas de calor desde maio. O EDO faz parte do Centro Comum de Investigação da Comissão Europeia. 

As chuvas recentes em meados de agosto “podem ter atenuado as condições de seca em algumas regiões da Europa”, diz o relatório. No entanto, tempestades causaram danos em algumas áreas e “potencialmente limitaram os efeitos benéficos das chuvas”, pondera o texto. 

De acordo com os cientistas, entre as regiões mais afetadas pela falta de chuva estão partes de Portugal, toda a Espanha, sul da França, centro da Itália, sul da Alemanha e uma grande área que inclui Eslováquia, Hungria e Romênia. Outros países afetados são Holanda, Bélgica e Luxemburgo. 

Perdas nas safras de verão 

Após a longa e excepcional seca, o EDO espera em grande parte “condições quase normais” até outubro. Isso, porém, pode não ser suficiente para uma recuperação completa dos últimos meses, mas deverá aliviar as condições críticas em muitos lugares. 

Apesar disso, de acordo com os cientistas, regiões do Mediterrâneo ocidental – que inclui Portugal e Espanha – podem experimentar “condições quentes e secas acima da média” até novembro. 

O clima excepcionalmente quente e seco também prejudica a economia. Deve haver perdas expressivas nas culturas de verão, sobretudo nas safras de milho, soja e girassol. 

A seca também afeta o fluxo dos rios e o menor volume de água armazenada tem impactos severos no setor de energia, tanto para geração de energia hidrelétrica quanto para sistemas de refrigeração de usinas nucleares. 

Seca na China 

A falta de chuvas não afeta somente a Europa. De acordo com relatórios do governo da China, grande parte do país está passando pelo verão mais quente e seco desde que os registros começaram, em 1961. A agência de notícias estatal Xinhua informou que 14 regiões e províncias enfrentam atualmente seca “moderada a severa”. 

O baixo nível de água em rios como o Yangtzé afeta a geração de energia elétrica e, consequentemente, a economia. As empresas na província de Sichuan foram solicitadas a racionar eletricidade. Na metrópole chinesa de Chongqing, no sudoeste do país, os shoppings estão reduzindo seus horários de funcionamento para diminuir o consumo de energia dos sistemas de ar condicionado.” 

AS “PEDRAS DA FOME” DOS RIOS SECOS DA EUROPA 

Wenn du mich siehst, dann weine” 

A frase em alemão que é mostrada em detalhe na foto que ilustra esta postagem pode ser lida em uma pedra localizada na calha do rio Elba, que nasce na República Tcheca e atravessa a Alemanha. Numa tradução livre se lê “se você me vir, chore”. A inscrição foi feita por um habitante anônimo da região no ano de 1616. 

Esse tipo de inscrição lítica é comum em várias regiões da Europa – especialmente na Europa Central, sendo conhecida popularmente como “pedras da fome”. Essas pedras só podem ser vistas em momentos de seca extrema, quando os rios estão com baixos níveis de água. Historicamente, as grandes secas sempre foram seguidas de períodos de fome generalizada. 

Nessa mesma pedra do rio Elba existe uma série de datas gravadas indicando outros momentos de seca extrema. Além do ano de 1616, também se leem 1417, 1707, 1746, 1790, 1800, 1811, 1830, 1842, 1868, 1892 e 1893. 

Uma das “pedras da fome” mais antigas que se conhece fica nas proximidades da cidade alemã de Pirna, que foi gravada no ano de 1115. Em uma data posterior foi gravada uma frase na mesma pedra, que numa tradução livre diz “se você vir essa pedra de novo, vai chorar. A água estava baixa até aqui no ano de 1417”. 

A Europa Central, região que concentra a grande maioria das “hungersteine” ou “pedras da fome” em alemão, reúne partes da Alemanha, República Tcheca, Eslováquia, Áustria e Hungria. Até o século XIX, quando surgiram vários avanços tecnológicos como máquinas a vapor e os primeiros fertilizantes químicos, as populações sempre dependeram da agricultura tradicional de baixa produtividade. 

Além de enfrentar os períodos de forte seca e de falta de água para a irrigação das plantações, esses agricultores sofriam com sementes de má qualidade, uso inadequado dos solos e, principalmente, pela falta de fertilizantes. As quebras de safra eram comuns, o que resultava em fome generalizada em muitas regiões. 

O principal fertilizante utilizado nesses períodos eram os estercos de animais, nem sempre disponíveis em quantidades suficientes para atender a forte demanda. Em regiões próximas do litoral eram usadas algas marinhas na adubação. Outra alternativa era a queima de vegetação para uso das cinzas e do carvão (a famosa coivara dos nossos indígenas e caboclos). 

Uma outra alternativa, usada desde da antiguidade, era a chamada rotação de culturas – as terras eram divididas em glebas, onde o cultivo era feito em forma de rodízio. Enquanto uma parte era utilizada para atividades agrícolas, outras eram deixadas em “descanso”, como forma de recuperar a sua fertilidade. 

Todo esse conjunto de problemas limitava, e muito, a produção de alimentos, mesmo em anos de condições climáticas favoráveis. Em épocas de forte seca, como testemunhado pelas datas das “pedras da fome”, a agricultura simplesmente entrava em colapso e as populações mais pobres não tinham condições de comprar os seus alimentos. 

Felizmente, as coisas melhoraram bastante nos dois últimos séculos. Com a mecanização da agricultura, com o desenvolvimento de sistemas de irrigação e de fertilizantes químicos, além do melhoramento genético de plantas e sementes, a produtividade da agricultura melhorou muito. A fome em terras da Europa parecia ter ficado no passado. 

A forte seca que está assolando o continente nesse momento trouxe de volta memórias trágicas de um passado distante. Importantes rios como o Reno, o Danúbio, o Loire, o Pó e o Tâmisa estão em níveis baixíssimos. Além da falta de água para irrigar plantações, os países europeus e a maior parte do mundo está vivendo uma crise no fornecimento de fertilizantes químicos

Como é do conhecimento de todos, o conflito entre a Rússia e a Ucrânia afetou profundamente a produção e a comercialização de grãos e outros alimentos para a Europa. A Rússia é, por lado, um dos grandes produtores mundiais de fertilizantes, produtos que deixaram de exportados devido a uma série de sanções econômicas impostas ao país. 

A Rússia e a Ucrânia também são tradicionais grandes produtoras e exportadoras de alimentos, atividades que foram seriamente prejudicadas por causa do conflito. Ou seja – países europeus estão enfrentando ao mesmo tempo uma forte seca e a falta de fertilizantes, além de perderem parte importante do seu fornecimento de alimentos. 

A situação está tão crítica que, apesar de protestos de políticos franceses em especial, a União Europeia está acelerando as negociações para um acordo comercial com o Mercosul, bloco econômico formado pelo Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. Uma das principais pautas desse acordo são as exportações de alimentos para os países europeus. 

Um dos principais entraves ao acordo sempre foram as acusações feitas contra o Brasil pelas “destruição da Floresta Amazônica”. De acordo com as narrativas, o país está derrubando e queimando a floresta para ampliar os campos agricultáveis e as pastagens para o gado. Essa afirmação não deixa de ser verdadeira, porém, a imensa maioria das atividades agrícolas e pecuárias do país são desenvolvidas em biomas como o Cerrado, a Mata Atlântica e os Pampas Sulinos. 

Grande parte dos obstáculos ao acordo entre a União Europeia e o Mercosul está sendo criado por agricultores de países como a França e a Irlanda, que recebem altos subsídios dos seus Governos e da própria União Europeia, praticando uma agricultura e uma pecuária bastante ineficientes e pouco produtivas. Esses produtores temem a concorrência de produtos agropecuários bons e baratos produzidos, principalmente, por brasileiros e argentinos. 

A insegurança alimentar e os fantasmas do passado trazidos ao inconsciente coletivo pelas “pedras da fome” parecem estar fazendo com que o pragmatismo supere as divergências políticas e os grupos de pressão. Não há ideologia que resista muito tempo a fome…

A EUROPA E SEUS RIOS SECOS

A forte seca e os baixos níveis do rio Reno estão ameaçando a indústria alemã. Essa afirmação foi emitida em nota há poucos dias atrás pela BDI – Federação da Indústria Alemã. E esse mesmo alerta vale para importantes rios de diferentes países da Europa.  

O Reno é um dos rios mais importantes da Europa e, desde a antiguidade, a navegação pelas suas águas vem sendo fundamental para a formação e manutenção de grandes impérios e nações. Com quase 1,3 mil quilômetros de extensão, desde as suas nascentes em geleiras nos Alpes Suíços até sua foz no Mar do Norte nas proximidades de Rotterdam, o rio Reno é uma rota vital para a economia da Suíça, Áustria, Alemanha, Liechtenstein, França e Holanda.  

O Porto de Rotterdam, localizado próximo do encontro das águas do Reno com o Mar do Norte na Holanda, exemplifica a importância dessa via de transporte fluvial: é um dos maiores portos do mundo, com cerca de 40 km de extensão linear entre cais e depósitos, movimentando cerca de 400 milhões toneladas de carga a cada ano e empregando aproximadamente 300 mil trabalhadores. A cidade de Rotterdam, que tem 500 mil habitantes, é sede de um importante complexo industrial, além de abrigar o maior polo petroquímico da Europa. 

Com a forte seca que vem assolando grande parte da Europa há vários meses, o Reno está com cerca da metade do nível normal para essa época do ano. A navegação de grandes barcaças de carga está comprometida e o transporte de cargas vitais para a economia dos diferentes países servidos pela hidrovia está ameaçado, especialmente na Alemanha. 

Combustíveis e derivados de petróleo, carvão mineral, minérios, além de cargas volumosas e pesadas sempre foram transportados por barcaças através dessa hidrovia. Cada uma dessas barcaças de carga transporta um volume equivalente entre 40 e 100 caminhões, o que nos dá uma ideia dos impactos de uma eventual paralização na movimentação de cargas no rio Reno. 

E os problemas não se limitam ao rio Reno. Um outro importante rio que está secando a olhos vistos ó rio Pó, o maior e mais importante da Itália. Conforme comentamos em uma postagem anterior, o vale do rio Pó concentra cerca de 1/3 da produção agrícola italiana. 

O rio Pó nasce nos Alpes Italianos junto à fronteira com a França e percorre 652 km no sentido Leste até desaguar no Mar Adriático ao Sul da famosa cidade de Veneza. Ele atravessa os Estados italianos de Piemonte e da Lombardia, considerados os maiores celeiros agrícolas da Itália. Um exemplo da pujança dessa região pode ser visto na produção de arroz – 93% da produção italiana está concentrada nesses dois Estados. 

O vale do rio Pó também responde pela maior parte da produção de trigo e cevada, entre outros grãos, além de amêndoas, nozes e frutas. A região também concentra grande parte da pecuária do país. Com os baixos níveis do rio, grande parte dessa produção está ameaçada. 

Outro exemplo da inclemência da seca pode ser visto no rio Loire (ou Leire em occitano), um dos mais famosos da França. Essa região com feições de “contos de fada” é famosa em todo o mundo pelos seus castelos. Com os baixíssimos níveis das últimas semanas, a população está conseguindo atravessar o leito do rio a pé. 

Além dos gravíssimos impactos na agricultura – lembrando que a França é um dos grandes produtores de alimentos da Europa, e no abastecimento das populações, os baixos níveis dos rios estão ameaçando a geração de energia elétrica no país. Cerca de 70% da eletricidade consumida pelos franceses vem de centrais nucleares, onde a água dos rios é fundamental nos processos de resfriamento dos reatores – sem água, muitas dessas usinas estão sendo desligadas. 

Uma outra importantíssima hidrovia da Europa que sofre com os baixos níveis das águas é a do rio Danúbio. Com aproximadamente 2,8 mil km de extensão, o rio Danúbio atravessa 9 países da Europa e ocupa a posição de segundo maior rio do continente, perdendo apenas para o rio Volga da Rússia.  

A hidrovia do rio Danúbio é uma das mais importantes do mundo, tanto em termos de volumes de cargas e de pessoas transportadas todos os anos quanto pelo número de países cortados por ela: Alemanha, Áustria, Eslováquia, Croácia, Sérvia, Hungria, Bulgária, Romênia e, na região do Delta do Danúbio, um trecho da Ucrânia.  

A lista de países fica ainda maior quando se incluem os afluentes navegáveis da bacia hidrográfica: República Tcheca (rio March), Bósnia-Herzegovina (rio Save) e Moldávia (rio Pruth). A maior parte dos países listados não têm acesso direto ao mar, algo que representaria um enorme obstáculo ao seu desenvolvimento econômico, uma vez que o comércio marítimo é fundamental para os grandes países. 

O mítico “Danúbio Azul”, que foi imortalizado na famosa valsa do compositor austríaco Johann Strauss II, está apresentado águas com uma infinidade cada vez maior de tons na cor marrom devido aos grandes bancos de areia que surgem a todo o momento ao longo do seu leito. 

Nem mesmo o icônico rio Tâmisa, o maior e mais importante rio da Inglaterra, está saindo ileso dessa forte seca. Oficialmente, o rio Tâmisa nasce no condado de Gloucestershire e suas águas percorrem cerca de 346 km até encontrarem as águas do Mar do Norte. Ao longo do seu curso, o rio atravessa algumas importantes cidades da Inglaterra como Oxford, Eton, Walingford, Reading, Windsor e Londres. Essa “nascente oficial” do rio secou. 

Fortes ondas de calor e grandes secas sempre ocorreram por toda a Europa. Um exemplo disso são as chamadas “pedras da fome”, inscrições líticas que sempre aparecem nos momentos em que as águas dos rios baixam muito. Populações do passado, especialmente entre os séculos XV e XIX, deixaram esculpidas nas pedras as datas em que ocorreram essas grandes secas e as consequentes fomes. 

O que vem se notando nas últimas décadas é um aumento vertiginoso na frequência e na intensidade das grandes secas no continente – eventos extremos que ocorriam de duas a três vezes a cada século agora ocorrem a intervalos de três anos. 

Estudos mostram que o continente europeu é o que está sofrendo com maior intensidade os efeitos do aquecimento global. E as notícias não são nada animadoras – as coisas ainda vão piorar muito nos próximos anos. 

PESQUISADORES DESCOBRIRAM UM MANGUEZAL “FÓSSIL” A 160 KM DE DISTÂNCIA DA COSTA DO MÉXICO 

Na última postagem falamos dos estragos causados por um forte El Niño numa extensa área de manguezais no Golfo de Carpentária, no Norte da Austrália em 2015. Pesquisas recentes confirmaram a hipótese formulada há época, onde se imaginava que o nível do mar baixou cerca de 40 cm devido ao El Niño – uma forte seca na região ajudou a consolidar a tragédia. 

Aproveitando o gancho, gostaria de falar de uma descoberta inusitada feita numa região do Sul do México, próximo da fronteira com a Guatemala – um manguezal. Existe um interessante detalhe – esse manguezal está localizado as margens da lagoa de El Cacahuate, próxima da calha do rio San Pedro Mártir e a cerca de 160 km da costa mexicana. 

Manguezais ou mangues, como são mais conhecidos, são ecossistemas costeiros em áreas de transição entre águas doces e salgadas. As áreas de mangues possuem uma vegetação adaptada ao regime das marés. São plantas com raízes bem desenvolvidas, conhecidas como halófilas, e perfeitamente adaptadas às águas salobras. 

São encontrados nas regiões tropicais e subtropicais de todo o mundo, ocorrendo em enseadas, barras, lagunas, foz de rios, baías e em outras formações costeiras onde as águas doces de rios e lagos se encontram com as águas marinhas. Encontrar um manguezal tão distante do oceano é surpreendente. 

Recentemente, publicamos uma postagem aqui no blog comentando sobre a descoberta de manguezais que crescem em águas exclusivamente doces na região da foz do rio Amazonas. Segundo os pesquisadores essa foi a primeira vez em que esse tipo de manguezal foi encontrado no mundo. 

E qual seria o segredo desse manguezal mexicano? 

Depois de estudos cuidadosos, os pesquisadores concluíram que há cerca de 100 mil anos toda a região onde se encontra o manguezal era cercada pelo oceano. Naquela época, a temperatura era mais alta e o nível do mar estava vários metros acima do nível atual. 

Há cerca de 120 mil anos, o planeta apresentava temperaturas entre 0,5 e 1,5° C mais altas do que eram há época do início da Revolução Industrial em meados do século XVIII. Essa foi uma das fases mais quentes do planeta em épocas recentes e estão muito próximas das temperaturas atuais. Uma das características desse foi período foi uma elevação do nível dos oceanos. 

Essa foi fase foi seguida de uma era glacial, quando a temperatura do planeta caiu e a concentração de grandes massas de gelo nos polos e em altas montanhas aumentou, processo que provocou uma baixa considerável no nível dos oceanos em todo o mundo. Com o retrocesso do oceano, os manguezais foram retrocedendo progressivamente. 

Um pequeno fragmento dos manguezais, entretanto, conseguiu sobreviver mesmo sem manter contato com as águas salinas e doces do litoral. As águas da lagoa El Cacahuate e do rio San Pedro Mártir retiram grandes quantidades de cálcio dos solos da região, ficando com uma composição semelhante à da água do mar. Foram essas águas que “enganaram” as árvores do manguezal, garantindo a sua sobrevivência por milhares de anos. 

Esse pequeno fragmento florestal se transformou em uma “relíquia viva de um mundo antigo“, nas palavras do pesquisador Aburto-Oropeza, um dos autores do estudo. O estudo comparativo entre as características genéticas dessa vegetação isolada com a dos manguezais oceânicos trará conhecimentos importantes sobre a evolução isolada das espécies durante esse período. 

Em nossos dias atuais, quando vivemos sob as ameaças criadas pelo aquecimento global e pelas mudanças climáticas, entender adequadamente os mecanismos que permitiram a sobrevivência desse pequeno mangue longe do oceano poderá ser fundamental para salvar florestas de mangues que estão sob ameaça em todo o mundo. 

Mudanças climáticas naturais sempre ocorreram ao longo dos mais de 4 bilhões de anos de história do nosso planeta. As mais diferentes espécies animais e vegetais que se sucederam ao longo dessa história ou conseguiram se adaptar a essas mudanças ou se extinguiram. 

As mudanças climáticas atuais, que ao que tudo indica foram provocadas por nós, seres humanos, são inevitáveis. Grande parte das espécies vivas – animais e vegetais, poderão ser levadas a extinção, enquanto muitas outras, mais adaptáveis às mudanças, conseguirão se adaptar e sobreviverão. 

A pergunta que interessa – será que nós seres humanos vamos conseguir nos adaptar e sobreviveremos? 

REDUÇÃO DO NÍVEL DO MAR PROVOCOU A MORTE DE 40 MILHÕES DE ÁRVORES EM MANGUEZAL NA AUSTRÁLIA ENTRE 2015 E 2016

Pesquisadores australianos conseguiram explicar cientificamente um “mistério” que vinha intrigando especialistas há mais de seis anos – a morte de cerca de 40 milhões de árvores de mangue em uma faixa de quase 2 mil km no Golfo de Carpentária, no Norte da Austrália. 

Entre os anos de 2015 e 2016, essa região sofreu com uma severa seca e uma área com cerca de 7.400 hectares de floresta de mangue morreu, literalmente, de sede. Um estudo publicado no Journal of Marine and Freshwater Research em 2017, já havia afirmado que a área enfrentou temperaturas recordes no período e que houve uma redução de 20 cm no nível do oceano, muito provavelmente por causa do fenômeno El Niño

Esse estudo se valeu, entre outras fontes de pesquisa, de imagens aéreas e de satélites captadas a partir de 1972. Essas informações foram comparadas com dados climáticos e de temperaturas da região, o que permitiu a montagem de um cenário detalhado da dinâmica do meio ambiente regional. O evento foi considerado sem precedentes até então. 

O Continente Australiano é considerado o mais seco do mundo, tendo grande parte do seu território formado por áreas desérticas. A faixa Norte do país, entretanto, possui um clima tropical úmido bastante similar ao do Sudeste Asiático. Essa região é coberta por florestas tropicais e toda a faixa costeira é ocupada por extensos manguezais, considerados os mais bem preservados do mundo. 

Novos estudos realizados por pesquisadores da Universidade de Duke, da Austrália, confirmaram que o responsável pela tragédia no manguezal foi mesmo o El Niño, que naquele ano foi particularmente intenso. O fenômeno provocou uma redução de 40 cm no nível do oceano no Golfo de Carpentária, evento que durou cerca de 6 meses

Relembrando,  manguezais ou mangues, como são chamados popularmente, são ecossistemas costeiros de transição entre os ambientes marinhos e terrestres. São encontrados nas regiões tropicais e subtropicais de todo o mundo, sendo comuns em enseadas, barras, lagunas, foz de rios, baías e em outras formações costeiras onde as águas doces de rios e lagos se encontram com as águas marinhas, formando um ambiente de águas salobras.   

As áreas de mangues possuem uma vegetação adaptada ao regime das marés. São plantas com raízes bem desenvolvidas, conhecidas como halófilas, e perfeitamente adaptadas às águas salobras. Os solos dos manguezais recebem e acumulam grandes quantidades de sedimentos e de matéria orgânica em decomposição, sendo considerados um dos mais férteis do planeta.   

Essa característica transforma os manguezais em importantes “exportadores” de matéria orgânica, algo essencial para a produtividade das áreas costeiras. Esse ecossistema rico em alimentos abriga centenas de espécies de peixes, moluscos, crustáceos, vermes, aves, mamíferos e, também, populações humanas.    

Segundo estudos científicos, cerca de 70% das espécies marinhas utilizadas para alimentação humana, onde se incluem peixes, siris, camarões, lagostins, caranguejos, entre outras espécies, dependem das áreas de mangue para a sua reprodução.   

Um exemplo são os alevinos de diversas espécies de peixes, que passam a fase inicial de suas vidas abrigados entre as raízes do mangue, só migrando para as águas abertas dos oceanos após atingirem um tamanho maior e mais adequado para fugir dos predadores. Em regiões onde as áreas de mangue foram destruídas ou ocupadas, a produtividade pesqueira é cada vez menor. 

A combinação de seca regional e forte calor no Golfo de Carpentária no período reduziu fortemente a disponibilidade de água doce, por um lado, e a redução do nível do oceano por causa do El Niño, por outro lado, afastou a água salgada. Foi esse verdadeiro “cerco” a essa extensa faixa de manguezal que matou as árvores de sede. 

O El Niño (o “menino” em espanhol) é um fenômeno caracterizado por um aquecimento anormal de uma extensa área do Oceano Pacífico em alguns anos. Em outros anos essa área apresenta um resfriamento anormal, fenômeno que passou a ser chamado de La Niña (a “menina”). Juntos, esses dois fenômenos, que eu costumo chamar de “los chicos malos” (as “crianças malvadas”) causam alterações climáticas e problemas em diferentes partes do mundo.  

O ano de 2015, particularmente, foi caracterizado por um intenso El Niño, que prejudicou lavouras de cacau, chá e café em toda a Ásia e África. Também provocou uma forte seca no Sudeste Asiático, favorecendo o surgimento de vários incêndios florestais – foi essa seca que se estendeu até o Norte da Austrália. Naquele ano também se observou o inverno mais quente já registrado nos Estados Unidos. 

A ocorrência do fenômeno La Niña varia muito. Sua frequência ocorre em intervalos de 2 a 7 anos, com uma duração de 9 a 12 meses – em alguns casos, pode ter uma duração de até 2 anos. O El Niño têm uma frequência tão irregular quanto a da La Niña, ocorrendo também em intervalos de 2 a 7 anos, porém, com uma duração de 10 a 18 meses.   

Os efeitos desses dois fenômenos no clima mundial sempre foram observados pelas populações, porém, só em décadas recentes e com o uso de sofisticados sistemas de monitoramento meteorológico e imagens de satélite é que foi possível estabelecer os mecanismos climáticos que formam os fenômenos. 

Para completar, a cereja do bolo – as mudanças climáticas globais, como sempre, podem estar amplificando ainda mais os efeitos do El Niño e da La Niña. Os eventos dramáticos observados nos manguezais do Golfo de Carpentária parecem comprovar isso. E se aconteceu uma vez, é muito provável que possa acontecer outras vezes em diferentes regiões do mundo.