OS CANAVIAIS DA BAÍA DE TODOS OS SANTOS

Mapa de Salvador século XVI

Um dos muitos superlativos referentes ao Brasil, que todos nós aprendemos ainda nos primeiros anos dos bancos escolares, nos falava da grande extensão do nosso litoral – são mais de 7 mil km entre o rio Oiapoque, ao Norte, e o arroio Chuí, ao Sul. Uma das coisas que não nos ensinaram é que, apesar de muito extenso, nosso litoral não tem muitos portos naturais bem abrigados das ondas do mar e com uma profundidade adequada para receber embarcações de grande calado

Nos primeiros séculos de nossa história, quando as embarcações eram a vela e ainda não existiam as dragas que permitem aprofundar as águas dos canais dos portos, como é comum em nossos dias, a situação era bem mais complicada. Os melhores atracadouros naturais de nossa costa naqueles tempos eram a Baía de Todos os Santos, no atual Estado da Bahia, e a Baía da Guanabara, no Estado do Rio de Janeiro. Não por acaso, essas foram as duas primeiras capitais de nosso país. 

A Capitania da Baía de Todos os Santos foi outorgada ao fidalgo português Francisco Pereira dos Santos, que chegou às costas da Bahia em 1534. Pereira dos Santos era reconhecido como um militar “linha dura”, com uma elogiável ficha de serviços nas colônias portuguesas da África e da Ásia, onde ganhou o apelido de “Rusticão”. Pouco tempo depois de sua chegada foi fundado o Arraial do Pereira, bem próximo da atual Ladeira da Barra em Salvador. Anos mais tarde, o local passou a ser chamado de Vila Velha. 

Segundo os documentos disponíveis, Francisco Pereira dos Santos instalou os três primeiros engenhos de cana da Bahia entre 1536 e 1545. Segundo informações do livro História da Colonização Portuguesa do Brasil, os indígenas atacaram e queimaram dois desses engenhos, o que demonstra a dificuldade dos primeiros colonizadores do país. Ao final do século XVI, a Capitania da Baía teria 36 engenhos em pleno funcionamento, principalmente na região do Recôncavo Baiano, só ficando atrás da Capitania de Pernambuco com seus 66 engenhos

Ao Sul da Capitania da Baía de Todos os Santos foram criadas as Capitanias de Ilhéus e de Porto Seguro – essas três Capitanias se fundiriam no futuro e dariam origem ao atual Estado da Bahia. Essas duas Capitanias não teriam uma vida fácil – toda a região Sul da Bahia, Leste de Minas Gerais e grande parte do Espírito Santo eram território dos índios botocudos, um povo extremamente hostil e guerreiro, que resistiu bravamente contra o avanço dos colonizadores até o final do século XIX.  

Na região de Porto Seguro foram feitas tentativas para a instalação de 4 engenhos, dos quais só dois resistiram por algum tempo – os proprietários desses engenhos eram Manuel Rodrigues Magalhães e Gonçalo Pires. Em Ilhéus foram instalados 8 ou 9 engenhos, conforme informações de Gabriel Soares de Sousa em seu Tratado Descritivo do Brasil. Destes engenhos de Ilhéus, só 3 sobreviveram aos ataques dos índios botocudos. A grande ironia da história é que, graças à ferocidade dos botocudos, a Mata Atlântica no Sul da Bahia e no Espírito Santo conseguiria sobreviver ao avanço dos canaviais

Um caso famoso e que ilustra a ferocidade de muitas das nações indígenas que viviam no litoral foi o caso do Bispo eleito da cidade de Salvador, Dom Pero Fernandes Sardinha, que sobreviveu ao naufrágio de sua nau na altura do litoral de Alagoas. Capturado na praia junto com outros sobreviventes pelos caetés, notórios antropófagos, o Bispo Sardinha foi morto e devorado pelos índios. 

Apesar dos conflitos com várias das nações indígenas da região, a prosperidade econômica e a boa localização geográfica levaram à escolha da região para sediar o Primeiro Governo-Geral do Brasil em 1549. A antiga Vila Velha foi totalmente remodelada e passou a ser chamada de São Salvador da Baía de Todos os Santos. O primeiro Governador-Geral do Brasil foi Tomé de Sousa, que ocupou o cargo entre 1549 e 1553. Salvador permaneceria como capital da Colônia até 1763, quando a decadência da indústria açucareira no Nordeste e as descobertas de ouro na Região das Geraes levaram a mudança da capital para a cidade do Rio de Janeiro. 

Uma das primeiras providências do Governo-Geral foi a implantação das guerras de extermínio contra as populações hostis, “limpando e pacificando territórios” para a posterior implantação de cidades e engenhos. A estratégia era simples – guarnições militares fortemente armadas entravam nas aldeias e matavam todos os indígenas que conseguissem. Aqui é importante lembrar que o Papa Clemente VII publicou em 8 de maio de 1529 a bula papal Intra Arcana, documento jurídico-canônico que permitia o uso de força e armas contra os “bárbaros” como “forma de mostrar a estes povos o conhecimento do verdadeiro Deus”. 

Eu costumo usar uma metáfora para explicar esse período – você adquire uma casa e ao entrar no imóvel percebe que ele está tomado por baratas e ratos. O que você faz – chama uma empresa especializada no controle de pragas que, usando de venenos e armadilhas de todos os tipos, vai conseguir limpar o imóvel. A Baía de Todos os Santos foi uma espécie de laboratório inicial dessas operações de limpeza de indígenas, uma prática que depois foi espalhada por todo o Brasil daqueles tempos. 

As guerras de extermínio aconteceram durante todo o período colonial brasileiro. A primeira delas ocorreu em 1558 quando Mem de Sá arrasou a resistência dos Tupinambás, matando cerca de 30.000 índios. Em dezenas de outras guerras, centenas de milhares de índios foram mortos ou escravizados pelos brancos. 

O mesmo Mem de Sá em ocasião anterior havia autorizado uma guerra de vingança contra os índios caetés por haverem aprisionado e devorado o Bispo Pero Fernandes Sardinha em 1556. Os colonos atacaram as missões jesuíticas e, dos doze mil índios ali existentes, só sobraram mil ao momento em que foi dada uma ordem de revogação. 

Outra linha de frente aberta pela política oficial da Metrópole para a conquista do território foi a catequese dos índios através dos missionários da Companhia de Jesus. De acordo com a visão medieval, não havia uma distinção muito clara entre a atuação da Igreja e do Estado. O mundo era de Deus e a Igreja era o seu representante na terra. Assim, Papas e Reis tinham a obrigação de estender e sustentar a fé. No caso do Brasil, as relações eram muito mais intensas, visto que o Estado Apostólico fora um dos patrocinadores das expedições ao Novo Mundo. 

Os primeiros jesuítas, chefiados por Manuel da Nóbrega, chegaram ao Brasil na mesma esquadra que trouxe o primeiro Governador-Geral em 1549. Eles começaram seus trabalhos em Salvador, onde fundaram a Província Brasileira da Companhia de Jesus, a primeira do gênero a ser estabelecida no continente americano. Em pouco tempo os jesuítas construíriam um colégio e iniciariam a catequese dos indígenas. 

Uma das principais estratégias usadas pelos religiosos para catequisar e “civilizar” os indígenas eram os descimentos – grandes aldeias ou missões jesuíticas eram construídas para receber os indígenas deslocados de suas antigas moradias. Essa estratégia tinha um duplo objetivo – retirar o indígena de seu meio natural e cultural, ao mesmo tempo em que ele seria imerso no mundo dos colonizadores. 

Os relatos que chegaram aos nossos dias nos dão conta que os indígenas mais velhos não suportavam essa mudança e acabavam morrendo de “tristeza”. Doenças comuns para os europeus como a gripe e a varíola eram fatais para os indígenas, que não possuíam anticorpos para combater essas doenças. Milhares de indígenas morreram antes de serem convertidos ao cristianismo pelos “piedosos” jesuítas. 

Graças ao intenso uso das guerras de extermínio e aos “bons” trabalhos dos jesuítas, grandes trechos da Mata Atlântica na Bahia foram sendo liberados para a fundação de fazendas e engenhos de produção de açúcar. A força do fogo e dos machados faria o resto, liberando imensas áreas para o plantio da cana de açúcar

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