BOAS NOTÍCIAS AQUI DO MEU BAIRRO: A DESPOLUIÇÃO DO RIO PINHEIROS COMEÇA A MOSTRAR BONS RESULTADOS

Fazer publicações diárias falando sobre meio ambiente e recursos hídricos nos leva, infelizmente, a uma torrente quase que contínua de más notícias. Em tempos de pandemia da Covid-19 e da reincidência de antigos problemas como a Dengue em nossas cidades, o “caldeirão” fica ainda mais indigesto. 

Esquecendo por hora tudo isso, vamos falar de uma ótima notícia para a cidade de São Paulo e, muito melhor, para o meu bairro – Santo Amaro: depois de muitos anos de promessas não cumpridas e de alguns projetos “ninja” que não lograram bons resultados (destaco aqui um sistema de flotação que foi testado no rio), a famigerada poluição no rio Pinheiros finalmente começa a mostrar sinais que está sendo reduzida. 

Cerca de três semanas atrás, um grupo de cidadãos paulistanos que circulava com suas “bikes” pela extensa ciclovia que margeia o rio Pinheiros flagrou um cardume de peixes nadando em um trecho do rio com sinais de águas mais limpas. Um vídeo feito por esse grupo viralizou nas mídias sociais e, inclusive, acabou virando pauta de reportagens em muitos meios de comunicação. Em tempos de desalento e más notícias, esse acontecimento alegrou muita gente. 

O rio Pinheiros nasce a partir da junção das águas dos rios Grande e Guarapiranga em Santo Amaro, bairro da Zona Sul de São Paulo, e segue por cerca de 25 km até desaguar no rio Tietê na Zona Oeste da cidade. Antes da construção da Represa Billings na década de 1930, o que exigiu o represamento de diversos rios da região do Alto da Serra do Mar, as nascentes do rio Grande ou Jurubatuba eram encontradas em Paranapiacaba, um distrito do município de Santo André, a mais de 50 km de distância do trecho inicial do rio Pinheiros. 

A foto que ilustra esta postagem, que aliás é muito parecida com a vista que se tem do apartamento da minha irmã, mostra o exato ponto em que as águas dos rios Grande e Guarapiranga se encontram para formar o rio Pinheiros. Ao fundo, a Represa Guarapiranga, chamada carinhosamente por nós de “praia de Santo Amaro”. Se vocês prestarem atenção na imagem notarão uma diferença expressiva na cor das águas dos dois rios – as águas do rio Guarapiranga, que são razoavelmente limpas, contrastam com a cor escura das águas do poluído rio Grande. 

A história do bairro remonta aos tempos da fundação do colégio e da vila de São Paulo de Piratininga pelos padres Jesuítas em 1554. A congregação instalou uma missão de catequese ao lado do Jeribatiba, antigo nome indígena do rio Pinheiros. Os indígenas chamavam o lugar yvirá-puera, nome que na língua tupi-guarani significa “pau podre” e que depois seria o nome dado a um dos parques mais queridos da cidade – o Ibirapuera.  

Durante quase quatro séculos, Santo Amaro foi uma cidade independente. O rio Pinheiros era uma importante via navegável, que permitia a comunicação e os transportes com as demais vilas da região, principalmente São Paulo de Piratininga. Em 1932, após um grande reordenamento regional, Santo Amaro teve grande parte de seu território incorporado ao município de São Paulo e partes transformadas e/ou agregadas a outros municípios. 

O primeiro grande aproveitamento dos recursos hídricos da região se deu em 1908, quando foi construída a Represa de Santo Amaro, depois rebatizada como Represa Guarapiranga. O objetivo da obra era criar um grande reservatório que permitisse regularizar as vazões do rio Tietê nos períodos de seca e assim garantir a operação contínua das turbinas da Usina Hidrelétrica de Santana de Parnaíba, primeira geradora de eletricidade da região metropolitana de São Paulo e uma das principais impulsionadoras do processo de industrialização regional. 

Outra obra marcante na região foi a já citada construção da Represa Billings e do seu complexo de geração de energia elétrica na década de 1930. Além do aproveitamento das águas de diversos rios da região, o projeto previa a transposição de águas da bacia hidrográfica do rio Tietê na direção da represa. Foram construídas duas estações de bombeamento ou de traição – uma na região da Vila Olímpia e outra na Pedreira. O curso do rio Pinheiros, que era extremamente irregular e cheio de curvas, foi totalmente retificado e transformado em um canal reto. A foto abaixo nos dá uma ideia de como eram as margens do rio na década de 1930.

Os problemas de poluição nas águas do rio Pinheiros, dos quais as Represas Billings e Guarapiranga não escaparam, começaram no final de década de 1950, quando inúmeras indústrias, especialmente dos setores de auto-peças e químicas, começaram a se instalar na região de Santo Amaro. Lembro aqui que há essa época teve início a instalação das indústrias automobilísticas aqui no Brasil, principalmente na chamada Região do ABC, sigla que se refere aos municípios de Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano. 

Santo Amaro fica exatamente ao lado de São Bernardo do Campo – a proximidade geográfica e os baixos preços dos terrenos no bairro atraiu um grande número de indústrias fornecedoras do segmento automobilístico. Nessa época, chaminés e esgotos de indústrias eram “sinais de progresso”. Os grandes córregos e ribeirões da região passaram a receber grandes volumes de efluentes, que acabavam sendo despejados na calha do rio Pinheiros. 

O grande número de indústrias na região acabou atraindo grandes contingentes de migrantes vindos de todas as regiões brasileiras – destaque para o Nordeste, que buscavam empregos e uma vida melhor. Assim como já estava acontecendo na Região do ABC, começaram a surgir grandes loteamentos populares em toda a região de Santo Amaro. Aqui é preciso destacar que muitas dessas ocupações se deram nas áreas dos mananciais das represas da região

A Represa Guarapiranga, que desde a década de 1930 havia sido elevada à condição de manancial de abastecimento da cidade de São Paulo, foi a que mais sofreu a princípio com essas ocupações. Como é de praxe nas cidades brasileiras, a formação desses bairros não foi acompanhada da implantação de redes coletoras e de ETEs – Estações de Tratamento de Esgotos. Lançados de forma improvisada nos corpos d’água da região, esses efluentes passaram a poluir as águas das represas, águas essas que eram e ainda são usadas no abastecimento dessas populações.

No caso da Billings há um agravante – o sistema de transposição de águas em operação transferia grandes volumes de esgotos das águas já bastante poluídas do rio Tietê para a represa. Esse bombeamento foi proibido em 1992, ficando restrito apenas a situações de emergência como enchentes e falta de água para as indústrias da região da Baixada Santista (as águas da Represa Billings são conduzidas Serra do Mar abaixo por grandes tubulações para a Usina Hidrelétrica Henry Borden em Cubatão e depois são despejadas em rios da região). 

Eu conheci muitos moradores antigos do bairro que nadaram, pescaram, lavaram roupa e se abasteceram com as águas limpas do rio Pinheiros. Na minha infância, desgraçadamente, o rio já era uma grande vala de esgotos a céu aberto. Felizmente, pude aproveitar, e muito, das ‘praias” e das águas da represa Guarapiranga

A melhoria da qualidade das águas do rio Pinheiros, que se diga de passagem ainda está muito longe do mínimo aceitável, já é um sinal de alento e de alegria para todos nós. Diversas redes de esgotos estão sendo construídas e ampliadas na região já há muito tempo, iniciativas que estão por trás da melhoria da qualidade das águas do rio. Também existem trabalhos para a retirada de sedimentos e resíduos que foram acumulados no canal do rio ao longo de muitas décadas.

Não me imagino nadando nas águas do rio Pinheiros num futuro a médio e longo prazo, mas, fico empolgado com a simples esperança de algum dia poder sentar nas suas margens e conseguir contemplar a cidade sem me enojar com o atual mal cheiro das águas. Se isso realmente acontecer, já será uma grande conquista para todos nós paulistanos.

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