NEDERLAND: OS PAÍSES BAIXOS E SEUS CANAIS, OU HOLANDA PARA OS ÍNTIMOS

Amsterdam

Na última postagem começamos a falar do uso de rios e lagos para o transporte de cargas e de passageiros. Este é um tema bastante relevante para nós, brasileiros, que vivemos em um país de dimensões continentais, cortado por alguns dos maiores rios do mundo e que ainda patinamos no uso dos sistemas hidroviários para o transporte de cargas e de pessoas. Por razões um tanto estranhas e que trataremos em outras postagens, nossos governantes optaram pelo transporte rodoviário a várias décadas atrás – ferrovias importantes foram simplesmente abandonadas e os sistemas hidroviários só bem recentemente começaram a ser considerados em nossa matriz de transportes. 

Deixem-me falar um pouco sobre os Países Baixos ou Nederland (grafia em holandês), uma região que vive, literalmente, em função dos seus canais. O país é mais conhecido entre nós como Holanda – na realidade, este é o nome de duas províncias, a Holanda do Norte e a Holanda do Sul, onde estão as três principais cidades do país: Amsterdam, Haia e Rotterdam. Eu trabalhei por muitos anos em uma multinacional holandesa e posso afirmar para todos vocês que os colegas europeus preferiam o uso de Países Baixos nas referências à sua terra natal. 

Uma das primeiras coisas que você precisa saber para começar a entender os Países Baixos é que a palavra “dam” em holandês significa barragem – o nome da capital do País, Amsterdam, é derivado de Amsteldam (ou Amestelledamme) ou barragem do rio Amstel; já a palavra Rotterdam, cidade que abriga o maior porto da Europa, tem a ver com uma barragem construída no rio Rotter, local onde a cidade foi fundada. Esse rápido exercício linguístico mostra a importância das barragens e dos canais para o povo “neerlandês”, como diriam alguns escritores antigos ao se referir aos holandeses. 

Essa verdadeira obsessão dos holandeses pela engenharia não nasceu do dia para a noite. Ela deriva de uma necessidade prática das antigas populações para dominar a paisagem de uma região de terras baixas e pantanosas, sujeita a enchentes no período das chuvas e a alagamentos pelo avanço das ondas do mar em dias de tempestades.  

Metade do atual território ocupado pela Holanda está vários metros abaixo do nível do mar, em terras que foram conquistadas a força contra a vontade da natureza. Foi com muito trabalho e determinação que sucessivas gerações de holandeses cavaram canais de drenagem com pás, enxadas e picaretas, construíram diques de contenção e aprenderam a usar a energia mecânica de bombas movidas pelo vento (os famosos moinhos de vento da Holanda) para bombear a água das partes baixas. Documentos históricos indicam que os primeiros diques da Holanda foram construídos ainda no século IX, ou seja, a mais de 1.200 anos atrás. E como resultado deste monumental esforço, surgiram muitas das atuais cidades holandesas como Amsterdam, HaiaDelft, com seus maravilhosos e pitorescos canais. 

A cidade de Amsterdam (cujas grafias em português são Amsterdã e, a pavorosa, Amesterdão), chamada por muitos de a Veneza do Norte, foi fundada no ano de 1250. No início do século XVII, época em que a Holanda atingiu um período de intensa prosperidade econômica com o comércio marítimo internacional, Amsterdam passou por um intenso projeto de reurbanização e teve seus canais redesenhados para criar espaço para novas moradias. A cidade passou a contar com mais de 100 km de canais e com mais de 1.500 pontes. O transporte de cargas e de pessoas através dos canais, que já era uma das marcas da cidade, foram transformados em uma espécie de estilo de vida da população. As casas das famílias mais abastadas da cidade tinham “garagens” para seus barcos privativos e acessos direto para os canais. Esses barcos eram uma espécie de “limousine” da época – quanto mais rica e poderosa uma pessoa era, maior e mais bonito era o seu barco. 

Delft é outra cidade importante que surgiu em uma antiga área pantanosa, cujas terras foram drenadas após a construção dos canais. Com mais de 800 anos de idade, Delft é cortada por diversos canais que ligam o Sul da Holanda ao resto do país. Outra cidade que merece destaque é Utrecht, a antiga capital do país, que fica numa região acima do nível do mar, mas que acabou por adotar a construção de canais, passando a se integrar à rede de canais do restante do país. O Oudegraft ou Canal Antigo, que circunda todo o centro antigo de Utrecht, foi construído no ano de 1275 e é uma das muitas referências geográficas da cidade. 

Nas áreas rurais do país, os canais também passaram a ser importantes vias para o escoamento da produção e para o transporte de mercadorias desde os principais portos do país. Animais de carga, que seguiam em estradas paralelas aos canais, eram usados para puxar as barcaças carregadas com os produtos. Sistemas de eclusas, construídas nos diques, permitiam a fácil e rápida superação dos desníveis do terreno, facilitando a vida dos transportadores e tornando o sistema logístico do país extremamente eficiente desde muitos séculos atrás. 

Com o desenvolvimento das tecnologias de construção naval e a com construção de motores cada vez mais eficientes, os canais holandeses foram sendo modernizados, alargados e cada vez mais integrados a outros modais de transporte como ferrovias, rodovias, portos e aeroportos. Toda essa integração logística resulta em baixos custos de transporte, menos poluição, alta eficiência e muita, muita racionalidade, algo que faz falta na matriz de transportes aqui do Brasil. Andando de bicicleta ao largo destes canais, um hábito muito saudável da população, você irá cruzar o tempo todo com barcaças carregadas com cervejas da Heineken, com derivados de petróleo da Shell, com produtos da Philips e da Unilever, entre outras gigantes da economia holandesa. 

E o resultado de tudo isso é muito simples: com uma área com pouco mais de 41 mil km², algo equivalente a duas vezes o tamanho do nosso Estado de Sergipe, a Holanda é hoje a 16ª maior economia do mundo e dona do 7º maior PIB – Produto Interno Bruto, per capita.  A UNICEF – Fundo das Nações Unidas para a Infância, classificou o país como o melhor em bem-estar infantil e o PNUD – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, coloca o país em 5º lugar no IDH – Índice de Desenvolvimento Humano

Por aqui, nosso “Colosso” continua deitado eternamente em berço esplêndido e queimando bilhões de litros de óleo diesel para transportar, através de caminhões, uma das maiores safras agrícolas do mundo até os nossos caros e ineficientes portos marítimos. Enquanto isso, muitos dos nossos grandes rios estão por aí, correndo preguiçosamente em direção ao mesmo mar…

Quanto desperdício!

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