OS PROJETOS DO NEMA – NÚCLEO DE ECOLOGIA E MONITORAMENTO AMBIENTAL DA UNIVASF 

Um importante trabalho na área de recuperação ambiental da bacia hidrográfica do rio São Francisco vem sendo realizado pelo NEMA – Núcleo de Ecologia e Monitoramento Ambiental, da UNIVASF – Universidade Federal do Vale do São Francisco. Essa instituição foi criada em 2014, com o objetivo de executar o Subprograma das Modificações da Cobertura, Composição e Diversidade Vegetal do Programa de Conservação da Fauna e Flora do PISF – Projeto de Integração do rio São Francisco, com Bacias Hidrográficas do Nordeste Setentrional do Brasil. 

Explicando essa “sopa” de siglas: falamos aqui do popular Projeto de Transposição das Águas do rio São Francisco, cujo principal objetivo é permitir o bombeamento de parte das águas do Velho Chico em direção a regiões do interior de Pernambuco e também para o Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte.  

Esse importante sistema é divido em dois grandes Eixos – o Norte e o Leste, onde estão sendo construídos cerca de 700 km de canais e túneis, além de estações de bombeamento, sistemas de tubulações e represas. Todo esse conjunto de obras tem como objetivo principal proporcionar a segurança hídrica de 12 milhões de pessoas nos Estados de Pernambuco, Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte. Existem iniciativas para extensão da área de abrangência para os Estados de Sergipe e Piauí.

Como acontece com toda obra de grande porte, a construção desse grande sistema gera impactos ao meio ambiente e, dentro dos estudos realizados , foram estabelecidos diversos programas de mitigação e controle desses impactos. É aqui que entra em cena o NEMA. 

A UNIVASF foi criada em 2002 e tem seu campus principal na cidade pernambucana de Petrolina, contando ainda dois campi auxiliares, um na cidade de Juazeiro, na Bahia, e outro em São Raimundo Nonato, no Piauí. A missão dessa instituição é levar ensino superior de qualidade para as populações da região do Semiárido Nordestino, onde desenvolve importantes pesquisas nesse bioma. 

mais recente trabalho desenvolvido pelo NEMA foi plantio de mais de 44 mil mudas de espécies típicas do semiárido em áreas do entorno do Ramal do Agreste. Esse trabalho faz parte do desenvolvimento de modelos de nucleação e preservação ambiental da Caatinga. 

O Ramal do Agreste fica localizado no interior de Pernambuco e tem cerca de 70 km de extensão. O sistema conta com dois grandes reservatórios – Ipojuca e Negros, além de canais, aquedutos-sifões, túneis e estações de bombeamento. De acordo com informações do MDR – Ministério do Desenvolvimento Regional, esse sistema adutor atenderá cerca de 2,2 milhões de moradores em 71 municípios da região. 

Além do plantio das mudas, as equipes do NEMA realizaram a semeadura de 3,6 toneladas de sementes em uma área total de 518 hectares. Foram plantadas e semeadas 24 espécies nativas da Caatinga como a mata-pasto (Senna uniflora), juazeiro (Sarcomphalus joazeiro), maniçoba (Manihot carthagenensis), pinhão-bravo (Jatropha molissima) e falsa-menta (Rhaphiodon echinus).  

Entre as técnicas utilizadas pelos profissionais de campo destacam-se o plantio das mudas em ilhas, a semeadura direta, além da indução e condução de regeneração natural. Todos esses procedimentos buscam a maior aproximação possível com os processos de reprodução natural das plantas, buscando assim conseguir um melhor crescimento e uma maior taxa de sobrevivência das mudas e plantas germinadas. 

As equipes do NEMA já plantaram mais de 75 mil mudas de árvores e semearam cerca de 6 toneladas de sementes em perto de 800 hectares na área de influência do Ramal do Agreste desde 2016. Todas essas mudas possuem uma etiqueta de identificação a partir da qual é possível verificar a origem do lote, a identificação botânica, a região de origem, a idade da planta, além dos valores percentuais de germinação, floração e frutificação. 

O NEMA possui três viveiros de mudas: em Sertânia e Salgueiro, ambos no Estado de Pernambuco, e outro em Brejo Santo, no Ceará. Além da produção própria, a instituição também estimula a produção de mudas de espécies nativas por viveiros particulares da região. Através da Rede de Sementes do PISF é realizada a distribuição de sementes para viveiristas cadastrados. Desde o início dos trabalhos de plantio mais de 19 mil mudas produzidas por esses particulares já foram doadas para plantio em áreas de recuperação. 

Conforme já comentamos em inúmeras postagens anteriores, a região do Semiárido Nordestino vem sendo fortemente impactada desde o início da colonização brasileira. Toda a faixa Leste do litoral Nordestino passou a ser dedicada ao plantio intensivo da cana destinada a produção do açúcar, a mercadoria mais valiosa do comércio mundial naqueles tempos. 

Os constantes atritos entre os criadores de gado e os senhores dos engenhos resultou com a proibição de qualquer atividade pecuária a menos de 60 km da costa. Sem outra alternativa, os criadores conduziram suas boiadas para o interior, passando a ocupar áreas primeiro no Agreste e depois na Caatinga. O fogo foi usado impiedosamente contra a vegetação nativa do semiárido com vistas a criação de campos para a pastagem dos animais. 

Como não foram feitos estudos científicos sobre a região do semiárido antes dessa “diáspora bovina” (as primeiras expedições científicas organizadas na região datam do século XIX), não é possível determinar com exatidão o tamanho dessa devastação e seus impactos na flora e fauna local. 

As estimativas atuais indicam que perto de metade do bioma Caatinga já foi impactado por ações humanas e isso gera grandes impactos nos corpos hídricos da região, onde o rio São Francisco é o mais importante. Os diversos programas de recuperação de áreas degradadas já desenvolvidos pelo NEMA visam justamente iniciar um processo de reversão de toda essa devastação, o que se refletirá gradativamente num aumento do volume de caudais do rio São Francisco. 

Conforme já comentamos em postagens anteriores, todos os esforços de recuperação ambiental de bacia hidrográficas altamente degradas como a do rio São Francisco são extremamente tímidos quando confrontados com o tamanho da devastação. Porém, todos esses esforços são importantes e mostram um começo de caminhada rumo a resultados cada vez mais significativos. 

Nossos sinceros parabéns a todos os pesquisadores e equipes do NEMA. 

O PROJETO DE REVITALIZAÇÃO DA BACIA HIDROGRÁFICA DO RIO URUCUIA 

No último dia 17 de setembro, na cidade de Arinos em Minas Gerais, foi lançado em cerimônia oficial o Projeto Pró-Águas Urucuia. Essa iniciativa faz parte do Programa Águas Brasileiras, sobre o qual falamos em uma postagem anterior, e objetiva atender um total de 14 cidades nos Estados de Goiás e Minas Gerais. 

De acordo com as informações divulgadas, o Projeto Pró-Urucuia vai receber investimentos de R$ 105 milhões e terá um prazo de execução de 5 anos. A meta do Projeto é o plantio de 4,5 milhões de mudas de árvores nativas do bioma Cerrado em áreas degradadas da bacia hidrográfica

O rio Urucuia tem aproximadamente 400 km de extensão e é um dos principais afluentes da margem esquerda do rio São Francisco. O nome tem origem indígena e significa algo como água vermelha. Uma provável explicação é o fato das águas do rio, que normalmente são limpas, ficarem avermelhadas pelo carreamento de argila nos meses de chuva. 

As nascentes do rio Urucuia ficam numa localidade conhecida como Raizama ou Lagoa dos Morões em Goiás, entrando logo depois no território mineiro a altura do município de Buritis. A bacia hidrográfica do rio Urucuia ganhou fama nacional e mundial a partir da obra de Guimarães Rosa – a região é cenário, entre outras, da obra Grande Sertão: Veredas. 

A bacia hidrográfica do rio Urucuia, da mesma forma que ocorre com a maioria dos tributários do rio São Francisco, vem sofrendo com o intenso processo de devastação da cobertura florestal no Cerrado diante do avanço das frentes agrícolas. Como já comentamos em outras postagens, as raízes da vegetação nativa do Cerrado são fundamentais para a infiltração da água das chuvas nos solos e recarga dos aquíferos e lençóis subterrâneos de água. 

Os sistemas radiculares (ou as raízes) da vegetação nativa do Cerrado são gigantescos quando comparados ao de árvores de outros biomas. Isso foi uma adaptação evolutiva às características dos solos da região que apresentam reservas subterrâneas de água muito profundas. Quando essa vegetação nativa é cortada e substituída por campos de soja, de milho ou pastagens, o processo de recarga dos aquíferos deixa de funcionar – essas plantas tem raízes muito curtas e as águas das chuvas não conseguem infiltrar adequadamente nos solos. 

A devastação ambiental no Cerrado, e também em áreas da Caatinga Nordestina, se reflete diretamente na redução dos caudais de uma infinidade de rios tributários do rio São Francisco, que definha a olhos vistos. Quando a foz do rio foi avistada pela primeira vez em 1501, os tripulantes da expedição exploratória portuguesa comandada por América Vespúcio observaram que as águas doces do rio São Francisco chegavam a 4 km da costa, tamanha a força dos seus caudais. 

Hoje, a mesma foz do rio sofre com a forte intrusão de águas do Oceano Atlântico, que transformaram a maior parte do baixo curso do rio em um mar de águas salobras. Isso é o resultado de séculos de degradação ambiental em toda a sua bacia hidrográfica. 

O rio São Francisco nasce nas encostas da Serra da Canastra, na região Leste de Minas e segue por mais de 2.800 km até encontrar sua foz no Oceano Atlântico na divisa dos Estados de Sergipe e Alagoas. Ao longo desse grande percurso o rio recebe contribuições de um total de 168 afluentes – 90 na margem direita e 78 na margem esquerda, com destaque para alguns rios importantes como o Rio das Velhas, Abaeté, Paracatu, Jequitai, Rio Verde Grande, Carinhanha, Pajeú, Salitre, Corrente, Pará e Urucuia

No total, as águas da bacia hidrográfica do Rio São Francisco servem 521 municípios em 6 Estados da Federação: Goiás, Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Sergipe e Alagoas, além do Distrito Federal. Recentemente, com o início da operação de alguns ramais do Sistema de Transposição do rio São Francisco, essas águas também estão chegando ao Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte. 

E aqui vem uma informação chave para entender a importância do projeto de revitalização do rio Urucuia: apesar de ter apenas 37% da sua bacia hidrográfica em terras mineiras, o Velho Chico recebe 75% de toda as suas águas de rios tributários do Estado de Minas Gerais. Muitos desses rios, como é o caso do Urucuia, tem suas nascentes no Planalto Central em Goiás, Tocantins e Distrito Federal. 

Quem leu a nossa última postagem vai se lembrar que na Fazenda Bulcão, que ocupa uma área de 709 hectares no município de Aimorés no Leste de Minas Gerais, um projeto de recuperação ambiental encabeçado pelo fotógrafo Sebastião Salgado já plantou cerca de 2 milhões de mudas de árvores. 

Em termos comparativos, falar de se plantar 4,5 milhões de mudas de árvores na bacia hidrográfica do rio Urucuia parece ser insignificante, o que é a mais pura verdade. Porém, conforme comentamos em postagem anterior, a iniciativa merece aplausos, especialmente pelo fato de combinar esforços dos Governos Federal, Estadual e municipal, além de contar com a participação da iniciativa privada. 

Sem qualquer tipo de coloração partidária ou preferência por esse ou aquele político, essa é uma iniciativa que precisa ser copiada e multiplicada. Cada árvore plantada vai significar alguns litros de água a mais nos rios da bacia hidrográfica. Quanto mais árvores forem plantadas, mais água os rios terão para nos oferecer. 

Em tempos de forte seca – aliás, vivemos a maior estiagem no Brasil Central nos últimos 91 anos, e de sérios riscos para a geração de energia elétrica no país, iniciativas como a desse projeto são muito bem-vindas. Então, “vida longa e próspera” ao rio Urucuia. 

A RECUPERACÃO AMBIENTAL DA FAZENDA BULCÃO EM AIMORÉS, MINAS GERAIS – UM ESTUDO DE CASO 

Na postagem anterior falamos brevemente do Programa Águas Brasileiras, uma iniciativa que envolve vários Ministérios do Governo Federal, Estados, municípios e também empresas da iniciativa privada. A principal meta é a “ampliação da quantidade e a qualidade da água disponível para consumo e para o setor produtivo, de forma a fomentar o desenvolvimento regional e garantir mais qualidade de vida para a população”. 

A degradação de muitas bacias hidrográficas brasileiras já atingiu um nível crítico e alguma coisa precisava ser feita. Um exemplo que foi citado é a do rio São Francisco, o nosso Velho Chico. Apesar de não formar a maior bacia hidrográfica do Brasil, o São Francisco atravessa grandes extensões do Semiárido Nordestino, a região com a menor disponibilidade de água no país. 

Apesar de muito elogiável, essa iniciativa, a meu ver, é muito tímida para o tamanho do problema. Faço votos que os projetos cresçam cada vez mais e que volumes cada vez maiores de recursos financeiros cheguem ao seu destino final e que se transformem em matas recuperadas. 

A recuperação ambiental de bacias hidrográficas, felizmente, não depende exclusivamente de grandes projetos e vultosos orçamentos públicos. Em minha carreira profissional em empresas do ramo da construção civil, trabalhei em grandes projetos de saneamento ambiental – desgraçadamente, pude acompanhar (de longe) inúmeras situações irregulares de desvio de recursos públicos. 

Pequenas iniciativas levadas a cabo por cidadãos comuns também podem atingir resultados esplendidos. Vou citar o caso da Fazenda Bulcão, na cidade de Aimorés no Leste de Minas Gerais. O dono dessa fazenda é ninguém menos que Sebastião Salgado, um dos maiores fotógrafos do mundo. Há um bom tempo atrás publiquei uma postagem sobre Serra Pelada e a foto antológica que usei para ilustrar o texto é de autoria de Salgado. 

O município de Aimorés fica as margens do rio Doce, exatamente na divisa entre os Estados de Minas Gerais e do Espírito Santo. Muito antes da grande tragédia ambiental provocada pelo rompimento da barragem de rejeito da mineração se romper e destruir o rio Doce, Aimorés já acumulava um enorme passivo ambiental. 

Originalmente, toda a faixa Leste de Minas Gerais era coberta por uma densa floresta, a Mata Atlântica. Aliás, essa região é conhecida com Zona da Mata. O território onde se encontra hoje o Estado de Minas Gerais tinha perto de 47% de sua superfície coberta com vegetação de Mata Atlântica, o equivale a mais de 282 mil km² de matas do bioma. Em pouco mais de três séculos e depois de vários ciclos econômicos, a Mata Atlântica hoje está restrita a 10,2% da superfície do território mineiro, ocupando pouco mais de 50 mil km². 

Sebastião Salgado nasceu na Fazenda Bulcão e lá viveu até os 15 anos de idade. A propriedade de seus tempos de infância tinha uma área de 709 hectares e contava com metade de sua superfície coberta por matas. Enquanto esteve morando em outras cidades e países, a cobertura vegetal da fazenda foi sendo gradativamente reduzida até atingir a triste marca de apenas 0,5% de matas no final da década de 1990. 

Em 1988, Salgado e sua esposa, Leila Warnick, decidiram morar na Fazenda Bulcão. Sebastião Salgado havia feito um grande trabalho de cobertura fotográfica da crise humanitária em Ruanda pouco tempo antes, onde pode testemunhar as sangrentas lutas que levaram perto de 800 mil pessoas a morte. Doente e traumatizado pela experiência, ele buscava um refúgio mais tranquilo para viver e se recuperar. 

Além da destruição da fauna e da flora, a enorme degradação ambiental que havia se abatido sobre a antiga fazenda destruiu inúmeras nascentes que brotavam das encostas dos morros e que garantiam o abastecimento da propriedade. Foi então que Salgado decidiu recuperar a antiga cobertura vegetal da propriedade e, ainda em 1998, ele e a esposa criaram o Instituto Terra. 

Uma das primeiras providencias foi a de transformar a Fazenda Bulcão em uma RPPN – Reservas Particular do Patrimônio Natural, um procedimento que possibilita a isenção do ITR – Imposto Territorial Rural, e garante a propriedade da terra. Porém, existe o compromisso de os proprietários realizarem a recuperação ambiental da propriedade. 

O começo dos trabalhos de recuperação da antiga mata nativa não foi nada fácil – Sebastião Salgado comentou em entrevistas que todas as mudas que foram doadas pela empresa Vale do Rio Doce e que foram plantadas na fazenda morreram. No segundo ano de reflorestamento, as coisas melhoram um pouco – 20% das mudas sobreviveram. No terceiro ano, as mudas que vingaram representavam metade de tudo o que foi plantado. 

A persistência de Sebastião Salgado e de sua equipe ao longo de mais de 20 anos trouxe ótimos resultados – a Fazenda Bulcão hoje está totalmente reflorestada, com cerca de 2 milhões de árvores nativas da Mata Atlântica. Esse é o maior projeto de recuperação da Mata Atlântica em uma área contínua em todo o país

De acordo com os estudos feitos pela equipe do Instituto Terra, a floresta da Fazenda Bulcão abriga 172 espécies de aves, sendo que 6 dessas estão ameaçadas de extinção; 33 espécies de mamíferos, sendo que 2 delas estão em risco de extinção no mundo e 3 em risco no Brasil. Também entram nessa lista 15 espécies de anfíbios e outras 15 de répteis. A fazenda é destaque como habitat de espécies que estão no topo da cadeia alimentar como as jaguatiricas

Além da restauração da fauna e da flora, todo esse trabalho de recuperação ambiental fez diversas nascentes de água voltarem a vida. Conforme já comentamos em postagens anteriores, a presença da vegetação é fundamental para a infiltração da água das chuvas nos solos, o que recarrega lençóis subterrâneos de água e aquíferos. Com os “tanques cheios”, a terra faz a água brotar dos solos em abundancia – simples assim. 

Ao longo de mais de 20 anos, o Instituo Terra já produziu mais de 4,5 milhões de mudas de espécies da Mata Atlântica, além de manter um laboratório de sementes que reúne informações sobre todos os processos de produção de mudas florestais. O Instituto já desenvolveu mais de 700 projetos educacionais que atingiram um público de mais de 70 mil pessoas. 

A bacia hidrográfica do rio Doce abrange uma área total de 86 mil km² nos Estados de Minas Gerais e Espírito Santo, englobando 250 municípios e onde vivem 3,5 milhões de pessoas. Cerca de 98% desse território fica dentro dos antigos domínios da Mata Atlântica. Com a devastação da maior parte da floresta, os caudais dos rios da bacia hidrográfica caíram drasticamente. 

De acordo com estudos científicos, a bacia hidrográfica do rio Doce possui aproximadamente 375 mil nascentes – segundo o Instituto Terra, pelo menos 350 mil dessas nascentes precisam de trabalhos de recuperação da cobertura florestal para continuar a produção de água. Isso é uma tarefa hercúlea. 

Que o maravilhoso exemplo de Sebastião Salgado e Leila Warnick possam ser seguidos por muito mais gente e que ótimos exemplo de recuperação ambiental como o da Fazenda Bulcão sejam replicados por todos os cantos. 

PROGRAMA ÁGUAS BRASILEIRAS, OU FALANDO DE INICIATIVAS PARA A RECUPERAÇÃO DE BACIAS HIDROGRÁFICAS

Água, Vida & Cia é um blog focado em questões ligadas aos recursos hídricos e sustentabilidade, além de ações voltadas para a educação ambiental. As nossas publicações são sempre fundamentadas em informações técnicas e científicas, especialmente nos campos de geografia, geologia, clima, biologia, antropologia, história e arqueologia, entre outros.  

A nossa ideia sempre foi a de abordar temas específicos ligados ao meio ambiente e mostrar com mais profundidade tudo o que está por trás, buscando oferecer ao leitor – especialmente estudantes, bases sólidas para a formação de sua própria opinião. Raramente, temas políticos são abordados. 

Hoje será uma das raras exceções em nossa linha editorial – vamos falar um pouco do Programa Águas Brasileiras, uma iniciativa governamental que conta com a participação do MDR – Ministério do Desenvolvimento Regional, MAPA – Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, MCTI – Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, além da CGU – Controladoria Geral da União. O Programa também conta com parcerias com Estados, municípios e empresas privadas. 

O Programa Águas Brasileiras tem como principal meta a “ampliação da quantidade e da qualidade da água disponível para consumo e para o setor produtivo, de forma a fomentar o desenvolvimento regional e garantir mais qualidade de vida para a população”. Apesar das iniciativas nessa direção ainda serem muito tímidas em relação ao tamanho do problema, já existem vários projetos em andamento.  

Um dos pilares do Programa é a recuperação de áreas degradadas em parceria com o setor rural produtivo, sempre buscando as tecnologias mais avançadas disponíveis. Outro foco é a consolidação e a recuperação de APPs – Áreas de Preservação Permanente, que normalmente só existem no papel.  

Outro campo fundamental é consolidar mecanismos que permitam converter multas e pagamentos por serviços ambientais, aprimorando medidas de gestão responsável dos recursos hídricos. São ótimas ideias, mas, como já dizia um velho ditado, “de boas intenções o inferno está cheio”. 

A bacia hidrográfica do rio São Francisco ocupa uma posição de destaque quanto a projetos de revitalização. Com uma extensão de aproximadamente 2.830 km, as águas da bacia hidrográfica do Velho Chico, um apelido carinhoso dado ao rio, atendem populações de 521 municípios em 6 Estados da Federação: Goiás, Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe, além do Distrito Federal. Através do Projeto de Transposição do Rio São Francisco, que já tem vários trechos operacionais, essas águas também estão chegando ao Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte

Apesar de toda a sua importância, o São Francisco é um rio maltratado e com caudais cada vez mais reduzidos. Durante séculos, matas nativas dentro da sua bacia hidrográfica foram devastadas para a formação de campos agrícolas, áreas de pastagens e também para abertura de projetos de mineração. Nas últimas décadas, essa devastação passou a atingir matas nativas do Cerrado, bioma onde se concentram cerca de 2/3 das nascentes dos rios tributários da bacia hidrográfica. 

Dentro do escopo do Programa Águas Brasileiras existem dois projetos dentro da bacia hidrográfica do rio São Francisco já contemplados com recursos financeiros. O primeiro é o Projeto Agroflorestando Bacias para Conservar a Água, que receberá cerca de R$ 1,6 milhão. O Projeto tem como principal meta a implantação de 60 sistemas agroflorestais em duas comunidades quilombolas com alta vulnerabilidade ambiental no município de Muquém, na Bahia. 

Também está em andamento o Projeto Recuperação de Nascentes da Comunidade de Brejo da Brásida, localizada no município de Sento-Sé também na Bahia. Esse projeto vai receber R$ 302 mil, dinheiro que será utilizado em medidas de recuperação e de proteção de áreas de nascentes.  

Observem que são volumes financeiros bastante modestos em se tratando de investimentos governamentais, porém, são recursos que vão diretamente para as ações de recuperação ambiental sem intermediários. Com a devida fiscalização dos órgãos responsáveis, esses projetos tem tudo para atingir resultados bastante satisfatórios. 

As ações do Programa Águas Brasileiras incorporam 26 projetos e deverão atender mais de 250 municípios em 10 Estados. A bacia hidrográfica do rio São Francisco lidera as iniciativas, com 16 projetos em andamento. A bacia hidrográfica do rio Parnaíba será comtemplada com 2 projetos, a do rio Taquari com 2, além de 6 projetos nos rios Tocantins e Araguaia. 

Um dos pontos positivos do Programa Águas Brasileiras é a participação da iniciativa privada nos projetos. Cada vez mais, empresas estão apoiando iniciativas ambientais como parte de suas estratégias de comunicação e de marketing. E como empresas privadas não costumam “jogar dinheiro fora”, uma especialidade do Poder Público, é esperado que os recursos financeiros cheguem ao seu destino final e que deem resultados. 

Conforme já tratamos em postagem anterior, florestas são essenciais para uma boa saúde dos rios. As raízes da vegetação facilitam a infiltração da água das chuvas nos solos, o que é fundamental para a recarga de lençóis subterrâneos e aquíferos. A vegetação também protege as águas e a calha dos rios, evitando o assoreamento e o carreamento de resíduos pelas chuvas. No bioma Cerrado, conhecido como “berço das águas” pela grande concentração de importantes aquíferos, a recuperação de grandes áreas de vegetação nativa é essencial. 

O Cerrado já perdeu metade da sua vegetação nativa. Desde meados da década de 1970, quando a EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias, desenvolveu sementes de grãos adaptados ao clima e aos solos do Cerrado – especialmente a soja, todo o bioma passou a sofrer uma enorme pressão diante da abertura de frentes agrícolas. Outros biomas altamente degradados são a Caatinga, que também já teve metade de sua vegetação destruída, e a Mata Atlântica, onde o nível de degradação já supera os 80%. 

Diante de tamanho grau de degradação da cobertura vegetal desses biomas, o que tem reflexos diretos no volume e na qualidade das águas das bacias hidrográficas, os projetos apresentados no Programa Águas Brasileiras são extremamente tímidos. Porém, as parcerias com empresas privadas, prefeituras e Governos estaduais, além do aporte de recursos diretamente nas localidades e sem intermediações (etapas onde parte dos recursos costumam “desaparecer”), já são sinais que as coisas poderão engrenar e ganhar corpo. 

Em resumo – cada árvore plantada vai representar alguns litros de água a mais na calha dos rios. Portanto, precisamos pensar em plantar centenas de milhões ou até bilhões de árvores.  

A REVITALIZAÇÃO DE GRANDES BACIAS HIDROGRÁFICAS BRASILEIRAS

Uma extensa região do Brasil Central está enfrentando a pior crise hídrica dos últimos 91 anos. Conforme mostramos em postagens anteriores, a bacia hidrográfica do alto Rio Paraná é uma das mais severamente atingidas pela forte estiagem. 

A barragem da Usina Hidrelétrica de Ilha Solteira atingiu a poucos dias atrás o nível mínimo de operação, o que demonstra os grandes riscos de vivermos uma crise no fornecimento de energia elétrica nos próximos meses. Relembrando, o Governo Federal decretou no final do mês de maio um alerta conjunto de emergência hídrica para a área da bacia hidrográfica do rio Paraná, na região que abrange os Estados de Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso do Sul, São Paulo e Paraná. 

Mudanças climáticas globais parecem estar na raiz desse problema. As chuvas que caem sobre os continentes são formadas nos oceanos – o calor do sol faz a água evaporar e as grandes correntes de vento levam as nuvens de chuva na direção dos continentes. Com o aumento gradual das temperaturas do planeta, grandes massas de gelo nas regiões polares estão despejando grandes volumes de água doce nos oceanos, o que, por sua vez, provoca mudanças na temperatura superficial das águas, além de alterar correntes marítimas e ventos.  

Essas mudanças nos oceanos têm se refletido no deslocamento das grandes massas de nuvens de chuva – algumas regiões estão recebendo volumes de chuva acima do normal, enquanto outras sofrem com a seca. A África é um grande exemplo disso – uma extensa região do continente está sofrendo com chuvas abaixo da média já a vários anos. 

A região coberta pela Floresta Amazônica é destino de volumes fabulosos de chuva. Essa floresta, aliás, surgiu com a formação do Oceano Atlântico após a fragmentação do Supercontinente de Gondwana, um processo iniciado há cerca de 160 milhões de anos. Conforme a América do Sul foi se afastando da África, o Oceano Atlântico foi “crescendo” e formando volumes de nuvens de chuva cada vez maiores. Foram essas chuvas e a formação da Cordilheira dos Andes que possibilitaram a formação e o crescimento da maior floresta equatorial do mundo. 

Processos de evapotranspiração na grande Floresta Amazônica geram enormes massas de nuvens, os chamados “rios voadores” que carregam umidade para outras regiões do Brasil e dos países vizinhos. Mudanças nos padrões climáticos globais podem estar alterando esse intrincado mecanismo e deixando várias regiões mais secas. Como ainda faltam estudos conclusivos para se confirmar tudo isso, não é possível se afirmar com absoluta certeza se é exatamente isso o que está acontecendo. 

Além dos evidentes problemas climáticos globais, que a essa altura da história humana são inevitáveis, e que estão reduzindo as chuvas em várias regiões, existe uma enorme contribuição direta de nós brasileiros nessa crise hídrica. Desde o início de nossa colonização, estamos derrubando nossas florestas e queimando diversos biomas para a formação de campos agrícolas e pastagens para o gado. A foto que ilustra esta postagem dá uma pequena mostra dos impactos dessas ações nos rios.

Um exemplo que costumo citar com bastante frequência aqui nas postagens do blog foi a destruição pelo fogo de grande parte da vegetação da Caatinga para a formação de pastagens para a criação de gado. Como todos devem recordar das aulas de história no ensino fundamental, toda a faixa do litoral do Nordeste entre o Sul da Bahia e o Leste do Rio Grande do Norte foi transformada em um grande canavial

Ao longo de mais de 300 anos, a Mata Atlântica foi sendo devastada e os férteis solos de massapê passaram a ser usados para o plantio da cana e seu posterior processamento para a produção do açúcar, um dos produtos mais valiosos naqueles tempos. 

Além da devastação de uma das mais ricas florestas tropicais do mundo, a indústria canavieira contribui para a destruição de uma grande parte da Caatinga Nordestina. Os bois que eram criados na faixa litorânea costumavam invadir as plantações de cana e se deliciavam com os brotos adocicados da planta. As brigas entre plantadores de cana e criadores de bois resultaram na proibição de atividades pecuárias a menos de 60 km da costa. As boiadas foram expulsas para o interior nordestino

A vegetação da Caatinga Nordestina é formada especialmente por cactáceas como o mandacaru, o xique-xique e a coroa-de-frade, plantas extremamente adaptadas ao clima semiárido. A flora local também inclui uma infinidade de árvores extremamente adaptadas as rigores do clima. O que menos existia nessa região naqueles tempos eram campos com gramíneas para sustentar as boiadas. 

Os criadores de gado passaram a incendiar grandes extensões dos caatingais a fim de abrir espaço para a formação de campos. As cinzas resultantes da queima das madeiras fertilizavam os solos e a ajudavam na formação de pastagens. Essa solução, é claro, era temporária e, dentro de poucos meses, os solos se esgotavam, o que levava a queima de novos trechos da Caatinga. 

O Semiárido Nordestino não é tão seco como muitos de vocês podem imaginar – a precipitação média anual de chuvas nessa região está entre 200 mm e 400 mm, superior àquela de cidades importantes como Barcelona e Paris, e muito acima da precipitação média no Deserto do Saara, que se situa entre 100 e 150 mm de chuva durante o ano. Essas águas abastecem inúmeros lençóis subterrâneos e aquíferos, que alimentam muitos rios de águas permanentes e temporárias. 

Cerca de metade da vegetação nativa da Caatinga Nordestina já desapareceu, o que vem prejudicando, e muito, a recarga das reservas subterrâneas de águas. Não custa lembrar que as raízes da vegetação nativa são fundamentais no auxílio à infiltração da água das chuvas nos solos. Parte considerável da água das chuvas na região do Semiárido Nordestino acaba se perdendo por evaporação e os caudais de muitos riachos e rios definham ou até desaparecem. Muitos desses rios e rios são tributários do rio São Francisco, um dos mais degradados do país.

Outro bioma que tem sofrido com a destruição da vegetação nativa é o Cerrado, o segundo maior ecossistema do país. Existe aqui um enorme agravante: o Cerrado possui alguns dos maiores e mais importantes aquíferos do Brasil como o Guarani, o Bambuí e o Urucuia. Nada menos que oito grandes bacias hidrográficas brasileiras tem suas nascentes ou parte delas no Cerrado: Paraguai, Paraná, Parnaíba, São Francisco, Tocantins/Araguaia, Atlântico Leste, Atlântico Nordeste Ocidental e Amazônica. 

Uma das características mais marcantes da vegetação do Cerrado são as grandes raízes das plantas, que evoluíram ao longo de milhões de anos para captar a água em aquíferos e lençóis profundos. Esses sistemas de raízes são fundamentais para a recarga desses depósitos de água subterrâneos no período das chuvas. 

Com a transformação do Cerrado na principal fronteira agrícola do Brasil nas últimas décadas, grandes extensões da vegetação nativa vêm sendo substituídas por campos de soja, milho ou pastagens para o gado. Essas plantas tem raízes extremamente curtas quando comparadas com as espécies do Cerrado, o que dificulta, e muito, a infiltração de água nos solos. 

A recuperação da cobertura vegetal em áreas do Cerrado e da Caatinga, entre outros biomas, é fundamental para a revitalização de bacias hidrográficas importantes como as dos rios São Francisco, Tocantins/Araguaia e Paraná. Já existem diversas iniciativas nesse sentido que, apesar de muito tímidas para o tamanho dos problemas, merecem ser conhecidas. 

Falaremos de algumas delas nas próximas postagens. 

A SECA E OS INCÊNDIOS EM MATAS NO PIAUÍ 

De acordo com informações do INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o Estado do Piauí apresentou o maior número de focos de incêndios acumulados de todos o país neste mês de setembro. Foram 2.459 focos entre o dia 1º e o dia 14.  

Na sequência estão os Estados de Minas Gerais, com 2.430 focos, Acre, com 2.278 focos, Mato Grosso com 1.956 e a Bahia com 1.935 focos. O leitor mais atentado deve ter percebido que, à exceção do Acre, todos os demais Estados possuem parcelas importantes de seus territórios cobertas por vegetação do bioma Cerrado. Na Bahia, no Piauí e no Norte de Minas Gerais se encontram também áreas com vegetação da Caatinga Nordestina

Como imagino ser do conhecimento de todos, o clima do Cerrado é marcado por duas temporadas bem distintas: um período de fortes chuvas de inverno e outro de seca no verão. A vegetação típica do bioma é caracterizada pela presença de grandes raízes, uma adaptação evolutiva que permite que as plantas captem água em reservas subterrâneas profundas. 

Em áreas da Caatinga existe uma predominância de cactáceas, um tipo de vegetação típica de climas semiáridos, além de diversas espécies de árvores altamente adaptadas para enfrentar longos períodos de seca. Tanto o Cerrado como a Caatinga são biomas susceptíveis a grandes incêndios nessa época do ano. 

No Piauí, esse verão está sendo caracterizado por temperaturas acima dos 40º C e por baixíssimos índices de umidade relativa do ar. De acordo com informações do INMET – Instituto Nacional de Meteorologia, três cidades do Estado apresentaram os menores índices de umidade relativa do ar do país no último dia 12: Bom Jesus – 10%, Canto do Buriti – 11% e São Raimundo Nonato – 13%. 

Essa combinação de tempo seco e muito quente, é claro, favorece o surgimento e a propagação de grandes incêndios em matas, a exemplo do que vem ocorrendo em São Raimundo Nonato desde o último dia 7 de setembro. Os primeiros focos de incêndios foram registrados na região da Serra dos Gringos, atingindo casas no assentamento Novo Zabelê e a rodovia PI-140, chegando depois no bairro Baixão dos Diógenos na área urbana da cidade. 

Uma das grandes preocupações do efetivo de combate aos focos de incêndio foi evitar que as chamas atingissem o Parque Nacional da Serra da Capivara, unidade de conservação que concentra a maior quantidade de sítios arqueológicos pré-históricos das Américas. De acordo com o Corpo de Bombeiros, mais de 100 pessoas, entre bombeiros, funcionários do Instituto Chico Mendes e da prefeitura local, foram mobilizados nesse trabalho. 

Uma atitude de cidadania que merece ser destacada partiu do humorista Whindersson Nunes, que é piauiense e que, com recursos próprios, contratou um avião bombeiro para ajudar no combate aos incêndios da região. A aeronave começou a operar no dia 12 e se juntou a um helicóptero da Polícia Militar do Piauí que já operava no local desde o dia 11. 

Também é preciso citar uma questão desagradável: propagandas oficiais do Governo do Piauí, mostrando seus esforços para combater os incêndios nas matas, incluíram “acidentalmente” imagens desse avião em operação. Qualquer espectador mais desatento poderia entender que foi o Governo que pagou pelos serviços do avião bombeiro. Políticos não conseguem esconder sua natureza! 

Outra região do Estado que está assistindo a um grande incêndio é o Parque Nacional da Serra das Confusões, já dentro dos limites da Caatinga Nordestina. Essa, aliás, é a maior área de preservação desse bioma com mais de 1 milhão de hectares destinados à proteção da flora e da fauna da Caatinga.  

Serra das Confusões se estende pelos municípios de Jurema, Tamboril do Piauí, Canto do Buriti, Alvorada do Gurguéia, Cristino Castro, Bom Jesus e Guaribas. O parque foi criado em 1998 com o objetivo de preservar vestígios de ocupação humana com mais de 8 mil anos. Nessa área também foram encontrados diversos fósseis da antiga megafauna pré-histórica. 

Segundo a direção do Parque, o incêndio começou numa região próxima no dia 31 de agosto, e atingiu a Serra das Confusões por volta do dia 9 deste mês. O Parque conta com 44 brigadistas contratados para atuar no combate aos incêndios nesse período de seca. Além desse efetivo, o combate aos incêndios conta com o trabalho de voluntários, equipes do PREVFOGO – Centro Nacional de Prevenção aos Incêndios Florestais.

De acordo com as últimas informações divulgadas, equipes de brigadistas ainda trabalham para controlar dois focos de incêndios em áreas isoladas e de difícil acesso na região conhecida como Assentamento Estação. Com o tempo seco e quente, esses focos podem se alastrar e atingir outras áreas de vegetação nativa. 

Ministério Público do Piauí recomendou que a Prefeitura de São Raimundo Nonato crie uma brigada municipal permanente de combate aos incêndios em matas, entre outras medidas de prevenção. Os incêndios em matas locais são frequentes e é preciso uma melhor estrutura para um controle mais efetivo dessas situações. 

Outra preocupação do Ministério Público são as chamadas “queimadas controladas”, também conhecidas como coivaras. Os pequenos agricultores ateiam fogo em uma área que está sendo preparada para cultivos agrícolas. Em situações de tempo quente e de vegetação extremamente seca, os riscos dessas queimadas fugirem ao controle são muito grandes. Muito provavelmente, essa foi a origem dos incêndios que atingem a região neste momento. 

Outra recomendação importante diz respeito a suspensão temporária de todas os pedidos de autorização de queimadas controladas até que as condições climáticas melhorem. Também foi solicitada a publicação de uma lei municipal onde se estabeleça pesadas multas para aqueles que infringirem as regras relativas as queimadas controladas. 

Assim como ocorreu em grande parte do Brasil Central, o Piauí teve chuvas abaixo da média nos últimos meses, uma situação que se refletiu em uma vegetação do Cerrado e da Caatinga extremamente secas e facilmente susceptíveis a grandes queimadas. As altas temperaturas e a baixa umidade relativa do ar também dão uma enorme contribuição para transformar grandes áreas do Estado em verdadeiros “palheiros a espero de uma faísca”. 

A chegada da temporada de chuvas, que no Piauí se estende entre os meses de dezembro e maio, é aguardada com enorme esperança pela população. Além de ajudar a controlar as queimadas na vegetação, essas águas são fundamentais para recarregar os aquíferos e encher os rios e riachos usados no abastecimento de populações humanas e animais nesses sertões. 

E, pela ordem de prioridade, se sobrar alguma água, que essa vá para os reservatórios de alguma usina hidrelétrica e que ajude na superação da grande crise energética que se avizinha. 

RESERVATÓRIO DA USINA HIDRELÉTRICA DE ILHA SOLTEIRA PRÓXIMA DO NÍVEL MÍNIMO DE OPERAÇÃO

O inverno na Região Centro Sul do Brasil termina em meados da próxima semana e o tempo já começa a apresentar mudanças significativas. Ontem, dia 16 de setembro, uma chuva mais forte caiu aqui na cidade de São Paulo, amenizando o tempo quente e seco que predominava. A primavera é sempre uma esperança do renascimento da vida. 

As chuvas voltam timidamente num momento crítico para uma grande área do Brasil Central onde se convive com a maior seca dos últimos 91 anos. A bacia hidrográfica do alto Rio Paraná, a mais fortemente atingida pela estiagem, se apresenta com rios e reservatórios de usinas hidrelétricas com pouca água. 

Um grande exemplo de como estão as coisas por lá pode ser visto no reservatório da Usina Hidrelétrica de Ilha Solteira, uma das maiores unidades geradoras de energia da Região Sudeste: o nível se aproxima perigosamente do “volume zero”. De acordo com a operadora da hidrelétrica, a cota do reservatório atingiu o nível de 322 metros no dia 15 de setembro – o nível mínimo para operação é 314 metros

Usina Hidrelétrica de Ilha Solteira é a terceira maior do Brasil, com uma potência instalada de 3.444 MW. Localizada no rio Paraná entre os Estados de São Paulo e Mato Grosso do Sul, a hidrelétrica tem uma barragem com 5,6 mil metros de extensão, formando um reservatório com quase 2 mil m², o que nos dá uma ideia dos impactos sócio ambientais provocados. A usina hidrelétrica foi concluída em 1978 e possui um total de 20 grupos geradores. 

As usinas de Ilha Solteira e Jupiá, no rio Paraná, e Três Irmãos, no rio Tiete, formam o Complexo Hidrelétrico Urubupungá, que possui uma capacidade total instalada de 4,995 MW e é vital para o fornecimento de energia elétrica para o Estado de São Paulo. O iminente “desligamento” da maior geradora desse Complexo trará sérias consequências para o abastecimento de uma enorme população na região. 

A Usina Hidrelétrica de Ilha Solteira é uma das heranças dos tempos do Regime Militar que governou o Brasil entre os anos de 1964 e 1985. Esse foi um período de obras de infraestrutura grandiosas que visavam garantir um “grande salto” no desenvolvimento do país. Essas obras eram gestadas em gabinetes governamentais sem qualquer participação da população. Ao final da fase do planejamento, uma autoridade “estrelada” simplesmente apontava o dedo para um mapa e ordenava que se construísse uma rodovia ou uma hidrelétrica ali. 

Aqui é importante lembrar que antes da publicação da Resolução Conama 001, em 23 de janeiro de 1986, que estipulou os critérios básicos e as diretrizes gerais para a avaliação de impactos ao meio ambiente, obras de grande porte como uma usina hidrelétrica eram feitas na “marra” e sem direito de reclamação por populações que eventualmente tivessem de ser deslocadas de suas casas e terras. Também não existiam maiores preocupações com a fauna, flora e dinâmica das águas. 

Um dos impactos ambientais mais visíveis da formação de grandes barragens no rio Paraná foi a alteração do ciclo de cheias. Em condições naturais, o nível do rio oscilava entre as grandes cheias do período das chuvas e o período de vazante no período da seca, quando o nível das águas baixa fortemente. Todo o meio ambiente, incluindo populações humanas, vida animal e vegetal, se adaptaram a esses ciclos de cheias e vazantes do rio. As barragens alteraram dramaticamente esses ciclos e os fluxos de águas nos rios passaram a ficar vinculados ao volume de produção de energia elétrica nas usinas.  

O lago formado pela barragem da Usina de Ilha Solteira alagou uma área equivalente a duas vezes o tamanho do município de São Paulo, avançando sobre propriedades rurais e áreas de matas, que foram suprimidas antes do enchimento do lago. Entre as áreas de vegetação nativa que existiam na região, encontravam-se áreas alagáveis, importantes habitats da vida animal e vegetal, que tinham características de flora e fauna bastantes similares ao Pantanal Mato-grossense.  

Essas áreas desapareceram para sempre sem que maiores estudos científicos fossem realizados. Muito do que sabemos sobre esses ecossistemas vem de estudos que foram feitos posteriormente na região onde se formou o lago da Usina Hidrelétrica de Porto Primavera, construída entre os anos de 1980 e 2003. Essa região, que também acabou inundada, era conhecida como Mini Pantanal do rio Paraná.  

Entre as muitas “heranças” deixadas pela construção destas grandes usinas hidrelétricas temos a cidade de Ilha Solteira, que surgiu em 1968 para servir como alojamento dos trabalhadores da obra. A cidade, que atualmente conta com 26 mil habitantes, foi totalmente planejada, contando com uma boa infraestrutura urbana como iluminação pública, redes de água e esgoto.  

Além de abrigar os trabalhadores e funcionários da obra, a cidade recebeu um grande número de deslocados das áreas alagadas pelo reservatório da usina. Grande parte da arrecadação fiscal do município, que se emancipou de Pereira Barreto em 1991, vem dos impostos pagos pela Usina Hidrelétrica de Ilha Solteira.  

Um outro caso emblemático é a cidade de Rubineia, que foi totalmente inundada pelo reservatório de Ilha Solteira, e teve de ser reconstruída em outro local. A pequena cidade conta atualmente com menos de 3 mil habitantes – estima-se que cerca de 10 mil habitantes do município foram deslocados de suas terras por causa das obras da usina hidrelétrica. 

Enquanto a Usina Hidrelétrica de Ilha Solteira ou outra grande unidade geradora opera normalmente e grandes volumes de energia elétrica que são usados no abastecimento da população, todos os “pequenos pecados” cometidos ao longo de sua construção são esquecidos e perdoados. É num momento caótico de seca intensa, quando ficamos sem a geração da eletricidade, que nos damos conta de todos os danos infringidos ao meio ambiente e a um sem número de famílias que foram deslocadas de suas casas e terras. 

É nossas horas que paramos para pensar em tudo e nos questionamos se todas essas perdas valeram realmente a pena… 

O MERCÚRIO E OS PEIXES DA BACIA AMAZÔNICA 

Alguns Estados brasileiros estão enfrentando um surto da Doença de Haff, conhecida popularmente como “doença da urina preta”. Conforme comentamos em uma postagem anterior, os médicos e os pesquisadores ainda não têm certeza da origem dessa doença – pode ser uma toxina liberada na água, um vírus ou até mesmo uma bactéria. 

As populações que vivem na Bacia Amazônica, tanto no território brasileiro quanto nos países vizinhos, principalmente as mais pobres, são ávidas consumidoras de peixes e de alguns tipos de crustáceos capturados nas águas dos inúmeros rios da região. Qualquer tipo de contaminação nesses animais pode afetar uma quantidade enorme de pessoas. 

Um problema que vem tomando conta das águas de muitos rios da Bacia Amazônica é o mercúrio, um metal pesado muito usado em garimpos ilegais para separar o ouro das impurezas. Já tratamos disso em postagens anteriores. O consumo de peixes e crustáceos contaminados com mercúrio pode provocar danos graves no sistema nervoso central, normalmente irreversíveis, que comprometem os sistemas sensoriais e motores. 

Todos os anos, milhares de garimpeiros e aventureiros dos mais diferentes recantos do país seguem para os confins da Floresta Amazônica para tentar a sorte na mineração do ouro. Se valendo da grandiosidade da floresta e da fiscalização precária dos órgãos responsáveis, margens de rios, florestas nacionais, áreas de preservação e também terras indígenas são invadidas sem a menor cerimonia. 

O ouro de aluvião encontrado no fundo e nas margens dos rios é o “objeto do desejo” dessas pessoas. Dragas são instaladas nas águas, margens tem a vegetação devastada e milhares de toneladas de terra e sedimentos são revirados sem quaisquer preocupações com os graves estragos ao meio ambiente. 

Uma das etapas mais críticas dessa atividade é a separação do ouro. O metal quase sempre é encontrado misturado com sedimentos ou outros minerais e é aqui que entra em cena o mercúrio, um metal em estado líquido a temperatura ambiente e altamente tóxico.  

Aquecido pela chama de um maçarico, o mercúrio se liga aos fragmentos de ouro formando uma amálgama. Essa amálgama depois volta a ser aquecida, momento em que o mercúrio evapora e resta apenas o ouro. A primeira vítima desse processo é próprio garimpeiro, que acaba inalando parte do vapor do mercúrio. 

Conforme esse vapor vai esfriando, micro gotículas de mercúrio vão caindo sobre os solos e águas do entorno do garimpo. De acordo com os estudos mais recentes, para cada 1 kg de ouro extraído nos garimpos, cerca de 1,32 kg de mercúrio é usado. Estimativas indicam que, nos últimos anos, a produção anual de ouro no Brasil tem se situado entre 80 e 100 toneladas, o que implica num consumo total de mercúrio entre 100 e 260 toneladas

O ciclo de contaminação do mercúrio se dá em cadeia e começa com sua absorção por micro algas, insetos, vermes e pequenos moluscos, que formam as comunidades bênticas ou bentônicas dos corpos d’água. Essas criaturas formam a base da cadeia alimentar e sustentam peixes, crustáceos, anfíbios e répteis menores, que por sua vez serão predados por espécies maiores.  

O mercúrio acompanha todo o ciclo da cadeia alimentar, passando de um organismo para outro, se acumulando em quantidades cada vez maiores ao longo do tempo. O mercúrio presente no organismo de peixes fatalmente contaminará qualquer ser humano que consuma suas carnes. Esse é um problema que vem crescendo na Amazônia. 

Um estudo realizado no Estado do Amapá e divulgado no final de 2020, nos dá uma clara ideia do nível de contaminação dos peixes por mercúrio – todos os peixes analisados apresentaram níveis detectáveis de mercúrio e 28,7% das amostras excederam o nível máximo recomendado pela OMS – Organização Mundial da Saúde. As espécies de peixes com os maiores níveis de contaminação são carnívoros de topo da cadeia alimentar, incluindo o pirarucu, o tucunaré e o trairão, algumas das espécies mais consumidas pelos moradores da Amazônia. 

Esse estudo foi realizado por pesquisadores da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca da Fundação Oswaldo Cruz, do IEPA – Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Amapá, do WWF-Brasil e Iepé – Instituto de Pesquisa e Formação Indígena. O estudo foi publicado na Revista Internacional de Pesquisa Ambiental e Saúde Pública. 

As reservas de ouro na Região Amazônica são estimadas em, pelo menos, 25 mil toneladas, o que equivale a cerca de US$ 300 bilhões. Num dos anos em que a produção de ouro na região bateu recorde – 1988, se alcançou a impressionante cifra de 216 toneladas e os ganhos foram de US$ 3 bilhões, valor equivalente a 3 vezes os ganhos com a exploração de minério de ferro em Carajás.  

Com toda essa verdadeira fortuna espalhada pelos rios e terras de toda a Amazônia, é de se esperar um número cada vez maior de garimpeiros, legais e ilegais, se aventurando na região e liberando quantidades cada vez maiores de mercúrio no meio ambiente. A contaminação das águas e dos peixes, desgraçadamente, continuará aumentando cada vez mais. 

Na Amazônia brasileira vivem cerca de 28 milhões de pessoas ou 13% da população do nosso país – isso nos dá uma ideia do tamanho da catástrofe de saúde que assistiremos nos próximos anos. 

CASOS DA “DOENÇA DA URINA PRETA” IDENTIFICADOS EM QUATRO ESTADOS BRASILEIROS 

Na última postagem falamos rapidamente do Nipah, um novo vírus potencialmente letal que vem fazendo vítimas fatais no Sul e Sudeste da Ásia. Diversas espécies de morcegos dessa região são hospedeiros naturais desse vírus sem sofrer qualquer tipo de problemas – quanto seres humanos tem contato com o Nipah, entretanto, as chances de contrair uma doença fatal ficam entre 40 e 79%. 

Além das imensas preocupações relativas à saúde de centenas de milhões de pessoas que vivem nessa extensa região, o vírus Nipah traz à tona uma relevante questão ambiental: a destruição contínua de grandes áreas de floresta tropical tem forcado muitas espécies de animais silvestres – onde se incluem os morcegos, a viverem em locais cada vez mais próximos dos assentamentos humanos. É nessa perigosa “convivência entre vizinhos” que, literalmente, mora o perigo da contaminação. 

Doenças associadas direta ou indiretamente a problemas decorrentes da devastação de áreas florestais tendem a se tornar cada vez mais comuns em nosso mundo. Existem bilhões de tipos diferentes de vírus vivendo em simbiose com plantas e animais silvestres que, em um eventual contato com seres humanos, podem criar verdadeiras pandemias. Um desses casos suspeitos é o Corona, vírus causador da Covid-19. 

A destruição da cobertura vegetal também pode expor veios de minerais pesados como o chumbo, o mercúrio e o cádmio, metais esses que podem ser arrastados na direção de rios e outros corpos d`água. Outra fonte de problemas é a mineração – principalmente do ouro, onde grandes quantidades de mercúrio são usadas para separar o precioso metal das impurezas. 

Um problema de saúde que pode estar associado a esses problemas (ainda não há confirmação científica) é a Doença de Haff, conhecida popularmente como “doença da urina preta”. Quatro Estados brasileiros – Amazonas, Pará, Ceará e Bahia, estão enfrentando surtos da doença nesse momento. Ninguém sabe ao certo se a causa da doença é uma toxina, um vírus ou uma bactéria encontrada em peixes e crustáceos. 

A doença foi descrita pela primeira vez em 1924 em Könisberg Haff, uma região litorânea no Mar Báltico no atual território russo de Kaliningrado. Os médicos passaram a atender pacientes com quadros de rigidez muscular súbita, acompanhados de urina escura. Os casos da doença foram registrados nessa região ao longo dos nove anos seguintes. 

Os médicos observaram que os casos da doença ocorriam principalmente entre o verão e o outono e, segundo foi possível apurar, os pacientes sempre relatavam o consumo de peixes e crustáceos. A hipótese levantada pelos médicos era a da presença de algum contaminante na carne dos animais consumidos. Outros surtos da doença foram descritos posteriormente em outras Repúblicas da então União Soviética, na China e nos Estados Unidos. 

Os primeiros casos registrados no Brasil ocorreram entre os anos de 2008 e 2009. Um dos surtos mais graves da doença ocorreu na Bahia em 2017, quando ao menos 71 pessoas foram diagnosticadas com a doença, sendo que 66 dos casos ocorreram na cidade de Salvador. 

Os relatos mostram que os primeiros sinais da doença aparecem poucas horas depois da ingestão de peixes e crustáceos. Os pacientes não têm febre e apresentam dor muscular nas regiões do trapézio, dos ombros e do pescoço. Muitos doentes reclamam de náuseas, dor no peito, falta de ar, sensação de dormência, tontura e fraqueza. Um dos sintomas mais característicos é a eliminação de uma urina escura, “cor de café”. 

Os estudos científicos já realizados não conseguiram isolar o suposto contaminante (químico ou biológico) que estaria presente na carne dos peixes e dos crustáceos, por isso a dificuldade de se afirmar se há realmente uma origem ambiental no problema. Existem casos de toxinas que surgem nas águas de rios e mares devido a problemas de poluição, contaminação por metais pesados e também pela presença de cianobactérias, muitas vezes associadas a poluição das águas por esgotos.  

Essa contaminação nas águas também pode estimular a proliferação de colônias de bactérias e também de espécies animais e vegetais que hospedam vírus. Esses contaminantes seguem ao longo da cadeia alimentar, afetando algas, insetos, vermes, crustáceos e peixes. Apesar de ainda não ter sido comprovada, essa é uma das principais hipóteses defendidas por muitos pesquisadores. 

Uma outra hipótese sugere que são problemas ligados ao transporte e armazenamentos de peixes e crustáceos entre as áreas de produção e os consumidores. Existem muitas espécies de peixes originários da Bacia Amazônica e de regiões litorâneas do Nordeste que são largamente consumidos em outros Estados do país. Um desses casos é o cachara, um peixe amazônico que é muito consumido como um “genérico” do surubim. 

O surubim já foi o peixe símbolo do rio São Francisco. Devido à degradação do rio, a espécie é cada vez mais rara nas águas e nos restaurantes ribeirinhos. O cachara é muito parecido com o surubim e, já há muitos anos, vem sendo servido em muitas mesas com se fosse um “autentico” peixe desse rio. 

A Doença de Haff provoca a rabdomióse, que é uma destruição progressiva das fibras que formam os músculos esqueléticos, os responsáveis pelas contrações e movimentos. Essa destruição resulta no despejo de células musculares mortas na corrente sanguínea, um problema que muitas vezes acaba gerando insuficiência renal. A mioglobina, um dos elementos formados das células musculares, é uma enzima tóxica para os rins. 

Uma vez confirmado o diagnóstico da Doença de Haff, o que pode ser feito a partir da análise dos sintomas ou de exames laboratoriais, a principal indicação médica é um reforço na hidratação do paciente – quanto maior a concentração de água no organismo mais fácil será a diluição das toxinas e a sua eliminação pelos rins. Em casos mais graves, quando os rins já foram comprometidos, pode ser necessária a hemodiálise. Raramente os pacientes com a “doença da urina preta” morrem. 

O atual surto de Doença de Haff está fortemente concentrado no Estado do Amazonas, onde já foram identificados mais de 60 casos em 10 cidades, com uma vítima fatal. A cidade mais afetada é Itacoatira, localizada a cerca de 270 km de Manaus, com 34 casos relatados. 

Autoridades da Vigilância Sanitária do Estado do Amazonas tem recomendado que a população não consuma peixes até que o surto da doença seja devidamente controlado. Esse tipo de recomendação é muito pouco eficaz na região – pescados são a principal proteína consumida pelas populações das cidades da Amazônia, principalmente as mais pobres. Mesmo assim, muitos comerciantes tem reclamado da redução nas vendas de pescados e crustáceos. 

As dúvidas que cercam a origem da Doença de Haff mostram o quanto ainda temos a aprender com a natureza e também nos lembra da importância da preservação ambiental. Mesmo que algum dia se comprove que a origem do problema é outra, todos sairemos ganhando com um meio ambiente melhor conservado. 

NIPAH: UM NOVO VÍRUS QUE ESTÁ CAUSANDO PREOCUPAÇÕES NO SUL E SUDESTE DA ÁSIA  

No dia 31 de dezembro de 2019, a OMS – Organização Mundial da Saúde, foi “alertada “oficialmente sobre a ocorrência de vários casos de pneumonia na cidade de Wuhan, na China. Segundo o que havia sido apurado há época, tratava-se de uma nova cepa de Corona vírus que ainda não havia sido diagnosticada em seres humanos. Essa nova cepa recebeu o nome de Covid-19. 

A história inicial da pandemia desencadeada por esse novo vírus na China é nebulosa e cheia de mistérios. Mantendo os meios de comunicação sob rígido controle e censura, o Governo chinês escondeu durante muito tempo tanto a extensão quanto a gravidade da doença.  

De acordo com os dados oficiais divulgados pela China, foram pouco mais de 96 mil casos e 4.636 mortes no país. Para efeito de comparação, o Brasil já teve perto de 21 milhões de pessoas infectadas e mais de 587 mil mortos. Não é preciso ser nenhum gênio para perceber que existe alguma coisa muito errada nos números apresentados pelos chineses. 

A origem do vírus é tão nebulosa como a história inicial da doença na China. Alguns estudos parecem apontar na direção de uma contaminação a partir de animais silvestres que seriam os portadores naturais do vírus. Uma das espécies suspeitas é o pangolim, um mamífero da ordem Pholidota que vive em regiões tropicais da Ásia e da África. Existem no total 8 espécies. A carne do pangolim é considerada uma iguaria na China, onde animais capturados vivos nas matas podem ser comprados em mercados populares. 

Outra hipótese levantada sobre a origem do vírus apontaria para algum tipo de acidente em um laboratório de pesquisas. Muitos partidários da “teoria da conspiração” acreditam que os chineses estavam estudando possibilidades de usar o vírus como uma arma biológica. Recentemente, essa hipótese ganhou força entre autoridades norte-americanas, que passaram a estudar essa questão com maior cautela. 

A lembrança da trágica da Covid-19, que há mais de um ano e meio foi declarada como uma pandemia pela OMS, e da possível transmissão do vírus para seres humanos a partir de um contato com um animal silvestre, tem relação com uma notícia preocupante divulgada nos últimos dias: no último dia 5 de setembro, um adolescente no Estado de Kerala, no Sul da Índia, morreu após ser contaminado com o mortal vírus Nipah

Nipah henipavirus é encontrado em diversas espécies de morcegos que vivem em áreas florestais do Subcontinente Indiano, do Sudeste Asiático e também na Austrália. Em 1998, ele foi detectado pela primeira vez em seres humanos na Península Malaia, onde causou a morte de 105 pessoas na região de Kanpung. Nesse surto, porcos foram identificados como os hospedeiros intermediários. 

Em outros casos, identificados em Singapura, Indonésia, Bangladesh e Índia, as vítimas foram contraminadas após consumirem sucos preparados com frutas frescas. A imensa maioria das espécies de morcegos é frutívora, ou seja, se alimentam de frutas e frutos, além do néctar de flores. Se não forem devidamente higienizadas, frutas e frutos contaminados com a saliva dos morcegos colocam as pessoas em contato direto com o vírus. Também há evidencias da transmissão do vírus de uma pessoa para outra. 

Infecções do Nipah podem causar desde síndromes respiratórias agudas a encefalites mortais. A taxa de letalidade no caso de doenças é extremante alta: a cada 100 pessoas infectadas, entre 40 e 79 morrem. Ainda não existem tratamentos específicos ou vacinas para o vírus – somente um tratamento primário com antivirais sem eficácia comprovada. 

De acordo com estudos preliminares da OMS, o período de incubação do vírus, ou seja, desde a infecção até o início dos sintomas da doença, varia de 4 a 14 dias. Existem, entretanto, relatos de períodos de incubação de até 45 dias. Os sintomas iniciais, quando aparecem, lembram muito aos de uma gripe. 

Nipah atinge o sistema nervoso central, causando alterações no nível de consciência, convulsões, febres, dores de cabeça, náuseas e vômitos. Também podem se desenvolver quadros de pneumonia. O adolescente que morreu em Kerala desenvolveu um quadro grave de encefalite (inchaço do cérebro), que infelizmente resultou em sua morte. 

Uma das primeiras providencias adotadas pelas autoridades sanitárias do Estado de Kerala foi rastrear e identificar todas as pessoas que tiveram contato com o adolescente. Ao menos 188 pessoas, entre familiares e vizinhos, foram colocadas em isolamento – cerca de 20 pessoas do grupo são consideradas com alto risco de contaminação

Esse caso expõe um gravíssimo problema ambiental de nossos dias – com a derrubada de matas e florestas, algo que está ocorrendo em todos os cantos de nosso planeta, animais silvestres estão ficando em contato cada vez mais próximo de populações humanas. Esses animais são hospedeiros naturais de uma infinidade de vírus, que nenhum mal lhes provocam, mas que podem ser fatais para os seres humanos

Uma espécie de morcego que é muito comum nessa extensa região geográfica e que é comprovadamente um transmissor do vírus Nipah é a raposa-voadora (existem diversas espécies). Os grandes desmatamentos em florestas tropicais da região estão empurrando esses animais para lugares cada vez mais próximas das cidades.  

Um exemplo que podemos citar é o caso da cidade de Melbourne, na Austrália, onde vivem mais de 50 mil raposas-voadoras-da-cabeça-cinzenta (vide foto). Diferente de outras espécies de morcego que tem um aspecto assustador, essas raposas-voadoras tem uma cabeça e um corpo que lembram muito uma raposa (daí o nome). Muitas pessoas acham esses animais “fofos” e acabam os tratando como se fossem “quase” domésticos – daí os riscos de contágio. Os animais frequentam os quintais das casas e os parques em busca de frutas, frutos, legumes e néctar das flores. 

Até o momento, os casos documentados de contaminação estão restritos a vilas e comunidades mais isoladas, que ficam próximas de áreas com florestas. As autoridades de saúde temem o surgimento de uma nova cepa do vírus com uma capacidade de transmissão maior, a exemplo da variante Delta do Corona vírus, algo que criaria condições para o desenvolvimento de grandes epidemias com inúmeras vítimas fatais. 

Por hora, o que se pode recomendar às populações dessas regiões é um cuidado redobrado com a higienização de frutas, frutos e legumes frescos, além de se manter o mais distante possível de matas ou locais onde grupos desses morcegos habitem. Em regiões extremamente pobres desses países, essas medidas são muito difíceis de serem implementadas e há sérios riscos de o pior acontecer…