Posts de ferdinandodesousa

Escritor, jornalista, gestor e educador ambiental. Especialista em projetos de comunicação social e de educação ambiental.

O “PÃO NOSSO DE CADA DIA”, OU FALANDO DA PRODUÇÃO DE TRIGO NO BRASIL 

O pão é um dos alimentos mais característicos de nossa espécie. Existem evidencias arqueológicas da produção desse alimento pelo Homo sapiens há cerca de 30 mil anos. Nossos antepassados moíam raízes de plantas até obter um extrato de amido que era assado sobre uma pedra plana. Uma espécie de padaria com cerca de 14,5 mil anos foi encontrada na Jordânia e há 10 mil anos usamos grãos de cereais para produzir pão. Qualquer povo de respeito tem sua própria receita e sua técnica para a produção de pão. 

Em grande parte do Brasil o chamado “pão francês” (vide foto), é quase uma unanimidade. Apesar do nome, esse tipo de pão vem de uma receita 100% carioca. Antes da vinda da Família Real Portuguesa, a farinha de trigo consumida aqui no Brasil era escura e de péssima qualidade. Após a chegada da nobreza ao Rio de Janeiro, passou a ser utilizada a farinha de trigo francesa, de melhor qualidade e branca.  

As padarias da Corte começaram a fazer pães macios e crocantes com essa farinha e a população batizou a iguaria de “pão francês”. Apesar da receita ser praticamente a mesma em todo o país, o nome do pão muda conforme a região. No Maranhão é chamado de pão massa grossa; no Paraná é pão careca; na Paraíba é pão aguado e no Ceará pão carioquinha. Já no Rio Grande do Sul e na Bahia é mais conhecido como cacetinho. 

Comecei fazendo esse brevíssimo histórico por que o conflito entre a Rússia e a Ucrânia é uma ameaça ao “pão nosso de cada dia” e outros alimentos feitos à base de trigo. Os dois países respondem juntos por cerca de 30% da produção e exportação do mundo. O conflito armado já está prejudicando a produção do trigo na Ucrânia e a Rússia está sofrendo uma enormidade de bloqueios comerciais aos seus produtos. O preço da commodity já subiu e há riscos de desabastecimento. 

Felizmente, nós brasileiros temos uma EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias, para chamar de nossa. Em nossa última postagem falamos das pesquisas da empresa para a produção de fertilizantes organominerais à base de biocarvão, produtos que poderão substituir para dos insumos que hoje precisam ser importados.

Outro marco histórico da EMBRAPA para o Brasil foi o desenvolvimento de variedades de soja especialmente adaptadas para as condições e clima do Cerrado Brasileiro. De origem chinesa, a soja era melhor adaptada para regiões de clima temperado e a solos de boa qualidade. Os pesquisadores brasileiros conseguiram adaptar o grão ao clima quente e aos solos ácidos e pobres do nosso Cerrado. Essa conquista começou no final da década de 1970 e o Brasil é hoje um dos maiores produtores de soja do mundo.

Desde 2012, pesquisadores da EMBRAPA vem trabalhando na tropicalização do trigo, cultura que se adaptou muito bem ao clima subtropical do Sul do Brasil. Cerca de 90% da produção brasileira de trigo, estimada em 7,7 milhões de toneladas, está concentrada em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul. O consumo brasileiro é de 12,7 milhões de toneladas, o que obrigada a importação de mais de 5 milhões de toneladas a cada ano. 

Os esforços dos pesquisadores levaram à criação das variedades de trigo BRS 264, BRS 394 e BRS 404, todas adaptadas para o cultivo no Cerrado. Plantios experimentais dessas variedades começaram a ser feitos em Goiás, no Distrito Federal e em Minas Gerais, onde se obteve uma produtividade acima da média brasileira. Em 2021, um produtor de Cristalina, em Goiás, obteve uma produtividade de 9,6 toneladas por hectare, mais de três vezes a média obtida no Sul do Brasil. 

No final de 2020, a EMBRAPA conseguiu outro feito impressionante – em parceria com a iniciativa privada foi realizada a primeira colheita de trigo no quente e seco Ceará. A produtividade ficou em 5,5 toneladas por hectare, menos que a obtida na região do Cerrado, porém, mais alta do que a dos Estados do Sul do país. Experimentos também estão sendo feitos no Piauí e no Maranhão. 

A mais nova frente de pesquisas são os Campos Amazônicos de Roraima, que são muito parecidos com os do Cerrado. O plantio experimental foi feito no final de 2021 e os resultados da primeira colheita foram promissores. As variedades utilizadas foram as mesmas desenvolvidas para o Cerrado. 

A produtividade obtida mais uma vez foi superior à do Sul do Brasil, com um período de desenvolvimento das plantas na faixa de 75 dias, enquanto na Região Sul esse período pode chegar aos 180 dias. As perspectivas para a cultura nessa região da Amazônia são extremamente promissoras. 

Segundo os pesquisadores da EMBRAPA, essas novas variedades vão garantir que o Brasil saia da condição de importador de trigo para a situação de grande exportador. Em tempos de riscos ao abastecimento mundial, essa é uma notícia animadora. 

Um outro lado extremamente positivo do trabalho da EMBRAPA é a possibilidade de estender a produção de trigo a outros países amazônicos como a Venezuela e a Guiana. Nesses países existem biomas muito parecidos com os Campos Amazônicos de Roraima e onde predomina o mesmo clima quente. 

O Bioma Amazônico não é formado apenas por grandes árvores em uma mata densa como muita gente imagina. Ele é formado por uma verdadeira colcha de retalhos de diferentes sistemas florestais, onde coexistem florestas densas, várzeas e florestas alagáveis, campos, florestas de altitude, restingas, manguezais, entre muitos outros. Cerca de 14% do Bioma Amazônico é formada por áreas de vegetação aberta como cerrados e campos naturais

Perto de 20% do território de Roraima é coberto por campos naturais, ou seja, é possível transformar o Estado em um grande produtor de trigo sem que para isso seja necessário derrubar ou queimar as árvores da Floresta Amazônica. Lembro que 46% do território de Roraima é Área Indígena e, de acordo com a legislação atual, essas terras não podem ser usadas para culturas agrícolas comerciais.  

Também é importante citar que existe no Brasil cerca de 90 milhões de hectares com pastagens degradadas e áreas que já foram desmatadas e que não estão sendo utilizadas para produção agrícola e/ou pecuária. Essas áreas estão localizadas majoritariamente nas Regiões Nordeste e Sudeste e poderiam ser usadas para a produção agropecuária – em especial para a produção de trigo. 

Isso mostra quanto espaço ainda existe em nosso país para o crescimento da produção agrícola. E com os pesquisadores da EMBRAPA trabalhando no desenvolvimento de novas variedades de cultivares, poderemos produzir cada vez mais alimentos sem a necessidade de derrubar florestas.  

Nada mal para um país que ganhou fama de “queimador de florestas” pelo mundo afora…

UM FERTILIZANTE FEITO A PARTIR DE BIOCARVÃO PARA A AGRICULTURA BRASILEIRA

O conflito entre a Rússia e a Ucrânia, como todos devem estar acompanhando nos noticiários, vai muito além de uma disputa territorial – há enormes repercussões econômica e sociais. A Rússia é uma grande produtora de petróleo e gás, sendo um importante fornecedora para países europeus. O país também é um grande produtor e exportador de grãos. 

Já a Ucrânia sempre foi um importante celeiro agrícola. O país é um grande produtor de cereais – especialmente trigo, cevada e milho, óleo de semente de girassol, entre outros produtos. Um exemplo dos impactos do conflito para o mercado mundial de alimentos: Ucrânia e Rússia juntas respondem por 30% de toda as exportações mundiais de trigo. 

Um insumo fundamental para a agricultura brasileira que foi afetado pelo conflito são os fertilizantes. A Rússia é um dos principais produtores mundiais de fertilizantes nitrogenados – 95% da demanda brasileira desse tipo de fertilizante depende de importações da Rússia, da China e de países do Oriente Médio. 

A conta também inclui os fertilizantes fosfatados – 75% da oferta no mercado brasileiro vem da Rússia, da China e do Marrocos. Também existem os fertilizantes a base de potássio, onde 95% de nossas importações vem de Belarus, do Canadá e da Rússia. Ou seja – dependemos quase que totalmente de produtos importados para produzir nossos alimentos.

Mais de 27% do nosso PIB – Produto Interno Bruto, vem do agricultura e das exportações de proteína animal. Vale lembrar que a produção de ração para a alimentação dos rebanhos animais depende dos grãos produzidos nos nossos campos. Logo, os fertilizantes se transformaram no “tendão de Aquiles” do nosso país.

Como sempre acontece nessas situações, as primeiras notícias tratando de uma crise no fornecimento de fertilizantes levou muitos produtores rurais ao desespero. As coisas, felizmente, foram se acomodando pouco a pouco – alguns dias atrás, mais de 20 navios cargueiros russos com fertilizantes conseguiram chegar até portos brasileiros, o deverá garantir o consumo até o início do próximo ano.  

Funcionários do Ministério da Agricultura começaram a correr o mundo em busca de outros fornecedores e existem boas perspectivas para o futuro. Canadá e países do Oriente Médio, que inclusive já fornecem parte da demanda do país, poderão passar a condição de grandes fornecedores de fertilizantes para o Brasil. 

Também começaram a surgir algumas soluções tupiniquins, no melhor sentido da palavra. Uma dessas soluções promissoras tem no seu DNA pesquisas feitas pela Embrapa Meio Ambiente. Trata-se do uso de fertilizantes organominerais à base de biocarvão

Segundo as pesquisas, essa fonte garante uma boa disponibilidade de nutrientes, especialmente nitrogênio e fósforo. Esses elementos são liberados lenta e gradualmente quando comparados aos fertilizantes químicos, porém, isso previne as perdas excessivas e aumenta o potencial de absorção pela cultura. 

Numa fase anterior da pesquisa foram feitos testes para a validação das diferentes proporções de biocarvão e da fonte hidrogenada (29% a 51% de biocarvão e de 5% a 20% de nitrogênio). Esses testes permitiram encontrar a eficiência agronômica e ambiental dos fertilizantes. 

Entre as melhores formulações encontradas está a proporção com 10% a 17% de nitrogênio e de 40% a 51% de biocarvão. Nos testes realizados na produção, essa fórmula permitiu um ganho de produtividade de até 21% na produção de milho e de 12% na eficiência do uso do nitrogênio pelas plantas. 

Um dado interessante encontrado nos testes foi a redução das emissões de óxido nitroso (N2O) pela cultura. Esse é um dos gases responsáveis pelo efeito estufa e pelo aumento das temperaturas do nosso planeta. Também houve um incremento do sequestro de carbono pelo solo, um dos “antídotos” para essa verdadeira catástrofe ambiental. 

É evidente que a Embrapa não tirou esse “coelho da cartola” como num passe de mágica. Desde 2011, a empresa vem trabalhando em parceria com o IAC – Instituto Agronômico, com a ESALQ – Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, ligada a USP – Universidade de São Paulo, além de empresas do setor privado. 

A EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias, foi criada em 1973, tendo como principal objetivo o desenvolvimento de tecnologias, conhecimentos e informações técnico-científicas destinadas ao pleno desenvolvimento da agricultura brasileira. Muitos dos mais jovens podem não saber, mas o Brasil daqueles tempos ainda dependia da importação de muitos alimentos. 

Cerca de 5 anos depois, o Centro Nacional de Pesquisa da Soja, uma das unidades de pesquisa da EMBRAPA, já começava a revolucionar a agricultura brasileira. A empresa conseguiu desenvolver variedades de soja perfeitamente adaptadas às características de solos e ao clima do Cerrado Brasileiro. Em quatro décadas, o Brasil se transformou no maior produtor de soja do mundo. 

Como toda tecnologia nova, não poderemos esperar grandes resultados desse fertilizante organomineral no curto prazo. Serão necessários ainda muitos anos para transformar essa tecnologia nova em um produto comercial plenamente aceito pelo mercado e, especialmente, pelos agricultores. 

Porém, falamos aqui de um produto que poderá contribuir muito para uma sustentabilidade ainda maior da agricultura brasileira. Muitos consumidores, especialmente na Europa, se recusam a comprar produtos agropecuários brasileiros por causa de notícias que falam das queimadas e da destruição da Floresta Amazônica. Para esse público, os nossos produtos saem dessas áreas “destruídas” da grande floresta tropical. 

Esse fertilizante feito a partir de biocarvão poderá ajudar a mudar a percepção de muita gente sobre o agronegócio brasileiro.

ONDA DE FRIO INVADE A REGIÃO CENTRO SUL DO BRASIL 

Tem feito bastante frio nos últimos dias aqui na cidade de São Paulo e em outras cidades e regiões do país, especialmente na área conhecida como Região Centro Sul. Há dois dias atrás, a temperatura na cidade ficou próxima dos 8° C, com algumas áreas mais altas registrando uma sensação térmica de –2° C por causa dos fortes ventos. 

Hoje mesmo eu estava conversando com minha irmã e lembrando de nossa avó – sempre que vinha passar uns dias na nossa casa, ela costumava comprar tecido de flanela para fazer camisas quentes para nós. O inverno paulistano era, até algumas décadas atrás, bem mais rigoroso e ainda tinha a “tal” da garoa nos finais de tarde. 

Essa onda de frio, que trouxe inúmeras lembranças da minha infância, não afetou só os Estados do Sul, Sudeste e Centro-Oeste – os termômetros também despencarem no Nordeste e no Norte do país, regiões pouco acostumadas com temperaturas mais baixas. 

Na Região Norte as áreas mais afetadas foram o Acre, Rondônia e o Sul do Amazonas. Em Rio Branco, capital do Estado do Acre, estavam sendo esperadas temperaturas entre 14° e 16° C, o que é bastante frio para as médias normais para essa época do ano. Em Porto Velho, capital de Rondônia, as temperaturas mínimas podem chegar a 16° C.  

O Nordeste também vai “sofrer” com temperaturas abaixo da média. No Sul da Bahia, citando um exemplo, as temperaturas devem cair para valores entre 15° e 16° C. Em Teresina, os termômetros deverão chegar aos 22° C – em Fortaleza e em São Luís a mínima poderá chegar a 24° C. Nós aqui no Sudeste e no Sul do país vamos para a praia com essas temperaturas, mas, para nordestinos, isso é um “frio lascado”… 

Ondas de frio mais severo como esta que estamos vivendo hoje deixaram de ser comuns aqui na cidade de São Paulo já há uns 30 anos. Agora, o que está chamando mesmo a atenção é a época – falta mais de um mês para a chegada do inverno e um frio com essa intensidade seria esperado só em julho. 

O responsável pela “friagem” foi um ciclone extratropical que se formou no litoral do Rio Grande do Sul e que passou a impulsionar ventos frios para o interior do continente. O fenômeno meteorológico evoluiu e se transformou na tempestade subtropical Yakecan, provocando ventos de até 100 km/h, chuva intensa, ressaca no mar, neve na Serra Gaúcha e uma onda de frio que se espalhou pelo país. 

Segundo informações do INMET – Instituto Nacional de Meteorologia, essa onda de frio provocou quedas de mais de 5° C nas temperaturas. Além dos Estados da Região Sul e São Paulo, os mais afetados, essa da onda de frio está sendo Goiás, Mato Grosso, Distrito Federal, Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro, além do Sul do Tocantins. Em menor intensidade, como já citamos, o Norte e o Nordeste.

Além do frio, a tempestade subtropical está provocando fortes chuvas em algumas regiões, principalmente no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. Na última terça-feira, inclusive, os moradores da Região Metropolitana do Rio de Janeiro foram surpreendidos por uma forte chuva seguida por queda de granizo, um evento raríssimo na Região. 

No litoral de Santa Catarina o problema foram os fortes ventos e o mar agitado. Na terça-feira, a Marinha do Brasil proibiu a navegação no canal de acesso ao Complexo Portuário de Itajaí e de Navegantes. As rajadas de vento chegaram próximo a 100 km/h, tornando a navegação no canal impraticável. 

O clima aqui nesse nosso canto do mundo, aliás, está ficando complicado. Em meados de janeiro, como muitos devem recordar, uma poderosa massa de ar quente e seco se formou no Sul da Argentina e elevou as temperaturas no Centro e no Norte da Argentina, no Paraguai, no Uruguai e também no sul do Brasil. 

Na cidade de San Antonio Oeste, na Patagônia argentina, os termômetros registraram a temperatura recorde de 42,8° C. Essa onda de calor chegou na região de Buenos Aires um dia depois e elevou as temperaturas para valores próximos dos 40° C, as maiores em mais de um século na cidade. 

Uma das consequências dramáticas desse calor temporão foi um blackout que atingiu boa parte das cidades da Grande Buenos Aires – a rede elétrica antiga não suportou uma infinidade de ventilares e equipamentos de ar condicionado ligados ao mesmo tempo. Cerca de 700 mil porteños ficaram as escuras por muitas horas.

No Rio Grande do Sul, essa onda de calor elevou as temperaturas entre 10° e 15° C, amplificando os problemas que o Estado vivia há época por causa da seca. O INMET, inclusive, emitiu um alerta de calor extremo para 216 municípios gaúchos. 

Mal se passaram quatro meses e agora estamos vivendo uma onda anormal de frio vinda de latitudes muito próximas. Pode até ser uma grande coincidência a ocorrência de dois extremos climáticos num espaço de tempo tão curto, porém, não podemos deixar de imaginar que a causa pode estar ligada às mudanças climáticas globais. 

Conforme já apresentamos em outras postagens aqui do blog, o aumento das temperaturas do planeta está provocando um derretimento acelerado das massas de gelo nos polos e das altas montanhas. O derretimento da capa de gelo do Continente Antártico, que está bem próximo de nós sul-americanos, está provocando mudanças nas correntes marinhas e nos regimes de vento. 

No Oceano Índico essas mudanças já são bastante visíveis – medições sistemáticas mostram que a temperatura superficial das águas está se elevando, o que tem alterado, entre outras coisas, o regime de chuvas na África Austral, no Sul e no Sudeste da Ásia. 

O Atlântico Sul é uma extensão a Leste do Oceano Índico e já pode estar sofrendo de interferências semelhantes. Porém, como sempre ressaltamos, serão necessários muitos estudos para que se determine com exatidão o que está acontecendo por esses nossos lados. 

Enquanto as respostas científicas não vêm, o jeito é irmos nos adaptando a esses extremos climáticos que parecem estrar se tornando cada vez mais frequentes… 

ESTUDO INDICA QUE A POLUIÇÃO MATOU 9 MILHÕES DE PESSOAS EM 2019 

Ao longo dos últimos dois anos e meio, todos nós temos convivido com a Pandemia da Covid-19. Existem dados que indicam que cerca de 6,2 milhões de pessoas já morreram por causa da doença. A OMS – Organização Mundial da Saúde, acredita que esse número de mortos está subestimado e calcula que o número de vítimas pode ter chegado aos 15 milhões

Enquanto a Covid-19 ocupa amplos espaços nos meios de comunicação, existem outras doenças que também vem matando muita gente e muito pouco se fala sobre isso. A poluição é uma dessas assassinas silenciosas e pouquíssimo espaço consegue nos meios de comunicação. 

De acordo com um estudo realizado por um consórcio de cientistas e que foi divulgado na última edição da revista The Lancet Comission on Pollution and Health, a poluição foi responsável pela morte de 9 milhões de pessoas em todo o mundo em 2019. Isso representa 16% do total de mortes do período. Os cientistas alertam que esse número de vítimas ficou praticamente inalterado em relação à mesma pesquisa feita em 2017, o indica que não foram tomadas medidas para amenizar os problemas. 

A poluição do ar é, disparada, a campeã em mortos, sendo responsável por 6,67 milhões de mortes a cada ano. Em seguida vem a poluição química, com 1,8 milhão de vítimas, a poluição da água, com 1,8 milhão de mortes e os riscos ocupacionais tóxicos, com 870 mil vítimas. 

A exposição ao chumbo, metal pesado extremamente tóxico, é responsável por metade dos casos de poluição química. O chumbo é muito usado na produção de baterias para veículos, na composição de tintas industriais e residenciais, cabos elétricos e também como aditivo para a gasolina, entre outras aplicações. 

O estudo indica que mais de 90% das mortes ocorreram em países de renda baixa e média, sendo que entre os 10 países com os maiores números de vítimas 7 ficam na África. Um dado curioso: dos 54 países que formam a África, apenas 7 realizam um monitoramento confiável e em tempo real da poluição do ar.

Nos quesitos água e solos contaminados, além do ar mais poluído, o Chade, a República Centro-Africana e o Níger ocupam as primeiras posições com os dados ajustados de acordo com o tamanho da população. Completam a lista dos 10 países mais afetados pela poluição as Ilhas Salomão, no Sul do Oceano Pacífico, Somália, África do Sul, Coreia do Norte, Lesoto, Bulgária e Burkina Faso.  

Uma constatação interessante feita pela pesquisa foi a identificação de um aumento substancial de óbitos relacionados à exposição a poluentes derivados da atividade industrial, especialmente em países da Ásia. Em países como a China e a Índia, os níveis crescentes de exposição a produtos tóxicos se somam ao aumento da expectativa de vida da população. 

A queima de combustíveis fósseis é o grande destaque na poluição do ar. Ela começa com veículos automotores movidos a gasolina e diesel, passando pelas chaminés de industrias e atingindo o seu auge na queima de carvão em usinas siderúrgicas e em usinas termelétricas. 

Vou citar como exemplo a minha cidade – São Paulo, onde circulam cerca de 6 milhões de veículos diariamente. Felizmente, a maioria desses veículos utilizam catalizadores nos escapamentos e também sistemas de injeção eletrônica de combustível, o que ajuda a reduzir as emissões. Também é importante citar que uma parte significativa desses veículos utilizam motor flex, o que permite o uso de etanol, combustível que polui bem menos que a gasolina. 

Já em Lahore, cidade do Paquistão que é considerada a mais poluída do mundo, a situação é bem mais complicada. Com uma população igual à da cidade de São Paulo, Lahore possui uma frota de veículos bastante antiga, onde os motores utilizam tecnologias antigas e muito mais poluentes.  

Outro complicador para o ar da cidade são as centrais termelétricas movidas a carvão, um combustível altamente poluente. Essas unidades são responsáveis pela maior parte do fornecimento da energia elétrica usada pela população. Aliás, o carvão é um dos grandes vilões da poluição do ar em todo o mundo.

Medições feitas pela IQAir, uma empresa suíça especializada em tecnologia da qualidade do ar, em dia 18 de novembro de 2021, mostrou que o ar de Lahore Lahore tinha uma concentração de 311 micro gramas de partículas PM2.5 para cada metro cúbico de ar  

Uma medição equivalente feita em São Paulo no mesmo dia pela CETESB – Companhia Ambiental do Estado de São Paulo, mostrava a cidade na 55ª posição com uma concentração de partículas PM2.5 de 17 microgramas para cada metro cúbico de ar. Além da grande diferença nas características da frota de veículos, São Paulo não possui termelétricas a carvão em suas cercanias. 

No caso da poluição da água, precisamos destacar o lançamento de esgotos domésticos e industriais em rios e outros corpos d`água. Esse problema é mais comum em países pobres e em desenvolvimento. Em São Paulo esse é um problema crônico onde se destacam os rios Tiete, Pinheiros e Tamanduateí

Conforme já tratamos em inúmeros postagens aqui do blog, São Paulo sofre muito com as enchentes nos meses de verão. É justamente nesses momentos em que a poluição das águas entra em contato com a população, principalmente aquela camada mais pobre e que mora em regiões próximas da calha dos rios. 

Outro problema, também já tratado em postagens aqui do blog, é o uso da água poluída de rios e córregos na irrigação de verduras e legumes nas regiões chamadas de “cinturão verde” das cidades. Além de uma infinidade de bactérias e de patógenos de todos os tipos, essa água possui grandes quantidades de metais pesados. 

Um exemplo que mostramos em uma postagem anterior que exemplifica muito bem os problemas de poluição nas águas são os cachorros azuis da Índia. Esses animais costumam entrar nas águas de rios altamente poluídos do país para buscar alimentos e ficam altamente contaminados com todo um coquetel de produtos químicos, combinação que deixa o pelos dos animais na cor azul. 

Pessoas que consomem, direta ou indiretamente, essas águas ou alimentos irrigados com elas, ou ainda que entram em contato com essas águas durante momentos de enchentes, ficam sujeitas, é claro, a toda uma infinidade de doenças e problemas de saúde, sendo que muitas acabam morrendo. 

O mesmo ocorre com pessoas que ficam expostas a atmosferas altamente poluídas ou que tem contato frequente com produtos químicos e metais pesados, especialmente em seus ambientes de trabalho. Esse contato frequente costuma resultar em uma série de doenças, muitas delas fatais. 

Deferentemente de doenças de evolução rápida como a Covid-19, a poluição costuma “matar aos poucos” e silenciosamente. Talvez por isso, essas mortes não chamam tanto a atenção e, consequentemente, não chocam as populações. 

As cifras, entretanto, são alarmantes e clamam a atenção urgente dos nossos governantes. 

A CRISE ECONÔMICA E A FALTA DE ALIMENTOS, DE ENERGIA E DE COMBUSTÍVEIS NO SRI LANKA 

O Sri Lanka é um daqueles países que raramente ouvimos falar aqui no Ocidente. Localizado ao largo da costa Sul da Índia, esse país insular tem cerca de 65 mil km2, área um pouco maior que a do nosso Estado da Paraíba, contando com uma população de aproximadamente 22 milhões de habitantes. 

Existem evidencias de assentamentos humanos na ilha datados em cerca de 125 mil anos, porém a história escrita do país está documentada há apenas 3 mil anos. A população foi formada a partir de uma mistura de grupos tâmeis do Sul da Índia, malaios, mouros e aborígenes vedas, entre outros grupos étnicos. A maioria da população professa a fé budista. 

Como sempre acontece com esses países, é preciso que ocorra alguma tragédia para que virem notícia. O Sri Lanka está ocupando manchetes dos meios de comunicação por causa de uma enorme crise econômica e social que se desenrola na ilha. Com a epidemia da Covid-19, o país perdeu grande parte de suas receitas em moeda estrangeira – o turismo e as exportações de chá, duas das principais atividades econômicas do país, caíram fortemente desde 2020. 

Sem dinheiro para fazer compras no mercado internacional, o país reduziu ao máximo possível as importações de fertilizantes, o que prejudicou imensamente a produção local de alimentos. Com a redução da oferta, os preços subiram e centenas de milhares de cingaleses estão passando fome. 

E os problemas não param por aí – a falta de dinheiro também prejudicou as importações de combustíveis e a população sofre com a falta e com os altos preços desses produtos. Falta combustível até para as usinas de geração de energia elétrica e os cortes no fornecimento são diários. A situação da população é caótica. 

O país também suspendeu os pagamentos de sua dívida externa de US$ 51 bilhões, perdendo assim o crédito no mercado financeiro internacional. O Sri Lanka está enfrentando a pior recessão desde 1948, ano em que conseguiu a independência do Reino Unido. Segundo analistas internacionais, o país precisaria de US$ 7 bilhões para honrar seus compromissos internacionais este ano, mas dispõe de reservas de apenas US$ 1,9 bilhão. 

Manifestações diárias de milhares de pessoas (vide foto) pedem a renúncia do Presidente Gotabaya Rajapaksa, a quem acusam, entre outros problemas, de inabilidade na gestão da crise. A família Rajapaksa, aliás, ocupa diversos cargos na administração do país – são filhos, irmãos e outros parentes do Presidente. Esse nepotismo aumenta ainda mais a revolta da população. 

No início de 2020, já antevendo as dificuldades para a importação de insumos agrícolas, o Presidente do Sri Lanka anunciou que seu país estava proibindo o uso de fertilizantes e pesticidas na agricultura com o objetivo de tornar toda a produção orgânica. Muitos ambientalistas internacionais aplaudiram essa iniciativa demagógica. 

Entretanto, a realidade acabou falando mais alto – logo após o anúncio dessas medidas, cerca de 1/3 das culturas não foram plantadas pelos produtores rurais. A razão é muito simples – culturas orgânicas não costumam ser viáveis economicamente. A produção cai, os custos aumentam e o mercado não paga o valor real dos produtos. A produção de arroz, um dos alimentos básicos da população e onde já não havia autossuficiência, diminuiu 20%, o que obrigou o Governo a gastar cerca de US$ 450 milhões com a importação do cereal. 

O Governo do Sri Lanka também foi obrigado a desembolsar cerca de US$ 350 milhões em subsídios e indenizações para os agricultores que não conseguiram se adaptar as novas diretrizes. Para os consumidores o impacto se deu num aumento de 50% no preço de venda do arroz. 

Um outro produto que teve sua produção fortemente afetada foi o chá, o principal produto de exportação do país. Desde a época das grandes navegações europeias nos séculos XV e XVI (os portugueses chegaram ao Sri Lanka em 1505), que os chás do Ceilão, nome antigo do país, fazem sucesso na Europa. As exportações anuais do produto registraram prejuízos da ordem de US$ 425 milhões no último ano. 

De acordo com dados da Foreign Policy, uma publicação norte-americana que analisa a política internacional e a relação entre os países, a desastrada medida do Governo cingalês prejudicou fortemente a segurança alimentar da população. Calcula-se que cerca de 500 mil cingaleses foram levados para um padrão de vida abaixo da linha da pobreza. 

Com o visível colapso da produção agrícola, o Governo não tardou em suspender a política de proibição do uso de fertilizantes e de pesticidas. Entretanto, os estragos já estavam feitos, o que agravou ainda mais a crise econômica e a possibilidade de importar esses insumos. 

É importante citar que o Sri Lanka enfrentou uma guerra civil entre os anos de 1983 e 2009, conflito que matou mais de 40 mil pessoas. O embate se deu entre o grupo político Tigres de Libertação do Tâmil, que queria a independência do seu território, e o Governo Central do país. 

Esse conflito deixou profundas sequelas em um país historicamente já marcado pela pobreza. Milhares de camponeses foram obrigados a abandonar suas terras e migrar para outras regiões do país, o que agravou muitos dos conflitos agrários. Cerca de metade da população do Sri Lanka depende da agricultura, especialmente da produção de arroz, chá, borracha e coco.  

Existe ainda um agravante – apenas 1/3 das terras da ilha podem ser utilizadas para a produção agrícola. Imaginar que seria possível manter a produção sem o uso de fertilizantes e defensivos agrícolas foi, no mínimo, um ato de enorme ingenuidade por parte do Governo do país. E como sempre acontece, a fatura chegou e o Governo não tem dinheiro para pagar a conta. 

Com um forte desemprego, altos preços dos alimentos, com cortes no fornecimento de energia elétrica, falta de combustíveis e com uma queda brutal na entrada de recursos externos, o país está vivendo uma situação explosiva. A combinação de tantos problemas num único país não costuma acabar nada bem. 

Desgraçadamente, parece não haver uma solução no curto prazo para o pobre Sri Lanka. 

OS VENTOS DA DISCÓRDIA, OU FALANDO DOS PROBLEMAS CRIADOS PELA GERAÇÃO EÓLICA NO NORDESTE BRASILEIRO 

Em um desenho clássico dos Estúdios Walt Disney, o impagável Pato Donald está tentando dormir desesperadamente. Primeiro, ele é perturbado pelas luzes do luminoso de uma lanchonete vizinha a sua casa que são refletidas nas paredes do quarto. Depois de muita confusão, o personagem consegue pregar uma cortina contra a janela e se livra dos reflexos. 

Logo depois, ele passa a ser atormentado pelas gotas que caem de uma torneira na pia da cozinha. Por mais que Donald tente fazer parar o gotejamento, a água sempre consegue escapulir e faz barulhos ritmados que levam o pato ao desespero. Ao final do episódio, o Pato Donald recebe um telefonema da companhia de água informando que o fornecimento será cortado por falta de pagamento. Ao invés de se lamentar, ele sorri como um louco. 

Comecei a postagem relembrando dessa animação para falar de um problema muito parecido que está acontecendo por toda a Região Nordeste do Brasil: famílias que moram ao lado de parques de geração eólica estão se sentindo muito incomodados pelo barulho constante da rotação das pás. Muitos deles, a exemplo do Pato Donald, não estão conseguindo dormir confortavelmente. 

Em uma reportagem que trata desse e de outros problemas da geração eólica na Região Nordeste, é citado o caso do agricultor Simão Salgado da Silva de 73 anos. Morador de Caetés, cidade no agreste pernambucano localizada a 243 km do Recife, ele e a família abandonaram a sua casa na zona rural por causa do barulho dos geradores eólicos. 

Segundo seu relato, a esposa – Edite Maria da Silva, de 72 anos, adoeceu. “Ela não dormia, não se alimentava bem e entrou em uma grande depressão, teve crises de ansiedade e passou mal“. A família buscou refúgio na zona urbana, onde passou a morar em uma casa alugada. E esse, nem de longe, é um caso isolado. 

Para todos aqueles que, como eu, moram em grandes cidades, o “barulho de fundo” que nos cerca mal é percebido no nosso dia a dia. Minha casa, citando um exemplo, fica a cerca de 300 metros da Marginal Pinheiros, uma das vias expressas mais movimentadas de São Paulo. Ao lado dessa avenida existe uma linha do sistema metropolitano de trens, além de uma estação do metrô a algumas centenas de metros à frente. 

Os carros circulam por aqui 24 horas por dia. Os trens começam a circular as 4h da manhã, na linha do sistema metropolitano, e as 5h da manhã na linha do metrô, operando até a meia noite. Ou seja – o barulho é contínuo, mas os “urbanoides” mal o percebem. Já para um sertanejo, acostumado com o silencio das noites tranquilas no “meio do nada”, o ronco contínuo das engrenagens dos aerogeradores é terrível. 

E os problemas não se limitam ao barulho. 

A mesma reportagem cita o caso da comunidade quilombola do Cumbe em Aracati, município do litoral do Ceará. Formada por cerca de 1.500 pessoas, a comunidade passou a enfrentar problemas após a instalação de um parque com 70 aerogeradores em sua cercania. 

Os problemas começaram durante as obras, quando caminhões e máquinas pesadas das construtoras passaram a circular nas estradas da região. Muitas casas e cisternas passaram a apresentar rachaduras. As canaletas das laterais das estradas, abertas para ajudar na drenagem das águas pluviais, também foram danificadas e essa água passou a invadir as casas de muitos moradores. 

Concluídas as obras de montagem das torres e dos aerogeradores, surgiu um novo problema – a área foi cercada e a passagem de pedestres foi proibida. Além da pesca, as atividades ligadas ao turismo formavam a base da economia da comunidade, que passou a ser fortemente prejudicada. 

Em muitas comunidades agrícolas do interior nordestino já existem movimentos que lutam contra a instalação de parques de geração eólica. Um desses casos é o município de Remígio, no semiárido paraibano. Na região foi instalado um polo de agricultura familiar na Serra da Borborema, onde os moradores falam abertamente que não querem a instalação de parques eólicos. 

Contando com ventos fortes e contínuos, a Região Nordeste foi transformada na maior geradora de energia elétrica por fonte eólica do Brasil. De acordo com dados da Associação Brasileira de Energia Eólica, a Região concentra 708 parques eólicos de um total de 805 instalados em todo o país. A geração eólica representa, segundo dados de dezembro de 2021 do Ministério de Minas e Energia, quase 11% de toda a matriz energética do Brasil

O potencial eólico da Região é tão grande que já existe um grande projeto para a instalação de centenas de torres offshore (dentro do mar ao longo da costa) por todo o litoral nordestino. Segundo informações preliminares, esse potencial seria equivalente a 50 usinas hidrelétricas do tamanho de Itaipu

As empresas que operam os parques eólicos no interior nordestino se defendem de todas as acusações e informam que sempre que são acionadas por algum morador do entorno de suas unidades, fazem o possível para resolver os problemas. 

Na minha modesta opinião, o que ocorreu foram processos de licenciamento ambiental muito mal feito, onde ninguém se lembrou de fazer testes de ruído contínuo junto aos moradores das vizinhanças. Agora, depois dos aerogeradores instalados e dos estragos feitos, a remediação será mais complicada e muito mais cara. 

A energia eólica, apesar de problemas desse tipo, é uma das mais renováveis e de menor impacto ambiental. Com projetos bem feitos e com uma avaliação adequada dos impactos positivos e negativos, ela sempre será muito bem-vinda. O respeito à vizinhança deve ser um dos pontos principais dessas avaliações. 

Que venham novos bons projetos. 

A CHEIA DOS RIOS DA BACIA AMAZÔNICA, UM PERÍODO DE ESCASSEZ PARA OS RIBEIRINHOS 

Comecemos com um breve resumo do clima da Região Amazônica: 

O clima amazônico se divide em apenas duas estações: o verão, com muito calor e seca, e o inverno, também muito quente e com chuvas abundantes. Esse padrão climático se reflete diretamente no ciclo hidrológico dos rios da Bacia Amazônica: entre junho e novembro as águas dos rios descem, ocorrendo a “vazante”. Entre os meses de novembro e maio as águas sobem, período conhecido como “cheia”. 

O mês de maio, que marca o final do inverno ou período das chuvas, é o auge das cheias nos rios da região. Um exemplo – o rio Negro, um dos maiores afluentes do rio Amazonas, chega a subir acima da marca de 29 metros na altura da cidade de Manaus, o que significa que suas águas invadem as margens por vários quilômetros. 

O trecho mais largo do rio Amazonas no auge do período seco possui uma largura de 11 km. No auge da cheia, quando as águas das chuvas que caíram nas mais longínquas cabeceiras dos seus afluentes já chegaram na calha do rio Amazonas, essa largura chega aos 50 km. Esses números nos dão uma ideia da intensidade das inundações. 

O período das cheias é uma época de grande escassez para as populações ribeirinhas da Amazônia. Roçados de mandioca e de outras culturas de subsistência ficam sob uma lâmina de água de vários metros. A água potável dos pequenos igarapés também desaparece e são necessárias longas viagens de barco até os terrenos mais altos, onde essa água ainda está disponível. 

Com a cheia dos rios, os peixes abandonam seus habitats na calha dos rios e vão se aventurar nas áreas alagadas no meio da floresta, onde buscam outras fontes de alimentação como frutas, castanhas e sementes. Essa migração temporária torna muito difícil a pesca. 

Nos últimos 30 anos, a Bacia Amazônica vem experimentando ciclos de cheias e de vazantes mais intensos, fenômeno que tem tornado a vida dos ribeirinhos cada vez mais difíceis. De acordo com os registros históricos feitos no Porto de Manaus, cheias severas ocorriam em intervalos de 20 anos no início do século XX. Atualmente, esse intervalo diminuiu para apenas 4 anos. 

Em 2009, a cheia do rio Negro no Porto de Manaus atingiu a marca de 29,77 metros. Em 2012, foi atingida a marca de 29,97 metros e, em 2021, a cheia chegou à cota de 30,02 metros. A chamada cota de emergência no Porto de Manaus é de 29 metros. 

Chama a atenção também o número de cheias extremas que alcançaram ou ultrapassaram a cota de segurança nos últimos anos. Foram 7 cheias extremas em 12 anos: 2012, 2013, 2014, 2015, 2017, 2019 e 2021. Os especialistas chamam esse fenômeno de intensificação do ciclo hidrológico e afirmam que houve um aumento da sua amplitude anual em cerca de 1,5 metro. 

De acordo com informações da Defesa Civil do Amazonas, a cheia dessa temporada já atingiu 24 municípios no Estado e milhares de famílias ribeirinhas estão isoladas e sofrendo com a falta de alimentos. Esses municípios já declararam situação de emergência. 

De acordo com informações do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 65% da população amazonense está preocupada justamente com a falta de alimentos. Outra fonte de preocupação é com a perda da renda familiar. 

Além da produção de legumes e verduras, produtos que são vendidos nas feiras livres e mercados das cidades, muitos ribeirinhos se dedicam a produção de farinha de mandioca, um dos alimentos mais importantes da culinária amazônica. Com a cheia dos rios, tanto os roçados de mandioca quanto os fornos ficam debaixo d`água, o que paralisa a produção por um longo período. 

De acordo com o Serviço Geológico do Brasil da CPRM – Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais, estatal vinculada ao Ministério das Minas e Energia, o ciclo atual de cheia deverá se estender até o mês de junho. Diversos municípios de toda a Região Amazônica estão apreensivos quanto ao futuro próximo. 

À primeira vista, a exuberância da Floresta Amazônica passa uma ideia de fartura para quem vem de fora. Durante o Ciclo da Borracha, que teve início em meados do século XIX, milhares de imigrantes recrutados nos sertões do Semiárido Nordestino ficaram impressionados com a grande floresta. Muitos deles estavam fugindo da Grande Seca de 1877, onde morreram entre 400 mil e 500 mil sertanejos. 

Esses migrantes precisaram de muito pouco tempo para entender as dificuldades para sobreviver na Floresta Amazônica. Os atuais ribeirinhos que vivem nas margens dos rios da região descendem desses sertanejos, que se mesclaram com populações de origem indígena. 

Segundo o IBF – Instituto Brasileiro de Florestas, o Bioma Amazônico ocupa uma área com aproximadamente 4,2 milhões de km², que corresponde a cerca de 40% do território brasileiro, sendo constituída principalmente por uma floresta tropical cortada pelos rios da Bacia Amazônica. Esse bioma se estende pelos territórios do Acre, Amapá, Amazonas, Pará e Roraima, e parte do território do Maranhão, Mato Grosso, Rondônia e Tocantins. 

Além dessa definição existe também a chamada Amazônia Legal, onde se incluem áreas do Bioma Cerrado nos Estados do Mato Grosso, Tocantins e em parte do Maranhão. Incluindo a Amazônia Legal, a área total da Região Amazônica vai a 5,2 milhões de km² 

De acordo com informações do último censo demográfico feito pelo IBGE no ano 2000, a população da Região Amazônica é de 20,3 milhões de pessoas, sendo que cerca de 69% vive nas áreas urbana e 31% em áreas rurais. Pela facilidade de transportes por via fluvial, grande parte dessa população rural vive próxima das margens dos rios, o que nos dá uma dimensão do tamanho do problema das cheias. 

A situação de toda essa gente só não está pior por que os Governos de Estados e Municípios, além de grupos assistenciais e ONGs – Organizações Não Governamentais, realizam a distribuição de cestas básicas. O Governo Federal também mantém diversos programas de transferência de renda. Isso não resolve, mas ameniza um pouco a situação dramática dessas populações. 

Todos os anos, as queimadas e os “grandes incêndios” na Floresta Amazônica ganham destaque nos meios de comunicação de todo o mundo, com milhões de dedos de defensores da floresta se voltando contra nós brasileiros. Já as grandes cheias dos rios da Bacia Amazônica e suas milhões de vítimas, esses passam completamente despercebidos… 

ESTUDO MOSTRA QUE A REDUÇÃO DO USO DE AEROSSÓIS NA EUROPA E NOS ESTADOS UNIDOS PROVOCOU UM AUMENTO DO NÚMERO DE FURACÕES NO ATLÂNTICO NORTE 

O tema furacões, ciclones e tempestades tropicais é presença constante aqui em nossas postagens. Recentemente, falamos da tempestade tropical Mogi que causou grandes estragos em parte das ilhas do Arquipélago das Filipinas. E como tema transversal falamos do aumento do número desses eventos em várias regiões do mundo como é o caso do Atlântico Norte. 

Um estudo publicado na Revista Science Advances esta semana jogou um pouco mais de lenha nessa discussão: cientistas descobriram que a redução de 50% nos aerossóis usados na América do Norte e na Europa ao longo dos últimos 40 anos provocou um aumento de 33% no número de ciclones tropicais no Atlântico Norte. O problema dos aerossóis está nos gases usados como propelente, cujas moléculas podem causar problemas na atmosfera. Um caso muito famoso foi o dos CFCs.

Relembrando alguns fatos históricos na área ambiental: há muitos anos descobriu que os gases CFC – clorofluorcarbonos, usados em sprays (que é um sistema de aerossol em alta pressão) e sistemas de refrigeração eram os responsáveis pelo surgimento de um grande buraco na camada de ozônio, uma região da alta atmosfera responsável pelo bloqueio do excesso de raios ultravioletas que atingem a superfície do nosso problema. 

Essa descoberta científica provocou uma verdadeira corrida entre os fabricantes de sistemas de ar condicionado, geladeiras e freezers, além de empresas do ramo da cosmética e dos cuidados pessoais que embalavam seus produtos em embalagem do tipo spray na busca de uma alternativa aos gases CFC. Essa campanha obteve grandes êxitos e diversos gases seguros para a camada de ozônio passaram a ser utilizados em muitos países. 

De acordo com os cientistas responsáveis pelo estudo recém divulgado, as partículas dos gases que eram usados nos antigos aerossóis refletiam a luz solar de volta ao espaço, evitando que essa energia aquecesse a superfície dos oceanos. O dióxido de carbono e o metano, gases que também existem em grande quantidade na atmosfera, ao contrário absorvem a luz solar e levam ao aquecimento. 

Foi observado que, conforme as diferentes leis para eliminação dos gases “nocivos” dos aerossóis foram sendo implementadas em todo o mundo, os oceanos passaram a absorver quantidades cada vez maiores do calor vindo dos raios solares. E é justamente essa energia que alimenta as tempestades que se formam sobre os oceanos. 

Um outro lado desse estudo, que mostra como os nossos conhecimentos sobre a complexidade do clima de nosso planeta ainda são incipientes, mostrou que nesse mesmo período houve um aumento de 40% na poluição do ar por aerossóis na Índia e na China. Ao contrário do que ocorreu no Atlântico Norte, essa poluição provocou uma diminuição de 14% no número de ciclones tropicais no Oeste do Oceano Pacífico. 

China e Índia vem experimentando um fabuloso crescimento econômico nas últimas décadas, fenômeno que resultou na inserção centenas de milhões de habitantes desses países no mercado consumidor. Coisas comezinhas para nós ocidentais como uso de desodorantes, sprays para cabelo ou simplesmente perfumes, passaram a fazer parte da rotina dessas pessoas. 

Com legislações ambientais muito mais frouxas que no Ocidente, esses países fizeram “vista grossa” para o uso de gases nocivos em seus aerossóis. Lembro também que o desenvolvimento econômico nesses países se apoia grandemente no uso de combustíveis fósseis como o carvão, o que resultou na emissão de enormes quantidades de gases de efeito estufa nas últimas décadas. 

Um dos cientistas envolvidos no estudo fez uma analogia interessante: reduzir a poluição do ar a partir da redução do uso de aerossóis é como parar de fumar. Isso vai se refletir diretamente numa melhora da saúde e em uma redução dos riscos de câncer. Por outro lado, parar de fumar tem seus efeitos colaterais como o ganho de peso e o aumento dos níveis de estresse. 

Segundo Jim Kossin, especialista sênior em furacões do Climate Service dos Estados Unidos, esse novo estudo é importante para ajudar a distinguir os problemas que são causados pela poluição do ar e aqueles ligados ao aquecimento global e gases de efeito estufa. 

Segundo ele, os ciclones tropicais são “animais aleatórios que respondem à natureza aleatória da atmosfera a qualquer momento”. E completa: o aquecimento constante das águas do Atlântico Norte está sendo causada por uma combinação do aumento dos gases de efeito estufa e pela diminuição das partículas dos gases dos aerossóis. E o efeito disso tudo vem vendo um aumento dramático dos furacões. 

Cientistas climáticos que não estão ligados a esse estudo, é claro, olham esses resultados com cautela. Segundo muitos deles, que foram ouvidos por jornalistas, as novas descobertas se juntam a outros estudos já concluídos e contribuem para um melhor conhecimento da crise climática global. 

De acordo com o Professor Gabriel Vecchi, da Universidade de Princeton, “os aerossóis estão entre os elementos mais incertos do sistema climático, então acho que deveria – e prevejo que haverá – estudos de acompanhamento que explorem a sensibilidade dos resultados a uma série de incertezas relacionadas aos aerossóis”. 

Muita água ainda deverá rolar por baixo dessa ponte, relembrando um antigo ditado, até que os cientistas consigam entender com alguma razoabilidade o clima de nosso planeta e também os impactos causados pelas ações de nós, seres humanos. 

Destaco, entretanto, que não deixa de ser interessante imaginar o quanto um inocente desodorante em spray ou um inseticida doméstico pode ser danoso para o clima de nosso planeta. 

A CRISE NA GERAÇÃO FOTOVOLTAICA DA ESPANHA 

Durante o governo do General João Baptista de Oliveira Figueiredo, que foi o último presidente do Regime Militar e que governou o Brasil entre 1979 e 1985, foi criado um grande programa de incentivo a agricultura. Muitos analistas entendem que, apesar dos problemas que surgiram, esse foi o marco inicial do poderoso agronegócio brasileiro dos dias atuais. 

O slogan desse programa, muito populista, diga-se de passagem, era “Plante que o João Garante”. Muitos comediantes há época utilizaram o slogan como bordão de seus quadros. Lembro inclusive de um quadro apresentado por Jô Soares – o Doutor Sardinha, que ironizava o então Ministro da Agricultura Delfin Netto. 

Notícias recentes sobre a situação dos produtores de energia fotovoltaica na Espanha fazem lembrar muito o slogan do Presidente Figueiredo. Durante anos, o Governo espanhol fez valer a política “instale placas solares em sua propriedade que o Governo garante a compra da energia”. Muita gente caiu nessa conversa e agora está levando enormes prejuízos. 

A raiz do problema está ligada aos expressivos aumentos no custo do gás natural usado para a geração de energia elétrica na Espanha. Conforme apresentamos em postagens aqui no blog, a pandemia da Covid-19 provocou um esfriamento da economia global a partir de 2020, o que levou a uma redução na produção de combustíveis como o petróleo, o carvão e o gás natural.  

Com a reativação de muitos setores econômicos a partir de 2021, faltou combustível no mercado e os preços subiram muito. Em muitos países da Europa o preço do gás natural mais que dobrou, o que se refletiu em violentos aumentos nos preços da energia elétrica e do gás usado na calefação das residências e nas indústrias. 

Na Espanha, entre outras medidas para combater a crise energética e compensar o aumento do custo do gás, o Governo optou por retirar subsídios que estavam sendo concedidos para os produtores de energia fotovoltaica. Muito pior: foram impostos encargos entre 40 e 80 Euros/MWh. Um parque eólico com receitas fixas de 35 Euros/MWh, citando um exemplo, passou a perder dinheiro

Na onda da economia verde, fenômeno que contaminou a maioria dos países da Europa Ocidental, a Espanha vinha investindo pesadamente na descarbonização e no incentivo a fontes energéticas alternativas como a eólica e a fotovoltaica. O Plano Nacional Integrado de Energia e Clima 2021-2030 previa um crescimento expressivo dessas fontes de energia renováveis.  

Entre as metas se previa aumentar a produção de energia eólica de 28 MW instalados para 50 MW em 2030. No caso da energia fotovoltaica, a meta era passar de 9 MW para 39 MW no mesmo período. As metas também incluíam a eliminação total da geração de energia elétrica em centrais movidas a carvão até 2030. 

O Governo da Espanha vinha incentivando a produção de energia fotovoltaica já há vários anos, especialmente as plantas “domésticas” instaladas em pequenas propriedades e telhados de residências. Milhares de pequenos produtores gastaram todas as suas economias instalando placas fotovoltaicas e redes de distribuição confiando na promessa que o Governo compraria essa produção. 

Essa história começou em 2004, quando o Governo da Espanha eliminou as barreiras que dificultavam a conexão de fontes de energia renovável ao sistema elétrico do país. Um decreto nesse mesmo ano igualou as condições de competição para usinas solares térmicas e fotovoltaicas de grande escala, garantindo também as tarifas de alimentação. 

No início de 2007 foi inaugurada a primeira usina de energia solar concentrada da Europa na cidade de Sevilha (vide foto). Essa usina produz energia a partir de 624 espelhos (helióstatos), que refletem os raios do sol para uma torre de 115 metros de altura dotada de um receptor solar e de uma turbina a vapor onde é gerada a eletricidade. 

Em 2008, a Espanha adicionou 2,6 GW de energia solar fotovoltaica ao sistema elétrico do país, número que chegou a 3,5 GW no ano seguinte. Nesse mesmo ano, o país ultrapassou a produção de energia fotovoltaica do Japão e dos Estados Unidos, ficando atrás apenas da Alemanha e respondendo por cerca de ¼ de toda essa energia produzida no mundo. 

Ainda em 2008, o Governo estabeleceu como meta atingir a marca de 12% de toda a sua produção de energia a partir de fontes fotovoltaicas até o ano de 2012, esperando atingir 10 GW de geração nessa fonte até o ano de 2020. 

Um exemplo dos impactos criados pela energia solar na Espanha é a cidade de Puertollano, que durante muitos anos foi uma importante sede da mineração de carvão no país. A partir de 2010, a cidade passou a receber generosos subsídios do Governo para implantar sistemas de geração fotovoltaica. A cidade, inclusive, adotou como slogan “O Sol nos move”. 

Duas grandes usinas fotovoltaicas foram instaladas na cidade, além de fábricas de painéis solares e institutos de pesquisas na área de energia limpa. Fazendeiros passaram a vender ou arrendar suas terras para investidores em energia solar. A cidade também passou a atrair inúmeros migrantes que buscavam novas alternativas de vida e de trabalho. 

Esse mesmo quadro se refletiu em uma infinidade de pequenas cidades por todo o país. Segundo dados da UNEF – Associação Fotovoltaica Espanhola, na sigla em espanhol, o país implantou 3,4 GW de energia solar em 2020, sendo que 596 MW desse total foram instalados no telhado de residências. Isto mostra como os estímulos governamentais foram importantes para os pequenos empreendedores. 

A crise energética na Europa, que começou com a pandemia da Covid-19, ganhou proporções ainda mais dramáticas após o início do conflito entre a Rússia e a Ucrânia. Lembramos aqui que parte importante do gás consumido na Europa vem da Rússia. Essa nova crise deu algum alento para o setor da energia solar na Espanha, mas os problemas estruturais ainda estão longe de uma solução. 

Apesar da energia solar ser gratuita, como vivem repetindo muitos ambientalistas, sua captação através de painéis solares e transformação em energia elétrica tem um alto custo. É preciso pagar pelos painéis solares e toda a infraestrutura de apoio, instalar redes de transmissão de energia elétrica, pagar pelos funcionários e também pela manutenção dos equipamentos. 

Sem um sistema que garanta o retorno financeiro adequado aos empreendedores e empresas que exploram esse tipo de energia – especialmente os pequenos, o sistema entra em colapso. É exatamente isso o que a Espanha deixou de fazer – além de retirar os subsídios, o país passou a cobrar taxas adicionais dos produtores, tanto dos pequenos quanto das grandes empresas. 

E uma boa ideia – a geração de energia limpa, está caminhando a passos largos para o desastre. Lamentável… 

A MORTE DE 130 TONELADAS DE PEIXES NO LAGO DE FURNAS 

O Lago de Furnas, carinhosamente conhecido como o “Mar de Minas”, é notícia frequente aqui nas páginas do nosso blog. Recentemente, falamos sobre a surpreendente recuperação do nível do corpo d`água após uma fase prolongada de seca. 

A notícia da vez, infelizmente, não é das melhores: milhares de peixes – principalmente tilápias, criadas em cativeiros no Lago apareceram mortos na região de Alfenas. De acordo com os criadores, as perdas foram da ordem de 130 toneladas. A Polícia Militar Ambiental está investigando o caso. Amostras da água e dos animais mortos foram enviados para análise em laboratórios e os laudos deverão sair em 20 dias. 

De acordo com informações de alguns criadores, peixes da ictiofauna nativa também foram afetados. Segundo os relatos, os peixes primeiro agonizaram como se estivessem tendo dificuldades para respirar, começando a morrer em seguida. 

A situação de um dos produtores nos dá uma ideia do tamanho da tragédia – cerca de 100 mil peixes dos seus tanques morreram. Os animais estavam na fase final da engorda e seriam enviados para a venda dentro de 15 dias. O prejuízo do piscicultor deverá superar a cifra de R$ 1 milhão. 

De acordo com dados do ONS – Operador Nacional do Sistema Elétrico, do dia 9 de maio, o nível do Lago de Furnas está próximo de 86% de sua capacidade máxima. No final de setembro de 2021, conforme publicamos em postagem aqui no blog, o nível do reservatório estava em parcos 14% do seu volume útil. 

Naquele momento toda a Região Central do Brasil atravessava uma fortíssima estiagem, com importantes reservatórios de usinas hidrelétricas apresentando baixíssimos níveis. O Governo Federal chegou a anunciar que existiam riscos para o fornecimento de energia elétrica no país e que um racionamento não estava sendo descartado. 

Felizmente, a temporada das chuvas de verão foi acima da média e os níveis dos principais reservatórios de usinas hidrelétricas entraram num processo de forte recuperação, afastando o risco de racionamento de energia elétrica. Recentemente, foi anunciado o fim da Bandeira Vermelha nas contas de energia elétrica, o que vai significar uma redução nos custos para muita gente. As coisas pareciam estar voltando à normalidade em Furnas.

O aproveitamento energético em larga escala das águas do rio Grande começou no início da década de 1950, período em que o Brasil experimentava um forte ciclo de desenvolvimento industrial, especialmente após a instalação das empresas do setor automobilístico. A forte demanda por energia elétrica, que ameaçava levar o país a um colapso energético, resultou na construção da Usina Hidrelétrica de Furnas, uma das maiores da América Latina na época. 

Até o início da década de 1950, o setor elétrico era controlado por inúmeras empresas estrangeiras como a Light & Power Company, que detinha concessões nos Estados de São Paulo e no Rio de Janeiro. Durante os anos do Governo Juscelino Kubitschek (1956-1961), cujo slogan era “50 anos em 5”, o Governo Federal criou diversas empresas públicas para atuar no setor elétrico e o país iniciou uma fase de grandes investimentos na produção de energia elétrica.  

Entre estas empresas, destaca-se a Central Hidrelétrica Furnas, que foi criada em 1957, com o claro objetivo de estimular o desenvolvimento do Estado de Minas Gerais, terra natal do Presidente. Também é importante destacar que nessa mesma época começou a construção de Brasília, cidade que seria transformada na nova Capital Federal do país, e já se projetava um aumento do consumo de eletricidade na Região Centro-Oeste. 

A construção de uma usina hidrelétrica com um lago com área superior a 1.400 km2 é sempre problemática e o caso de Furnas não foi uma exceção. De acordo com as estimativas dos projetistas, cerca de 35 mil pessoas precisariam ser removidas das áreas que seriam alagadas pela represa e isso causou uma enorme convulsão social. O início do enchimento do lago estava previsto para 1961. 

As áreas sujeitas a alagamento envolviam tanto trechos urbanos de cidades e vilas quanto propriedades rurais. Muita gente resistiu até o último momento, se recusando a abandonar suas casas e terras. Existem muitas fotos de época que mostram moradores nos telhados de casas cercadas pelas águas do reservatório. O Governo Federal precisou convocar as Forças Armadas para ajudar na remoção dessas pessoas inconformadas com a obra. 

O primeiro grupo gerador da hidrelétrica de Furnas entrou em operação em 1963. A inauguração oficial da usina ocorreu em maio de 1965, já no Governo Castelo Branco, o primeiro presidente do ciclo de Governos Militares, que dirigiu o país entre 1964 e 1985. Nessa época, a Usina Hidrelétrica de Furnas já operava com 6 grupos geradores. No início da década de 1970, foram instalados os dois últimos grupos geradores dos 8 previstos no projeto, levando a potência total para 1.216 MW.   

Apesar dos problemas iniciais e da desconfiança da população das cidades do entorno, o surgimento de um grande lago acabou afetando positivamente toda a região. O lago de Furnas passou a ocupar uma área mais de três vezes maior que a Baía da Guanabara, com um perímetro superior a 3 mil km. O indesejado lago conquistou os corações dos locais e foi se transformando no “Mar de Minas”, uma das mais disputadas atrações turísticas do Estado. 

Sem contar com uma fachada oceânica, Minas Gerais ganhou um grande corpo de águas tranquilas para o banho, prática de esportes, pesca e navegação. Como se tudo isso ainda fosse pouco, as margens do lago apresentam inúmeros canyons, grutas e cachoeiras. O turismo se transformou numa das principais atividades econômicas da região.  

O lago também passou a representar uma oportunidade excelente para a prática da piscicultura, especialmente a criação de tilápias em tanques flutuantes. Apesar de promissora, a atividade passou a sofrer com as grandes oscilações do nível do lago devido a fortes períodos de estiagem nos últimos anos. 

Após a mais recente e catastrófica seca no lago, os produtores estavam animados com a perspectiva de uma boa “safra” de peixes nessa temporada. A grande mortandade de peixes nos últimos dias frustrou todas as expectativas e os grandes prejuízos decorrentes do evento estão tirando o sono de muitos produtores. 

Vamos aguardar o resultado dos laudos para podermos entender exatamente o que aconteceu. O mínimo que podemos falar desse evento é que ele é muito estranho, especialmente num momento em que o Lago de Furnas estava bem cheio.