Posts de ferdinandodesousa

Escritor, jornalista, gestor e educador ambiental. Especialista em projetos de comunicação social e de educação ambiental.

A SECA E OS INCÊNDIOS EM MATAS NO PIAUÍ 

De acordo com informações do INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o Estado do Piauí apresentou o maior número de focos de incêndios acumulados de todos o país neste mês de setembro. Foram 2.459 focos entre o dia 1º e o dia 14.  

Na sequência estão os Estados de Minas Gerais, com 2.430 focos, Acre, com 2.278 focos, Mato Grosso com 1.956 e a Bahia com 1.935 focos. O leitor mais atentado deve ter percebido que, à exceção do Acre, todos os demais Estados possuem parcelas importantes de seus territórios cobertas por vegetação do bioma Cerrado. Na Bahia, no Piauí e no Norte de Minas Gerais se encontram também áreas com vegetação da Caatinga Nordestina

Como imagino ser do conhecimento de todos, o clima do Cerrado é marcado por duas temporadas bem distintas: um período de fortes chuvas de inverno e outro de seca no verão. A vegetação típica do bioma é caracterizada pela presença de grandes raízes, uma adaptação evolutiva que permite que as plantas captem água em reservas subterrâneas profundas. 

Em áreas da Caatinga existe uma predominância de cactáceas, um tipo de vegetação típica de climas semiáridos, além de diversas espécies de árvores altamente adaptadas para enfrentar longos períodos de seca. Tanto o Cerrado como a Caatinga são biomas susceptíveis a grandes incêndios nessa época do ano. 

No Piauí, esse verão está sendo caracterizado por temperaturas acima dos 40º C e por baixíssimos índices de umidade relativa do ar. De acordo com informações do INMET – Instituto Nacional de Meteorologia, três cidades do Estado apresentaram os menores índices de umidade relativa do ar do país no último dia 12: Bom Jesus – 10%, Canto do Buriti – 11% e São Raimundo Nonato – 13%. 

Essa combinação de tempo seco e muito quente, é claro, favorece o surgimento e a propagação de grandes incêndios em matas, a exemplo do que vem ocorrendo em São Raimundo Nonato desde o último dia 7 de setembro. Os primeiros focos de incêndios foram registrados na região da Serra dos Gringos, atingindo casas no assentamento Novo Zabelê e a rodovia PI-140, chegando depois no bairro Baixão dos Diógenos na área urbana da cidade. 

Uma das grandes preocupações do efetivo de combate aos focos de incêndio foi evitar que as chamas atingissem o Parque Nacional da Serra da Capivara, unidade de conservação que concentra a maior quantidade de sítios arqueológicos pré-históricos das Américas. De acordo com o Corpo de Bombeiros, mais de 100 pessoas, entre bombeiros, funcionários do Instituto Chico Mendes e da prefeitura local, foram mobilizados nesse trabalho. 

Uma atitude de cidadania que merece ser destacada partiu do humorista Whindersson Nunes, que é piauiense e que, com recursos próprios, contratou um avião bombeiro para ajudar no combate aos incêndios da região. A aeronave começou a operar no dia 12 e se juntou a um helicóptero da Polícia Militar do Piauí que já operava no local desde o dia 11. 

Também é preciso citar uma questão desagradável: propagandas oficiais do Governo do Piauí, mostrando seus esforços para combater os incêndios nas matas, incluíram “acidentalmente” imagens desse avião em operação. Qualquer espectador mais desatento poderia entender que foi o Governo que pagou pelos serviços do avião bombeiro. Políticos não conseguem esconder sua natureza! 

Outra região do Estado que está assistindo a um grande incêndio é o Parque Nacional da Serra das Confusões, já dentro dos limites da Caatinga Nordestina. Essa, aliás, é a maior área de preservação desse bioma com mais de 1 milhão de hectares destinados à proteção da flora e da fauna da Caatinga.  

Serra das Confusões se estende pelos municípios de Jurema, Tamboril do Piauí, Canto do Buriti, Alvorada do Gurguéia, Cristino Castro, Bom Jesus e Guaribas. O parque foi criado em 1998 com o objetivo de preservar vestígios de ocupação humana com mais de 8 mil anos. Nessa área também foram encontrados diversos fósseis da antiga megafauna pré-histórica. 

Segundo a direção do Parque, o incêndio começou numa região próxima no dia 31 de agosto, e atingiu a Serra das Confusões por volta do dia 9 deste mês. O Parque conta com 44 brigadistas contratados para atuar no combate aos incêndios nesse período de seca. Além desse efetivo, o combate aos incêndios conta com o trabalho de voluntários, equipes do PREVFOGO – Centro Nacional de Prevenção aos Incêndios Florestais.

De acordo com as últimas informações divulgadas, equipes de brigadistas ainda trabalham para controlar dois focos de incêndios em áreas isoladas e de difícil acesso na região conhecida como Assentamento Estação. Com o tempo seco e quente, esses focos podem se alastrar e atingir outras áreas de vegetação nativa. 

Ministério Público do Piauí recomendou que a Prefeitura de São Raimundo Nonato crie uma brigada municipal permanente de combate aos incêndios em matas, entre outras medidas de prevenção. Os incêndios em matas locais são frequentes e é preciso uma melhor estrutura para um controle mais efetivo dessas situações. 

Outra preocupação do Ministério Público são as chamadas “queimadas controladas”, também conhecidas como coivaras. Os pequenos agricultores ateiam fogo em uma área que está sendo preparada para cultivos agrícolas. Em situações de tempo quente e de vegetação extremamente seca, os riscos dessas queimadas fugirem ao controle são muito grandes. Muito provavelmente, essa foi a origem dos incêndios que atingem a região neste momento. 

Outra recomendação importante diz respeito a suspensão temporária de todas os pedidos de autorização de queimadas controladas até que as condições climáticas melhorem. Também foi solicitada a publicação de uma lei municipal onde se estabeleça pesadas multas para aqueles que infringirem as regras relativas as queimadas controladas. 

Assim como ocorreu em grande parte do Brasil Central, o Piauí teve chuvas abaixo da média nos últimos meses, uma situação que se refletiu em uma vegetação do Cerrado e da Caatinga extremamente secas e facilmente susceptíveis a grandes queimadas. As altas temperaturas e a baixa umidade relativa do ar também dão uma enorme contribuição para transformar grandes áreas do Estado em verdadeiros “palheiros a espero de uma faísca”. 

A chegada da temporada de chuvas, que no Piauí se estende entre os meses de dezembro e maio, é aguardada com enorme esperança pela população. Além de ajudar a controlar as queimadas na vegetação, essas águas são fundamentais para recarregar os aquíferos e encher os rios e riachos usados no abastecimento de populações humanas e animais nesses sertões. 

E, pela ordem de prioridade, se sobrar alguma água, que essa vá para os reservatórios de alguma usina hidrelétrica e que ajude na superação da grande crise energética que se avizinha. 

RESERVATÓRIO DA USINA HIDRELÉTRICA DE ILHA SOLTEIRA PRÓXIMA DO NÍVEL MÍNIMO DE OPERAÇÃO

O inverno na Região Centro Sul do Brasil termina em meados da próxima semana e o tempo já começa a apresentar mudanças significativas. Ontem, dia 16 de setembro, uma chuva mais forte caiu aqui na cidade de São Paulo, amenizando o tempo quente e seco que predominava. A primavera é sempre uma esperança do renascimento da vida. 

As chuvas voltam timidamente num momento crítico para uma grande área do Brasil Central onde se convive com a maior seca dos últimos 91 anos. A bacia hidrográfica do alto Rio Paraná, a mais fortemente atingida pela estiagem, se apresenta com rios e reservatórios de usinas hidrelétricas com pouca água. 

Um grande exemplo de como estão as coisas por lá pode ser visto no reservatório da Usina Hidrelétrica de Ilha Solteira, uma das maiores unidades geradoras de energia da Região Sudeste: o nível se aproxima perigosamente do “volume zero”. De acordo com a operadora da hidrelétrica, a cota do reservatório atingiu o nível de 322 metros no dia 15 de setembro – o nível mínimo para operação é 314 metros

Usina Hidrelétrica de Ilha Solteira é a terceira maior do Brasil, com uma potência instalada de 3.444 MW. Localizada no rio Paraná entre os Estados de São Paulo e Mato Grosso do Sul, a hidrelétrica tem uma barragem com 5,6 mil metros de extensão, formando um reservatório com quase 2 mil m², o que nos dá uma ideia dos impactos sócio ambientais provocados. A usina hidrelétrica foi concluída em 1978 e possui um total de 20 grupos geradores. 

As usinas de Ilha Solteira e Jupiá, no rio Paraná, e Três Irmãos, no rio Tiete, formam o Complexo Hidrelétrico Urubupungá, que possui uma capacidade total instalada de 4,995 MW e é vital para o fornecimento de energia elétrica para o Estado de São Paulo. O iminente “desligamento” da maior geradora desse Complexo trará sérias consequências para o abastecimento de uma enorme população na região. 

A Usina Hidrelétrica de Ilha Solteira é uma das heranças dos tempos do Regime Militar que governou o Brasil entre os anos de 1964 e 1985. Esse foi um período de obras de infraestrutura grandiosas que visavam garantir um “grande salto” no desenvolvimento do país. Essas obras eram gestadas em gabinetes governamentais sem qualquer participação da população. Ao final da fase do planejamento, uma autoridade “estrelada” simplesmente apontava o dedo para um mapa e ordenava que se construísse uma rodovia ou uma hidrelétrica ali. 

Aqui é importante lembrar que antes da publicação da Resolução Conama 001, em 23 de janeiro de 1986, que estipulou os critérios básicos e as diretrizes gerais para a avaliação de impactos ao meio ambiente, obras de grande porte como uma usina hidrelétrica eram feitas na “marra” e sem direito de reclamação por populações que eventualmente tivessem de ser deslocadas de suas casas e terras. Também não existiam maiores preocupações com a fauna, flora e dinâmica das águas. 

Um dos impactos ambientais mais visíveis da formação de grandes barragens no rio Paraná foi a alteração do ciclo de cheias. Em condições naturais, o nível do rio oscilava entre as grandes cheias do período das chuvas e o período de vazante no período da seca, quando o nível das águas baixa fortemente. Todo o meio ambiente, incluindo populações humanas, vida animal e vegetal, se adaptaram a esses ciclos de cheias e vazantes do rio. As barragens alteraram dramaticamente esses ciclos e os fluxos de águas nos rios passaram a ficar vinculados ao volume de produção de energia elétrica nas usinas.  

O lago formado pela barragem da Usina de Ilha Solteira alagou uma área equivalente a duas vezes o tamanho do município de São Paulo, avançando sobre propriedades rurais e áreas de matas, que foram suprimidas antes do enchimento do lago. Entre as áreas de vegetação nativa que existiam na região, encontravam-se áreas alagáveis, importantes habitats da vida animal e vegetal, que tinham características de flora e fauna bastantes similares ao Pantanal Mato-grossense.  

Essas áreas desapareceram para sempre sem que maiores estudos científicos fossem realizados. Muito do que sabemos sobre esses ecossistemas vem de estudos que foram feitos posteriormente na região onde se formou o lago da Usina Hidrelétrica de Porto Primavera, construída entre os anos de 1980 e 2003. Essa região, que também acabou inundada, era conhecida como Mini Pantanal do rio Paraná.  

Entre as muitas “heranças” deixadas pela construção destas grandes usinas hidrelétricas temos a cidade de Ilha Solteira, que surgiu em 1968 para servir como alojamento dos trabalhadores da obra. A cidade, que atualmente conta com 26 mil habitantes, foi totalmente planejada, contando com uma boa infraestrutura urbana como iluminação pública, redes de água e esgoto.  

Além de abrigar os trabalhadores e funcionários da obra, a cidade recebeu um grande número de deslocados das áreas alagadas pelo reservatório da usina. Grande parte da arrecadação fiscal do município, que se emancipou de Pereira Barreto em 1991, vem dos impostos pagos pela Usina Hidrelétrica de Ilha Solteira.  

Um outro caso emblemático é a cidade de Rubineia, que foi totalmente inundada pelo reservatório de Ilha Solteira, e teve de ser reconstruída em outro local. A pequena cidade conta atualmente com menos de 3 mil habitantes – estima-se que cerca de 10 mil habitantes do município foram deslocados de suas terras por causa das obras da usina hidrelétrica. 

Enquanto a Usina Hidrelétrica de Ilha Solteira ou outra grande unidade geradora opera normalmente e grandes volumes de energia elétrica que são usados no abastecimento da população, todos os “pequenos pecados” cometidos ao longo de sua construção são esquecidos e perdoados. É num momento caótico de seca intensa, quando ficamos sem a geração da eletricidade, que nos damos conta de todos os danos infringidos ao meio ambiente e a um sem número de famílias que foram deslocadas de suas casas e terras. 

É nossas horas que paramos para pensar em tudo e nos questionamos se todas essas perdas valeram realmente a pena… 

O MERCÚRIO E OS PEIXES DA BACIA AMAZÔNICA 

Alguns Estados brasileiros estão enfrentando um surto da Doença de Haff, conhecida popularmente como “doença da urina preta”. Conforme comentamos em uma postagem anterior, os médicos e os pesquisadores ainda não têm certeza da origem dessa doença – pode ser uma toxina liberada na água, um vírus ou até mesmo uma bactéria. 

As populações que vivem na Bacia Amazônica, tanto no território brasileiro quanto nos países vizinhos, principalmente as mais pobres, são ávidas consumidoras de peixes e de alguns tipos de crustáceos capturados nas águas dos inúmeros rios da região. Qualquer tipo de contaminação nesses animais pode afetar uma quantidade enorme de pessoas. 

Um problema que vem tomando conta das águas de muitos rios da Bacia Amazônica é o mercúrio, um metal pesado muito usado em garimpos ilegais para separar o ouro das impurezas. Já tratamos disso em postagens anteriores. O consumo de peixes e crustáceos contaminados com mercúrio pode provocar danos graves no sistema nervoso central, normalmente irreversíveis, que comprometem os sistemas sensoriais e motores. 

Todos os anos, milhares de garimpeiros e aventureiros dos mais diferentes recantos do país seguem para os confins da Floresta Amazônica para tentar a sorte na mineração do ouro. Se valendo da grandiosidade da floresta e da fiscalização precária dos órgãos responsáveis, margens de rios, florestas nacionais, áreas de preservação e também terras indígenas são invadidas sem a menor cerimonia. 

O ouro de aluvião encontrado no fundo e nas margens dos rios é o “objeto do desejo” dessas pessoas. Dragas são instaladas nas águas, margens tem a vegetação devastada e milhares de toneladas de terra e sedimentos são revirados sem quaisquer preocupações com os graves estragos ao meio ambiente. 

Uma das etapas mais críticas dessa atividade é a separação do ouro. O metal quase sempre é encontrado misturado com sedimentos ou outros minerais e é aqui que entra em cena o mercúrio, um metal em estado líquido a temperatura ambiente e altamente tóxico.  

Aquecido pela chama de um maçarico, o mercúrio se liga aos fragmentos de ouro formando uma amálgama. Essa amálgama depois volta a ser aquecida, momento em que o mercúrio evapora e resta apenas o ouro. A primeira vítima desse processo é próprio garimpeiro, que acaba inalando parte do vapor do mercúrio. 

Conforme esse vapor vai esfriando, micro gotículas de mercúrio vão caindo sobre os solos e águas do entorno do garimpo. De acordo com os estudos mais recentes, para cada 1 kg de ouro extraído nos garimpos, cerca de 1,32 kg de mercúrio é usado. Estimativas indicam que, nos últimos anos, a produção anual de ouro no Brasil tem se situado entre 80 e 100 toneladas, o que implica num consumo total de mercúrio entre 100 e 260 toneladas

O ciclo de contaminação do mercúrio se dá em cadeia e começa com sua absorção por micro algas, insetos, vermes e pequenos moluscos, que formam as comunidades bênticas ou bentônicas dos corpos d’água. Essas criaturas formam a base da cadeia alimentar e sustentam peixes, crustáceos, anfíbios e répteis menores, que por sua vez serão predados por espécies maiores.  

O mercúrio acompanha todo o ciclo da cadeia alimentar, passando de um organismo para outro, se acumulando em quantidades cada vez maiores ao longo do tempo. O mercúrio presente no organismo de peixes fatalmente contaminará qualquer ser humano que consuma suas carnes. Esse é um problema que vem crescendo na Amazônia. 

Um estudo realizado no Estado do Amapá e divulgado no final de 2020, nos dá uma clara ideia do nível de contaminação dos peixes por mercúrio – todos os peixes analisados apresentaram níveis detectáveis de mercúrio e 28,7% das amostras excederam o nível máximo recomendado pela OMS – Organização Mundial da Saúde. As espécies de peixes com os maiores níveis de contaminação são carnívoros de topo da cadeia alimentar, incluindo o pirarucu, o tucunaré e o trairão, algumas das espécies mais consumidas pelos moradores da Amazônia. 

Esse estudo foi realizado por pesquisadores da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca da Fundação Oswaldo Cruz, do IEPA – Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Amapá, do WWF-Brasil e Iepé – Instituto de Pesquisa e Formação Indígena. O estudo foi publicado na Revista Internacional de Pesquisa Ambiental e Saúde Pública. 

As reservas de ouro na Região Amazônica são estimadas em, pelo menos, 25 mil toneladas, o que equivale a cerca de US$ 300 bilhões. Num dos anos em que a produção de ouro na região bateu recorde – 1988, se alcançou a impressionante cifra de 216 toneladas e os ganhos foram de US$ 3 bilhões, valor equivalente a 3 vezes os ganhos com a exploração de minério de ferro em Carajás.  

Com toda essa verdadeira fortuna espalhada pelos rios e terras de toda a Amazônia, é de se esperar um número cada vez maior de garimpeiros, legais e ilegais, se aventurando na região e liberando quantidades cada vez maiores de mercúrio no meio ambiente. A contaminação das águas e dos peixes, desgraçadamente, continuará aumentando cada vez mais. 

Na Amazônia brasileira vivem cerca de 28 milhões de pessoas ou 13% da população do nosso país – isso nos dá uma ideia do tamanho da catástrofe de saúde que assistiremos nos próximos anos. 

CASOS DA “DOENÇA DA URINA PRETA” IDENTIFICADOS EM QUATRO ESTADOS BRASILEIROS 

Na última postagem falamos rapidamente do Nipah, um novo vírus potencialmente letal que vem fazendo vítimas fatais no Sul e Sudeste da Ásia. Diversas espécies de morcegos dessa região são hospedeiros naturais desse vírus sem sofrer qualquer tipo de problemas – quanto seres humanos tem contato com o Nipah, entretanto, as chances de contrair uma doença fatal ficam entre 40 e 79%. 

Além das imensas preocupações relativas à saúde de centenas de milhões de pessoas que vivem nessa extensa região, o vírus Nipah traz à tona uma relevante questão ambiental: a destruição contínua de grandes áreas de floresta tropical tem forcado muitas espécies de animais silvestres – onde se incluem os morcegos, a viverem em locais cada vez mais próximos dos assentamentos humanos. É nessa perigosa “convivência entre vizinhos” que, literalmente, mora o perigo da contaminação. 

Doenças associadas direta ou indiretamente a problemas decorrentes da devastação de áreas florestais tendem a se tornar cada vez mais comuns em nosso mundo. Existem bilhões de tipos diferentes de vírus vivendo em simbiose com plantas e animais silvestres que, em um eventual contato com seres humanos, podem criar verdadeiras pandemias. Um desses casos suspeitos é o Corona, vírus causador da Covid-19. 

A destruição da cobertura vegetal também pode expor veios de minerais pesados como o chumbo, o mercúrio e o cádmio, metais esses que podem ser arrastados na direção de rios e outros corpos d`água. Outra fonte de problemas é a mineração – principalmente do ouro, onde grandes quantidades de mercúrio são usadas para separar o precioso metal das impurezas. 

Um problema de saúde que pode estar associado a esses problemas (ainda não há confirmação científica) é a Doença de Haff, conhecida popularmente como “doença da urina preta”. Quatro Estados brasileiros – Amazonas, Pará, Ceará e Bahia, estão enfrentando surtos da doença nesse momento. Ninguém sabe ao certo se a causa da doença é uma toxina, um vírus ou uma bactéria encontrada em peixes e crustáceos. 

A doença foi descrita pela primeira vez em 1924 em Könisberg Haff, uma região litorânea no Mar Báltico no atual território russo de Kaliningrado. Os médicos passaram a atender pacientes com quadros de rigidez muscular súbita, acompanhados de urina escura. Os casos da doença foram registrados nessa região ao longo dos nove anos seguintes. 

Os médicos observaram que os casos da doença ocorriam principalmente entre o verão e o outono e, segundo foi possível apurar, os pacientes sempre relatavam o consumo de peixes e crustáceos. A hipótese levantada pelos médicos era a da presença de algum contaminante na carne dos animais consumidos. Outros surtos da doença foram descritos posteriormente em outras Repúblicas da então União Soviética, na China e nos Estados Unidos. 

Os primeiros casos registrados no Brasil ocorreram entre os anos de 2008 e 2009. Um dos surtos mais graves da doença ocorreu na Bahia em 2017, quando ao menos 71 pessoas foram diagnosticadas com a doença, sendo que 66 dos casos ocorreram na cidade de Salvador. 

Os relatos mostram que os primeiros sinais da doença aparecem poucas horas depois da ingestão de peixes e crustáceos. Os pacientes não têm febre e apresentam dor muscular nas regiões do trapézio, dos ombros e do pescoço. Muitos doentes reclamam de náuseas, dor no peito, falta de ar, sensação de dormência, tontura e fraqueza. Um dos sintomas mais característicos é a eliminação de uma urina escura, “cor de café”. 

Os estudos científicos já realizados não conseguiram isolar o suposto contaminante (químico ou biológico) que estaria presente na carne dos peixes e dos crustáceos, por isso a dificuldade de se afirmar se há realmente uma origem ambiental no problema. Existem casos de toxinas que surgem nas águas de rios e mares devido a problemas de poluição, contaminação por metais pesados e também pela presença de cianobactérias, muitas vezes associadas a poluição das águas por esgotos.  

Essa contaminação nas águas também pode estimular a proliferação de colônias de bactérias e também de espécies animais e vegetais que hospedam vírus. Esses contaminantes seguem ao longo da cadeia alimentar, afetando algas, insetos, vermes, crustáceos e peixes. Apesar de ainda não ter sido comprovada, essa é uma das principais hipóteses defendidas por muitos pesquisadores. 

Uma outra hipótese sugere que são problemas ligados ao transporte e armazenamentos de peixes e crustáceos entre as áreas de produção e os consumidores. Existem muitas espécies de peixes originários da Bacia Amazônica e de regiões litorâneas do Nordeste que são largamente consumidos em outros Estados do país. Um desses casos é o cachara, um peixe amazônico que é muito consumido como um “genérico” do surubim. 

O surubim já foi o peixe símbolo do rio São Francisco. Devido à degradação do rio, a espécie é cada vez mais rara nas águas e nos restaurantes ribeirinhos. O cachara é muito parecido com o surubim e, já há muitos anos, vem sendo servido em muitas mesas com se fosse um “autentico” peixe desse rio. 

A Doença de Haff provoca a rabdomióse, que é uma destruição progressiva das fibras que formam os músculos esqueléticos, os responsáveis pelas contrações e movimentos. Essa destruição resulta no despejo de células musculares mortas na corrente sanguínea, um problema que muitas vezes acaba gerando insuficiência renal. A mioglobina, um dos elementos formados das células musculares, é uma enzima tóxica para os rins. 

Uma vez confirmado o diagnóstico da Doença de Haff, o que pode ser feito a partir da análise dos sintomas ou de exames laboratoriais, a principal indicação médica é um reforço na hidratação do paciente – quanto maior a concentração de água no organismo mais fácil será a diluição das toxinas e a sua eliminação pelos rins. Em casos mais graves, quando os rins já foram comprometidos, pode ser necessária a hemodiálise. Raramente os pacientes com a “doença da urina preta” morrem. 

O atual surto de Doença de Haff está fortemente concentrado no Estado do Amazonas, onde já foram identificados mais de 60 casos em 10 cidades, com uma vítima fatal. A cidade mais afetada é Itacoatira, localizada a cerca de 270 km de Manaus, com 34 casos relatados. 

Autoridades da Vigilância Sanitária do Estado do Amazonas tem recomendado que a população não consuma peixes até que o surto da doença seja devidamente controlado. Esse tipo de recomendação é muito pouco eficaz na região – pescados são a principal proteína consumida pelas populações das cidades da Amazônia, principalmente as mais pobres. Mesmo assim, muitos comerciantes tem reclamado da redução nas vendas de pescados e crustáceos. 

As dúvidas que cercam a origem da Doença de Haff mostram o quanto ainda temos a aprender com a natureza e também nos lembra da importância da preservação ambiental. Mesmo que algum dia se comprove que a origem do problema é outra, todos sairemos ganhando com um meio ambiente melhor conservado. 

NIPAH: UM NOVO VÍRUS QUE ESTÁ CAUSANDO PREOCUPAÇÕES NO SUL E SUDESTE DA ÁSIA  

No dia 31 de dezembro de 2019, a OMS – Organização Mundial da Saúde, foi “alertada “oficialmente sobre a ocorrência de vários casos de pneumonia na cidade de Wuhan, na China. Segundo o que havia sido apurado há época, tratava-se de uma nova cepa de Corona vírus que ainda não havia sido diagnosticada em seres humanos. Essa nova cepa recebeu o nome de Covid-19. 

A história inicial da pandemia desencadeada por esse novo vírus na China é nebulosa e cheia de mistérios. Mantendo os meios de comunicação sob rígido controle e censura, o Governo chinês escondeu durante muito tempo tanto a extensão quanto a gravidade da doença.  

De acordo com os dados oficiais divulgados pela China, foram pouco mais de 96 mil casos e 4.636 mortes no país. Para efeito de comparação, o Brasil já teve perto de 21 milhões de pessoas infectadas e mais de 587 mil mortos. Não é preciso ser nenhum gênio para perceber que existe alguma coisa muito errada nos números apresentados pelos chineses. 

A origem do vírus é tão nebulosa como a história inicial da doença na China. Alguns estudos parecem apontar na direção de uma contaminação a partir de animais silvestres que seriam os portadores naturais do vírus. Uma das espécies suspeitas é o pangolim, um mamífero da ordem Pholidota que vive em regiões tropicais da Ásia e da África. Existem no total 8 espécies. A carne do pangolim é considerada uma iguaria na China, onde animais capturados vivos nas matas podem ser comprados em mercados populares. 

Outra hipótese levantada sobre a origem do vírus apontaria para algum tipo de acidente em um laboratório de pesquisas. Muitos partidários da “teoria da conspiração” acreditam que os chineses estavam estudando possibilidades de usar o vírus como uma arma biológica. Recentemente, essa hipótese ganhou força entre autoridades norte-americanas, que passaram a estudar essa questão com maior cautela. 

A lembrança da trágica da Covid-19, que há mais de um ano e meio foi declarada como uma pandemia pela OMS, e da possível transmissão do vírus para seres humanos a partir de um contato com um animal silvestre, tem relação com uma notícia preocupante divulgada nos últimos dias: no último dia 5 de setembro, um adolescente no Estado de Kerala, no Sul da Índia, morreu após ser contaminado com o mortal vírus Nipah

Nipah henipavirus é encontrado em diversas espécies de morcegos que vivem em áreas florestais do Subcontinente Indiano, do Sudeste Asiático e também na Austrália. Em 1998, ele foi detectado pela primeira vez em seres humanos na Península Malaia, onde causou a morte de 105 pessoas na região de Kanpung. Nesse surto, porcos foram identificados como os hospedeiros intermediários. 

Em outros casos, identificados em Singapura, Indonésia, Bangladesh e Índia, as vítimas foram contraminadas após consumirem sucos preparados com frutas frescas. A imensa maioria das espécies de morcegos é frutívora, ou seja, se alimentam de frutas e frutos, além do néctar de flores. Se não forem devidamente higienizadas, frutas e frutos contaminados com a saliva dos morcegos colocam as pessoas em contato direto com o vírus. Também há evidencias da transmissão do vírus de uma pessoa para outra. 

Infecções do Nipah podem causar desde síndromes respiratórias agudas a encefalites mortais. A taxa de letalidade no caso de doenças é extremante alta: a cada 100 pessoas infectadas, entre 40 e 79 morrem. Ainda não existem tratamentos específicos ou vacinas para o vírus – somente um tratamento primário com antivirais sem eficácia comprovada. 

De acordo com estudos preliminares da OMS, o período de incubação do vírus, ou seja, desde a infecção até o início dos sintomas da doença, varia de 4 a 14 dias. Existem, entretanto, relatos de períodos de incubação de até 45 dias. Os sintomas iniciais, quando aparecem, lembram muito aos de uma gripe. 

Nipah atinge o sistema nervoso central, causando alterações no nível de consciência, convulsões, febres, dores de cabeça, náuseas e vômitos. Também podem se desenvolver quadros de pneumonia. O adolescente que morreu em Kerala desenvolveu um quadro grave de encefalite (inchaço do cérebro), que infelizmente resultou em sua morte. 

Uma das primeiras providencias adotadas pelas autoridades sanitárias do Estado de Kerala foi rastrear e identificar todas as pessoas que tiveram contato com o adolescente. Ao menos 188 pessoas, entre familiares e vizinhos, foram colocadas em isolamento – cerca de 20 pessoas do grupo são consideradas com alto risco de contaminação

Esse caso expõe um gravíssimo problema ambiental de nossos dias – com a derrubada de matas e florestas, algo que está ocorrendo em todos os cantos de nosso planeta, animais silvestres estão ficando em contato cada vez mais próximo de populações humanas. Esses animais são hospedeiros naturais de uma infinidade de vírus, que nenhum mal lhes provocam, mas que podem ser fatais para os seres humanos

Uma espécie de morcego que é muito comum nessa extensa região geográfica e que é comprovadamente um transmissor do vírus Nipah é a raposa-voadora (existem diversas espécies). Os grandes desmatamentos em florestas tropicais da região estão empurrando esses animais para lugares cada vez mais próximas das cidades.  

Um exemplo que podemos citar é o caso da cidade de Melbourne, na Austrália, onde vivem mais de 50 mil raposas-voadoras-da-cabeça-cinzenta (vide foto). Diferente de outras espécies de morcego que tem um aspecto assustador, essas raposas-voadoras tem uma cabeça e um corpo que lembram muito uma raposa (daí o nome). Muitas pessoas acham esses animais “fofos” e acabam os tratando como se fossem “quase” domésticos – daí os riscos de contágio. Os animais frequentam os quintais das casas e os parques em busca de frutas, frutos, legumes e néctar das flores. 

Até o momento, os casos documentados de contaminação estão restritos a vilas e comunidades mais isoladas, que ficam próximas de áreas com florestas. As autoridades de saúde temem o surgimento de uma nova cepa do vírus com uma capacidade de transmissão maior, a exemplo da variante Delta do Corona vírus, algo que criaria condições para o desenvolvimento de grandes epidemias com inúmeras vítimas fatais. 

Por hora, o que se pode recomendar às populações dessas regiões é um cuidado redobrado com a higienização de frutas, frutos e legumes frescos, além de se manter o mais distante possível de matas ou locais onde grupos desses morcegos habitem. Em regiões extremamente pobres desses países, essas medidas são muito difíceis de serem implementadas e há sérios riscos de o pior acontecer… 

SISTEMA CANTAREIRA ESTÁ EM “NÍVEL DE ALERTA” 

O Sistema Cantareira, maior manancial de abastecimento da Região Metropolitana de São Paulo e responsável pela água servida a milhões de pessoas, entrou em “nível de alerta“. De acordo com orientação da ANA – Agencia Nacional de Águas, sempre que o volume dos reservatórios do Sistema atingir um volume inferior a 40%, esse alerta é “ligado”. 

Entre outras medidas, o baixo nível dos reservatórios obriga a SABESP – Companhia de Saneamento Básico de São Paulo, a reduzir o volume de água captado no Sistema. Em condições normais, a empresa pode retirar um volume de água de até 33 metros cúbicos por segundo – com o nível de alerta, essa captação fica limitada a 27 metros cúbicos por segundo. 

A situação atual está muito longe da gravíssima crise hídrica vivida na Região Metropolitana entre os anos de 2014 e 2015, quando uma forte seca nas cabeceiras dos rios formadores dos reservatórios levou o Sistema Cantareira a operar no volume morto e forçou um drástico racionamento de água por parte da população. 

O Sistema Cantareira fica localizado na Região Entre Serras e Águas, uma faixa do Nordeste do Estado de São Paulo que se espreme entre a Serra da Cantareira e a Serra da Mantiqueira. O Sistema possui cinco reservatórios: Jaguari, Jacareí, Cachoeira e Atibainha (na Bacia do Rio Piracicaba) e Paiva Castro (na bacia do Alto Tietê), além de uma pequena represa no alto da Serra da Cantareira, a Águas Claras.  

O Sistema foi projetado com as represas em altitudes diferentes em função da topografia da região. Graças a essas diferenças de altitude, o Sistema Cantareira utiliza a força da gravidade para conduzir as águas desde as represas de Jaguari e Jacareí, na região de Bragança Paulista, passando para as represas de Cachoeira, Atibainha e Paiva Castro.  

Um sistema de túneis conduz a água até Estação Elevatória Santa Inês, que bombeia as águas para a represa de Águas Claras na Serra da Cantareira. De Águas Claras a água é enviada para a Estação de Tratamento do Guaraú, na Zona Norte da cidade de São Paulo. Após o tratamento, a preciosa água chega aos lares, indústrias, escritórios e comércios de grande parte da Região Metropolitana.  

Esse grande sistema de abastecimento começou a ser gestado nos gabinetes da Secretaria de Planejamento do Estado de São Paulo na década de 1960. Até então, a água usada no abastecimento da população vinha de sistemas menores como o Sistema Cantareira Velho, inaugurado nas últimas décadas do século XIX. Durante as primeiras décadas do século XX, tanto a cidade de São Paulo quanto as cidades vizinhas passaram por um intenso crescimento populacional. 

Entre as principais alternativas para a ampliação da oferta de água potável para a Região Metropolitana de São Paulo, foram apresentados os projetos do Sistema Cantareira, com um custo estimado há época em US$ 1 bilhão, e o Sistema Juquiá, que utilizaria como fonte de água rios da bacia hidrográfica do rio Ribeira de Iguape no Sul do Estado de São Paulo. Apesar dessa segunda opção oferecer um volume de água duas vezes maior que o Sistema Cantareira, seu custo foi orçado em US$ 6 bilhões. 

A construção do Sistema Cantareira foi iniciada nos últimos anos da década de 1960, época em que nosso país já vivia no chamado ciclo dos Governos Militares. Naqueles tempos, as grandes decisões eram tomadas nos gabinetes de militares estrelados (quanto mais alta a posição na hierarquia oficial, mais estrelas nos ombros). Quando uma dessas “otoridades” apontava o dedo para um mapa e afirmava que ali seria construída uma represa ou uma rodovia, não havia qualquer questionamento. 

Outra característica daqueles tempos era possibilidade de realizar qualquer obra de grande porte sem a necessidade de qualquer tipo de estudo de impacto ao meio ambiente ou na vida das populações que viviam na região – centenas de famílias foram, literalmente, expulsas de suas casas e terras, sem qualquer chance de reclamar ou de cobrar valores de indenização mais altos. A construção do Sistema Cantareira foi tema da minha monografia do curso de Educação Ambiental, onde me aprofundei bastante nos impactos criados pelas obras. 

Entre outros problemas, não houve preocupações maiores das autoridades há época para a preservação da cobertura vegetal nas bacias hidrográficas dos rios formadores dos reservatórios. Muitas das antigas áreas de florestas, que eram fragmentos remanescentes da Mata Atlântica, desapareceram ao longo dos anos, o que vem contribuindo para a redução dos caudais que chegam até as represas do Sistema Cantareira. Existe também uma visível redução nos volumes de chuvas na região, o que também contribui para uma menor disponibilidade de água nas represas.

Há detalhe importante aqui – grande parte dos rios formadores do Sistema Cantareira tem nascentes na Serra da Mantiqueira dentro do território de Minas Gerais. A palavra Mantiqueira vem da antiga língua dos índios Tupi –amantikir, palavra que significa, literalmente, “a montanha que chora“. Isso nos dá uma ideia da quantidade de nascentes e de afloramentos de água que existiam nas encostas dessa serra. 

Os desmatamentos nessa importante região começaram em meados do século XIX, época da chegada dos cafezais ao trecho paulista do Vale do rio Paraíba. Devido à topografia acidentada das encostas da Mantiqueira e ao plantio dos cafeeiros em linha reta desde o topo até a base dos morros, uma configuração que facilitava a visão dos escravos que trabalhavam nas plantações e ao mesmo tempo favorecia a erosão dos solos, a cultura mal durou 25 anos. 

Conforme as terras e as matas do Vale do Paraíba iam se esgotando, os grandes fazendeiros partiam em busca de terras com matas virgens, onde encontrariam solos férteis para prosseguir com a produção do valioso café. Foi assim que os cafezais avançaram na direção da Região Entre Serras e Águas, iniciando o ciclo de problemas ambientais que existem hoje na Região. 

Desde os tempos da grande crise hídrica do biênio 2014/2015, muitas mudanças aconteceram no sistema de abastecimento de água da Região Metropolitana de São Paulo. Diversos mananciais foram interligados, tubulações antigas foram trocadas e as perdas de água foram sensivelmente reduzidas. Houve um grande impulso na reutilização da água (a famosa água de reuso) e, principalmente, foram concluídos novos sistemas de produção de água. 

O mais importante desses novos sistemas é o São Lourenco, que agregou uma oferta de 6,4 m³/s de água tratada por segundo ao sistema. Cerca de 1,4 milhão de moradores em municípios da Região Oeste da mancha Metropolitana são abastecidos com essas águas. Graças a todos esses melhoramentos no sistema, as autoridades afirmam que não existe risco de um novo racionamento de água em São Paulo e cidades vizinhas. 

Mas sabem como é: cachorro que foi mordido por cobra tem medo de linguiça… 

FORTES CHUVAS CAUSAM DESTRUIÇÃO E MORTES NO CENTRO DO MÉXICO 

Enquanto enfrentamos uma forte de temporada de seca em grande parte do Brasil e em países vizinhos, a América do Norte e o Caribe estão as voltas com a temporada dos furacões. Há poucos dias atrás foi o furacão Ida que atingiu grandes cidades na Região Nordeste dos Estados Unidos, matando ao menos 45 pessoas e causando muita destruição.

A “bola da vez”, conforme citamos na última postagem, é o furacão Larry. A tormenta se encontra longe da costa, mas poderá causar fortes ondas ao longo de uma extensa região do Oceano Atlântico, principalmente nos Estados da Costa Leste dos Estados Unidos e Províncias da Costa Leste do Canadá, além das Pequenas Antilhas no Mar do Caribe. Existe, inclusive, a expectativa dessas ondas atingirem o litoral da Região Norte do Brasil.  

O México também vem enfrentando sua quota de problemas com a atual temporada de furacões. Há pouco mais de duas semanas, a tempestade Grace atingiu o Estado de Vera Cruz, na costa do Mar do Caribe, se transformando em um furacão categoria 3 na escala de furacões de SaffirSimpson ao tocar em terra. Logo depois de entrar no território mexicano, Grace foi rebaixada para a categoria 1. A passagem de Grace pelo México deixou, ao menos, 7 mortos.  

Nos últimos dias, grandes áreas do país estão sendo castigadas por fortes chuvas. Na última segunda-feira, dia 6 de setembro, essas chuvas provocaram o transbordamento do rio Tula, no Estado de Hidalgo no centro do país, e as águas invadiram um hospital – pelo menos 17 pacientes morreram. 

Esse hospital é especializado no tratamento de casos de Covid-19 e a maioria das vítimas estava internada devido a casos graves da doença e onde era necessário o uso de oxigênio – muitos desses pacientes, inclusive, estavam entubados. Segundo informações de funcionários do hospital, houve uma queda da energia elétrica e os respiradores e equipamentos de suporte a vida pararam de funcionar. 

Foram feitos enormes esforços para transferir esses pacientes para outros hospitais da região, com equipes carregando macas em meio a corredores e ruas completamente alagadas (vide foto). Graças a todos esses esforços, cerca de 40 pacientes foram salvos.  

Segundo o Governo do Estado de Hidalgo, cerca de 40 mil pessoas estão sendo afetadas pelas fortes chuvas. O município de Tula, local onde ocorreu essa tragédia, é um dos mais gravemente afetados pelas chuvas. 

O drama das chuvas ganhou um componente extra no dia 7 de setembro, quando um terremoto de magnitude 7 atingiu a parte Central do México, a mesma que já vinha sendo castigada pelas fortes chuvas. Ao menos uma pessoa morreu devido a queda de um poste de energia elétrica. 

Segundo informações do Instituto Sismológico Nacional do México, o epicentro do tremor foi a 17 km da cidade de Acapulco, um famoso balneário na costa do Oceano Pacífico. Foram registrados diversos tremores secundários com magnitude entre 4 e 5. Lembro aqui que a escala Richter, usada para medir a magnitude dos terremotos, vai até 10. 

O terremoto assustou grande parte da população, inclusive da Cidade do México, capital do país localizada a cerca de 370 km de Acapulco. Por todos os lugares se viam pessoas vestidas com pijamas e com crianças no colo, que saíram às pressas de suas casas e foram se refugiar nas ruas sob a forte chuva. 

O México tem um longa e trágica história com terremotos. Em 2017, citando um caso bem recente, o México foi abalado por um forte cismo que deixou 369 mortos, a grande maioria das vítimas vivia na Cidade do México. O trauma de terremotos anteriores continua vivo na alma dos mexicanos. 

A Cidade do México é a mais populosa da América do Norte com uma população superior a 9 milhões de habitantes. A sua Região Metropolitana, que reúne mais de 40 municípios, abriga mais de 20 milhões de habitantes. Além dessa enorme população e de todos os problemas de infraestrutura urbana e de moradia decorrentes, grande parte da Cidade do México foi construída sobre áreas de aterro, um problema que torna os solos instáveis em casos de terremoto. 

Segundo os registros históricos, a cidade foi fundada pelo povo asteca por volta do ano 1325. Com o nome de México Tenochtitán, a cidade foi construída em uma ilha no centro do lago de Texcoco. Com o crescimento da população, grandes áreas desse lago passaram a ser aterradas, criando assim solos “artificiais” para a construção de casas e edifícios públicos. 

O Lago de Texcoco formava uma grande bacia hidrográfica endorreica (sem saída) juntamente com os lagos Xochimilco, Chalco, Xaltocan e Zumpango, ocupando uma área de 2 mil km² e que se estendia por todo o Vale do México. Praticamente toda essa área foi drenada e aterrada. Durante muito tempo, toda essa região era altamente susceptível a grandes enchentes, um problema que só foi resolvido na década de 1960, após a construção de vários túneis que passaram a drenar as águas para fora do Vale do México. 

Além da localização do país numa região muito próxima da área de formação de grandes furacões no Norte do Oceano Atlântico, os mexicanos fizeram o seu “dever de casa” para aumentar os problemas decorrentes das fortes chuvas. O México já teve grande parte da sua cobertura florestal, especialmente na parte Sul do país, devastada. 

O México ocupa uma área total de 1,97 milhões de km² e cerca de 15% do seu território já foi coberto por uma densa floresta tropical com características muito similares às da Floresta Amazônica. Outros 20% do território do país, principalmente em áreas com maiores altitudes, era coberto por florestas de coníferas, uma vegetação típica do Hemisfério Norte. 

Especialistas calculam que a rica biodiversidade local abrigava cerca de 1.500 espécies de mamíferos, mais de 1.000 espécies de aves, além de centenas de espécies de répteis, anfíbios e peixes. Ao menos 34% dessas espécies eram endêmicas, ou seja, só existem no México e estão seriamente ameaçadas

Pois bem – cerca de 90% das florestas tropicais do país já foram devastadas por atividades humanas, abrindo espaços para a agricultura, a pecuária e a mineração. As florestas de coníferas também foram bastante reduzidas, porém, a sua localização em encostas íngremes e vales de difícil acesso contribuiu para que grandes manchas florestais conseguissem sobreviver. 

Sem essa importante cobertura florestal, os problemas criados pelas fortes chuvas que, ano após ano castigam o país, grande parte do México sofre cada vez mais com enchentes e deslizamentos de encostas nessa época do ano. Se as consequências dos fortes e frequentes terremotos são inevitáveis, os sucessivos dramas criados pelas chuvas seriam perfeitamente controlados se as florestas do México não tivessem sido destruídas. 

Fica aqui um alerta aos países e regiões que ainda possuem florestas ou fragmentos florestais ainda em pé – preservar árvores é bom para a saúde do planeta e das pessoas. 

LARRY: A “BOLA DA VEZ” NO ATLÂNTICO NORTE 

Uma postagem mais curta nesse dia do feriado da Independência do Brasil (7 de setembro).

De acordo com observações da NOAA – Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, na sigla em inglês, a temporada de furacões no Oceano Atlântico Norte terá um “movimento” acima da média neste ano de 2021. Enquanto muitas cidades e Estados norte-americanos ainda se recuperam da passagem do Ida, um novo furacão já está ganhando força: o Larry

O NHC – Centro Nacional de Furacões dos Estados Unidos, na sigla em inglês, informa que o olho do Furacão Larry está a Leste das Pequenas Antilhas, a cerca de 1.700 km das Ilhas Leeward e a 2.579 km das Bermudas. O fenômeno atmosférico se encontra na categoria 3 da escala de furacões de SaffirSimpson, provocando ventos acima de 200 km horários e ondas de até 15 metros. 

Até o momento, o furacão Larry está distante da costa das ilhas e continentes e os riscos representados são mínimos para as áreas povoadas. Conforme o fenômeno for ganhando força (ele poderá chegar a categoria 5 na escala de furacões), ele poderá produzir reflexos até na região Norte do Brasil. As ondulações, conhecidas como swell, poderão atingir os estados do Amapá, Pará e Maranhão. 

Larry é o quinto grande furacão que se formou no Atlântico Norte ao longo de 2021, na esteira de Henri, Grace, Elsa e Ida. Conforme já destacamos em postagem anterior, a ocorrência de grandes furacões (com ventos acima de 178 km/h) no Oceano Atlântico Norte vem aumentando gradativamente nos últimos anos.  

Até o ano 2000, ocorriam em média 2 grandes furacões por ano no Atlântico Norte. A partir de 2015, essa média aumentou para 3 e, desde 2017, a média de furacões chegou a 6 a cada ano. E as previsões para o futuro não são nada animadoras – de acordo com projeções da NOAA, o número de grandes furacões deverá chegar a uma média de 8 ocorrências anuais até 2100. 

Segundo simulações em computador e estudos climáticos, o aumento do número de furacões no Atlântico Norte se deve ao aumento das temperaturas das águas dentro de uma extensa faixa entre o Sul do Estado da Flórida, nos Estados Unidos, Norte da América do Sul e Oeste da África. O aumento da temperatura das águas dos mares se deve às mudanças climáticas globais. 

As projeções dos meteorologistas indicam que o furacão Larry poderá atingir a categoria 4 nos próximos dias, com ondas significativas atingindo as Pequenas Antilhas, a Costa Leste dos Estados Unidos, além de Províncias da Costa Leste do Canadá. Outra característica desse furacão e que está chamando bastante a atenção dos especialistas é o seu formato anular, que foge do comum, onde o “olho da tempestade” é gigantesco e o ciclone é muito circular. 

Imagens de satélite mostram que o olho do furacão tem um diâmetro de 113 km (vide foto), “uma parede do olho muito espessa e virtualmente nenhuma espiral externa de nuvens”. Segundo os meteorologistas, “este tipo de furacão tende a se formar quando a atmosfera ao seu redor está seca, tornando difícil para a tempestade manter faixas espirais extensas de nuvens a partir do seu centro”. 

Furacões com essas características não perdem força tão rapidamente quanto outros furacões. Isso costuma resultar em grandes erros nas previsões de intensidade que são feitas pelos meteorologistas uma vez que que é bastante difícil prever a velocidade do seu enfraquecimento. Ou seja, o furacão Larry poderá no trazer “surpresas” nos próximos dias. 

Diferente de seu antecessor, o furacão Ida, que desembarcou no território dos Estados Unidos e seguiu deixando um rastro de destruição em terra, o Larry deverá permanecer em alto mar e se limitar a “fabricar” fortes ondas. As únicas áreas de terra que poderão sofrer mais com os efeitos do furacão são as Ilhas Bermudas. 

Entre tantas notícias ruins que os fenômenos climáticos tem criado nos últimos tempos, torçamos para que Larry passe em branco… 

O RASTRO DE DESTRUIÇÃO DEIXADO PELO FURACÃO IDA NA REGIÃO NORDESTE DOS ESTADOS UNIDOS

A população e as autoridades da Região Metropolitana de Nova York e de cidades em Estados vizinhos ainda estão contabilizando os enormes prejuízos deixados pela passagem do Furacão Ida pela região. Conforme apresentamos em postagens anterior, o Furacão Ida atingiu o litoral da Luisiana no último dia 29 de agosto, colocando toda a população em alerta. Relembrando, a maior cidade do Estado – Nova Orleans, foi devastada pelo Furacão Katrina em 2005.   

Em comparação aos estragos feitos pelo Katrina, que inundou cerca de 80% de Nova Orleans, o Ida provocou danos bem menores na cidade. Além da chuva intensa e dos fortes ventos, que provocaram alagamentos e destruição de casas e outras estruturas, também provocou a queda de muitas árvores. Uma dessas quedas, infelizmente, acabou matando um morador. 

Rebaixado para a categoria de tempestade tropical, o Ida seguiu rumo a Região Nordeste dos Estados Unidos, atingindo em cheio a cidade de Nova York no dia 1° de setembro e provocando chuvas torrenciais. A chuva recorde, considerada por muitos como a maior tempestade a atingir a cidade em meio século, provocou gigantescas inundações, paralisou todo o sistema de transportes e assustou toda a população. Os grandes aeroportos da região – JFKLaGuardia Newark, foram fechados e centenas de voos foram cancelados. 

De acordo com informações do NWS – Serviço Meteorológico dos Estados Unidos, na sigla em inglês, foram 80 mm de chuva na região do Central Park, área central da cidade, em apenas uma hora. Cerca de 40 mil casas ficaram sem energia elétrica somente em Nova York. Já foram contabilizadas, pelo menos, 45 vítimas fatais na cidade e Região Metropolitana, principalmente em decorrência das enchentes. 

Além de Nova York e cidades vizinhas, as fortes chuvas também atingiram partes dos Estados vizinhos de Nova Jersey e Pensilvânia. Cerca de 60 mil residências em Nova Jersey e 98 mil na Pensilvânia ficaram sem energia elétrica. De acordo com os levantamentos já concluídos pelas autoridades desses Estados, a tempestade fez 23 vítimas fatais em Nova Jersey e 3 na Pensilvânia.  

Aqui é que entramos no cerne dessa grande tragédia ambiental – grande parte das vítimas fatais dessa grande região ao redor da cidade de Nova York morava em habitações irregulares em porões de edifícios e casas. Famílias inteiras foram surpreendidas pela chegada das águas e muitos desses moradores não conseguiram fugir para locais mais altos a tempo. Essa é uma questão que deverá ter enormes desdobramentos daqui para a frente. 

Assim como ocorre em grandes cidades em todo o mundo – destaco aqui as grandes cidades brasileiras, Nova York tem gravíssimos problemas habitacionais. O custo de vida e os aluguéis nas áreas centrais da cidade, especialmente na Ilha de Manhattan, são muito elevados, o que obriga muita gente a viver em bairros mais distantes ou cidades vizinhas, onde os custos são menores. Essa situação também leva aos famosos “jeitinhos” – criação de apartamentos minúsculos (a partir da subdivisão de imóveis maiores); ocupação irregular de porões, sótãos, telhados e lajes, áreas de depósitos, entre outros improvisos. 

Também como é comum aqui em nossas grandes cidades, prefeituras de cidades como Nova York não conseguem fiscalizar adequadamente todos os imóveis sob sua jurisdição, apesar das inúmeras denúncias recebidas. De acordo com dados oficias, somente o Departamento de Edifícios de Nova York recebeu, ao longo de 2021, mais de 8 mil denúncias de moradias irregulares. Em 2020, foram mais de 11 mil denúncias. A maioria dessas denúncias era sobre a conversão e ocupação irregular de imóveis, que é considerada uma contravenção grave nos Estados Unidos. 

Aqui é preciso destacar que a pandemia da Covid-19 pode ter “impulsionado” essa indústria de moradias irregulares em grandes cidades norte-americanas e também em outros países. Com os sucessivos lockdowns e com a forte crise econômica que se seguiu, muita gente acabou desempregada, o que criou um grande mercado para moradias de “baixo custo”, especialmente em Nova York.  Sem melhores alternativas, muitos acabaram se mudando para esses porões irregulares sem fazer maiores questionamentos sobre a segurança dos imóveis. 

Como é usual nas grandes e médias cidades norte-americanas, cidades como Nova York, Nova Jersey e Filadélfia, na Pensilvânia, possuem normas rigorosas para a construção e reforma de residências, especialmente em quesitos de segurança. Os norte-americanos tem uma longa tradição no uso de madeira na construção civil, um material altamente susceptível a incêndios. Antes da ocupação de qualquer imóvel – novo ou reformado, é necessária uma rigorosa inspeção por parte da administração municipal, distribuidoras de gás e de energia elétrica, além dos bombeiros. 

Entre os principais itens fiscalizados nesses imóveis estão as tubulações de gás – usado para alimentar fogões, aquecedores de água e sistemas de calefação (para aquecimento nos meses de inverno); rede elétrica, sistemas de alarmes e combate aos incêndios. Existem casos onde o sistema de calefação utiliza óleo combustível, uma outra fonte potencial de incêndios e que requer cuidados especiais. Também é preciso destacar que em grandes cidades como Nova York é obrigatória a instalação de escadas externas para a fuga em caso de incêndio. 

A ocupação de porões para uso residencial é bastante comum e até mesmo tradicional nas grandes e médias cidades norte-americanas. Esse tipo de construção segue normas próprias. Um ponto que destaco é que a entrada dos edifícios e casas onde existem apartamentos em porões ou no subsolo é sempre elevada em relação ao nível da rua.  

Para acessar esses imóveis, primeiro se sobem alguns degraus até se chegar à porta e/ou hall de entrada do prédio, e só depois se chega as escadas que dão acesso aos apartamentos no pavimento inferior. Esse é um cuidado construtivo que evita que uma eventual enchente possa inundar os imóveis que estão em um nível abaixo da rua. Em obras irregulares, esses cuidados não são tomados e os imóveis ficam expostos a alagamentos em caso de enchentes. 

Como é usual no Sistema de Justiça dos Estados Unidos, todas essas mortes serão exaustivamente investigadas e os eventuais responsáveis – onde se incluem locadores e proprietários dos imóveis, construtoras, corretores de imóveis e funcionários das Prefeituras, entre outros, serão chamados a dar explicações e, em caso de culpa, serão processados e presos. Aqui no Brasil estamos acostumados a ver tragédias semelhantes acontecerem e ninguém é responsabilizado. 

Mudanças climáticas que estão se desenrolando em todo o mundo por causa do aumento das temperaturas do planeta estão aumentando tanto a frequência quanto a letalidade de tempestades e furacões. Entre outras providencias, serão necessários investimentos multibilionários para preparar nossas cidades para eventos climáticos extremos como o Ida. 

Além da falta de recursos, um problema crônico da maioria das cidades do mundo, poderá faltar tempo hábil para se concluir todas essas obras e, assim, evitar que tragédias como essa que se abateu sobre o Nordeste dos Estados Unidos se repitam. 

A FALTA DE NEVE NA CORDILHEIRA DOS ANDES MERIDIONAL

O aquecimento global está desencadeando profundas mudanças nas regiões polares do nosso planeta. Grandes volumes do manto de gelo dessas regiões estão derretendo no Ártico e na Antártida, e lançando grandes volumes de água doce diretamente nos oceanos. Um exemplo das consequências dessas mudanças é o que parece estar acontecendo no Oceano Antártico: cientistas suspeitam que as populações de krill, um pequeno crustáceo marinho que forma a base da cadeia alimentar de inúmeras espécies animais com as baleias-jubarte e os pinguins, estão diminuindo. 

As mudanças climáticas nas regiões polares também têm seus reflexos nas correntes marítimas e ventos dos oceanos, mudanças essas que alteram os padrões de chuva em extensas regiões do planeta. Um caso bem documentado é o do Oceano Índico, onde aumentos sistemáticos na temperatura das águas têm provocado mudanças importantes nos padrões de chuva da África Austral e do Sul e Sudeste da Ásia

Aqui na América do Sul também estamos assistindo a uma série de mudanças nos padrões climáticos que podem estar associadas – direta ou indiretamente, ao aquecimento global. Cientistas são extremamente cautelosos ao divulgar suas conclusões e existem inúmeros estudos em andamento. Na fala popular, porém, dizemos que se “tem bigode de gato, rabo de gato e mia como gato, então é gato”. 

Uma provável evidencia dessas mudanças climáticas é forte seca que está se abatendo sobre uma extensa área do Brasil Central, especialmente na bacia hidrográfica do alto rio Paraná. Reservatórios de importantes usinas hidrelétricas estão com níveis muito baixos, uma situação que poderá comprometer parte importante da geração de energia elétrica do país. Agricultores e populações de cidades também estão preocupados com essa ameaça ao abastecimento de água. 

No médio e baixo curso do rio Paraná em território da Argentina a situação está ficando caótica. A hidrovia que opera nesses trechos do rio é fundamental para o transporte de cargas – especialmente dos grãos produzidos pela agricultura local, e o baixo nível das águas praticamente inviabilizou a navegação.  

Milhares de pescadores não podem trabalhar, produtores agrícolas não estão conseguindo captar água para alimentar os sistemas de irrigação e muitas cidades estão com dificuldades cada vez maiores para abastecer suas populações com água potável. 

Os problemas ambientais na região, infelizmente, são bem maiores. Quando se faz uma análise em maior escala, se observa que não são só as chuvas que estão escassas na região – a precipitação de neve na Cordilheira dos Andes Meridional também vem diminuindo ano após ano. De acordo com dados do Copernicus – Programa de Observação da Terra da União Europeia, a precipitação de neve em algumas regiões do trecho argentino da Cordilheira foi 50% menor que em anos anteriores (vide imagem). 

Em toda a Cordilheira dos Andes, cadeia de montanhas que se estende por mais de 8 mil km desde a Patagônia no Extremo Sul até a Venezuela no Extremo Norte da América do Sul, a redução média na precipitação de neve foi de 12% nos últimos 10 anos. Nos Andes Meridionais, entretanto, essa redução chegou aos 40%.  

Todos os anos, um volume de vapor calculado em 383 mil km³ é retirado das águas dos oceanos pelo calor do sol. Esse vapor é espalhado pelos ventos por toda a superfície do planeta e uma parte considerável, cerca de 30%, é precipitada sobre os solos dos continentes e ilhas na forma de chuva, neve e granizo, entre formas de precipitação. Todas as reservas de água potável do mundo surgem daí.

Ao longo de toda a Cordilheira dos Andes, o derretimento da neve das montanhas forma as nascentes de importantes rios usados na irrigação de culturas agrícolas, na dessedentação animal, nas indústrias e também para o abastecimento de água em cidades e vilas. Em muitas regiões, como é o caso do Chile, esse degelo é praticamente a única fonte de água disponível para a população. Se a precipitação de neve no inverno é pequena, a disponibilidade de água ao longo dos meses de primavera e verão também será reduzida. 

Um exemplo dos problemas decorrentes dos reduzidos volumes de neve pode ser visto no Vale do Aconcágua, no Chile, principal região de produção de frutas do país. O volume de água disponível atualmente equivale a apenas 17% daquele que existia há 10 anos atrás. Existe um temor generalizado entre os produtores dessa oferta de água diminuir ainda mais nos próximos anos. 

Na Argentina, onde o problema é mais grave, as províncias mais afetadas são Catamarca, La Rioja, Mendoza, San Juan e o Norte de Neuquén. Em San Juan e Mendoza, onde a situação está mais crítica, os Governos provinciais já decretaram emergência hídrica, implantando inúmeras medidas para forçar a redução do consumo de água. 

Nos Andes Tropicais, trecho da Cordilheira que vai do Sul da Bolívia até Colômbia e Venezuela ao Norte, vem se desenrolando um problema semelhante – é notável a redução dos glaciares ou geleiras de montanha. Para dar uma ideia do tamanho dos problemas – das 10 geleiras que existiam nas montanhas dos Andes na Venezuela até 1952, só restaram 5. No mesmo período, 8 geleiras da Colômbia desapareceram e só restam 6.   

Mais ao Sul, os problemas são ainda mais evidentes – no Equador, as geleiras dos vulcões Antizana, Cotopaxi e Chimborazo já perderam já perderam entre 42 e 60% de suas massas. As 722 geleiras existentes na Codillera Blanca no Peru sofreram uma redução de 22,4% desde 1970 e na Bolívia, as geleiras de Charquini perderam entre 65 e 78% das suas áreas nas últimas décadas, entre outros derretimentos confirmados. 

A ecologia dessa extensa região, entretanto, apresenta uma diferença importante em relação aos Andes Meridionais – os páramos. Páramos são ecossistemas com vegetação arbustiva que ocorrem a partir de altitudes acima de 3.000 metros até a linha de neve no alto das montanhas. Graças a esta vegetação, os solos dos páramos funcionam como verdadeiras esponjas, retendo grandes quantidades de água – áreas de banhados dos Pampas do Sul do Brasil têm características bem similares.  

Os páramos são encontrados em várias regiões montanhosas do mundo – a Cordilheira dos Andes abriga 30 mil km² de páramos na Venezuela, Colômbia, Peru e Equador. Em muitas grandes cidades da região como Bogotá, na Colômbia, e Quito, no Equador, estão sendo desenvolvidos projetos para o aproveitamento da água dos páramos para o abastecimento das populações em substituição a água do degelo dos glaciares. 

Nas extensões mais ao Sul da Cordilheira dos Andes entre a Argentina e o Chile, desgraçadamente, não existe esse tipo de vegetação e as fontes de água dependem exclusivamente das chuvas e do derretimento das neves das montanhas. Com as mudanças climáticas em andamento na região e com a visível redução na precipitação de neve, o abastecimento de água de milhões de pessoas está seriamente ameaçado. 

A velocidade das mudanças ambientais é muito grande e está sendo difícil nos adaptarmos ao novo mundo que está surgindo. A única certeza que existe é que essas mudanças vieram para ficar.