Posts de ferdinandodesousa

Escritor, jornalista, gestor e educador ambiental. Especialista em projetos de comunicação social e de educação ambiental.

IMPERIAL VALLEY: UMA DAS REGIÕES AGRÍCOLAS MAIS PRODUTIVAS DOS ESTADOS UNIDOS

Um outro exemplo de região desértica que foi transformada em uma grande produtora agrícola é o Imperial Valley na Califórnia – Costa Oeste dos Estados Unidos. Esse pedaço do Deserto de Sonora, que se espreme na divisa entre os Estado Unidos e o México, tem um índice de pluviosidade anual abaixo dos 76 mm e já possuía alguns trechos com terras muito férteis – só faltava a água. 

Aqui, ao contrário do uso altamente racional dos recursos hídricos que foi adotado em Israel, partiu-se para um uso “bruto” das águas do rio Colorado, que passaram a ser transpostas a partir de um canal construído no leito seco do rio Álamo em 1901. Usando e abusando dessa água, o Imperial Valley foi transformado em um grande celeiro agrícola – os custos ambientais, porém, foram altíssimos. Vamos entender essa história. 

O Deserto de Sonora entrou no “mapa” dos pioneiros americanos a partir de meados do século XIX, época em que começou a vigorar a política da “Marcha para o Oeste” do Governo Americano. Relembrando um pouco da história, a maior parte das regiões Sudoeste e Oeste dos Estados faziam parte do território do México até então.  

Entre 1846 e 1848, os dois países travaram uma guerra pela posse da região, com os americanos vencendo a disputa. Os atuais estados americanos de Utah, Nevada, Arizona, Califórnia, Texas e Novo México, além da parte oeste do Colorado, foram criados nesse território incorporado aos Estados Unidos. 

Após a vitória no embate, o Governo dos Estados Unidos buscou desenvolver políticas para estimular a colonização dessa extensa região e consolidar assim a posse dos territórios. O Deserto de Sonora era o caminho a ser atravessado pelas caravanas de pioneiros que se dirigiam para a Califórnia e, partir daí, começou a chamar a atenção pelo seu imenso potencial agrícola. 

A paisagem desoladora do deserto começou a mudar nos primeiros anos do século XX após a chegada da água transposta pelo canal do rio Álamo. Gradativamente, os agricultores que se instalaram na região, que ficou conhecida como Imperial Valley, passaram a construir toda uma rede de canais para a distribuição da água para a irrigação dos seus campos. Em 1942, o Governo americano construiu um novo canal – o All-American, aumentando ainda mais a oferta de água para o Imperial Valley

De acordo com as últimas estimativas, a região já conta com mais de 2.300 quilômetros de canais de irrigação e 1.800 quilômetros de tubulações. Esse grande sistema distribui por todo o Imperial Valley um volume de água correspondente a 83% da cota de água do Rio Colorado a que tem direito o Estado da Califórnia. Com fartura de água, terras férteis e muito sol, a região foi transformada na principal fornecedora de frutas e de vegetais de inverno dos Estados Unidos, produzindo duas colheitas a cada ano, feito raro em um país de clima temperado.  

A região também é grande produtora de alfafa, vegetal utilizado na alimentação do gado, especialmente nos meses de inverno quando as pastagens naturais ficam cobertas por grossas camadas de neve ou secam. A Califórnia, que tem uma população de mais de 40 milhões de habitantes e é o estado mais populoso dos Estados Unidos, é um dos maiores mercados para os alimentos produzidos no Imperial Valley

Durante todo o século XX e primeiros anos do século XXI, o Imperial Valley foi sinônimo de produção farta e de alto lucro no meio de um deserto. Sem praticamente nenhuma restrição ao uso dos recursos hídricos do rio Colorado, as águas transpostas corriam em abundância através dos canais e tubulações dos sistemas de irrigação e a terra respondia com grandes colheitas.  

A situação, porém, mudou radicalmente a partir do ano 2000, quando todo o Sudoeste dos Estados Unidos passou a enfrentar uma severa seca que, de acordo com especialistas, foi a maior seca na região em 1.200 anos. A Califórnia seria o Estado mais afetado por essa seca e sofreria com as mais graves consequências entre os anos de 2010 e 2014. 

A forte seca regional começou a afetar os rios formadores dos reservatórios de água de todo o sul do Estado da Califórnia, reduzindo fortemente a oferta de água pelos sistemas produtores e, consequentemente, a disponibilidade de água para abastecimento de cidades importantes como Los Angeles, San Diego e San Bernardino. A partir de 2010, quando a seca atingiu seu auge, grandes cidades do Sul da Califórnia foram obrigadas a impor uma redução compulsória de 25% no consumo de água das famílias, medida inédita na história americana. 

Sem fontes de abastecimento alternativas, estas grandes cidades voltaram sua atenção para as águas do Rio Colorado, que desde muito tempo já chegavam ao Sul da Califórnia através de sistemas de transposição e alimentavam parte dos sistemas de abastecimento e distribuição. Porém, entre o Rio Colorado e as cidades havia o Imperial Valley e seus organizados agricultores, que já estavam tendo seus próprios problemas com a redução dos volumes de água disponíveis (a seca também afetou o rio Colorado) e que não estavam dispostos a ceder nem mais um mísero litro de água para o abastecimento das cidades. 

Desde os primeiros anos da formação do Imperial Valley, os produtores agrícolas locais se valeram da irrigação por alagamento – uma comporta é instalada entre o canal de irrigação e o campo agrícola. Quando o produtor precisa irrigar sua plantação, ele simplesmente abre a comporta e deixa a água fluir “à vontade”, saturando e alagando rapidamente o solo.  

As plantas absorvem toda a água que necessitam e a maior parte do líquido vai acabar se perdendo, ou por evaporação (que é muito alta num deserto) ou por percolação para trechos mais baixos do terreno. Se existe uma técnica de irrigação irracional do ponto de vista do alto consumo de água, essa é a irrigação por alagamento. 

Uma espécie de subproduto criado pelo Imperial Valley e seu consumo abusivo de águas foi a formação do Lago Salton, um grande espelho de águas salgadas que surgiu numa depressão da região, para onde os excedentes de águas das plantações escorria (é o lago aparece no fundo da imagem que ilustra esta postagem). Falaremos mais sobre esse lago e os inúmeros problemas ambientais que ele criou numa próxima postagem. 

As grandes cidades da Califórnia acabaram vencendo a queda de braços e os produtores rurais do Imperial Valley foram obrigados a ceder uma boa parte de sua quota de água para o abastecimento dessas populações. Com a adoção de sistemas de irrigação por aspersão, mais racionais e econômicos quando comparadas ao sistema de alagamento, os produtores do Imperial Valley conseguiram manter sua produção gastando muito menos água. 

Apesar da partilha da água entre as cidades e os produtores rurais ter sido resolvida sem maiores problemas, a redução dos volumes de água usados no Imperial Valley criou uma série de problemas ambientais e de saúde pública para os moradores das cidades da região – falaremos disso na próxima postagem. 

OS GRANDES IMPACTOS DA AGRICULTURA DE ISRAEL NO MAR MORTO

Nas duas postagens anteriores fizemos um breve resumo da história da fundação do moderno Estado de Israel e dos impressionantes avanços técnicos que o pequeno país conseguiu em sua agricultura. Com pouco mais de 20 mil km² de território e com mais de 2/3 de suas terras formadas por solos semiárido e desérticos, Israel se transformou numa impressionante potência agrícola. 

Um dos feitos mais extraordinários dos israelenses foi o de fazer, literalmente “o deserto florescer”. O Deserto do Neguev, no Sul do país, ocupa mais da metade do território de Israel e conta com índices pluviométricos anuais entre 30 e 50 mm, valores 15 vezes menores que aqueles encontrados no Semiárido Nordestino. Mesmo assim, o Neguev é um grande celeiro agrícola, onde se usa intensivamente sistemas de irrigação por micro gotejamento. 

A moderna tecnologia em sistemas de irrigação, o uso altamente racional dos escassos recursos hídricos disponíveis e os grandes esforços para o desenvolvimento de cultivares adaptados ao clima e aos solos do país são as chaves do sucesso de Israel na agricultura. Esse sucesso, é claro, não veio de graça, e, entre outros inúmeros problemas, o alto consumo de água pelas atividades agrícolas e pecuárias está provocando a redução gradual do Mar Morto

O Mar Morto é um grande lago com águas extremamente salgadas que se formou numa grande depressão localizada a 430 metros abaixo do nível do mar na fronteira entre Israel e a Jordânia. O lago é alimentado exclusivamente pelas águas do Jordão, o principal rio de Israel. Formando uma grande bacia hidrográfica endorreica, ou seja, sem saída para o mar, o Mar Morto perde suas águas por evaporação.  

As águas do Mar Morto têm uma característica única – elas possuem dez vezes a quantidade de sal encontrada nos oceanos. Por essa razão essas águas não são utilizadas para consumo humano ou irrigação agrícola. O lago é, já há muitas décadas, uma das grandes atrações turísticas de Israel (vide foto). Entretanto, o uso intensivo das águas do rio Jordão para fins agrícolas está reduzindo gradativamente o Mar Morto

Em 1930, quando foi feita a primeira medição criteriosa do Mar Morto, a superfície do espelho d’água era de 1.050 km² – em 2014, a superfície total estava reduzida a 650 km² e o seu nível está se reduzindo em até 1 metro a cada ano. A razão para isso é simples: após a independência de Israel em 1948 e com o grande aumento da população do país, a retirada de água do rio Jordão para fins agrícolas chegou a consumir até 98% dos caudais do rio.  

Conforme o nível do lago foi baixando, o antigo fundo coberto por uma grossa camada de sal foi exposto. Conforme essa camada de sal foi se dissolvendo, começaram a surgir grandes crateras no leito rochoso. As atuais margens do Mar Morto estão tomadas por grandes crateras, algumas com até 100 metros de diâmetro e 50 metros de profundidade. Calcula-se que existam cerca de 6.500 dessas crateras nas áreas de entorno do Mar Morto. 

As águas densas e extremamente salgadas do Mar Morto ganharam fama de medicinais e toda a região de entorno do lago foi ocupada por elegantes resorts e hotéis, que recebiam dezenas de milhares de turistas a cada ano. Com o recuo cada vez mais intenso das águas, muitas dessas instalações agora estão a vários quilômetros das margens do lago – muito negócios acabaram falindo. E sem a reposição dos grandes volumes de água perdidos para a forte evaporação, a tendência será de uma redução cada vez maior do espelho d’água do Mar Morto. 

O Mar Morto é uma das principais atrações turísticas de Israel, um setor que gera importantes receitas para o país. Empresários dos setores de turismo e hospedagem vem fazendo uma pressão cada vez maior sobre o Governo israelense para que se encontre uma solução para o problema. A Suprema Corte de Israel, inclusive, já tomou decisão contra o Governo, recomendando que se encontre uma solução para o problema. 

A situação crítica do Mar Morto é muito semelhante à de outros grandes “mares” internos sem saída para o mar como o Mar de Aral, na Ásia Central, e o Lago Chade, na África Subsaariana. Grandes projetos de agricultura irrigada foram implantados nas suas proximidades, passando a consumir uma parte importante da água de seus rios formadores. Sem conseguir as perdas de água para a evaporação, esses lagos começaram a ter seus espelhos d’água em uma redução constante. 

Uma alternativa que vem sendo estudada há vários anos em conjunto com o Governo da Jordânia, que compartilha a bacia e os problemas do Mar Morto com Israel, e com acompanhamento da Autoridade Nacional Palestina, é a construção de um canal entre o Mar Vermelho e o Mar Morto, permitindo o fluxo de água do mar por força da gravidade (lembrando que o Mar Morto está abaixo do nível do mar) para compensar o volume de águas do Rio Jordão que deixa de desaguar no lago.  

O projeto inclui a construção de uma usina hidroelétrica para o aproveitamento da força da água. A ideia, que parece muito boa, encontra forte resistência entre grupos de ecologistas, que temem a introdução de espécies marinhas no ambiente fechado do Mar Morto, e também de empresas que exploram minerais na região do Mar Morto. Com o recuo das margens do lago e a exposição do seu fundo coberto de minerais facilitou, e muito, o trabalho dessas empresas. 

Uma outra solução, que ganhou uma enorme visibilidade nas últimas semanas, é a retomada de um projeto, ainda da década de 1960, para a construção de um canal de navegação marítima entre o Golfo de Aquaba, também conhecido como Golfo de Eliat, e o Mar Mediterrâneo. Esse canal seria uma alternativa ao Canal de Suez do Egito e poderia enviar parte de suas águas para “abastecer” o Mar Morto. 

Há poucos dias atrás, um gigantesco navio cargueiro – o Ever Given, encalhou no Canal de Suez, bloqueando totalmente a passagem de embarcações por cerca de 5 dias. De acordo com as notícias divulgadas, cada dia de bloqueio no Canal de Suez representou um prejuízo de quase US$ 10 bilhões ao comércio mundial. Criar uma via de navegação alternativa ao Canal de Suez através do território de Israel voltou a ser considerada uma ótima ideia e poderá ser a tábua de salvação do Mar Morto. 

A questão do Mar Morto, que na realidade é uma espécie de efeito colateral do sucesso da agricultura em Israel, mostra como as questões ambientais são complexas e precisam ser pensadas e discutidas com extrema cautela. A recuperação de grandes extensões de terrenos semiáridos e desérticos do país, o que aparentemente seria altamente positivo para o meio ambiente, desencadeou uma crise nos já escassos recursos hídricos da região. 

O rigor dos diferentes órgãos na análise dos impactos ambientais de grandes obras de infraestrutura como usinas hidrelétricas, rodovias, projetos de mineração e ferrovias, entre muitos outros, o que muita gente crítica por acharem rigorosos demais, tem sua razão de ser. Por melhores que sejam as boas intenções desses projetos, como no exemplo da agricultura de Israel, sempre há riscos de esconderem importantes impactos ambientais. 

A história nos ensinou que depois da Caixa de Pandora ser aberta, não dá mais para voltar a prender os males que ela guardava… 

ISRAEL: FAZENDO O DESERTO FLORESCER, OU A ”TERRA QUE MANA LEITE E MEL”

Na última postagem fizemos uma rápida apresentação das origens do moderno Estado de Israel. Nas últimas décadas do século XIX, movimentos nacionalistas começaram a “pipocar” por toda Europa, influenciando fortemente as diversas comunidades judaicas, em especial do Centro e do Leste do continente. O antigo sonho dos judeus de um dia retornar à sua terra de origem no Oriente Médio levou à criação do movimento sionista e os primeiros colonos começaram a desembarcar na Palestina nos últimos anos daquele século. 

O sucesso na recolonização da Palestina por toda uma nova geração de imigrantes judeus foi baseado no desenvolvimento e no domínio de técnicas agrícolas que permitiram fazer o “deserto florescer”, um slogan que acabou sendo adotado por Israel com o passar dos anos. Essa era uma imagem ou figura de linguagem já bastante enraizada na cultura judaica – nos antigos livros sagrados da Torá hebraica, Moshe, mais conhecido entre nós ocidentais como Moises, se referia à região onde encontramos a atual Israel como a “terra onde mana leite e mel”., ou seja, uma terra de fartura.

Essa referência literária corresponde a uma área equivalente a 20% do atual território de Israel, mais especificamente ao vale do rio Jordão, onde o clima e qualidade dos solos são adequados para a prática agrícola e onde seria possível essa “fartura”. A colonização da moderna Israel, entretanto, começou a partir de regiões com solos áridos e semiáridos, que já há muito tempo eram considerados imprestáveis pelos árabes que venderam as terras. Ao longo de várias décadas, esses vendedores se gabariam de ter feito um excelente negócio vendendo terras inúteis para judeus “imbecis”.

O modelo de colonização adotado pelos imigrantes foi baseado em produção pelo sistema de cooperativas, com dois tipos de assentamentos: o kibutz, comunidades coletivas em que os meios de produção, as responsabilidades e os eventuais lucros são de propriedade geral, e o moshav, vila agrícola onde cada família tem o direito a manter sua própria casa e trabalhar em sua própria terra, vendendo a sua produção para uma cooperativa.  

Cada uma dessas unidades recebeu uma área de terras para trabalhar. Essas terras eram cheias de problemas e, para cada caso, foi buscada e desenvolvida uma solução técnica que permitisse transformar os solos secos e esturricados em terras férteis. Como exemplo podemos citar a construção de terraços agrícolas, uma técnica muito usada no Extremo Oriente, no Sudeste Asiático e em amplas regiões montanhosas da Cordilheira dos Andes. São construídos muros de pedra em diferentes níveis de uma encosta íngreme e os diferentes níveis são preenchidos com sedimentos finos – o preenchimento é finalizado com uma fina camada de terra fértil. 

Um insumo vital para a agricultura é a água, um elemento raro na então Palestina. No Norte, a precipitação média anual é de 700 mm, índice que cai para apenas 50 mm no Sul. Para efeito de comparação, o nosso complicado Semiárido Nordestino tem uma precipitação média de 750 mm, ou seja, as áreas mais chuvosas da Palestina são mais secas que a nossa Caatinga

A principal fonte de água da região é o famoso rio Jordão, tão citado na Bíblia cristã. Com pouco mais de 200 km de extensão, o rio Jordão tem suas principais nascentes na região do Monte Hérmon ao Norte, mais conhecido como Colinas de Golã e que foi tomada da Síria por israel após a Guerra dos Seis Dias em 1967. O rio Jordão também recebe contribuições de pequenos rios com nascentes no Líbano como o e o Hasbani. As dimensões do rio Jordão lembram mais os córregos e ribeirões que encontramos por todo o Brasil – a largura média é de 18,3 metros, a profundidade máxima é de 5,2 metros e a vazão média é de apenas 16 m³/s. 

Desde os primeiros tempos da formação do Estado de Israel, a utilização racional dos escassos recursos hídricos disponíveis foi a prioridade máxima. Em sistemas de irrigação em regiões de clima árido é comum que as perdas de água por evaporação superem a marca dos 90%. Um exemplo fácil que podemos citar são os sistemas irrigados da Ásia Central construídos ainda nos tempos da URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Usando e abusando das águas dos rios Amu Daria e Syr Daria, esses sistemas de irrigação destruíram o Mar de Aral

Sem poder se dar ao luxo de desperdiçar água, os judeus criaram sistemas de irrigação altamente eficientes, onde destacamos o micro gotejamento – linhas de mangueiras são instaladas nos campos agrícolas e apenas pequenas quantidades de água são lançadas diretamente nas raízes das plantas, reduzindo as perdas de água para valores inferiores a 5%. 

Em décadas mais recentes, o país conseguiu aumentar a oferta de água potável a partir do uso de água dessalinizada. Em 1973, uma empresa privada passou a construir usinas com operação por osmose reversa para o atendimento de populações de comunidades isoladas. O grande salto tecnológico se deu em 2008, quando o Governo central decidiu construir cinco grandes usinas de dessalinização ao longo da costa do Mar Mediterrâneo. Esse ambicioso projeto estabeleceu como meta a produção de 505 milhões de m³ de água dessalinizada até o ano de 2013, chegando a 750 milhões de m³ até o ano de 2020.  

Os planos do Governo israelense foram facilitados após a descoberta de grandes campos de gás natural no país, combustível que passou a ser utilizado em substituição à eletricidade, o que fez os custos de produção, estimados anteriormente em US$ 1,00 para cada 1 m³ de água dessalinizada, caírem pela metade. E não é só isso – as tarifas cobradas dos usuários, especialmente dos produtores rurais, são “salgadas”, o que força a todos ao uso cada vez mais racional do recurso

Além dos esforços para aumentar a oferta e controlar a demanda, os israelenses não descuidaram do reuso da água – mais de 2/3 das águas servidas são reutilizadas. Na agricultura, atividade que consome perto de 75% dos recursos hídricos do país, mais de 45% da água utilizada tem sua origem em efluentes de estações de tratamento de esgotos

Graças ao alto grau de desenvolvimento tecnológico em irrigação, sistemas de cultivo e no desenvolvimento de espécies vegetais altamente adaptadas às condições de solo e clima, Israel consegue uma produção por hectare até 30 vezes maior que a maioria dos países. Entre as espécies vegetais desenvolvidas em institutos de pesquisa do país são destaques o tomate-cereja, o melão Gália, diversas espécies de frutas cítricas e uvas, além de morangos, caquis e framboesas que crescem fora das estações. As variedades de algodão desenvolvidas também são destaque, com uma produtividade de 55 kg por hectare. 

Um exemplo do alto grau da tecnologia agrícola de Israel pode ser visto em Arava, no Deserto de Neguev, Sul do país. As 600 famílias que vivem em oito assentamentos da região conseguem produzir até 300 toneladas de vegetais por hectare/ano. Essa produção é feita em estufas com cobertura plástica e dotadas de sistemas de ventilação (vide foto). A produção anual da região chega a impressionantes 150 mil toneladas de vegetais, que são exportados majoritariamente para a Europa

O Deserto de Neguev ocupa mais da metade do território de Israel e tem índices anuais de pluviosidade entre 30 e 50 mm. Afirmar que Israel “faz o deserto florescer” não é apenas uma figura de linguagem – é a mais pura realidade. 

ERA UMA VEZ UM SONHO CHAMADO ”ERETZ YISRAEL”

O Estado de Israel possui um território com apenas 20 mil km², algo equivalente ao nosso Sergipe. Além de muito pequeno, o país possui um clima árido na maior parte do seu território – perto de 80% de suas terras são formadas por terrenos semiáridos, desérticos e também por formações rochosas. Um complicador extra é a grande escassez de recursos hídricos. As chuvas são reduzidas e muito mal distribuídas, e o único rio importante do país é o lendário Jordão. 

Apesar da natureza, literalmente, conspirar contra Israel, o pequeno país é um gigante agropecuário e um dos líderes mundiais no desenvolvimento de tecnologias agrícolas. Um exemplo – os tomates-cereja que muitos dos leitores devem apreciar foi criado em centros de pesquisas em Israel. Outra grande conquista do país, essa no campo tecnológico, são os modernos sistemas de irrigação por micro gotejamento usados em todo o mundo. 

Antes de falarmos dos verdadeiros “milagres” que os israelenses vêm fazendo há mais de um século nas disputadas terras da Palestina, transformando “desertos em jardins”, é preciso entender as raízes históricas que levaram à recolonização das terras do antigo Reino de Israel, ou Eretz Yisrael em hebraico, por judeus depois de quase 2 mil anos de diáspora (ou dispersão) pelos quatro cantos do mundo. 

Sem entediá-los demais com detalhes históricos, a saga da dispersão dos judeus pelo mundo teve início no ano 70 d.C., quando tropas romanas destruíram Jerusalém e forçaram os judeus a abandonar suas terras. Essa migração forçada levou à criação de inúmeros núcleos judeus por todo o Oriente Médio, Ásia Central, Europa e Norte da África. Desde então, falando de uma forma muito resumida, um eventual retorno à terra de origem, ou o Eretz Yisrael, passou a fazer parte da cultura e, de certo modo, até de dogmas religiosos dos judeus. 

A ideia de um retorno organizado dos judeus para as antigas terras da Palestina ganhou muita força entre as comunidades de judeus da Europa Central e do Leste Europeu a partir de meados do século XIX. Esse foi um período de forte nacionalismo entre diversos povos da região e as comunidades judaicas acabaram sendo “contaminadas” pelas novas ideias, em especial a partir da década de 1880

Dois marcos importantes desse período foram a criação da revista Selbstemanzipation (Autodeterminação) por Nathan Birnbaun, um escritor judeu natural de Viena, em 1885, e também pelo lançamento do livro Der Judenstaat (O Estado Judeu) por Theodor Herzl, um escritor judeu de nacionalidade austríaca, em 1895. Esses escritos seriam determinantes para a criação do “movimento sionista”. Também foram destaques os rabinos (líderes religiosos judeus) Judá Alkalai, Naftali BerlinTzvi Kalisher, Samuel Mohiliver e Isaac Jacob Reines

Uma forma de se perceber a força que as ideias sionistas ganharam no período foi a popularização da expressão Vaiter yor in Irushilim – Ano que vem em Jerusalém, um cumprimento que passou a ser usado pelos membros das comunidades judaicas. Em 1897, foi organizado na cidade de Basileia, na Suíça, o Primeiro Congresso Sionista. Reunindo mais de duzentos participantes, o Congresso discutiu, entre outros temas, o local onde seria fundado o novo Estado Judeu.  

Entre as alternativas estavam a Ilha de Chipre, a Patagônia argentina, colônias europeias na África como o Congo e Uganda e também a Palestina Otomana. Por razões históricas, venceram os partidários da Palestina. O Congresso também resultou na criação da Organização Sionista Mundial, entidade que viabilizaria economicamente a compra de terras na Palestina e o assentamento de comunidades judaicas na região. 

Os primeiros imigrantes judeus que se estabeleceram na Palestina dentro do sionismo moderno eram de origem russa e começaram a chegar na região em 1882. Eles formavam um movimento chamado Bilu (Pioneiros) e buscaram asilo na sua terra ancestral fugindo das leis antissemitas introduzidas pelo Czar Alexandre II da Rússia. Esse grupo era formado por 14 estudantes universitários, tendo como líder Israel Belkind. Após muitos altos e baixos, o grupo conseguiu apoio financeiro e, em 1886, fundou uma vinícola em Rishon Lezion

A partir dos últimos anos do século XIX, milhares de imigrantes originários de toda a Europa, Rússia e Estados Unidos passaram a chegar na Palestina com apoio da Organização Sionista Internacional. Esses imigrantes passaram a se estabelecer em terras compradas de árabes da região por companhias internacionais. Essas terras eram, na sua imensa maioria, formadas por solos semiáridos e considerados “imprestáveis” para qualquer tipo de prática agrícola por seus antigos proprietários. 

Contando com apoio internacional de seus pares, esses pioneiros passaram a se dedicar a trabalhos de pesquisas técnicas para a recuperação desses solos – limpeza de campos rochosos, construção de terraços agrícolas, drenagem de áreas pantanosas, dessalinização de solos, reflorestamento e contenção de encostas, desenvolvimento de sistemas de irrigação, entre outras intervenções. Foram esses esforços que criaram as bases da agricultura israelense moderna. 

O movimento migratório de judeus para a Palestina ganhou muita força ao longo e após a Segunda Guerra Mundial, quando milhares de pessoas, fugindo principalmente da perseguição político/religiosa da Alemanha Nazista, tentavam recomeçar a vida na Palestina (vide foto). A entrada desses refugiados foi bastante dificultada pela Inglaterra e pela França, potencias coloniais que assumiram o controle da Palestina com a derrocada do Império Otomano após a Primeira Guerra Mundial.  

Em 1948, a Assembleia Geral da ONU – Organização das Nações Unidas aprovou, sob muita pressão, a polêmica criação do Estado de Israel. A consolidação da pequena nação levaria ainda muitas décadas e demandaria muito esforço – especialmente militar. Para os amantes de cinema, recomendo os filmes “Exodus”, de 1960, dirigido por Otto Preminger, e “À sombra de um gigante” (Cast a giant shadow), de 1966, dirigido por Melville Shavelson, que contam emocionantes histórias dos primeiros anos do Estado de Israel. 

Sem nos envolvermos nas questões políticas com os países vizinhos e, especialmente, com a importante causa do povo palestino, o Estado de Israel se transformou em uma referência mundial em agricultura. Desde 1948, a área agrícola do país aumentou de 165 mil hectares para 435 mil hectares, ocupando principalmente áreas de deserto com sistemas de irrigação. A produção agrícola aumentou 16 vezes nesse período

A produção de frutas é um dos destaques de Israel – são mais de 40 tipos. Além de frutas cítricas como laranjas, grapefuits e tangerinas, se incluem ameixas, nectarinas, morangos, peras, caquis e romãs. Também merecem destaque a produção de uvas e vinhos, verduras, legumes e grãos como sorgo, trigo e milho. Também são relevantes as produções de leite e de flores. A produção agrícola representa 2,5% do PIB – Produto Interno Bruto, e 3,6% das exportações do país, principalmente para Europa

Na próxima postagem vamos detalhar melhor os fundamentos que levaram Israel ao grande êxito nessa área, principalmente com o apoio de sistemas de irrigação e uso racional dos escassos recursos hídricos. 

SERAPIUM: UMA FLORESTA REGADA A ESGOTOS NO EGITO

Nas postagens anteriores falamos dos problemas que a desertificação de solos vem provocando em todo o mundo, especialmente na América Latina. O uso inadequado dos solos por atividades agrícolas e pecuárias, a devastação de áreas florestais, o aumento das temperaturas globais, entre outros problemas, tem levado à destruição de grandes extensões de solos férteis. Em um mundo com recursos naturais finitos e com uma população humana que não para de crescer, isso não é um bom sinal. 

Para não ficarmos repetindo mais do mesmo, vamos mudar o enfoque das postagens – ao invés de mostramos outros casos de desertificação de solos em diferentes países, vamos mostrar algumas soluções que vêm sendo criadas para se reverter o problema. Vamos começar falando da Floresta Serapium, no Egito. 

Como todos devem se lembrar das aulas de história nos tempos do ensino fundamental, o Egito foi uma das maiores e mais poderosas civilizações do passado. Essa história de sucesso começou no ano 3.220 a.C., quando Menés unificou os reinos do Alto e Baixo Egito, criando a Primeira Dinastia de faraós. O declínio tem início por volta do ano 670 a.C., quando o Egito é invadido e dominado, primeiro pelos assírios, depois pelos persas, macedônicos e finalmente pelos árabes. 

Falando de uma forma bem simplificada, o território do Egito é praticamente uma sucessão de desertos e regiões semiáridas – uma exceção é o Vale do Rio Nilo, que corta o país de Norte a Sul. Desde os tempos imemoriais dos primeiros assentamentos humanos no Egito, a vida tem sido regulada pelos ciclos anuais de cheias e de vazantes do rio Nilo, que fertilizam as margens e permitem a prática da agricultura. A região do Delta do Nilo, onde o rio se abre em inúmeros canais e forma grandes campos de solos férteis, é outra exceção à aridez dos desertos. 

As águas do rio Nilo sempre foram e ainda são o sangue e a vida do Egito. O rio proporciona água, alimentos, transportes, turismo e geração de energia elétrica. A usina hidrelétrica da Represa de Assuã no rio Nilo, concluída em 1967, já respondeu por 50% de toda a eletricidade usada pelo país. Atualmente, esse percentual caiu para 15%. 

E o que os quase 100 milhões de egípcios oferecem ao bom e velho rio Nilo por todas as benções que ele provê? Esgotos, muitos esgotos – mais precisamente: sete bilhões de metros cúbicos de águas residuais a cada ano, isso sem falar nas centenas e mais centenas de toneladas de resíduos sólidos que são despejados diretamente na calha do rio ou que são arrastados pelas enxurradas. 

Esses problemas, desgraçadamente, extrapolam as fronteiras do Egito e se repetem em países como Etiópia, Sudão, Uganda, Tanzânia, Quênia, República Democrática do Congo, Burundi e Ruanda, todos inseridos dentro da bacia hidrográfica do rio Nilo. São no total cerca de 250 milhões de pessoas que dependem das águas do rio e que, como os egípcios, retribuem todos os seus bons serviços com muito esgoto e lixo. 

Um exemplo de como as coisas andam muito mal no Egito – até bem poucas décadas atrás, cerca de 123 espécies de peixes eram encontradas na bacia hidrográfica do rio Nilo. De acordo com estudos de pesquisadores do Egito, 35 dessas espécies já desapareceram do Baixo Rio Nilo. 

Como parte dos esforços para reduzir a intensa poluição das águas do rio Nilo, o Programa Nacional do Egito para o Uso Seguro da Água de Esgoto, uma organização criada há cerca de 25 anos atrás para buscar alternativas para o uso das águas residuárias no país, teve a ideia de plantar florestas e usar os despejos de águas das estações de tratamento de esgotos para uso na irrigação dessas florestas

Esgotos são ricos em nitrogênio e fósforo, dois elementos essenciais para a nutrição de plantas, Mesmo após passar por todos os processos de tratamento, as águas residuárias ainda apresentam grandes concentrações desses elementos. Conduzidas por tubulações até as florestas, essas águas permitem irrigar e nutrir as plantas ao mesmo tempo. 

Contando com apoio da Universidade Técnica de Munique na Alemanha, o projeto teve início na década de 1990. As águas residuárias de uma estação de tratamento de esgotos passaram a ser usadas na irrigação de florestas artificias em 36 áreas do deserto. Uma dessas áreas é conhecida como Floresta Serapium (vide foto) e já apresenta excelentes resultados. 

A Floresta Serapium fica em Al Ismailia, uma localidade a cerca de 16 km a Oeste do Canal de Suez. A cidade tem cerca de 400 mil habitantes e as águas residuárias dos seus esgotos estão sendo utilizadas para regar e nutrir diversa áreas de florestas artificiais – a de Serapium é uma floresta de eucaliptos com cerca de 500 acres de área. As árvores estão com cerca de 15 metros de altura. O frescor surreal dessa floresta contrasta com a aridez escaldante do deserto ao seu redor. 

O projeto tem apoio financeiro da Forest Finance, uma empresa alemã especializada em investimento florestais. Uma das razões para o interesse dos alemães por essa região é o tempo de crescimento das árvores, que atingem o ponto ideal de corte em apenas ¼ do tempo do que o equivalente na Alemanha. Um eucalipto, por exemplo, leva até 60 anos para completar o seu desenvolvimento no clima temperado da Alemanha – no desértico Egito, a mesma árvore pode estar pronta para o corte em menos de 15 anos com o uso da irrigação

Além do eucalipto, a floresta também abriga outras espécies de grande valor comercial como o mogno. O transporte da água até a floresta é feito por um sistema de adutoras. A irrigação das plantas é feita por gotejamento localizado, a partir de uma rede de tubulações flexíveis distribuídas no solo. Cada uma das árvores recebe, em média, 5 litros de água a cada dia. 

O território do Egito ocupa uma área com mais de 1 milhão de km², sendo que 95% desses solos são desérticos e/ou semiáridos, existindo espaço de sobra e grandes volumes de águas residuárias para a formação de inúmeras outras florestas como a de Serapium. Isso abre inúmeras possibilidades para a produção de madeira, papel e celulose, além de criar milhares de postos de trabalho num país em crise. 

Até alguns anos atrás, o turismo era uma das principais fontes de receita do Egito. Pessoas de todo o mundo vinham se maravilhar com os inúmeros museus e com monumentos e sítios arqueológicos espalhados por todo o país. A partir de 2010, depois de uma série de ataques de radicais islâmicos a grupos de turistas e também pela instabilidade política, o país viu o fluxo de turistas diminuir em cerca de 80%. Em 2020, a epidemia da Covid-19 afetou ainda mais o setor e as receitas geradas pelo turismo despencaram perto de 67%

Florestas comerciais regadas a esgotos podem ajudar nessa complicada situação financeira do Egito, gerando emprego e renda para milhares de trabalhadores. Além das valiosas madeiras e seus produtos e subprodutos, essas florestas ajudam a formar camadas de solos férteis sobre a areia do deserto – as folhas e os galhos que caem sobre os solos são transformados em húmus, o que futuramente poderá criar novos espaços para uma agricultura sustentável. 

Quem sabe, essas florestas poderão em breve se transformar em uma nova atração turística do país. Inshallá (Que Deus permita)! 

A PRODUÇÃO DE DROGAS ILÍCITAS E A DEVASTAÇÃO DE SOLOS NA AMÉRICA LATINA

O título desta postagem pode deixar o leitor intrigado, mas existe sim uma ligação muito próxima entre a produção e o consumo de drogas ilícitas como a cocaína, a heroína e a maconha com a degradação do meio ambiente. Cito um exemplo – um estudo publicado em 2018 concluiu que resíduos de cocaína liberados através da urina de usuários estão provocando problemas de saúde em enguias que vivem nos rios da Europa. Apesar das concentrações de cocaína nas águas serem extremamente baixas, a substância está afetando músculos e ossos das enguias europeias (Anguilla anguilla). 

Um exemplo do tamanho do problema: uma análise feita no rio Pó, um dos maiores e mais importantes da Itália, em 2005, revelou que ele dá vazão a 4 kg de resíduos de cocaína diariamente. O trocadilho com o nome do rio fica por conta do leitor. Se o consumo “inocente e recreativo” dessas drogas, como afirmam muitos dos seus defensores, já causa problemas ao meio ambiente, imaginem o tamanho das tragédias que cercam a sua produção. 

A América Latina é, desgraçadamente, um dos grandes centros mundiais de produção e distribuição de drogas ilícitas como a cocaína, a heroína e a maconha. A Colômbia, país sobre o qual falamos na última postagem, ainda é, apesar de todos os avanços do Governo local no combate à produção e ao tráfico, um dos grandes produtores e exportadores mundiais de cocaína. 

De acordo com a publicação “Coca: Desmatamento, contaminação e pobreza” da PNC – Polícia Nacional da Colômbia, “a produção de drogas destrói no país uma média de 40.531 hectares de florestas por ano, ou seja, cerca de 111 hectares por dia, onde 80 por cento das espécies de árvores analisadas só existem nesse bioma”. Essa degradação ambiental também se reflete na destruição de habitats, onde são afetadas uma infinidade de espécies animais: são “600 aves, 170 répteis, 100 anfíbios e mais de 600 peixes”

Faltam estudos detalhados a esse nível sobre os impactos em outras regiões, mas não é difícil de intuir que algo semelhante ocorre também no Peru, na Bolívia, no Paraguai e no Brasil, países que, reconhecidamente, são grandes produtores e exportadores de drogas ilícitas.  

Frequentemente acompanhamos reportagens que mostram agentes da Polícia Federal aqui do Brasil destruindo plantações de maconha encontradas nos mais diferentes lugares do país. Também recebemos notícias de autoridades policiais de países vizinhos realizando operações semelhantes em plantações de coca, maconha e papoula, planta de onde se extraí a heroína. 

As terras usadas para essa produção normalmente ficam localizadas dentro de áreas públicas ou, em alguns casos, são propriedades particulares que foram tomadas pelos traficantes. Dados da Polícia Nacional da Colômbia de 2018, informam que aproximadamente 47% das plantações de drogas no país se encontravam dentro de Parques Nacionais Naturais, reservas indígenas ou em comunidades quilombolas. A área total ocupada por essas plantações superava a marca dos 225 mil hectares

Em áreas controladas por grupos guerrilheiros, como ocorreu por muito tempo na Colômbia, ou em regiões isoladas onde a presença do Estado é insignificante, as populações locais são simplesmente forçadas, mediante os tipos mais cruéis de ameaças, a dedicar parte ou todo o seu tempo trabalhando no plantio e processamento dessas drogas. 

Um outro fenômeno que vem sendo observado já há alguns anos é a contratação de famílias de camponeses que foram obrigados a abandonar suas terras por causa de fenômenos naturais como enchentes e secas, ou até mesmo casos onde a produção ficou comprometida por causa da degradação dos solos e desertificação. Essas famílias recebem um lugar para morar, comida e um salário para trabalhar nas plantações de drogas, como se estivéssemos falando aqui da produção de milho e batata, e não costumam fazer nenhuma pergunta. 

Produtores de drogas não tem qualquer compromisso com o meio ambiente – eles querem as melhores terras para conseguir uma alta produtividade em suas “culturas”. E não existem terras melhores do que os solos virgens de uma mata nativa. Grandes extensões dessas matas são derrubadas a golpes de machado ou com motosserras (as queimadas são sempre evitadas para não chamar a atenção das autoridades), onde são formadas grandes áreas de cultivo. 

Os produtores costumam se valer do plantio “consorciado” com outras espécies agrícolas comuns como uma forma de disfarçar suas plantações de drogas. Nas Serras da Cordilheira dos Andes no Peru e na Colômbia é comum o cultivo da batata e do milho junto com a coca e a papoula. No Brasil e no Paraguai, a maconha costuma ser plantada junto com a mandioca. Já na Bolívia, onde a produção de folhas de coca faz parte da cultura local, não é necessário nenhum tipo de artifício (vide foto). 

Conforme as necessidades de cada cultivo, serão usadas grandes quantidades de fertilizantes, além de muitos produtos químicos para o controle de insetos e ervas daninhas. As embalagens desses produtos serão descartadas sem qualquer preocupação com a contaminação de solos ou corpos d’água. Nos casos onde o objetivo é a produção de cocaína e heroína, coquetéis de produtos químicos serão utilizados no processamento das folhas e flores, com os resíduos descartados em solos e corpos d’água sem o menor remorso. 

Para o refino da cocaína, citando um exemplo, são utilizados produtos químicos como acetona, querosene, ácido sulfúrico, cal, carbureto e tolueno. Segundo os especialistas, a produção de cada quilograma da pasta básica de cocaína gera entre 400 e 600 gramas de resíduos químicos

Além de todos os problemas de violência que são decorrentes e/ou fazem parte da atividade criminosa, o plantio e o processamento de drogas ilícitas causa danos aos ecossistemas estratégicos, destrói a cobertura vegetal, leva espécie endêmicas à extinção, causa diminuição de áreas naturais, deteriora a qualidade dos corpos d’água devido a degradação física, química e biológica. Dependendo da área ocupada pelas plantações, o ciclo das chuvas e o clima local podem ser afetados, além de haver um aumento nas emissões de dióxido de carbono. 

Para completar, a “cereja do bolo”: quando a fertilidade dos solos ou a qualidade das águas nas plantações atinge elevados níveis de degradação, as atividades são simplesmente transferidas para áreas mais promissoras, onde os solos virgens das matas são excepcionalmente férteis e as águas límpidas abundam. O que fica para traz é um rastro de destruição – talvez a figura de “terra arrasada” seja a mais adequada. As áreas devastadas pela produção dessas drogas vão se juntar a outras grandes extensões destruídas por práticas agrícolas insustentáveis e irresponsáveis em todo o continente.

Muitos ecologistas de “carteirinha”, que “lutam abnegadamente” contra a destruição da Floresta Amazônica e de outros importantes biomas desde seus confortáveis apartamentos no Leblon, Ipanema e Copacabana, no Rio de Janeiro; nos Jardins em São Paulo, ou ainda em áreas nobres de Nova York, Londres ou Paris, costumam cheirar suas “carreirinhas” de cocaína ou fumar seus “baseados” sem maiores preocupações. 

Deixo aqui aquela pergunta incômoda: será que esse pessoal se incomoda com a devastação ambiental provocada por esses seus inocentes “hábitos” de lazer? 

A PREOCUPANTE SITUAÇÃO DOS SOLOS FÉRTEIS DA COLÔMBIA

Durante muito tempo, especialmente a partir da década de 1980, as principais notícias sobre a Colômbia tinham como focos principais a produção e a exportação de cocaína, e também a feroz luta das tropas do Governo Central contra diversos grupos paramilitares espalhados pelo interior do país. Quem nunca ouviu falar de Pablo Escobar, o “senhor da droga colombiana” e que chegou a ser considerado um dos homens mais ricos do mundo. Felizmente, muita coisa mudou nos últimos anos e outras notícias – a maioria bem melhores, passaram a sair da Colômbia. 

Com cerca de 47 milhões de habitantes, a Colômbia é o segundo país mais populoso da América do Sul, só ficando atrás do Brasil. Dentro do bloco das nações hispânicas, o país só tem uma população menor que o México, os Estados Unidos (falo aqui da comunidade hispânica no país) e a Espanha. Em termos econômicos, o país vem apresentando índices de crescimento acima da média Latino Americana e já é a 4ª maior economia da América do Sul. 

O território da Colômbia pode ser dividido, a grosso modo, em terrenos montanhosos da Cordilheira dos Andes e em grandes planícies como a Amazônica e a dos Llanos Orientales (vide foto), região formada por grandes campos e várzeas inundáveis. Cada um desses sistemas ocupa aproximadamente metade do território do país. Em termos populacionais, perto de 3% da população vive na região da Amazônia e dos Llanos e 20% nas planícies próximas ao Mar do Caribe – a imensa maioria dos colombianos vive na região da Cordilheira dos Andes 

A Cordilheira dos Andes ocupa toda uma área que vai do Centro da Colômbia até uma faixa bem próxima do litoral do Oceano Pacífico, onde existe uma estreita planície costeira coberta por vegetação. O trecho colombiano da Cordilheira dos Andes é dividido em três ramos – a Cordilheira Ocidental que acompanha a costa do Oceano Pacífico; a Cordilheira Central, que é delimitada pelos vales dos rios Cauca e Magdalena, e, por fim, a Cordilheira Oriental, que se estende até as bordas das planícies da faixa Leste do país. 

Os rios Cauca e Magdalena se formam a partir do degelo de glaciares no alto das montanhas andinas e correm em direção ao Norte. Os seus vales concentram algumas das cidades mais importantes da Colômbia como Cali, Medelin, Manizales, Pereira, Armênia, Quindio, Bucaramanga, Cúcuta e Bogotá, a capital do país. Esses vales também concentram uma parte considerável da agricultura e, por extensão, dos problemas ambientais associados aos solos. 

De acordo com informações do IGAC – Instituto Geográfico Augustin Codazzi, a Colômbia possui cerca de 11 milhões de hectares de solos com grande potencial para produção agrícola, uma área que corresponde a aproximadamente 9,6% do seu território. Entre as regiões com maior potencial agrícola se destacam os departamentos Atlántico, Sucre, Magdalena, Quíndio, Quíndio, Cundinamarca, BolivarAntioquia

Nos grandes vales colombianos se repetem os mesmos problemas encontrados nas Serras do Peru e que citamos na postagem anterior: o uso inadequado dos terrenos íngremes das encostas. Com a remoção da cobertura florestal natural para uso desses solos para a produção agrícola e sem maiores cuidados para conter a erosão, grandes volumes de solos férteis são perdidos a cada ano. 

Solos férteis, conforme já tratamos em postagens anteriores, são formados por sedimentos inertes finos, matéria orgânica, água e ar, que recobrem as camadas mais profundas de rochas inertes. Essa fina camada é o resultado de muitos séculos de processos de gênese de solos e é vital para o crescimento de vida vegetal e sustento de inúmeras formas de vida animal. Sem a proteção da vegetação, essa camada de solo fértil pode ser “lavada” e arrastada rapidamente pelas chuvas, podendo levar a processos graves de desertificação. 

Um outro problema grave da Colômbia é a salinização de solos. De acordo com informações do IDEAM – Instituto de Hidrologia, Meteorologia e Estudos Ambientais, cerca de 14 milhões de hectares ou 12,3% do território da Colômbia já é afetado pelo problema. A salinização dos solos pode ocorrer devido a problemas naturais como inundações e secas, assim como por ações antrópicas na agricultura, pecuária e mineração

As regiões mais afetadas pelo problema são La Guajira, Cesar, Magdalena e Atlántico. A situação mais grave se encontra em La Guajira, onde entre 70 e 80% dos solos apresentam o problema. O aumento da salinidade empobrece o solo, diminui a produção, modifica a acidez e também prejudica a qualidade dos recursos hídricos. 

A situação dos solos na Colômbia fica ainda mais preocupante quando se observam que várias ações governamentais estão sendo tomadas para transformar o país numa “potência” agrícola. Esse movimento ficou muito claro após os diversos acordos de paz assinados com os grupos guerrilheiros que, por décadas, mandaram e desmandaram em grandes áreas do país. 

A Colômbia já tem uma longa tradição na produção e exportação de produtos como café, cacau e frutas. Entretanto, o país possui um enorme potencial de crescimento – apenas 1/3 das terras férteis estão sendo usadas para fins agrícolas. Nos últimos anos têm sido intensos os processos de derrubada de matas e ocupação de áreas de campos por atividades agrícolas. Somente entre os anos de 2014 e 2016, 1,5 milhão de hectares de matas foram transformadas em campos agrícolas

Um exemplo a ser citado é a região dos Llanos, tradicionalmente ocupada por atividades pecuárias. Essa região tem características e um potencial agrícola muito semelhantes ao Cerrado brasileiro. As autoridades colombianas têm um grande interesse em estimular a produção de milho, cevada e feijão, alimentos básicos consumidos pela população e que o país importa atualmente. Também não podem ser ignorados os riscos para a extensa região da Amazônia colombiana. 

Outra área onde o país tem grande potencial é a produção de madeiras para exportação – a Colômbia possui cerca de 26 milhões de hectares de terras que podem ser usadas para esse fim. Atualmente, a Colômbia precisa importar grandes volumes de madeira do Chile e do Canadá. 

Os produtos agropecuários respondem por cerca de 8% do volume total de exportações da Colômbia. O objetivo do Governo é chegar a um valor próximo do Chile, onde esses produtos correspondem por 15% das exportações. Muitos empresários preferem olhar para a Argentina, onde cerca de metade das exportações são de produtos agropecuários. 

Para completar esse quadro com os riscos potenciais para o meio ambiente, a Colômbia vem perdendo receitas ano a ano com as exportações de petróleo, uma commodity importante para o equilíbrio das contas externas do país. Logo, a pressão da agricultura e da pecuária, além da mineração, sobre os solos só tenderá a aumentar ao longo dos próximos anos. 

A DESERTIFICAÇÃO AMEAÇA UM QUARTO DOS SOLOS DO PERU

Ocupando uma área total superior a 1,28 milhão de km², o Peru apresenta três grandes zonas climáticas bem definidas – uma faixa litorânea, os Andes e a Amazônia peruana.

Toda a faixa litorânea é formada por uma planície árida, onde raramente chove e que conta um grande número de rios temporários alimentados pelo degelo de glaciares nas montanhas andinas. A Cordilheira dos Andes atravessa todo o país no sentido Norte/Sul e, com suas diferentes altitudes, cria uma série de padrões climáticos. Por fim, uma área importante do país é ocupada pela Floresta Amazônica e onde predomina o clima equatorial. 

A aridez marcante de toda a faixa costeira do Peru é provocada pela Corrente de Humbolt, um grande fluxo de águas frias que acompanha a costa sul-americana do Oceano Pacífico desde o Sul do Chile até o Peru. A baixa temperatura dessas águas limita muito a evaporação, o que se reflete em raras chuvas nas áreas costeiras. A Cordilheira dos Andes também tem sua cota de responsabilidade na aridez da costa peruana – as montanhas impedem a passagem de massas de chuvas vindas da região da Floresta Amazônica. 

A Corrente de Humbolt se forma na Antártida e é considerada a corrente marítima de superfície com as águas mais frias – em média, as suas temperaturas são 8° C mais baixas que as temperaturas das águas oceânicas nas mesmas latitudes. O Deserto do Atacama no Norte do Chile é um exemplo da influência da Corrente de Humbolt no clima da América do Sul. Um detalhe relevante dessa corrente marítima é a alta concentração de plâncton, animais e plantas microscópicas, o que atrai uma grande quantidade de peixes. O Peru é um grande produtor e exportador de pescados. 

A maior parte da população do país, formada por cerca de 33 milhões de habitantes, vive nas chamadas Serras, uma área de transição entre as planícies áridas do litoral e as montanhas da Cordilheira dos Andes. As Serras tem um clima ameno e uma boa pluviosidade, concentrando a maior parte da produção agropecuária do país. 

Os produtos mais tradicionais da agricultura peruana são o milho e a batata, alimentos que vem sendo produzidos há milhares de anos pelas populações indígenas locais. Também merecem destaque as culturas de café, cacau, algodão, cana de açúcar e de frutas. Outro destaque do país é a produção de carnes, principalmente a de frango, onde o país está entre os vinte maiores produtores mundiais. 

As atividades agropecuárias respondem por aproximadamente 8,5% do PIB – Produto Interno Bruto, do Peru e, empregam 1/3 de toda a mão de obra. A agropecuária e a mineração, que responde por cerca de 14% da produção do país, formam a base da economia exportadora do Peru. 

Em tempos Pré-Colombianos, o Peru foi o centro da civilização Inca, um império que se estendia da Colômbia até o Norte do Chile, tendo como capital a cidade de Cusco. Bastante avançados em inúmeras tecnologias como a arquitetura e a astronomia, os incas deixaram um importante legado na agricultura. 

Para vencer as dificuldades climáticas e os problemas associados aos terrenos íngremes, os incas passaram a construir grandes terraços planos, o que facilitava a produção de alimentos como as batatas e o milho.  Um grande exemplo do uso dessa técnica pode ser visto em Moray, um sítio arqueológico próximo de Cusco (vide foto). Também desenvolveram importantes obras para irrigação desses terraços agrícolas – canais eram escavados nas rochas, permitindo o transporte da água desde o alto das montanhas. Alguns especialistas afirmam que essa antiga produção agrícola era bem maior que a produção atual no Peru. 

A atual agricultura ocupa grandes extensões das encostas das Serras, o que permite usufruir das generosas chuvas que caem nas montanhas dos Andes. Em algumas regiões, o índice pluviométrico é superior aos 3 mil mm. Essa abundância de águas traz alguns problemas – o principal deles são os riscos de erosão dos solos. 

Existe um ditado antigo e muito sábio que diz que “fogo morro acima e água morro abaixo são forças incontroláveis da natureza“. E quando se fala em produção agrícola em terrenos íngremes, essa verdade é incontestável. Nós brasileiros temos um grande exemplo desse problema: a rápida degradação das terras do Vale do rio Paraíba do Sul pela cafeicultura a partir de meados do século XIX. 

Relembrando rapidamente: a densa cobertura de Mata Atlântica dessa região foi derrubada e no seu lugar foram plantados milhares de pés de café. Ao invés de serem plantados em linhas de nível respeitando a declividade dos terrenos, esses cafezais foram plantados em linha das partes altas para as mais baixas. Resultado – em pouco tempo as chuvas “lavavam” os solos e arrastavam toda a camada fértil. Em poucas décadas, a cultura cafeeira do Vale do Paraíba entrou em profunda decadência por falta de fertilidade nos solos. 

No Peru, esse é um problema recorrente e grande parte dos solos férteis do país são vulneráveis. Devido ao mal uso dos solos e a falta de cuidado no plantio em terrenos íngremes, grandes trechos das propriedades sofrem com fortes processos erosivos, o que é o primeiro passo para a desertificação. Conforme comentamos em uma postagem anterior, cada centímetro de solo fértil é resultado de processos centenários ou até milenares de gênese ou formação.

Além dos problemas de degradação de solos provocados pela agricultura, o Peru também sofre com os problemas criados pela mineração. Os solos do país são ricos em minerais nobres como o ouro, a prata e o cobre, entre muitos outros. Além de atrair grandes empresas do setor, a atividade atrai milhares de “mineiros clandestinos”. Dados do Governo afirmam que existem mais de 300 mil trabalhadores envolvidos em mineração clandestina no país. 

Conforme já tratamos em inúmeras postagens aqui no blog, as atividades mineradoras, por melhor gerenciamento e cuidados ambientais empregados, são verdadeiras fontes de problemas para o meio ambiente. São montanhas de rejeitos minerais, grandes trechos de vegetação devastados, rios e fontes de água comprometidas, entre inúmeros outros problemas.

Quando a questão envolve atividades clandestinas, onde não existem quaisquer controles governamentais, trata-se de uma sucessão de pequenos desastres ambientais ao redor de cada uma das áreas de mineração. Segundo o Governo do Peru são mais de 60 mil dessas áreas, grande parte em regiões com forte vocação agrícola. Ou seja – importantes áreas que poderiam ser usadas na produção agrícola e pecuária estão sendo destruídas pela mineração. 

Moral da história: aproximadamente 24% do território peruano enfrenta graves problemas de degradação de solos e riscos de desertificação, uma tragédia que já afeta, direta e indiretamente, cerca de 20 milhões de pessoas. Contando com um sistema de fiscalização precário e dada a difusão do problema por grande parte do território do país, é difícil imaginar uma melhora nessa situação num curto e médio prazo. 

Fica aqui o registro de mais essa tragédia ambiental sul-americana. 

BOLÍVIA: A PRODUÇÃO DA QUINOA, OS RISCOS DE DESERTIFICAÇÃO E O DESAPARECIMENTO DO LAGO POOPÓ

Brasil e Bolívia são países vizinhos que compartilham algumas características físicas comuns ao longo da sua grande fronteira seca com mais de 3.400 km de extensão. As regiões Leste e Norte da Bolívia são tomadas pela Floresta Amazônica, bioma que ocupa uma grande área do território brasileiro. 

No Sudeste do país encontramos La Chiquitania ou Los Llanos de Chiquitos, uma grande extensão de campos que guardam semelhanças com o Cerrado brasileiro. Por fim, a parte Sul do país é ocupada com grandes terrenos alagadiços – o Gran Chaco Boliviano, que em parte é uma extensão do Pantanal Mato-Grossense. 

Essa grande semelhança nos biomas também implica numa semelhança de problemas – a região da Chiquitania é bastante suscetível a incêndios florestais assim como o nosso Cerrado. Em 2019, essa região ardeu impiedosamente por causa de fortes queimadas, que também atingiram áreas da Amazônia boliviana. Os meios de comunicação internacionais fizeram um grande estardalhaço ao falar dos incêndios na Amazônia brasileira há essa época, mas pouco falaram dessas queimadas na Bolívia. 

Durante a COP 25 – Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, realizada em Madrid no final de 2020, os representantes do Governo Interino da Bolívia afirmaram que mais de 5 milhões de hectares da Amazônia boliviana foram devastados e/ou queimados apenas em 2019.  

Um estudo feito em 2010, pela FES – Friedrich Ebert Stiftung, uma fundação ambiental da Alemanha, já havia concluído que a devastação florestal na Bolívia era uma das mais altas do mundo – cerca de 320 metros quadrados por habitante, vinte vezes maior que a média mundial de 16 metros quadrados por habitante. As declarações dos representantes da Bolívia na COP 25 corroboraram essa informação.

Pela semelhança desses biomas com seus correspondes brasileiros e também pelas mesmas agressões ambientais, os solos dessas regiões bolivianas apresentam problemas de erosão e, em muitos casos, de desertificação muito parecidos com aqueles que ocorrem no Brasil. Para darmos um enfoque diferente a essas questões, vamos nos ater a região do Altiplano, onde vive a maior parte da população da Bolívia. 

Toda a área Central e Oeste do território da Bolívia é tomado pela Cordilheira dos Andes. O trecho boliviano da Cordilheira é bem largo e se divide em duas grandes cadeias montanhosas paralelas – a Cordilheira Oriental e a Cordilheira Ocidental. Entre essas montanhas encontramos o Altiplano ou Planalto Boliviano, onde as altitudes médias são de 3.800 metros. 

O Altiplano Boliviano constitui a segunda maior área de planalto do mundo, só ficando atrás do Planalto do Tibet. A diversidade climática é grande, com áreas apresentando um clima mais frio e úmido e outras possuindo climas áridos e semiáridos. 

Um grande exemplo dos problemas ambientais do Altiplano foi mostrado em uma postagem anterior, quando falamos do desaparecimento do Lago Poopó no início de 2017. Esse lago era considerado o segundo maior corpo d’água da Bolívia, só ficando atrás do Lago Titicaca. O espelho d’água desse lago ocupava uma área total que, nos momentos de cheias máximas, chegava aos 2.500 km², uma área equivalente a 6 vezes a Baía da Guanabara. 

As águas que alimentavam o Lago Poopó vinham de uma fenda natural na parte Sul do Lago Titicaca, conhecida como rio Desaquadero. Essa fenda funcionava como uma espécie de “ladrão”, que escova todo o excedente de águas do Lago Titicaca na direção do Lago Poopó. As águas que formam o Lago Titicaca são originárias do degelo de neves de glaciares espalhados nas montanhas e tem seu volume variável ao longo dos anos. 

A tragédia derradeira do Lago Poopó teve início quando as autoridades locais passaram a realizar obras para a construção de canais de irrigação a partir do rio Desaguadero, especialmente para atender as grandes plantações de quinoa (vide foto), um grão típico dos Andes. Em 2007, a NASA – Administração Nacional de Aeronáutica e Espaço dos Estados Unidos, na sigla em inglês, divulgou um estudo sobre os alimentos que seriam usados pelos astronautas da Estação Espacial e deu grande destaque para a quinoa, um grão extremamente rico em proteínas. 

Após a divulgação desse estudo, a quinoa virou uma verdadeira febre entre os adeptos da “vida saudável” – todos passaram a consumir a quinoa e as principais regiões produtoras nos Andes em países como Bolívia, Peru e Chile foram grandemente ampliadas. Isso foi o que também ocorreu no Altiplano Boliviano, uma região de solos pobres e arenosos, e também com pouca disponibilidade de água. Na Bolívia, a maior fonte de água doce do Altiplano é o Lago Titicaca – o desaparecido Lago Poopó tinha águas salgadas. 

Pois bem – com a febre da quinoa e com o uso intensivo das águas do rio Desaguadero para irrigação, os caudais que chegavam até o Lago Poopó foram rapidamente diminuindo. Sem conseguir repor os grandes volumes de água perdidos para a evaporação nessa região de grandes altitudes, o lago Poopó começou a secar rapidamente. 

A situação dramática do Lago Poopó já não era nova a essa altura – desde os tempos coloniais, imensos volumes de rejeitos da mineração, que sempre foram abandonados sobre os solos sem maiores preocupações, eram carreados pelas chuvas na direção do Lago Poopó. Esses sedimentos foram se acumulando sobre o fundo do Lago, cuja coluna d’água mal passava dos 3 metros, e reduzindo ainda mais a sua profundidade Essa situação contribuiu muito no processo de evaporação e desaparecimento das águas do Lago Poopó. 

O antigo fundo do Lago Poopó era coberto por uma grossa camada de sal, que passou a ser varrida pelos fortes ventos do Altiplano, espalhando sedimentos salgados por uma extensa área, comprometendo ainda mais a baixa fertilidade dos solos das regiões de entorno. O que era um antigo lago cheio de vida – especialistas da Bolívia calculam que cerca de 200 espécies de aves, peixes, mamíferos, répteis e anfíbios, além de uma grande variedade de plantas viviam no Lago, desapareceram e surgiu no seu lugar um pequeno deserto de areias salgadas que está em expansão

A febre da quinoa prossegue no Altiplano. Muitos camponeses que há muito haviam trocado o trabalho na agricultura pela vida complicada nas cidades estão voltando para seus locais de origem para tentar a sorte na produção do grão. Existem muitos conflitos entre grupos pela posse das terras. No mercado internacional, o quilo da quinoa chega a valer US$ 30,00, mas os produtores do Altiplano conseguem menos de US$ 2,00 pela sua produção. 

Os solos frágeis do Altiplano, que chegam a possuir um teor de areia de até 80%, estão sendo sobrecarregados e utilizados de forma inconsequente. A preciosa água também está sendo explorada ao máximo. A busca alucinada pelo saudável alimento andino está, desgraçadamente, provocando a destruição e a desertificação do Altiplano Boliviano. 

Vida saudável às custas da devastação ambiental de um importante bioma – que alguém me explique isso… 

AS FORTES SECAS, A DESERTIFICAÇÃO E OS RISCOS PARA AS FONTES DE ÁGUA NO CHILE

O Chile é um daqueles países do mundo que tem uma geografia das mais interessantes. O país se estende por cerca de 4.500 km no sentido Norte Sul, porém, apresenta uma largura média de apenas 175 km. Ao Norte se encontram as paisagens do Atacama, o deserto mais árido mundo. Ao Sul, reina a Patagônia Chilena, com grandes geleiras, fiordes e fabulosos lagos. Já na área Central do país, o clima é mediterrâneo e os vales verdejantes dominam os horizontes. 

Completando as características únicas do território do Chile, a majestosa Cordilheira dos Andes “cerca” toda a faixa Leste e as águas frias do Oceano Pacífico delimitam suas terras a Oeste. Eu tenho grandes amigos chilenos e todos são unânimes em afirmar que é muito difícil se perder no país – se você entrou numa rodovia errada, em muito pouco tempo chegará ou ao mar ou nas montanhas. 

Essa clara divisão do território chileno em zonas climáticas bem definidas foi fundamental no povoamento do país desde os tempos coloniais. A faixa Central com seu clima mediterrâneo permitiu a fundação de inúmeras cidades e o assentamento de um sem número de propriedades rurais, enquanto o resto do país manteve populações mais rarefeitas, se especializando em atividades como a mineração ao Norte e a produção de pescados ao Sul.

Na última década, entretanto, o clima vem apresentando uma instabilidade incomum e cerca de 2/3 do território do Chile vem sendo assolado por sucessivas secas, o que vem atingindo cerca de 90% da população do país. Secas não são fenômenos climáticos incomuns no Chile, porém, a frequência e a intensidade nesses últimos anos chamam a atenção. 

De acordo com informações do Escritório de Mudanças Climáticas do Chile, a média das chuvas no país entre 1961 e 2018 apresentou uma diminuição nas precipitações da ordem de 23 mm a cada década. Essa redução gradativa do volume de chuvas tem reflexos diretos nas atividades agrícolas, pecuárias e também no abastecimento das populações das cidades. 

Além das questões climáticas, o país também sofre com o uso inadequado dos solos pelas atividades agropecuárias e os números não são nada animadores: segundo informações da CONAF – Corporação Nacional Florestal, os riscos de degradação dos solos ameaçam 79,1% do território do país e, muito pior, a desertificação compromete 21,7% das terras do Chile.  São aproximadamente 16 milhões de hectares ameaçados pela desertificação, onde vivem cerca de 7 milhões de pessoas em 156 das 346 comunas do país

O relatório “Mudança climática e terra” do IPCC – Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, na sigla em inglês, afirma que “processos de erosão dos solos afetam 84% da região de Coquimbo, 57% do território de Valparaíso e 37% dos solos de O’Higgins“. De acordo com os pesquisadores, apenas 12% desses problemas podem ser lançados na “conta” das mudanças climáticas globais – a maior parte é resultado das ações humanas. Em muitos desses locais, a degradação dos solos já chegou ao estágio de desertificação.

Além dos processos de desertificação tradicionais ligados ao uso inadequado dos solos, que também ocorrem em muitos países vizinhos, o Chile também apresenta um caso muito particular – segundo estudos de muitos pesquisadores, o Deserto do Atacama está avançando lentamente em direção ao Sul

Informações do Atlas de Mudanças Climáticas da Zona Árida do Chile indicam que a zona central do país sempre teve um clima semiárido, porém, tem se observado um gradual aumento da aridez nessa região. Segundo os pesquisadores, isso não significa que as areias do Atacama estão avançando em direção ao Sul, mas sim que está aumentando a sua influência e tornando o clima dessa região mais árido. 

O Deserto do Atacama (vide foto) possui uma área total superior a 105 mil km² e ocupa toda uma faixa de 1 mil km do Norte do Chile até a fronteira com o Peru. Ele é considerado o deserto mais árido do mundo. As poucas chuvas que caem no Atacama estão associadas às águas frias da Corrente de Humbolt no Oceano Pacífico, por um lado, e também pela Cordilheira dos Andes, que bloqueia a chegada de massas de chuvas vindas da região da Floresta Amazônica. 

A aridez do Deserto do Atacama influencia o clima da faixa Central do Chile, assim como o de uma extensa faixa do Sul do Peru, do Sudoeste da Bolívia e do Noroeste da Argentina. As mudanças climáticas no Deserto do Atacama, muito provavelmente, estão associadas a todo um conjunto de mudanças climáticas já observadas em todo o mundo

Os problemas do Chile, infelizmente, não param por aí – essas mesmas mudanças climáticas estão ameaçando geleiras de montanhas, um problema que já está afetando glaciares em toda a Cordilheira dos Andes. Uma parte considerável da água dos rios e lagos do Chile provém do derretimento de geleiras ou glaciares no alto dos Andes. Ou seja – a redução dessas massas de gelo terá reflexos importantes no volume dos recursos hídricos do país. 

Em postagens anteriores já apresentamos a gravidade do problema: no Equador, as geleiras dos vulcões Antizana, Cotopaxi e Chimborazo já perderam entre 42 e 60% de suas massas. Na Venezuela, das 10 geleiras que existiam em 1952, só restam 5. Na Colômbia, 8 geleiras desapareceram restando apenas 6. Na Cordillera Blanca no Peru, a cadeia de montanhas em área tropical com a maior concentração de geleiras do mundo, os 722 glaciares existentes sofreram uma redução de 22,4% desde 1970. Na Bolívia, as geleiras de Charquini perderam entre 65 e 78% das suas áreas nas últimas décadas. 

Em Quito, no Equador, cidade hoje que é totalmente abastecida por rios com nascentes em geleiras nos Andes, estão sendo realizadas uma série de obras com financiamento do BID – Banco Interamericano de Desenvolvimento, a fim de reduzir essa dependência. Os equatorianos pretendem usar os recursos hídricos disponíveis na região dos páramos andinos, um tipo de vegetação dos Andes Tropicais que se desenvolve entre os 3 mil metros de altitude e a faixa de formação de neve das montanhas. 

Os páramos formam uma espécie de “esponja natural”, onde se acumulam grandes quantidades da água originada a partir das chuvas e do derretimento das neves das montanhas. Existe uma certa similaridade entre os páramos e os banhados dos Pampas brasileiros. Na Colômbia, onde o problema também poderá comprometer o abastecimento de água em cidades como Bogotá, também existem projetos para o aproveitamento da água dos páramos. 

Para infelicidade dos chilenos, essa faixa de altitudes nos Andes meridionais é dominada pela puna, um bioma predominantemente seco ou, em alguns casos, levemente úmido. Essa característica da vegetação andina local limita, e muito, as opções futuras para o abastecimento de água dos chilenos. 

Além de seguir à risca a cartilha com as recomendações para o uso sustentável dos solos nas atividades agrícolas e pecuárias e também no combate à desertificação, o Chile precisa repensar os modelos de produção de algumas de suas principais culturas. Vou citar o exemplo da vinicultura – em alguns vinhedos há registros do consumo excessivo de água: até 10 mil litros para a produção de uma única garrafa de vinho, enquanto que a média mundial está próxima dos 870 litros. A diferença é muito grande. 

É preciso agir enquanto ainda há tempo…