Posts de ferdinandodesousa

Escritor, jornalista, gestor e educador ambiental. Especialista em projetos de comunicação social e de educação ambiental.

A EPIDEMIA DA COVID-19 EM MADAGASCAR E OS RISCOS AOS LÊMURES

Nas postagens anteriores fizemos um rápido diagnóstico da situação ambiental em Madagascar, a maior ilha da África e a maior ilha do mundo. Dona de uma biodiversidade única, Madagascar vem sofrendo há vários séculos com a introdução de espécies exóticas – animais e vegetais, com desmatamentos para a abertura de campos agrícolas e aproveitamento das madeiras raras de suas florestas, além do uso menos nobre para a produção de carvão.

Isolada por mais de 88 milhões de anos de outras áreas continentais, as espécies de Madagascar evoluíram de forma independente, o que resultou em espécies únicas. Uma das formas de vida mais icônicas de Madagascar são os lêmures, uma família de primatas arborícolas com feições simpáticas, focinhos largos e caudas peludas exclusivas da ilha. Existem 107 espécies de lêmures na ilha, das quais cerca de 1/3 estão criticamente ameaçados de extinção. A redução dos habitats e a caca predatória estão entre as principais causas do desaparecimento dos animais.

Restritos a um território que corresponde a meros 0,4% da superfície da Terra, os lêmures respondem por mais de 15% das espécies de primatas vivos do planeta. As diferentes espécies ocupam os mais diferentes nichos ecológicos nas matas malgaxes. A menor das espécies, o lêmure-rato (Microcebus berthae), tem um peso de apenas 60 gramas e cabe com folga na palma de nossa mão. Os animais da espécie Indri indri, ao contrário, podem atingir uma altura de 72 cm e um peso de 10 kg. Desde o início da colonização humana em Madagascar, que começou com a chegada de austronésios vindos da Ilha de Bornéu entre 350 a.C. e 550 d.C, pelo menos 17 espécies de lêmures já foram extintas.

O mais novo capítulo da epopeia dos lêmures começou em 2020 com o início da pandemia da Covid-19. Com a interrupção praticamente total dos voos internacionais e dos fluxos de turistas, a economia de Madagascar entrou em colapso. A receita anual gerada pelo turismo, cerca de US$ 900 milhões, formava a base da economia malgaxe e empregava cerca de 300 mil pessoas. Com a perda maciça de postos de trabalhos, centenas de milhares de pessoas abandonaram as cidades e buscaram refúgio nas áreas rurais do país.

Esse grande fluxo de pessoas retornando para uma vida agrícola levou a um aumento substancial nos desmatamentos – dados preliminares indicam um aumento de 10% desde o final de 2019. A derrubada das matas é feita num processo muito semelhante a coivara praticada pelos índios e agricultores pobres do Brasil, conhecida localmente como tavy. São lotes de terra com pouco mais de 2 hectares, que tem sua vegetação derrubada e queimada, preparando os solos para o plantio de culturas como arroz, amendoim e milho. Essas áreas conseguem produzir no máximo por 2 anos, quando são substituídas por terras “virgens”, ou seja, novos trechos de matas que são derrubados e queimados.

As matas também oferecem lenha para a produção de carvão vegetal, um combustível largamente utilizado pela população para cozinhar alimentos. As áreas desmatadas também criam espaços para a criação de animais domésticos como ovelhas, cabras, galinhas e porcos. Esse avanço contra os remanescentes florestais de Madagascar estão reduzindo e fragmentando cada vez mais os habitats dos animais silvestres, especialmente dos lêmures.

Um exemplo da situação crítica dos lêmures é Montagne des Francais, uma região que abriga o habitat do lêmure-desportista-do-norte, espécie que é muito conhecida por seus gritos estridentes. Essa espécie atinge uma altura de 18 centímetros e possui uma pelagem marrom-acinzentada. De acordo com organizações ambientalistas locais, mais de 80% das populações dessa espécie foram exterminadas nas duas últimas décadas por causa da derrubada das matas para a produção de carvão e da caca predatória. Segundo o último recenseamento, restam menos de 100 lêmures-desportistas-do-norte, o que coloca a espécie em situação de criticamente ameaçada.

A redução de habitats também cria problemas de isolamento de populações de animais, o que cria altos índices de reprodução de animais com elevado grau de parentesco. Essa consanguinidade aumenta os casos de nascimento de animais com problemas genéticos. A proximidade entre diferentes grupos de animais também resulta em ferrenhas disputas territoriais entre os machos, o que normalmente resulta na morte de animais mais jovens e mais fracos. Somando-se todos esses problemas, o resultado são populações de animais cada vez menores e com uma menor diversidade genética, algo que pode ser definido como a “metade do caminho” para a extinção de uma espécie.

Cerca de 90% das espécies animais e vegetais de Madagascar são exclusivas, o que torna a ilha um dos mais importantes hot spots da biodiversidade do mundo. Os riscos de extinção vividos pelos lêmures se estendem a outras espécies como pássaros, camaleões, mamíferos, insetos e plantas das mais diferentes espécies. O grande laboratório evolutivo que surgiu na ilha está a um passo da devastação completa.

Existem cerca de 400 mil pessoas ameaçadas pela sede e pela fome na faixa Sul de Madagascar por causa da seca sem precedentes que está assolando o país, além de outros milhões de malgaxes que foram empurrados para as áreas rurais por causa da pandemia da Covid-19. Todas essas pessoas precisam urgentemente de ajuda internacional para sobreviver. O mundo precisa olhar com muita atenção a tragédia humana e ambiental que está assolando Madagascar.

O dilema ético é cruel: qual das espécies de primatas devem ser priorizadas – criancinhas humanas ou lêmures?

A GRANDE SECA EM MADAGASCAR

A imagem que ilustra essa postagem é uma das muitas que vem ocupando manchetes em noticiários de todo o mundo e que mostram a grande tragédia humana que está assolando o Sul da ilha de Madagascar. Devido as mudanças climáticas no Oceano Índico, as chuvas estão se tornando cada vez mais raras no Sul da ilha e mais de 400 mil pessoas estão sofrendo com a fome e a sede. Se qualquer um de vocês fizer uma rápida pesquisa na internet, encontrará vídeos de pessoas cozinhando e comendo o couro de sapatos ou raízes de bananeira por absoluta falta de qualquer outro alimento.

Mais de 90% do território da ilha de Madagascar já foi coberto por uma luxuriante vegetação tropical. A derrubada de matas para a abertura de campos agrícolas, especialmente de arroz, o corte de madeiras para a produção de lenha e carvão, e, cada vez com uma intensidade maior, a exploração comercial de madeiras raras como o ébano e o resewood, destruíram a maior parte da cobertura vegetal da ilha. As paisagens atuais de Madagascar lembram uma grande savana e restam entre 10 e 15% das antigas matas nativas. Os problemas ambientais da ilha são grandes e aumentam gradativamente ano após ano.

Manchetes falando da destruição da Floresta Amazônica costumam ocupar grandes espaços nos noticiários, especialmente no período da seca, época em que crescem muito as queimadas na região, sejam elas naturais ou provocadas por ações humanas. Porém, cabe aqui aquele velho lembrete – apesar de todos esses problemas, cerca de 85% da cobertura florestal da Amazônia continua intacta. No caso de Madagascar, a situação é exatamente inversa e a maior parte das matas já foram destruídas. Chama a atenção a ausência de vozes dos grandes defensores do meio ambiente como Emmanuel Macron, Presidente da Franca (que aliás era a antiga Metrópole da ex-colônia de Madagascar), Greta Thunberg e Leonardo Di Caprio.

As consequências dessa intensa destruição da cobertura florestal malgaxe há muito já são sentidas pelos locais – cerca de 52% da população, que atualmente está na casa dos 24 milhões de habitantes, não tem acesso a fontes de água potável e/ou são abastecidas precariamente com água contaminada, uma situação que, em termos percentuais, é uma das mais graves do mundo na atualidade. Ironicamente, Madagascar possui um clima tropical na maior parte do seu território, onde ocorriam fortes e abundantes chuvas nos meses de verão, que despejam um volume total de 835 bilhões de m³ de águas pluviais sobre o território a cada ano. Fazendo uma conta rápida, são quase 3.500 m³ de água para cada habitante da ilha a cada ano. 

Sem a antiga cobertura vegetal das florestas nativas, os solos perderam a permeabilidade, ou seja, a capacidade de facilitar a infiltração da água e a recarga dos aquíferos e lençóis freáticos, as fontes de alimentação de rios, riachos e ribeirões. A maior parte das águas pluviais então corre com violência sobre os solos desnudos, provocando erosão e assoreamento dos corpos d’água, e correndo diretamente na direção do oceano, sem deixar reservas para os meses de seca. 

A situação sempre foi mais grave na parte Sul de Madagascar, região com clima semiárido e onde os solos rochosos são menos permeáveis, permitindo uma infiltração de quantidades menores de água. Com a redução do volume de chuvas por causa das mudanças climáticas, a situação que já era ruim ficou absolutamente caótica. Com o assoreamento e a destruição de grande parte dos pequenos cursos d’água, a escavação de poços se transformou na principal fonte para o abastecimento de vilas e comunidades por toda a Ilha. Essa alternativa, entretanto, vem apresentando problemas: sem a recarga dos lençóis freáticos e aquíferos, os poços precisam ser escavados a profundidades cada vez maiores.

Os problemas climáticos de Madagascar estão ligados diretamente as mudanças climáticas que vem sendo observadas já há algumas décadas no Oceano Índico e que estão criando graves problemas na África Austral, no Subcontinente Indiano e em todo o Sudeste Asiático. Medições sistemáticas das temperaturas das águas superficiais do Índico mostram um aumento contínuo, o que vem se refletindo em mudanças na formação de massas de nuvens, nos regimes de ventos e nas correntes marítimas. As grandes massas de nuvens que se formam sobre o Oceano Índico são arrastadas na direção da África e da Ásia, criando as temporadas de chuvas nessas regiões.

Com as mudanças nas condições climáticas no Oceano Índico, tanto os volumes quanto a frequência dessas chuvas estão mudando. Um grande exemplo são as Chuvas da Monção, um período de chuvas intensas que todos os anos caem sobre o Subcontinente Indiano e Sudeste Asiático. O que se tem observado nos últimos anos é uma completa irregularidade nessas chuvas, com algumas regiões recebendo volumes muito acima da média histórica e outras recebendo chuvas bem fracas. Na África Austral, as chuvas estão com volumes bem abaixo da média, o que vem afetando a vida de milhões de pessoas em países como a África do Sul e Moçambique.

O Oceano Índico também está sendo afetado por grandes volumes de água doce que estão sendo despejados pelo derretimento de massas de gelo da Antártida. Nos últimos 40 anos, a velocidade do derretimento do manto de gelo no continente aumentou em cerca de 6 vezes. Somente nos últimos 20 anos, a Antártida perdeu cerca de três trilhões de toneladas de gelo. Além da incidência direta do calor do sol, esse derretimento também vem sendo provocado pelas águas mais quentes dos oceanos – destaque aqui para o Oceano Índico, que derretem e desestabilizam as bordas das plataformas de gelo flutuante. 

A consequência direta de tudo isso é um aumento gradual do nível dos oceanos – foram 1,4 centímetro de aumento entre 1979 e 2017. Isso pode parecer pouco, mas já está causando muitos estragos pelo mundo afora. Diversas correntes marítimas que são formadas ao largo da Antártida estão tendo seus volumes e intensidades aumentadas, o que tem alterado a dinâmica de outras correntes marítimas em todo o mundo.

E a ilha de Madagascar, que está no meio de todas essas mudanças climáticas do Oceano Índico, está sofrendo com as consequências. Infelizmente, isso é só o começo das grandes mudanças no clima planetário…

MADAGASCAR E A “TEMPESTADE PERFEITA”

Ocupando uma área total de 857 mil quilômetros quadrados, Madagascar é a maior ilha do continente africano e a quarta maior ilha do mundo. A origem da ilha remonta ao antigo Supercontinente de Gondwana, do qual também faziam parte a África, a América do Sul, a Antártica, a Índia, a Austrália, a Nova Zelândia, a Nova Guiné, a Nova Caledônia, entre outras ilhas menores. Com o início da fragmentação de Gondwana há cerca de 160 milhões de anos atrás, Madagascar e a Índia formavam um único bloco de terras, que começou sua deriva rumo ao Leste. Há cerca de 88 milhões de anos, a Índia se separou de Madagascar e seguiu sua deriva até colidir com o Sul da Ásia.

Ficando totalmente isoladas de outros territórios, a fauna e a flora de Madagascar evoluíram de forma independente, criando uma biodiversidade das mais exclusivas do mundo. Cerca de 90% de todas as plantas e animais da ilha não são encontrados em outros locais do mundo. Dois exemplos das formas animais únicas de Madagascar são os lêmures, uma classe de primatas autóctones da Ilha, e as fossas, um mamífero carnívoro que se assemelha fisicamente aos grandes felinos, mas que, na realidade, é aparentado com as fuinhas europeias. Outro exemplo são os baobás (vide foto), árvore símbolo de Madagascar com seis espécies exclusivas da ilha.

Madagascar é considerado um hotspot de biodiversidade e colocado sempre em posição prioritária quando o assunto é conservação ambiental. Infelizmente, a realidade de Madagascar é outra – a ilha é um dos países com a biodiversidade mais ameaçada do mundo. A lista de problemas é tão grande que usei a expressão “tempestade perfeita” para resumir tudo o que vem acontecendo com o país. Vamos começar falando da intensa perda de cobertura florestal na ilha.

Originalmente, 90% do território malgaxe era coberto por florestas tropicais – atualmente, restam entre 10 e 15% das florestas nativas. Segundo estimativas de Alexandre Georget, Ministro do Meio Ambiente do país, “caso a destruição continue nesse ritmo, daqui a 40 anos Madagascar terá o seu território completamente desmatado“. 

Com uma população na casa dos 24 milhões de habitantes, Madagascar é um dos países mais pobres do mundo (não por acaso, é uma das ex-colônias da França na África). A pressão econômica da população contra as florestas está na raiz da devastação ambiental da Ilha. As queimadas para a abertura de campos para agricultura de subsistência, a extração de madeiras para exportação e a produção de carvão vegetal são as atividades que lideram os desmatamentos. 

Um dos principais produtos agrícolas de Madagascar é o arroz, que é plantado em pequenos lotes com menos de 2 hectares. Esses lotes têm sua cobertura vegetal derrubada e queimada, numa prática conhecida pelos malgaxes como “tavy”, muito parecida com a nossa coivara. Esses lotes produzem no máximo por um período de 2 anos, quando então são abandonados para um período de “descanso” entre 4 e 6 anos. Passado esse período, o lote volta a ser plantado. Esse ciclo de uso da terra dos lotes pode ser repetido de 2 a 3 vezes, quando então a terra é abandonada por absoluta falta de fertilidade e novos trechos de matas nativas serão transformados em lotes agrícolas. 

Além do arroz, o país tem uma importante produção de café, item que responde pela maior fatia das exportações da Ilha. Também são destaques a produção de cana-de-açúcar, mandioca e de frutas como bananas, laranjas, maçãs e abacaxis. Também são comuns as criações de ovelhas, cabras, galinhas e porcos. No campo da mineração, uma atividade que costuma ser devastadora para o meio ambiente, Madagascar só dispõe de algumas reservas de tungstênio. 

Outra fonte importante de desmatamentos em Madagascar é a exploração madeireira, que muitas vezes é feita dentro das poucas áreas de florestas protegidas. Algumas das madeiras nativas de Madagascar como o ébano e o rosewood possuem um altíssimo valor no mercado internacional, com preços chegando à casa do US$ 2 mil por tonelada. Contando com uma legislação ambiental fraca e com uma rede de autoridades facilmente corrompíveis, o contrabando de madeiras “corre solto” na Ilha. 

Por fim, e não menos devastadora, a produção de carvão vegetal e lenha avança sobre as árvores que não têm um grande valor comercial, especialmente as árvores das chamadas “florestas espinhentas” formadas por árvores da espécie Allauadia. A lenha e o carvão são vendidos livremente na beira das estradas e são usados como fonte de energia para se cozinhar pelas famílias das vilas e aldeias do país. 

Outro problema ambiental histórico importante vem sendo a introdução maciça de espécies exóticas na ilha ao longo dos séculos. Estudos arqueológicos indicam que os primeiros povos a desembarcar em Madagascar foram austronésios vindos da Ilha de Bornéu entre 350 a.C. e 550 d.C. Por volta do ano 1000, grupos bantos atravessaram o Canal de Moçambique e se estabeleceram na ilha. Depois, a ilha assistiu diversas ondas de colonizadores malaio-indonésios. Os primeiros europeus a desembarcar na ilha foram os portugueses, que descobriram Madagascar em 1500. Cada um desses grupos acabou introduzindo na ilhas seus animais domésticos e suas plantas comestíveis.

Na extensa lista de animais introduzidos, podemos citar vacas, bois, porcos, galinhas, cavalos, burros, gatos, cachorros, ratos, carneiros, cabritos, entre muitos outros. Recentemente, sapos-cururus foram encontrados na ilha – em postagens recentes, falamos dos enormes problemas ambientais que essa espécie criou no Havaí e na Austrália. Entre as plantas, vamos destacar a cana-de-açúcar e o café, entre outras espécies já citadas. Espécies exóticas, conforme já tratamos em postagens anteriores, concorrem com as espécies nativas, muitas vezes com grande vantagem e podem causar a redução de populações ou mesmo a extinção de espécies locais.

O problema ambiental mais recente da ilha de Madagascar é uma forte seca que está sendo provocada por mudanças ambientais no Oceano Índico. De todos os grandes oceanos do planeta, o Índico é o que, proporcionalmente, mais sofre com o aquecimento global e com as interferências das mudanças climáticas na Antártida. O derretimento de grandes massas de gelo no Polo Sul tem provocado alterações nas correntes marinhas do Oceano Índico que, combinadas com o aumento da temperatura das águas, tem reflexos diretos na formação e no deslocamento das massas de umidade que atingem a África e a Ásia – algumas áreas estão sofrendo com chuvas abaixo da média e outras com volumes muito acima da média histórica. 

As medições sistemáticas da temperatura das águas do Oceano Índico começaram em 1880. Nos últimos anos, estas medições têm encontrado aumentos sucessivos nas temperaturas das águas: em 2010, foi observado um aumento de 0,70° C em relação à média histórica; em 2011, a temperatura média caiu um pouco e mostrou um aumento de 0,58° C; em 2012, o aumento foi de 0,62° C e em 2013, o aumento  foi de 0,67° C. Nos anos seguintes, foram registrados recordes sucessivos de aumento da temperatura: 0,74° C em 2014, 0,90° C em 2015 e 0,94° C em 2016. 

O conjunto de problemas que tem se abatido sobre o Oceano Índico se reflete diretamente em Madagascar – todo o Sul da ilha vem enfrentando um seca sem precedentes e está ameaçando a sobrevivência de mais de 400 mil pessoas. Vamos falar mais sobre isso em nossa próxima postagem.

MANDIOCA: UMA ESPÉCIE SUL-AMERICANA QUE É INVASORA EM TERRAS DA ÁFRICA E DA ÁSIA

A mandioca (Manihot esculenta), também conhecida como macaxeira, aipim, castelinha, uapi, madioca-doce, mandioca-mansa, maniva, miniveira, pão-de-pobre, mandioca-brava e mandioca-amarga, entre muitos outros nomes, é um dos alimentos mais consumidos do mundo. De acordo com dados da FAO – Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, a mandioca faz parte da alimentação básica de mais de meio bilhão de pessoas em todo o mundo

Nas regiões tropicais, a cultura é a terceira mais importante fonte de carboidratos, ficando atrás apenas do arroz e do milho. A mandioca é plantada em mais de 100 países, especialmente na África, e no Sul e Sudeste Asiático. Entre os maiores produtores destaca-se a Nigéria, maior produtor mundial, Tailândia, Indonésia, Brasil, Angola, Moçambique, Timor-Leste e Sao Tome e Príncipe.

Para você que sempre imaginou que a mandioca era uma planta 100% brasileira, fica aqui a nossa dica – sim, a planta é tupiniquim de corpo e alma. A mandioca selvagem é originária da América do Sul e foi doméstica desde tempos imemoriais pelos nossos indígenas. Em estado natural, a mandioca é rica em cianeto de hidrogênio, um composto volátil e altamente tóxico. Os indígenas descobriram que o cozimento da mandioca eliminava o excesso de cianeto, tornando o produto seguro para o consumo. 

Através de inúmeros experimentos com muitos erros e alguns acertos, esses povos desenvolveram as melhores técnicas de plantio e as diferentes etapas para a preparação da farinha de mandioca, um alimento que foi e ainda continua sendo fundamental para populações de todo o Brasil e de muitos países pelo mundo afora. 

De acordo com diversas fontes históricas e literárias -cito como exemplo o livro Casa-Grande e Senzala de Gilberto Freire, um verdadeiro clássico brasileiro, os colonizadores europeus ficaram fascinados com a grande fartura de farinha de mandioca entre os grupos indígenas e com a sua facilidade de produção quando comparada à farinha de trigo. Entre a população colonial brasileira, a farinha de mandioca era ingrediente de uma infinidade de pratos como bolos, sopas, angus, farofas e muitos outros.  

O tubérculo cozido em água podia ser consumido in natura apenas com a adição de sal ou preparado com diversos tipos de carnes, formando pratos típicos de nossa culinária com a “vaca atolada”. O polvilho, um tipo de farinha da fécula muito fina, se transformou num dos ingredientes fundamentais dos bijus, das tapiocas e do pão de queijo. 

Arte complexa que nos legaram os indígenas, a produção das farinhas assumiu cores e sabores regionais, dando alma à culinária brasileira de Norte a Sul, de Leste a Oeste, de Nordeste a Sudeste. Existe uma infinidade de tipos de farinhas: mais finas, mais grossas, seca, d’água, de biju, brancas, amarelas, cada uma com um sabor e uma diferente gama de aplicações nos mais diferentes e deliciosos pratos.  

Ainda no século XVI, a farinha de mandioca começou a conquistar o mundo – primeiro nas naus portuguesas como alimento de longa conservação nas suas viagens ao redor do mundo, depois como escambo na troca por escravos na África. Em 1593, os navios do famoso pirata inglês Richard Hawkins tomaram um navio português de 400 toneladas no Rio da Prata e descobriram que parte da carga era farinha de mandioca. Hawkins dedicou várias páginas do seu diário de bordo falando da farinha de mandioca e revelou que um tipo de panqueca feita com o produto “tornou-se a comida preferida de toda a tripulação dos nossos navios“

Os caminhos feitos pela farinha de mandioca acabaram sendo seguidos pela planta, que acabou sendo levada para a África e para a Ásia por naus portuguesas e de outras nações. Encontrando condições climáticas semelhantes aquelas encontradas nas principais áreas de produção do Brasil, a mandioca rapidamente foi conquistando novos territórios e consumidores. 

Entre as razões para esse grande sucesso da mandioca pelo mundo afora destacamos a alta produtividade da planta. De acordo com dados da FAO do ano de 2010, a produtividade média da mandioca em todo o mundo era de 12,5 toneladas por hectare. Em fazendas com alta produtividade na Índia, essa média de produção chegou a incríveis 34,8 toneladas por hectare nesse mesmo ano. 

Outro fator chave para o sucesso da cultura é o ciclo de produção, com alguns cultivares chegando ao ponto de colheita em apenas seis meses. Após atingir o ponto ideal da colheita, as raízes podem permanecer sob o solo por períodos superiores a um ano sem estragar, formando uma reserva de alimentos fundamental para as populações de regiões extremamente pobres e sujeitas a fortes ciclos de seca. 

Até o ano de 2006, foram catalogadas mais de 4 mil cultivares diferentes da mandioca apenas aqui no Brasil. Essa ampla variedade genética é fruto dos trabalhos de seleção e de conservação feitos por agricultores em suas lavouras. Essas variedades costumam ser chamadas de “crioulas” e despertam grande interesse entre os pesquisadores e instituições de pesquisa. Esses diferentes tipos de cultivares tem ciclos de produção entre 6 e 36 meses. 

Além do consumo da raiz do tubérculo, em muitos países africanos é comum o consumo das folhas da mandioca moídas em um pilão com alho. Essa farinha de folhas secas é depois cozida com mariscos, caranguejos ou camarões. Em Moçambique esse prato recebe o nome de matapa, sendo considerado um ícone da culinária local. Em Angola, esse prato é chamado de kissaca. Aqui no Brasil, curiosamente, as folhas da planta só são aproveitadas em algumas localidades da Região Norte.  

Nas Filipinas, um prato muito popular é o bolo de mandioca, conhecido localmente como kakanin cassava bibingka. Ele é feito a partir da mandioca ralada, que depois de devidamente lavada para a remoção do excesso de cianeto, é misturada com leite de coco, açúcar, ovos e manteiga, recebendo depois uma cobertura feita com leite cremoso. 

Entre os nossos vizinhos sul-americanos, um exemplo de prato feito a partir da mandioca é a carimañola colombiana, um bolinho em forma de torta. Há registros da preparação desse prato entre membros do povo de Saliva na Província de Casanare no início de 1856. 

Como se nota, não são apenas espécies exóticas que são introduzidas em território brasileiro e se transformam em grandes problemas na competição com as espécies locais. Espécies brasileiras, animais e vegetais, também são “exportadas” para outros países e podem se transformar em um grande problema para as espécies locais dessas regiões. 

Como diria uma ex-presidente brasileira, “vamos saudar a mandioca”… 

A DELICIOSA E ONIPRESENTE BATATA-DOCE DOS POLINÉSIOS SERIA UMA ESPÉCIE INVASORA?

A colonização das ilhas do Oceano Pacífico pelos polinésios é, de longe, a maior saga das migrações oceânicas da história da humanidade. Partindo do Sudeste Asiático em canoas primitivas repletas de pessoas, animais domésticos e plantas, os polinésios iniciaram por volta do ano 1200 a.C, a colonização das ilhas isoladas do maior oceano do mundo.  

Sem mapas, instrumentos náuticos ou conhecimentos das correntes oceânicas e do regime de ventos, esses pioneiros navegadores se lançaram rumo ao horizonte azul seguindo as estrelas, as aves migratórias e as nuvens. Ao longo de dois milênios, os polinésios desbravaram o maior de todos os oceanos, com uma área total equivalente a um terço da superfície terrestre. Evidências arqueológicas e linguísticas sugerem o contato entre polinésios e povos sul-americanos séculos antes da chegada das expedições de Cristóvão Colombo, João Vaz Corte Real e Pedro Álvares Cabral.  

A origem dos polinésios remonta a algo como 33 mil anos atrás, quando populações que viviam numa faixa de terras entre o que é hoje a Malásia e o Vietnã passaram a navegar de ilha em ilha nas áreas de mares entre o Sudeste Asiático e a Austrália. Essa grande saga durou cerca de 30 mil anos, quando os polinésios chegaram ao Arquipélago de Bismark no Extremo Leste dessa região, fechando a primeira fase da colonização polinésia. 

Foi por volta do ano 1200 a.C., que os polinésios voltaram a sua atenção para o gigantesco Oceano Pacífico. Observando as migrações das aves marinhas, os polinésios entenderam existir outras terras além mar e organizaram expedições exploratórias. Suas referências para navegação eram, além das aves, as estrelas e as grandes massas de nuvens no horizonte, uma clara indicação da presença de terra firme. 

A cada ilha descoberta, uma nova colônia era formada. As expedições eram formadas por homens e mulheres, além de toda uma gama de animais domésticos como galinhas e porcos, além de plantas comestíveis como os cocos e hortaliças. De tempos em tempos, grupos de exploradores voltavam até suas ilhas de origem, mantendo assim um contínuo intercâmbio cultural e comercial. 

Um dos arquipélagos mais distantes alcançados pelos navegadores polinésios foram as Ilhas do Havaí, descobertas entre o ano 300 a.C e 600 da Era Cristã. De acordo com as lendas da tradição oral, o nome dado ao arquipélago vem de Havaí Loa, nome do descobridor das ilhas. Outra hipótese é ser uma derivação da palavra polinésia para casa – Hawaiki

Outro marco nessa exploração foi a descoberta do arquipélago da Nova Zelândia pela tribo dos maoris, um dos muitos grupos polinésios, por volta do ano 1280 da Era Cristã . Conforme comentamos em uma postagem anterior, os maoris encontraram uma fauna bastante diferente nessas ilhas, inclusive as moas, grandes aves terrestres. Em cerca de 200 anos, a caça intensiva levou as moas a extinção. 

território conquistado pelos polinésios pode ser delimitado por um grande triângulo com uma área equivalente à do Brasil. Nos vértices desse triangulo encontramos ao Norte as Ilhas do Havaí, a Leste a Ilha de Pascoa e ao Sul a Nova Zelândia. Cada um dos lados desse triângulo tem cerca de 10 mil km de comprimento. 

A origem dos polinésios intrigou os pesquisadores ocidentais por muito tempo. Segundo os relatos de muitos navegadores dos séculos XVIII e XIX, era muito comum encontrar entre os nativos das ilhas pessoas com um tom de pele mais claro e também com olhos claros, muito provavelmente de ascendência europeia. Essa evidência coincide com algumas lendas de povos da América Central e do Sul sobre a chegada de homens brancos e barbudos em embarcações na costa do Oceano Atlântico num passado remoto. 

No México, a lenda fala do deus branco Quetzalcotl (“serpente emplumada”), que veio navegando do Oceano Atlântico. Entre os povos incas, da porção ocidental da América do Sul, foi Viracocha (“mar tempestuoso”) que veio do mar ocidental.  Entre os maias, o estrangeiro semelhante a um deus era Kukulkan e, em outras tribos maias, o estrangeiro era Gucumatz. Entre os índios brasileiros era SuméTumé ou Maírahomem branco barbado que caminhava sobre as águas, deixava rastros na pedra e que teria ensinado muitas coisas aos índios. De acordo com todas essas lendas, esses homens voltaram para o mar e desapareceram. 

Uma das evidências mais intrigantes dessa conexão entre as Américas e as ilhas polinésias no Oceano Pacífico é o culto ao deus Tiki existente entre os povos pré-incaicos do Peru e da Bolívia e também em diversas ilhas espalhadas ao longo de milhares de quilômetros no Oceano Pacífico. Outra evidencia, essa bastante apetitosa, é o consumo da batata-doce pelos polinésios, uma planta originária dos Andes sul-americanos e cuja cultura foi disseminada pelas ilhas do Pacífico há centenas de anos.  

A batata-doce (Ipomoea batatas) passou a ocupar uma posição de destaque como item alimentar polinésio, semelhante ao da mandioca entre os indígenas brasileiros e ao do milho entre os povos centro-americanos. Considerando que exista qualquer fundo de verdade nessas antigas lendas, não é nada difícil imaginar que foram esses homens barbudos os responsáveis pela disseminação das batatas-doces por algumas das ilhas do Oceano Pacífico. 

Uma outra provável origem dessa espécie de planta invasora nas ilhas polinésias pode ser encontrada em antigas lendas transmitidas pela tradição oral, que falam de um rei havaiano que visitou a costa Oeste da América do Sul num passado distante. Esse rei comandava uma flotilha com centenas de jangadas polinésias – as pai-pai. Teria sido nessa viagem que os polinésios conheceram e se encantaram pelas nossas deliciosas batatas-doces. Entre as cargas levadas na viagem de volta até a Ilhas do Havaí, se encontravam grandes quantidades da raiz. 

A partir das ilhas havaianas, as batatas-doces teriam sido levadas para as ilhas mais distantes por sucessivas expedições dos navegadores. Todas essas hipóteses são fundamentadas em meras especulações lendárias. Porém, considerando a grande capacidade de navegação dos povos antigos, como é o caso dos próprios polinésios, nenhuma delas pode ser considerada improvável. 

Estudos recentes feitos com o DNA de diversas espécies de batatas-doces colocaram essa hipótese da disseminação das plantas por esses antigos navegadores em cheque. De acordo com esses estudos, a planta surgiu há cerca de 800 mil anos e as espécies encontradas nas ilhas do Oceano Pacífico divergiram das espécies sul-americanas há cerca de 100 mil anos atrás, muito tempo antes das navegações dos polinésios. 

Serão necessários ainda muitos anos e inúmeras novas pesquisas até se encontrar algum fundo de verdade dentro de tudo isso. Para finalizar, deixo uma outra questão curiosa: a palavra polinésia para batata-doce é kuumala e entre as populações Quechua da costa Oeste da América do Sul é kumara. A semelhança entre as palavras de povos tão distantes não parece ser uma mera coincidência.  

A INTRODUÇÃO DOS SAPOS-CURURU NA AUSTRÁLIA, OU AS AMEAÇAS AO CROCODILO DE JOHNSTON

Na postagem anterior fizemos uma rápida análise dos grandes impactos ambientais criados pela introdução dos sapos-cururu nas Ilhas do Havaí. Espécie comum da fauna sul-americana, esses animais foram levados para as ilhas havaianas com a missão de combater pragas de insetos que ameaçavam os grandes canaviais locais. Exitosos em sua missão, os sapos-cururu passaram a infestar as matas das ilhas e a ameaçar uma infinidade de espécies locais. 

No início da década de 1930, os canaviais da faixa Leste da Austrália sofriam grandes perdas devido a uma infestação de besouros-da-cana (Dermolepida albohirtum), e não demorou muito até algum dos produtores locais lembrar da façanha dos sapos-cururu no controle de pragas semelhantes nas Ilhas do Havaí.  

Em 1933, um lote com 102 animais foi capturado nas ilhas havaianas e levados até a Austrália, onde passaram a ser soltos nos canaviais. O sapo-cururu (Rhinella marina), também chamado de sapo-boi, sapo-jururu ou simplesmente cururu, é uma espécie de sapo robusto, que se adapta aos mais diferentes climas, ecossistemas e recursos alimentares. Em média, os sapos-cururu têm um tamanho entre 10 e 15 cm, mas já foram encontrados exemplares com 38 cm de comprimento. 

Espécie muito fecunda, os sapos-cururu rapidamente passaram a abundar nas zonas canavieiras australianas, porém, sem conseguir repetir o sucesso de sua introdução nas Ilhas do Havaí. Ao contrário dos insetos rasteiros dos canaviais do Havaí, os besouros-da-cana da Austrália se alojavam nos caules das plantas bem acima do solo, numa altura em que os sapos não conseguiam atingir com seus pulos. 

Em busca de outros recursos alimentícios, os sapos-cururu passaram a abandonar as plantações de cana-de-açúcar e foram se dispersando primeiro pelas matas costeiras e depois por regiões mais interioranas do Outback, nome com o qual os australianos se referem a sua “Grande Ilha”. 

Conforme comentamos na postagem anterior, os sapos-cururu são dotados de glândulas de veneno abaixo de sua mandíbula, uma defesa natural que torna a espécie intragável para a maior parte dos predadores. Somente jacarés-de-papo-amarelo e algumas espécies de aves e cobras nativas da América Central e do Sul conseguem tolerar esse veneno. Na fauna australiana, predadores de sapos como cobras, lagartos, aves de rapina e marsupiais passaram a se intoxicar com o veneno dos sapos-cururu e a morrer em grande quantidade, o que alterou o equilíbrio ecológico de muitas regiões. 

Além de contar com esse poderoso arsenal químico, os sapos-cururu sofreram uma adaptação física natural, o que aumentou a sua velocidade de propagação em cinco vezes ao longo dos últimos 60 anos. Estudos anatômicos comparativos com espécimes preservados em museus demonstraram que as patas traseiras dos sapos-cururu tiveram um aumento de 25% em seu comprimento, aumentando proporcionalmente a força muscular e a velocidade dos animais – os sapos se transformaram em “pequenos e velozes cangurus”. 

Cálculos feitos por entidades ambientais do país calculam que já existem mais de 200 milhões de sapos-cururu na Austrália e a espécie não para de invadir ecossistemas em todas as regiões australianas. De acordo com estudos feitos através do monitoramento de sapos que receberam pequenos radiotransmissores, esses animais conseguem percorrer até 2 km por dia em suas migrações pelo interior do país

Além de ameaçar outras espécies de anfíbios locais, os sapos-cururu impactam aves, repteis, pequenos mamíferos, répteis e até animais de grande porte como os crocodilos-de-água-doce-da-Austrália (Crocodylus johnstoni), também chamados de crocodilo de Johnston e crocodilo-anão (vide foto). Esses crocodilos habitam as áreas alagadas e os manguezais do Norte da Austrália e têm menos da metade do comprimento de seus temidos primos que vivem nas águas salgadas da região e que podem atingir até 6 metros de comprimento. 

Esses crocodilos se alimentam de peixes, aves e anfíbios, o que os expõe frequentemente ao contato com o sapos-cururu e ao envenenamento. No reino animal, as espécies levam dezenas de gerações até conseguirem se adaptar a mudanças em seu meio ambiente. Em muitos casos, espécies são levadas a extinção antes de conseguirem se adaptar a mudanças, um problema que poderá ocorrer com os crocodilos de Johnston

Estudos científicos realizados em quatro localidades do Norte australiano indicaram que houve uma redução média de 45% nas populações dos crocodilos de Johnston após a introdução dos sapos-cururu no país. Num dos locais pesquisados, a Lagoa Longreach, foi observada uma redução de pouco mais de 15% nas populações dos répteis. Em outro local estudado, no encontro dos rios Victoria Wickham, a redução da população dos crocodilos atingiu a impressionante marca de 77%.   

Sempre que uma espécie de topo da cadeia alimentar de um determinado nicho ecológico apresenta uma redução na sua população, espécies predadas como peixes, répteis, mamíferos, anfíbios e aves sofrem grandes explosões populacionais. Citando um exemplo aqui do Brasil, a caça indiscriminada de jacarés-do-Pantanal nas décadas de 1970 e 1980 levou a um crescimento descontrolado das piranhas nos rios e lagos da região. É esse tipo de risco que assombra os habitats dos crocodilos australianos. 

Após diversas tentativas frustradas para o controle das populações de sapos-cururu, as autoridades ambientais da Austrália estão partindo para uma solução radical – centros científicos do país estão trabalhando no desenvolvimento de sapos machos, geneticamente modificados para serem estéreis. Criados em cativeiro até atingirem a fase adulta, esses sapos serão introduzidos em ambientes infestados com sapos-cururu, onde lutarão com os outros machos na disputa pelas fêmeas, porém sem conseguir sucesso na reprodução.  

Além das matas da faixa costeira da Austrália, os sapos-cururu começam a avançar na direção das áreas semiáridas e desérticas do interior do continente, onde estão impactando as populações de outras espécies da fauna local e se juntando a outras espécies invasores que, há muito tempo, vem causando inúmeros problemas ambientais. Destaco aqui os ratos, os coelhos e as lebres. 

A introdução de espécies exóticas lembra muito aquela história da velhinha incomodada com um rato que vivia embaixo de sua cama. Para caçar o rato, ela trouxe um gato, precisando depois de um cachorro para expulsar o gato, de um leão para expulsar o cachorro e, depois, de um elefante para expulsar o leão. Por fim, a pobre mulher foi obrigada a arrumar um outro rato para expulsar o elefante. 

Depois que uma espécie exótica invade um novo meio ambiente, é muito difícil conseguir retirá-la de lá. Que o digam os sapos-cururu… 

“SAPO-CURURU DA BEIRA DO RIO”

O título dessa postagem apresenta a última frase da antológica poesia “Os Sapos”, de Manuel Bandeira, publicada em 1919 e que ganhou uma enorme repercussão durante a Semana de Arte Moderna de 1922. Nascido na cidade do Recife, Bandeira conviveu em sua infância com toda a fauna dos manguezais e alagados dos rios Capibaribe e Beberibe. Entre os animais mais emblemático dessa fauna se encontravam os sapos-cururu, personagem frequente em histórias e lendas do folclore brasileiro.  

O sapo-cururu (Rhinella marina), conhecido em muitas regiões como sapo-boi, sapo-jururu ou simplesmente cururu, é uma espécie de sapo encontrada em extensas áreas das Américas Central e do Sul, sendo muito comum em muitos lugares do Brasil. É uma espécie robusta, que se adapta aos mais diferentes climas, ecossistemas e recursos alimentares. Em média, os sapos-cururu têm um tamanho entre 10 e 15 cm, mas já foram encontrados exemplares com 38 cm de comprimento. 

Entre os segredos do sucesso da distribuição ambiental dos sapos-cururu estão a alta fertilidade das fêmeas, que produzem grandes quantidades de ovos, e as grandes glândulas de veneno que o animal possui sob a mandíbula, o que o torna uma presa altamente tóxica para a maioria dos predadores. Jacarés-do-papo-amarelo e algumas espécies de cobras e aves estão entre os poucos predadores que conseguem tolerar o veneno dos sapos dessa espécie.  

A fama de robustez e de alta capacidade de adaptação a novos ecossistemas levaram à introdução dos sapos-cururus em algumas ilhas oceânicas pelo mundo afora, especialmente para o combate de pragas em plantações de cana-de-açúcar. A espécie é chamada em espanhol de sapo de caña e em inglês de cane toad, nomes que podem ser traduzidos nos dois casos como “sapo-da-cana” e que demonstram a aplicação da espécie nessa função.  

Porém, como não é muito difícil de se imaginar, os impactos ambientais criados pela introdução dessa espécie invasora em novos ambientes, onde não existem predadores naturais, resultaram em grandes desastres ecológicos. Um desses casos foi a introdução dos sapos-cururu nas Ilhas do Havaí, onde os animais teriam a missão de combater a infestação dos canaviais por grandes hordas de insetos.  

Domesticada há cerca de 10 mil anos no Sudeste Asiático, a cana-de-açúcar foi espalhada por todo o mundo ao longo da história das civilizações. Os primeiros relatos da produção de cana-de-açúcar nas ilhas havaianas datam de 1802, quando imigrantes chineses introduziram a espécie com vistas a produção do açúcar

A colonização das ilhas havaianas por navegadores polinésios se estendeu entre o ano 300 a.C e 600 da Era Crista. De acordo com as lendas da tradição oral, o nome dado ao arquipélago vem de Havaí Loa, nome do descobridor das ilhas. Outra hipótese é ser uma derivação da palavra polinésia para casa – Hawaiki. A descoberta das ilhas por europeus se deu em 1778, quando o Capitão James Cook desembarcou no arquipélago. 

De origem vulcânica e bastante isoladas de outras porções de terra, as ilhas do arquipélago foram colonizadas lentamente por plantas cujas sementes foram carregadas a longas distancias pelos fortes ventos alísios do Oceano Pacífico. Esses ventos também foram responsáveis pela chegada de várias espécies de insetos voadores. Aves de diversas espécies foram “descobrindo” as ilhas durante as suas rotas de migração e muitas acabaram se estabelecendo nesses territórios. 

Outro meio de transporte usado por insetos, crustáceos, pequenos répteis e anfíbios para chegar até as Ilhas do Havaí foram troncos e restos de vegetação flutuante arrastadas na direção do oceano por tempestades e levadas até o arquipélago pelas fortes correntes marítimas. Isoladas no novo ambiente, essas diversas espécies evoluíram de forma independente e formaram um bioma muito exclusivo e com espécies únicas. 

A introdução de espécies exóticas teve início com a chegada dos primeiros polinésios as ilhas. Em suas grandes canoas, os navegadores polinésios carregavam animais domésticos como porcos, galinhas, cães e gatos, além de espécies vegetais como os cocos e a batata-doce, uma planta originária da América do Sul que, “curiosamente”, foi espalhada pela maioria das ilhas do Oceano Pacífico. 

Com a colonização por europeus e asiáticos a partir do século XIX, dezenas de outras espécies exóticas passaram a ser introduzidas nas ilhas. Além da cana-de-açúcar, podemos destacar o abacaxi e as batatas, além de animais domésticos como ovelhas, cabras, vacas e cavalos, entre muitos outros. 

Até o início do século XIX, cada uma das ilhas havaianas formava um reino independente. Em 1810, o rei Kamehameha I unificou as ilhas do Havaí sob um único reino. Com a forte expansão da indústria açucareira, a influência dos Estados Unidos sobre as ilhas aumentou muito. Em 1893, a rainha havaiana Liliuokalani foi deposta e os norte-americanos criaram a República do Havaí, território anexado pelos Estados Unidos em 1898 e que foi transformado em território norte-americano em 1900. 

A introdução dos sapos-cururu nas ilhas havaianas data do início do século XX, época em que a produção da cana-de-açúcar estava sendo ameaçada por ataques de diversas espécies de insetos, especialmente besouros. Há essa época, os sapos-cururu já gozavam de uma ótima reputação como espécie controladora de insetos nos canaviais das Américas Central e do Sul. Animais passaram a ser capturados em florestas da Região da Costa do Oceano Pacífico, principalmente no Peru, Equador e Colômbia, sendo transportados e soltos nos canaviais das ilhas havaianas. 

Os robustos e adaptáveis sapos-cururu rapidamente mostraram “serviço” e conseguiram controlar as grandes infestações nos canaviais havaianos. Entretanto, como sempre acontece quando se introduz uma espécie exótica em um novo ambiente, os animais começaram a abandonar gradativamente as áreas de produção de cana-de-açúcar e a se espalhar por áreas de matas nativas. Sem se preocupar com ameaças de predadores naturais, a população desses sapos cresceu muito.

Muito maiores e mais fortes que as espécies de anfíbios nativos do Havaí, os sapos-cururu começaram a conquistar cada vez maiores territórios mediante uma competição “desleal”. Além de anfíbios locais, os sapos sul-americanos passaram a ameaçar também diversas espécies de répteis, insetos, vermes e crustáceos nativos, que tiveram suas populações fortemente reduzidas e passaram a ser ameaçadas de extinção. 

Os fortes impactos ambientais criados pela introdução dos sapos-cururu nas Ilhas do Havaí passaram relativamente despercebidos ao longo de várias décadas. Essa relativa” invisibilidade” desses impactos se deve ao fato das espécies impactadas serem pequenas e de habitarem locais isolados no meio das matas.  

No início da década de 1930, os sapos-cururu receberam a missão de repetir a mesma façanha na Austrália, onde uma grande praga de besouros-da-cana (Dermolepida albohirtum)  infestava os canaviais em grandes regiões do país. Lá, os impactos ambientais foram bem maiores que aqueles observados nas Ilhas do Havaí. 

Falaremos disso na próxima postagem. 

OS RATOS E OS COQUEIROS DO ATOL PALMYRA

Nas ultimas postagens falamos bastante dos problemas ambientais provocados pela invasão de ratos em ambientes de ilhas, como foi o caso da Nova Zelândia. Hoje vou apresentar um caso mais contemporâneo, onde um arquipélago no Oceano Pacífico acabou sendo invadido por ratos e palmeiras – falo aqui do atol Palmyra., um interessante estudo de caso. 

O atol Palmyra fica localizado bem no centro do Oceano Pacífico, sendo formado por cerca de 50 ilhotas de areia, rochas e recifes, que eram cobertos por densa vegetação equatorial. Durante a Segunda Guerra Mundial, esse atol abrigou uma importante base aeronaval dos Estados Unidos, abrigando milhares de marinheiros. 

Antes do início do conflito, as ilhas eram praticamente intocadas e repletas de espécies endêmicas. Com o tráfego intenso de navios militares e de cargueiros há época, ratos-pretos que viajavam como clandestinos nos porões de carga desembarcaram no atol e começaram a colonizar as matas. Outra espécie invasora que foi trazida pelos militares norte-americanos foram os coqueiros. 

Os ratos são animais inteligentes e se adaptaram rapidamente ao novo ambiente. Os invasores passaram a se alimentar de pequenos caranguejos nativos, ovos e filhotes de pássaros, brotos de árvores, entre outros alimentos, conseguindo prosperar rapidamente. Os coqueiros, que passaram a se reproduzir após cocos serem descartados nas matas, começaram a se multiplicar e a ocupar espaços sem qualquer controle. 

Ao final do século XX, os ratos-pretos e os coqueiros acabaram transformando completamente as paisagens do atol Palmyra. Nada menos que oito espécies de aves nativas desapareceram e os coqueirais ocuparam cerca de metade dos antigos domínios da antiga mata equatorial. Ilhotas mais próximas também foram alcançadas pelos ratos, que chegaram nadando, e por cocos arrastados pelas correntezas, que brotaram e deram início a formação de grandes coqueirais.  

Para a maioria dos leitores, a multiplicação desenfreada dos coqueiros pode não parecer um grande problema, mas, para as aves nativas, essa mudança é fatal: essas espécies não conseguiam fazer seus ninhos nos galhos dos coqueiros e assim não podiam se reproduzir. Somando esse impacto a predação dos ninhos pelos ratos, a consequência foi uma grande redução das populações de aves. Diversas espécies de caranguejos também tiveram suas populações fortemente reduzidas. 

Aqui entra em cena um outro detalhe muito importante: em um ambiente com recursos naturais limitados como uma ilha, as fezes das aves, também chamado de guano, têm a importante função de fornecer nutrientes para as plantas. Ou seja: com a redução da população de aves passou a existir uma menor disponibilidade desse fertilizante natural, o que levou a vegetação a rarear. 

A diminuição dos recursos florestais teve reflexos no fornecimento de nutrientes para as lagunas que circundam o atol. Resíduos florestais, formados por folhas e frutos caídos no solo, são carreados pelas chuvas para os cursos d`’água e seguem na direção do oceano, contribuindo para a cadeia de nutrientes que alimentam o plâncton, seres microscópicos animais e vegetais que formam a base da cadeia alimentar dos oceanos. 

Ambientes insulares representam apenas 5% da área terrestre de nosso planeta, porém, abrigam cerca de 19% das espécies de aves e 17% das espécies de plantas. Isso nos dá uma pequena ideia da contribuição de nutrientes que essas espécies fornecem aos oceanos. 

Uma espécie comum nas lagunas dos atóis do Oceano Pacífico são as arraias-manta, uma espécie que se alimenta de plâncton e que sofreu uma forte redução na sua população na região do atol Palmyra. O efeito cascata da redução de nutrientes e dos estoques de plâncton também afetaram inúmeras espécies de peixes, moluscos e vermes que vivem nas águas ao redor do atol. 

Por mais incrível que pareça, a chegada dos ratos-pretos e dos coqueiros ao atol Palmyra acabou tendo reflexos nas formações de corais que abundam nas águas que circundam as ilhas. Corais são estruturas vivas que abrigam dezenas e mais dezenas de espécies marinhas. Com a redução da cadeia de nutrientes, os corais começaram a morrer, impactando diretamente nas populações de espécies marinhas que vivem em seus domínios. 

O caso das ilhas do atol de Palmyra chamou a atenção de grupos conservacionistas e, a partir de 2011, teve início um projeto para a erradicação dos ratos-pretos e dos coqueiros das ilhas. Esse projeto foi implementado em conjunto pelo Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos Estados Unidos e pela Island Conservation. De acordo com um censo feito pelos especialistas, viviam cerca de 10 mil ratos em Palmyra, uma densidade 10 vezes maior que em outras áreas tropicais. 

Após vários meses de observação, os especialistas conseguiram determinar o período em que todas as aves abandonam as ilhas e seguem em suas rotas de migração. Equipes de campo realizaram a captura da maior quantidade possível de aves remanescentes. Uma vez concluídos esses trabalhos, teve início uma fase de lançamento de iscas com veneno para os ratos-pretos através de helicópteros. Parte dessas iscas caiu sobre a copa dos coqueiros, um local acessível para os ratos, mas não para os caranguejos. 

Graças a essa estratégia, o atol Palmyra passou a ser considerado livre dos ratos. Apesar de todos os cuidados dispensados pelos especialistas, muitas aves nativas e espécies marinhas acabaram morrendo por contaminação pelas iscas dos ratos. Equipes também passaram a cortar os coqueiros, iniciando um processo de erradicação da espécie. 

Após a erradicação dos ratos da ilha principal do arquipélago, os pesquisadores passaram a observar um aumento substancial na quantidade de mudas de Pisonia grandis, uma árvore da flora local muito procurada pelas aves para nidificação. Cerca de um ano depois, essas mudas de árvore já estavam à altura dos joelhos e, após dois anos, já tinham uma altura de vários metros, indicando claramente a recuperação da floresta nativa. 

Os pesquisadores também observaram o reaparecimento de duas espécies de caranguejos terrestres. É provável que esses caranguejos já vivessem no atol, porém com populações muito pequenas devido a predação feita pelos ratos. 

Após a erradicação dos ratos e a recuperação de parte da cobertura vegetal nativa, os pesquisadores passaram a se ocupar do repovoamento da ilha com as espécies nativas da fauna local. Uma interessante estratégia adotada foi o uso de alto falantes espalhados pela ilha, que reproduziam o canto das espécies desaparecidas. Aves que passavam ao largo da ilha em suas rotas de migração eram atraídas por esses cantos e passaram a pousar na ilha. Pouco a pouco, as aves voltaram a nidificar na ilha. 

Com o aumento da população de aves e a recuperação da mata nativa, é apenas uma questão de tempo para a restabelecimento dos fluxos de nutrientes para as águas da laguna e a recomposição de toda a fauna aquática. 

O sucesso na erradicação dos ratos-pretos e no controle dos coqueiros no atol principal do arquipélago de Palmyra motivou os pesquisadores a se voltar para outras 12 ilhotas ao redor que também foram invadidas por essas espécies exóticas. E muito melhor – a experiência desse projeto poderá ser replicada em outras ilhas invadidas por espécies exóticas e que amargam as trágicas consequências dessa invasão. 

NOVA ZELÂNDIA PRETENDE ERRADICAR VÁRIAS ESPÉCIES INVASORAS ATÉ O ANO DE 2050

Governo da Nova Zelândia anunciou há cinco anos atrás a ousada meta de livrar todo o seu território de algumas espécies invasoras – principalmente os ratos, até o ano de 2050. O programa recebeu o nome de Predator Free 2050. Essa medida drástica tem como principal objetivo proteger as delicadas e exclusivas espécies dos biomas locais da competição com as espécies invasoras

As ilhas que formam o arquipélago da Nova Zelândia estão separadas de outras áreas continentais há, pelo menos, 19 milhões de anos. Devido a esse isolamento, as únicas espécies de mamíferos nativos das ilhas são os morcegos, que chegaram voando. A fauna local é formada essencialmente por aves, peixes e insetos. Algumas espécies de mamíferos marinhos como baleias e focas visitam as ilhas frequentemente, porém sem causar impactos. 

A invasão do território neozelandês por espécies exóticas começou por volta do ano 1300, quando desembarcaram nas ilhas as primeiras expedições de maoris, grupo polinésio originário do Sudeste Asiático. Em suas grandes canoas, os maoris transportavam porcos, galinhas, cães e gatos, entre outros animais domésticos. Ao longo dos últimos 700 anos, essas espécies invasoras vêm competindo com as espécies nativas, que, em muitos casos, levam grande desvantagem. 

Uma das primeiras espécies da fauna da Nova Zelândia a ser extinta após a chegada dos maoris às ilhas foram as moas, um grupo de aves que era formado por nove espécies de seis gêneros. Essas aves não voavam e as duas maiores espécies, a Dinornis robustus e a Dinornis novaezelandiae podiam atingir uma altura de 3,6 metros com o pescoço estendido e um peso de 230 kg. Quando os polinésios desembarcaram nas ilhas por volta do ano 1280, estima-se que existiam cerca de 58 mil moas – no ano 1440, todas as moas já haviam desaparecido devido à caça excessiva. 

Outra emblemática espécie local que também foi levada à extinção foram as huias (Heteralocha acutirostris), aves que foram caçadas a exaustão para aproveitamento das longas penas de sua cauda em chapéus. Uma outra razão importante para o declínio da espécie foram os desmatamentos para abertura de campos agrícolas e pastagens – as aves não conseguiram se adaptar a outros biomas das ilhas. O último avistamento registrado de uma huia foi feito em 1907. 

Uma das principais espécies invasoras e grande causadora de problemas no país são os ratos, que chegaram como clandestinos nos navios que trouxeram os primeiros colonizadores ingleses para a Nova Zelândia ainda no século XVIII. Posteriormente, começaram a chegar animais domésticos como ovelhas, cabras, bois, cavalos e porcos. Também foram introduzidos coelhos, raposas e veados, destinados à caça recreativa de saudosos britânicos.  

Os neozelandeses começaram a perceber os problemas criados pelas espécies invasoras ainda no século XIX, quando as populações de coelhos começaram a fugir do controle. Para combater os coelhos, os arminhos foram introduzidas nas ilhas e acabaram se tornando em um problema ainda maior. 

As aves terrestres estão entre as espécies mais impactadas pelas espécies invasoras. Isoladas do resto do mundo, diversas aves da fauna neozelandesa acabaram perdendo a capacidade de voar e se especializaram numa vida essencialmente terrestre. Aqui podemos destacar o kiwi, a ave símbolo da Nova Zelândia. Os ratos são atraídos para os ninhos pelo cheiro dos kiwis, onde predam ovos e filhotes, o que vem reduzindo sistematicamente as populações dessas aves. 

Outra espécie seriamente ameaçada, principalmente pela predação por ratos, gatos e arminhos, é o kakapo (vide foto), uma espécie de papagaio que não voa e que chega a pesar até 4 kg. Essa ave tinha como único predador natural a águia-de-haast, uma espécie local que também foi levada à extinção pelos maoris por volta do ano 1400. Durante muito tempo, a maior ameaça aos papagaios foi a caça para aproveitamento das penas – depois vieram as espécies invasoras. Um censo feito em 2017, encontrou pouco mais de 150 kakapos vivendo livres na natureza, o que colocou a conservação da espécie como prioridade absoluta do país. 

Além dos ameaçados kakapos, estudos indicam que ¼ de todas as espécies de aves do país e um número com aproximadamente 400 espécies animais e vegetais nativas do território neozelandês correm risco iminente de extinção por causa de espécies invasoras. Considerando o tamanho do seu território, que é pouca coisa maior que o Estado de São Paulo, a Nova Zelândia aparece como um dos países do mundo com o maior número de espécies ameaçadas. 

Para viabilizar as operações de erradicação das espécies invasoras foi criada em 2016, a Nova Zelândia Sem Predadores, empresa que recebeu um investimento inicial de R$ 68 milhões. Esse volume de recursos vem se somar a outros R$ 115 milhões que já são investidos todos os anos em iscas, armadilhas, venenos e pesticidas que são lançados, inclusive por helicópteros, para combater as espécies invasoras. 

Como sempre ocorre nesse tipo de investida, especialistas temem pelas espécies da fauna local, que podem morrer ou ser contaminadas. As autoridades locais afirmam que os riscos criados pelas espécies invasoras são muito maiores e que o risco vale a pena.  

As principais espécies invasoras do território neozelandês são os ratos, os possums – uma espécie de marsupial arborícola originária da Austrália, que lembra muito os gambás americanos e que foi introduzida na Nova Zelândia visando o comércio de pele, e também os já citados arminhos. Juntas, essas três espécies respondem pela morte de 25 milhões de aves da fauna neozelandesa a cada ano

Os gatos domésticos também poderiam ser incluídos nessa lista. Os simpáticos bichanos que vivem nas casas de grande parte da população entram na lista das maiores ameaças as aves. Em seus passeios noturnos pelas vizinhanças dos seus lares, os gatos caçam aves e outros pequenos animais, que muitas vezes são levados como “presentes” para seus donos. Somente nos Estados Unidos, conforme indicam alguns estudos, os gatos matam 3,7 bilhões de aves e 20,7 bilhões de mamíferos a cada ano, o que nos dá uma ideia do impacto desses animais em um bioma

Normalmente, os gatos possuem uma boa disponibilidade de alimentos em suas casas, porém, segundo os especialistas, essa caça é uma resposta aos antigos instintos selvagens que esses animais ainda carregam. Incluir os gatos domésticos no rol de alvos dos caçadores de espécies invasoras não seria politicamente correto – os donos dos “gatinhos fofos” não aceitariam algo desse tipo. 

Os neozelandeses já possuem uma grande experiência na erradicação de espécies invasoras – cerca de 100 pequenas ilhas do arquipélago já foram “limpas”, restando agora o desafio de erradicar os invasores das duas principais ilhas que formam o país – as Ilhas Norte e Sul. 

Pessoalmente, eu acho que essa iniciativa do Governo da Nova Zelândia tem poucas chances de vingar dentro do prazo estabelecido. Porém, é preciso reconhecer que é uma grande iniciativa, que merece a torcida de todos. 

A GRANDE INFESTAÇÃO DE RATOS NA AUSTRÁLIA

Na última postagem fiz uma rápida apresentação da ancestral convivência entre os seres humanos e os ratos, um animal que acabou sendo “domesticado” involuntariamente. Descobrindo as comodidades da vida próxima aos assentamentos humanos, onde podiam comer as sobras e também atacar os estoques de alimentos, os ratos passaram a acompanhar as migrações e depois se “estabeleceram” nos subterrâneos das cidades que foram surgindo. 

Foram inúmeros os problemas causados pelos ratos ao longo da história, indo desde o consumo de grandes volumes dos alimentos produzidos e estocados aos casos de grandes epidemias como a Peste Negra do século XIV. A proliferação dos ratos ao redor do mundo, onde chegavam como clandestinos em navios, também causou enormes problemas ao meio ambiente, especialmente a extinção de várias espécies animais como as aves terrestres de várias ilhas – os ratos atacavam os ninhos para comer os ovos e os filhotes. 

Para não ficarmos relatando apenas fatos do passado, hoje gostaria de citar o caso da grande infestação de ratos que, neste exato momento, está tomando conta de várias regiões da Austrália, principalmente no Leste e Sudeste do país. Milhões de ratos da espécie Mus musculus, os famosos camundongos, estão invadindo áreas urbanas e rurais, onde atacam plantações e silos de armazenagem de grãos, celeiros, moinhos, locais de armazenamento de água, além de invadir casas e tirar o sono, literalmente, de milhares de pessoas. 

Durante dezenas de milhões de anos, o Continente Australiano foi um dos mais isolados do mundo, sem ligações terrestres com outras áreas continentais ou ilhas. Isso possibilitou uma evolução de espécies animais e vegetais de forma completamente isolada, levando ao surgimento de espécies únicas e bem diferentes daquelas encontradas em outras partes do mundo. Entre essas espécies destacam-se marsupiais como os cangurus e os coalas. 

Uma das primeiras espécies invasoras da Austrália foram os cães que acompanhavam as expedições dos navegadores polinésios ao continente entre 4 e 5 mil anos atrás. De animais domésticos, esses cães voltaram a uma vida selvagem e originaram os dingos (Canis lupus dingo ou Canis dingo), os cães selvagens australianos da atualidade.  

Entre os estragos causados por esses animais pode estar a extinção do tilacino ou lobo-da-Tasmânia, uma espécie de marsupial semelhante a um lobo que no passado era encontrada em toda a Austrália, passando depois a ficar restrita apenas ao território da Tasmânia, uma grande ilha ao Sul do Continente. Os tilacinos sobreviveram na Tasmânia até a década de 1930 – os criadores de ovelhas caçavam o animal devido a fama injusta de ser um predador de ovelhas, levando à sua extinção completa. 

Com a descoberta da Austrália no século XVI (portugueses e holandeses foram os primeiros a desembarcar no continente, mas não se interessaram pela colonização) e com o início da sua ocupação pelos ingleses no século XVIII, diversas outras espécies animais foram introduzidas, com destaques para animais domésticos como ovelhas, cabras, bois e vacas, cavalos e burros. Colonos saudosos de sua vida na Grã Bretanha também passaram a introduzir animais silvestres de caça como raposas, coelhos e lebres. Sem predadores locais, muitas dessas espécies passaram a ter ciclos sucessivos de superpopulação e causaram enormes problemas ambientais. 

Entre as espécies invasoras, é claro, não poderiam faltar os ratos, animais que gradativamente passaram a ocupar nichos ecológicos da “grande ilha”, competindo com larga vantagem com espécies locais. Com grande disponibilidade de alimentos e poucos predadores autóctones, a Austrália passaria a conviver com ciclos sucessivos de superpopulação de ratos – esses ciclos normalmente ocorrem de dez em dez anos. 

A atual explosão da população de ratos é creditada às boas temporadas de chuvas regulares dos últimos anos, que têm resultado em safras recordes de grãos e outros alimentos. Uma boa oferta de comida é sempre um bom motivo para o crescimento de uma família de ratos. Um casal da espécie Mus musculus pode gerar até 500 filhotes em um único ano. 

Os pesquisadores também vêm afirmando que as mudanças climáticas que estão ocorrendo no país podem ter contribuído para a explosão do número de ratos. A Austrália vem apresentando invernos cada vez mais quentes, especialmente na faixa Sul, região onde o clima era mais temperado. Com temperaturas altas durante praticamente o ano todo, os ratos passaram a contar com uma oferta mais constante de alimentos. 

O clima mais quente gera um temor generalizado entre os especialistas da manutenção da população de ratos em altos patamares daqui para a frente. Em “epidemias” anteriores, o grande número de ratos acabava consumindo todos os recursos alimentícios disponíveis e, de uma hora para outra, os animais começavam a morrer de fome aos milhares. Uma nova explosão populacional só voltava a ocorrer cerca de dez anos depois. 

Se os leitores pesquisarem na internet, poderão encontrar dezenas de vídeos mostrando como está sendo a vida em meio a tantos ratos. Os gatos domésticos e selvagens da Austrália, que figuram entre os grandes predadores dos roedores, estão fartos de tanto caçarem e comerem os camundongos, passando a condição de meros espectadores dos invasores. Embaixo de qualquer móvel, veículo, caixa ou pedaço de madeira em que se olhar, se escondem dezenas de ratos. 

Os animais também são encontrados aos milhares nos forros sob os telhados das casas – muitos australianos não conseguem mais dormir por causa da algazarra que os ratos fazem tanto de dia quanto de noite – muitas pessoas já desenvolveram sérios distúrbios psicológicos e psiquiátricos, sendo que muitos dos casos são considerados irrecuperáveis pelos médicos. Há inúmeros relatos de pessoas que são acordadas no meio da noite com ratos andando sobre o travesseiro ou sob as cobertas. Não é exagero afirmar que muitos australianos estão “enlouquecendo” por causa dos ratos. 

Entre os maiores problemas causados pelos ratos estão os ataques às plantações, aos estoques de grãos, aos alimentos armazenados em despensas e geladeiras, a destruição de roupas e sapatos, danos na fiação elétrica e nos encanamentos. A grande proximidade entre os animais e as pessoas também tem resultado em ataques e mordidas, um risco extra à saúde da população. 

Os ratos também costumam frequentar as caixas e outros depósitos de água das casas, inviabilizando seu consumo pelos moradores. Outra grande fonte de reclamações é o mal cheiro deixado nas casas e quintais pelas fezes e urina dos ratos, além do odor da putrefação de animais mortos. Uma piada de mal gosto que costuma circular entre a população local diz que “quando um rato morre, centenas de familiares comparecem para o seu velório e funeral“. 

Ratoeiras e armadilhas de todos os tipos estão sendo usadas largamente, sem conseguir os melhores resultados. Os australianos estão utilizando cada vez mais iscas e produtos químicos venenosos, uma prática que também pode atingir os animais domésticos, além de criar riscos de contaminação em corpos d’água, o que pode prejudicar também animais da fauna silvestre. 

A situação na Austrália está desesperadora, principalmente para aqueles que, como eu, tem pavor a ratos.