Posts de ferdinandodesousa

Natural da cidade de São Paulo. Fernando José de Sousa é Jornalista (Registro nº 0085519/SP) e graduando em Engenharia Ambiental, com graduações completas em Gestão Ambiental e Computação, e Pós Graduações em Marketing, Educação Ambiental e Engenharia Civil. Após atuar profissionalmente durante 20 anos em empresas do ramo industrial, passou a atuar na área de comunicação social de obras públicas de infraestrutura, onde o contato direto e o trabalho com o público, em especial o público infanto juvenil , despertou seu interesse pela área ambiental, com destaque para os problemas na área do saneamento básico. Utilizando de suas habilidades como redator publicitário, passou a usar a literatura como forma de divulgar o respeito pelos recursos naturais e os problemas ambientais. Em 2004 publicou seu primeiro livro - AVENTURA NA SERRA DO MAR, voltado para o público juvenil, onde o autor faz um relato de uma grande aventura vivida numa expedição com alguns amigos do Clube de Desbravadores Borba Gato de São Paulo, do qual foi membro por 10 anos. Outras narrativas de suas aventuras são OS CAÇADORES DE BORBOLETAS, O SUMIÇO DO GATO PIPOCA, CONTOS DO FOGO DO CONSELHO e O PRIMEIRO ACAMPAMENTO - todos esses livros tem o meio ambiente natural e urbano como personagens de destaque. Do seu trabalho na área do meio ambiente e da sustentabilidade na construção civil, onde atuou de de 2002 a 2013, escreveu os livros ESGOTO SANITÁRIO: QUE TREM É ESSE SÔ? e A REPÚBLICA DOS GAFANHOTOS. Em 2017 publicou os livros A SUPEREXPLORAÇÃO DAS FONTES DE ÁGUA, TÓPICOS DE SANEAMENTO BÁSICO - ABASTECIMENTO DE ÁGUA E ESGOTOS, E TÓPICOS DE SANEAMENTO BÁSICO - ÁGUAS PLUVIAIS E RESÍDUOS SÓLIDOS, textos compilados a partir das postagens no WordPress. Possui grande experiência na área de Saneamento Básico, especialmente em obras de implantação de sistemas de coleta de esgotos e construção de estações de tratamento de esgotos. Atuou nas obras do Programa Onda Limpa da Sabesp entre 2007 e 2009, tendo trabalhado nas cidades de Itanhaém, Peruíbe, Cubatão, Guarujá/Vicente de Carvalho e Bertioga. Em 2009 passou a atuar nas obras de implantação do sistema de esgoto sanitário da cidade de Porto Velho, Rondônia, atividade que durou um ano e meio até a paralisação das obras devido a disputas políticas entre grupos. Entre 2010 e 2012 atuou em obras do Projeto Tietê da Sabesp na Região Metropolitana de São Paulo, desenvolvendo trabalhos nos municípios de São Paulo, Osasco, Barueri, Pirapora do Bom Jesus, Francisco Morato e Arujá. Finalmente, no ano de 2012 realizou diversos trabalhos de comunicação e educação ambiental para a Águas de Itu, concessionária de serviços de saneamento básico da cidade de Itu, São Paulo. Desde 2013 trabalha como Jornalista e Consultor de Comunicação e Educação Ambiental Autônomo.

FOGO, AGRICULTURA, PECUÁRIA, INTRODUÇÃO DE ESPÉCIES INVASORAS E MINERAÇÃO: AS MUITAS FACES DA QUESTÃO AMBIENTAL NA AUSTRÁLIA

Coala

O continente australiano vem sofrendo, há mais de 250 anos, com a introdução maciça de espécies animais e vegetais em suas terras. Isolada do resto do mundo por dezenas de milhões de anos, a Austrália desenvolveu uma flora e fauna absolutamente exclusiva e diferente daquela de outras partes do mundo. Essa exclusividade, entretanto, se transformou numa espécie de “calcanhar de Aquiles” da vida natural do país. Com a chegada de animais e plantas exóticas, as espécies nativas começaram a perder espaço, com algumas espécies, inclusive, entrando em extinção ou sofrendo expressivas diminuições em suas populações. 

A introdução de espécies invasoras não é o único problema enfrentado pela Austrália – assim como ocorre há vários séculos em países de colonização relativamente recente como é o caso do Brasil, o continente australiano também sofre com a derrubada de florestas para a criação de campos agricultáveis e criação de gado, além de abrigar grandes projetos de mineração. 

Cerca de 80% do território da Austrália é formado por terrenos semiáridos e desérticos, onde as opções de produção agrícola e pecuária são bastante limitadas. Com solos pobres, clima extremamente árido e com baixa disponibilidade de água, essas extensas regiões possuem uma densidade populacional das mais baixas do país. As áreas cobertas por florestas se concentram numa pequena faixa no Norte do país e, principalmente, numa longa faixa de terras que abrange as regiões Sul, Sudeste e Leste do continente. Com clima ameno e boa disponibilidade de água, essa região meridional da Austrália concentra a grande maioria da população e as principais atividades econômicas do país: a agricultura, a pecuária e, mais recentemente, a indústria. 

Notícias sobre uma grande terra localizada nos mares do Sul circulavam na Europa desde o início da Era Cristã. Os primeiros navegadores europeus que atingiram o mítico continente no século XVII foram portugueses e holandeses, que aportaram nas costas áridas do Noroeste australiano, sem demonstrar maiores interesses pelas novas terras. Em 1770, James Cook desembarcou nas verdejantes costas do Leste da Austrália, batizadas com o nome de Nova Gales do Sul, reivindicando as terras em nome da Coroa da Inglaterra. A primeira leva de colonos ingleses chegou a Austrália em 1788, naquela que entrou para a história com o nome de First Fleet (Primeira Frota). Esses colonos desembarcam em Botany Bay, nas proximidades da atual cidade de Sydney

Desde aqueles primeiros anos da colonização, as densas florestas de eucaliptos do Leste e Sul da Austrália vem cedendo espaços para a criação de campos para a agricultura e pastagens para a criação de gado bovino e ovelhas. O país é atualmente o 6º maior produtor de carne bovina e o maior produtor mundial de lã. A Austrália produz cerca de 100 milhões de toneladas de alimentos a cada ano, principalmente, trigo, aveia, cevada, cana-de-açúcar, bananas e frutas cítricas. O país também é um grande produtor de algodão e tabaco

Esses são números impressionantes para um país que dispõe de apenas 2% de terras próprias para agropecuária em seu território. É justamente aqui onde “mora o perigo” – existe uma enorme pressão para expansão de campos agrícolas e pastagens, o que tem levado a uma intensa derrubada de matas nativas. 

De acordo com informações do WWF – World Wide Fund for Nature, uma das maiores organizações ambientalistas do mundo, cerca de 395 mil hectares de matas nativas do Estado de Queensland foram devastadas entre 2015 e 2018 com o objetivo de ampliar a produção agrícola e pecuária. De acordo com a organização, cerca de 45 milhões de animais que viviam nessas matas morreram, incluindo-se na lista coalas, répteis, mamíferos e pássaros

Os coalas, mamíferos marsupiais exclusivos da Austrália, acabaram transformados em uma espécie de símbolo da devastação ambiental no país. Esses animais vivem nas matas de eucalipto e se alimentam exclusivamente das folhas dessas árvores (vide foto). Nos incêndios que vêm devastando as matas australianas nesses últimos meses, a imagem do salvamento de coalas das chamas tem comovido pessoas no mundo inteiro. A devastação crescente dessas florestas tem resultado num declínio gradual das populações de coalas – de acordo com projeções da WWF, se nada for feito, os coalas estarão “funcionalmente extintos” em menos de 50 anos. 

Um estudo do grupo de defesa ambiental TWS – The Wilderness Society, publicado em agosto de 2019, fez uma verdadeira radiografia das causas do desmatamento na Austrália. Analisando relatórios dos desmatamentos no país entre 2013 e 2018, período em que a Austrália perdeu 1,6 milhão de hectares de florestas, o grupo descobriu que 73% dessa perda florestal teve como objetivo o aumento das áreas de pastagens para a criação de gado. Na faixa Leste do país, onde se localiza a Grande Barreira de Coral, o maior sistema de corais do mundo, essa perda foi ainda maior – 94% dos desmatamentos foram relacionados com o aumento das áreas de pastagens para a criação de bovinos e ovelhas

À toda essa perda recente de cobertura vegetal precisam ser somados os mais de 6 milhões de hectares de florestas que já foram destruídos pelos incêndios que vem assolando grandes regiões do país desde o último mês de setembro. Serão necessários vários meses, quiçá anos, para se ter uma noção exata dos impactos de todas essas perdas na biodiversidade do país e, especialmente, no abastecimento de água de grandes cidades

Outro setor da economia que produz importantes impactos ao meio ambiente e que não podemos deixar de citar é a mineração. A Austrália é uma grande produtora de minério de ferro, carvão, bauxita, chumbo, prata, níquel, cobre, urânio e ouro. Recentemente, a Suprema Corte da Austrália suspendeu a implantação de um grande projeto de mineração no Estado de Queensland. O projeto, batizado de Mina Carmichael, previa a produção de 60 milhões de toneladas de carvão térmico por ano, a construção de uma ferrovia com 189 km, além da ampliação de um porto de carvão em Abbot Point.

Em um país sem grandes rios e dependente da energia elétrica gerada em centrais térmicas movidas a carvão, essa produção do insumo seria de grande importância estratégica e econômica. Havia também a expectativa de criação de 10 mil empregos diretos e indiretos. Apesar desses números vistosos, esse projeto de mineração ficaria localizado as margens de importantes rios com foz no litoral Leste do país e implicava em graves riscos ambientais para a Grande Barreira de Coral, motivo mais que suficiente para que a Justiça proibisse a sua implantação. 

Segundo a opinião de muitos especialistas em meio ambiente, clima e em florestas da Austrália, a grande intensidade dos incêndios florestais nesta última temporada está diretamente associada aos desmatamentos no país. Com o corte acentuado de árvores e a fragmentação cada vez maior das florestas, a vegetação está ficando mais seca e, portanto, mais susceptível a incêndios mais intensos. Incêndios florestais naturais fazem parte da ecologia australiana há milhares de anos e plantas e animais estão adaptados a esses eventos, algo muito parecido com o que ocorre no Cerrado brasileiro. O que vem se observando, entretanto, é que a capacidade das plantas em resistir ao fogo intenso está diminuindo, o que resulta na destruição completa de muitos habitats. 

Notícias sobre a destruição e queimadas na Amazônia ocupam importantes espaços nos jornais e redes sociais de todo o mundo, colocando o Brasil na lista dos grandes “vilões” da ecologia mundial. Já a Austrália, um país considerado desenvolvido, membro do Commonwealth (comunidade dos países britânicos) e nação bastante amiga das grandes potências mundiais, raramente é lembrada quando se fala em graves agressões ao meio ambiente, que infelizmente são muitas no país. 

Alguma coisa está muito errada, não acham? 

A INTRODUÇÃO DE ESPÉCIES EXÓTICAS NA AUSTRÁLIA E SUAS GRAVES CONSEQUÊNCIAS AMBIENTAIS

Dromedários da Austrália

Nos primeiros anos do século XX, a cidade do Rio de Janeiro vivia uma perigosa epidemia de febre amarela. Para ajudar no controle dos focos do mosquito Aedes Aegypti, o principal vetor do vírus, o então Prefeito da cidade, Francisco Franco Pereira Passos, resolveu acatar a sugestão de alguns acadêmicos – introduzir pardais, uma ave nativa do continente europeu, nas matas da cidade. De acordo com os especialistas, os pardais eram vorazes predadores de mosquitos e, dentro de pouco tempo, controlariam os muitos focos de Aedes Aegypti

Em 1903, foram importados cerca de 200 pardais (Passer domesticus) de Portugal e as aves foram soltas em uma cerimônia oficial no Campo de Santana, com muita pompa e circunstância. A ousada estratégia, é claro, não deu certo – os mosquitos continuaram infernizando a vida dos cariocas até que medidas drásticas de saneamento básico passaram a ser implantadas pelo médico Oswaldo Cruz anos mais tarde. Já os robustos pardais, esses passaram a ocupar os espaços ecológicos de aves nativas como sabiás, tico-ticos e sanhaços, se espalhando depois pelos quatro cantos do país. 

Na Austrália, exemplos semelhantes de introdução de espécies exóticas resultaram em verdadeiras tragédias ambientais. Conforme comentamos na postagem anterior, a história geológica do continente criou uma condição de isolamento total de outras terras, condição essa que resultou no surgimento e evolução de formas de vida totalmente diferenciadas de outras áreas do mundo. Com a introdução de espécies animais e vegetais de outras terras no solo australiano, o delicado equilíbrio ambiental de dezenas de milhões de anos foi abruptamente quebrado, o que desencadeou consequências catastróficas. Comecemos falando dos fofos coelhos europeus:

Em 1859, um fazendeiro da cidade de Winchelsea, no Estado de Vitória, chamado Thomas Austin, resolveu importar coelhos selvagens (Oryctolagus cuniculusda Europa, para usá-los na prática da caça esportiva. Um total de 24 coelhos foram trazidos da Inglaterra e soltos na sua grande propriedade. O fazendeiro ficou muito feliz com o resultado de sua empreitada – os coelhos se multiplicaram rapidamente e suas caçadas resultavam em dezenas de animais abatidos. 

O que Thomas Austin não imaginava há época era a velocidade de reprodução dos animais. Para piorar o problema, um dos únicos predadores dos férteis coelhos na Austrália eram o dingos, os cães selvagens locais, que não existiam em grande quantidade no Estado de Vitória. Cerca de 70 anos depois, os 24 coelhos originais já haviam gerado perto de 10 bilhões de descendentes, se transformando numa verdadeira praga no país

Os coelhos são famosos pela sua alta taxa de fertilidade – cada fêmea gera entre 18 e 30 filhotes a cada ninhada, podendo repetir esse feito por até três vezes a cada ano. Os coelhos de Mr. Austin foram se espalhando rapidamente por todo o Estado de Vitória, atingindo depois Nova Gales do Sul e Queensland, entre outras regiões. Os animais esfomeados avançavam contra as plantações e, como uma nuvem de gafanhotos, deixavam os solos completamente desnudos. 

Uma das primeiras tentativas do Governo australiano para conter o avanço dos coelhos pelo país foi ordenar a construção de uma grande cerca metálica. E não estamos falando de uma cerca comum – apelidada pelo povo local de Dingo Fence Dog Fence, essa cerca tinha originalmente cerca de 8,6 mil quilômetros de extensão e foi construída entre 1880 e 1885. Além de tentar controlar o deslocamento dos coelhos, essa cerca também restringia os deslocamentos dos temidos dingos, famosos por atacar os rebanhos de ovelhas. 

A ideia de “jerico” não funcionou a contento contra os coelhos, que conseguiam escavar e passar por baixo da tela de arame. Foi então que, num ato de desespero, as autoridades decidiram introduzir na Austrália o grande predador dos coelhos na Europa – as raposas vermelhas (Vulpes vulpes). Dezenas de raposas foram soltas nas áreas de maior infestação de coelhos. Além de não conseguirem dar conta de tantos coelhos, as raposas criaram um outro problema – os animais passaram a atacar e comer os lentos coalas australianos, muito mais fáceis de caçar do que os rápidos coelhos. 

Os picos de superpopulação de coelhos na Austrália somente puderam ser controlados a partir da década de 1950, quando o Governo passou a usar diversos tipos de vírus transmitidos por meio de mosquitos. Algumas dessas investidas eliminavam até 90% dos coelhos de uma determinada região, porém os resultados não duravam muito tempo – os coelhos desenvolviam imunidade contra os vírus e novas cepas precisavam ser desenvolvidas rapidamente. Atualmente, o problema dos coelhos está controlado, mas não está resolvido. 

Outro grande desastre ambiental em curso no país está sendo provocado por milhões de dromedários (Camelus dromedárius) selvagens. Esses animais foram introduzidos no país a partir da década de 1840, com o objetivo de facilitar o transporte de tropas militares, colonizadores e suprimentos através das grandes áreas desérticas do centro da Austrália. Esses animais são famosos desde a antiguidade por suas grandes habilidades de sobrevivência em regiões desérticas, onde podem viver por várias semanas sem precisar de água e comida. Cerca de 60 mil animais foram trazidos desde a Índia, Afeganistão e países do Oriente Médio até a Austrália. 

A partir dos anos finais do século XIX, ferrovias começaram a ser inauguradas por toda a Austrália, reduzindo a importância dos dromedários no transporte de cargas e de pessoas. Essa importância diminuiu ainda mais com a chegada de automóveis, caminhões e ônibus nas primeiras décadas do século XX. Os dromedários “desempregados” passaram a ser soltos nas áreas áridas e semiáridas do país, voltando a viver como criaturas selvagens (vide foto). Sem predadores naturais e contando com alimentos e algumas fontes de água potável, esses animais passaram a se reproduzir sem controle – no início da década de 2000 eram calculados em 2 milhões de cabeças em toda a região central da Austrália

Em épocas de forte seca, como a que assolou o país entre 2004 e 2009, bandos com milhares de dromedários sedentos passaram a buscar desesperadamente por fontes de água, invadindo reservatórios de cidades e de reservas aborígenes. Na crise atual onde imensas áreas florestais estão sendo devoradas por chamas incontroláveis, esses dromedários tem buscado desesperadamente pelas reservas remanescentes de água das regiões afetadas, gerando enormes embates com as populações humanas. 

Os Governos de vários Estados do país estão se preparando para realizar “operações de controle”, que nada mais são que o abate de dromedários por atiradores em helicópteros. De acordo com as estimativas oficiais, cerca de 10 mil animais serão abatidos numa primeira fase. Grupos ambientalistas e de defesa dos animais, é claro, irão fazer inúmeros protestos contra essa atitude do Governo, porém sem apresentar alternativas melhores. 

Problemas semelhantes acontecem com outros animais como gatos, javalis, sapos-cururu, lebres e peixes-mosquito, além de espécies vegetais como alguns tipos de capins exóticos, introduzidos no país para servir de alimento para o gado bovino, mas que rapidamente fugiram ao controle e passaram a ocupar o espaço de plantas nativas. 

Como fica fácil de perceber, os problemas ambientais na Austrália são bem maiores que os grandes incêndios florestais. 

OS GIGANTESCOS PROBLEMAS AMBIENTAIS DA AUSTRÁLIA

Dingo australiano

Para falarmos dos problemas ambientais que a Austrália vive nos dias atuais, precisamos voltar no tempo para entender a história geológica do continente e conhecer as razões que levaram ao seu isolamento e surgimento de uma flora e fauna únicas. 

Até cerca de 165 milhões de anos atrás, a América do Sul, a África, a Antártica, a Ilha de Madagascar, a Índia (o famoso subcontinente indiano), a Austrália, a Nova Zelândia, a Nova Caledônia e algumas outras ilhas, formavam um único supercontinente conhecido pelo nome de Gondwana. Foi então que teve início uma série de eventos geológicos de grande magnitude, que levaram a fragmentação dessa grande massa continental e a uma lenta e gradual separação desses blocos de terra, formando à configuração de continentes que conhecemos atualmente. 

Um dos grandes testemunhos desse período de intensa atividade vulcânica aqui no Brasil é o chamado Derrame de Trapp. Entre 137 e 127 milhões de anos atrás, centenas de vulcões entraram em erupção contínua, derramando cerca de 650 mil km³ de lava vulcânica, o que cobriu cerca de 1,2 milhões de km² de solos na região da Bacia Hidrográfica do rio Paraná. Esses derrames de lava também ocorreram na Namíbia e em Angola, na África, territórios que até aquele momento estavam unidos com a atual América do Sul. As famosas “terras roxas”, solos de altíssima fertilidade encontrados nessa região, se formaram a partir da degradação desses derrames vulcânicos. 

A separação dos grandes blocos continentais, que é explicado pela Teoria da Deriva Continental ou Tectônica de Placas proposta por Alfred Wegener em 1912, empurrou gradativamente a Austrália rumo ao Leste, mantendo suas plantas e animais completamente isolados do resto do mundo. Esse isolamento favoreceu a evolução e a especialização dos seres vivos locais para uma vida adaptada ao meio, surgindo assim linhagens e espécies com características únicas, não encontradas em qualquer outro lugar do mundo. Exemplos dessa especialização são os mamíferos marsupiais australianos como os coalas e os cangurus, ou ainda os monotremados, ordem de mamíferos que botam ovos e são representados pelos ornitorrincos e pelas equidnas. 

A primeira grande “invasão” estrangeira no continente Australiano ocorreu há aproximadamente 65 mil anos, quando os primeiros Homo sapiens surgidos no continente africano atingiram as terras austrais, finalizando um processo migratório de dezenas de milhares de quilômetros e de milhares de anos através de toda a Ásia. Muitos estudiosos acreditam que esses primeiros grupos de humanos “invasores” chegaram na Austrália acompanhados de cachorros, que com o tempo passaram a viver em estado selvagem e se transformariam nos ancestrais diretos dos dingos (Canis dingo), os cães selvagens australianos (vide foto). Outras fontes afirmam que esses cães chegaram na Austrália há “apenas” 4 mil anos.  

Os dingos se transformariam nos maiores predadores terrestres da Austrália, alterando completamente a cadeia alimentar entre as espécies nativas do continente e impactando diretamente nas populações de espécies locais, levando muitas a extinção. Um desses animais pode ter sido o tilacino (Thylacinus cynocephalus), mais conhecido como tigre-da-Tasmânia ou lobo-da-Tasmania, o grande predador australiano antes da chegada dos dingos. Os tilacinos, que na verdade eram marsupiais que evoluíram até ficar parecidos com um lobo, foram perdendo espaço na área continental da Austrália, ficando restritos a Ilha da Tasmânia. Perseguidos pelos criadores de ovelhas, que os acusavam de caçar seus animais, os tilacinos da Tasmania foram completamente extintos em meados do século XX. 

A grande invasão moderna da Austrália, porém, teve início a partir do ano de 1770, quando o HMS Endeavour, um navio de pesquisas da Marinha Real Britânica sob o comando de James Cook, atingiu a costa Leste do continente. Seguindo as pegadas dos perplexos tripulantes, maravilhados com a fauna e flora exclusivas desse “novo mundo”, centenas de ratos que se escondiam nos porões do Endeavour também começaram a fazer seu próprio desembarque. 

As principais espécies de ratos “domesticados” pela humanidade – o rato cinza (Rattus rattus), o rato preto (Rattus norvegicus) e o camundongo (Mus musculus), vem acompanhando nossos passos há milhares de anos. Esses animais aprenderam a viver próximos de acampamentos e cidades, onde sabiam que poderiam encontrar alimentos com muita facilidade. Com o início da Era das Navegações a partir do século XIV, ratos clandestinos em navios foram espalhados pelos quatro cantos do mundo. 

Ratos são animais inteligentes, onívoros e facilmente adaptáveis a novos ambientes. Logo após sua chegada ao continente australiano, os ratos descobriram inúmeras espécies de aves indefesas e seus ninhos construídos sobre os solos – filhotes de aves e ovos passaram a constituir a dieta principal dos ratos, enquanto avançavam pelo novo território e passavam a ocupar os grandes nichos ecológicos da “grande ilha”. 

A segunda grande frente invasora dos tempos modernos em terras da Austrália teve início com a chegada das primeiras levas de imigrantes, onde muitos eram presidiários transferidos para as distantes terras do Pacífico Sul. Eram aqueles os difíceis anos do início do século XIX, época em que as grandes cidades do Reino Unido sofriam com a superpopulação. Os novos territórios deste lado do mundo – Austrália, Nova Zelândia, Nova Caledônia e Nova Guiné, entre outros, se apresentavam com uma grande oportunidade para a “desova” desses excedentes populacionais e uso dessa mão de obra barata (para não dizer quase gratuíta”), na formação de colonias produtoras de gêneros exportáveis.

Na bagagem desses colonizadores vieram cavalos, bovinos, carneiros, porcos, galinhas, patos, coelhos, gatos, cachorros, entre outros animais domésticos criados pelos europeus desde os tempos imemoriais. Para se sentirem menos melancólicos nessas terras distantes, muitos colonos de origem nobre se preocuparam em trazer raposas selvagens entre seus itens pessoais, o que lhes permitiria realizar as tradicionais “caçadas” inglesas junto com os novos amigos da Austrália. 

Além de dezenas de espécies de animais domésticos de origem europeia, os ingleses também se “preocuparam” em introduzir algumas espécies de origem asiática e africana, onde são destaques algumas espécies de búfalos, uma fonte alternativa para a produção de carne em regiões pantanosas da Austrália, e os dromedários, uma opção para o transporte de tropas militares através das terras desérticas do centro do continente. 

Além de dezenas de espécies animais, os colonizadores ingleses também introduziram uma infinidade de espécies vegetais nessas “novas terras”, indo das insubstituíveis batatas “inglesas” às árvores frutíferas das mais diferentes espécies, árvores produtoras de madeira de lei como o icônico carvalho inglês e outras simplestemente decorativas para seus famosos jardins. Também se preocuparam em trazer espécies vegetais de grande valor comercial para exportação como o algodão, o tabaco e a cana-de-açúcar. Essas novas espécies passaram a ocupar grandes extensões de terras, especialmente em áreas do Leste, Sul e Sudeste do continente. Grandes áreas “inúteis” de florestas de eucalipto nativas da Austrália passaram a ser derrubadas e queimadas, abrindo espaços para a produção de gêneros de grande valor comercial. 

Toda essa somatória de alterações na flora e fauna da Austrália não tardariam a gerar graves consequências e desequilíbrios no meio ambiente. Trataremos disso na próxima postagem.

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE OS INCÊNDIOS FLORESTAIS NA AUSTRÁLIA

Incêndio-Austrália

A Austrália, chamada por muitos de ilha-continente, é pouca coisa menor do que o Brasil – o país ocupa uma área de 7,7 milhões de km², exatamente 10% a menos do que o nosso território. Apesar da localização do país ocupar praticamente as mesmas latitudes das regiões Central e Sul do Brasil, o clima australiano é bem diferente do nosso – aliás, podemos afirmar que é praticamente o inverso. No Brasil, o clima Semiárido é encontrado em uma área relativamente pequena do interior da região Nordeste e no Norte do Estado de Minas Gerais – a maior parte do país tem clima Equatorial e Tropical; na região Sul, o clima é Subtropical.  

Na Austrália, a maior parte do território tem climas Semiárido e Desértico – uma estreita faixa ao longo das costas do Sul e uma grande área no Sudeste do país tem um clima Mediterrâneo, que nada mais é do que um clima temperado. Pequenas faixas ao Sudoeste e Leste do continente tem um clima Subtropical e uma faixa no extremo Norte apresenta características Tropicais (clima quente com uma forte temporada de chuvas de Monção). De todos os continentes habitados, o australiano é considerado o mais seco do mundo – é justamente esse clima seco que tem favorecido a incidência dos grandes incêndios florestais que desde setembro vem assolando o país. 

Outra forma de avaliar as diferenças drásticas nos climas dos dois países pode ser observado na disponibilidade de água: o Brasil possui 12% das reservas de água doce do mundo (lembrando que a maior parte dessa água se encontra na Bacia Amazônica), com chuvas regulares na maior parte do território. A Austrália, ao contrário, dispõe de cerca de 1% das reservas mundiais de água doce. Grande parte do território australiano sofre com a falta de chuvas, que além de irregulares, caem em volumes muito pequenos. Como se não bastassem todos esses problemas, o país enfrentou uma fortíssima estiagem generalizada entre os anos 2000 e 2009

Essa combinação de clima extremamente seco, pouca disponibilidade de água e de altas temperaturas nesse verão, com máximas superando a marca dos 40° C, transfomaram a Austrália num verdadeiro “inferno” na Terra nesses últimos meses. Incêndios florestais vêm devastando grandes extensões de matas, especialmente no Sul, Sudeste e Leste do continente. O fogo destruiu centenas de casas e já matou cerca de 27 pessoas. Para os animais domésticos e selvagens, a situação é quase apocalíptica – segundo cálculos de especialistas, perto de 500 milhões de animais já morreram vítimas do fogo, da fumaça e da destruição dos seus habitats

Uma das notícias mais surpreendentes, que comentamos na última postagem, fala dos ataques de gatos “selvagens contra animais debilitados nas áreas incendiadas. Várias regiões da Austrália sofrem com a superpopulação de gatos, que trocaram a vida doméstica pelas florestas – esses gatos atacam e matam pássaros, pequenos mamíferos, répteis e anfíbios. Desde 2015, o Governo estuda planos para eliminar, pelo menos, 2 milhões desses gatos selvagens, que se transformaram em uma verdadeira praga ambiental no país. 

Após uma longa sequência de más notícias, informações vindas do país dão conta que as chuvas de verão finalmente começaram a chegar em faixas do Leste e Sul do continente, ajudando a controlar e até mesmo a extinguir alguns focos de incêndios. Em regiões onde as águas ainda não chegaram, milhares de militares e voluntários continuam trabalhando arduamente no combate ao fogo. Curiosamente, a maioria das vozes de ambientalistas, artistas, políticos e famosos que se levantaram na defesa da Amazônia brasileira, que meses atrás também sofreu com inúmeros focos de incêndios, desta vez ficaram calados e nada tem falado sobre a tragédia da Austrália. 

Os números já apurados pelas autoridades ambientais do país sobre as consequências desses incêndios para o meio ambiente são assustadoras – cerca de 327 espécies de plantas e animais protegidos pela legislação foram fortemente afetados pela tragédia. Alguns habitats chegaram a ter impressionantes 80% de suas áreas destruídas pelas chamas

A Austrália é o continente mais isolado do mundo e sua vida animal e vegetal passou por intensas mudanças evolutivas, assumindo características únicas. Desde o século II da era cristã circulavam lendas por toda a Europa falando de uma terra misteriosa na parte Sul do planeta – terra australis incognita, ou, terra desconhecida do Sul. Legiões romanas estacionadas em regiões longínquas da Ásia, muito provavelmente, ouviram relatos sobre essa terra distante de povos locais, que por sua vez, haviam ouvido esses relatos de outros povos.  

As terras austrais do continente só veriam o desembarque de navegadores europeus, portugueses e holandeses, no início do século XVII – esses primeiros exploradores rapidamente descobriram as dificuldades de se encontrar água nessa terra recém descoberta e focaram suas atenções em outras terras mais verdejantes do Sudeste Asiático. Oficialmente, a Austrália foi descoberta e reclamada em nome da Coroa Inglesa pelo capitão James Cook em 1770. Os ingleses ficaram fascinados com os animais absolutamente únicos que encontraram nessas terras, especialmente os cangurus, os ornitorrincos e as équidnas. 

Essa fauna e flora únicas da Austrália, que desde o século XVIII vêm sofrendo fortes impactos com a colonização do país e com a introdução de espécies exóticas, desde vez está sofrendo com a destruição em larga escala de habitas pelas chamas. Levantamentos preliminares do Ministério do Meio Ambiente do país colocou em situação de extrema vulnerabilidade 272 espécies de plantas, 16 mamíferos, 14 sapos e 9 aves, além de 4 espécies de peixes, 4 insetos e uma aranha. Todas essas formas de vida são autóctones do Outback australiano e não são encontradas em qualquer outra parte do mundo

Até o momento, os incêndios destruíram cerca de 100 mil km², uma área pouco maior que a do Estado de Pernambuco. Somente no Estado de Nova Gales do Sul, a região mais habitada do país e onde se encontram cidades importantes como Sydney e Camberra, as chamas destruíram cerca de 50 mil km², uma área cerca de cinco vezes maior do que a que foi queimada na Amazônia em 2019. Além dos imensos prejuízos à vida animal e vegetal, as cinzas dos incêndios atingiram diversos reservatórios de água da região, o que prejudicou muito o já complicado abastecimento de água em diversas cidades. 

As gravíssimas consequências desses incêndios florestais, que vão ficar mais claras apenas a médio e longo prazo, vêm se somar a uma verdadeira infinidade de problemas ambientais já vividos pelo país. Apesar de não aparecer com muita ênfase nos noticiários internacionais, a Austrália é um dos países em pior situação de degradação ambiental no mundo. O país sofre imensamente com espécies invasoras, com o avanço dos desmatamentos para a criação de campos agricultáveis, com a mineração em larga escala e, mais recentemente, com os graves problemas criados pelas mudanças climáticas e pelo aquecimento global. 

Falaremos disso na nossa próxima postagem. 

TEM “GATO NA TUBA”, OU UM SURPREENDENTE PROBLEMA AMBIENTAL MUNDIAL

Gato na tuba

A histeria criada nos meios de comunicação mundo a fora em meses recentes, quando os incêndios florestais ameaçavam “transformar a Amazônia em cinzas”, voltaram a levantar as discussões sobre os grandes impactos ambientais da criação de bois e vacas para a produção de carne e leite para consumo humano. Muitos grupos ambientalistas e de defesa dos animais passaram a veicular “notícias” dos mais diferentes tipos, dando conta que esses incêndios visavam a criação de pastagens para a criação de gado na região Amazônica, o que, em parte, não deixa de ser uma verdade. 

Esse tipo de notícia veio se somar ao crescimento do consumo de carne bovina em muitos países como a China, a África do Sul e até mesmo na “vegetariana” Índia. O desenvolvimento econômico nesses e em muitos outros países têm permitido que parcelas maiores das suas populações tenham acesso a uma alimentação mais diversificada, onde se inclui um consumo maior de carne bovina. 

Se qualquer um de vocês fizer uma rápida pesquisa na internet, com certeza encontrará dezenas de “artigos científicos” falando dos grandes impactos da criação de bois e vacas ao meio ambiente – da destruição de florestas para a abertura de novas pastagens, como foram os casos de notícias associadas aos incêndios na Amazônia, o consumo excessivo de água pelos animais e a liberação de grandes volumes de gases de efeito estufa. Isso tem sim um fundo de verdade e já tratamos do tema em diversas postagens aqui no blog, falando principalmente das boiadas na Caatinga Nordestina e nos Pampas Gaúchos

Agora, uma informação que vai surpreender muita gente – os animais que causam os maiores impactos ao meio ambiente não são os bovinos, que têm rebanhos estimados em 2 bilhões de animais em todo o mundo. O grande vilão invasor do mundo animal e causador de gravíssimos problemas à fauna silvestre são os fofos e simpáticos gatos domésticos, que costumamos chamar carinhosamente de bichanos

Os gatos ocupam o segundo lugar entre os bichos de estimação mais populares entre os humanos (em alguns países já estão na primeira posição) e, em virtude da urbanização cada vez maior, eles vêm ocupando cada vez mais o espaço dos cachorros. A domesticação dos gatos começou há cerca de 10 mil anos, mesmo período em que teve início a agricultura e a formação das primeiras cidades. As estimativas falam de mais de 600 milhões de gatos domésticos em todo o mundo nos dias atuais. 

Na semana passada foram divulgadas notícias preocupantes falando dos grandes impactos ambientais criados pelos gatos na Austrália – como os incêndios florestais estão começando a ser debelados, inclusive com a chegada das chuvas em algumas regiões do país, milhares de animais que conseguiram sobreviver ao fogo e à falta de água agora estão sendo perseguidos e mortos por gatos “selvagens”. Esses gatos, que abandonaram seus ambientes domésticos e passaram a viver nas matas, estão atacando e matando animais debilitados que sobreviveram à destruição de seus habitats. São aves, pequenos mamíferos, répteis e anfíbios. 

Assim como diversas outras espécies animais, os gatos não são nativos da Austrália. Juntamente com ovelhas, vacas, cavalos, lebres, cachorros e uma infinidade de outras espécies, os gatos chegaram ao continente australiano na “bagagem” dos primeiros colonizadores. E como aconteceu em outras partes do mundo, muitos desses gatos abandonaram o ambiente doméstico e passaram a se aventurar nas florestas australianas. Encontrando fartura de alimentos, esses gatos se reproduziram sem controle e se transformaram em uma verdadeira praga ambiental. 

Especialistas afirmam que esses animais ocupam apenas 0,2% do território do país, mas já são contados aos milhões. Desde de 2015, a Austrália trabalha com uma meta para eliminar, pelo menos, 2 milhões de gatos “selvagens”. Os pesquisadores observaram que bandos de gatos chegam a percorrer até 30 quilômetros em busca de áreas recém destruídas pelo fogo e onde podem “caçar” centenas de animais debilitados. Além gatos, a Austrália sofre com diversas outras espécies invasoras como os dromedários, as lebres, os sapos-cururu, entre muitas outras.  

Um grupo de cientistas australianos acompanhou um grupo de 13 desses gatos por um período de 50 dias em uma área recém queimada no Sudeste do país. Em 101 eventos de caça observados, esses gatos tiveram uma taxa de sucesso média de mais de 32% – nas áreas abertas das savanas, esses gatos obtiveram as melhores taxa de êxito, onde conseguiram abater as vítimas em 70% dos ataques. Os gatos abateram uma média de 7,2 vítimas a cada 24 horas. Em 25% dos casos documentados, os gatos sequer comeram as presas abatidas.

Em diversas partes do mundo, os bichanos também representam um enorme problema ambiental.  Nos Estados Unidos existem estudos que afirmam que os gatos matam cerca de 3,7 bilhões de aves e 20,7 bilhões de mamíferos a cada ano, sem que se inclua na conta as mortes de répteis e anfíbios. Um estudo feito na Ilha Marion, na África do Sul, na década de 1970, indicou que os gatos matavam cerca de 455 mil aves marinhas a cada ano. Um estudo semelhante, feito na ilha francesa de Kerguelen na mesma época, mostrou que 1,2 milhão de aves marinhas eram mortas a cada ano por gatos

Ambientes insulares, aliás, são os que mais sofrem com os impactos criados por espécies invasoras. Aqui no Brasil um exemplo é Fernando de Noronha, um verdadeiro paraíso tropical pertencente ao Estado de Pernambuco. A população humana no Arquipélago oscila entre 4.500 e 6.000 mil habitantes – já a população de felinos é calculada em mais de 1.300 animais, uma das maiores densidades demográficas de gatos por quilômetro quadrado do mundo. A maior parte desses gatos vive em estado selvagem nas matas das principais ilhas. 

Essa verdadeira “multidão de gatos” se junta a um grupo de outras espécies invasoras – a garça-vaqueira (Bulbucus ibis), o lagarto teiú (Salvator merianae), lagartixas (Hemidactylus mabouia), o sapo-boi (Rhinella jimmi), pererecas (Scinaxsp.), ratos (Rattus rattus e Rattus norvegicus) e camundongos (Mus musculus). Juntos, esses animais exóticos estão ameçando a sobrevivência de inúmeras espécies nativas do Arquipélago

Um dos petiscos prediletos dos gatos noronhenses é a mabuia (Trachelepys atlantica), um pequeno lagarto endêmico de Fernando de Noronha. Também fazem parte do cardápio dos gatos algumas espécies de aves: o sebito (Vireo gracilirostris) e a cocoruta (Elaenia ridleyana), duas espécies endêmicas do Arquipélago. O rabo-de-junco-de-bico-laranja (Phaeton lepturus), o atobá-de-pés-vermelhos (Sula sula) e a noivinha (Gygis alba), espécies de aves marinhas também encontradas em outras ilhas do Oceano Atlântico Sul, entram na lista de presas. Os gatos atacam os ninhos e se esbaldam com os ovos e filhotes.

Diferente de operações de desratização, onde venenos letais são usados para matar os odiados ratos, ações de “desgatização” (essa palavra é um provável neologismo) são polêmicas e complicadas – seres humanos gostam da convivência com os simpáticos gatos e não aceitam facilmente a “eliminação” desses animais em grandes quantidades como “ferramenta” de controle ambiental. Já os rebeldes gatos, que não tem a fidelidade dos cães e que nunca perderam totalmente o seu espírito selvagem, vão continuar abandonado suas casas e redescobrindo os prazeres da vida no meio da natureza. E mesmo quando continuam contando com casa e comida, muitos desses gatos resolvem se aventurar numa mata próxima e, eventualmente, voltam para casa carregando algum animal caçado em parques e outras áreas verdes das cidades (vide foto). 

Ao contrário de muitas espécies animais que correm sérios riscos de extinção, as populações de gatos não param de crescer e, muito pior: dizem que os “gatos têm 7 vidas”… 

UM ”ICEBERG” QUE ATENDE PELO NOME DE CEDAE

CEDAE

Icebergs são gigantescas montanhas de gelo flutuante que representam um enorme risco para os navios (o Titanic que o diga). Normalmente se consegue ver apenas a ponta do iceberg acima da superfície da água, mas o verdadeiro risco está submerso: 80% da massa de gelo fica abaixo da superfície do mar. Se você assistiu ao filme Titanic, que conta a história do famoso transatlântico que afundou em 1912, vai lembrar que foi o impacto contra o gelo submerso que rasgou a estrutura de aço da embarcação, resultando no naufrágio do navio e na morte de 1.514 pessoas (número oficial).  

Comecei a postagem de hoje citando o iceberg como uma analogia ao que está com a CEDAE – Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro. Conforme mostramos em diversas postagens, as torneiras de muitos cariocas e fluminenses (estimativas falam de mais de 1,5 milhão de pessoas) têm recebido uma água turva e malcheirosa. Ao longo das postagens, mostramos os diversos problemas que acometem o rio Guandu, o principal manancial de abastecimento da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, que sofre com os males de uma poluição crônica já há várias décadas. Os problemas no abastecimento local de água, infelizmente, parecem ser muito mais profundos e, como um grande iceberg, estão escondidos sob a “superfície” das águas. 

Há cerca de duas semanas, relembrando um pouco a cronologia dos fatos, moradores de diversas localidades da Região Metropolitana passaram a reclamar da baixa qualidade das águas que chegavam às suas torneiras. As amostras de água apresentadas em diversas reportagens iam de um tom cor de chá fraco até casos com água barrenta. Representantes da CEDAE, em resposta aos questionamentos feitos por jornalistas, afirmavam que o excesso de poluição no rio Guandu estava prejudicando o tratamento da água na ETA – Estação de Tratamento de Água, homônima, mas insistiam que a água estava potável e que poderia ser consumida sem medo. 

As reclamações e as reportagens mostrando os problemas entraram numa espiral crescente. Na noite da última terça-feira, dia 14 de janeiro, o presidente da CEDAE, Hélio Cabral, anunciou a exoneração do chefe da ETA do Guandu, Júlio Cesar Antunes, uma medida que indicaria uma mudança nos procedimentos operacionais rumo à solução do problema. Também foi anunciado o início do uso de carvão ativado como elemento de filtragem extra para a água, medida que tende a eliminar os problemas criados pela presença de algas na água bruta. Mudanças são sempre bem-vindas e torçamos pelos bons resultados. 

O aparente “jogo de cena” político, entretanto, talvez não seja suficientemente profundo para resolver os problemas internos que a CEDAE vem vivendo neste último ano. O Estado do Rio de Janeiro, com imagino ser do conhecimento de todos, vem sofrendo há muitos anos de todos os males derivados de desmandos na administração pública, corrupção, perda de arrecadação fiscal, entre muitos outros. Dois ex-governadores do Estado, Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão, estão presos e outros dois, Anthony Garotinho e Rosinha Matheus, só estão livres graças a uma série de habeas corpus. As acusações contra eles são inúmeras: desvio de dinheiro público, prevaricação, concorrências fraudulentas, superfaturamento de obras, entre muitas outras. 

A CEDAE, uma empresa de economia mista que tem como principal acionista o Governo do Estado do Rio de Janeiro, é claro que não ficaria imune a tantos problemas. Com a chegada ao poder do Governador Wilson Witzel, um ex-juiz federal “linha dura”, em janeiro de 2019, uma série de mudanças e “limpezas” na máquina pública que foram prometidas durante a campanha passaram a ser colocadas em prática. 

O novo presidente da Estatal, Hélio Cabral, começou a mostrar serviço já nos primeiros meses de trabalho, quando demitiu 54 funcionários que ocupavam cargos de alto nível na empresa. Entre os demitidos estavam engenheiros, analistas de qualidade da água, contadores e administradores, além de um economista, um arquiteto e um geólogo. A grande maioria desses funcionários trabalhava na empresa há mais de 25 anos. A nova direção da CEDAE alegou que esses funcionários ganhavam altos salários, entre R$ 35 mil e R$ 80 mil, e ocupavam cargos apenas por indicação política. Com a saída desses funcionários, a empresa economizaria até R$ 100 milhões por ano. 

De acordo com reportagem do jornal Extra, a nova administração da CEDAE adotou uma série de medidas administrativas entre janeiro e agosto, visando maior eficiência e redução de custos:

Na área de gestão de pessoas, como redução de 37,1% dos cargos em comissão, que já resultaram na economia do equivalente a 12% nas despesas com pessoal. As despesas administrativas também foram reduzidas, com a diminuição de 25% dos gastos com transporte administrativo; de 20,9% da despesa com combustíveis; e de 44,2% do número de telefones móveis e mini-modems corporativos.” 

A empresa também criou um PDV – Programa de Demissão Voluntária, voltado para os funcionários com interesse em deixar a empresa mediante o recebimento de uma boa indenização trabalhista. O quadro de funcionários da CEDAE apresentava cerca de 5.200 empregados em novembro de 2019 e a empresa trabalhava com a expectativa de desligar cerca de 800 funcionários ou 15% da força de trabalho.

Em duas ocasiões ao longo da minha carreira profissional passei por processos vigorosos de reestruturação de empresas, onde vi muitos colegas de trabalho serem demitidos sumariamente e “sem dó” ou então induzidas a aceitar uma “demissão” voluntária – quem consegue sobreviver à degola fica traumatizado e são necessários meses até que as rotinas se restabeleçam e as coisas voltem à normalidade (se é que é possível voltar a ela). Aparentemente, muitos dos problemas que a CEDAE vem apresentando nessas duas últimas semanas estão ligados a esse clima interno de mudanças. Sendo até um pouco leviano, chego a pensar que a súbita perda de qualidade da água fornecida pela empresa aos consumidores foi fruto de descuidos propositais de funcionários – falo da boa e velha sabotagem. Por hora, porém, não há como comprovar isso.

Digo isso por que a empresa foi eleita no ranking ‘Melhores e Maiores” da Revista Exame como a “Melhor Empresa de Infraestrutura do País em 2019”, repetindo o feito de 2018 – em 2017, a empresa ficou em quarto lugar. O levantamento incluiu análises do crescimento de vendas líquidas, lucro líquido, patrimônio líquido, margens das vendas, rentabilidade e riqueza gerada por empregado, entre outros dados. Ou as informações fornecidas pela empresa à Revista Exame foram fraudulentas, como foram diversos dos Governos fluminenses anteriores, ou então os problemas estão mesmo sendo criados por funcionários – uma empresa “campeã” não desanda de uma hora para outra. 

Como estudioso dos problemas de saneamento básico e do meio ambiente, e também pelas ligações históricas da minha família com a cidade do Rio de Janeiro, faço votos para que se chegue a uma solução dessa verdadeira “novela” no menor tempo possível. Com a sensação térmica na Região Metropolitana do Rio de Janeiro superando a casa dos 50° C em alguns dias desse verão, é no mínimo desumano privar a população local do acesso a água de boa qualidade. 

A ÁGUA NOSSA DE CADA DIA, OU AINDA FALANDO DO RIO GUANDU

Fontes de água

Quem está acompanhando as últimas postagens aqui do blog já percebeu as dificuldades e os problemas para o abastecimento de água das populações da Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Assim como acontece em outras grandes regiões metropolitanas como São Paulo, Nova York e Los Angeles, os mananciais de água ficam a centenas de quilômetros de distância e são necessárias grandes obras de engenharia para transportar essa água até os consumidores finais. 

No caso do Rio de Janeiro, a principal fonte de água é o sofrido rio Guandu, um manancial com nascentes na Região Serrana do Estado, que por sua vez recebe grandes volumes de água transpostos da Bacia Hidrográfica do rio Paraíba do Sul. Conforme apresentamos em postagens anteriores, esses sistemas de transposição de águas entre as bacias hidrográficas foram construídos ao longo de grande parte do século XX com o objetivo de reforçar a geração de energia elétrica no Estado do Rio de Janeiro – a água que “sobra” nesses processos é lançada na direção do rio Guandu e usada para o abastecimento de aproximadamente 9 milhões de pessoas

Falamos muito também dos problemas de poluição das águas que já começam ao longo da calha do rio Paraíba do Sul e depois se acentuam na bacia hidrográfica do rio Guandu. Para conseguir tratar e potabilizar essas águas poluídas, a CEDAE – Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Estado do Rio de Janeiro, precisa fazer uma verdadeira “alquimia”. Prestem atenção nesta lista de produtos químicos: 

140 toneladas de sulfato de alumínio, 20 toneladas de cloreto férrico, 25 toneladas de cal virgem, 15 toneladas de cloro, 10 toneladas de ácido fluo silícico (o famoso flúor), entre outros produtos.” 

Em muitas pequenas e média cidades brasileiras, essa é a compra de insumos para vários meses de operação de suas ETAs – Estações de Tratamento de Água. No caso da ETA do Guandu, esse é o consumo diário da unidade para conseguir tratar todo o volume de água potável ali produzido. 

Considerada a maior estação de tratamento de água em produção contínua do mundo pelo Guinness Book, o livro dos recordes, em 2007, a ETA do Guandu produz uma média de 43 mil litros de água potável a cada segundo. Com essa produção toda, já seria de se esperar um grande consumo de produtos químicos nas suas operações. A intensa poluição das águas do rio Guandu, entretanto, é quem ajuda a turbinar esses números. 

Entre o final de maio e o início de junho de 2018, acho que muitos de você devem se lembrar, os caminhoneiros realizaram uma grande greve em todo o Brasil em protesto contra o aumento do preço do óleo diesel. Esse movimento prejudicou fortemente a economia do país e muitos produtos começaram a faltar no mercado, inclusive os produtos químicos consumidos pela ETA do Guandu. Se essa greve tivesse se estendido por um tempo maior, a população da Região Metropolitana do Rio de Janeiro teria ficado com as torneiras secas, o que só demonstra como o tratamento e a importância dessas unidades são críticas para a nossa sociedade. 

Além do uso intensivo de produtos químicos, bombear essa quantidade tamanha de água requer o uso de muita energia elétrica – são dezenas de grupos de motobombas elétricas, onde são consumidos cerca de 45 mil MWh. Para que vocês tenham ideia do que é isso, tal quantidade de energia elétrica é suficiente para abastecer uma cidade com perto de 500 mil habitantes. 

Os processos de tratamento da água bruta, nome que se dá a água retirada dos mananciais, começam com processos mecânicos, onde o objetivo é a retirada de lixo flutuante, resíduos sólidos e sedimentos como a areia.  No caso de águas poluídas como as do rio Guandu, esses processos são bem intensos. Vejam: 

Peneiramento/Gradeamento: Elimina as sujeiras maiores (folhas, galhos e lixo) através da filtragem por grades e telas; 

Sedimentação ou Decantação: A água bruta é armazenada em tanques, onde pedaços de impurezas que não foram retirados com o peneiramento são depositados no fundo dos tanques pela ação da gravidade; 

Aeração: Ar comprimido é injetado nos tanques com o intuito de retirar substâncias responsáveis pelo mau cheiro da água como o ácido sulfídrico (substância liberada pela decomposição de esgotos) e substâncias voláteis. 

Concluído essa fase de tratamento inicial, a água precisa passar por uma série de processos químicos para a remoção das impurezas e destruição de bactérias e outros microrganismos nocivos à saúde humana. É aqui onde todo o volume de produtos químicos relacionados começam a ser utilizados: 

Oxidação: O primeiro passo é oxidar os metais presentes na água, principalmente o ferro e o manganês, que normalmente se apresentam dissolvidos na água bruta. Para isso, injeta-se cloro ou produto similar, pois tornam os metais insolúveis na água, permitindo, assim, a sua remoção nas outras etapas de tratamento; 

Coagulação: A remoção das partículas de sujeira se inicia no tanque de mistura rápida com a dosagem de sulfato de alumínio ou cloreto férrico. Estes coagulantes têm o poder de aglomerar a sujeira, formando flocos. Para potencializar o processo adiciona-se cal virgem; 

Floculação: Na floculação, a água já coagulada movimenta-se de tal forma dentro dos tanques que os flocos se misturam, ganhando peso, volume e consistência; 

Decantação: Na decantação, os flocos formados anteriormente separam-se da água, sedimentando-se, no fundo dos tanques; 

Filtragem: A água ainda contém impurezas que não foram sedimentadas no processo de decantação. Por isso, ela precisa passar por filtros constituídos por camadas de areia ou areia e antracito (variedade de carvão mineral compacto e duro) suportadas por cascalho de diversos tamanhos que retêm a sujeira ainda restante; 

Desinfecção: A água já está limpa quando chega a esta etapa. Mas ela recebe ainda mais uma substância: o cloro. Este produto é um poderoso bactericida que elimina os microrganismos nocivos à saúde ainda presentes na água, garantindo também a sua qualidade nas redes de distribuição e nas caixas de água dos consumidores. 

Fluoretação: Finalizando o tratamento, a água recebe uma dosagem de composto de flúor (ácido fluo silícico), em atendimento a portaria do Ministério da Saúde. O flúor reduz a incidência de cáries nos dentes, especialmente no período da sua formação, que vai da gestação até a idade de 15 anos. 

Quando os níveis de poluição de um manancial ultrapassam o que podemos chamar de “níveis máximos da escala”, como vem acontecendo no rio Guandu nesse verão, esses processos de tratamento convencionais não conseguem deixar a água cristalina e sem cheiro – são necessários alguns processos de tratamento extras. Os esgotos domésticos presentes na água são ricos em matéria orgânica, que dissolvida na água provoca a eutrofização, o fenômeno do crescimento excessivo de plantas aquáticas através de uma super fertilização. Quando há um excesso de micro algas na água, os processos de tratamento não conseguem ser 100% eficientes e resíduos dessas plantas aquáticas aparecem na água distribuída para a população, alterando a cor e o cheiro do líquido. 

É aqui que chegamos a um ponto fundamental da discussão: ou se aumentam e se melhoram os processos de tratamento da água nas ETAs, o que vai garantir uma purificação adequada da água, ou se faz o que já deveria estar sendo feito há muito tempo – passar a cuidar com muita atenção e carinho das fontes de água, evitando o lançamento de esgotos e lixo nos rios, lagos e represas. 

Na minha modesta opinião, essa última alternativa é a melhor, mais barata e, sem qualquer dúvida, a mais saudável para todos. Salvem o rio Guandu! 

 

PS: A CEDAE exonerou o chefe da ETA – Estação de Tratamento de Água, do Guandu, Júlio César Antunes, na noite da terça-feira, dia 14, em função dos muitos problemas que a unidade vem apresentando há mais de 10 dias