Posts de ferdinandodesousa

Natural da cidade de São Paulo. Fernando José de Sousa é Jornalista (Registro nº 0085519/SP) e graduando em Engenharia Ambiental, com graduações completas em Gestão Ambiental e Computação, e Pós Graduações em Marketing, Educação Ambiental e Engenharia Civil. Após atuar profissionalmente durante 20 anos em empresas do ramo industrial, passou a atuar na área de comunicação social de obras públicas de infraestrutura, onde o contato direto e o trabalho com o público, em especial o público infanto juvenil , despertou seu interesse pela área ambiental, com destaque para os problemas na área do saneamento básico. Utilizando de suas habilidades como redator publicitário, passou a usar a literatura como forma de divulgar o respeito pelos recursos naturais e os problemas ambientais. Em 2004 publicou seu primeiro livro - AVENTURA NA SERRA DO MAR, voltado para o público juvenil, onde o autor faz um relato de uma grande aventura vivida numa expedição com alguns amigos do Clube de Desbravadores Borba Gato de São Paulo, do qual foi membro por 10 anos. Outras narrativas de suas aventuras são OS CAÇADORES DE BORBOLETAS, O SUMIÇO DO GATO PIPOCA, CONTOS DO FOGO DO CONSELHO e O PRIMEIRO ACAMPAMENTO - todos esses livros tem o meio ambiente natural e urbano como personagens de destaque. Do seu trabalho na área do meio ambiente e da sustentabilidade na construção civil, onde atuou de de 2002 a 2013, escreveu os livros ESGOTO SANITÁRIO: QUE TREM É ESSE SÔ? e A REPÚBLICA DOS GAFANHOTOS. Em 2017 publicou os livros A SUPEREXPLORAÇÃO DAS FONTES DE ÁGUA, TÓPICOS DE SANEAMENTO BÁSICO - ABASTECIMENTO DE ÁGUA E ESGOTOS, E TÓPICOS DE SANEAMENTO BÁSICO - ÁGUAS PLUVIAIS E RESÍDUOS SÓLIDOS, textos compilados a partir das postagens no WordPress. Possui grande experiência na área de Saneamento Básico, especialmente em obras de implantação de sistemas de coleta de esgotos e construção de estações de tratamento de esgotos. Atuou nas obras do Programa Onda Limpa da Sabesp entre 2007 e 2009, tendo trabalhado nas cidades de Itanhaém, Peruíbe, Cubatão, Guarujá/Vicente de Carvalho e Bertioga. Em 2009 passou a atuar nas obras de implantação do sistema de esgoto sanitário da cidade de Porto Velho, Rondônia, atividade que durou um ano e meio até a paralisação das obras devido a disputas políticas entre grupos. Entre 2010 e 2012 atuou em obras do Projeto Tietê da Sabesp na Região Metropolitana de São Paulo, desenvolvendo trabalhos nos municípios de São Paulo, Osasco, Barueri, Pirapora do Bom Jesus, Francisco Morato e Arujá. Finalmente, no ano de 2012 realizou diversos trabalhos de comunicação e educação ambiental para a Águas de Itu, concessionária de serviços de saneamento básico da cidade de Itu, São Paulo. Desde 2013 trabalha como Jornalista e Consultor de Comunicação e Educação Ambiental Autônomo.

OS GARIMPOS ILEGAIS NA GUIANA FRANCESA, OU OS PECADOS AMBIENTAIS DA FRANÇA NA AMAZÔNIA

Garimpo na Guiana Francesa

A Guiana Francesa é um pequeno enclave europeu na Floresta Amazônica com pouco mais de 80 mil km², o que correspondende a metade do território do Estado brasileiro do Acre. Apesar dos franceses afirmarem se tratar de um “departamento ultramarino”, ou seja, uma extensão do território da França do outro lado do oceano, tecnicamente falando trata-se da última colônia da Europa nas Américas. As condições de vida da população franco-guianense, que se encontra na casa dos 290 mil habitantes e é menor do que a população de bairros das grandes cidades brasileiras, estão muito aquém do padrão médio dos cidadãos franceses.  

A produção econômica local é o que se chama de subsistência, ou seja – tudo o que é produzido é para o consumo próprio, sem geração de excedentes. O território é totalmente dependente da inversão de capitais da Metrópole. A taxa de desemprego está na casa dos 20% na zona litorânea, onde vive perto de 75% da população. Em áreas do interior, o desemprego supera a casa dos 30%. O maior gerador de receitas da Guiana Francesa é o Centro Espacial de Kourou, onde são feitos os lançamentos de foguetes e satélites da ESA – Agência Espacial Europeia na sigla em inglês. Outra atividade importante é a mineração. 

O paraíso equatorial de Emmanuel Macron, que durante a crise das queimadas na região no ano passado usou a expressão “a nossa Amazônia”, apresenta, em menor escala, os mesmos problemas dos demais países amazônicos – falta de infraestrutura, fronteiras sem fiscalização, derrubada de florestas e devastação ambiental, Nos garimpos ilegais, somam-se a esses problemas a prostituição, tráfico e consumo de drogas, contrabando, epidemias de doenças tropicais como a malária, violência e invasão de áreas indígenas, entre outros.

O garimpo ilegal do ouro, tanto em áreas florestais públicas, quanto em reservas florestais e áreas indígenas, é um dos maiores problemas ambientais da Guiana Francesa. De acordo com estimativas bem imprecisas da Agência Nacional de Florestas da França, existem entre 500 e 900 garimpos ilegais de ouro no território, comprometendo cerca de 12 mil hectares de florestas e 1,3 mil km de cursos d’água

Segundo informações do WWF – Fundo Mundial para a Natureza na sigla em inglês, a mineração ilegal emprega pelo menos 10 mil pessoas, onde além de locais se encontram cidadãos do Brasil, Suriname, Guiana, Haiti e, mais recentemente, da Venezuela. A atividade utiliza cerca de 10 toneladas de mercúrio a cada ano, que é usado para separar o ouro dos rejeitos minerais. O mercúrio, conforme já tratamos em postagens anteriores, é um metal pesado altamente tóxico, que contamina águas, solos e pessoas. Cerca de mil hectares de florestas são destruídos silenciosamente a cada ano – os garimpeiros locais usam a tática de manter as árvores maiores em pé, dificultando assim a identificação, por imagens aéreas e de satélite, das áreas devastadas  (vide foto)

O Governo da França proibiu o uso do mercúrio na Guiana Francesa em 2006, o que podemos afirmar que foi uma iniciativa “para cidadão francês ver”. Com fronteiras altamente permeáveis e com uma infinidade de estradas e trilhas clandestinas por todos os cantos, o mercúrio entra com extrema facilidade no “departamento” através das mãos de contrabandistas e continua sendo usado livremente na separação do ouro nos garimpos. Assim como ocorre aqui na Amazônia brasileira, a fiscalização das autoridades francesas é extremamente precária e existem grandes extensões onde a “terra é de ninguém”. 

Esses mesmos caminhos clandestinos servem ao descaminho do ouro, que sai ilegalmente da “França” e vai parar nos mercados clandestinos dos países vizinhos. Um caso interessante que podemos citar é o do Estado do Amapá aqui no Brasil, que vem aumentando os seus volumes de “exportação” de ouro sem apresentar aumentos correspondentes na produção mineral local. O Amapá e a Guiana Francesa, não por acaso, compartilham uma extensa fronteira que, praticamente, não tem fiscalização alguma. 

Os pequenos pecados ambientais da Guiana Francesa vêm crescendo num ritmo acelerado nos últimos anos e, pelo andar da carruagem, deverão aumentar exponencialmente nos próximos dois anos. Um consórcio de empresas de mineração da Rússia e do Canadá apresentou ao Governo da França um pedido para a implantação de um grande projeto de mineração industrial de ouro no Norte do “departamento” franco-guianense, que espera implementar a partir de 2022. Esse projeto tem o sugestivo nome de Montagne d’Or, ou Montanha de Ouro numa tradução livre. 

De acordo com os estudos e prospecções realizados por essas empresas, a região tem um potencial para a produção de 85 toneladas de ouro ao longo de 12 anos. Para nós brasileiros, esse é um número que não surpreende – o lendário garimpo de Serra Pelada no Pará, produziu oficialmente cerca de 50 toneladas de ouro entre os anos de 1980 e 1992. Dados extra oficias falam de uma produção entre 100 e 400 toneladas do metal

O consórcio minerador estima que o projeto poderá gerar 750 empregos diretos e cerca de 3 mil indiretos. Desde 2018 o grupo vem tentando colocar o projeto em consulta pública, o que faz parte do processo de liberação da autorização de lavra junto ao Governo da França. Em 2017, inclusive, o Presidente Emmanuel Macron, afirmou em uma entrevista aos canais de televisão France Télévisions Guyane e ATV que “é um projeto que, em minha opinião, pode ser bom para a Guiana” e que “espero que a Guiana possa ter sucesso com suas riquezas, e não estou em posição de colocá-la (o território) em risco”. 

A simples sinalização de que o Governo da França era simpático à liberação da licença de mineração do projeto Montagne d’Or despertou a fúria de grupos ambientalistas da França e da Europa, que não admitem, em hipótese alguma, a devastação em larga escala de um trecho “europeu” da Floresta Amazônica. De acordo com os ambientalistas, o projeto causaria a destruição de uma área de mais de 800 hectares de floresta, onde seria aberta uma cava com 2,5 km de extensão, 500 metros de largura e 400 metros de profundidade, e onde seria usada cerca de 20% de toda a energia elétrica produzida na Guiana Francesa

Outro gravíssimo problema apontado pelos ambientalistas é a produção de rejeitos minerais, um dos maiores problemas da mineração. Conforme comentamos em postagens recentes, as empresas de mineração da Rússia têm um longo histórico de contaminação de solos e águas com metais pesados presentes em rejeitos minerais, principalmente na Sibéria. As empresas canadenses do setor também não fazem feio “nesse quesito”: em 2014, o rompimento de uma barragem de rejeitos da mineração de cobre e ouro na Colúmbia Britânica, Oeste do Canadá, resultou no vazamento de mais de 24 milhões de m³ de lama tóxica. 

Diante de tamanha pressão popular, não é de se estranhar a mudança de postura do Presidente francês que, em 2019, se transformou no maior defensor da Floresta Amazônica e desferiu ataques viscerais contra o Brasil por causa da onda de queimadas que estavam transformando a “Amazônia em cinzas”. Essa mudança de postura, é claro, emparedou politicamente Emmanuel Macron, que, agora como defensor número um da Amazônia, não pode liberar as operações da Montagne d’Or

O mundo, porém, dá voltas – a epidemia da Covid-19 está devastando a economia mundial e a França, assim como grande parte dos países do mundo, já se encontra tecnicamente em recessão. Com o grama do ouro cotado em € 44 (euros) nesses últimos dias, será muito difícil que o Governo da França resista à ideia de manter 85 toneladas do metal enterradas no solo da Amazônia enquanto milhões de cidadãos do país estão passando por dificuldades financeiras. Algum malabarismo político ou pirotecnia será feita para convencer o público/eleitorado que é possível fazer a exploração de toda essa montanha de ouro sem causar problemas para o meio ambiente e preservando a Floresta Amazônica, mesmo que isso não seja absolutamente verdadeiro. 

Quando se trata de dinheiro, a hipocrisia sempre “fala mais alto”. 

O RENASCIMENTO DO MAR DO NORTE DE ARAL

Barragem de Kokaral

O fabuloso Mar de Aral, na Ásia Central, já foi o quarto maior lago do mundo. Algumas poucas décadas atrás, seu espelho d’água cobria uma área total de 68 mil km², o que corresponde a uma vez e meia a área do Estado do Rio de Janeiro ou o equivalente a 165 vezes a área da Baía da Guanabara.  

Infelizmente, a construção de uma infinidade de canais de irrigação pela antiga URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, passou a desviar a maior parte dos caudais dos rios Amu Daria e Syr Daria para uso em projetos agrícolas, o que fez o lago praticamente desaparecer

Cerca de 90% da área que era ocupada pelo Mar de Aral, onde a profundidade das águas chegava a superar os 30 metros, acabou sendo transformada em um grande deserto de areias salgadas – o Aralkum. Um pequeno trecho de águas conseguiu sobreviver na faixa Norte e passou a ser conhecido como o Pequeno Mar de Aral. 

O destino de todo o Mar de Aral, que parecia ser o de se transformar num grande deserto, mudou radicalmente quando o Banco Mundial entrou em cena no final da década de 1990 e concedeu um empréstimo de US$ 87 milhões ao Governo do Cazaquistão, que tinha na época um projeto para revitalizar o que restou do Mar de Aral em seu território

O projeto do Governo cazaque consistia na construção de uma barragem com cerca de 13 km de extensão e cerca de 4 metros de altura num trecho onde as águas remanescentes formavam um longo canal. Essa barragem, batizada de Kokaral (vide foto), foi concluída em 2005. O Governo local também realizou uma série de melhorias nos canais de irrigação alimentados pelo rio Syr Daria, reduzindo substancialmente as perdas de água e aumentando os caudais que chegavam ao Pequeno Mar de Aral. 

Com a conclusão de todo esse conjunto de obras, os cazaques imaginavam que, em cerca de 10 anos, esse trecho represado do Pequeno Mar de Aral poderia acumular uma lâmina de água com aproximadamente 3,3 metros de profundidade. Para surpresa de todos, essa cota acabou sendo atingida em apenas sete meses e o lago “renascido” passou a ser chamado de Mar do Norte de Aral

Com a estabilização do volume de águas no lago, diversas espécies de peixes do rio Syr Daria voltaram a recolonizar o Mar do Norte de Aral. Já em 2006, a indústria pesqueira foi retomada e a produção totalizou cerca de 1.360 toneladas. Em 2016, os dados da Unidade de Inspeção de Peixes do Porto de Aralsk contabilizaram 7.106 toneladas de pescados, principalmente o lúcio, uma espécie muito apreciada pelos locais, além de sargos e bagres. 

Existem planos para aumentar a altura da barragem de Kokaral em mais 4 metros, o que resultaria em um aumento de 50% na área ocupada pelo espelho d’água em prazo de 5 anos. Esse projeto ainda está em discussão entre o Banco Mundial e o Governo do Cazaquistão. Todos os anos, cerca de 2,7 bilhões de m³ de água “sangram” através da barragem rumo ao trecho Sul do lago e se perde em grande parte por evaporação, o que demonstra viabilidade do projeto. 

Enquanto esse pequeno trecho do espelho d’água, que corresponde a cerca de 10% do antigo Mar de Aral, foi salvo e abriu a possibilidade de milhares de cazaques retomarem as antigas tradições do trabalho com a pesca de seus pais e avós, o trecho uzbeque continua desoladamente seco como nas últimas décadas. Assim como fez com o Governo do Cazaquistão, o Banco Mundial se propôs a financiar obras de revitalização de alguns trechos do Aral no Uzbequistão, porém, não teve a mesma receptividade. 

Assim como acontecia no trecho Norte, alguns pequenos resquícios de água sobreviveram na faixa Sul do Mar de Aral – um desses locais era o Lago Sudoche. Com a realização de obras de barragens e melhorias nos sistemas de drenagem dos canais de irrigação do rio Amu Daria, além do aproveitamento dos excedentes de águas do Mar do Norte de Aral, seria possível a revitalização de parte do Aral no Sul. 

Apesar dos bem intencionados objetivos do Banco Mundial e do grande sucesso da revitalização do Mar do Norte de Aral pelo Cazaquistão, o Governo do Uzbequistão não esboçou maiores simpatias pelo projeto. As principais razões para isso são geográficas – enquanto o Cazaquistão tem um território com mais de 2,7 milhões de km², onde se encontram grandes riquezas naturais e ainda possui uma fachada “oceânica” para o Mar Cáspio, o Uzbequistão tem apenas 447 mil km² de um território cercado por estepes áridas e semiáridas, com volumes de recursos naturais muito menores. 

Com a construção dos canais de irrigação no rio Amu Daria a partir dos tempos do regime comunista da antiga URSS, o Uzbequistão se tornou um grande produtor de algodão, produto que se transformou em uma das maiores riquezas do país e um grande gerador de ocupação da mão de obra. Nos dias atuais, o Uzbequistão ocupa o quinto lugar no ranking dos maiores exportadores mundiais de algodão, só ficando atrás das grandes potências mundiais do setor: Estados Unidos, Índia, Brasil e Austrália. As exportações de produtos agrícolas, especialmente do algodão, são responsáveis por 14% das riquezas do país

O comodismo do Governo do Uzbequistão em manter as coisas como estão, sem abrir mão dos caudais do rio Amu Daria para uso na agricultura irrigada, está causando prejuízos ambientais cada vez maiores. O antigo fundo arenoso do Mar de Aral possui uma espessa camada com bilhões de toneladas de sal, acumulada ao longo de milhões de anos. Sem a presença da água, esse fundo passou a ficar exposto aos fortes ventos das estepes, que passou a espalhar perto de 75 milhões de toneladas de sal a cada ano. Resíduos de produtos químicos da agricultura, especialmente pesticidas e fertilizantes, carreados após o uso intensivo da irrigação, também são espalhados pelos ventos

De acordo com estudos da Academia de Ciências do Uzbequistão, essa camada de pó branco tóxico cobriu, até o ano de 2005, uma área de 5 milhões de hectares a Sul e a Leste da região do Mar de Aral dentro do território do país. Extensas áreas do Karakum (Deserto Negro) e Kyzlkum (Deserto Vermelho), perderam as cores que deram origem aos seus nomes e agora estão incrustradas com um pó branco. Os ventos também carregam grandes quantidades de sal tóxico para as áreas de agricultura irrigada, prejudicando cada vez mais a produção do valioso algodão

Estudos clínicos têm encontrado altíssimos níveis de anemia e um aumento exponencial das doenças respiratórias em moradores que permaneceram nas regiões atingidas por essa nuvem de sal, com forte incidência de alguns tipos de câncer, além de aumento na mortalidade infantil. O desaparecimento da maior parte do espelho d’água do Mar de Aral também provocou uma alteração no clima regional, que apresenta verões cada vez mais secos e quentes, com temperaturas chegando próximo dos 50° C e invernos mais longos e frios, com temperaturas de até -40° C

É essa a situação contrastante dos dois lados do Aral – enquanto no trecho Norte a situação ambiental se estabilizou e, gradualmente, parte do que havia sido perdido pode ser recuperado, a situação no Sul do Mar de Aral descambou para a mais completa e absoluta tragédia. Os últimos resquícios de água do Mar de Aral que ainda persistiam no Uzbequistão desapareceram em 2015. 

Essa saga ainda não terminou – os rios Amu Daria e Syr Daria têm suas nascentes em glaciares no alto das Montanhas Himalaias. O aquecimento global está ameaçando cada vez mais a existência dessas geleiras e, dentro de poucas décadas, as tão disputadas águas poderão simplesmente desaparecer da Ásia Central. 

Quando isso acontecer, toda a humanidade poderá ficar feliz com a conclusão da sua grande obra! 

UM DOS GRANDES CRIMES AMBIENTAIS DA ANTIGA UNIÃO SOVIÉTICA – A DESTRUIÇÃO DO MAR DE ARAL

Seca no Mar de Aral

Nessa série de postagens, estamos apresentando um pequeno resumo dos grandes problemas ambientais da Rússia atual. Essa lista não ficaria completa sem a inclusão das grandes catástrofes ambientais levadas a cabo nos tempos da URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, o grande bloco de países criado a partir da Revolução Russa ou Bolchevique de 1917 e que perdurou até 1991. A maior de todas essas catástrofes ambientais foi a destruição do Mar de Aral, na Ásia Central. 

O Mar de Aral era, até poucas décadas atrás, o quarto maior lago do mundo. Localizado entre o Cazaquistão e o Uzbequistão, na Ásia Central, costumava ocupar uma área total de 68 mil km², o que corresponde a uma vez e meia a área do Estado do Rio de Janeiro ou o equivalente a 165 vezes a área da Baía da Guanabara. Nada mal para um lago no meio de um grande deserto. Aral, nas línguas uzbeque e cazaque, significa “ilha” – haviam mais de 1.100 naquele mar. 

Esse grande espelho d’água ocupava uma grande depressão no terreno, onde formava uma bacia hidrográfica endorreica (sem saída), que recebia os caudais de dois grandes rios – o Amu Daria e o Syr Daria. Estes caudalosos rios nascem na Cordilheira do Himalaia, distante 2.000 quilômetros do lago. O grande volume de água despejado no lago compensava a evaporação de aproximadamente 10% ao ano, mantendo o nível do Aral estável por um longo período geológico e com uma profundidade máxima de 31 metros. 

Desde tempos imemoriais, o Mar de Aral era um grande oásis em meio a desertos inóspitos. As margens do Aral abrigavam diferentes grupos étnicos como tadjiques, uzbeques e cazaques, que sobreviviam como agricultores, pescadores, pastores, mercadores e artesãos numa região rica em água, plantas e vida animal. A antiga Rota da Seda, uma das ligações comerciais mais importantes da história da humanidade, cruzava as praias e deltas do Mar de Aral, situado no meio do caminho entre a Europa e a China 

Em meados do século XIX, a expansão militar do Império Russo levou à conquista da região do Mar de Aral. Navios militares e pesqueiros da Rússia foram transportados desmontados em caravanas de camelos e montados nas águas do Aral. Após a conquista, foi iniciada uma nova etapa da sua história – o Mar de Aral foi transformado numa fonte de pescados para toda a Rússia, chegando a fornecer, em meados do século XX, 1/6 do volume total dos peixes consumidos pelos povos dos países do bloco soviético

A guinada na história do Mar de Aral começou com a Revolução Bolchevique de 1917, que levou à criação da URSS, onde países da Ásia Central foram incorporados ao bloco. Dentro do sistema de planejamento central do sistema, todo o grande território da União Soviética foi dividido em função das suas potencialidades econômicas. As planícies desérticas e semidesérticas das Repúblicas da Ásia Central passaram a ser vistas como potenciais produtoras de alimentos e de algodão via sistemas de agricultura irrigada – as fontes de água seriam os caudalosos rios Amu Daria e Syr Daria. 

A partir da década de 1920, a área de agricultura irrigada na República do Turquestão foi extensivamente ampliada a fim de atender a uma proclamação de Vladimir Lenin (1870-1924) solicitando o aumento da produção do algodão. Na década de 1930, já sob o comando de Joseph Stálin (1878-1953), o Ministério da Água iniciou a implantação de gigantescos projetos de construção de canais de irrigação no Uzbequistão, Cazaquistão e Turcomenistão, com o objetivo de transformar suas estepes nos celeiros da União Soviética, alcançando a autossuficiência na produção de trigo, cevada, arroz, milho e algodão. O primeiro grande canal de irrigação foi concluído em 1939 no Vale de Ferghana no Uzbequistão; no final da década de 1940 foram concluídos canais em Kizil-Orda no Cazaquistão e na região de Taskent no Uzbequistão. 

Após a morte de Stálin em 1953, os novos dirigentes da União Soviética – Nikita Khushchev (1894-1971) e Leonid Breznev (1906-1982), mantiveram a política de produção agrícola nas Repúblicas da Ásia Central, expandindo ainda mais a construção dos grandes canais de irrigação e convertendo ainda mais áreas de estepes para a produção de algodão. Foram construídos o Qara-Qum, um canal com 800 km de extensão entre o rio Amu Daria e Ashkhadab, o sistema de irrigação de Mirzachol Sahra, o canal Chu no Quirguistão e o Reservatório de Bahr-i Tajik no Tadjiquistão.  

A partir do final da década de 1950, Moscou decidiu que toda a região irrigada da Ásia Central passaria a se ocupar exclusivamente com a monocultura do algodão – “quando o branco da neve cobre Moscou, o ouro branco do algodão cobre as Repúblicas Soviéticas da Ásia Central”: essa frase passou a ser uma espécie de mantra no Kremlin

Os planos dos burocratas de Moscou lograram espantosos êxitos, com recordes de produção quebrados sucessivamente ano após ano, porém, com terríveis custos sociais e ambientais. A sangria de recursos hídricos dos rios Amu Daria e Syr Daria para uso em sistemas de irrigação fez cair em 90% o volume de água que chegava ao Mar de Aral. A monocultura do algodão destruiu as tradições culturais dos povos nômades da Ásia Central, sobretudo os cazaques, um povo sem qualquer tradição em agricultura e que não aceitou o programa de propriedade coletiva dos soviéticos – calcula-se que mais de um milhão de pessoas morreram ou abandonaram a região, migrando para outros países. 

Em 1960, o nível do Mar de Aral estava cerca de 2 metros mais baixo e a área ocupada pelo seu espelho d’água foi reduzida em 6.000 km². Cinco anos depois, o nível baixou mais 3 metros e o espelho d’água diminuiu outros 5.000 km². Passados dez anos, o nível das águas baixou mais 14 metros e o Mar de Aral ficou reduzido a um terço da sua área original, com um grande aumento da salinidade das suas águas e intensa mortandade de peixes. O porto de Aralsk, onde o lago tinha uma profundidade média de 13 metros, agora estava distante 70 km da margem das águas remanescentes – o colapso do Mar de Aral estava consolidado e a vida de 50 milhões de pessoas teria um futuro incerto. 

Um pequeno trecho do lago ao Norte, batizado de Pequeno Aral, conseguiu manter parte de suas águas graças a uma pequena contribuição mantida pelo rio Syr Daria. Com financiamento do Banco Mundial, o Governo do Cazaquistão construiu uma barragem com extensão de 13 km, permitindo a estabilização da profundidade deste trecho remanescente do lago em 4 metros. Esse trecho, mais conhecido como Mar do Norte de Aral, corresponde atualmente a apenas 10% da área original do corpo d’água – todo o restante da área ocupada originalmente pelo lago acabou transformada em desertos de areias salgadas

Bastaram pouco mais de 50 anos de obras inconsequentes planejadas por burocratas do Kremlin para destruir um dos mais fascinantes lagos do mundo. Esses burocratas seguiam apenas as suas planilhas com as metas de produção, sem ouvir nenhum especialista em recursos hídricos. Consta que, na década de 1940, um alto funcionário do Ministério da Água, respondendo aos questionamentos de um grupo de cientistas preocupados com as consequências dos programas de irrigação na Ásia Central, respondeu: 

“- O Mar de Aral precisa morrer como um soldado na Guerra! ” 

Demorou, mas enfim a morte chegou… 

OS ESFORÇOS DA RÚSSIA PARA A EXPLORAÇÃO DE PETRÓLEO E GÁS NO ÁRTICO, OU FALANDO DO PROJETO ICEBERG

Urso polar

Em 1871 foi perfurado o primeiro poço de petróleo na região do Mar Cáspio, mais precisamente no Azerbaijão. Essa descoberta coincidiu com a expansão territorial do Império Russo naquele momento e, décadas depois, esse domínio regional foi consolidado com a anexação de países do Cáucaso e da Ásia Central à URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. A região foi transformada nas décadas seguintes em uma importante fornecedora de petróleo e gás para todo o bloco socialista.

Antes do colapso da URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, em 1991, a Rússia continuava controlando importantes reservas de petróleo e gás no Mar Cáspio e em países como o Azerbaijão, Turcomenistão, Uzbequistão e Cazaquistão. Com o fim da URSS, esses países passaram a ter liberdade de negociar suas riquezas naturais com outros países, o que forçou os russos a se voltarem para seu próprio território, especialmente para a Sibéria.

As estimativas atuais afirmam que as reservas de petróleo no Mar Cáspio e na Ásia Central são de 50 bilhões de barris e as de gás são da ordem de 9,1 trilhões de m³, valores que correspondem a cerca de 5% das reservas mundiais. Atualmente, entre os grandes compradores desses recursos, estão os países da Europa, Estados Unidos e, cada vez mais, a China – a Rússia acabou relegada à “segunda divisão”.

Dentro do território russo, conforme comentamos na última postagem, a Sibéria – mais especificamente o Planalto Siberiano, se transformou na grande fonte de recursos energéticos do país. A região concentra 80% das reservas de petróleo, 85% do gás e 80% do carvão russo. O Governo da Rússia, entretanto, quer aumentar as suas reservas estratégicas, aumentando assim o seu capital político. Cada vez mais, os russos tem voltado seus olhos para as reversas de hidrocarbonetos escondidas sob o Mar Ártico, uma atividade que pode comprometer um dos mais importantes ecossistemas do planeta.

A Rússia vem pleiteando há vários anos uma expansão do seu território submarino na região do Ártico junto à Comissão dos Limites da Plataforma Continental da ONU – Organização das Nações Unidas. Em 2013, a Rússia teve sucesso junto a essa Comissão na ampliação dos seus direitos territoriais no Mar de Okhotsk, na região do Oceano Pacífico, e imagina que isso é um bom precedente para as suas reinvindicações no Ártico. Outros países como o Canadá também fazem a mesma solicitação.

O Oceano Ártico apresenta profundidades de até 5 mil metros, o que, por si só já se apresenta como um grande desafio para a exploração de petróleo e gás. Aqui vale lembrar que o Brasil vem explorando petróleo em águas profundas na região conhecida como Pré-Sal no Oceano Atlântico. As profundidades nessa região chegam a 7 mil metros, sem contar com uma espessa camada de sal no fundo marinho que pode chegar a 2 mil metros. A Petrobras – Petróleo Brasileiro S.A., foi obrigada a desenvolver tecnologias especiais para conseguir realizar com sucesso as explorações nessas condições.

Porém, ao contrário do clima tropical da costa brasileira, o clima do Ártico é inóspito e o Oceano passa grande parte do ano coberto por uma grossa camada de gelo. Para vencer essas dificuldades e se tornar a primeira nação do mundo a fazer explorações bem sucedidas na região, a Rússia criou há vários anos o Projeto Iceberg, onde os principais objetivos são o desenvolvimento de novas tecnologias e o aperfeiçoamento de equipamentos para operação em condições de frio extremo. Entre os principais destaques tecnológicos dos russos estão os robôs submarinos e os submarinos não tripulados.

Uma das principais peças do sistema de exploração de águas profundas da Rússia é o Belgorod, o maior submarino nuclear já construído. Com 182 metros de comprimento, esse submarino vai operar como uma espécie de “nave-mãe” para uma frota de submarinos menores, tripulados e não tripulados. A embarcação também será usada na realização de análises submarinas e na instalação de cabos e outros equipamentos subaquáticos.

Um outro equipamento que já se encontra em fase de testes é o Harpischord-2R-PM AUV, um veículo submersível com 2 toneladas de peso e 6 metros de comprimento, desenvolvido especialmente para o Projeto Iceberg. Esse veículo tem o formato de um torpedo e está em testes no Mar Negro. O equipamento já foi usado em missões para a localização de destroços de aeronaves acidentadas no mar.

Os russos trabalham com a expectativa de automatizar ao máximo e controlar à distância os processos produtivos através do uso de novas tecnologias e, consequentemente, reduzindo ao mínimo a necessidade de uso de mão de obra humana in loco. Muitas das grandes potências mundiais observam com restrições o andamento do projeto da Rússia, colocando dúvidas na viabilidade práticas dessas tecnologias.

Entre outros equipamentos, os russos pretendem instalar um reator nuclear autônomo de 24 MW no fundo do mar, que servirá como um ponto de recarga para os robôs e submarinos autônomos que estarão trabalhando nas operações de prospecção, perfuração e extração de petróleo e gás no Ártico. Esse é um dos pontos que mais gera preocupações na comunidade internacional – a Rússia tem um longo histórico de acidentes nucleares.

O maior e mais grave acidente nuclear da história aconteceu em Chernobyl, na então República Socialista Soviética da Ucrânia, em 1986. Um teste de segurança desastroso desencadeou uma série de falhas em equipamentos e em procedimentos de operação da usina nuclear. Houve uma grande explosão de vapor, o que expôs os elementos radioativos do núcleo e liberou grandes quantidades de urânio na atmosfera. Os russos esconderam essa informação da comunidade internacional por vários dias, o que agravou as consequências do desastre.

Os russos também contabilizam inúmeros acidentes com embarcações militares com propulsão nuclear. Desde 1961, até onde se conhece, a Marinha Soviética perdeu sete submarinos nucleares, além de diversos acidentes graves com os reatores nucleares de navios militares. Esses números podem ser maiores: a União Soviética não poupava esforços para esconder do mundo os seus fracassos. Um dos grandes acidentes com um submarino russo foi o Kursk, no ano 2000 já na era pós-URSS, causando a morte dos seus 118 tripulantes. Os orgulhosos russos se negaram a receber ajuda dos Estados Unidos, que possuía submarinos de resgate para uso nesse tipo de acidente.

Além dos temores relativos a eventuais falhas nos reatores nucleares de diversos equipamentos que virão a ser usados nas instalações de exploração de petróleo e gás, a comunidade internacional também se preocupa com as consequências de um possível acidente com petróleo na Região do Ártico. Existem fortes razões para esses temores – o acidente com o superpetroleiro Exxon Valdez no Alasca em 1989 deu uma grande demonstração dos impactos ambientais criados por um grande derrame de petróleo no Ártico. De acordo com estimativas oficiais, a tragédia provocou a morte de mais de 260 mil aves marinhas, 2.800 lontras-marinhas, 250 águias e 22 orcas, além de dezenas de milhares de peixes, crustáceos e moluscos marinhos.

O Ártico está entre as regiões do mundo que mais sofrem com os efeitos do Aquecimento Global. As temperaturas médias na região estão aumentando progressivamente, o que tem levado à perda de grandes volumes de gelo. Pesquisas recentes indicam que a camada de gelo que cobre o Ártico ficou até 40% mais fina e houve uma redução de cerca de 15% em sua área total. Diversos animais estão sendo fortemente ameaçados com essas mudanças no seu habitat, onde destacamos os carismáticos ursos polares, uma das espécies mais representativas do Ártico.

Expor uma região já criticamente ameaçada pelos efeitos do Aquecimento Global a riscos de acidentes com petróleo parece fugir completamente do razoável. Agora, qual país teria “peito” para encarar uma potência nuclear como é a Rússia para impedir que avancem com seus projetos?

A PREDATÓRIA EXPLORAÇÃO DE PETRÓLEO, GÁS E OUTROS RECURSOS NATURAIS NA SIBÉRIA

Tigre siberiano

Imagine um lugar inóspito, pouco habitado, gelado na maior parte do ano, longe de tudo e que dava arrepios na espinha daqueles que ouviam seu nome: Sibéria. Até algumas poucas décadas atrás, essa era a imagem dessa extensa região do Leste da Rússia, que nos tempos “áureos” do regime comunista era o paraíso dos gulags, os campos de prisioneiros e de dissidentes políticos do regime. A Sibéria responde por 77% do território da Rússia, o que corresponde a 13 milhões de km². 

Nos últimos anos, porém, as temidas estepes geladas da Sibéria foram transformadas na redenção da Rússia. Após o colapso da URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, os russos perderam ou passaram a ter acesso limitado aos recursos naturais de seus antigos países satélites. Foi então que a Sibéria entrou definitivamente no mapa da Rússia – a região concentra 80% das reservas de petróleo, 85% do gás, 80% do carvão, além de possuir impressionantes reservas de minerais e a maior parte das florestas do país. 

Essas grandes reservas de matérias primas e recursos energéticos colocaram a Rússia como um dos grandes players do mundo atual. Os países que formam a União Europeia, citando um exemplo, se transformaram em grandes dependentes de recursos energéticos da Rússia – 70% do petróleo e 65% do gás consumido por esses europeus são comprados dos russos. Um outro grande mercado para os recursos naturais e energéticos da Rússia é a China, país que fica muito próximo da região da Sibéria e que já é o destino final de diversos oleodutos, gasodutos e rodovias russas. 

A proximidade com a China, aliás, se tornou um dos grandes atrativos da até então “distante Sibéria”. De acordo com as informações usadas e divulgadas pelo Governo da Rússia nas estratégias de marketing dos recursos siberianos, o tempo de transporte de uma carga para Xangai a partir do porto de Vânino na Sibéria é de apenas 4 dias. Essa mesma carga levaria 35 dias de viagem a partir do Brasil, 20 dias a partir da África do Sul e 14 dias a partir da Austrália. Além do menor tempo de transporte e facilidades logísticas, os custos com os fretes são muito mais baixos.

Até meados do século XVI, a Sibéria era uma espécie de “terra de ninguém”, habitada por inúmeros povos nômades e independentes de qualquer grande potência. Foi no reinado do czar Ivan IV da Rússia (1530-1584), mais conhecido entre nós como “Ivan, o Terrível“, que teve início a partir de 1555 um grande processo de exploração e colonização da Sibéria pela Rússia. Gradativamente, todos os territórios a Leste dos Montes Urais foram incorporados ao Império Rússo. Essa expansão, inclusive, atravessou o Estreito de Bering, chegando até o Alasca, um território que em 1867 seria vendido aos Estados Unidos. 

Um dos mais importantes recursos naturais explorados na Sibéria nessa época eram as peles de animais como tigres siberianos (vide foto), lobos, ursos e raposas, que eram encontrados em grandes quantidades nas florestas de taiga e nas estepes. Entre os séculos XIII e XVII, a Europa passou por um período de esfriamento, conhecido entre os climatologistas como Pequena Era do Gelo. As temperaturas caíram fortemente no continente, com algumas regiões da Escandinávia, Islândia e Groenlândia sendo abandonadas pelas populações devido ao frio extremo.  

Nesse período, o mercado de peles de animais para a confecção de casacos para os mais endinheirados da Europa cresceu muito, o que tornou as regiões mais selvagens do continente num grande atrativo para os caçadores. O czar Ivan IV enxergou nesse mercado uma grande oportunidade para a venda de peles da Rússia e estimulou a caça na Sibéria. Milhares de aventureiros se deslocaram para o grande Leste da Rússia, o que estimulou a expansão da população e a anexação dessa extensa região pelos russos.  

Muitos dos povos dessa região acabaram se transformando em fornecedores de peles, o que facilitou sua gradual integração social e econômica à Rússia – outros povos, mais aguerridos, acabaram sendo dominados com o uso da força pelas tropas imperiais. Gradativamente, a Sibéria foi se transformando em uma grande e importante fornecedora de carvão, madeiras, minérios e outras matérias primas essenciais para os sucessivos czares russos. 

Após a Revolução Comunista de 1917 e com a formação de um grande bloco de países, a União Soviética passou a contar com importantes fontes de petróleo, gás e carvão na região do Mar Cáspio e nas Repúblicas Socialistas da Ásia Central – a região da Sibéria voltou a ser colocada em um segundo plano, só voltando a ser lembrada pelos invernos rigorosos e como um local de punição para os presos políticos. Foi somente após o colapso da União Soviética em 1991 e perda de acesso dos russos aos recursos naturais da Ásia Central, que a Sibéria voltou a “entrar” no mapa da Rússia mais uma vez. 

A exploração em larga escala dos cobiçados recursos naturais da Sibéria está criando uma série de impactos ao meio ambiente. Vamos começar falando dos desmatamentos em grandes extensões da taiga, a floresta boreal ou das coníferas. Esse grande sistema florestal, o maior do mundo, cobre uma área total de 15 milhões de km² em países como a Escócia, Noruega, Suécia, Finlândia, Rússia, partes do Cazaquistão e da Mongólia, Norte do Japão, Alasca – território dos Estados Unidos, Canadá e Groenlândia

A maior parte da vegetação da taiga, cerca de 12 milhões de km², se encontra dentro do território da Rússia, principalmente na região da Sibéria. Essa impressionante floresta russa tem mais de duas vezes o tamanho da Floresta Amazônica e sofre dos mesmos males: desmatamentos (muitos deles ilegais) e queimadas. Durante o verão de 2019, mais de 100 mil km² de florestas de taiga foram destruídos por incêndios, grande parte provocados por fenômenos naturais. 

Os desmatamentos na taiga são realizados por empresas produtoras de papel e celulose e também para a exploração de madeira, principalmente uma espécie local de cedro de grande valor comercial. O grande comprador de madeiras da Rússia é a China, destino de 2/3 das exportações russas. Estima-se que entre 15 e 30% desses desmatamentos sejam ilegais. O avanço sobre essas florestas ameaça inúmeras espécies animais locais como o tigre, lobos, raposas e linces, entre outras, além de comprometer a estabilidade do clima global

A exploração de minerais e carvão na região também é uma grande fonte de problemas para o meio ambiente. Conforme comentamos em postagem anterior, os efeitos da mineração selvagem na Sibéria têm comprometido uma série de cursos e corpos d’água como o grande Lago Baikal. Resíduos tóxicos de metais pesados presentes em depósitos de rejeitos minerais têm sido carreados para inúmeros rios que desaguam nesse Lago e o efeito mais visível da poluição é a morte de grandes quantidades de focas, animal símbolo do Baikal

A exploração de petróleo e gás também dá a sua contribuição para os grandes problemas ambientais da Sibéria. Longe dos olhos da maior parte da população do país, as empresas desse setor costumam fazer vista grossa para os procedimentos de segurança e de proteção ao meio ambiente, o que tem resultado em inúmeros acidentes na perfuração, armazenamento e transporte, com vazamento de grandes quantidades de petróleo.  

Petróleo e gás ocupam uma posição de destaque na economia da Rússia e o Governo Central do país faz todo um esforço para minimizar a importância e a intensidade de qualquer notícia de vazamentos de petróleo e/ou gás na Sibéria. O grande poderio militar da Rússia, que conta com um fabuloso arsenal de armas nucleares, e a dependência de grande parte da Europa pelo fornecimento de petróleo e do gás russo, ajuda a calar a maior parte dos ambientalistas, que raramente se atrevem a falar dos problemas enfrentados pela Sibéria de Vladimir Putin

Diante do silêncio do mundo, a exploração selvagem dos recursos naturais está a custar muito caro para a distante Sibéria.

OS PROBLEMAS AMBIENTAIS DECORRENTES DO ACIDENTE NUCLEAR DE CHERNOBYL

Lobos de Chernobyl

Desde a década de 1940, quando se multiplicaram os estudos e experimentos com elementos radioativos – principalmente no campo do desenvolvimento e construção de armas nucleares, teve início um processo de poluição do ar, dos solos e das águas com substâncias radioativas – os nuclídeos. Essas substâncias se formam a partir da recombinação dos átomos de plutônio, entre outros elementos radioativos, “destruídos” durante a fissão nuclear. Os nuclídeos mais conhecidos, e, portanto, os que causam maiores impactos ao meio ambiente, são o césio-137 e o estrôncio-90

primeiro teste com uma arma nuclear ocorreu em 16 de julho de 1945, no Novo México – Estados Unidos, dentro dos esforços do Projeto Manhattan. Os norte-americanos corriam contra o tempo para vencer os cientistas da Alemanha nazista, que já estavam bastante adiantados no projeto de uma bomba atômica. A explosão dessa primeira bomba liberou uma quantidade de energia equivalente a 18,6 mil toneladas do explosivo TNT (Trinitrotolueno) e demonstrou que a tecnologia era viável. Nos dias 6 e 9 de agosto, respectivamente, bombardeiros norte-americanos lançaram as bombas atômicas Litle Boy e Fat Man sobre as cidades de Hiroshima Nagasaki, no Japão, encerrando assim a II Guerra Mundial. A Alemanha havia se rendido pouco antes. 

A partir dessas primeiras explosões na década de 1940, calcula-se que cerca de 2 mil bombas atômicas diferentes já foram testadas em todo o mundo. Os países líderes em testes nucleares foram os Estados Unidos e a URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Também entram nesse seleto grupo a Inglaterra, França, China, Índia e Paquistão. Existem evidências de um teste nuclear clandestino feito por Israel em 1979. A África do Sul desenvolveu um programa nuclear completo, que culminou com a fabricação de bombas atômicas, porém, o país desistiu do projeto e desmontou todo o seu arsenal nuclear. 

Além de todas as explosões atômicas com fins militares, ocorreram também cerca de 200 acidentes “civis” envolvendo materiais radioativos. Aqui no Brasil, citando um exemplo, houve o caso do césio-137 em Goiânia no ano de 1987. Sucateiros encontraram um equipamento de radioterapia abandonado e abriram o invólucro onde se encontrava o césio-137. O processo de contaminação atingiu cerca de 1.600 pessoas, com 4 mortes. 

Como resultado de todas essas explosões, testes e acidentes de todos os tipos, grandes quantidades de diferentes elementos radioativos foram liberadas na atmosfera, atingindo solos e águas de todo o mundo. Pode-se afirmar que não existe ambiente algum da superfície terrestre que não apresente pequenas quantidades de materiais radioativos liberados por esses eventos. 

O gravíssimo acidente com a Usina Nuclear de Chernobyl ocorrido em 1986 e sobre o qual tratamos na última postagem, não poderia ficar fora dessa lista. O acidente teve início durante um desastroso teste de segurança, desencadeando uma sucessão de falhas em equipamentos e nos procedimentos operacionais do reator. Uma violenta explosão de vapor expôs os elementos radioativos do núcleo, o que levou ao derretimento nuclear, explosões e incêndio. Calcula-se que até 30% das 190 toneladas métricas de urânio de Chernobyl foram lançadas na atmosfera, atingindo extensas áreas da Europa e da Eurásia

Logo após o acidente, toda a vegetação existente dentro de um raio de 10 km de Chernobyl passou a apresentar folhas com coloração marrom-avermelhada. Essa área passou a ser chamada de “Floresta Vermelha”. Com o passar do tempo, todas as árvores e plantas da área morreram devido a absorção de elevadas doses de radiação. Todos os seres vivos da área – aves, mamíferos, répteis, anfíbios, vermes e insetos, entre outros, tiveram o mesmo fim. Os efeitos da radiação se reduziram gradativamente conforme a distância de Chernobyl foi aumentando. 

As estimativas mais recentes indicam que perto de 100 mil km² de solos, matas e águas da Ucrânia, Bielorrússia e Rússia foram contaminadas com “cinzas” e elementos radioativos de Chernobyl e ficarão imprestáveis para usos agrícolas e pastoris por cerca de 24 mil anos. Essa contaminação é cerca de 400 vezes maior do que a que foi criada com a explosão da bomba atômica de Hiroshima em 1945. Essa área, para efeito de comparação, é maior que a soma dos territórios dos Estados do Rio de Janeiro e do Espírito Santo. Perto de 350 mil pessoas que viviam nessas áreas tiveram de ser deslocadas para outras regiões desses países. 

Sem a presença dos seres humanos, houve uma espécie de “renaturalização”  dessas áreas, com expansão de áreas ocupadas por florestas e por vida animal. É claro que todas essas formas de vida estão sendo afetadas pelos efeitos da radiação. Estudos científicos feitos em aves e mamíferos capturados nessas áreas encontraram grandes percentuais de animais com cataratas nos olhos e com cérebros menores. Muitas das aves estudadas apresentavam má formação nos espermas. Cerca de 40% dos pássaros machos estudados eram completamente estéreis, sem produção de esperma ou apresentando pequenas quantidades de esperma morto em seus tratos reprodutivos

Estudos das populações de seres vivos encontrados nas áreas contaminadas por material radioativo indicaram que todos os grupos populacionais eram menores que aqueles encontrados em áreas naturais limpas. Esse levantamento incluiu aves, borboletas, libélulas, abelhas, gafanhotos, aranhas e também grandes e pequenos mamíferos. Também foram encontradas grandes anormalidades nos desenvolvimentos de algumas plantas e insetos. 

Como exceção a essas observações, as populações selvagens de animais como lobos (vide foto), javalis, alces e de algumas espécies de aves, entre outras, passaram a se apresentar iguais ou até maiores do que a de outras áreas. Sem a presença dos seus grandes predadores, os seres humanos, essas espécies passaram a encontrar maiores estoques de alimentos e uma menor competição com outras espécies. Apesar dessa aparente prosperidade, esses animais apresentam uma série de lesões graves em seus organismos como decorrência da exposição contínua à radiação. 

Além de comprometer as populações e a saúde dos seres vivos remanescentes, a radiação existente nessas áreas está provocando danos genéticos e altas taxas de mutação nos seres vivos locais. Já foram observados declínios em populações de insetos como as borboletas, onde a causa é o acúmulo de mutações genéticas danosas às espécies ao longo de várias gerações. Em condições evolutivas normais, os seres vivos que melhor se adaptam ao meio ambiente são os que têm maiores chances de sobreviver – o que tem sido observado na região do acidente de Chernobyl é justamente o contrário: as novas gerações de algumas espécies de insetos estão “desevoluindo”. 

Apesar de todos os esforços já feitos e em andamento para isolar e afastar as populações das áreas contaminadas, restringir os contaminantes radioativos é uma tarefa praticamente impossível. As águas das chuvas e do degelo (o inverno nessa região é bastante rigoroso) carreiam grandes quantidades de resíduos radioativos para os cursos d’água, o que pode espalhar esses elementos na direção de localidades a centenas de quilômetros. Essas águas também provocam a infiltração desses resíduos na direção de lençóis freáticos e aquíferos subterrâneos, comprometendo o abastecimento de populações residentes fora dessa área de exclusão. 

As fortes correntes de ventos também contribuem para a dispersão de partículas de materiais radioativos, podendo transportá-los a distâncias de milhares de quilômetros, com consequências ainda não determinadas pela ciência. Serão necessárias ainda muitas décadas de estudos e observações para que se tenha uma noção exata de todos os efeitos e impactos ao meio ambiente e populações causados pelo acidente nuclear de Chernobyl

Para você pensar na cama: existem perto de 17 mil armas nucleares no mundo, principalmente nas mãos de norte-americanos e russos. Cerca de 400 reatores nucleares estão em operação em todo o mundo, com outros 65 em construção e pelo menos 165 em projeto. Se um único desastre com um reator nuclear pode causar o volume de estragos de Chernobyl, imaginem o que todo esse “arsenal” nuclear poderá causar para a humanidade… 

O ACIDENTE NUCLEAR DE CHERNOBYL

Chernobyl

Na noite entre os dias 25 e 26 de abril de 1986, durante um desastrado teste de segurança, o reator número 4 da Usina Nuclear de Chernobyl explodiu e criou o maior acidente deste tipo na história. Além de contaminar imediatamente centenas de pessoas e provocar a morte de algumas pessoas, a radiação e os materiais radioativos liberados na atmosfera contaminaram centenas de milhares de pessoas que viviam dentro de uma vasta região da Ucrânia, então uma das Repúblicas da União Soviética e sede da Usina, além de atingir áreas da Bielorrússia e da Rússia. 

Os ventos espalharam material radioativo para a Escandinávia e diversos países do Leste da Europa. O Governo Central soviético escondeu o acidente do resto do mundo por vários dias, porém, os países vizinhos começaram a detectar níveis de radiação anormais no ar e nos solos, o que forçou os russos a finalmente admitir o acidente. Alegando razões de segurança, os russos não permitiram o acesso imediato de especialistas internacionais e nem aceitaram ajuda de países estrangeiros. Até os dias de hoje existem inúmeras perguntas sem respostas sobre o que realmente aconteceu naquela noite. 

O programa nuclear soviético foi iniciado em 1943 e tinha como principal objetivo o desenvolvimento de uma bomba atômica para uso na Segunda Guerra Mundial. Assim como os americanos, os serviços de inteligência soviéticos já sabiam da existência do programa nuclear da Alemanha nazista. Os cientistas alemães chegaram muito próximos de concluir seus objetivos – alguns especialistas afirmam que ao terminar a Guerra, os alemães estavam a apenas seis meses de concluir sua bomba atômica, o teria mudado completamente os rumos do mundo. Com a derrota da Alemanha, muitos cientistas alemães foram capturados pelos russos e “convidados” a trabalhar em seus próprios projetos. 

O “Laboratório n° 2”, que em 1960 passou a ser conhecido como Instituto Kurtchátov, foi o berço de inúmeros avanços na área da energia nuclear da União Soviética: em 1944, construiu o primeiro ciclotron do país e em 1946 inaugurou o primeiro reator nuclear da Europa. Em 1949, construiu a primeira bomba termonuclear e também a primeira usina nuclear do mundo – Obninsk, em 1954. Nos anos seguintes desenvolveu pequenos reatores nucleares para uso em navios e submarinos da esquadra soviética. 

A Usina Nuclear de Obninsk, cidade localizada a 100 km de Moscou, foi transformada pela gigantesca máquina de propaganda soviética num dos maiores triunfos da URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. O tipo de reator usado nessa usina, RBMK – Reator Canalizado de Alta potência na sigla em russo, utilizava um sistema de refrigeração a água, que circulava através de canaletas dentro de blocos de grafite. Apesar de funcional, esse modelo de reator nuclear apresenta uma série de problemas de segurança, especialmente de instabilidade quando opera com baixos níveis de energia. O reator que explodiu na Usina Nuclear de Chernobyl era derivado desse projeto. 

O Complexo Nuclear Vladimir Ilich Ulianov – nome completo do grande líder russo Vladimir Lenin, mais conhecido no mundo como Usina Nuclear de Chernobyl, começou a ser construído nessa localidade da Ucrânia em 1972. Em função da construção da Usina, foi iniciada a construção da cidade de Pripyat nas proximidades, com o objetivo de alojar os trabalhadores e seus familiares. O primeiro reator nuclear começou a operar comercialmente em 1978. Os reatores nucleares 2, 3 e 4 iniciaram suas operações, respectivamente, em 1979, 1981 e 1983. O projeto original previa a construção de 12 reatores nucleares até o ano de 2010. Até 1986, ano em que ocorreu o acidente, a Usina tinha uma capacidade de produção de 1 mil MW e respondia por 10% da geração de energia elétrica da Ucrânia. 

Há um detalhe bastante importante – a decisão pela construção da Usina Nuclear nessa localidade da Ucrânia partiu dos planejadores estatais do Kremlin, que se baseavam em aspectos puramente econômicos e geográficos. Nenhum ucraniano foi consultado sobre o projeto ou qualquer estudo de impacto ambiental sequer chegou a ser cogitado. O Estado soviético precisava de recursos energéticos para o seu funcionamento e a República Socialista da Ucrânia “sentia-se honrada” em contribuir, cedendo “espontaneamente” seu território para a Mãe Rússia. Era mais ou menos assim que as coisas funcionavam dentro da chamada “Cortina de Ferro”. 

Falando de uma forma muito, mas muito simplificada, as usinas nucleares funcionam a partir de um processo de destruição controlada de elementos radioativos como o urânio. Esse processo, chamado de “fissão nuclear”, libera grandes quantidades calor, que é usado na geração de vapor de água. Por fim, esse vapor aciona turbinas onde estão ligados os geradores elétricos. Todo esse processo depende de um sem número de dispositivos de segurança e controle, sistemas que evitam a ocorrência de uma catástrofe nuclear semelhante a explosão de uma bomba atômica. 

No modelo de reator nuclear usado na Usina de Chernobyl, o principal dispositivo de segurança era o sistema de circulação de água para o resfriamento das células de combustível, onde era necessária a circulação de 28 toneladas métricas de água a cada hora. As bombas que realizavam a circulação da água eram alimentadas pela energia elétrica gerada pelo próprio reator nuclear. Em caso de falha no funcionamento do reator, dois geradores diesel elétricos deveriam entrar em funcionamento, garantindo assim o resfriamento contínuo das células de combustível. 

Desde a inauguração do primeiro reator nuclear em 1979, os técnicos e engenheiros da Usina tinham dúvidas sobre o tempo de acionamento desses geradores diesel elétricos e a continuidade do bombeamento da água para refrigeração do reator. Foi justamente durante a realização de um teste nesse sistema em 1986, que houve uma falha geral no sistema de resfriamento do reator, levando a uma grande explosão. Essas falhas envolveram tanto erros no projeto dos equipamentos quanto nos procedimentos operacionais dos técnicos da Usina. 

As consequências do desastre de Chernobyl poderiam ter sido menores caso não tivessem acontecido atrasos na comunicação às autoridades superiores. O diretor da Usina demorou para notificar seu superior em Moscou, que por sua vez demorou a informar ao Conselho de Energia Nuclear Soviético. Esse último, por sua vez, adiou enquanto pode a comunicação ao supremo líder Mikhail Gorbatchov. Somente 36 horas após a explosão do reator é que foi dada a ordem de evacuação dos 50 mil moradores que viviam num raio de 10 km da Usina.  

Com as dificuldades para o controle do incêndio do reator, outras 68 mil pessoas que moravam num raio de 30 km de Chernobyl também tiveram de ser evacuadas. Com a dispersão de materiais radioativos pelos ventos, outras 135 mil pessoas tiveram de ser evacuadas ao longo de um ano. Até o ano 2000, cerca de 350 mil pessoas já haviam sido evacuadas de áreas contaminadas por radiação e reassentadas em outras regiões. A imagem que ilustra essa postagem, feita recentemente pelo fotógrafo Andrew Leatherbarrow nas ruinas de uma escola em Pripyat, mostra o acidente na visão de uma criança.

De acordo com informações oficiais, não muito confiáveis na minha opinião, 237 pessoas foram expostas a grave radiação por causa do acidente, sendo que 31 morreram nos primeiros três meses. Estimativas extra oficiais calculam que cerca de 4 mil dos 500 mil moradores que residiam nas áreas atingidas pela nuvem de radiação podem ter desenvolvido câncer. Estudos realizados pela ONU – Organização das Nações Unidas, estimam o número de mortes ligadas ao acidente entre 9 mil e 16 mil

Os trabalhos de evacuação de moradores, isolamento da usina e descontaminação de áreas envolveram mais de 500 mil trabalhadores, principalmente das forças armadas, e tiveram um custo de 18 bilhões de rublos soviéticos. Muitos analistas políticos internacionais afirmam que o acidente com a Usina Nuclear de Chernobyl ajudou a acelerar o desmoronamento da União Soviética. 

Cerca de 100 mil km² de solos da Ucrânia, Bielorrússia e Rússia foram contaminados com “cinzas nucleares” de Chernobyl e ficarão imprestáveis para usos agrícolas e pastoris por milhares de anos. Níveis bem menores de radiação atingiram toda a Europa, a exceção de Portugal e Espanha. Eu lembro de notícias da época que falavam de traços de radioatividade encontrados em pacotes de leite em pó importados da Holanda e vendidos em supermercados aqui no Brasil logo após esse acidente. Isso nos dá uma ideia dos impactos da radiação no meio ambiente no médio e longo prazo. 

Continuaremos na próxima postagem.