Posts de ferdinandodesousa

Escritor, jornalista, gestor e educador ambiental. Especialista em projetos de comunicação social e de educação ambiental.

A TAXA DE DESMATAMENTO NA AMAZÔNIA LEGAL BRASILEIRA CRESCEU 21,97% NO ÚLTIMO ANO 

No último dia 18 de novembro, o INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, divulgou o relatório sobre os desmatamentos na Amazônia Legal Brasileira no período entre 1° de agosto de 2020 e 31 de julho de 2021. Os dados indicam um aumento na taxa de desmatamentos de 21,97% e uma perda de 13.225 km² de cobertura vegetal no período

O INPE coordena o PRODES – Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite. Toda a região da Amazônia Legal é fotografada sistematicamente por satélites de monitoramento ligados ao órgão e as novas imagens são comparadas com as imagens em arquivo pelos técnicos do órgão. Quando existe alguma diferença nas áreas de vegetação, essa perda é computada no sistema, sem qualquer tipo de ingerência política. 

Em primeiro lugar, essa é uma informação vexaminosa para o país, cujos representantes assumiram inúmeras promessas de zerar os desmatamentos ilegais até o ano de 2030, promessas que inclusive foram confirmadas na recente reunião da COP26, em Glasgow, na Escócia, há pouco mais de 15 dias atrás. Como diz o velho ditado: “a gente poderia ter ido dormir sem essa notícia”. 

Dito isto, existem algumas considerações a serem feitas: 

A notícia deixa claro que os dados se referem a Amazônia Legal, um conceito que nem todos os leitores – especialmente os estrangeiros, entendem corretamente. Além de incluir a totalidade da região onde encontramos a Floresta Amazônica, a região da Amazônia Legal inclui a totalidade do Estado do Mato Grosso e do Tocantins, além de parte do Maranhão, o que corresponde a uma área total de mais de 5,2 milhões de km²

Caso qualquer um dos leitores tenha a curiosidade de consultar um mapa de biomas, vai perceber facilmente que o bioma Amazônico ocupa apenas a faixa Norte do Estado do Mato Grosso, um pequeno trecho no Noroeste do Tocantins e uma faixa no Leste do Maranhão. A maior parte do Mato Grosso e do Tocantins são cobertas pelo bioma Cerrado. No Maranhão, além do bioma Amazônico, existem áreas cobertas pelos biomas Cerrado e Caatinga. 

De acordo com os dados divulgados pelo INPE, o Estado do Mato Grosso perdeu 2.263 km² de cobertura vegetal no período, que tanto podem ser do bioma Amazônico quanto do Cerrado. Em tempos onde o mundo inteiro está olhando com lupa tudo o que está acontecendo na Floresta Amazônica, essa imprecisão na informação pode ser bastante significativa. 

Um outro dado interessante é o peso do Pará nessa taxa de desmatamento – o Estado perdeu 5.257 km² de cobertura vegetal no período, o que corresponde a 40% do total. Em postagem recente falamos da grande concentração de queimadas na região Nordeste do Pará, justamente uma das regiões onde a Floresta Amazônica sofreu os maiores desmatamentos ao longo da história. 

Naquela postagem comentamos que a maior parte das queimadas vem de pequenas propriedades onde se utiliza a coivara, a tradicional técnica indígena de uso do fogo para a limpeza de áreas para a prática de agricultura de subsistência. Também falamos que muitas dessas queimadas são feitas por madeireiros e garimpeiros de forma ilegal, onde só existe um único remédio – usar a força da lei como forma de inibição

Outro Estado onde a situação é preocupante é Rondônia, onde a área desmatada foi de 1.681 km². Localizado inteiramente dentro do bioma Amazônico, o Estado é um grande produtor de grãos, especialmente soja, e de gado bovino – esses desmatamentos podem estar ligados ao aumento de áreas para produção agropecuária.  

Se isso for confirmado, teremos sérios problemas a médio e longo prazo: está se formando um verdadeiro cerco às exportações brasileiras de grãos e carnes por alguns países. Qualquer um desses produtos que venha dessas áreas de desmatamento ilegal na Amazônia ficarão fora do mercado internacional, com potencial para comprometer produtos de outras regiões brasileiras distantes. 

Outro Estado que aparece em destaque no relatório do INPE é o Amazonas, Reconhecido como o Estado onde a Floresta Amazônica apresenta a maior cobertura vegetal original, o Amazonas perdeu 2.347 km² de áreas verdes no período, um crescimento de mais de 55% em relação ao período anterior. Será importante que as autoridades competentes examinem com cuidado o que acontece por lá. 

Um dos maiores problemas que enfrentamos nessa área são as dificuldades de fiscalização. Falamos de uma região que tem exatamente a metade da área da Europa (incluindo na conta todo o trecho europeu da Rússia). Além de muito grande, a região faz fronteira com diversos países, sendo muito fácil para qualquer um entrar e sair sem qualquer tipo de controle governamental. 

Para complicar ainda mais o problema, o número de fiscais na região é baixíssimo. Segundo informações divulgadas pela imprensa, o IBAMA – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente, um dos órgãos que tem entre suas atribuições a fiscalização da Amazônia, perdeu 55% dos seus fiscais nos últimos 10 anos – de um total de 1.311 fiscais em 2010, o órgão estaria com apenas com 591 fiscais atualmente. 

Nos últimos anos, contingentes das Forças Armadas Brasileiras e da Força Nacional de Segurança têm feito trabalhos de apoio às ações de combate aos desmatamentos, coibição do garimpo ilegal e exploração irregular de madeiras na região. Imagino que sem esse apoio as taxas de desmatamento teriam sido ainda maiores. 

Sem qualquer cor partidária ou ideologia, é preciso que Governantes de todos os níveis – Governo Federal e também os Estados e Municípios da Amazônia Legal, se unam na criação de um plano sério para o combate a esses desmatamentos ilegais na região. É preciso sempre lembrar que nosso país assumiu o compromisso de zerar os desmatamentos ilegais até 2030, ou seja, daqui a pouco mais de 8 anjos. 

A perda e cobertura vegetal que foi anunciada corresponde a apenas 0,25% da área total da Amazônia Legal, porém, para figuras do calibre de Emmanuel Macron, Leonardo di Caprio e Greta Thunberg, essa área é maior do que o Deserto do Saara

PS: Postagem n° 1.400 do Blog.

“A ENERGIA SOLAR É REALMENTE LIMPA?” 

A intrigante pergunta no título dessa postagem repete o título de um interessante documentário produzido pela DW – Deutsche Welle, o canal de televisão pública da Alemanha. Com pouco mais de 8 minutos de duração, o enredo do documentário faz a gente parar para pensar em tudo o que vive sendo repetido sobre o uso da energia fotovoltaica. 

A geração fotovoltaica é uma das mais limpas em uso atualmente no mundo – para cada 1 kW/hora gerado, esse sistema emite apenas 40 gramas de dióxido de carbono (CO2), um dos gases de Efeito Estufa mais importantes e reconhecido como um dos grandes vilões do aquecimento global.  

Para efeito de comparação, a geração de energia elétrica em fontes que usam derivados de petróleo produz 486 gramas de CO2 para cada 1 kW/hora. O gás natural e o carvão mineral produzem, respectivamente, 500 e 1.000 gramas de CO2 para cada 1 kW/hora gerados. A campeã em baixa emissão é a energia eólica com apenas 16 gramas de CO2 para 1 kW/hora gerado

A geração fotovoltaica é comprovadamente uma das mais limpas, mas não é tão limpa quanto imaginamos. A produção dos painéis solares utiliza matérias primas e envolve diversos processos de produção industrial, os quais, como acontece em todos os processos similares, deixam a sua pegada de carbono. Vejamos:

Comecemos falando das principais matérias primas de origem mineral usadas na fabricação dos painéis: a sílica e a prata. As atividades mineradoras, conforme já tratamos em outras postagens, são altamente agressivas ao meio ambiente. A cobertura vegetal de uma determinada área é suprimida, os solos são escavados e enormes volumes de sedimentos precisam ser transportados.  

Esses trabalhos envolvem o uso de máquinas pesadas com motores que queimam óleo diesel e outros combustíveis fósseis. As rochas precisam passar por um beneficiamento, o que gera grandes volumes de rejeitos minerais. É comum a presença de metais pesados como o mercúrio, chumbo e o cromo nesses rejeitos, elementos que causam graves contaminações nas fontes de água. Depósitos de rejeitos minerais também podem criar grandes acidentes ambientais (lembram de Mariana e de Brumadinho?). 

A sílica é a matéria prima do silício, um cristal semicondutor fundamental na indústria eletroeletrônica. Para a extração de silício com alto grau de pureza, a sílica passa por complexos processos de refino, onde se gera o tetracloreto de silício, um resíduo altamente tóxico ao meio ambiente. Caso não seja devidamente contido e reciclado, esse material pode se transformar em um perigoso contaminante das fontes de água. 

A maior produtora de painéis solares do mundo é a China, um país que não tem uma das melhores famas na gestão ambiental, e também nas suas políticas de trabalho e gestão de mão de obra. Vamos direto na “jugular”: grande parte da energia elétrica usada na China vem de centrais térmicas a carvão, combustível fóssil campeão em emissões de gases de efeito estufa. Lembro que a eletricidade é um insumo industrial fundamental. 

Durante o processo de produção dos painéis solares diversos produtos químicos tóxicos são usados. Um destaque é o ácido fluorídrico, produto usado para limpar as pastilhas de silício antes da montagem final dos painéis. Esse produto é altamente corrosivo e precisa ser manuseado com extremo cuidado pelos trabalhadores. Outros elementos químicos perigosos como arsênico, cádmio e chumbo também podem entrar nos processos produtivos. 

Numa segunda etapa passamos para a fase do transporte dos produtos, que além dos painéis solares incluem conversores de energia, reguladores de tensão e baterias, entre outros. Os grandes navios cargueiros em operação são movidos, majoritariamente, com óleo combustível, um dos derivados de petróleo mais poluentes em uso. Esse transporte também pode envolver aviões, trens e caminhões, onde também se usam combustíveis fósseis. 

De acordo com algumas estimativas, toda essa pegada de carbono envolvida nessas primeiras fases da produção dos painéis solares e demais equipamentos serão compensadas em cerca de 2,5 anos pela geração de energia elétrica limpa. Essa é uma conta que faz bastante sentido. 

Painéis solares podem ser usados até por 30 anos e, algum dia, acabarão precisando ser substituídos. A exposição contínua aos raios solares e aos elementos naturais – especialmente grãos de areia carreados pelos ventos, deixam o revestimento superficial dos painéis cada vez mais fosco, o que vai reduzindo o seu rendimento na produção da eletricidade. 

Também existe o problema da obsolescência tecnológica – painéis antigos geram menos energia elétrica por metro quadrado que os novos modelos. A necessidade de modernização sempre vai levar a uma substituição sistemática desses materiais. 

De acordo com dados da IEA – International Energy Agency, Agencia Internacional de Energia na sigla em inglês, as fontes de geração fotovoltaica em países como China, Alemanha, Japão e Estados Unidos se aproximam rapidamente de 30% da matriz energética. A EIA prevê um crescimento de, pelo menos, 50% nesse volume até 2030. Hajam painéis solares e demais equipamentos. 

Segundo a IRENA – International Renewable Energy Agency, Agência Internacional de Energia Renovável na sigla em inglês, o volume atual de resíduos de painéis solares é da ordem de 250 mil toneladas a cada ano. As projeções indicam que em 2050, devido ao forte crescimento do setor, esse volume chegará a 78 milhões de toneladas/ano

Aqui chegamos ao mesmo problema enfrentado pelo chamado lixo eletrônico: a reciclagem é inviável economicamente. Componentes eletrônicos utilizam uma série de metais nobres de alto valor, onde se incluem coltan, ouro, prata, platina, cobre, estanho, níquel, cromo e zinco, entre muitos outros. Apesar de valiosos, as quantidades desses metais por volume são muito pequenas e os custos envolvidos para a sua retirada são enormes

Já existem depósitos com grandes montanhas de painéis solares antigos esperando por uma destinação ambiental adequada, algo que ainda está longe de ser alcançado. E essa montanha de resíduos está crescendo de forma exponencial. 

A energia fotovoltaica tem se mostrado fundamental na redução mundial das emissões de gases de efeito estufa. Porém, ainda serão necessários enormes esforços para tornar essa geração 100% verde, algo que não ocorre nesse momento. 

O QUE FAZER COM AS QUEIMADAS NA AMAZÔNIA? 

De acordo com informações do BDQueimadas, um portal desenvolvido pelo INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, foram registrados 408 focos de queimadas na Amazônia Legal nas últimas 24 horas. Essas queimadas estão concentradas em uma área relativamente pequena do Noroeste e Leste do Maranhão (51% dos focos) e do Nordeste do Pará (43,9% dos focos).  

Essa é justamente uma das regiões de ocupação mais antiga e com áreas mais desmatadas da Floresta Amazônica, o que permite concluir que os focos de incêndio são queimadas feitas por agricultores. Em todo o restante da Amazônia Legal, foram registrados apenas 21 focos de queimadas nas últimas 24 horas. 

Até pouco mais de meio século atrás, a Floresta Amazônica era escassamente povoada e só podia ser acessada por via aérea ou marítimo/fluvial. Essa situação só mudaria a partir da década de 1960, quando sucessivos Governos iniciaram a construção de rodovias ligando a região ao restante do Brasil. Destaco aqui a Rodovia Belém-Brasília, a Cuiabá-Porto Velho, a Cuiabá-Santarém, a Porto Velho-Manaus e também a icônica Rodovia Transamazônica

Com a abertura dessas rodovias, teve início todo um conjunto de políticas de colonização, com o Governo Federal doando terras e oferecendo vantagens para as populações que mudassem para a região. Um slogan muito conhecido na época era “Amazônia: uma terra sem homens para homens sem-terra”. Centenas de milhares de famílias atenderam ao chamado e partiram para sua aventura amazônica. 

Um dos grandes eixos dessa colonização foi a faixa Leste do Estado do Pará acompanhando as margens da rodovia Belém-Brasília. Uma parcela significativa desses migrantes veio da região Sul do Brasil e acabou adotando a coivara, uma técnica agrícola usada há milhares de anos pelos indígenas e que foi adotada por populações rurais do Nordeste e de outras regiões do Brasil. 

Na coivara, o fogo é a ferramenta usada na limpeza e na fertilização dos terrenos. Os agricultores primeiro derrubam as árvores e toda a vegetação arbustiva, que são deixadas sobre o solo. Quando chega a época da seca, esse material é queimado e as cinzas resultantes da queima das madeiras contribui na fertilização dos solos. 

Uma parte substancial dos focos de incêndio que aparecem nas imagens captadas pelos satélites de monitoramento da Amazônia são das tradicionais coivaras praticadas por esses agricultores. A depender da vegetação onde essa coivara está sendo praticada, as chamas dessa queimada podem fugir do controle e podem acabar invadindo áreas próximas. 

Outra parte dessas queimadas tem origem em ações criminosas, onde está envolvido o garimpo ilegal, exploração de recursos madeireiros em terra públicas e indígenas, vandalismo, entre outros. Para esses casos o que deve valer é a força da lei. Porém, como todos sabem, a Floresta Amazônica é grande demais e a fiscalização é muito precária. 

No caso das queimadas feitas pelos agricultores, já existe uma alternativa: o manejo da biomassa sem o uso do fogo. Esse projeto com resultados animadores vem sendo desenvolvido na região do Nordeste Paraense desde a década de 1980: o Projeto SHIFT – Studies of Human Impact on Forests and Floodplains in the Tropics, uma cooperação entre o Brasil e a Alemanha. Um dos focos do trabalho é o município de Igarapé-Açu, no Pará. 

Conhecido entre os locais como Tipitamba, o projeto busca disseminar informações sobre a aplicação de princípios ecológicos na produção. Na preparação das áreas do plantio, as árvores e a vegetação arbustiva também são cortadas, porém não é feita a queima dessa biomassa. Depois de seco, o material é primeiro cortado em pequenos pedaços e depois triturado de forma manual ou mecanizada. Essa biomassa fragmentada é depois espalhada sobre o solo a ser cultivado. 

Além de fornecer nutrientes para o desenvolvimento das culturas agrícolas, essa camada de biomassa ajuda a manter a umidade no solo, facilita a absorção da água das chuvas pelo solo e também contribui no controle da erosão. A técnica também permite aumentar a produtividades dessas áreas ao longo do tempo uma vez que não depende da chegada do período seco para o início dos cultivos. 

Entre as principais vantagens dessa técnica destaca-se a baixa emissão de gases de Efeito Estufa, especialmente o dióxido de carbono (CO2), um balanço positivo no estoque de nutrientes do solo com o acúmulo de biomassa, a preservação da biodiversidade, além de uma maior flexibilização do calendário agrícola – volto a lembrar aqui que as queimadas dependem da chegada do período da seca. 

Como principal ponto negativo temos a falta de redes de fornecimento de energia elétrica na maior parte das áreas rurais da Amazônia. Sem esse insumo essencial, os equipamentos usados na trituração da biomassa precisarão ser movidos a partir da queima de combustíveis fósseis em motores a gasolina e a óleo diesel, o que resultará nas inevitáveis emissões de gases de Efeito Estufa. 

Uma alternativa energética que muito poderia beneficiar essa técnica de preparação dos solos agrícolas na região é uso intensivo de placas fotovoltaicas. O sol é abundante na Amazônia e a eletricidade gerada nesses sistemas poderia facilmente movimentar os triturados. Inclusive, já existe um projeto do Governo Federal de financiamento da compra de equipamentos para a geração fotovoltaica a longo prazo e a juros baixos. 

Um outro obstáculo para uma maior utilização dessa nova técnica, que hoje está restrita apenas aos agricultores vinculados ao Projeto Tipitamba, é o alto custo dos equipamentos trituradores. É preciso que haja um empenho das autoridades governamentais no sentido de viabilizar o acesso a esses equipamentos com uma alternativa de financiamento similar à que está sendo ofertada para os sistemas de energia fotovoltaica. 

Aqui se abre uma interessante oportunidade para todos os defensores da Floresta Amazônica, que nunca perdem uma única oportunidade para falar das queimadas na grande floresta. Ao invés de saírem protestando a “torto e a direito”, por que não organizar listas para a compra e doação de máquinas trituradoras de madeira para os pequenos agricultores da Amazônia? 

Em países da Escandinávia, nos Estados Unidos e também no Canadá, a indústria madeireira tem uma forte tradição na produção e uso desse tipo de equipamento. Celebridades e ecologistas dessas regiões não teriam maiores dificuldades em adquirir esses equipamentos e doa-los através de uma complexa rede de ONGs – Organizações Não Governamentais, internacionais que já atuam na Amazônia. 

Tecnologia para acabar com parte das queimadas já existe – vamos ver quem é tem coragem de colocar a mão no bolso para ajudar a disseminá-las na Floresta Amazônica.  

A IMPORTÂNCIA DA VEGETAÇÃO SECUNDÁRIA NA AMAZÔNIA 

Em 2016, o INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, divulgou um interessante estudo sobre as áreas com vegetação secundária na Amazônia. Esse tipo de vegetação cresce em áreas que foram desmatadas, ou seja – são áreas onde a floresta está se regenerando naturalmente.  

As imagens captadas pelo satélite LANDSAT-TM, que cobrem toda a região da Amazônia Legal, identificaram 17 milhões de hectares de vegetação secundária, cerca de 70% a mais do que o verificado em 2004, quando foram identificados 10 milhões de hectares. Um outro estudo indica que, em 2014, as áreas com vegetação secundária ocupavam mais de 173 mil km² da Amazônia, uma área pouco maior que o Estado do Acre e que não é nada desprezível. Ou seja – sem essa vegetação secundária, os números dos desmatamentos seriam ainda piores.

Esses números talvez não façam muito sentido para os leitores, mas eles indicam que ¼ de todas as áreas desmatadas na Floresta Amazônica ao longo da história apresentam, em maior ou menor grau, algum indício de regeneração. Apesar de serem pouco divulgados, esses são dados animadores em meio a uma enxurrada de notícias sobre queimadas e destruição da maior floresta equatorial do mundo. 

A regeneração é um processo natural das florestas. Sempre que um trecho da mata é suprimido – seja para aproveitamento da madeira ou por uma queimada, os solos desse local passam a ser, literalmente, bombardeados com sementes das árvores e de outras plantas da região de entorno. Essas sementes germinam e começa uma corrida desesperada pela luz do sol. Em maior ou menor tempo, esse trecho começa a apresentar sinais de regeneração. 

Essas áreas passam a formar as florestas secundárias, o que num numa definição técnica, “é uma floresta em regeneração, na paisagem ela compõe um conjunto de sociedades vegetais, em diversos estágios sucessionais, que tendem a alcançar uma comunidade mais complexa, diversa e estável, sendo um meio de renovação das florestas tropicais”. 

As espécies que crescem inicialmente, e que são chamadas de plantas pioneiras, são normalmente as gramíneas, pequenos arbustos e leguminosas. De crescimento rápido e pouco exigentes quanto à qualidade do solo, essa vegetação dá início a um processo de acumulação de biomassa. Conforme já comentamos em postagens anteriores, os solos da Amazônia são extremamente pobres em nutrientes e também apresentam acidez alta. A fertilidade da Floresta Amazônica vem de uma grossa camada de húmus gerado pela própria floresta. 

O tempo de regeneração, que pode durar séculos, depende do grau de degradação existente. Em regiões que foram transformadas em pastagens para o gado, onde os solos foram expostos às fortes chuvas da região, a acumulação da biomassa é bem mais lenta quando comparada a áreas onde foi praticada a agricultura familiar e houve uma devastação menor. 

A agricultura tradicional da Amazônia utiliza a coivara ou derrubada-queima da mata. O agricultor desmata um trecho da floresta, deixando os troncos e galhos jogados sobre o solo. Quando chega o período da seca, esses restos de vegetação são queimados, onde o fogo faz ao mesmo tempo a limpeza da área e a fertilização do solo com as cinzas da queima das madeiras. 

Essas áreas podem ser utilizadas por períodos de no máximo 3 ou 4 anos, quando os solos perdem a fertilidade e são abandonados. Os agricultores buscam uma nova área para o plantio. Essa área abandonada entra em um ciclo de regeneração, ou seja, de formação de uma vegetação secundária. Estudos da EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias, já identificaram florestas secundárias no Nordeste do Pará com mais de 200 anos de regeneração. 

A vegetação secundária possui uma enorme importância ambiental. De forma bastante resumida, elas possibilitam a recomposição da paisagem e o crescimento florestal absorve grandes quantidades de carbono da atmosfera, o que é fundamental em tempos de aquecimento global. Essa vegetação conecta trechos isolados de mata, permitindo o fluxo de espécies animais, que por sua vez são dispersores de semente e frutos, preservando a biodiversidade. 

Florestas também são essenciais para o ciclo hidrológico – as raízes das árvores facilitam a infiltração da água das chuvas nos solos, o que ajuda na recarga de lençóis e aquíferos subterrâneos. A evapotranspiração das árvores libera grandes volumes de vapor de água na atmosfera, um elemento fundamental para a formação de nuvens e de chuvas. Não menos importante, o crescimento das florestas secundárias gera um acúmulo cada vez maior de biomassa sobre os solos – quanto maior a floresta, maior o volume de biomassa. 

Essas áreas regeneradas, de acordo com a opinião da maioria dos pesquisadores, apresentam características diferentes das matas do entorno. Sementes de plantas mais “oportunistas” e com características de crescimento mais rápido, tendem a ocupar a maior parte de áreas desmatadas. Isso vai resultar em uma mata com poucas espécies num primeiro momento. Pouco a pouco, num processo de décadas ou séculos, espécies de crescimento mais lento vão conquistar seus espaços nessa “nova” floresta. 

Em 2010, eu visitei uma grande área com vegetação secundária no Estado de Rondônia. De acordo com um pesquisador local que me acompanhava, essa mata tinha na época cerca de 30 anos de regeneração. A mata quente, abafada e densa parecia exatamente o que já havia visto em outros locais da Floresta Amazônica. Porém, com um olhar mais atento, podia-se perceber claramente que existia uma certa padronização no tamanho e no formato dos troncos das árvores, um sinal claro da existência de um número pequeno de espécies naquela área. 

Esses processos naturais de regeneração de trechos de matas podem ser acelerados com a ajuda humana, onde mudas de diversas espécies de maior interesse comercial podem ser plantadas. Falamos aqui das castanheiras, cacaueiros, cupuaçu, açaí, entre outras espécies frutíferas e madeireiras, que permitirão o uso agroflorestal sustentável dessas áreas

Esse tipo de regeneração vem sendo chamada de Restauração Ecológica, onde claramente não se tenta copiar ou restaurar o ecossistema em seu estado natural, mas sim recuperar a estabilidade, funcionalidade e a integridade da área para que ela se torne sustentável. Famílias que vivem nessas áreas poderão retirar seu sustento da floresta sem precisar destruir a mata, o que é um grande avanço na preservação da Floresta Amazônica. 

A Amazônia é gigantesca e ainda precisaremos estudar muito até que consigamos entender a maior parte do seu funcionamento e da sua dinâmica natural. Esse grande crescimento das florestas secundárias, que aliás mal era percebido pelas autoridades, é só um sinal da nossa ignorância sobre o bioma. 

PROJETOS DE REFLORESTAMENTO NA FLORESTA AMAZÔNICA: SIM, ELES EXISTEM! 

De acordo com o Relatório Anual 2020 da Aliança pela Restauração na Amazônia, uma iniciativa multi-institucional e multissetorial, existem 2.773 iniciativas de restauração florestal em andamento na Amazônia. O total de projetos soma 113,5 mil hectares

Esse tipo de notícia, que não costuma ocupar grandes espaços nos noticiários, é um alento em meio as constantes notícias de queimadas e devastação na maior floresta equatorial do mundo. A Floresta Amazônica, só para relembrar, tem cerca de 5,5 milhões de km² – de acordo com outros critérios, essa área é de 6,7 milhões de km², onde estão incluídas as vegetações de transição entre biomas. 

A Floresta Amazônica se espalha pelo Brasil, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana Francesa. De acordo com informações da Aliança pela Restauração na Amazônia, a Floresta já perdeu 20% de sua área no Brasil. Esse número não está muito distante dos números oficiais do Governo brasileiro, que dizem que a Floresta já perdeu 16% da sua cobertura original.  

Entre as décadas de 1960 e 1980, milhões de brasileiros de outras regiões do país foram estimulados a migrar para a Região Norte através de políticas oficiais do Governo Federal. Foram tempos de grandes desmatamentos na Floresta Amazônica. Há cerca de dois anos atrás preparamos uma longa série de postagens contando essa história. Clique neste link para consultar. 

Muitos desses desbravadores acabaram tendo seus sonhos frustrados – grande parte dos solos da Amazônia tem baixa fertilidade e, uma vez desmatados, produzem por apenas 2 ou 3 anos. Quem insistiu em continuar vivendo e trabalhando na região, convive com uma produtividade, tanto agrícola quanto pecuária, menor do que em outras regiões do Brasil. 

É dentro desse contexto que os projetos de reflorestamento vem ganhando espaço. Cerca de 60% das iniciativas de reflorestamento existentes se referem a projetos agroflorestais, onde espécies de árvores nativas da floresta são plantadas com espécies de grande valor comercial como a castanha, o açaí, o cupuaçu e o cacau. Essas culturas são muito mais rentáveis que a pecuária e a soja na região. 

Para quem não percebeu, todas as espécies citadas fazem parte da flora Amazônica, se adaptando perfeitamente ao clima e aos solos da região e, melhor ainda, precisam da proteção de árvores da floresta para crescer e produzir. Entre todos os benefícios ecológicos criados por essa recomposição florestal, precisamos destacar a proteção dos solos, que se expostos as fortes chuvas da região sofrem muito com processos erosivos. 

Um caso de sucesso que podemos citar como exemplo é o RECA – Reflorestamento Econômico Consorciado Adensado em Rondônia.  Esse sistema agroflorestal ocupa uma área de 2.500 hectares e beneficia cerca de 300 famílias na região da Ponta do Abunã. A produção abastece uma agroindústria cooperativa, onde são produzidas anualmente mais de 500 toneladas de polpa de cupuaçu e de açaí, 430 toneladas de castanhas e sementes, 72 toneladas de palmito, entre outros produtos. 

De acordo com dados da Aliança pela Restauração na Amazônia, esse e outros projetos contribuíram para um aumento de até 300% na renda das famílias. Essas iniciativas são desenvolvidas majoritariamente por organizações da sociedade civil (87,5%), empresas (5,6%), agricultores (3,8%), instituições de pesquisa (2,4%) e governos (0,7%). 

Um outro grande projeto de reflorestamento desconhecido do grande público é o do Corredor de Biodiversidade do Araguaia, que interconectará a Floresta Amazônica ao Cerrado. Esse projeto prevê o plantio de 1,7 bilhão de árvores ao longo do curso dos rios Tocantins e Araguaia. A iniciativa é da Black Jaguar Foundation, uma organização não governamental holandesa. 

Esse corredor vai se estender por 2.600 km, com uma largura de 40 km, ocupando uma área total de 10,4 milhões de hectares nos Estados de Goiás, Tocantins, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Maranhão e Pará. Cerca de 80 mil árvores já foram plantadas no município de Santana do Araguaia no Pará. Quase metade da extensão do Corredor fica dentro do bioma Amazônia,10% fica dentro de áreas indígenas e 5% dentro de parques nacionais. 

A Black Jaguar Foundation tem buscado parcerias com os produtores rurais dos 112 municípios atravessados pelo corredor verde. Já foram identificados 23.997 imóveis rurais, sendo que 96% são propriedades privadas. Os produtores são estimulados a preservar e/ou reflorestar parte da área de sua propriedade, o que atende as normas da Reserva Legal prevista no Novo Código Florestal. Dentro do bioma Amazônia, a reserva legal de floresta é de 80%, na maior parte do Cerrado é 20% e em algumas áreas é de 35%. Desse total de propriedades, cerca de 13 mil não atendem a legislação. 

A zona destinada à implantação do Corredor de Biodiversidade prevê a ocupação de faixas de 20 km de cada lado dos rios. As reservas de vegetação criadas e/ou preservadas nas propriedades formam um grande mosaico com “peças” interligadas. Isso passa a permitir o fluxo natural de espécies animais, que por sua vez são dispersoras de semente e frutos, o que garante a sobrevivência de todas as espécies. 

Essa iniciativa, que é considerada como o maior projeto de reflorestamento da América do Sul, tem potencial para gerar US$ 21,1 bilhões em benefícios econômicos ao longo de 50 anos. Com a restauração da vegetação e a implantação de projetos agroflorestais, cerca de 527 milhões de toneladas de solos serão salvos dos processos erosivos e 262 milhões de toneladas de carbono serão capturadas pela vegetação em crescimento. Serão gerados cerca de 38 mil empregos. 

Diante de toda a devastação florestal que já se abateu sobre a Amazônia, e por extensão sobre o Cerrado, os números desses projetos de recuperação florestal podem parecer pequenos. Porém, há um aspecto que não pode ser ignorado – produtores rurais estão percebendo que a agricultura e a pecuária tradicionais não são um bom negócio na Amazônia e que a produção em sistemas agroflorestais com espécies locais dá muito mais dinheiro. 

Desde o surgimento da agricultura entre 12 e 10 mil anos atrás, a humanidade vem derrubando florestas para liberar os solos – culturas agrícolas precisam da luz do sol para crescer. Esse comportamento chegou aqui em terras brasileiras junto com os primeiros colonizadores, que passaram a derrubar e queimar as florestas para liberar espaço para culturas de cana-de-açúcar, café, algodão, fumo e cereais. De quebra, grandes extensões da Caatinga Nordestina foram queimadas e transformadas em campos para a criação de boiadas. 

Essa mesma filosofia de “trabalho” agrícola acabou sendo levada para a Amazônia e chegamos onde estamos. Conseguir mudar essa mentalidade e convencer esse pessoal que a floresta em pé dá muito mais dinheiro será uma grande façanha, onde o mundo inteiro sairá ganhando… 

LAHORE É DECLARADA A CIDADE MAIS POLUÍDA DO MUNDO 

Um dos maiores problemas ambientais de nossos tempos é o aquecimento global, uma tragédia construída pela humanidade ao longo de vários séculos. Entre as principais causas dessa tragédia destacamos a emissão dos gases de Efeito Estufa. Só para relembrar, uma das principais pautas da recente COP26 foi justamente o de reforçar o compromisso dos países no controle de suas emissões desses gases. 

A queima de combustíveis fósseis como os derivados de petróleo e o carvão respondem pelos maiores volumes das emissões desses gases. Países como a China, os Estados Unidos e a Índia encabeçam a lista dos maiores poluidores da atmosfera e, como não poderia ser diferente, possuem algumas das cidades com o ar mais poluído do mundo. 

Surpreendentemente, a cidade de Lahore, no Paquistão, correu por fora “nessa trágica competição, e acaba de ser declarada a cidade mais poluída do mundo segundo a iniciativa Monitor da Qualidade do Ar. Grandes cidades da China e da Índia ocupam posições de destaque nessa lista. 

Apesar de ser pouco conhecida aqui no Brasil, Lahore é uma das cidades mais populosas do mundo – são mais de 11 milhões de habitantes (dados de 2017), praticamente a mesma população de São Paulo, a maior cidade do Brasil. Lahore é um importante centro industrial, comercial e cultural, respondendo por 13% do PIB – Produto Interno Bruto, do Paquistão. 

Até 1947, o Paquistão fazia parte do Vice Reino da Índia, uma das colônias do Império Britânico. Após a assinatura da Declaração da Independência, as tensões entre as populações hindus e muçulmanas do país explodiram por todo o território. Uma tênue paz foi negociada entre as diferentes lideranças políticas, sendo estabelecido que o país seria dividido – os muçulmanos ficariam com os atuais territórios do Paquistão e de Bangladesh (que se tornou independente em 1971), e a maioria hindu ficaria com o atual território da Índia. 

Lahore é a capital do Estado do Punjabi Paquistanês, o mais populoso e mais desenvolvido do país. A Índia também possui o seu próprio Punjabi, que no passado formava um território único com seu homônimo paquistanês. A língua punjabi é a mais falada nos dois territórios, o que não deixa de ser um alento em meio ao clima tenso e belicoso que existe entre a Índia e o Paquistão. 

O Paquistão inaugurou recentemente sua sexta usina nuclear e vem investindo pesado em fontes renováveis de geração de energia elétrica como a fotovoltaica e a queima de biomassa. Parte da energia elétrica que abastece as grandes cidades do país, entretanto, ainda depende da queima do carvão em antigas centrais termelétricas. Some-se a isso uma gigantesca frota de veículos antigos com motores de combustão interna e indústrias de todos os tipos – esse é o quadro do envenenamento da atmosfera de Lahore. 

Assim como ocorre em outras grandes metrópoles do mundo, a poluição faz parte das paisagens de Lahore durante todos os dias do ano. Nos meses mais frios do ano, como está sendo esse final de outono no Paquistão, a situação fica dramática. Os ventos perdem sua força e não conseguem dispersar adequadamente a grande massa de poluentes que cobre a cidade. 

Localizada a pouco mais de 15 km da fronteira com a Índia, Lahore acaba “empurrando” grandes nuvens de poluição para a região Norte do país vizinho. Essa nuvem de poluição se junta aos grandes volumes gerados na Índia, transformando toda essa extensa região numa das áreas com um dos piores ares do mundo. 

O mapeamento das cidades mais poluídas do mundo é uma iniciativa do PNUMA – Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, e da ONU-Habitat – Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos, em parceria com a IQAir, uma empresa suíça especializada em tecnologia da qualidade do ar e que atua desde 1963. Essa empresa é a responsável pelas medições dos níveis de poluição em cidades de todo o mundo.  

O PNUMA foi criado em 1972, logo após a Primeira Conferência Internacional do Meio Ambiente, evento que a ONU organizou na cidade de Estocolmo – Suécia. Essa reunião resultou na Declaração da ONU sobre o Meio Ambiente Humano, mais conhecida como a Declaração de Estocolmo, documento que passou a orientar as ações da Organização na defesa do meio ambiente natural e humano. 

A ONU-Habitat é uma agência dedicada à promoção da melhoria da vida nas cidades, buscando ambientes mais sociais e ambientalmente sustentáveis. A meta é que todos os residentes dessas cidades disponham de abrigos dignos e adequados. Fundada em 1978, a ONU-Habitat atua em 90 países, trabalhando com Governos e parceiros locais. 

IQAir mantém uma página na internet onde apresenta o mapa com as cidades mais poluídas do mundo. Se você consultar esse mapa agora (clique no link indicado), vai perceber que uma grande nuvem de poluição está cobrindo praticamente todo o Paquistão e grande parte da Índia. A parte mais nociva dessa poluição são as partículas finas em suspensão, conhecidas com PM2.5 e PM10. 

Hoje, dia 18 de novembro, Lahore está aparecendo na primeira posição desse mapa, com uma concentração de 311 micro gramas de partículas PM2.5 para cada metro cúbico de ar – Nova Déli, a capital da Índia, vem colada na segunda posição com um índice de 284 micro gramas de partículas PM2.5 e 371 micro gramas de partículas PM10 para cada metro cúbico de ar. 

Para efeito de comparação, a cidade de São Paulo aparece na 55ª posição no mapa, um índice considerado como moderado. No caso paulistano, o ponto crítico da qualidade do ar é a concentração de partículas PM2.5, com um índice de 17 microgramas para cada metro cúbico de ar. As concentrações de outros poluentes como PM10, ozônio, óxido nitroso, dióxido de carbono, entre outros gases tóxicos, surpreendentemente, estão dentro de valores seguros. 

A OMS – Organização Mundial da Saúde, em decisão recente, reviu suas recomendações para os níveis máximos de concentração dessas partículas – os novos limites são 5 micro gramas e 15 micro gramas por metro cúbico de ar, respectivamente, para a PM2,5 e PM10. Uma rápida olhada na concentração dessas partículas no ar das cidades citadas (inclusive São Paulo) dá uma ideia dos riscos para a saúde de seus moradores. 

Segundo a OMS, cerca de 7 milhões de pessoas morrem precocemente a cada ano por causa de problemas e doenças decorrentes da poluição atmosférica. Preocupações com as florestas tropicais, poluição dos mares e riscos à biodiversidade são importantes, mas o ar que respiramos todos os dias e do qual precisamos para sobreviver é mais importante ainda. 

Pense nisso e tente não respirar fundo! 

A GRADUAL REDUÇÃO DO NÍVEL DO MAR CÁSPIO 

A destruição do Mar de Aral na Ásia Central, que detalhamos na postagem anterior, é considerada uma das maiores tragédias ambientais do século XX. Ocupando uma área de mais de 65 mil km², o Mar de Aral era considerado o quarto maior lago do mundo. Após décadas de uso abusivo das águas dos seus rios formadores por projetos de agricultura irrigada, o grande lago acabou reduzido a 10% de sua área original. 

Localizado a cerca de 800 km do Mar de Aral, o Mar Cáspio parece estar seguindo por um caminho muito parecido. Ocupando uma área de mais de 370 mil km², um pouco maior que o território do Estado do Mato Grosso do Sul, o Mar Cáspio vem assistindo uma redução gradual do seu nível desde a década de 1970. Naqueles tempos, o lago vinha perdendo entre 1 e 2 cm a cada ano, um valor que era considerado razoável para o seu tamanho.  

Pesquisas recentes realizadas por cientistas holandeses e alemães constataram que esse nível de perda sofreu uma forte aceleração nas últimas décadas, atingindo um nível de dessecação da ordem de 6 ou 7 cm a cada ano. A má notícia é que esse ritmo de redução do nível do lago deverá se acelerar nas próximas décadas. De acordo com modelos matemáticos criados pelos pesquisadores, o Mar Cáspio poderá perder até 1/3 do seu tamanho até o final deste século

Localizado em uma grande depressão na Ásia Central, o Mar Cáspio é o trecho final de uma grande bacia hidrográfica endorreica, ou seja, cujas águas não seguem para o mar. Aliás, o nível médio do lago fica a cerca de 27 metros abaixo do nível do mar. Diversos rios da Ásia despejam suas águas no lago, repondo os grandes volumes perdidos para a evaporação. 

O Mar Cáspio se estende no sentido Norte-Sul, com aproximadamente 1.200 km de comprimento e cerca de 450 km de largura. Sua profundidade média é de 180 metros, atingindo 1.025 metros no ponto mais profundo. A linha de costa do lago tem quase 7 mil km, abrangendo trechos da Rússia, Azerbaijão, Turcomenistão, Cazaquistão e Irã. 

Cerca de 90% de todo o aporte de água que chega ao Mar Cáspio vem do rio Volga. Com quase 3.700 km de extensão, o Volga é o maior rio da Europa, o dono da maior bacia hidrográfica e também o curso com o maior volume de água do continente. Grande parte da população russa vive em áreas da bacia hidrográfica do rio Volga, que também concentra a maior parte da produção agropecuária e industrial do país. 

Desde os tempos da formação da URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, o rio Volga vem passando por obras de todos os tipos para seu aproveitamento como via de navegação e também como fornecedora de água para projetos industriais e de agricultura irrigada. Cerca de 3.200 km do rio são navegáveis e existem cerca de 900 portos nas suas margens.  

Em meados do século XX, o Governo Soviético construiu um canal de interligação entre os rios Volga e Don, possibilitando a integração hidroviária dos dois rios e também a navegação entre o Mar Cáspio e o Mar Negro. Os ganhos econômicos que foram obtidos a partir dessa super exploração do rio Volga se refletiram em gigantescos problemas ambientais no Mar Cáspio. 

Além da gravíssima poluição de suas águas por esgotos domésticos e industriais, o rio Volga também recebe grandes volumes de resíduos de agrotóxicos e de fertilizantes, poluição que é despejada diretamente no Mar Cáspio. A bacia hidrográfica do rio Volga concentra a maior parte da produção agrícola da atual Rússia. Essa grande exploração dos recursos hídricos também se reflete em uma grande redução dos caudais que chegam ao Mar Cáspio, o que explica em parte a gradual redução do nível do lago. 

Esse, entretanto, não é o maior problema ambiental do Mar Cáspio – de acordo com os estudos, as mudanças climáticas e o aumento das temperaturas do planeta são, de longe, os maiores riscos à sobrevivência desse grande lago. O aumento das temperaturas se reflete diretamente no aumento da evaporação e das perdas de água no Mar Cáspio. 

De acordo com os pesquisadores, essas mudanças climáticas poderão aumentar o volume de precipitações na bacia hidrográfica do rio Volga, o que, a princípio, resultará num aumento dos volumes de águas que chegam até o Mar Cáspio. O aumento da evaporação em consequência de temperaturas mais altas em toda a região onde se encontra o lago, entretanto, provocarão perdas por evaporação cada vez maiores no volume do corpo d`água. 

Os modelos matemáticos elaborados pelos pesquisadores estimam uma redução de 9 metros no nível do Mar Cáspio até o final deste século no caso das emissões de gases de Efeito Estufa se manterem estáveis. Num segundo cenário, onde se considerou um aumento das emissões, a redução do nível do Mar Cáspio poderá atingir a marca de 18 metros. No primeiro caso, a redução da superfície do lago seria de 23%, chegando a 34% no segundo cenário

Essas projeções mostram a importância do cumprimento das metas de redução das emissões dos gases de Efeito Estufa pactuadas no Acordo de Paris, em 2015, e que foram intensamente debatidas agora na COP26. O objetivo dessas medidas será o de limitar o aumento das temperaturas no planeta a, no máximo, 1,5° C até o final desse século. Observe pelo exemplo do Mar Cáspio que isso não vai resolver os nossos problemas climáticos, mas, como dizemos aqui em casa “é menos pior”. 

Países sem fachada oceânica como o Azerbaijão, Cazaquistão e Turcomenistão, tem maiores dificuldades para sua inserção no comércio internacional, o que se reflete em um desenvolvimento econômico mais lento. A ligação hidroviária que foi criada pelo canal de interligação entre os rios Volga e Don rompeu esse isolamento e passou a permitir o tráfego de embarcações entre o Mar Cáspio e o Mar Negro, e dali para todos os oceanos do mundo. A perda dessa ligação é apenas uma das ameaças para os países da região. 

As águas salgadas do Mar Cáspio (tem 1/3 da salinidade das águas dos oceanos) guardam uma outra riqueza fundamental para os países da região e que também poderia estar ameaçada – a pesca. Existem dezenas de espécies de peixes de alto valor comercial nas águas desse lago, porém, nenhuma consegue rivalizar com o esturjão, uma família com cerca de 25 espécies de animais, onde se incluem os chamados esturjões verdadeiros, além de várias espécies aparentadas. 

A ovas desses peixes, o caviar, é tão valiosa quanto o ouro. O caviar dourado iraniano, que é produzido pelo esturjão-beluga (Huso huso), é um dos mais valorizados do mundo e pode custar o fabuloso preço de US$ 25 mil por kg. Essa espécie de esturjão é considerada o maior peixe de água doce do mundo, com exemplares capturados apresentando um peso de 2 toneladas. A super exploração das espécies pela pesca e a poluição já estão ameaçando a sobrevivência desses animais, um problema que poderá ficar ainda mais crítico com a redução do tamanho do Mar Cáspio.  

Quem sabe, sob a ameaça de perder uma de suas iguarias preferidas, alguns dos poderosos líderes políticos, empresariais e industrias desse nosso mundo não se esforcem um pouco mais para ajudar na salvação do maravilhoso Mar Cáspio. 

PROBLEMAS AMBIENTAIS AMEAÇAM OS GRANDES LAGOS DO MUNDO 

O Mar de Aral, localizado numa grande depressão entre o Cazaquistão e o Uzbequistão, já foi o quarto maior lago do mundo. Até meados do século XX, o espelho d`água cobria uma área de 68 mil km², algo equivalente a três vezes e meia o Estado de Sergipe. A agricultura com irrigação intensiva nas Repúblicas da Ásia Central, onde o principal produto é o algodão, destruiu, literalmente o Mar de Aral, que atualmente está reduzido a 20% de sua área original. 

A Ásia Central é uma sucessão de estepes semiáridas e de desertos, que vem sendo habitada desde tempo imemoriais por povos nômades praticantes do pastoreio de animais. Essa vasta região é cortada por dois grandes rios – o Amu Daria e o Syr Daria. As nascentes desses rios se formam a partir do degelo de glaciares no alto das Montanhas Himalaias e em cordilheiras associadas como as Montanhas Pamir

Correndo no sentido Sudeste-Noroeste por mais de 2.300 km, esses rios desaguam numa grande bacia endorreica – o Mar de Aral, onde se formava um grande oásis no meio de planícies semiárida. Em bacias hidrográficas endorreicas, relembrando o conceito da geografia, a água se perde por ação da evaporação. Portanto, é essencial que o corpo d`água continue recebendo aportes regulares de água a fim de manter o seu nível estável. 

Conforme comentamos em uma postagem anterior, após a formação da URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, em 1917, o Governo Central em Moscou decidiu que as Repúblicas da Ásia Central – Cazaquistão, Uzbequistão, Tadjiquistão, Turcomenistão e Quirguízia, seriam transformadas nos celeiros agrícolas do bloco. Para levar isso a cabo, grandes obras para a construção de canais de transporte de água e de irrigação a partir dos rios Amu Daria e Syr Daria seriam construídas. 

Usando e esbanjando as preciosas águas desses importantes rios, os burocratas do Kremlin conseguiram atingir seus objetivos. Grandes tonelagens de grãos como trigo, milho e cevada, e depois fabulosos volumes de algodão, foram colhidas nessa extensa região. O custo ambiental, entretanto, foi altíssimo. A irrigação passou a consumir volumes equivalentes a 90% dos caudais dos rios Amu Daria e Syr Daria. A água que abundava nas plantações começou a escassear no Mar de Aral. 

Sem conseguir repor as perdas de água para a evaporação, o Mar de Aral começou a secar lentamente. Grandes áreas que antes formavam o fundo do lago agora nada mais são que uma sucessão de dunas de areais salgadas, que os locais passaram a chamar de Aralkum, palavra que nas línguas cazaque e uzbeque significa “deserto de Aral”. A foto que ilustra essa postagem resume bem esse drama.

O único trecho remanescente do lago é conhecido como Mar do Norte de Aral e corresponde a apenas 10% da área original. Esse pequeno corpo d’água sobreviveu graças aos esforços do Governo do Cazaquistão, que construiu uma barragem com cerca de 13 km nas proximidades do delta do rio Syr Daria, permitindo o acúmulo dos reduzidos caudais que chegam ao Mar de Aral. 

O desaparecimento de um lago desse tamanho em uma região semiárida teve, é claro, enormes consequências ambientais, sociais e econômicas. Dentro da estrutura de planejamento central da URSS, cabia ao Mar de Aral fornecer metade das necessidades de pescados para as populações de todos os países do bloco. Essa meta nunca foi alcançada, mas os pescadores e trabalhadores das fábricas de processamento de pescado da região conseguiam produzir 40 mil toneladas de pescado por ano, o que correspondia a 1/6 das necessidades dos soviéticos. 

As águas do Mar de Aral eram ricas em peixes, incluindo-se aqui o famoso esturjão do Aral (Acipenser nudiventris), peixe que podia atingir até 70 kg e produzia além da carne o valioso caviar. Essa e dezenas de outras espécies endêmicas tiveram suas populações dramaticamente reduzidas, quando não extintas, ficando restritas à região da foz do rio Amu Daria e ao Mar do Norte de Aral. Com o desaparecimento dos peixes, mais de 50 mil trabalhadores dessa indústria perderam os seus empregos. 

Os impactos não ficaram restritos ao corpo d`água. As margens e as regiões da foz dos grandes rios eram cobertas de frondosas florestas de juncos e canas, onde viviam grandes populações de saikas, uma espécie local de antílope, javalis selvagens, bois almiscarados, lobos, raposas, perus, gansos, patos e outros animais. Nas áreas alagadiças eram produzidas diversas culturas de víveres, que atendiam parte das necessidades dos povos locais. 

A catástrofe ambiental do Mar de Aral é complexa: aumento da salinidade das águas restantes; erosão do solo pelos ventos, destruição dos antigos locais de desova, com e extinção de várias espécies de peixes – muitas endêmicas do Aral. Os fortes ventos das estepes passaram a criar imensas tempestades de poeira salgada. Todas as atividades de navegação e do turismo colapsaram. Áreas de pastagem desapareceram e houve o comprometimento dos terrenos férteis. As fontes de água doce sofreram com a salinização, forçando a migração de imensos contingentes populacionais por falta de trabalho e condições mínimas de sobrevivência nas áreas impactadas, entre outros problemas.  

Estudos clínicos têm encontrado altíssimos níveis de anemia e um aumento exponencial das doenças respiratórias em moradores que permaneceram na região, forte incidência de alguns tipos de câncer, além de aumento na mortalidade infantil. A redução do espelho d’água também provocou uma alteração no clima regional, que agora apresenta verões cada vez mais secos e quentes (até 50° C) e invernos mais longos e frios (até -40° C). 

Infelizmente, o drama vivido pelo Mar de Aral está muito longe de ser um caso único e isolado. Existem inúmeros lagos em todo o mundo que estão passando por intensos e complicados problemas ambientais. O Mar Cáspio, o maior corpo d`água fechado e interior do planeta, localizado a cerca de 800 km do Mar de Aral, também está se reduzindo. De acordo com cálculos dos cientistas, o lago poderá perder até 1/3 de sua superfície até o ano de 2100. 

Outro caso dramático é o Lago Chade, localizado próximo do centro geográfico da África, corpo d`água que até o início da década de 1960 ocupava uma área de 25 mil km² e que está reduzida atualmente a 1 mil km². Cerca de 30 milhões de pessoas, distribuídas no Chade, Camarões, Níger e Nigéria, vivem ao redor de suas margens e dependem de suas águas para o abastecimento, pesca, dessedentação de animais e irrigação agrícola. Grandes projetos de agricultura irrigada, aliás, estão na raiz do gradual desaparecimento do Lago Chade. 

Bem perto de nós aqui na América do Sul, assistimos ao lento e gradual desaparecimento do Lago Titicaca, localizado entre o Peru e a Bolívia. Apesar dos Governos desses países negarem a existência de qualquer problema, o Titicaca vem perdendo aproximadamente 1 metro de profundidade a cada ano. O Lago é alimento por rios com nascentes em geleiras no alto da Cordilheira dos Andes. Conforme apresentamos em uma postagem anterior, o aquecimento global está reduzindo gradualmente essas geleiras e volumes de água cada vez menores estão chegando no Lago Titicaca. 

Em 2017, o Lago Poopó, um corpo de água menor que era alimentado por águas excedentes do Lago Titicaca, secou completamente. A causa dessa tragédia foram obras de desvio no rio Desaguadero para uso de suas águas em sistemas de irrigação agrícola. Sem repor as perdas de água para a forte evaporação, o lago, que chegava a ocupar uma área de 2.500 km², simplesmente desapareceu. 

Esses são os tempos complicados em que estamos vivendo. 

OS ESCRAVOS DOS CAMPOS DE ALGODÃO

Em tempos de COP26, quando parte das atenções globais está voltada para os gravíssimos problemas ambientais que assolam o planeta, muito se fala sobre a destruição de florestas tropicais (inclua-se aqui a Floresta Amazônica), da queima de combustíveis fósseis e das emissões de gases de Efeito Estufa, da poluição dos mares com dezenas de milhões de toneladas de lixo, entre outros terríveis problemas. 

Apesar da extrema gravidade de todos esses problemas, existem outros que estão bem mais próximos de nós, mas muita gente não se dá conta que esses problemas existem. A indústria têxtil é um desses casos – os problemas já começam nos campos onde se produzem fibras como o algodão, passam pelas indústrias de fiação e tecelagem, depois pela intensa exploração da mão de obra em países subdesenvolvidos, chegando enfim ao descarte cada vez maior de roupas usadas nos aterros

Na postagem anterior falamos da produção de algodão em larga escala em países da Ásia Central, o que teve como resultado a destruição do Mar de Aral, aquele que já foi o quarto maior lago do mundo. Vamos detalhar essa histórica trágica em uma outra postagem. 

A produção do algodão, desde a mais remota antiguidade, sempre foi um trabalho imposto aos trabalhadores mais humildes das sociedades, muitos desses trabalhando na condição de escravos. Tanto a fibra do algodão quanto os tecidos feitos com esse material sempre foram muito valorizados nos mercados do mundo antigo, um sucesso que sempre resultava em um número maior de trabalhadores e escravos trabalhando nas plantações. 

Para ilustrar essa realidade vamos citar dois casos históricos – a produção de algodão nas plantations do Sul dos Estados Unidos e na Índia durante a ocupação Britânica. No caso norte-americano, a mão de obra era formada por escravos africanos e só terminou após a Guerra de Secessão ou Guerra Civil Americana (1861-1865), quando a escravidão foi formalmente abolida em todo o país.  

Na Índia, a mão de obra era assalariada, mas as condições de trabalho estavam mais próximas da semiescravidão. A Índia conquistou sua independência da Inglaterra em 1947, porém, as condições de trabalho e de vida das populações ligadas ao plantio e processamento do algodão ainda levaria muitas décadas para melhorar. 

O algodão é a fibra natural mais consumida do mundo. De acordo com dados da ABRAPA – Associação Brasileira dos Produtores de Algodão, a fibra é produzida em cerca de 60 países do mundo, uma atividade que emprega cerca de 350 milhões de pessoas. Cada safra da cultura ocupa, em média, 35 milhões de hectares e produz perto de 25 milhões de toneladas a cada ano. 

O maior produtor mundial de algodão é a Índia, seguida bem de perto pela China e pelos Estados Unidos. O Brasil ocupa a posição de quinto maior produtor mundial. A lista dos maiores produtores mundiais também inclui o Paquistão, Uzbequistão, Turquia, Austrália e Turcomenistão. 

A produção do algodão em países da Ásia Central é uma das atividades econômicas mais importantes, só ficando atrás da mineração e da exploração do petróleo e do gás. No Uzbequistão, citando um exemplo, o algodão representa cerca de 14% das exportações do país. Na época da de colheita, alguns dos países da região chegam a utilizar a mão de obra de um terço da população, inclusive crianças, adolescentes e mão de obra escrava, o que gera grandes protestos na comunidade internacional

Um caso polemico dos dias atuais é a China, país que vem sendo acusado por entidades internacionais pelo uso intensivo de mão de obra escrava em campos de produção de algodão na região de Xinjiang, no Noroeste do país. Essa região é responsável por 85% da produção de algodão da China. Cerca de 1/5 da produção mundial de algodão vem de campos chineses.

De acordo com investigações feitas pela BBC – British Broadcast Corporation, a rede de televisão pública da Inglaterra, centenas de milhares de trabalhadores uigures e de outras minorias étnicas são obrigados a realizar trabalhos forçados em plantações de algodão nessa região do país. 

Os uigures são povos de origem turcomena que habitam vastas regiões da Ásia Central. Na China, os uigures estão concentrados na província de Xinjiang, onde tem uma população estimada em 8,6 milhões de pessoas. Os uigures se juntam a outras 55 minorias étnicas que vivem na China e que enfrentam inúmeros problemas políticos. 

Além de possuírem língua e costumes próprios, os uigures são majoritariamente praticantes do islamismo, uma religião que não é bem vista pelo Governo central em Pequim. Há relatos que afirmam que cerca de 1,5 milhão de uigures estão confinados em “campos de internação” do Governo, onde passam por um processo de reeducação. Há quem afirme que 500 mil desses “internados” estão sendo usados como mão de obra gratuita (para não chamar de escrava) nas plantações de algodão. 

De acordo com documentos obtidos pela BBC, as prefeituras das cidades de Aksu e de Hotan, na Província de Xinjiang, enviaram 210 mil trabalhadores por “transferência laboral“ em 2018, para trabalhos nas plantações de algodão. A coordenação dos trabalhos ficou por conta do Corpo de Construção e Produção de Xinjiang, uma organização paramilitar chinesa. 

Documentos também indicam que a cidade de Aksu requisitou 142,7 mil trabalhadores para seus próprios campos em 2020. Nos dois casos, os chamados trabalhadores nada mais eram que “internados” dos campos de reeducação, majoritariamente formado por uigures. 

Em um comunicado oficial em resposta às reportagens publicadas pela BBC, o Governo chinês negou todas as acusações e afirmou que os campos de internação são “escolas de formação profissional”. O comunicado também afirma que as unidades de produção fazem parte de um grande projeto de “alívio à pobreza”, além de informar que a participação dessas populações é voluntária

A produção de algodão nessa região se junta às condições deploráveis de trabalho nas tecelagens, tinturarias, oficinas de costura e demais empresas do ramo de confecção da China. Todos os anos, bilhões de peças de roupas são colocadas no mercado internacional a preços muito baixos 

Um sintoma desse mecanismo – há pouco tempo atrás li uma reportagem que falava sobre a mudança de hábitos de muitos consumidores dos Estados Unidos. Camisetas feitas na China são tão baratas que estão sendo tratadas como itens descartáveis – é mais barato comprar uma nova camiseta do que lavar essas peças em uma lavanderia automática. Ou seja – mais resíduos descartados no meio ambiente. 

Como fica bem fácil de entender, os grandes problemas ambientais de nosso planeta se restringem às queimadas na Floresta Amazônica… 

OS PROBLEMAS AMBIENTAIS CRIADOS PELO ALGODÃO, A FIBRA NATURAL MAIS UTILIZADA NO MUNDO

Na última postagem falamos sobre um gravíssimo problema ambiental de nossos dias – o consumo cada vez maior de produtoS fashion, especialmente roupas, e o aumento da produção de resíduos associados. Um exemplo mostrado foi o de uma grande área de descarte de roupas usadas no deserto do Atacama, no Norte do Chile. 

Os problemas ambientais criados pela indústria da moda começam no campo, onde muitas fibras naturais são produzidas. Um desses casos é o algodão, a fibra natural mais usada no mundo. As fibras do algodão são formadas quase que totalmente por celulose e crescem ao redor de uma semente. Apesar de existirem máquinas para a colheita do algodão, em grande parte do mundo a colheita é feita manualmente e em condições de trabalho das mais precárias (para não usar o termo trabalho semiescravo). 

O algodoeiro é um arbusto do gênero Gossypium e possui uma infinidade de espécies encontradas em regiões tropicais e subtropicais da Ásia, África e Américas. Existem quatro espécies de maior produtividade e que são cultivadas em grande escala ao redor do mundo. 

Evidencias arqueológicas indicam que o algodão vem sendo utilizado pela humanidade há mais de 4.500 anos, sendo que algumas fontes chegam a falar de mais de 6 mil anos. O algodoeiro foi domesticado inicialmente no Sul da Península Arábica e dali sua cultura foi disseminada por todo o Oriente Médio, Ásia Central e Norte da África. A história está repleta de referencias à planta e aos seus inúmeros usos.

O Brasil colonial viveu um ciclo efêmero de grande riqueza graças ao comércio do algodão nas últimas décadas do século XVIII. Naquele momento, a indústria têxtil da Inglaterra da Revolução Industria necessitava de grandes volumes da matéria prima. Dois dos maiores produtores da época enfrentavam problemas: Os Estados Unidos travavam a Guerra da Independência contra a Inglaterra e a França passava pela Revolução de 1789, mais conhecida como a Revolução Francesa. 

Passando por enormes dificuldades econômicas por causa do esgotamento das minas de ouro nas Geraes, Portugal viu uma grande oportunidade de produção para a sua grande colônia sul-americana. Grandes áreas do interior do Nordeste – especialmente no Maranhão, foram transformadas em plantações de algodão. Entre 1780 e 1800, a produção brasileira supriu grande parte da demanda da Inglaterra e, por esse breve período, o Maranhão foi a Província mais rica do Brasil. Com a regularização da situação politica nos Estados Unidos e na França, a antiga produção foi retomada e a cultura perdeu importância aqui no nosso país. 

Atualmente, os maiores produtores do mundo são Índia, China e Estados Unidos, com o Brasil ocupando a quinta colocação. Entre os maiores produtores mundiais destacam-se também o Uzbequistão e o Turcomenistão, países desérticos da Ásia Central onde a cultura do algodão se transformou na maior consumidora dos recursos hídricos disponíveis. 

O algodoeiro se adapta perfeitamente ao clima e aos solos de regiões desérticas e semidesérticas, porém, para a sua produção em larga escala se faz necessário o uso de muita água – alguns cálculos afirmam que são gastos cerca de 10 mil litros de água para se produzir 1 kg de algodão. Entretanto, estudos recentes do ICAC – International Cotton Advisory Committee, dos Estado Unidos, indicam que o consumo de água é de apenas 1.214 litros para cada kg de algodão. Entre 60% e 70% da produção mundial da fibra vem de áreas dotadas de sistemas de irrigação

Na Ásia Central, o algodão sempre foi uma mercadoria preciosa, sendo produzida em algumas regiões de clima adequado à cultura e distribuído por caravanas de mercadores desde tempos imemoriais. O produto era transportado por tropas de camelos por extensas e antigas rotas comerciais através de estepes, montanhas e desertos – a região do Mar de Aral era o centro de algumas dessas rotas ancestrais. 

Artesãos dos mais diferentes povos da região transformavam a fibra em fios usados na produção de tecidos e vestimentas, tapetes, utensílios domésticos e tendas. Um produto de sucesso da região era o Yaktakh, uma tradicional túnica de algodão leve com detalhes em seda e muito cobiçada em mercados de todo o mundo antigo. 

A história da Ásia Central passou por uma enorme reviravolta após a Revolução Bolchevique de 1917. Os países da região, que já viviam sob a influência da Rússia desde o século XIX, foram integrados a URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Com a implantação do sistema comunista e com o planejamento central da economia, as planícies da região passaram a ser vistas como potenciais produtoras de alimentos e de algodão para o bloco comunista. Essa produção utilizaria sistemas de agricultura irrigada e as fontes de água seriam os caudalosos rios Amu Daria e Syr Daria. 

A partir da década de 1920, Moscou decidiu iniciar a construção de inúmeros canais para o transporte de água e para irrigação de campos agrícolas em toda a região. A área de agricultura irrigada na República do Turquestão foi extensivamente ampliada a fim de atender a uma proclamação de Vladimir Lenin (1870-1924) solicitando o aumento da produção do algodão.  

Na década de 1930, já sob o comando de Joseph Stálin (1878-1953), o Ministério da Água iniciou a implantação de gigantescos projetos de construção de canais de irrigação no Uzbequistão, Cazaquistão e Turcomenistão, com o objetivo de transformar suas estepes nos celeiros da União Soviética, alcançando a autossuficiência na produção de trigo, cevada, arroz, milho e algodão. O primeiro grande canal de irrigação foi concluído em 1939 no Vale de Ferghana no Uzbequistão; no final da década de 1940 foram concluídos canais em Kizil-Orda no Cazaquistão e na região de Taskent no Uzbequistão. 

Após a morte de Stálin em 1953, os novos dirigentes da União Soviética – Nikita Khrushchev (1894-1971) e Leonid Brezhnev (1906-1982), mantiveram a política de produção agrícola nas Repúblicas da Ásia Central, expandindo ainda mais a construção dos grandes canais de irrigação e convertendo ainda mais áreas de estepes para a produção de algodão. Foram construídos o Qara-Qum, um canal com 800 km de extensão entre o rio Amu Daria e Ashkhadab, o sistema de irrigação de Mirzachol Sahra, o canal Chu no Quirguistão e o Reservatório de Bahr-i Tajik no Tadjiquistão.  

A partir do final da década de 1950, Moscou decidiu que toda a região irrigada da Ásia Central passaria a se ocupar exclusivamente com a monocultura do algodão. Essa frase se transformaria num mantra nos corredores do Kremlin: “quando o branco da neve cobre Moscou, o ouro branco do algodão cobre as Repúblicas Soviéticas da Ásia Central”. 

Os planos dos burocratas de Moscou lograram espantosos êxitos, com recordes de produção de algodão sendo quebrados sucessivamente ano após ano. Todo esse sucesso, porém, teve terríveis custos sociais e ambientais: a sangria de recursos hídricos dos rios Amu Daria e Syr Daria para uso em sistemas de irrigação fez cair em 90% o volume de água que chegava ao Mar de Aral, um grande lago encravado no meio do deserto e que tinha uma superfície com cerca de 68 mil km2. Atualmente, o Mar de Aral tem apenas 20% de sua área original

A produção de algodão, literalmente, destruiu o quarto maior lago do mundo! 

Falaremos mais sobre isso na próxima postagem.