OS RAIOS DE OUTUBRO

Raios de Outubro

No último dia 16 de outubro, um avião de passageiros que fazia a rota entre as cidades de Vitória da Conquista, no Centro-Sul da Bahia, e Belo Horizonte, capital do Estado de Minas Gerais, foi atingido por um raio cerca de 40 minutos após a decolagem. De acordo com o relato dos passageiros, foi ouvido um forte estrondo seguido por intensas chamas, vistas através das janelas da aeronave. O incidente, que durou poucos segundos, foi suficiente para provocar pânico entre os passageiros, que só se acalmaram após ouvir um relato do comandante, informando que a aeronave havia sido atingida por um raio, porém, sem causar nenhum problema nos instrumentos eletrônicos e sistemas de voo. Cerca de vinte minutos depois, o avião fez um pouso seguro no aeroporto da cidade de Montes Claros, no Norte de Minas Gerais. Apesar do grande susto, todos os passageiros e tripulantes estavam bem. 

À primeira vista, essa notícia parece não ter nada a ver com a linha editorial do blog, onde falamos de recursos hídricos e de saneamento básico. Uma análise um pouco mais aprofundada do caso, porém, mostra que o incidente está ligado diretamente a esse período do ano, quando as chuvas começam a cair com mais intensidade na região Centro-Sul do país. As mudanças climáticas que ocorrem nos meses de primavera e verão favorecem a entrada de frentes frias, que trazem no seu encalço grandes massas de nuvens, favorecendo a formação de tempestades com raios. Outubro é, estatisticamente falando, o mês de maior incidência de raios no Brasil

De acordo com informações do INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o Brasil é o país com a maior incidência de raios no mundo, com perto de 80 milhões de ocorrências por ano. Estudos da NASA, órgão do Governo dos Estados Unidos voltado a pesquisas e tecnologia aeroespacial, indicam que esse número de ocorrências é ainda maior, chegando a casa de 110 milhões de raios por ano. O Estado líder no ranking de ocorrências de raios é o Amazonas, com 11 milhões de registros por ano, seguido pelo Pará, com 7,8 milhões de raios e Mato Grosso, onde são registradas mais de 6,8 milhões de ocorrências a cada ano. No outro extremo desse ranking encontra-se Sergipe, Estado com a menor incidência de raios no Brasil. O Nordeste, aliás, é a região brasileira com o menor registro de raios

Esse ranking nacional, porém, não é imutável: de acordo com estudos do INPE, mudanças no padrão climático de São Paulo ao longo dos próximos 30 anos, poderão transformar o Estado mais populoso do país num campeão em incidência de raios. De acordo com os pesquisadores, a incidência de raios em terras paulistas, que já não é baixa, poderá aumentar em até 80%.

Dados oficiais indicam que, entre os anos 2000 e 2017, ocorreram 2.044 mortes de pessoas atingidas por raios no Brasil. Cerca de 25% dos casos registrados envolveram trabalhadores rurais, 15% das vítimas estavam dentro de casas, 10% se encontravam próximas a veículos, 8% embaixo de árvores, 7% jogando futebol, 5% estavam abrigadas sob pequenas coberturas e 4% foram atingidas em praias. Entre as maiores vítimas dos raios destaca-se o gado bovino – esses animais ficam expostos às descargas elétricas enquanto pastam nos campos; quando percebem a chegada das tempestades, esses animais costumam, instintivamente, se reunir em grandes grupos, o que não raras vezes resulta na morte conjunta de dezenas de animais após a queda de um único raio. Não existem estudos detalhados sobre a morte de gado por raios no Brasil – nos Estados Unidos, cerca de 80% dos incidentes que resultam na morte de gado está ligada a incidência de raios. 

Em um artigo publicado em 2016, sob o título “Where are the lightning hotspots on Earth?” (Onde estão os pontos ativos de raios na Terra?), pesquisadores da NASA, de universidades americanas e da USP – Universidade de São Paulo, fizeram um mapeamento dos locais com a maior incidência de raios no planeta. O estudo se estendeu por um período de 16 anos, analisando a incidência dos raios e suas relações com a topografia e a vegetação.

A região do lago Maracaibo, na Venezuela, foi considerada a capital mundial dos raios, colocando o Congo, país da África Central que até então era considerado o campeão mundial de ocorrências, na segunda posição. O estudo criou um ranking com os 500 locais com a maior incidência de raios no mundo – desse total, 283 localidades encontram-se na África. Uma região do rio Negro, a Noroeste da cidade de Manaus, no Estado do Amazonas, coloca o Brasil na 191° posição nesse ranking mundial de raios. 

Apesar de todos os avanços da ciência nos estudos sobre a incidência e a formação dos raios ao redor do mundo, ainda não existem equipamentos ou técnicas que permitam prever com antecedência os locais onde ocorrerão as descargas elétricas, informação que poderia ser usada para alertar as populações. Na falta de mecanismos de alerta, valem as velhas orientações dos especialistas: nessa época de fortes precipitações, evite lugares abertos ou praias durante a ocorrências de chuvas; não se abrigue embaixo de árvores ou construções pequenas como pontos de ônibus, marquises e garagens; e busque sempre a segurança de construções dotadas de sistemas de para-raios. 

Se nada disso for possível, o jeito será contar com a sorte – de acordo com as estatísticas, 70% das pessoas atingidas por raio conseguem sobreviver. 

AS ÁGUAS DE SOBRADINHO

Sobradinho Na foto: Barragem SobradinhoFoto: Roberto Viana em, 08/05/06.

Em meados de dezembro de 2017, em uma postagem aqui no blog, falávamos das fortes chuvas que estavam caindo em Minas Gerais, Goiás e região Oeste da Bahia que, pouco a pouco, estavam chegando na calha do rio São Francisco e iniciaram um lento processo de recuperação da barragem de Sobradinho. Em novembro daquele ano, quase um ano atrás, o nível do reservatório de Sobradinho estava com meros 2,8% de sua capacidade, o menor nível da sua história, num colapso que ameaçava o abastecimento de várias cidades, a irrigação de lavouras e também a manutenção das operações de várias usinas hidrelétricas no médio rio São Francisco

De acordo com dados do ONS – Operador Nacional do Sistema Elétrico, o nível do reservatório de Sobradinho está hoje (29/10/2018) com 22,44% de sua capacidade. Comparado com a situação crítica do mesmo período no ano passado, Sobradinho e suas águas vão muito bem, obrigado. 

A barragem de Sobradinho foi planejada na década de 1940 e acabou sendo construída na década de 1970 como uma usina hidrelétrica. Sua principal função seria a regularização do nível das águas do rio São Francisco, mantendo um fluxo de águas constante para as diversas usinas hidrelétricas construídas a montante do rio. Em condições naturais, o leito de um rio apresenta fortes variações em seus caudais ao longo do ano: nos períodos de chuva, com a chegada de grandes volumes de águas pluviais, os rios enchem e, em muitos casos, chegam a transbordar; já na época da seca, o nível dos rios costumam baixar muito. 

Essas bruscas variações no volume de águas de um rio criam problemas para o funcionamento das turbinas das usinas hidrelétricas que, para terem um funcionamento normal, necessitam de um fluxo constante de água. É aqui que entram em cena as represas de regularização do fluxo das águas. Durante o período das chuvas, essas represas armazenam água – na época da seca, a represa passa a liberar água, mantendo assim os caudais do rio dentro dos limites operacionais das turbinas das usinas hidrelétricas. Um grande exemplo deste tipo de obra é a represa Guarapiranga, localizada na Zona Sul de São Paulo, que foi construída no início do século XX para funcionar como regularizadora das inconstantes águas do rio Tietê, que naqueles tempos acionavam as turbinas da usina hidrelétrica de Santana de Paranaíba. 

A situação de relativa comodidade da represa de Sobradinho contrasta com a situação atual das represas da calha do rio Grande, distribuídas entre o Sul do Estado de Minas Gerais e Norte de São Paulo, e também da represa de Serra Mesa, no Estado de Goiás. Esses reservatórios estão sofrendo em consequência da seca e dos baixos volumes de chuvas nas bacias hidrográficas dos seus rios formadores. Já na barragem de Sobradinho, os bons níveis de água armazenada se devem a uma boa temporada de chuvas entre o final de 2017 e início de 2018. Essas chuvas caíram com maior intensidade em áreas do Cerrado em Minas Gerais e em Goiás, em regiões que concentram os principais rios formadores do rio São Francisco. 

O importante rio São Francisco, que tem uma extensão total de 2.830 km, possui uma bacia hidrográfica que ocupa áreas de 521 municípios em 6 estados da Federação – Goiás, Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Sergipe, Alagoas e também o Distrito Federal. Apesar de ocupar uma área total de quase 640 mil km², 75% dos caudais, ou volumes de água, da bacia hidrográfica do rio São Francisco vêm de áreas de Cerrado em Goiás e Minas Gerais, o que só reforça a importância desse bioma. Foram justamente as chuvas nessas regiões na última temporada as responsáveis pela atual situação da represa de Sobradinho. 

Parte importante das águas pluviais que caem sobre o território de uma bacia hidrográfica escorre diretamente pela superfície dos solos e chega às calhas dos rios. Outra parte dessas águas infiltra nos solos e reabastece os aquíferos e depósitos subterrâneos – serão essas águas as responsáveis pela alimentação das nascentes formadoras dos rios ao longo da maior parte do ano. Em áreas de Cerrado, o processo de infiltração da água nos solos depende da presença das longas raízes da vegetação nativa. Nas áreas onde o avanço da agricultura ocupou antigas áreas de vegetação de Cerrado, esse processo de infiltração de água nos solos é bastante prejudicado, o que tem como reflexo a redução da produção de água nas nascentes e a consequente redução dos caudais dos rios.  

A redução dos caudais é hoje um dos maiores problemas do rio São Francisco, que ano após ano vem apresentando menores volumes de água na sua calha e depende muito da chegada do período das chuvas para regularizar a sua vazão. São necessárias ações ambientais em diversas frentes, focadas na recuperação de áreas florestais nas regiões de recarga do aquíferos, nas nascentes e nas áreas das margens, onde as matas ciliares são fundamentais para conter o assoreamento da calha dos rios,  

Sem esses esforços, a bacia hidrográfica como um todo ficará sempre na dependência de uma boa temporada de chuvas, algo que não acontece com regularidade ao longo dos anos.  

 

 

OS BAIXOS NÍVEIS DO RESERVATÓRIO DE SERRA MESA E A QUEDA DO VOLUME DE CHUVAS EM GOIÁS

Serra Mesa

A Usina Hidrelétrica de Serra Mesa, instalada no Alto Rio Tocantins no Estado de Goiás, possui uma potência instalada de 1,785 MW e acaba de completar 20 anos de operação, Seu reservatório possui um espelho d’água que pode atingir a marca de 1.784 km², o que o coloca como o maior depósito artificial de água doce da América Latina. Possui uma capacidade nominal para armazenar 54,4 bilhões de m³ de água, porém, há muitos anos que o nível das águas não consegue chegar nem perto dessa marca. De acordo com dados do ONS – Operador Nacional do Sistema Elétrico, a represa de Serra Mesa está hoje (28/10/2018) em 12,46%. Ao lado das represas do Rio Grande, sobre as quais falamos em postagem recente, Serra Mesa está no grupo de reservatórios com os mais baixos níveis de água armazenada de todo o sistema elétrico do país.

Todo o Centro-Oeste do país está passando por um período de forte seca nesses últimos meses e as populações da região esperam ansiosamente pela chegada de chuvas em volumes maiores e com melhor distribuição geográfica. As projeções da meteorologia, infelizmente, não são as mais animadoras – as chuvas previstas para os últimos meses deste ano ficarão abaixo da média histórica por conta da presença do fenômeno El Niño. As projeções indicam que o fenômeno climático deverá provocar áreas com chuva mais intensas nas regiões Sudeste e Sul

De acordo com estudos da SECIMA – Secretaria Estadual de Cidade, Meio Ambiente e Recursos Hídricos de Goiás, foi observada uma redução de 10% nos volumes de chuva no Estado desde 2008 – a partir de 2016, a redução foi ainda maior, chegando aos 25%. Neste período, o fenômeno El Niño  se fez presente em 4 anos, tendo  provocado redução nas chuvas em pelo menos 3 anos. Apesar dos números encontrados, os dados do estudo não permitem nenhuma conclusão sobre o assunto. Na década de 1960 também foi observado um período de 4 anos com redução contínua das chuvas no Estado, porém, as chuvas voltaram aos níveis históricos nos anos seguintes.

Entre janeiro e julho desse ano, o volume de chuvas acumulado no Estado de Goiás chegou à marca de 6.710 mm, o menor volume registrado desde de 1994, quando registrados 6.017 mm no mesmo período. Historicamente, o volume médio de chuvas nesse período é de 8.400 mm. É esse déficit hídrico que está se refletindo nas águas do reservatório de Serra Mesa e também na produção agrícola do Estado, onde afeta a produtividade das culturas de grãos e provoca atrasos no plantio de novas safras.

No último mês de março, quando o nível do reservatório de Serra Mesa apresentava um nível de 14,34%, o CNRH – Conselho Nacional de Recursos Hídricos, reduziu a vazão da usina hidrelétrica 300 m³/s para 100 m³/s, com o objetivo de recuperar o volume de água da represa. A medida foi definida como um teste, com duração de 50 dias, objetivando a garantia de um nível mínimo de água no rio Tocantins e nas represas das usinas hidrelétricas a jusante – a situação do reservatório poderia estar bem pior hoje caso essa decisão não tivesse sido tomada naquele momento. As chuvas em toda a bacia hidrográfica do rio Tocantins estão abaixo da média desde 2015, prejudicando a geração de energia elétrica, os transportes hidroviários e o abastecimento de água de várias cidades.

O baixo nível de rios e reservatórios em todo o Estado já causa preocupações em diversas cidades goianas, que ainda se recuperam da forte crise hídrica vivida em 2017. Apesar das autoridades descartarem a necessidade de medidas mais enérgicas para o controle do consumo, várias cidades já discutem a necessidade de impor um racionamento no abastecimento de água para evitar problemas maiores. Foi o que decidiu, para citar um exemplo, o Comitê da Bacia Hidrográfica do rio Meia Ponte que abastece, entre outras cidades, a Região Metropolitana de Goiânia, onde o rio é responsável por mais da metade da água fornecida para a população. No início de agosto, o Comitê decidiu pela redução dos volumes de captação de água para o abastecimento de indústrias e populações.

A chegada das chuvas nesse começo de primavera traz alguma esperança para as populações e produtores rurais do Estado de Goiás, mas a luz amarela de atenção deve se manter acesa – é preciso racionalizar ao máximo o uso de cada litro de água a fim de se evitar uma crise hídrica de consequências muito mais graves para todos. Aliás, o uso racional da água deve ser incorporado na vida e no dia a dia de todos nós brasileiros.

A SECA QUE ASSOLA DIVERSAS REGIÕES DO ESTADO DE MINAS GERAIS

Seca em Minas Gerais

Na última postagem falamos dos problemas na bacia hidrográfica do rio Grande, localizada entre o Sul de Minas Gerais e o Norte do Estado de São Paulo, onde as populações esperam ansiosamente pela chegada das chuvas mais intensas a partir desse início de primavera. A seca, porém, está causando imensas preocupações em outras regiões do Brasil, especialmente em Minas Gerais, onde a falta de chuvas já colocou mais de 100 municípios em situação de emergência. Diversos outros municípios  do Estado também anunciaram dificuldades no abastecimento devido ao baixo nível dos reservatórios. 

Nas regiões Norte, parte do Noroeste e no Vale do Jequitinhonha, regiões que estão dentro do chamado Polígono das Secas, a situação é considerada mais crítica e cerca de 78% das cidades da região estão enfrentando problemas com a seca. Segundo a EMATER-MG – Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural de Minas Gerais, cerca de 70% dos rios e córregos da região estão secos ou com níveis extremamente baixos. As chuvas nos últimos seis anos têm caído em volumes abaixo da média, não conseguindo repor os estoques hídricos da região. 

As consequências econômicas da estiagem estão sendo devastadoras para os produtores rurais da região: o número de cabeças de gado já caiu 25% desde 2012 e a área de pastagens degradadas na região já chega a marca de 87,6%. A perda de grãos na última safra foi de 85,4% e a de leite de 62%. Para piorar a situação, a falta de dinheiro tem levado o Governo Federal e Estadual a reduzir obras e serviços emergenciais de combate à seca na região. 

Os serviços de distribuição de água através de caminhões-pipa, essenciais para o abastecimento das populações, estão entre os mais prejudicados. As obras para a construção de diversas barragens, que neste momento de forte estiagem poderiam estar garantindo o abastecimento de inúmeras cidades, também sofreram interrupção por falta de verbas nos últimos anos. A represa de Jequitaí, com obras paralisadas desde 2015, é um exemplo. Projetada para armazenar até 800 milhões de metros cúbicos de água, a barragem poderia hoje estar socorrendo inúmeras cidades da região, entre elas Montes Claros, a maior cidade do Norte de Minas Gerais. 

Outra região do Estado que está sofrendo com a falta de chuvas é o Triângulo Mineiro. Em Uberlândia, a segunda cidade mais populosa de Minas Gerais, a queda do nível dos reservatórios está forçando a população a mudar seus hábitos de consumo de água – de acordo com os registros da empresa local de águas, o consumo per capita no último mês de agosto foi de 237 litros, cerca de 15 litros a menos do que a média histórica. Em Uberaba, outra importante cidade da região, o problema maior é a queda do nível do rio Uberaba, principal manancial de abastecimento. Com as dificuldades de captação no rio, o abastecimento da cidade tem sido reforçado com a transferência de águas do rio Claro, que está sendo feita através de um sistema de bombeamento recém instalado. 

Na cidade de Formiga, no Centro-Oeste do Estado, a empresa de abastecimento do município já emitiu um comunicado para que a população economize, deixando claro que a adoção de um sistema de racionamento não está descartada. Em uma outra cidade da região, Pequi, algumas residências e pontos comerciais já chegaram a ficar 3 semanas sem o abastecimento de água feito pelo serviço municipal sem maiores explicações. 

A falta de chuvas em Minas Gerais também mostra seus reflexos na queda do nível do rio São Francisco, cujas águas são responsáveis pelo abastecimento de dezenas de cidades no Estado e na região Nordeste. A vazão média do rio, que já foi de 600 m³ por segundo, atualmente mal chega aos 270 m³. Em Pirapora, um importante destino turístico as margens do rio São Francisco, o baixo nível do rio e o alto grau de assoreamento do leito tem prejudicado a captação de água pelo serviço municipal de águas e esgotos. Bairros mais distantes da área central da cidade ou em áreas mais altas sofrem com a baixa pressão da água nas tubulações. Nas áreas rurais do município, o abastecimento da população está dependendo do uso de caminhões-pipa e de poços artesianos. 

Infelizmente, as previsões da meteorologia para Minas Gerais não são as melhores neste momento: a primavera deste ano, estação que marca o início das chuvas na maior parte do Estado, terá poucas chuvas e calor acima da média. O principal responsável por essa previsão desanimadora para os mineiros é o fenômeno climático El Niño que este ano, apesar da fraca intensidade, deverá causar uma série de distorções no clima mundial. Além de reduzir a quantidade de chuvas, o El Niño poderá provocar uma má distribuição das precipitações, o que poderá agravar ainda mais os problemas provocados pela seca em várias regiões de Minas Gerais. 

Além de esperar pela chegada das chuvas, as autoridades dos diversos níveis do Governo precisam concentrar esforços para que se consiga, ao menos, regularizar os serviços de distribuição de água nas regiões em situação mais crítica, além de retomar e acelerar obras de combate à seca. Uma outra frente importante de ações tem relação com a recomposição de matas em áreas de nascentes e nas margens dos rios – a presença dessas vegetações é fundamental para a recarga dos aquíferos e das nascentes de água, além de evitar o agravamento do assoreamento das calhas de importantes rios do Estado, como o São Francisco. 

Nesses novos tempos em que alterações nos padrões climáticos do planeta estão provocando mudanças e surpresas que a ciência ainda não compreende perfeitamente, precisamos nos esforçar ao máximo para recuperar parte dos estragos que já fizemos ao meio ambiente. A intensificação da seca já observada em várias partes do mundo, inclusive aqui no Brasil, é um sinal de alerta do que ainda poderá acontecer a todos nós. 

A SECA NO ”MAR DE MINAS”, OU FALANDO DO RIO GRANDE

Furnas

O reservatório da Usina Hidrelétrica de Furnas é o maior espelho de águas de Minas Gerais, um dos muitos Estados brasileiros que não possui fachada oceânica. Ocupando uma superfície total de 1.400 km², mais de três vezes maior do que a área da Baía da Guanabara, e com um perímetro de mais de 3 mil km, o lago de Furnas passou a ser considerado como o “Mar de Minas”. Banhando terras de 34 municípios mineiros, o lago começou a sair do papel em 1957, após o início das obras de construção da Usina Hidrelétrica de Furnas (vide foto), inaugurada 6 anos depois.

Rapidamente, o Lago de Furnas se tornou um dos grandes destinos turísticos do Estado, apresentando águas tranquilas para o banho, prática de esportes, pesca e navegação. Como se tudo isso ainda fosse pouco, as margens do lago apresentam inúmeros canyons (cuja palavra equivalente em português é canhão), grutas e cachoeiras. Furnas é, na fala popular do povo mineiro, “tudo de bão“. 

Infelizmente, desde o ano 2000, o lago de Furnas vem enfrentando sistemáticos períodos de seca, com a queda do nível de suas águas batendo recordes sucessivos de baixa. Neste ano de 2018, a situação não tem sido diferente – hoje (24/10/2018), segundo dados do ONS – Operador Nacional do Sistema Elétrico, o nível do lago de Furnas está com 15% da sua capacidade. O lago de Furnas não está enfrentando sozinho esta situação crítica – outros reservatórios de usinas hidrelétricas do Rio Grande também estão com níveis extremamente baixos: Marimbondo está com menos de 20% de sua capacidade; Mascarenhas de Moraes está com 13% e Água Vermelha com pouco mais de 10%

O rio Grande tem 1.360 km de extensão desde de suas nascentes na Serra da Mantiqueira até a foz no Paranaíba, rio com o qual se junta para formar o rio Paraná. Suas águas movimentam as turbinas geradoras de 12 usinas hidrelétricas, que juntas respondem por 25% da capacidade instalada do Subsistema Elétrico Sudeste/Centro-Oeste. A bacia hidrográfica do rio Grande ocupa uma área total de 143 mil km², englobando áreas dos Estados de São Paulo e de Minas Gerais – o rio, inclusive, marca um longo trecho da divisa entre esses dois Estados. 

Os volumes de águas armazenadas nos reservatórios do rio Grande, em valores percentuais, estão entre os mais baixos de todo o Sistema Elétrico Brasileiro, uma fonte de preocupação para as autoridades do setor neste período de volta das chuvas. Seria necessária a chegada de um período de chuvas excepcionalmente acima da média para garantir a recuperação do nível dos reservatórios a valores considerados seguros, uma previsão que até agora não foi confirmada pelos meteorologistas. Os baixos caudais do rio Grande, entretanto, não preocupam apenas as autoridades do setor energético do país – essas águas também são fundamentais para o abastecimento de dezenas de cidades, indústrias e importantes regiões de produção agrícola e agropecuária. 

Nos municípios da região de entorno do lago de Furnas, o baixo nível das águas afeta com extrema gravidade um importante setor econômico: o turismo. Dados não oficiais chegam a falar de quedas que beiram a casa dos 50% em atividades ligadas ao setor em alguns municípios. Essas perdas se concentram nos segmentos de hotelaria e hospedagem, alimentação, comércio, prestação de serviços em áreas ligadas ao turismo, entre outras.  

Uma outra área que está sofrendo bastante com a situação do lago é o setor de navegação. Após o enchimento de Furnas, diversas estradas vicinais da região ficaram submersas e a interligação entre muitas cidades passou a ser feita através de balsas. Com a baixa das águas do reservatório e com o recuo das margens, diversos trechos navegáveis deixarem de ser operacionais e a comunicação entre essas cidades passou a ser feita por via terrestre, através de caminhos muito mais longos, com viagens muito mais demoradas. 

Os problemas enfrentados por outras duas atividades, que normalmente não são lembradas nesses momentos de crise, resumem a situação do lago de Furnas: a venda de imóveis e a piscicultura. Após a formação do grande lago, as terras de suas margens sofreram uma grande valorização – muita gente dessa região interiorana passou a sonhar com a construção de uma bela casa ou de uma pousada com vistas para o reservatório e também com o lazer em atividades esportivas nos clubes náuticos que surgiram por toda a orla do lago de Furnas. Com as sucessivas secas no lago, esses imóveis e terras chegaram a perder metade do seu valor de mercado.  

No caso da piscicultura, os problemas estão ligados ao recuo contínuo das águas, que faz com que os cercados dos peixes fiquem secos e precisem ser reconstruídos em outros locais, onde o nível da água ainda esteja alto. A produção de peixes no lago de Furnas, que já atingiu a marca de 1,6 mil toneladas ao ano, não para de cair. Em maior ou menor escala, os problemas vividos pelo lago de Furnas se repetem ao longo de todo o curso do rio Grande e em seus diversos reservatórios. A esperança de todos se resume à expectativa de uma boa temporada de chuvas

Um lembrete final: a maior parte da bacia hidrográfica do rio Grande se encontra em antigas áreas de domínio do Cerrado que, conforme apresentamos em uma série de postagens anteriores, é um dos biomas mais devastados de nosso país. Além da falta de chuvas, parte dos problemas do rio Grande pode ser creditado a essa destruição – o Cerrado é considerado o “berço das águas do Brasil“;

 

AS HIDROVIAS, AS CHUVAS E OUTROS PROBLEMAS PARA A NAVEGAÇÃO

Obras na Hidrovia Tietê-Paraná

Como é clichê em textos que falam da importância dos recursos hídricos, inclusive nos meus, “a água é uma das substâncias mais importantes do planeta e é um elemento essencial para a existência de todas as formas de vida”. Se você fizer uma pesquisa nas publicações deste blog, vai encontrar textos que falam do abastecimento de cidades e populações, poluição das águas, agricultura, geração de energia, secas e enchentes, transportes hidroviários, meteorologia entre muitos outros. O tema rende muitos tipos de assuntos diferentes. 

Na última postagem falamos rapidamente sobre a queda do nível do rio Tietê neste período de seca e dos riscos de paralisação da hidrovia Tietê-ParanáDurante a crise hídrica que assolou o Estado de São Paulo e parte da região Sudeste entre 2014 e 2015, a queda no nível do rio Tietê e de outros rios da região levou à paralisação dessa hidrovia por cerca de 20 meses, causando prejuízos da ordem de R$ 1 bilhão para as empresas de transporte; cerca de 1.600 profissionais ligados a essas empresas perderam seus empregos, além de outros milhares de profissionais ligados aos diversos segmentos produtivos que se utilizavam na época dessa via de transporte e que reduziram suas atividades.

A utilização do modal de transportes hidroviários no Brasil ainda está engatinhando no país – menos de 2% das nossas cargas são transportes pelos rios. Além da falta de obras de infraestrutura de todo o tipo, que vão desde portos e terminais de carga a sistemas de sinalização dos canais navegáveis, a operação das hidrovias sempre terá uma imensa dependência das condições climáticas – chuvas na época certa e em bons volumes sempre serão essenciais; a depender da região do mundo onde se encontra essa hidrovia, ao invés de chuva falaríamos de neve: a chuva e a neve são as duas principais formas de precipitação da água sobre a superfície do planeta. Se você ainda se lembra do Ciclo das Águas ensinado ainda nos primeiros anos escolares, é a energia do sol que provoca a evaporação de grandes volumes de água dos oceanos (esse volume é calculado em 383.000 km³ a cada ano) – esse vapor é espalhado por toda a superfície do planeta pelos ventos e cai sobre os solos na forma de chuva, neve, granizo, neblina, orvalho etc. 

Devido às mudanças nas estações do ano, onde se alternam épocas de seca e de chuvas (ou de calor e de frio com neve dependendo da região), os rios irão apresentar variações consideráveis em seus níveis. O Amazonas, o maior rio do mundo em volume de água, é um grande exemplo dessas mudanças: entre os períodos de cheia e de vazante, o nível das águas poderá sofrer variações médias de mais de 15 metros. Em 2005, quando toda a região Amazônica passou por uma seca anormal, alguns trechos do rio atingiram a inacreditável profundidade de 0,3 metro. Em situações extremas como essa, não há nada que se possa fazer para garantir as operações de navegação hidroviária. Além das essenciais chuvas, existem muitos casos onde realização de obras de infraestrutura podem ajudar a manter a segurança e as operações de navegação em momentos críticos. Vamos citar alguns exemplos: 

Na hidrovia Tietê-Paraná em São Paulo, existem vários trechos onde o canal de navegação apresenta profundidades máximas de 5,5 metros. Em épocas de forte estiagem, com a queda do volume de água no rio Tietê, muitos desses trechos passam a apresentar profundidades extremamente reduzidas, expondo as barcaças de transporte de cargas a riscos de encalhe. Além desse problema, existem várias formações rochosas no fundo do rio que “afloram” nos períodos de seca e que podem provocar acidentes mais graves com as embarcações. Para minimizar os riscos para a navegação, o Departamento Hidroviário de São Paulo está realizando obras que permitirão o aumento da profundidade nesses trechos críticos para 7,5 metros (vide foto). As obras deverão estar concluídas no final de 2019, com um custo estimado em R$ 203 milhões. 

Uma outra importante hidrovia que tem problemas sérios com afloramentos rochosos e baixa profundidade em um dos seus trechos é a Tocantins-Araguaia. No Sul do Estado do Pará, nas proximidades da cidade de Itupiranga, existe uma grande formação geológica que se estende por um trecho de 43 km do rio Tocantins. Conhecida popularmente como o Pedral do Lourenço, essa formação é um dos principais obstáculos para o pleno funcionamento da hidrovia Tocantins-Araguaia. Mesmo durante o período das chuvas, quando o nível das águas fica muito alto, algumas pedras ficam acima da superfície das águas e somente embarcações pequenas e com tripulações experientes se arriscam a atravessar esse trecho. Há vários anos, o Governo do Estado do Pará e órgãos do Governo Federal vêm tentando viabilizar a contratação de empresas de engenharia para a realização de obras para a construção de um canal de navegação nesse trecho do rio, porém, várias irregularidades levaram ao cancelamento de sucessivas licitações públicas. 

Problemas desse tipo não são uma exclusividade do Brasil – a hidrovia do rio Reno, uma das mais importantes e movimentadas da Europa, durante séculos apresentou problemas de navegação em um trecho do rio no Sul da Alemanha. Um grande afloramento rochoso em uma curva do rio Reno reduzia o canal de navegação nos períodos de seca para menos de 20 metros de largura. Inúmeros naufrágios e mortes de marinheiros foram registrados no local ao longo da história. No folclore popular da Alemanha, surgiu a lenda de uma sereia, Die Lorelai, que morava nessas rochas e que hipnotizava os barqueiros com seu canto. O problema só foi solucionado às vésperas do início da II Guerra Mundial, quando engenheiros do exército alemão realizaram sucessivas detonações das rochas, liberando o canal de navegação para o transporte de suprimentos e materiais militares durante todo o ano. 

Se até na organizada Alemanha problemas nas hidrovias demoraram a ser resolvidos, quem dirá em terras brasileiras… 

A HIDROVIA TIETÊ-PARANÁ E A TORCIDA POR BOAS CHUVAS

Eclusa de Barra Bonita

O transporte hidroviário no Brasil está muito aquém da capacidade potencial proporcionada pela imensa rede de rios do país. Calcula-se que o potencial de rios navegáveis em terras brasileiras é da ordem de 29 mil km, porém, apenas uma fração dessas vias navegáveis é efetivamente utilizada – menos de 2% do volume de cargas do país utiliza esse modal, enquanto perto de 60% das cargas continuem sendo transportadas por caminhões. Nunca é demais relembrar: um único comboio de barcaças de carga pode substituir até 200 caminhões, com um consumo menor de combustíveis, menor poluição e uma eficiência muito maior. 

Um dos melhores exemplos da eficiência dos transportes hidroviários no Brasil é a Hidrovia Tietê-Paraná, que tem aproximadamente 2.400 km de extensão, sendo 1.800 km de curso navegável no rio Paraná e cerca de 800 km no rio Tietê. São transportadas atualmente 5 milhões de toneladas de cargas a cada ano na hidrovia, que se destaca por possuir a melhor infraestrutura do país. Entre as principais cargas transportadas destacam-se a soja e farelo de soja, óleos comestíveis, milho, cana, fertilizantes. madeiras e calcário agrícola

Apesar de atender algumas das regiões de maior desenvolvimento econômico do país, o volume de cargas transportados pela Hidrovia Tietê-Paraná corresponde a pouco mais de 1% do volume de cargas transportados anualmente na hidrovia dos rios Mississipi-Missouri-Ohio nos Estados Unidos. Caso essa comparação inclua a Hidrovia Dourada da China, por onde circulam perto de 2 bilhões de toneladas de carga a cada ano, perdemos de goleada: a tonelagem de cargas da equivalente brasileira equivale a meros 0,25%.  

Apesar de todo o potencial natural dos rios brasileiros, faltam pesados investimentos em infraestrutura hidroviária, onde se incluem portos, terminais de carga, sinalização das vias navegáveis e, especialmente, em sistemas de controle do nível dos rios. Durante o período das chuvas, os rios costumam apresentar bons volumes de água em seus leitos e garantem condições ideais para a navegação das barcaças de carga; já na época da seca, muitos dos nossos rios apresentam uma queda vertiginosa no nível de água e apresentam bancos de areia e/ou formações rochosas do fundo do seu leito, obstáculos que criam risco ou impedem a navegação. A construção de represas para regularização do volume de águas em períodos de seca ou de barragens com eclusas, são alguns dos mecanismos que permitem garantir a navegação nos rios pela maior parte do ano. 

Mas esses não os únicos problemas para a navegação hidroviária aqui no Brasil: o uso dos rios para a geração de eletricidade é outra fonte importante de conflitos. Muitos rios e trechos de rios só se tornaram ideais para a navegação por longos trechos após a construção de barragens de usinas hidrelétricas. O rio Tietê, no Estado de São Paulo, é um desses casos. No passado, a calha do rio possuía inúmeros trechos com fortes correntezas, afloramentos rochosos e quedas d’água, o que dificultou muito, mas não impediu, que o rio se transformasse na principal via de acesso aos sertões profundos do Brasil no passado. 

Ao longo das últimas décadas, foram construídas várias usinas hidrelétricas ao longo do rio Tietê, empreendimentos que garantiram o fornecimento contínuo de eletricidade para o Estado de São Paulo. Como uma espécie de “efeito colateral”, as barragens dessas usinas hidrelétricas “acalmaram” a fúria de vários trechos do rio. Um exemplo foi o alagamento do Salto do Avanhandava, que desde os tempos dos primeiros bandeirantes paulistas era considerado o maior obstáculo para a navegação no rio Tietê. Depois do enchimento da represa, o trecho de águas rápidas e traiçoeiras acabou transformado em um espelho de águas tranquilas. 

A Hidrovia Tietê-Paraná foi o resultado de um projeto iniciado há cinquenta anos atrás, quando a primeira eclusa do rio Tietê foi construída em Bariri em 1968. Eclusas são dispositivos que permitem que as embarcações de passageiros ou de carga superem obstáculos físicos como as barragens de represas, trechos com corredeiras ou quedas de água, funcionando como um elevador que sobe e desce. Ao longo da hidrovia Tietê-Paraná existem 10 eclusas, sendo 6 no rio Tietê, nas barragens de Barra Bonita (vide foto), Bariri, Ibitinga, Promissão e Nova Avanhandava, e 4 eclusas no rio Paraná, nas barragens de Três Irmãos, Jupiá e Porto Primavera. As eclusas, porém, não fazem milagres – as represas precisam apresentar um nível de água mínimo para permitir a passagem das embarcações pelas eclusas e pelos muitos canais de navegação. 

Como as barragens de usinas hidrelétricas de outras regiões do Brasil estão com volumes de água extremamente baixos, a geração de energia elétrica em outras regiões precisou ser aumentada, a fim de atender a demanda do país. Por essa razão, as usinas do rio Tietê vêm trabalhando a plena carga. Com essa maior geração de energia elétrica, há uma necessidade maior de água e o nível das barragens paulistas do rio Tietê passaram a cair muito ao longo desse ano, o que colocou a navegação na hidrovia em sinal “amarelo”. Nos últimos meses, várias empresas que operam com o transporte de cargas na hidrovia Tietê-Paraná optaram por reduzir o calado das barcaças (medida que indica a profundidade máxima do fundo da embarcação em relação à linha d’água) de 3,0 para 2,8 metros, como uma medida de segurança para evitar o encalhe de embarcações. 

Durante a crise hídrica que assolou grande parte do Estado de São Paulo nos anos de 2014 e 2015, o nível do rio Tietê atingiu níveis extremamente baixos e as operações na hidrovia foram interditadas por 20 meses, só voltando a funcionar completamente em 2016Essa paralisação da hidrovia Tietê-Paraná causou um prejuízo estimado de R$ 1 bilhão às empresas de navegação e provocou o fechamento de 1.600 postos de trabalho. Esse é um trauma que assola até hoje os operadores de carga, que torcem como ninguém para uma boa temporada de chuvas. 

As chuvas já estão voltando a cair em toda a região Centro-Sul do país nesse começo de primavera e todos torçamos juntos para que venha com grandes volumes. 

O RIO PARAÍBA DO SUL E O ABASTECIMENTO DA REGIÃO METROPOLITANA DO RIO DE JANEIRO, OU A VELHA DISPUTA PELA ÁGUA

Represa do Jaguari

O rio Paraíba do Sul não tem a grandiosidade do rio Amazonas, nem a capacidade de integração nacional do rio São Francisco. É um rio bastante discreto, sendo formado pela junção das águas de pequenos rios com nascentes nas montanhas da Serra do Mar, no Estado de São Paulo. Em tempos geológicos distantes, ele era um dos muitos afluentes formadores do Tietê. Graças ao afundamento de um grande bloco de rochas por forças tectônicas, o que resultou na atual configuração física do Vale do Paraíba, o rio  mudou o seu curso para o Norte e depois para o Leste, passando a correr na direção do Rio de Janeiro, onde se tornou o mais importante curso d’água do Estado. No seu caminho em direção ao Oceano Atlântico, o rio delimita grande parte da divisa entre os Estados do Rio de Janeiro e Minas Gerais. 

Apesar de ser considerado o 5° rio mais poluído do Brasil, o Paraíba do Sul é o responsável pelo abastecimento de inúmeras cidades e de uma população superior a 16 milhões de habitantes, especialmente no Estado do Rio de Janeiro. Um grande sistema construído para a transposição de parte das águas do rio Paraíba do Sul para fins de geração de energia elétrica no Rio de Janeiro, acabou resolvendo um grande problema de abastecimento da grande Região Metropolitana do Estado. São essas águas, que chegam na região da Baixada Fluminense através do rio Guandu, que respondem por 85% das necessidades de consumo de cariocas e fluminenses. As águas do rio Paraíba do Sul se tornaram imprescindíveis (e insubstituíveis) para a população do Estado do Rio de Janeiro. 

Existem quatro grandes reservatórios que armazenam e regularizam a vazão das águas do rio Paraíba do Sul. Um desses reservatórios é a represa da Usina Hidrelétrica do Funil, em Itatiaia no Estado do Rio de Janeiro, que recebe as águas do rio Paraíba do Sul através de um sistema de reversão das águas do rio Piraí. No último mês de setembro, a represa do Funil viu seu nível diminuir em 10%, passando de um volume de 37,9% para cerca de 28,4%. Dentro das médias históricas, o nível da represa deveria estar próximo dos 50%

Os outros três reservatórios do rio Paraíba do Sul ficam dentro do Estado de São Paulo – são as represas de Paraibuna, Santa Branca e Jaguari. Observando-se os níveis de armazenamento de água desses reservatórios, percebemos que a margem de segurança do sistema de abastecimento da Região Metropolitana do Rio de Janeiro não está muito confortável. O reservatório da Usina Hidrelétrica de Paraibuna, chamada por muitos de “a caixa d’água do Vale do Paraíba”, hoje (21/10/2018) está com menos de 22% da sua capacidade de armazenamento. A represa do Jaguari (vide foto), também utilizada para a geração de energia elétrica, somente entre os meses de julho e agosto, teve seu nível reduzido de 47,34% para 35,70% – no mesmo período, a represa de Santa Branca perdeu cerca de 15% do seu volume armazenado

Essa situação crítica, que poderia ser colocada dentro de uma relativa normalidade para o período das secas, tem um componente explosivo, que está acirrando o ânimo de muita gente: no último mês de março, foi iniciada a polêmica transposição de águas entre as represas Jaguari e Atibainha. Após a violenta crise hídrica dos anos de 2014/2015, que colocou o Sistema Cantareira no volume morto e que obrigou as populações das Regiões Metropolitanas de São Paulo e de Campinas a um fortíssimo “racionamento de água disfarçado”, as autoridades Estaduais entenderam que era preciso aumentar a segurança hídrica do Sistema. O Governo do Estado de São Paulo, através dos seus órgãos de água e energia, e a Sabesp, empresa estadual de saneamento, levaram adiante o projeto de construção de um sistema de transposição que permite a transferência de águas da bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul, retirada da represa do Jaguari, para o rio Atibainha, formador da represa homônima no Sistema Cantareira. 

A obra, que foi concluída em janeiro de 2018, permite a transferência de até 8.500 litros de água por segundo na direção do Sistema Cantareira e de até 12.200 litros por segundo no sentido inverso. Uma das premissas do projeto é que, a depender dos volumes de água armazenados nas duas represas, a água excedente será transferida para a outra represa em caso de situação crítica. No mês de maio foi iniciada a transferência de água pela Sabesp no sentido Jaguari-Atibainha, fazendo-se valer a quota de água do rio Paraíba do Sul a que o Estado de São Paulo tem direito e que foi autorizada na outorga do sistema. 

Tudo funcionava bem até que, cerca de 20 dias após o início do bombeamento, o nível da represa Jaguari baixou cerca de quatro metros e muita gente começou a jogar a culpa dessa brusca redução no bombeamento de águas para a represa do Atibainha. Em sua defesa, a Sabesp, empresa que opera o sistema de bombeamento, alegou que o volume retirado da represa do Jaguari não seria suficiente para provocar uma queda de nível tão grande e disse que a geração de energia elétrica usa uma média de 40 mil litros de água por segundo. Outros órgãos públicos como o ONS – Operador Nacional do Sistema Elétrico, DAEE – Departamento de Águas e Energia Elétrica do Estado de São Pulo e a CESP – Centrais Elétricas do Estado de São Paulo, responsável pela operação das usinas hidrelétricas do rio Paraíba do Sul, tiraram o corpo fora e disseram que não tem nada a ver com esse problema. 

Com a queda brusca nos níveis de água nessas represas e com a grande dependência do Estado do Rio de Janeiro em relação as águas do rio Paraíba do Sul, essa briga, que por enquanto envolve apenas as represas de Jaguari e do Atibainha, tem combustível para reacender a velha disputa regional por essas águas entre São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Relembrando, essa disputa já havia sido apaziguada por decisão do STF – Superior Tribunal Federal em 2015. 

Torçamos todos por uma boa temporada de chuvas no Vale do Paraíba e por solução amigável para esse novo conflito. 

EL NIÑO E LA NIÑA: “LOS CHICOS MALOS” (AS CRIANÇAS MALVADAS)

Inundação no Metrô

A chegada da primavera na Região Centro-Sul do Brasil marca o início da esperada estação das chuvas, um período fundamental para todas as populações. Nas áreas rurais, onde as atividades agropecuárias são a base da economia, as chuvas são fundamentais para a época do plantio de uma nova safra. Nas cidades, que dependem das águas das chuvas para recompor os estoques dos reservatórios e fontes de abastecimento, esse período de águas é sempre bem-vindo, apesar dos muitos transtornos provocados pelas enchentes e alagamentos. Para a vida silvestre, a temporada de chuvas é uma fase de renascimento da vida. 

Apesar da previsibilidade da chegada das chuvas com o início da primavera, as populações sempre observaram que ocorriam variações nos volumes de chuvas – em alguns anos, as chuvas caíam em excesso; já em outros, as chuvas rarearam e extensas áreas sofriam muito com a seca. Foi somente em décadas recentes, após intensos estudos climáticos e meteorológicos em todo o planeta, que parte do mecanismo que provoca essa variação nos padrões das chuvas começou a ser desvendado: os pesquisadores perceberam um aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico em alguns anos; em outros anos, o que se observou foi um resfriamento anormal dessas águas. Esses fenômenos foram batizados de El Niño (o menino) e La Niña (a menina). 

Nos anos em que o fenômeno El Niño é detectado nas águas do Oceano Pacífico, são registradas uma série de alterações climáticas em todo o mundo. Em 2015, o surgimento de um forte El Niño prejudicou lavouras de cacau, chá e café em toda a Ásia e África. Também provocou uma forte seca no Sudeste Asiático, favorecendo o surgimento de vários incêndios florestais. Naquele ano também se observou o inverno mais quente já registrado nos Estados Unidos. Na América do Sul, o surgimento do El Niño pode resultar em períodos de seca na região Centro-Norte e de maior umidade na região Sul, Na Argentina, o fenômeno tende a provocar chuvas mais intensas. 

Quando o fenômeno La Niña é observado no Oceano Pacífico, as águas superficiais de uma extensa região apresentam uma redução média entre 2 e 3° C na sua temperatura. Nesses anos de ocorrência de La Niña, costuma se observar, entre os meses de dezembro e fevereiro, um aumento das chuvas na região Nordeste e temperaturas abaixo do normal na região Sudeste. O fenômeno também provoca um aumento do frio na costa Oeste dos Estados Unidos e no Japão, além de aumento das chuvas na costa Oeste da Ásia. 

Entre os meses de junho e agosto, a presença de La Niña costuma produzir um inverno mais seco nas regiões Sul e Sudeste do Brasil. Também pode interferir na temperatura da costa Oeste da América do Sul, reduzindo as temperaturas. Na região do Caribe, La Niña provoca uma redução na temperatura e um aumento das chuvas. No Leste da Austrália e no Leste da Ásia se observa um aumento das temperaturas. 

A ocorrência do fenômeno La Niña varia muito. Sua frequência ocorre em intervalos de 2 a 7 anos, com uma duração de 9 a 12 meses – em alguns casos, pode ter uma duração de até 2 anos. O El Niño têm uma frequência tão irregular quanto a da La Niña, ocorrendo também em intervalos de 2 a 7 anos, porém, com uma duração de 10 a 18 meses. 

No seu último relatório divulgado, a NOAA – Administração Oceânica e Atmosférica Nacional, na sigla em inglês, órgão do Governo dos Estados Unidos, elevou de 70 para 75% as chances de ocorrência de um El Niño nos próximos meses. Em seus estudos e análises dos padrões climáticos, a NOAA utiliza um sofisticado conjunto de satélites meteorológicos e também de sensores instalados em bóias espalhadas por oceanos e estações meteorológicas em diferentes pontos dos continentes de todo o mundo. Os dados observados são processados em supercomputadores, que geram modelos matemáticos com as projeções climáticas para todo o mundo. Até o início deste ano, a NOAA trabalhava com uma expectativa neutra para a ocorrência do fenômeno El Niño, porém, com o passar dos meses, os dados disponíveis passaram a indicar a ocorrência de um fenômeno “fraco” no período 2018/2019. 

Apesar dessa “fraca” intensidade, o fenômeno poderá causar uma série de alterações no clima de diferentes partes do mundo. Aqui no Brasil, a provável chegada dos efeitos do El Niño coincidirá com a época do início do plantio de importantes culturas como a soja, milho, arroz e feijão. A possibilidade de ocorrências de chuvas acima da média, que costumam estar associadas ao El Niño, poderá criar sérios problemas para os agricultores. No período entre 2015 e 2016, um forte El Niño causou vários transtornos climáticos em diferentes regiões do Brasil, entre eles uma intensificação da seca que já assolava o Semiárido Nordestino, estiagem prolongada em regiões de Minas Gerais, Goiás e Distrito Federal, além de fortes chuvas e inundações na região Sul. 

Nesse começo de primavera, já estamos observando a ocorrência de fortes chuvas em várias regiões do Sul e Sudeste. Exemplos foram as intensas chuvas que causaram grandes inundações no Rio Grande do Sul e as fortes tempestades que já caíram na Região Metropolitana de São Paulo. Inclusive, no dia de ontem (17/10/2018), a Zona Sul da cidade de São Paulo sofreu fortemente com as chuvas. Além dos transtornos de sempre como enchentes, alagamentos localizados (que sempre ocorrem nos mesmos lugares e não há qualquer providência do poder público em eliminá-los), quedas de árvores e falta de energia elétrica, duas estações recém inauguradas da Linha Lilás do Metrô paulistano tiveram suas plataformas “inundadas” (vide foto), algo inédito na história desse sistema de transportes. Além das prováveis falhas no projeto e execução dessas estações do Metrô, o incidente mostra como os efeitos de mudanças nos padrões climáticos podem ser danosos para muita gente.

Como as consequências do humor muito particular dessas duas “crianças” são bem imprevisíveis, nós precisamos ficar de olho em tudo o que acontece, na expectativa que os estragos sejam bem menores do que em anos anteriores e que resultem também em  algumas notícias positivas para muitas regiões. 

REPRESA GUARAPIRANGA: UMA PEQUENA NOTÁVEL, OU A “PRAIA DOS PAULISTANOS POBRES”

Guarapiranga

Na última postagem falamos da situação trágica em que se encontra a represa Billings, o maior manancial da Região Metropolitana de São Paulo. De represa criada para a geração de energia elétrica na década de 1930 até a situação atual, quando se parece mais com uma grande fossa a céu aberto, foi um longo caminho, que até agora não encontrou seu “final feliz”. 

É impossível falar dos problemas da represa Billings sem ao menos citar a Guarapiranga, represa vizinha, separada apenas por um espinhaço de pequenos morros. Apesar da história das duas represas ter origens diferentes, as duas compartilham dos mesmos problemas: ocupação de áreas de mananciais por loteamentos irregulares, produção e despejo de grandes quantidades de esgotos in natura nas suas águas pelos muitos bairros clandestinos, carreamento de lixo e de entulhos despejados nas margens de córregos ou da própria represa, entre outros problemas. 

A Guarapiranga, chamada originalmente de represa de Santo Amaro, é um espelho d’água pequeno, com pouco mais de 26 km², encravada totalmente na Zona Sul da Cidade de São Paulo. Ela teve as suas obras principais concluídas em 1908 e foi concebida para regularizar a vazão do rio Tietê, cujas águas estavam sendo utilizadas desde o final do século XIX para acionar as turbinas da Usina Hidrelétrica de Santana de Parnaíba. A Usina enfrentava problemas com as vazões irregulares do Rio Tietê, que alternava cheias nos períodos de chuva e baixíssimas vazões nos períodos de seca. Com a construção da represa Guarapiranga, a água das chuvas de verão era acumulada e, quando chegava o período da seca, as comportas eram abertas e a água seguia primeiro pelo rio Pinheiros, atingindo depois o canal do rio Tietê. 

A escolha pela região de Santo Amaro deveu-se ao relevo dos acentuados contra fortes da Serra do Mar, com grande precipitação de chuvas e garantia de boa vazão nos rios da região, especialmente nos cursos do Guarapiranga, nome de origem tupi que significa “guará vermelho”, Embu-Guaçu e Embu-Mirim, nomes também de origem tupi que significam “cobra grande” e “cobra pequena”, respectivamente. Santo Amaro era, na época, uma pequena cidade fortemente rural, o que barateou imensamente os custos de desapropriação das chácaras na região de formação da represa. 

Com o crescimento da cidade de São Paulo e a necessidade de ampliar o estoque de água para o abastecimento urbano, a partir de 1928 a represa Guarapiranga foi promovida a manancial para o abastecimento de água potável. Apesar dessa promoção, a região de entorno da represa não recebeu nenhuma atenção especial das autoridades no sentido da preservação das áreas verdes e das nascentes dos rios e córregos que alimentam o reservatório. Nenhuma legislação ou política de ocupação racional dessa região de mananciais foi definida e/ou implantada pela municipalidade ou Governo estadual.

Com a Região Metropolitana de São Paulo passando por um forte crescimento industrial a partir da década de 1940, milhares de imigrantes passaram a buscar na cidade emprego e uma melhor perspectiva de vida. Começou então um processo de “fabricação em massa de loteamentos populares”. Grandes áreas verdes que existiam por toda a cidade passaram a ter sua vegetação derrubada e lotes e ruas eram demarcados. Na Zona Sul de São Paulo, a cobiça dos loteadores (muitos desses trabalhando de forma clandestina), não tardou a chegar nas áreas de mananciais nas regiões de entorno da represa Guarapiranga. Esses loteamentos tiveram início na década de 1950 e, acreditem ou não, continuam ocorrendo até hoje. 

As autoridades calculam que uma população superior a 800 mil pessoas viva atualmente nas áreas dos mananciais formadores da represa Guarapiranga. Considerando-se a população que ocupa as áreas de entorno e de mananciais da represa Billings, esse número vai atingir a marca de 1,6 milhão de pessoas. Calcula-se que 40% das moradias nessas regiões são irregulares, o que significa que são bairros com infraestrutura das mais precárias, especialmente no que diz respeito a rede coletora de esgotos. A legislação brasileira proíbe o gasto de dinheiro público na realização de obras em áreas com situação fundiária irregular, especialmente quando se tratam de invasões de terrenos de particulares.  

Para resolver seus problemas mais imediatos, os moradores se reúnem e fazem eles mesmos redes de esgotos improvisadas, que vão acabar lançando efluentes nos córregos e rios que alimentam a represa. De acordo com dados das Prefeituras da região, existem aproximadamente 444 loteamentos irregulares nas regiões de mananciais das represas Billings e Guarapiranga. Somente nos últimos 5 anos, foram registradas mais de 75 invasões de áreas na região, agregando mais 10 mil habitantes a já grande população local. A densidade habitacional na região é calculada em 500 habitantes por km². Na cidade de Nova York, para efeito de comparação, a população máxima admitida nas áreas de mananciais dos reservatórios é de 19 habitantes por km²

Mesmo sofrendo com os grandes volumes de esgotos in natura e de lixo que chegam até as suas águas (fortes tempestades caíram hoje na região de Santo Amaro e uma grande parte do lixo jogado nas ruas e terrenos da região acabarão sendo carreados para a represa), a Guarapiranga fornece 20% da água usada no abastecimento da Região Metropolitana de São Paulo – são 4 milhões de pessoas que dependem das suas águas. Durante a crise hídrica que fez secar o Sistema Cantareira entre 2014 e 2015, a represa Guarapiranga, heroicamente, passou a responder pelo fornecimento de até 50% da água usada no abastecimento da Região Metropolitana de São Paulo – apesar dos seus valorosos serviços, muito pouco foi feito depois disso para melhorar a situação ambiental da represa. 

Assim como acontece na Billings, a chegada das chuvas representa um período de alívio para a represa Guarapiranga. Os grandes volumes de água que chegam ao espelho d’água ajudam na recuperação do seu nível e contribuem para a melhoria da qualidade das suas águas, diluindo o volume de esgotos. Isso é muito bom – com o verão chegando, a Guarapiranga acabará transformada em uma “praia para os pobres”, recebendo diariamente até 10 mil banhistas

Enquanto dias melhores não chegam, pelo menos o banho refrescante e o bronzeamento dessa gente nas águas e margens da Guarapiranga estão garantidos.