GUANDU: A LENTA AGONIA DE UM RIO FLUMINENSE

Rio Guandu

A poucos dias do início dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, as imagens da poluição da Baia da Guanabara ocupam grandes segmentos das coberturas jornalísticas em todo o mundo e há grande preocupação das autoridades locais e do COI – Comitê Olímpico Internacional, sobre os problemas que serão acarretados às competições de vela a serem disputados no mar. Um retrato destes problemas foi mostrado poucos dias atrás pela reportagem de um canal de TV, quando o barco de duas velejadoras olímpicas bate contra os restos de um velho televisor que flutuava em meio ao lixo nas águas da Baia da Guanabara. Imagine-se tal imagem durante as competições da Olimpíada…

Sem querer minimizar o problema, que somado a tantos outros que têm grande potencial de denegrir a imagem da cidade do Rio de Janeiro e do Brasil, há um outro importante corpo d’água no Estado em situação muito mais precária e de importância vital para 10 milhões de pessoas, que pede desesperadamente por um pouco mais de atenção – estou falando do Rio Guandu.

Esse ilustre desconhecido da maioria dos brasileiros que não mora no Estado do Rio de Janeiro é o responsável pelo abastecimento de água em nove municípios da Região Metropolitana: Rio de Janeiro, Nova Iguaçu, Duque de Caxias, São João de Meriti, Belford Roxo, Nilópolis, Itaguaí, Queimados e Mesquita. O sistema atende aproximadamente 85% da cidade do Rio de Janeiro e 70% da Região da Baixada Fluminense. Apesar de toda a sua importância, o Rio Guandu sofre imensamente com a alta carga de esgotos in natura que recebe de dezenas de cidades, vilarejos e indústrias ao longo de seu curso; é o destino toneladas de fertilizantes e defensivos químicos de áreas agrícolas carreadas para a suas águas; lixo e resíduos sólidos de toda a ordem dispostos inadequadamente entulham suas águas; desmatamentos de áreas de mananciais em sua bacia hidrográfica reduzem a produção de água; a extração de areia sem respeito às normas ambientais destrói quilômetros de suas margens – essas são muitas das agressões que o Rio Guandu sofre diária e sistematicamente.

O jornalista André Trigueiro, em seu livro Mundo Sustentável, classificou, acertadamente, o Rio Guandu, além de outros sistemas de abastecimento de água, como “grandes dependentes químicos”. Explica-se: nos processos de tratamento da água destinada ao abastecimento da Região Metropolitana do Rio de Janeiro são utilizadas diariamente 280 toneladas de produtos químicos, entre eles o sulfato de alumínio, produto indispensável para tornar a água bruta (aquela que é retirada do rio) em água potável. Em um rio com boa qualidade da água, seria necessário apenas 10% deste volume de produtos químicos para tratar a mesma quantidade de água – é possível verificar os níveis de poluição do Guandu somente com essa informação. Em dias de chuva, por causa da quantidade maior de esgotos e de lixo que são carreados para o Rio, o volume de produtos químicos utilizados triplica, chegando à inacreditáveis 840 toneladas/dia. E olhem que esses dados são do ano de 2004 – é provável que nos dias atuais o volume de produtos químicos utilizados nos processos de tratamento da água sejam bem maiores.

Diferente da Baia da Guanabara, que mesmo extremamente poluída e maltratada pelos séculos de crescimento desordenado das cidades do seu entorno é um cartão postal internacional visto por milhões de visitantes a cada ano (a maioria vê a Baia de longe, do alto do Pão de Açúcar e do Morro do Corcovado), o Rio Guandu é um personagem mais discreto, que corre através de áreas periféricas até o seu melancólico encontro com o mar na Baia de Sepetiba. Pode-se afirmar que enquanto a Baia de Guanabara fica na porta de entrada do Rio de Janeiro, o Rio Guandu fica nos fundos, como aquela porta que atende os serviçais da residência – faz todo o trabalho pesado e sujo, sem receber grande reconhecimento por isto. A cidade se preocupa com áreas turísticas como Copacabana, Leblon e Ipanema e, mais recentemente, com a Região da Barra, onde a Cidade Olímpica foi construída – que o subúrbio fique onde sempre esteve: longe das vistas da elite econômica e com todos os seus problemas proletários.

No próximo post vamos falar um pouco sobre a história deste pequeno Rio que, após um conjunto de obras de engenharia, se transformou no maior manancial de água doce da Região Metropolitana do Rio de Janeiro e que, mesmo assim, continua um pária da sociedade.

2 Comments

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s