AS CHUVAS CAEM NO PIAUÍ, MAS HÁ RISCO DE FICAREM ABAIXO DA MÉDIA

Seca no Piauí

Lentamente, as chuvas estão chegando ao Piauí, Estado onde metade dos municípios está em estado de emergência por causa da forte estiagem – são 134 municípios nesta situação, o que corresponde a 52% do total de cidades do Estado. É importante lembrar que nem todas as cidades estão na mesma situação – algumas localidades estão com todas as suas fontes de água esgotadas e dependem desesperadamente da ajuda dos Governos. De acordo com informações do Governo do Estado, os açudes e reservatórios de água estão, em média, com 10% da sua capacidade de armazenamento, o que está comprometendo o abastecimento de inúmeras cidades. Em Pedro II, por exemplo, o açude já secou faz muito tempo (vide foto).

Em algumas cidades, as chuvas estão chegando com muita força – em Floriano, o último dia do mês de Outubro acabou em um verdadeiro dilúvio: o INMET – Instituto Nacional de Meteorologia, registou um volume de chuva acumulado no município de 152,8 mm em um único dia – isso representa quase o dobro do índice histórico de chuvas para todo o mês de outubro, que é de 98 mm. Em cidades como Picos, Bom Jesus e São João do Piauí tem sido registradas chuvas caindo com maior frequência, inclusive com registros de queda de granizo, fenômeno raríssimo no sertão do Estado e festejado pelas populações. Na cidade de São Raimundo Nonato, as chuvas foram tão fortes que chegaram a derrubar o cruzeiro instalado no ponto mais alto da cidade. Oficialmente, a estação das chuvas ainda não começou, mas as notícias de sua chegada sempre animam a população das áreas que sofrem com a estiagem. Tradicionalmente, as chuvas no Piauí começam nas áreas de Cerrado do Sul do Estado e lentamente seguem em direção ao Norte.

Apesar de serem boas notícias, especialistas em meteorologia estão preocupados com os níveis desta estação chuvosa – de acordo com as previsões, a maior parte do Piauí tem 35% de chances de receber chuvas dentro dos níveis de pluviosidade históricas na estação chuvosa de 2018; porém, há 40% de chances de chuvas abaixo dos níveis normais. Considerando que mais da metade do Estado apresenta situação de déficit hídrico, essa possibilidade de chuvas abaixo da média histórica é extremamente preocupante – nestas regiões sob forte estiagem, o ideal seria a chegada de chuvas acima da média histórica, de forma a proporcionar a recuperação dos “estoques de água”, ou seja, encher os açudes e reservatórios, recarregar os aquíferos e recuperar a umidade dos solos e da vegetação.

Aproximadamente metade do território do Piauí é ocupado pelo chamado Semiárido nordestino, que está localizado na faixa Leste onde o Estado faz divisa com o Ceará, Pernambuco e Norte da Bahia. Como todos devem saber, o Semiárido é uma região que sofre frequentemente com fortes períodos de estiagem e, em intervalos mais longos, esta estiagem atinge escalas catastróficas. Secas de excepcional gravidade ocorreram na região em 1744, 1790, 1877, 1846, 1915 e em 1932. Desde 2012, toda a região do Semiárido vem enfrentando um forte período de estiagem, considerado um dos mais longos e intensos já vividos na região Nordeste, comparado por muitos à grande seca de 1915, uma das mais devastadoras já registradas. Os efeitos desta estiagem só não são maiores do que no passado devido aos serviços emergenciais de distribuição de água através de caminhões pipa e aos diversos programas governamentais de ajuda à população.

A vegetação do Semiárido, em função do clima e dos tipos de solo, pode ser dividida, de forma muito rudimentar, em três áreas: o agreste, a caatinga e o alto sertão. Cada uma destas áreas possui uma quantidade imensa de subdivisões dos tipos de vegetação, formando biomas independentes e completos. A região forma um grande mosaico de diferentes biomas, que formaria algo parecido com uma colcha de retalhos. O solo destas regiões são, no geral, pouco espessos, apresentando manchas de solos argilosos muito férteis, principalmente nas depressões e nos baixios. Em anos de chuvas regulares e dentro das médias históricas, as populações conseguem boas colheitas e uma boa produtividade com seus rebanhos – são as grandes estiagens que desestruturam completamente a vida e a economia do Semiárido. A destruição dos cajueiros pela seca, que citei na última postagem, é um exemplo clássico desta desestruturação econômica e social. Sem a água das chuvas não há como produzir. Considerando que esta estiagem está entrando no sexto ano, todos vocês podem imaginar os problemas e prejuízos econômicos, para falar o mínimo, que estes sertanejos estão enfrentando.

Os municípios do Piauí que mais tem sofrido por causa da longa estiagem estão localizados nas regiões da Serra da Capivara, Vale do Canindé, Vale do Guaribas e nos Vales dos Rios Piauí, Itaueira e Corrente. Além de apresentarem baixos estoques de água acumulada nos reservatórios e açudes, estas regiões tiveram perdas de mais de 50% na safra agrícola. A notícia das chegada das chuvas, como sempre, é festejada pelas populações. Quem está sofrendo na pele as consequências da seca, não tem tempo nem cabeça para se preocupar com o volume total das chuvas – se estará igual ou abaixo de anos anteriores, deixemos para pensar na hora certa. Que venham as chuvas.

Um dos efeitos da estiagem, que nem sempre é percebido com muita clareza, é a desvalorização das propriedades rurais. Diferente da maioria dos Estados nordestinos, onde existe a Zona da Mata ou uma região de domínio de palmeiras de babaçu na faixa litorânea e uma área de Semiárido no interior, o Piauí apresenta uma maior diversidade de biomas, com destaque para uma extensa área de Cerrado nas regiões Sul e Leste do Estado. Um hectare de terras nas áreas do Cerrado piauiense, bioma que ocupa cerca de 11,5 milhões de hectares no Estado, chega a valer, em condições normais, vinte vezes mais que um hectare numa área da Caatinga – numa situação de seca extrema como esta que a região está sofrendo, a desvalorização é ainda maior: sem água, é difícil conseguir fazer a terra produzir e, automaticamente, ela perde muito valor.

O Cerrado piauiense, que nos últimos anos vem sendo chamado de “Nova Fronteira Agrícola do Brasil”, conta atualmente com uma área agricultável com cerca de 5 milhões de hectares em 28 municípios, onde são colhidas safras crescentes de soja, milho, arroz e algodão. Nessa região vive uma população de pouco mais de 220 mil habitantes, grande parte formada por imigrantes da região Sul do Brasil, que pratica uma agricultura altamente mecanizada e de alta produtividade O contraste entre as áreas do Cerrado e do Semiárido no Piauí neste momento de forte estiagem é absolutamente dramático, especialmente em regiões onde os dois biomas se encontram.

Resta-nos, como sempre, torcer para que as previsões de chuvas dentro da média histórica se confirmem em todo o Piauí e que as populações dos sertões consigam reacender a esperança e retomar a produção com fé e vontade. Como eu já comentei em postagens anteriores, vivemos em tempos de grandes avanços tecnológicos, onde muitas nações tem demonstrado que é possível tornar áreas semiáridas e desérticas em grandes polos de produção agrícola – a agricultura irrigada em Israel é um grande exemplo. Vivendo em uma região muito mais inóspita do que os sertões do Piauí, os israelenses utilizam as mais modernas técnicas de irrigação por micro gotejamento e conseguem obter safras excepcionais, com baixíssimo consumo de água e em áreas extremamente reduzidas. Eu acredito que já passou da hora de começarmos a utilizar estas novas tecnologias em larga escala aqui em nosso país. O que está acontecendo no Piauí atualmente é extremamente grave – enquanto um lado do Estado, localizado dentro do Semiárido, se afunda cada vez mais em problemas econômicos, sociais e ambientais, o outro lado, localizado dentro do Cerrado, bate recordes de produção agrícola e pecuária.

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CAJUEIROS DO PIAUÍ NÃO RESISTEM À SECA

Cajueiro

Apesar de todo o otimismo dos produtores, que esperavam colher uma das maiores safras dos últimos cinco anos, a produção de caju no Piauí, de acordo com notícia do programa Globo Rural, terá uma quebra de safra em 2017, que em muitos casos poderá chegar a 50%. A safra de cajus prevista para este ano é de 17 mil toneladas, um valor 50% superior ao obtido em 2016 – porém, vale informar que a safra de 2016 foi uma das piores dos últimos anos. A forte estiagem que assola grande parte do Estado atingiu em cheio os cajueiros, uma planta nativa do Semiárido e bastante adaptada às condições climáticas locais. De acordo com relatos de produtores, a seca intensa não permite a formação completa das frutas, que secam na própria árvore – as castanhas secas caem no solo com um aspecto que lembra uma castanha torrada. Os baixos preços de venda dos produtos, R$ 3,00 por kg da castanha e R$ 0,40 por kg de caju, desestimulam ainda mais os produtores, que preferem abandonar as poucas frutas que vingaram nos pés e assim evitam ter de pagar pela colheita. Quem mora nas grandes cidades do Sul e do Sudeste, onde estes produtos são vendidos após passarem por toda uma cadeia de atravessadores, costuma desembolsar dezenas de vezes esse valor pago aos produtores – muitos destes consumidores não se conformarão em saber que as deliciosas “frutas” e castanhas estão apodrecendo nos campos. Em muitas fazendas, os cajueiros secos foram cortados e vendidos como lenha, numa tentativa desesperada de se ganhar algum dinheiro. De acordo com informações da Secretaria de Desenvolvimento Rural do Piauí, a perda representa 100 mil hectares de cajueiros, correspondendo a exatos 48% da área ocupada por essa cultura no Estado.

A cultura vem apresentando declínio desde 2012 e teve em 2016 seu pior ano. Com a persistência da forte estiagem, grande parte das árvores morreram e as tentativas de replantio foram frustradas. Para efeito de comparação, a safra de cajus no ano de 2016 equivaleu a apenas 15% da produção de 2011, o que demonstra o tamanho do problema. Grande parte dos municípios do Estado do Piauí estão em situação de emergência por conta dos efeitos da forte estiagem, muitos deles localizados nas regiões da Serra da Capivara e nos vales dos Rios Canindé e Guaíbas – pelo menos 47 municípios estão em condição crítica por causa da seca e as populações estão a depender da distribuição da água através dos caminhões pipa.

O cajueiro (Anacardium occidentale) é uma árvore nativa na região, primitivamente utilizada pelos indígenas em sua alimentação. Habitualmente, nos referimos ao caju como uma fruta mas, na realidade ele é um pseudofruto – o verdadeiro fruto é a castanha, que é muito saborosa para consumo in natura após ser torrada e salgada, ou entrando como tempero no preparo do vatapá e de quitutes do Nordeste e de outras regiões do Brasil. Em tupi guarani, a palavra usada para descrever a fruta é acaiu, que significa noz. A mesma palavra era usada para descrever ano, uma vez que os índios contavam a passagem do tempo a partir dos ciclos de floração do cajueiro. A castanha do caju tem um teor de proteínas da ordem de 20% e com um alto valor nutritivo. Por serem muito mais fáceis de se processar e armazenar, as castanhas são exportadas desde longa data para outras regiões do país e também para o exterior (em inglês é conhecida como “cashew nut”). O caju, de constituição bastante frágil, exige maiores cuidados com a embalagem a fim de ser transportado para os grandes centros consumidores. Lembro que numa das minhas primeiras viagens ao Nordeste, fiquei surpreso com a declaração de um sitiante do interior do Estado de Alagoas, que separava as castanhas para a torrefação e jogava as frutas para os animais. Eu cheguei a perguntar se ele e a família comiam a fruta: a resposta torta que recebi: “ – Eu não sou porco para comer fruta!”

O alto valor nutritivo do caju está em sua extraordinária riqueza em ácido ascórbico. É tão alto o teor vitamínico da fruta que, segundo comentam alguns especialistas, dão a ele um verdadeiro poder curativo. Muito antes de serem descobertas as vitaminas e conhecidas as suas propriedades, o caju era apregoado pelos curandeiros do sertão como uma fruta milagrosa, curadora de inúmeros males. Falava-se muito nos tempos antigos do Nordeste nas curas de caju, nos doentes que vão para as praias limpar o sangue com os banhos de mar e o regime de cajus e cajuadas. Em seu livro Higiene Alimentar, publicado em 1908, Eduardo de Magalhães fez esta apologia ao caju:

“Fala-se em cura de uvas, cura de mangas, de laranja, de limão, de cerejas e também de figos, maçãs e tâmaras. Bem, serão todas eficazes, não contesto, mormente a primeira, a cura de uvas; nenhuma, porém, competirá com a cura de caju. Indivíduos fracos, magros, eczematosos, reumáticos, enfastiados, diarréicos, sifilíticos, recolhendo-se no verão a uma das belas praias de Sergipe, onde os cajueiros amarelos e vermelhos são uma bela floresta, e atirando-se aos cajus cujo caldo ingerem chupando-os ou em cajuadas, de lá voltam nutridos, nédios, nem parecem os mesmos que para lá foram. Do caju se pode dizer que o próprio abuso é proveitoso.”

As árvores mais frondosas do cajueiro nascem nas terras chuvosas próximas ao litoral, conhecida como Zona da Mata. Conforme se segue para o interior do Semiárido, a árvore apresenta modificações na sua estrutura como uma adaptação à falta de água no solo e na atmosfera. Nas regiões da Caatinga, o cajueiro se apresenta como um arbusto, com folhas pequenas para evitar ao máximo a perda de água por evaporação, caules com uma casca muito grossa e raízes bem desenvolvidas para sugar qualquer quantidade de água existente no solo. Está espécie é conhecida pelos sertanejos como cajuí (Anacardium humilis), que nada mais é do que um cajueiro anão. A espécie plantada pelos agricultores, inclusive os do Piauí, é uma planta híbrida, conhecida pelo nome de cajueiro anão precoce, que associa o sistema radicular destas espécies adaptadas aos rigores do clima do sertão com a produtividade das árvores do litoral. Notem que nem mesmo com toda esta robustez, os cajueiros conseguiram resistir à forte seca dos últimos anos.

Quando os primeiros colonizadores portugueses chegaram ao Brasil ainda no século XVI, rapidamente se renderam ao sabor e à versatilidade do caju e de sua castanha. Durante as longas viagens marítimas daqueles tempos, era comum a incidência do escorbuto nas tripulações. Sabemos hoje que a principal causa da doença é a carência da vitamina C, nutriente encontrado em frutas cítricas como a laranja e o limão. Extremamente rico nesta vitamina, o caju mostrava já naquele período as suas propriedades curativas. Os navegadores portugueses se encarregaram de espalhar a planta pelo mundo durante as suas intermináveis expedições. Se você pesquisar quais são os principais produtores de caju, vai encontrar países como o Vietnã, o maior produtor mundial, seguido por Nigéria, Índia, Costa do Marfim, Benin, Filipinas, Guiné Bissau e Indonésia. O Brasil, terra de origem da árvore, só vai aparecer após a décima posição – sem utilizar sistemas de irrigação por micro gotejamento e perdendo grandes porcentagens das árvores plantadas por causa da forte seca, não é de se estranhar nossa posição na lanterna dos maiores produtores mundiais.

O grande problema de toda essa crise, na minha modesta opinião, é que corremos um sério risco de ver frutas e castanhas produzidas nestes países passarem a ser vendidas nos mercados e feiras das grandes cidades brasileiras, enquanto os nossos produtores decidem abandonar as frutas no pé por causa dos baixos preços de venda.

Imagino até a cena: uma caixa de autênticos cajus Made in China a venda no Mercadão da Cantareira…

AS CHUVAS CHEGARAM AO DISTRITO FEDERAL, MAS A SITUAÇÃO DE EMERGÊNCIA CONTINUA

Barragem do Descoberto - foto Gilver Ferreira

Há quase um mês atrás iniciamos esta série de publicações, que trata dos problemas provocados pela forte estiagem que está assolando diversas regiões do Brasil, falando da crise no abastecimento de água no Distrito Federal. Naquele momento, o Governo Distrital havia acabado de tomar a decisão de tornar mais rígidas as medidas para a economia de água já em andamento desde do início de janeiro, quando foi iniciado um inédito esquema de racionamento de água na região. Os dois reservatórios responsáveis pelo armazenamento da água que abastece o Distrito Federal, a Barragem do Descoberto e a Barragem de Santa Maria, já estavam em um nível crítico, com volumes acumulados abaixo de 15% e 28%, respectivamente. Em texto no Diário Oficial publicado hoje, 27 de novembro, o Governador do Distrito Federal, Rodrigo Rollemberg, voltou a decretar situação de emergência por causa da crise hídrica, com validade de 180 dias. O decreto delega à ADASA – Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento Básico, a responsabilidade de definir novas medidas de restrição e de fiscalização.

O decreto chega no momento em que as esperadas chuvas chegaram ao Planalto Central e quando os reservatórios começam a se recuperar. Neste último final de semana, a Barragem do Descoberto (vide foto) teve seu nível elevado em 0,8%, passando a registrar 6,4% da sua capacidade máxima, bem abaixo dos 12% previstos para o mês. Na Barragem Santa Maria, o volume acumulado chegou a 21,9%, praticamente o valor previsto para o mês – 22%. De acordo com dados do INMET – Instituto Nacional de Meteorologia, o volume de chuvas no Distrito Federal em novembro ficou acima do esperado – em 27 dias choveu 255 mm, acima da média histórica de 231 mm. Apesar da visível melhora, os técnicos da ADASA temem que as reservas de água acumuladas sejam insuficientes para atender o Distrito Federal no próximo período seco em 2018 – por isso a publicação de um novo decreto com a ampliação da situação de emergência.

Com a publicação deste novo decreto, o Governo do Distrito Federal dá uma espécie de “carta branca” para a ADASA, que poderá implementar novas medidas para aprimorar a economia e a redução do consumo de água, sem a necessidade de passar pelos intermináveis trâmites burocráticos do Legislativo. Com este novo decreto, o Governo Distrital poderá, caso julgue necessário, captar novos recursos federais e realizar contratos emergenciais sem a necessidade de realizar uma licitação pública. Já a ADASA poderá restringir ainda mais o uso da água para agricultura, lazer ou usos industriais – o uso desta água para consumo humano, que é classificado como prioritário, continuaria mantido. Desde o início do ano, esta é a terceira vez que o Governo do Distrito Federal prorroga o decreto de situação de emergência.

Uma das principais características do Cerrado, bioma onde está inserido o Distrito Federal, é a divisão do clima em dois períodos razoavelmente distintos – um período mais seco e outro mais chuvoso. A média de chuvas anuais no bioma fica entre 1.300 e 1.700 mm. A maior parte das chuvas cai entre os meses de outubro e março, correspondendo às estações da primavera e do verão. Entre os meses de maio e setembro tem vez a estação seca, período em que as chuvas são menos frequentes e quando podem ocorrer longos períodos de estiagem. Na seca, os níveis de umidade relativa do ar costumam cair para valores entre 15% e 30%, valores considerados prejudiciais para a saúde humana e extremamente perigosos para a vegetação, que fica sujeita a queimadas e incêndios florestais.

A estiagem vivida pelo Distrito Federal até o mês de outubro foi, de acordo com dados históricos, a mais intensa dos últimos 37 anos. Era esperado um volume de chuvas de 166 mm no mês de outubro – as chuvas mal chegaram aos 14 mm. O mês de novembro, conforme já comentamos, teve um volume de chuvas acima da média, com chuvas de 255 mm, um valor insuficiente para reverter os baixos níveis dos reservatórios. O volume médio de chuvas no Distrito Federal entre os meses de setembro e dezembro de 2016 ficou abaixo da média histórica, chegando aos 520 mm. Para piorar a situação, o volume de chuvas no mês de janeiro de 2017 ficou muito abaixo da média histórica (lembrando que janeiro é, tipicamente, o mês mais chuvoso no Cerrado), o que ajuda a explicar a crise hídrica enfrentada pela região nos últimos meses. O consumo per capita de água, ao contrário, cresceu 16% nos últimos 6 anosAs perdas de água na rede de distribuição também são muito altas – perto de 35% da água distribuída é perdida em vazamentos nas tubulações e em furtos (os famosos “gatos”). São aproximadamente 86 bilhões de litros de água perdidos, que estão fazendo falta neste momento de crise. A situação fica mais grave quando se constata que foram feitos poucos investimentos em infraestrutura, especialmente na ampliação dos sistemas de captação e armazenamento de água. O quadro vivido pelo Distrito Federal atualmente lembra muito a crise hídrica vivida pela Região Metropolitana de São Paulo em 2014 – a diferença é que na Grande São Paulo existiam dois grandes reservatórios, as represas Guarapiranga e Rio Grande, com reservas de água mas sem tubulações de interligação com os demais sistemas (o que foi resolvido com obras emergenciais). No Distrito Federal não existem fontes alternativas para abastecimento da população.

Desde o final de 2016, a ADASA autorizou a CAESB – Companhia de Saneamento Básico do Distrito Federal, a reduzir de pressão na rede, realizar o rodízio do abastecimento, efetuar a paralisação parcial do abastecimento e também veicular campanhas publicitárias com o objetivo de incentivar a população a reduzir o consumo de água. A CAESB iniciou o processo de racionamento no final de 2016 com a redução da pressão nas redes de tubulações, medida que afeta a oferta de água e que obriga a população a economizar. Com o agravamento da queda dos níveis nas barragens, a CAESB decidiu iniciar o rodízio do abastecimento de água nas localidades atendidas pela barragem do Descoberto. O rodízio no fornecimento passou a valer para as 14 regiões administrativas abastecidas pela barragem, atingindo as localidades de Ceilândia, Recanto das Emas, Riacho Fundo II, Vicente Pires, Colônia Agrícola Samambaia, Vila São José, Jóquei, Santa Maria, DVO, Sítio do Gama, Polo JK e Residencial Santa Maria. O sistema fornece água normalmente por 3 dias, 1 dia fica sem fornecimento e 2 dias se destinam à estabilização completa do abastecimento. A partir do final do mês de fevereiro, o rodízio passou a valer também para as regiões abastecidas pela barragem Santa Maria. De acordo com dados da CAESB, a economia obtida com estas medidas equivale a 550 litros de água por segundo – água suficiente para abastecer a região de Ceilândia, que tem uma população de 360 mil habitantes. Nas áreas rurais do Distrito Federal, o racionamento de água tem afetado mais de 4 mil produtores rurais.

Uma nova medida emergencial que chegou a ser anunciada no último dia 21 e que causou enorme confusão dava conta que, caso as reservas de água da Barragem do Descoberto atingissem o “volume morto” ou valores inferiores a 5%, o rodízio de água passaria a ser de 2 dois dias por semana. A ADASA voltou atrás e avisa que não tem um valor de reserva mínima de água já definido.

Como eu sempre costumo lembrar, sobra incompetência entre os responsáveis pela gestão dos recursos hídricos e continua faltando água. A população, como sempre, continua pagando o “pato”, mesmo após a chegada das esperadas chuvas…

A “VOLUNTÁRIA” ECONOMIA DE ÁGUA EM FORTALEZA

Castanhão

De acordo com as informações divulgadas no último dia 24 de novembro pela CAGECE – Companhia de Águas e Esgotos do Ceará, a população da Região Metropolitana de Fortaleza conseguiu reduzir o seu consumo de água em 16,75% durante o mês de outubro. Essa foi a redução de consumo média em cada ligação e foi alcançada após um alerta da CAGECE acerca de um aumento de consumo de água no mês de setembro. O consumo médio por ligação neste mês foi de 11,12 m³ – para efeito de comparação histórica, em outubro de 2014 o valor correspondia a 13,36 m³. A estratégia usada pela companhia é o oferecimento de descontos para as ligações que economizarem água – quem apresentar aumento no consumo de água, ao contrário, é penalizado com a cobrança de uma tarifa contingencial.

Até o momento, a economia de água acumulada pela população da Região Metropolitana de Fortaleza em 2017 corresponde a aproximadamente 13 milhões de m³ – durante todo o ano de 2016, o valor economizado correspondeu a 6 milhões de m³, o que demonstra que houve um aumento no esforço da população na economia de água. Há uma razão bastante objetiva para todo este esforço – os reservatórios de água do Estado do Ceará encontram-se em um nível crítico, apresentando um volume médio de 8,1% da sua capacidade máxima. O Castanhão, principal reservatório da Região Metropolitana de Fortaleza, está com um nível de apenas 3,23% de sua capacidade (vide foto). A Região é a mais populosa da Região Nordeste, com uma população superior a 4 milhões de habitantes.

Localizado oficialmente no município de Alto Santo (o reservatório se distribui por vários municípios), o Açude do Castanhão foi inaugurado em 2002 e possui capacidade para armazenar 6,7 bilhões de m³. É considerado o maior reservatório para usos múltiplos da América Latina – sua capacidade de armazenamento corresponde a 37% da capacidade total de armazenamento de todos os 8 mil reservatórios existentes no Estado do Ceará, incluindo-se na lista o Açude Orós, que durante décadas foi o maior de todos. Em sua capacidade máxima de armazenamento, o Castanhão tem condições de abastecer toda a Região Metropolitana de Fortaleza por 3 anos ininterruptamente – o problema é que desde 2012, com o início da forte estiagem que atinge toda a região do Semiárido nordestino, os volumes das chuvas na bacia hidrográfica do rio Jaguaribe têm estado abaixo da média, sendo insuficientes para recuperar os níveis do Açude.

De acordo com o DNOCS – Departamento Nacional de Obras contra as Secas, autarquia federal responsável pela operação do reservatório, o Castanhão está entrando no chamado “volume morto”, momento em que o nível do reservatório fica abaixo do nível de captação e quando passa a ser necessário o uso de outros dispositivos de captação como, por exemplo, moto bombas flutuantes. Não existe qualquer diferença na qualidade ou separação entre a água do “volume morto” em relação a água do reservatório – trata-se simplesmente da água que fica acumulada nas partes mais baixas do fundo do açude. Atingir o “volume morto” de um reservatório é simplesmente um sinal de alerta da exaustão completa dos recursos – é equivalente ao marcador de combustível de um automóvel mostrar que o tanque de combustível entrou na reserva e que é preciso parar em um posto de combustíveis para reabastecer. No caso do Castanhão, a única possibilidade de recarga dependerá da chegada das fortes chuvas de inverno (que no Nordeste corresponde ao período das chuvas), que ainda tardam em chegar.

De acordo com os cálculos da COGERH – Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos do Ceará, este volume de água restante no Castanhão permite o abastecimento da população da Região Metropolitana até o mês de janeiro próximo. Esta perspectiva é extremamente preocupante pois o período das chuvas, tradicionalmente, começa em fevereiro e se estende até o mês de maio – a se confirmar os cálculos, a água do Açude se esgotará antes da chegada das chuvas.

Para preservar ao máximo o volume de água que restou no Castanhão, a companhia de águas local aumentou a captação de águas em outros reservatórios do interior do Estado, distantes até 250 km, transportadas através do chamado “Eixão das Águas” para reforçar os níveis dos reservatórios da Região Metropolitana. Essa manobra permitiu uma redução substancial da captação de águas no Açude do Castanhão – até 2016, o Açude fornecia 70% da água consumida na Região Metropolitana de Fortaleza – atualmente, a sua contribuição é de apenas 10%. O grande problema é que praticamente todo o Estado do Ceará está em situação de emergência.

Até o último mês de agosto, toda a região Norte do Estado do Ceará, incluindo a região Metropolitana de Fortaleza, era considerada como área Sem Seca Relativa – em setembro, o quadro foi alterado e a região passou a ser considerada como Área de Seca Fraca. Nas regiões Central e Sul do Estado, as áreas de seca foram agravadas, com uma redução das áreas classificadas como em Seca Moderada e com aumento das áreas de Seca Extrema e de Seca Excepcional, consideradas as mais graves da escala. Os índices médios de chuva no Estado durante o mês de setembro ficaram em 2,5 mm, absolutamente insuficientes para qualquer recuperação nos níveis dos reservatórios de água.

Um total de 137 municípios cearenses, de um total de 184 municípios do Estado, se encontram em situação de emergência por causa da estiagem decretada pelo Governo Estadual – pelo menos 17 cidades ainda aguardam o reconhecimento do estado de emergência. Esses números indicam que 74,4% do território do Estado está em situação de emergência em função da seca. O reconhecimento do estado de emergência pelos órgãos federais é de extrema importância para os municípios pois garante um atendimento prioritário na liberação de verbas e de serviços emergenciais, incluindo-se os imprescindíveis serviços de distribuição de água com caminhões pipa, foco de inúmeras tensões com os “pipeiros” do Estado, conforme relatamos em postagem anterior.

O quadro atual no Ceará faz lembrar o drama dos sertanejos na grande seca de 1915, imortalizada no livro O Quinze, de Rachel de Queiroz (1910-2003). Publicado em 1930, o livro relata as lembranças da infância da escritora, que foi uma testemunha ocular da tragédia humana que se seguiu à seca. Ao contrário do que se passava naquela época, em que migrar era a única opção para muitos, nos dias atuais existe a alternativa de se esperar a chegada de um caminhão pipa e assim amenizar um pouco a escassez de água. Não é o ideal mas, de todos os males, fiquemos com o menor.

Que não tardem as chuvas em chegar!

 

 

A POUCO DIVULGADA SECA NO NORTE DE MINAS GERAIS

Seca no Norte de Minas Gerais

Caso a previsão do tempo se confirme, um extenso corredor de nuvens estará se formando desde a região Norte, atravessando o Centro-Oeste, Minas Gerais e chegando até o Estado do Rio de Janeiro – a previsão é de chuva forte entre a área central de Minas Gerais e a região serrana do Rio de Janeiro. Este corredor de nuvens também poderá provocar chuvas em todo o Norte de Minas Gerais. Neste momento de seca forte, qualquer chuva é sempre bem-vinda.

De acordo com informações do Governo do Estado, 151 municípios de Minas Gerais já tiveram os decretos de situação de emergência por causa da seca reconhecidos pelo Governo Federal, o que agiliza a liberação de verbas emergenciais e serviços para o atendimento da população. Deste total, 80 municípios ficam nas regiões Norte e Noroeste do Estado, além dos Vales do Mucuri e do Jequitinhonha. O quadro mais grave é na região Norte, que vem enfrentando problemas com a estiagem já há cinco anos. De acordo com a EMATER – Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural, 550 dos 700 rios e córregos da região já estão completamente secos ou em situação crítica. A AMANS – Associação dos Municípios da Área Mineira da Sudene, informa que muitos destes rios secos já foram perenes – a exemplo do rio Verde Grande e do Pardo, e confirma que 80 mil famílias, moradoras de comunidades rurais do Norte de Minas Gerais estão sofrendo com a falta de água. A seca que está assolando toda a região é uma extensão do fenômeno que atinge todo o Semiárido nordestino, lembrando que a região Norte de Minas Gerais faz parte do chamado “Polígono das Secas”.

Normalmente, a região enfrenta um período de estiagem entre os meses de abril e outubro, quando os rios menores, chamados de intermitentes, costumam secar. O período chuvoso na região se estende de novembro a março, quando as fontes de água passam por um processo de recuperação. O problema é que a estiagem persiste há cinco anos e todas fontes de água se esgotaram, levando a população das cidades e das áreas rurais ao desespero. A situação só não é mais grave porque caminhões pipa coordenados pelo Exército e pelas Prefeituras têm feito a distribuição de água nas comunidades – cada morador tem direito a uma cota de 20 litros de água a cada entrega; alguns moradores tem de andar longas distâncias a pé para chegar até os pontos de distribuição e garantir a sua “lata” de água.

Um exemplo das dificuldades vividas pela gente da região pode ser vista na comunidade de Alto São João, localizada na zona rural do município de São Francisco. Existia na região uma lagoa, conhecida pela população como Lagoa Grande, que respondia pelo abastecimento de água das 70 famílias da comunidade, inclusive garantindo a dessedentação dos animais criados pelos agricultores – esta lagoa secou completamente em janeiro, colocando toda a comunidade em situação de emergência. Diversas outras lagoas perenes da região, muitas marginais do rio São Francisco, simplesmente desapareceram. Além da falta de chuvas, a mão dos homens também deixou as suas digitais no drama da Lagoa Grande – de acordo com informações de pessoas da própria comunidade, as matas ciliares ao redor da Lagoa foram derrubadas sistematicamente ao longo dos anos para garantir o fornecimento de lenha e madeira; sem a proteção das matas, os solos expostos acabaram arrastados pelas chuvas, carreando grandes quantidades de areia e sedimentos para o fundo do espelho d’água: quanto mais raso é um lago ou represa, maior será a taxa de evaporação da água. Há relatos que dizem que o trecho mais profundo da Lagoa Grande podia chegar a uma cota de 10 metros, o que só demonstra que a crise atual do corpo d’água, independentemente da forte estiagem dos últimos anos, é o resultado de muitos anos de sedimentação por causas antrópicas.

O agravamento da estiagem ao longo deste ano estendeu a crise hídrica por todo o Norte de Minas Gerais, atingindo inclusive os municípios maiores como Montes Claros, onde a empresa de abastecimento local implantou um sistema de rodízio na distribuição de água, como forma de garantir um pouco de água para todos os habitantes. No município de São João, a Prefeitura usou um dos seus tratores para abrir um grande cacimbão, um buraco de 30 metros de extensão, 10 metros de largura e 4 metros de profundidade, no leito seco de um rio, na esperança de conseguir juntar um pouco de água no fundo. Está é uma técnica utilizada pelos sertanejos do Semiárido, que nos momentos mais agudos das estiagens recorrem a todas as alternativas possíveis para conseguir juntar alguns litros de água. Em São João, encontrou-se muito pouca água, apesar de todo o esforço das autoridades. Resta esperar pela distribuição de água através dos caminhões pipa, que sempre são insuficientes para atender tanta gente.

Na falta de ajuda oficial, muitas famílias se vêem obrigadas a comprar água de motoristas autônomos, que chegam cobrar até R$ 150,00 por uma carga de água com 12 mil litros, um valor que, diga-se de passagem, vai fazer muita falta no orçamento destas famílias. Com muita economia, esse volume de água pode ser utilizado por um período entre 20 e 30 dias por uma família, que no Norte de Minas Gerais costuma ser formada por muita gente. Depois, é juntar todos os “trocos” que se puder dispor para fazer uma nova encomenda de água. Como já fiz em uma postagem anterior, chamo a atenção aqui para os “industriais da seca”, que nunca perdem uma oportunidade para ganhar algum dinheiro com a desgraça alheia, entregando uma “água” que nunca se terá certeza de onde foi captada e em que condições foi transportada.

A estiagem prolongada vem afetando a economia da região de forma contundente. De acordo com dados da EMATER, o Norte de Minas Gerais tinha, até 2011, um rebanho bovino com aproximadamente 3,3 milhões de cabeças – com a estiagem que assola a região nesses últimos anos, o rebanho acabou reduzido para 2,4 milhões de cabeças em 2016. Sem pastagens para alimentar os animais e sem as lagoas e rios para dessedentar os rebanhos, não há como os produtores rurais sobreviverem. De acordo com a AMAMS, existem comunidades rurais da região Norte de Minas Gerais onde metade das casas está fechada – cansadas das agruras da estiagem, muitas famílias estão deixando o campo e migrando para as cidades em busca de melhores condições de vida, o que, infelizmente como todos nós sabemos, dificilmente será algo que se concretizará.

Chamo a atenção de todos para a gravidade da situação desta estiagem no Norte de Minas que está sendo pouco divulgada pelos meios de comunicação. Apesar da região se encontrar dentro da região Sudeste do Brasil, a mais populosa e mais rica de toda a União, as condições climáticas e geomorfológicas locais têm mais a ver com o Semiárido nordestino. E a sede que sentem os “Severinos” do sertão nordestino é a mesma que sentem os “Geraldos Magelas, Josés e Joãos” do Norte de Minas Gerais.

Que olhemos por todos eles e que as ótimas previsões da meteorologia se confirmem…

BOTO DO ARAGUAIA: UMA ESPÉCIE RECÉM DESCOBERTA E JÁ EM RISCO DE EXTINÇÃO

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O processo de destruição contínua do rio Araguaia, sobre o qual comentamos nas duas postagens anteriores – A implacável seca na Ilha do Bananal e Araguaia: um rio que poderá desaparecer em 40 anos, está afetando milhares de pessoas, em diferentes cidades nos Estados de Goiás, Tocantins, Mato Grosso e Pará. O grau de degradação do rio, que se mostra com intensidade devastadora no período da seca, está intimamente ligado ao avanço das fronteiras agrícolas no Bioma Cerrado. Poderão até surgir evidências da participação de fatores climáticos como a redução do volume de chuvas, aumento da temperatura regional, mudança do regime dos ventos, influências do El Niño e La Niña, entre outros, porém, as ações antrópicas, aquelas criadas pelas mãos e obras dos homens, continuarão sendo as que mais contribuíram para a catástrofe ambiental que assistimos no rio Araguaia.

Analisando a situação do Araguaia, me deparei com um fato extremamente preocupante e sobre o qual não poderia deixar de tecer um comentário: os botos do Araguaia (Inia araguaiensis), uma espécie que há bem pouco tempo passou a ser classificada como uma espécie diferente dos botos da bacia Amazônica, corre sérios riscos de extinção em virtude de todo o “conjunto da obra” que encontramos neste rio.

Em 2014, um estudo conjunto de pesquisadores da UFAM – Universidade Federal do Amazonas, do INPA – Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia e da Universidade de Dundee da Escócia, comprovou, através de uma série de análises genéticas, que os botos do rio Araguaia se separaram dos botos do restante da bacia Amazônica entre um e dois milhões de anos atrás, passando a constituir uma espécie diferente. Segundos os estudos, as corredeiras existentes na região do Baixo Rio Tocantins, atualmente submersas em grande parte pelo lago formado pela Usina Hidrelétrica de Tucuruí, no Sul do Estado do Pará, isolou uma população de botos que, com o passar do tempo, desenvolveu características físicas e genéticas diferentes. Algumas destas diferenças são um crânio mais largo e a presença de um número menor de dentes em comparação a outras espécies de boto do gênero Inia.

A descoberta de “novas” espécies de animais conhecidos não é uma novidade para a ciência. Dois exemplos muito recentes envolvem as girafas e os elefantes africanos, dois dos animais mais conhecidos de todo o mundo. Até bem poucos anos atrás se acreditava que havia uma única espécie de cada animal em todo o continente africano. Com o desenvolvimento das técnicas para o sequenciamento cada vez mais preciso do DNA, a identificação genética de todos os seres vivos, os pesquisadores começaram a perceber diferenças entre as girafas e os elefantes de diferentes regiões da África. Graças a estes novos estudos, hoje já é possível afirmar que existem, pelo menos, duas espécies diferentes de girafas e duas espécies de elefantes africanos – com o desenvolvimento de novas tecnologias e novos estudos, talvez estas famílias venham crescer ainda mais. No caso dos botos, havia uma percepção generalizada que todos os animais dos diferentes rios da bacia Amazônica, na qual os rios Tocantins e Araguaia estão contidos, pertenciam às mesmas espécies – em águas da Amazônia brasileira, as principais espécies são o boto cinza (Sotalia guianensis), o boto tucuxi (Sotalia fluviatilis) e o boto-cor-de-rosa (Inia geoffrensis). A constatação que o boto do Araguaia é na verdade uma espécie diferente é fundamental para um esforço de preservação ainda maior.

De acordo com as estimativas dos pesquisadores, a população de botos do Araguaia está entre 900 e 1.500 animais. Essa população se divide entre os rios Tocantins e Araguaia, sendo que o grupo que vive nas águas do rio Tocantins é a que se encontra em um estado mais crítico. A construção de diversas barragens dividiu as populações em pequenos grupos sem comunicação, condição que leva ao enfraquecimento genético dos animais – em populações isoladas, tanto humanas quanto de animais, passa a ocorrer o cruzamento entre indivíduos da mesma família, o que reduz a diversidade genética dos indivíduos e aumenta os risco de extinção do grupo. De acordo com o Instituto Araguaia, entidade que se dedica à conservação e preservação da biodiversidade e processos ecológicos do rio Araguaia, existe um grupo de botos vermelhos, mais conhecidos como boto-cor-de-rosa, isolado no trecho entre as Usinas Hidrelétricas de Serra Mesa e Canabrava em Goiás. Sem a intervenção humana, o isolamento genético deste grupo poderá, a longo prazo, resultar no desaparecimento da espécie neste trecho.

Além do isolamento dos grupos, da redução cada vez maior dos caudais dos rios, do açoreamento e da destruição dos seus habitats, os botos do Araguaia ainda têm de enfrentar um inimigo furioso: os pescadores. Os botos de todas as espécies são animais muito inteligentes e oportunistas – eles nunca perdem a chance de fazer um “lanche rápido” sempre que a oportunidade aparece. E costumam fazer isso quando percebem que as redes dos pescadores está cheia de peixes. Os pescadores, é claro, não estão dispostos a dividir o fruto do seu trabalho, cada vez mais difícil por causa da degradação ambiental dos rios, e fazem de tudo para espantar os botos – muitas vezes a bala ou jogando iscas envenenadas.

Em 2010, eu participei de uma pescaria no rio Jamari, um dos afluentes do rio Madeira em Rondônia, num trecho exatamente abaixo da barragem da Usina Hidrelétrica de Samuel. Enquanto tentava fisgar algum peixe (capturei um único bagre), passei a observar grupos de botos cinza e cor-de-rosa que nadavam ao redor do barco – fiquei pensando nos problemas que a construção daquela barragem bem na minha frente trouxe para as espécies. Como é comum em outras hidrelétricas, a de Samuel não possui nenhum dispositivo que permita a “migração” de peixes, cetáceos, répteis ou qualquer outro ser vivo de um lado para o outro da barragem. Conversando com o “piloteiro” do barco, nativo e morador das margens do rio, fiquei sabendo que a partir da construção da Usina Hidrelétrica de Samuel foram inúmeras as espécies de peixes que simplesmente “desapareceram” das águas do rio Jamari. É esse mesmo processo de fragmentação dos habitats aquáticos que ameaça, junto é claro com outros problemas de degradação das águas, a sobrevivência do recém “descoberto” boto do rio Araguaia.

Essa sina dos botos do Araguaia e da Amazônia não é uma exclusividade dos delfinídeos de água doce do Brasil – todas as espécies de “golfinhos” de rio do mundo estão sofrendo por causa da poluição e da destruição dos habitats. Em 2006, o baiji ou boto do rio Yangtzé (rio Azul) na China foi declarado extinto, vitima da sobre pesca, da construção de barragens e, sobretudo, por causa da poluição – 60% dos rios da China estão em condições extremas de poluição: os rios mais poluídos do Brasil, se comparados aos rios chineses, podem ser considerados “verdadeiros regatos das montanhas”.

Até quando nós vamos continuar tolerando este tipo de agressão?

Veja também:

OS GOLFINHOS E A POLUIÇÃO DOS RIOS

ARAGUAIA: UM RIO QUE PODERÁ DESAPARECER EM 40 ANOS

Xambioá

O rio Araguaia nasce no Estado de Goiás e segue rumo ao Norte, fazendo primeiro a divisa entre o Tocantins e Mato Grosso, seguindo depois para o Pará, até desaguar no rio Tocantins, num curso de aproximadamente 2,1 mil quilômetros. Na cidade de Xambioá, no Norte do Estado do Tocantins, a pesca nas águas do rio Araguaia costumava ser a principal atividade econômica – no final de 2016, os 250 pescadores da cidade retiraram 17,5 toneladas de peixes das águas do rio; passado um ano, a pescaria não chegou a 7 toneladas. De acordo com as informações fornecidas pela Secretaria de Meio Ambiente da pequena cidade, distante 480 km da capital Palmas, o rio Araguaia baixou 2 metros entre os meses de janeiro e outubro, ficando com uma lâmina d’água de apenas 20 cm em muitos trechos. A travessia do rio, que nesta época do ano só podia ser feita de barco, agora pode ser facilmente feita a pé (vide foto).

A desolação que se vê em Xambioá não é exceção – é a regra em toda a calha do rio Araguaia. Um estudo publicado em 2014 pela DEMA – Delegacia Estadual de Repressão a Crimes contra o Meio Ambiente, do Estado de Goiás, concluiu que, a se manter o atual grau de degradação que se observa em suas margens, o Araguaia deixará de existir em até 40 anos. Na opinião da maioria dos especialistas, a causa principal da redução cada vez maior dos caudais do rio Araguaia está no desmatamento de extensas áreas do Cerrado, o que vem ocorrendo desde a década de 1950, mas que aumentou substancialmente nos últimos anos devido ao avanço das fronteiras agrícolas. A principal responsável por esse avanço tem nome e sobrenome: a soja Doko, uma variedade da oleaginosa de origem chinesa desenvolvida pela Embrapa Cerrados.

Os solos do Cerrado sempre foram considerados muito pobres e extremamente ácidos para o cultivo em larga escala. O primeiro passo para a solução destes problemas foi o desenvolvimento de técnicas agrícolas como a calagem, onde é feita a correção do solo a partir da aplicação de calcário, a adubação fosfatada e a adubação potássica, entre outras. O grande salto da agricultura na região se deu mesmo em 1980, quando foi lançada a soja Doko. Resultado de mais de 10 anos de trabalhos de pesquisa e cruzamento de milhares de variedades de soja, a Doko se adaptou perfeitamente ao solo e ao clima do Cerrado. Em poucas décadas, surgiram imensos campos de cultivo da variedade em áreas do Cerrado nos Estados de Goiás, Tocantins, Minas Gerais, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul; em anos mais recentes, a cultura se expandiu para a região Oeste da Bahia e em partes do Piauí e do Maranhão. As estimativas de produção da safra 2016/2017 são de 114 milhões de toneladas, com uma área plantada de aproximadamente 34 milhões de hectares, o que coloca o Brasil como o segundo maior produtor mundial da oleaginosa, muito próximo de alcançar o primeiro colocado, os Estados Unidos.

Todo esse sucesso, que faz a alegria dos grandes produtores e proporciona enormes saldos comerciais na balança de exportação do país, teve um alto custo ambiental, que pouco a pouco começa a enviar a “fatura” a todos nós: calcula-se que metade da vegetação nativa do Cerrado sucumbiu ao avanço da agroindústria – a forte estiagem que passamos a observar nos rios da região no período da seca, inclusive com alguns rios secando completamente, é uma das consequências mais visíveis de todo este desmatamento. Conforme comentei em minha última postagem, as árvores e arbustos raquíticos do Cerrado não nos impressionam à primeira vista, especialmente quando comparados à vegetação de grande porte da Amazônia e da Mata Atlântica; é inclusive corriqueiro se confundir a vegetação do Cerrado com a Caatinga. Apesar da aparente fragilidade, as árvores e arbustos do Cerrado possuem um enorme e profundo sistema de raízes, adaptadas para captar a água em grandes profundidades no subsolo – é esse sistema radicular o responsável pela infiltração no solo de grandes volumes de água no período das chuvas, contribuindo assim para a recarga dos depósitos subterrâneos. Quando a temporada das chuvas se encerra, serão estes lençóis e aquíferos que fornecerão a água para as nascentes dos riachos e rios que brotam por todos os cantos do Bioma, acertadamente chamado de Berço das Águas do Brasil.

Com o corte da vegetação do Cerrado e o plantio da soja, do milho ou da grama usada na formação das pastagens para os rebanhos, esse mecanismo de recarga dos aquíferos é interrompido – essa plantas possuem raízes “ridiculamente” curtas e não permitem a infiltração de grandes volumes de água no solo. O resultado é um aumento na velocidade superficial da água das chuvas sobre o solo, carreando grandes volumes de sedimentos e areia, que acabam lançados nas calhas dos rios. No período das chuvas, os rios ficam sujeitos a fortes enchentes; na época da seca, pela grande redução dos volumes de água armazenada no subsolo, os rios definham – alguns, como já citamos, passaram a se comportar como rios intermitentes como aqueles do Semiárido nordestino.

Com nascentes na Serra do Caiapó, na divisa entre Goiás e Mato Grosso, o Araguaia já foi considerado um dos rios mais piscosos do mundo, atraindo praticantes da pesca esportiva de todos os cantos do Brasil e do exterior. Com a inauguração da Usina Hidrelétrica de Tucuruí no sul do Estado do Pará em 1984, que não foi projetada de forma a permitir a migração dos peixes de piracema nos períodos de desova, teve início um processo de declínio da ictiofauna no rio Tocantins e, consequentemente, no rio Araguaia, seu maior tributário. De rio sem peixe a rio sem água, foi um “pulo”. A redução sistemática dos caudais do rio, que na época da seca mais parece um córrego em muitas regiões, tem afetado a economia e a vida de inúmeras comunidades ribeirinhas, que retiravam seu sustento das águas durante o ano todo com a pesca, com o transporte fluvial de mercadorias e com o turismo. Agora, com o rio apresentando bons volumes de água apenas nos períodos das chuvas, vivem numa espécie de “trabalho em meio período”, o que não é bom para ninguém.

Preocupações com a devastação ambiental no Araguaia existem desde o final da década de 1970, quando o rio tinha o apelido de “lixão” devido ao despejo de grandes quantidades de resíduos sólidos, tanto pelas cidades quanto pelos turistas, que corriam para a região em busca dos peixes e deixavam todo o seu lixo nos locais dos acampamentos. Uma das primeiras iniciativas com fins de preservação do rio Araguaia foi a criação do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Répteis e Anfíbios (hoje ligado ao ICMBIO – Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), que mantém, entre outros, o Projeto Quelônios do Araguaia. Também surgiu Projeto “Araguaia Sustentável“, realizado há 27 anos pelo Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Répteis e Anfíbios, além de inúmeras iniciativas de organizações não governamentais em toda a bacia hidrográfica. Todas essas maravilhosas iniciativas, infelizmente, correm o risco de se tornar inócuas caso o rio Araguaia continue em sua marcha rumo ao desaparecimento.

Muitos meses atrás eu escrevi um post falando do famoso rio Nilo do Egito – poucos sabem, mas, até uns 10 mil anos atrás, o Nilo tinha um curso bem mais longo – ele virava para o Leste e atravessava todo o Norte da África, desaguando no Oceano Atlântico. Uma drástica mudança climática fez o rio mudar seu curso, que passou a seguir direto rumo ao Norte e desaguando no Mar Mediterrâneo. Uma das consequências desta mudança de curso foi o surgimento do Saara, o maior deserto do mundo. Se o rio Araguaia vier a desaparecer, como dizem alguns estudos, as consequências ambientais não vão ficar muito distantes do que ocorreu com o Norte da África…

A IMPLACÁVEL SECA NA ILHA DO BANANAL

Seca na Ilha do Bananal

A seca é um fenômeno natural que, periodicamente, assola algumas regiões do território brasileiro. Sempre que alguém toca neste assunto, é comum que venham às nossas mentes as imagens das violentas estiagens que assolam o Semiárido nordestino. Essas imagens aparecem com força na nossa literatura, teatro e cinema, com destaque para as obras clássicas – Vidas Secas, de Graciliano Ramos, e O Quinze, de Rachel de Queiroz. Entretanto, como venho mostrando nesta sequência de publicações, já se foram os tempos das grandes secas localizadas exclusivamente na região do Semiárido – extensas áreas das regiões Sudeste, Centro-Oeste, Sul e até mesmo da região da Amazônia, vem sendo afetadas por fortes estiagens. Vejam o que está acontecendo no coração do Brasil:

A Ilha do Bananal é considerada a maior ilha fluvial do mundo e declarada área da Reserva Mundial da Biosfera pela UNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura. Com aproximadamente 20 mil km², a ilha é pouca coisa menor que o Estado de Sergipe, que tem uma área total de 21.190 km² – somente por esta apresentação, vocês podem ter uma ideia do tamanho do território. Eu lembro dos meus tempos de infância, época em que nosso país era governado por uma junta militar, quando se falava muito da Ilha do Bananal – sistematicamente, grandes reportagens mostravam a beleza selvagem do lugar, com muita água, matas e tribos indígenas. Em tempos mais recentes, tenho a impressão que a Ilha ficou um tanto esquecida dos brasileiros.

Localizada entre os Estado de Tocantins, Mato Grosso e Goiás, a Ilha do Bananal se formou por uma espécie de capricho da natureza, quando o rio Araguaia resolver se dividir em dois cursos distintos, mantendo de um lado o seu curso principal, e um braço do outro lado chamado rio Javaés. Desde 1959, a região é considerada uma reserva ambiental, inclusive com a presença de vários territórios indígenas – a Ilha é há séculos o local de morada dos povos Karajá e Javaé, grupos que se subdividem em vários grupos indígenas.

O conceito geográfico de ilha, imagino eu, é um dos mais facilmente lembrados dos tempos do ensino fundamental: “porção de terra cercada de água por todos os lados”. No caso da Ilha do Bananal, esse conceito está a um passo de deixar de ser verdadeiro – a seca intensa que está assolando uma parte da região Centro-Oeste, reduziu trechos do rio Araguaia a um filete de água, deixando grandes bancos de areia a mostra, e a lâmina de água se apresentando com profundidades inferiores a 20 cm. Trechos que antes só podiam ser atravessadas com barcos ou balsas, agora são atravessados facilmente a pé; dependendo do trecho, até veículos comuns conseguem atravessar as “águas” e chegar até a “ilha”. A falta de águas chegou a um nível tão crítico que os indígenas não estão conseguindo mais pescar, uma das atividades mais tradicionais de sua cultura.

Com o avanço da fronteira agrícola na região do Cerrado Brasileiro, considerado o segundo maior bioma da América do Sul com área superior a 2 milhões de km², teve início um processo contínuo de corte da vegetação nativa e sua substituição por grãos como milho e soja, ou simplesmente a formação de extensas pastagens para acomodar gigantescos rebanhos bovinos. As abundantes fontes de água do Cerrado, que lhe valeu o título de Berço das Águas do Brasil, dependem fundamentalmente das raízes da vegetação nativa para a recarga dos reservatórios e aquíferos subterrâneos. Apesar do aspecto raquítico das árvores e arbustos, que lembram muito a vegetação da Caatinga, a vegetação do Cerrado possui sistemas de raízes gigantescos, que atingem grandes profundidades e que são fundamentais para auxiliar a água das chuva a infiltrar no solo e recarregar as fontes subterrâneas. Com o fim da temporada das chuvas, tem início a estação seca, quando toda esta água acumulada no subsolo irá fluir para alimentar as nascentes de água. Apesar da forte aridez deste período, os rios e nascentes do Cerrado não secavam nos períodos de estiagem, algo muito comum em rios da região do Semiárido nordestino. Eu fiz questão de utilizar o verbo no passado (secavam) porque, atualmente, muitos rios da região passaram a ser intermitentes: apresentam água corrente no período das chuvas e secam completamente no período das secas.

O outrora caudaloso rio Araguaia, um dos mais importantes da região Central do Brasil, há muito vem apresentando sinais de estresse hídrico, chegando muito perto de secar completamente nos momentos mais crônicos das estiagens. E a Ilha do Bananal, que deveria estar literalmente cercada por águas do Araguaia, vem sofrendo intensamente com a seca.

Sem receber chuvas a mais de cinco meses, a Ilha do Bananal tem assistido um processo contínuo de desaparecimento de nascentes e fontes de água no interior do seu território, fenômeno que está causando a morte de inúmeros animais, tanto da fauna silvestre quanto de criações. No último mês de outubro, equipes de fiscalização do IBAMA – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis e do PREVFOGO – Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais, foram mobilizadas para o resgate de animais que ficaram presos em poças de lama por toda a Ilha, especialmente jacarés, capivaras e bois (vide foto). Com a falta de chuvas, as lagoas foram reduzindo seu tamanho gradativamente até ficarem restritas a pequenas poças de lama – os jacarés, moradores mais conhecidos destes habitats, acabaram presos nestes locais, sob forte risco de morte por desidratação; no caso dos animais domésticos, é a busca desesperada por água que leva os animais a se arriscar nos atoleiros, ficando atolados na grossa camada de lama. Sem auxílio humano, a morte seria inevitável para todos.

Apesar dos enormes esforços das equipes, o resgate destes animais não é tarefa fácil, especialmente se tratando dos jacarés. Acuados, os animais se tornam violentos e demonstram toda a força de um corpo que pode ter mais de 300 kg de peso – é necessária a força combinada de vários profissionais para imobilizar e amarrar os animais, carregá-los até os veículos e transportá-los para soltura em áreas que ainda apresentem bons níveis de água. Como as previsões indicam que as chuvas só devem voltar a cair na região em dezembro, haverá muito trabalho pela frente.

Apesar de ser classificada como reserva ambiental e possuir várias áreas indígenas, razões que fariam pressupor acesso restrito e a preservação ambiental, a Ilha do Bananal é, há muito tempo, usada como local de pastagem para rebanhos bovinos, que podem chegar a um total de 100 mil cabeças a cada ano, levados  pelos fazendeiros da região e que transformam importantes áreas de preservação em “restaurantes particulares”. Apesar dos líderes tribais receberem uma espécie de “aluguel” pelo uso das pastagens, estas verdadeiras invasões criam grandes problemas para os indígenas, que necessitam da terra e das matas para o cultivo de suas roças, para a coleta de frutas e a da caça de pequenos animais. O grau de penúria das comunidades indígenas ficou completo com o avanço da forte estiagem, que reduziu drasticamente a pesca, a maior fonte de proteína animal destas populações. Relatos falam que, há não muito tempo atrás, as águas dos rios Araguaia e Javaés garantiam aos nativos capturas entre 70 e 80 kg de peixe sem maiores esforços. Nos últimos anos, com a intensificação dos efeitos da seca e a redução drástica do nível dos rios, é preciso que se trabalhe dobrado para conseguir apenas a metade dos peixes. Além dos prejuízos para a pesca, a baixa profundidade dos rios tem tornado cada vez mais fácil o acesso de pessoas, veículos e de animais domésticos para o território da Ilha, que sofre intensamente com a forte pressão ambiental – o relativo isolamento da Ilha do Bananal era uma das chaves para a sua preservação; agora, transformada numa espécie de península nas épocas da seca, caminha para se transformar numa espécie de terra de ninguém.

Na próxima postagem, vamos falar um pouco mais dos graves problemas do rio Araguaia.

OS ALTOS E, CADA VEZ MAIS, BAIXOS NÍVEIS DO RESERVATÓRIO DE TRÊS MARIAS

Represa Três Marias

Entre os anos de 2014 e 2015, muitos de vocês devem se lembrar, uma fortíssima estiagem atingiu em cheio a região Sudeste do Brasil, em especial os Estados de São Paulo e Minas Gerais. Essa estiagem ganhou contornos dramáticos quanto o Sistema Cantareira, o maior conjunto de reservatórios de água para o abastecimento das Regiões Metropolitanas de São Paulo e de Campinas, entrou no chamado “volume morto”, ameaçando o abastecimento de uma população de aproximadamente 20 milhões de pessoas. Uma pauta diária nos telejornais em rede nacional mostrava as quedas sucessivas do nível das represas, apresentando a cada dia índices cada vez mais negativos. Foi necessário um esforço tremendo de toda a população na economia de água, inclusive com a adoção de procedimentos de redução de pressão na rede de distribuição e racionamento de água em algumas regiões até que as chuvas retornassem ao Sudeste e se iniciasse a recuperação lenta e gradual do Sistema Cantareira.

Muito menor divulgação na mídia nacional teve a forte estiagem que se abateu sobre a Represa de Três Marias, em Minas Gerais, um dos maiores e mais importantes reservatórios da bacia hidrográfica do Rio São Francisco. Em 2014, no final do período da seca, o nível da represa chegou a casa de 2,5%, o menor desde o fechamento das comportas em 1962, o que obrigou o desligamento de várias turbinas da importante usina hidrelétrica, que tem uma capacidade de 396 MW/h e responde por um terço de toda a energia elétrica gerada no São Francisco. Naquele momento, a barragem da Usina Hidrelétrica de Sobradinho apresentava um nível acima dos 27% da capacidade máxima, o que comparado aos parcos 5% que apresenta nos nossos dias, era um verdadeiro “mundaréu de água”.

De acordo com dados do Portal das Usinas e Reservatórios da CEMIG – Companhia Energética de Minas Gerais, empresa responsável pela administração e operação da Usina Hidrelétrica de Três Marias, a situação vivida pelo reservatório não é nada confortável – no último dia 12 de novembro, o nível máximo da lâmina d’água estava em 6,4% da cota máxima e em queda constante. Quando analisamos as cotas do reservatório desde o início do ano, encontramos o nível em 25% no dia 1° de janeiro, já em pleno período das chuvas – esse nível atingiu a cota máxima em 12 de abril, quando a lâmina d’água bateu no nível dos 33% e, deste momento para cá, o nível vem em queda constante. Aliás, há muitos anos que não se assistem cenas do reservatório da barragem “sangrando” para liberar o excesso de água armazenada.

A Usina Hidrelétrica de Três Marias foi inaugurada em 1962 e, na época, foi considerada uma das mais importantes do Brasil. Com uma barragem relativamente pequena, com 2, 7 km de comprimento, o reservatório formado possuía uma capacidade para armazenar 21 bilhões de metros cúbicos de água, com uma área de espelho d’água com aproximadamente 1.040 km² e um potencial de geração de energia elétrica que atenderia grande parte do país na época. Contam os locais que o nome do lugar se deve a uma antiga hospedaria de fazenda, parada obrigatória para os viajantes e tropeiros do passado, administrada por três irmãs: Maria Francisca, Maria das Dores e Maria Geralda, mais conhecidas como as Três Marias. Tragicamente, as irmãs morreram afogadas: as três nadavam no rio quando houve numa repentina cabeça de enchente, evento que ocorre quando as águas de fortes chuvas chegam velozmente ao rio e arrastam com violência tudo o que está pela frente.

Localizada em um Estado que não tem fachada oceânica, a represa acabou por se transformar em um grande polo turístico da região central de Minas Gerais, chamado de Circuito Turístico do Lago de Três Marias. A represa se espalha por áreas dos municípios de São Gonçalo do Abaeté, Felixlândia, Morada Nova de Minas, Biquinhas, Paineiras, Pompeu, Martinho Campos e Abaeté. Além da grande importância turística, apoiada em dezenas de clubes de campo e náuticos instalados em terras nas suas margens, muitas destas localidades dependem das águas da represa para o abastecimento público e o transporte de veículos e pessoas através de balsas, que encurta em dezenas de quilômetros a tradicional ligação rodoviária.

As razões para a escolha da região se devem ao relevo e à grande disponibilidade de fontes de água no Alto Rio São Francisco. Conforme já comentamos em postagem anterior, a bacia hidrográfica do Rio São Francisco abrange uma área total de 639.217 km² e se estende por sete unidades da federação, englobando um total de 521 municípios, o que corresponde a cerca de 9% do total de municípios do país – mais de 15 milhões de brasileiros vivem na região da bacia hidrográfica, o que equivale a 7,5% da população do Brasil. Uma característica desta bacia hidrográfica é que ela tem aproximadamente 37% de sua área dentro das fronteiras do Estado de Minas Gerais, porém a contribuição de águas que ela recebe dos inúmeros rios tributários mineiros corresponde a aproximadamente 75% do total de caudais do Rio São Francisco. Para efeito de comparação, o trecho baiano do Médio São Francisco desde a divisa de Minas Gerais e Bahia até a cidade de Juazeiro, que representa 45% da área total da bacia hidrográfica, possui afluentes que contribuem com apenas 20% das águas do Velho Chico. Logo, a responsabilidade maior pela qualidade e quantidade das águas da bacia hidrográfica se dá em terras mineiras.

Infelizmente, o quadro ambiental que se assiste em todo o trecho mineiro da bacia hidrográfica do rio São Francisco não é dos mais animadores: a sistemática destruição de matas ciliares, trechos remanescentes da Mata Atlântica e das famosas veredas dos textos de Guimarães Rosa; os avanços das áreas de mineração e todo o conjunto de problemas que a atividade gera ao meio ambiente; o crescimento desordenado de cidades que, sem a devida criação de infraestruturas, lançam enormes quantidades de esgotos in natura e resíduos sólidos nas águas dos inúmeros afluentes da bacia hidrográfica; a destruição de extensas áreas do Bioma Cerrado, considerado o Berço das Águas do Brasil, pelo avanço da fronteira agrícola. A somatória de todas estas atividades antrópicas, combinada com alguns fatores climáticos regionais observados, têm resultado numa diminuição sistemática dos caudais do rio São Francisco, o que é particularmente visível nos reservatórios de Três Marias e de Sobradinho, que há vários anos não vem conseguindo atingir os volumes de água acumulada registrados em tempos passados.

Em Três Marias, os baixos níveis da represa resultaram na destruição da indústria turística: dezenas de hotéis, pousadas e clubes náuticos, outrora localizados a poucos metros da linha d’água, agora estão distantes centenas de metros da represa. Sistemas de captação de água para o abastecimento de comunidades necessitam, sistematicamente, de ampliações nas tubulações de captação para que se consiga acompanhar o ritmo do recuo da lâmina d’água. Turbinas geradoras de energia elétrica precisam ser desligadas por causa da falta de água. Por fim, sistemas de balsas rodoviárias tiveram as suas operações interrompidas – falta água em profundidade segura para a navegação; algumas comunidades isoladas agora necessitam de acessos rodoviários, com percursos várias vezes mais longos, para o transporte de pessoas e de cargas; entre os habitantes locais mais afetados pela paralização destes serviços, estão os alunos que frequentam escolas em outras cidades.

Lendo as minhas postagens, vocês perceberão facilmente que, na grande maioria das situações, a seca é o resultado dos humores e caprichos do clima global e de toda a sua complexidade de fenômenos naturais. Em muitos casos, porém, o que se assiste é o resultado de décadas de irresponsabilidade humana no uso dos recursos naturais, sem pensar nas consequências futuras destes atos. Creio eu que, muito do está acontecendo em Três Marias e em toda a bacia hidrográfica do rio São Francisco, têm enorme responsabilidade de mãos humanas e muito pouco de origem natural.

LAGOA DE ITAPARICA SECA E 3 MILHÕES DE PEIXES MORREM NO NORTE DA BAHIA

Lagoa Itaparica

Quem acompanha o blog, já deve ter percebido que o rio São Francisco é um assíduo frequentador do espaço e tema recorrente das postagens aqui publicadas. Infelizmente, segue mais um post para a coleção das tragédias “franciscanas”:

A Lagoa de Itaparica, considerada a maior lagoa marginal do rio São Francisco, secou e, de acordo com informações do IBAMA – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis, cerca de 3 milhões de peixes que viviam nas suas águas morreram. Localizada entre as cidades de Xique-Xique e Gentio do Ouro no Norte do Estado da Bahia, a Lagoa de Itaparica já chegou a possuir um espelho d’água com área de 24 km² e uma profundidade máxima de 6 metros – nos últimos anos, já em crise, a profundidade mal conseguia passar de 1 metro. De acordo com as informações disponíveis, essa é a quarta vez que a lagoa seca nos últimos 40 anos, sendo que a última vez que isso aconteceu foi em 2015.

Antes da construção da barragem de Sobradinho e a inundação da grande área que foi ocupada pelo lago, as margens do rio São Francisco nesta região possuíam inúmeras lagoas marginais. Estas lagoas funcionavam segundo o princípio dos vasos comunicantes, acompanhando o sobe e desce das águas do rio São Francisco. Uma das funções ecológicas mais importantes destas lagoas marginais, que lamentavelmente se perdeu, era a formação de espaços com águas calmas e protegidas, usadas pelos peixes para reprodução. Protegidos dos predadores e com abundância de alimentos, os pequenos alevinos frequentavam essas verdadeiras maternidades durante seus primeiros meses de vida, só migrando para as águas do São Francisco quando estivessem crescidos e com maiores condições para viver num ambiente mais turbulento e hostil. Esse mecanismo garantia a renovação frequente dos estoques de peixes, o que assegurava a sobrevivência das espécies e a fartura da pesca para os ribeirinhos de toda a bacia hidrográfica. O São Francisco já foi considerado um dos rios mais piscosos do Brasil, com registro de 158 diferentes espécies de peixes na bacia hidrográfica, algumas endêmicas. Entre as espécies de peixes destacam-se o curimatá-pacu, curimatá-pioa, dourado, matrinxã, piau-verdadeiro, o pirá e o surubim, peixe que já foi considerado um dos símbolos do rio São Francisco. Com a construção das barragens, os desmatamentos das margens, o assoreamento do leito e a poluição das águas, o Velho Chico viu as suas águas e peixes rarearem cada vez mais. O “surubim” que é servido atualmente em muitos restaurantes de cidades na beira do rio São Francisco é na verdade um peixe conhecido como cachara, natural da bacia Amazônica e primo distante do surubim verdadeiro – os “genéricos” chegaram ao mercado dos peixes.

Em sistemas com vasos comunicantes, relembrando as aulas de física, o líquido contido nos recipientes fica em equilíbrio: a altura do líquido é a mesma em todos os recipientes, independentemente da forma ou tamanho dos mesmos, desde que haja um canal ou tubo de comunicação entre esses vasos; ocorrendo a interrupção da ligação entre os vasos, o sistema tende ao desequilíbrio – é justamente essa a causa do desaparecimento da Lagoa de Itaparica. Como já comentamos em diversas postagens anteriores, o Lago de Sobradinho, já há muito tempo, vem apresentando um declínio contínuo do seu espelho d’água. Com a redução do nível de Sobradinho, a sua ligação com a Lagoa de Itaparica foi interrompida, deixando suas águas num sistema fechado, que na hidrologia recebe o nome de bacia endorreica. Um exemplo clássico de bacia endorreica é o Mar Morto, localizado entre Israel e Jordânia. O Mar Morto tem como única fonte de abastecimento as águas do rio Jordão e perde aproximadamente o mesmo volume de água para o forte calor do deserto pela evaporação, o que mantinha o nível do lago razoavelmente estável. Nas últimas décadas, devido ao aumento do consumo de água para uso em irrigação, o Mar Morto já perdeu 40% do seu volume de água e, se nada for feito, tenderá a secar completamente nos próximos anos. Outros exemplos dramáticos de bacias endorreicas que estão secando ou secaram pela falta de aporte de águas são o Mar de Aral, na Ásia Central, o lago Chade, na África subsariana, e o Lago Poopó, na Bolívia – a Lagoa de Itaparica, infelizmente, acaba de juntar a essa trágica lista.

De acordo com as informações técnicas disponíveis, a Lagoa de Itaparica perde anualmente por evaporação o equivalente a 2.400 mm – isto significa que cada metro quadrado da superfície do espelho d’água perde uma coluna de água com 2,4 metros de altura ou um volume equivalente a 2.400 litros de água. A pluviometria anual na região, que tem um clima Semiárido, é de apenas 600 mm, o que corresponde a um volume de 600 litros de água de chuva para cada metro quadrado. O déficit hídrico resultante da água que se perde por evaporação e os aportes fornecidos pelas chuvas era coberto pelas águas do rio São Francisco – sem as águas do Velho Chico, as águas da Lagoa de Itaparica “zeraram” em poucos meses – uma trágica e simples operação matemática.

Pela sua importância, a região da Lagoa de Itaparica foi elevada em 1997 à condição de APA – Área de Proteção Ambiental, através de decreto assinado pelo Governo da Bahia. Uma APA é uma Unidade de Conservação (UC) de uso sustentável, que tem como objetivo a compatibilização entre a conservação da natureza e o uso sustentável de uma parcela de seus recursos naturais pela população. De acordo com a legislação ambiental vigente, os 78.450 hectares da APA da Lagoa de Itaparica deveriam estar livres da caça e da pesca predatória, da extração de areia e pedras para uso na construção civil, além da ação dos garimpeiros, que reviram os solos em busca de cristais, ouro e diamantes. Moradores da região teriam autorização para pesca de subsistência, desde que não utilizassem redes de arrasto. Uma outra função importante do reservatório era a dessendentação dos rebanhos de animais criados na região. A fiscalização desta Unidade de Conservação pelas autoridades ambientais nunca foi minimamente adequada.

Na área de entorno da Lagoa de Itaparica vive uma população “ribeirinha” calculada em 2 mil famílias, que costumavam chamar o corpo d’água de “Mãe da Pobreza”. Essa população, agora completamente desamparada, retirava seu sustento das águas da Lagoa – diretamente através da pesca e indiretamente pela criação de animais e pelo cultivo irrigado de pequenas culturas de subsistência. Mesmo nos períodos de seca, quando as águas recuavam, era possível escavar poços no leito seco e obter água para o consumo nas casas e a dessedentação dos animais. Com o desaparecimento completo das águas, toda essa cadeia de consumo entrou em colapso. Quando se analisa a situação do lago de Sobradinho, que caminha a passos largos para atingir o volume morto, a situação da Lagoa de Itaparica e de toda a população que depende das suas águas para sobreviver ganha contornos de tragédia ambiental.

Graças aos esforços voluntários de professores e alunos do curso de engenharia ambiental da UNEB – Universidade Estadual da Bahia, de membros do Corpo de Bombeiros, de funcionários das Secretarias Municipais de Meio Ambiente e do IBAMA, milhares de peixes, que estavam morrendo nas últimas poças d’água, puderam ser salvos e transportados para as poucas águas que ainda teimam em permanecer no Lago de Sobradinho – ao menos 3 milhões de peixes não tiveram a mesma sorte e morreram asfixiados pelo ar seco do Semiárido: a foto que ilustra este post mostra o tamanho da tragédia. Planos para recuperar a Lagoa de Itaparica, existem muitos, mas todos sabemos das dificuldades que existem para tira-los do papel.

Restaram apenas as lembranças e a fé inabalável dos sertanejos, que sempre acreditam na chegada de dias melhores.