RIO GUANDU: UMA LUTA DESIGUAL CONTRA A POLUIÇÃO

Muda

Preste-se atenção nesta lista de compras: 140 toneladas de Sulfato de Alumínio, 20 toneladas de Cloreto Férrico, 15 toneladas de Cloro, 25 toneladas de Cal Virgem, 10 toneladas de Ácido Fluossilícico, entre outros produtos químicos.

Em algumas cidades, esse é o consumo mensal de produtos químicos utilizados em estações de tratamento de água. Porém, na Estação de Tratamento de Água do Rio Guandu esse é o consumo médio diário – em dias de chuva, devido ao aumento da quantidade de lixo e de esgoto carreados para o canal do rio, esse volume de produtos químicos pode até triplicar.

A poluição excessiva das águas do Rio Guandu está na origem desse uso “abusivo” de produtos químicos. Como é de praxe em praticamente todos os mananciais de abastecimento de água no Brasil, faltou gestão no saneamento básico em grande parte da bacia hidrográfica do Guandu: as cidades cresceram sem planejamento e sem contar com sistemas de coleta e tratamento de esgotos – grandes volumes de esgoto in natura são despejados diretamente nos rios; má gestão da coleta do lixo e resíduos sólidos, com despejo inadequado em lixões a céu aberto e risco de contaminação da água com chorume e lixo; desmatamento e ocupação irregular de margens; retirada de areia sem controle e sem seguir as normas ambientais; carreamento anual de milhares toneladas de resíduos de fertilizantes e defensivos agrícolas para as águas entre outros problemas ambientais. Calcula-se que a bacia hidrográfica do Rio Guandu receba aproximadamente 4 bilhões de litros de esgotos todos os dias.

O Rio Guandu é altamente dependente das águas do Rio Paraíba do Sul, do qual é retirado um volume equivalente até 60% das suas águas, que são transferidas através dos sistemas de geração de energia elétrica da Light para a bacia hidrográfica do Guandu. Essa transferência de água corresponde ao volume de até 160 m³/s – estudos demonstram que, desse total, apenas 45 m³/s são utilizados para o consumo humano; o restante é usado para diluir o esgoto presente na água para “facilitar” o tratamento e para conter a entrada de água salgada no rio junto a foz na Baia de Sepetiba, onde se requer uma vazão mínima de 30 m³/s. Esse aparente desperdício de água é fonte de reclamações e de disputa judicial com os estados vizinhos.

O Rio Paraíba do Sul nasce no Estado de São Paulo e segue na direção dos Estados do Rio de Janeiro e Minas Gerais, banhando 184 municípios (39 em São Paulo, 57 no Rio de Janeiro e 88 em Minas Gerais) e abastecendo mais de 15 milhões de pessoas, sendo que 12 milhões moram no Estado do Rio de Janeiro. Sua importância estratégica está por trás da intensa batalha judicial entre os três Estados quanto ao uso das suas águas, quando recente decisão do Supremo Tribunal Federal estabeleceu as regras para a gestão compartilhada das águas do Rio Paraíba do Sul, determinando vazões mínimas para os reservatórios e mudando a prioridade do uso das águas do rio para o abastecimento e não mais para a geração de energia elétrica.

A simples disponibilidade de grandes volumes de água para o abastecimento de cidades não é garantia de oferta de água tratada para os habitantes em quantidade e qualidade adequadas – é preciso cuidado na gestão dos recursos hídricos para uma utilização responsável de cada gota de água. Sem cuidados adequados, os reservatórios podem rapidamente se transformar em verdadeiros depósitos de lixo e esgotos, com altos custos para o tratamento da água para adequá-la ao consumo final. O Rio Guandu é um ótimo exemplo disso.

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