UM ”ICEBERG” QUE ATENDE PELO NOME DE CEDAE

CEDAE

Icebergs são gigantescas montanhas de gelo flutuante que representam um enorme risco para os navios (o Titanic que o diga). Normalmente se consegue ver apenas a ponta do iceberg acima da superfície da água, mas o verdadeiro risco está submerso: 80% da massa de gelo fica abaixo da superfície do mar. Se você assistiu ao filme Titanic, que conta a história do famoso transatlântico que afundou em 1912, vai lembrar que foi o impacto contra o gelo submerso que rasgou a estrutura de aço da embarcação, resultando no naufrágio do navio e na morte de 1.514 pessoas (número oficial).  

Comecei a postagem de hoje citando o iceberg como uma analogia ao que está com a CEDAE – Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro. Conforme mostramos em diversas postagens, as torneiras de muitos cariocas e fluminenses (estimativas falam de mais de 1,5 milhão de pessoas) têm recebido uma água turva e malcheirosa. Ao longo das postagens, mostramos os diversos problemas que acometem o rio Guandu, o principal manancial de abastecimento da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, que sofre com os males de uma poluição crônica já há várias décadas. Os problemas no abastecimento local de água, infelizmente, parecem ser muito mais profundos e, como um grande iceberg, estão escondidos sob a “superfície” das águas. 

Há cerca de duas semanas, relembrando um pouco a cronologia dos fatos, moradores de diversas localidades da Região Metropolitana passaram a reclamar da baixa qualidade das águas que chegavam às suas torneiras. As amostras de água apresentadas em diversas reportagens iam de um tom cor de chá fraco até casos com água barrenta. Representantes da CEDAE, em resposta aos questionamentos feitos por jornalistas, afirmavam que o excesso de poluição no rio Guandu estava prejudicando o tratamento da água na ETA – Estação de Tratamento de Água, homônima, mas insistiam que a água estava potável e que poderia ser consumida sem medo. 

As reclamações e as reportagens mostrando os problemas entraram numa espiral crescente. Na noite da última terça-feira, dia 14 de janeiro, o presidente da CEDAE, Hélio Cabral, anunciou a exoneração do chefe da ETA do Guandu, Júlio Cesar Antunes, uma medida que indicaria uma mudança nos procedimentos operacionais rumo à solução do problema. Também foi anunciado o início do uso de carvão ativado como elemento de filtragem extra para a água, medida que tende a eliminar os problemas criados pela presença de algas na água bruta. Mudanças são sempre bem-vindas e torçamos pelos bons resultados. 

O aparente “jogo de cena” político, entretanto, talvez não seja suficientemente profundo para resolver os problemas internos que a CEDAE vem vivendo neste último ano. O Estado do Rio de Janeiro, com imagino ser do conhecimento de todos, vem sofrendo há muitos anos de todos os males derivados de desmandos na administração pública, corrupção, perda de arrecadação fiscal, entre muitos outros. Dois ex-governadores do Estado, Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão, estão presos e outros dois, Anthony Garotinho e Rosinha Matheus, só estão livres graças a uma série de habeas corpus. As acusações contra eles são inúmeras: desvio de dinheiro público, prevaricação, concorrências fraudulentas, superfaturamento de obras, entre muitas outras. 

A CEDAE, uma empresa de economia mista que tem como principal acionista o Governo do Estado do Rio de Janeiro, é claro que não ficaria imune a tantos problemas. Com a chegada ao poder do Governador Wilson Witzel, um ex-juiz federal “linha dura”, em janeiro de 2019, uma série de mudanças e “limpezas” na máquina pública que foram prometidas durante a campanha passaram a ser colocadas em prática. 

O novo presidente da Estatal, Hélio Cabral, começou a mostrar serviço já nos primeiros meses de trabalho, quando demitiu 54 funcionários que ocupavam cargos de alto nível na empresa. Entre os demitidos estavam engenheiros, analistas de qualidade da água, contadores e administradores, além de um economista, um arquiteto e um geólogo. A grande maioria desses funcionários trabalhava na empresa há mais de 25 anos. A nova direção da CEDAE alegou que esses funcionários ganhavam altos salários, entre R$ 35 mil e R$ 80 mil, e ocupavam cargos apenas por indicação política. Com a saída desses funcionários, a empresa economizaria até R$ 100 milhões por ano. 

De acordo com reportagem do jornal Extra, a nova administração da CEDAE adotou uma série de medidas administrativas entre janeiro e agosto, visando maior eficiência e redução de custos:

Na área de gestão de pessoas, como redução de 37,1% dos cargos em comissão, que já resultaram na economia do equivalente a 12% nas despesas com pessoal. As despesas administrativas também foram reduzidas, com a diminuição de 25% dos gastos com transporte administrativo; de 20,9% da despesa com combustíveis; e de 44,2% do número de telefones móveis e mini-modems corporativos.” 

A empresa também criou um PDV – Programa de Demissão Voluntária, voltado para os funcionários com interesse em deixar a empresa mediante o recebimento de uma boa indenização trabalhista. O quadro de funcionários da CEDAE apresentava cerca de 5.200 empregados em novembro de 2019 e a empresa trabalhava com a expectativa de desligar cerca de 800 funcionários ou 15% da força de trabalho.

Em duas ocasiões ao longo da minha carreira profissional passei por processos vigorosos de reestruturação de empresas, onde vi muitos colegas de trabalho serem demitidos sumariamente e “sem dó” ou então induzidas a aceitar uma “demissão” voluntária – quem consegue sobreviver à degola fica traumatizado e são necessários meses até que as rotinas se restabeleçam e as coisas voltem à normalidade (se é que é possível voltar a ela). Aparentemente, muitos dos problemas que a CEDAE vem apresentando nessas duas últimas semanas estão ligados a esse clima interno de mudanças. Sendo até um pouco leviano, chego a pensar que a súbita perda de qualidade da água fornecida pela empresa aos consumidores foi fruto de descuidos propositais de funcionários – falo da boa e velha sabotagem. Por hora, porém, não há como comprovar isso.

Digo isso por que a empresa foi eleita no ranking ‘Melhores e Maiores” da Revista Exame como a “Melhor Empresa de Infraestrutura do País em 2019”, repetindo o feito de 2018 – em 2017, a empresa ficou em quarto lugar. O levantamento incluiu análises do crescimento de vendas líquidas, lucro líquido, patrimônio líquido, margens das vendas, rentabilidade e riqueza gerada por empregado, entre outros dados. Ou as informações fornecidas pela empresa à Revista Exame foram fraudulentas, como foram diversos dos Governos fluminenses anteriores, ou então os problemas estão mesmo sendo criados por funcionários – uma empresa “campeã” não desanda de uma hora para outra. 

Como estudioso dos problemas de saneamento básico e do meio ambiente, e também pelas ligações históricas da minha família com a cidade do Rio de Janeiro, faço votos para que se chegue a uma solução dessa verdadeira “novela” no menor tempo possível. Com a sensação térmica na Região Metropolitana do Rio de Janeiro superando a casa dos 50° C em alguns dias desse verão, é no mínimo desumano privar a população local do acesso a água de boa qualidade. 

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