BANCOS CHINESES SÃO ACUSADOS DE FINANCIAR OPERAÇÕES DE DESMATAMENTO EM TODO O MUNDO

Reportagens em jornais, revistas e sites de notícias de todo o mundo publicadas nesse dia 4 maio, repercutiram as conclusões de um relatório da Forests & Finance, uma coalizão global de organizações não governamentais, onde se analisaram os financiamentos concedidos pelo sistema bancário da China a operações de desmatamento em todo o mundo. 

Os dados mostraram que entre janeiro de 2016 e abril de 2020, bancos da China concederam empréstimos e serviços de subscrição no valor de US$ 15 bilhões para empresas que comercializaram commodities ligadas ao desmatamento ilegal em países do Sudeste Asiático, África e também no Brasil

A divulgação dessas informações ocorre poucos dias depois do Secretário-Geral do PCC – Partido Comunista Chinês, Xi Jinping, afirmar na Cúpula do Clima que seu país irá neutralizar as emissões de carbono até o ano de 2026. O pronunciamento do líder chinês já havia deixado dúvidas entre os demais líderes mundiais, que questionaram a capacidade da China em cumprir tais promessas. 

O sistema bancário da China ultrapassou o da Comunidade Europeia em 2014 e, desde então, é o maior do mundo em ativos. Desde então, bancos chineses passaram a se destacar na concessão de créditos e empréstimos para economias em desenvolvimento em todo o mundo. As informações da Forest & Finance colocam em xeque a forma como tais transações financeiras são realizadas. 

Em uma postagem publicada em 15 de maio de 2020, tratamos exatamente dos desmatamentos em países do Sudeste Asiático e das importações de madeira pela China, país que está entre os maiores consumidores desse recurso no mundo. Indonésia e Malásia estão entre os maiores exportadores de madeira para a China. As áreas desmatadas nesses países são usadas principalmente para a ampliação de plantações da palmeira do dendê

As atividades de exploração intensa dos recursos florestais no Sudeste Asiático são antigas e começaram na época das grandes navegações, quando os primeiros exploradores europeus chegaram na região em busca das “especiarias do Oriente”. Além dos valiosos temperos, pimentas, pedras preciosas e corantes orientais, esses exploradores/mercadores também tinham grande interesse nas ótimas madeiras da região como o sândalo e o aloé, usadas tradicionalmente na construção de móveis e objetos de luxo. Depois passaram a ganhar importância as madeiras para a construção civil e naval.  

Países como Portugal, Espanha, Holanda, França e Inglaterra rapidamente foram conquistando seus espaços na região e estabeleceram suas colônias, entrepostos comerciais e protetorados. Falando de maneira bem resumida, surgiram as colônias portuguesas em Gôa, Damão e Diu na Índia, Macau na China e Timor no Extremo Leste do arquipélago indonésio; as Filipinas da Espanha, o vice-reino da Índia da Inglaterra, a Malásia da Holanda e a Indochina da França. Todas essas nações europeias usaram e abusaram dos recursos naturais da região por muito tempo.   

Citando um único exemplo: a criação dos grandes seringais produtores de látex nas colônias inglesas da região, que foram os responsáveis diretos pelo fim da demanda do látex da Amazônia a partir do final do século XIX. Milhares de quilômetros de florestas nativas do Sudeste Asiático foram derrubadas para a introdução das seringueiras “inglesas” (lembrando aqui que os ingleses roubaram as sementes da seringueira na Amazônia).  

Em décadas mais recentes, foi a expansão das plantações da palma da Guiné a grande vilã do desmatamento regional, principalmente na Indonésia e na Malásia. O óleo da palma, mais conhecido aqui no Brasil como azeite de dendê, foi elevado à falsa condição de “combustível renovável”. O óleo de palma passou a ser exportado em grande escala para ser usado como aditivo no óleo diesel em muitos países, principalmente na Europa. 

Nos últimos anos, a faixa de “grande vilã” dos desmatamentos no Sudeste Asiático passou para as mãos da China. Na condição de uma das economias que mais cresce no mundo, a China se transformou numa voraz consumidora de minerais, combustíveis, madeiras e outras matérias primas essenciais para o seu desenvolvimento. Pela proximidade geográfica, os países da região foram transformados em grandes fornecedores de muitos desses produtos.  

As importações de madeira pelos chineses tiveram um grande aumento a partir de 1998, quando a região central do país sofreu com as fortíssimas inundações do rio Yangtzé. A fim de prevenir futuras tragédias, o Governo Central da China passou a impor fortes restrições à exploração de madeira nas florestas dessa região. Até 1998, as importações de madeira pela China eram da ordem de 4 milhões de toneladas métricas – em 1999, logo após o início das restrições, essas importações saltaram para 10 milhões de toneladas métricas e não pararam de crescer desde então.  

Grupos empresariais chineses e dos países do Sudeste Asiático, financiados com generosos recursos financeiros concedidos pelo sistema bancário da China, conseguiram obter grandes concessões para exploração de áreas florestais na Malásia, Indonésia e em Papua Nova Guiné, países que possuem legislações ambientais muito fracas e altamente permissíveis, onde praticamente “tudo pode”.  

Os longos tentáculos chineses também se estendem para a Tailândia, Camboja, Laos e Vietnã. Em anos recentes, grupos empresariais vietnamitas passaram a avançar na direção dos paupérrimos Laos e Camboja, buscando terras para a implantação de seringais e plantações de palma da Guiné. Grandes áreas florestais nesses países também passaram a sofrer com os desmatamentos.  

No arquipélago das Filipinas, a situação é um pouco diferenciada – por causa de antigos laços comerciais e pela proximidade geográfica, o país foi transformado no grande fornecedor de madeiras para o Japão, nação que durante várias décadas foi a grande potência econômica da Ásia. Conforme comentamos em postagem anterior, as Filipinas ocupam a nada honrosa posição de país com um dos maiores percentuais de destruição de florestas nativas do mundo.  

A África é outra região onde os capitais chineses financiam grandes operações florestais. Conforme já tratamos em postagens anteriores, a África é vista como o “futuro celeiro” da China. Já há muitos anos, os chineses vêm trabalhando com muitos governos africanos para viabilizar a construção de obras de infraestrutura como hidrelétricas, rodovias, ferrovias e portos. Generosos financiamentos com aval do Governo chinês foram aportados nessas obras. 

De acordo com o teor do relatório, os mesmos mecanismos de poucas perguntas ao se conceder os financiamentos também se estenderam a empresas brasileiras do setor madeireiro que, bem por acaso, exportam seus produtos para a China.

Essa destruição massiva de recursos florestais e hídricos se junta aos enormes problemas sociais das populações desses países, transformando essas regiões nas mais insustentáveis do mundo. O moderno conceito de Sustentabilidade é formado pelo equilíbrio das áreas Social, Econômica e Ambiental. Infelizmente, o que mais se vê é uma busca frenética e selvagem apenas pelos ganhos econômicos de curto prazo

Em tempos em que muita gente está preocupada com os desmatamentos em todo o mundo e de suas consequências para as mudanças climáticas globais, derretimento de geleiras e redução de caudais em rios importantes, a divulgação das operações de financiamento dos bancos chineses a empresas madeireiras ‘suspeitas” é preocupante. 

Precisamos acabar de uma vez por todas com a hipocrisia e passar a trabalhar com seriedade pela saúde ambiental do planeta! 

O ICÔNICO MONTE FUJI E SUAS NEVES

O Monte Fuji, ou Fujiyama para os japoneses, é um vulcão ativo e a montanha mais altada ilha de Honshu, a maior do arquipélago do Japão. A montanha fica localizada a Oeste da cidade de Tóquio, na divisa entre as províncias de Shizuoka e de Yamanashi. Em dias com céu limpo, os moradores de Tóquio conseguem ver o monte numa linha próxima ao Oceano Pacífico. 

O formato cônico do Monte Fuji coberto de neve se transformou em um dos símbolos mais conhecidos do Japão. A imagem aparece em pinturas, gravuras, tecidos, tapeçarias e porcelanas antigas. Em tempos modernos, o Monte Fuji passou a ser reproduzido através de fotografias, filmes e material impresso. 

Durante os meses de inverno, em especial no mês de dezembro, a montanha costuma ficar coberta com uma capa de neve. Nessa temporada, a montanha é uma das grandes atrações turísticas da região. Nesse último ano, entretanto, o volume de neve que caiu sobre as encostas do Monte Fuji foi muito pequeno e a montanha ficou “pelada” por vários meses, um problema que se insere em um quadro mais amplo de mudanças climáticas mundiais. 

No final de setembro de 2020 caíram as primeiras neves da temporada sobre as encostas da montanha. Essa fina camada de neve derreteu em poucos dias, deixando a montanha praticamente sem cobertura até o final de dezembro, quando caiu uma nova camada de neve. Apesar das baixas temperaturas do mês de janeiro, a maior parte das neves desapareceram em poucos dias devido aos ventos com temperaturas acima de 0° C. 

De acordo com análises de imagens feitas pelo satélite Landsat-8 do Programa Earth Observatory da NASA – Administração de Aeronáutica e Espaço dos Estados Unidos, na sigla em inglês, a cobertura de neve no Monte Fuji foi a menor em 20 anos.  

Um detalhe interessante do ano de 2020 foi a formação de La Niña nas águas do Oceano Pacífico, um fenômeno climático que costuma deixar o Japão com as águas costeiras mais frias e com temperaturas mais baixas nas ilhas. Fortes nevascas caíram na costa Oeste do país, mas a região do monte Fuji, que fica na costa Leste, não foi atingida. 

Medições feitas através de estações meteorológicas terrestres instaladas ao redor do Monte Fuji mostraram um quadro ainda mais preocupante – a precipitação de neve até o dia 24 de dezembro atingiu apenas 10% dos volumes medidos em anos normais. Também foi verificado que as temperaturas na região foram bem mais altas que a média dos anos anteriores. 

Projeções climáticas de longo prazo indicam que as condições ambientais da montanha estão mudando. A temperatura média no cume do Monte Fuji nos meses de verão aumentou cerca de 2° C. Esse aumento de temperatura pode estar por trás do avanço da linha da floresta pela encosta da montanha – nos últimos 40 anos, a floresta “subiu” cerca de 30 metros. 

Uma outra indicação de mudanças climáticas no Japão está ligada ao tradicional espetáculo da floração das cerejeiras, um dos eventos naturais mais aguardados do país. Na cidade de Kyoto, a antiga capital do Japão, as primeiras árvores floresceram no dia 26 de março neste ano. De acordo com as anotações oficiais da cidade, que são cuidadosamente compiladas desde o ano 812, essa foi a floração mais precoce de todos os tempos. Até então, a florada mais precoce havia sido registrada em 27 de março de 1403 e a mais tardia em 5 de março de 1323. 

De acordo com declarações de cientistas japoneses, a floração das cerejeiras depende das temperaturas dos meses de fevereiro e março – quanto mais alta a temperatura, mais cedo as flores surgem. Análises feitas nas datas de floração das cerejeiras de Kyoto indicam que a flores estão surgindo cada vez mais cedo nos últimos 50 anos, um período que coincide com o aumento das temperaturas do planeta. 

Nesse mesmo período, o país passou a ser assolado por fortes ondas de calor na época do verão. Em 2018, citando um exemplo, a temperatura atingiu a marca de 41,1° C, uma das maiores já registradas no país. Registros da época indicam que mais de mil pessoas, principalmente idosos, morreram em decorrência dessa onda de calor. 

Nesse mesmo ano, a ilha Esanbe Hanakita Kojima, que ficava localizada no Nordeste do arquipélago japonês e ocupava menos de 2 km², foi dada como ”desaparecida”. Esse trágico evento, que passou totalmente despercebido das autoridades do país, só foi notado pelo escritor Hiroshi Shimizu, que estava escrevendo um livro sobre as ilhas da região e tentou visitar a ilha em 2018.  

De acordo com a Marinha do Japão, a última vez que a ilha foi visitada por uma de suas embarcações foi em 1978. Desde então, nenhuma outra visita oficial a ilha foi feita e, portanto, ninguém sabe afirmar ao certo quando e como foi que a ilha desapareceu. A hipótese mais provável é um aumento do nível do Oceano Pacífico na região, que foi encobrindo o pequeno pedaço de terra gradativamente, algo que lembra muito o que ocorreu com a ilha New Moore na costa da Índia há mesma época. 

Esse procedimento da Marinha japonesa pode parecer estranho, mas a verdade é que o arquipélago do Japão é formado por 6.852 ilhas. São quatro grandes ilhas – Honshu, Hokkaido, Kyushu e Shikoku, que formam 97% do território do país. Todas as demais ilhas são muito pequenas e a maioria é desabitada. Logo, não é de se estranhar que uma pequena ilha desapareceu e ninguém percebeu. 

Apesar de ocupar um território com pouco mais de 377 mil km², o Japão é um dos maiores emissores mundiais de gases de efeito estufa, especialmente o dióxido de carbono. O país é fortemente dependente da queima do carvão mineral para geração de eletricidade em usinas termelétricas. O país vinha reduzindo a sua dependência de combustíveis fósseis nessa área até o desastre na usina nuclear de Fukushima em 2011. 

A central nuclear foi atingida por um tsunami que foi gerado por um forte maremoto. Com o impacto das ondas, três dos seis reatores nucleares foram atingidos e derreteram. Esse foi o maior acidente nuclear desde a explosão de um reator na usina nuclear de Chernobil na Ucrânia em 1.986. Após o desligamento de Fukushima, diversas usinas termelétricas a carvão tiveram de ser reativadas para compensar a produção de energia elétrica. 

O Japão vem realizando grandes esforços ambientais nas últimas décadas e já anunciou que pretende alcançar a neutralidade nas emissões de carbono até 2050, ou seja, zerar todas as emissões de gases de efeito estufa. Para isso acontecer, estão sendo planejados pesados investimentos em diversas áreas, principalmente em fontes de energia renováveis. 

Torçamos para que todas essas medidas, que estão sendo implementadas no Japão e em outros países do mundo, consigam atingir a tão esperada neutralidade nas emissões de carbono e que consigamos, ao menos, estabilizar as grandes mudanças climáticas globais.

O DERRETIMENTO DE GELEIRAS NOS ALPES

Nas últimas postagens falamos do derretimento de geleiras em montanhas de lugares distantes do globo terrestre como a Cordilheira dos Andes, na América do Sul, as Montanhas Ruwenzori da África e na região das Himalaias, as grandes montanhas que ocupam um vasto território da Ásia. 

Na Ásia Central, essas regiões problemáticas costumam ter nomes terminados com o sufixo de origem persas “istão”, palavra que significa” lugar”. Aí se incluem o Afeganistão, Paquistão, Tadjiquistão, Quirguistão, Rajastão, Uzbequistão, entre outros. Muitas pessoas maldosas, quando querem se referir a lugares distantes e perdidos em nosso mundo, costumam usar o nome “fim-do-mundistão”. 

Entretanto, não são só as geleiras dessas regiões distantes que estão desaparecendo. O fenômeno está ocorrendo em todo o mundo, inclusive na civilizada Europa. Na rica e exclusiva Suíça, por exemplo, podemos ver isso claramente nas geleiras que formam as nascentes do rio Reno, um dos mais importantes da Europa. 

Desde a antiguidade, a navegação pelas águas do rio Reno vem sendo fundamental para a formação e manutenção de grandes impérios e nações da Europa. Com quase 1,3 mil quilômetros de extensão, desde as suas nascentes nos Alpes Suíços até sua foz no Mar do Norte nas proximidades de Rotterdam, o rio Reno é uma rota vital para a economia da Suíça, Áustria, Alemanha, Liechtenstein, França e Holanda.  

Porto de Rotterdam, localizado próximo do encontro das águas do Reno com o Mar do Norte na Holanda, exemplifica a importância dessa grande via de transporte fluvial: é um dos maiores portos do mundo, com cerca de 40 km de extensão linear entre cais e depósitos, movimentando cerca de 400 milhões de toneladas de carga a cada ano e empregando aproximadamente 300 mil trabalhadores. A cidade de Rotterdam, que tem 500 mil habitantes, também é sede de um importante complexo industrial, além de abrigar o maior polo petroquímico da Europa. 

Os Alpes são a maior cadeia de montanhas da Europa Ocidental. Além da Suíça, país que tem sua imagem associada diretamente aos Alpes, essas montanhas também abrangem terras da França, Principado de Mônaco, Itália, Alemanha, Áustria, Liechtenstein, Eslovênia e Hungria. Essa posição geográfica transforma as montanhas alpinas em uma verdadeira “caixa d’água” do continente. 

Além das geleiras que formam as nascentes do rio Reno, os Alpes abrigam outras geleiras formadoras de outros importantes afluentes de rios do continente como o Ródano, o Danúbio e o Pó. Em toda a extensão dos Alpes, geleiras estão perdendo grandes massas de gelo, o que está trazendo enormes preocupações para centenas de milhões de pessoas. 

Ao longo da última década, os efeitos do aquecimento global fizeram com que as geleiras no topo das montanhas dos alpes Suíços perdessem aproximadamente 1/5 de sua massa de gelo. Somente no ano de 2018, os glaciares alpinos do país perderam 2,5% do seu volume, resultado da combinação de uma baixa precipitação de neve e de altas temperaturas.  

Um exemplo do drama das geleiras suíças pode ser observado no cume da Montanha Weissfluhjoch, que se encontra a 2.400 metros de altitude. Nesse local está instalado o Instituto Suíço para o Estudo da Neve e Avalanches. Ao longo do mesmo ano de 2018, não houve nenhuma nevasca com precipitação superior a 1 cm. De acordo com os registros da instituição, essa foi a primeira vez que não ocorreram fortes nevascas na montanha desde o início dos registros há mais de 80 anos.  

Para quem está acostumado com um clima tropical como o do Brasil, esse tipo de informação talvez não signifique nada muito diferente de dias menos frios no inverno suíço. As geleiras das montanhas alpinas, entretanto, são importantes fontes de água para as planícies baixas do resto do país e muitas regiões da Europa. O derretimento gradual dos glaciares nas montanhas alimenta toda uma rede de pequenos córregos e riachos, que por sua vez são afluentes de grandes rios.   

As águas que formam as duas principais nascentes do Reno, os rios Hinterrhein e Vordebrhein, vem do derretimento de geleiras nos Alpes suíços. Nos últimos 25 anos, essas geleiras já perderam mais de 1/4 de suas massas em consequência do aquecimento global. Caso o ritmo do derretimento dessas geleiras se mantenha, em menos de um século não restará um único cubo de gelo nas montanhas e o rio Reno perderá uma parte considerável dos seus caudais. 

Em 2018, pela primeira vez na história, o tráfego de embarcações de carga na hidrovia do rio Reno precisou ser paralisado por causa da queda brusca do nível de suas águas devido à forte seca regional. Nas proximidades da cidade alemã de Frankfurt, um ponto crítico do rio, o nível do Reno baixou para apenas 1,5 metro de profundidade. É esse cenário assustador, que poderá se tornar cada vez mais frequente com a sistemática redução das geleiras alpinas formadoras do rio, que assusta empresários, políticos e cidadãos de toda a bacia hidrográfica do rio Reno.  

De acordo com o levantamento de alguns climatologistas, a Suíça perdeu mais de 500 geleiras desde 1850. Somente 50 dessas geleiras, as maiores, tinham um nome. Uma dessas geleiras, chamada de Pizol, perdeu entre 80% e 90% de sua massa de gelo desde 2006 e se transformou num símbolo da situação dos glaciares no país. A exemplo do que fizeram os islandeses após o derretimento da geleira Okjökull, os suíços também organizaram um funeral para a geleira Pizol, da qual resta apenas uma área menor do que 4 campos de futebol.  

Uma atividade econômica que está ameaçada de fortes impactos na Suíça por causa da perda de massa nas geleiras alpinas é a de geração elétrica. Cerca de 60% da energia consumida na Suíça vem de centrais hidrelétricas alimentadas por rios com nascentes nas geleiras alpinas. De acordo com estudos feitos pela Universidade Técnica EPFL, de Lausanne, a redução dos caudais dos rios do país provocará uma forte redução na geração hidrelétrica – em 2035, a participação dessa energia cairá para 46% do total.  

A velocidade do derretimento dessas geleiras também representa uma séria ameaça para uma série de pequenas cidades, vilas e fazendas localizadas às margens de pequenos rios. Nos meses de verão, quando o ritmo do derretimento é bem mais intenso, a forte enxurrada e as pedras arrastadas destroem casas, pontes e outras construções, deixando centenas de pessoas desabrigadas. Alguns especialistas vêm defendendo abertamente a construção de grandes barragens para controlar o fluxo dessas águas, ao mesmo tempo que a água armazenada poderá garantir a sobrevida de muitas das centrais hidrelétricas do país.  

Como se nota, os riscos de desaparecimento de geleiras e rios não afetará apenas “paisecos do terceiro mundo” como muita gente imagina. Esses problemas vão afetar o mundo inteiro!

TROPAS DO TADJIQUISTÃO E DO QUIRGUISTÃO ENTRAM EM CONFRONTO NUMA DISPUTA POR TERRAS E ÁGUAS

No último dia 29 de abril, a postagem aqui no blog tratou das grandes geleiras das Montanhas Pamir na Ásia Central, formadores das nascentes de importantes rios da região. Elas são formadas pela junção das cordilheiras Tian Shan, Karakorum, Kunklun e Indocuche.  Elas formam o conjunto de montanhas mais altas do mundo, com alguns cumes superando a altitude de 7 mil metros. Essas montanhas surgiram como uma extensão da Cordilheira do Himalaia. 

As Montanhas Pamir se estendem pelo Tadjiquistão, Quirguistão, China, Afeganistão e Paquistão. Essas montanhas abrigam um número considerável de geleiras de altitude, onde se formam as nascentes de importantes rios da Ásia Central. Uma dessas geleiras é a Fortambeck, localizada a Oeste do Pico Korzhenevskaya no Tadjiquistão, o terceiro cume mais alto das Montanhas Pamir com 7.105 metros de altitude. Essa geleira se estende por mais de 230 km. 

Infelizmente, por uma trágica coincidência do destino, no momento em que fazíamos a publicação do texto, tropas do Tadjiquistão e do Quirguistão se enfrentavam na região de Kok-Tash, dentro do território do Quirguistão. O motivo da disputa é um grande reservatório de água que fica dentro de um enclave com população majoritariamente tadjique. 

Para entendermos esse conflito, precisamos relembrar um pouco da história das Repúblicas da Ásia Central. Essa região vem sendo habitada desde a mais remota antiguidade por povos nômades como os cazaques, os uzbeques, os tadjiques, os turcomenos, os quirguizes e os uigures, entre muitos outros. Cada um desses povos tinha uma área predominante, mas muitas tribos preferiam a vida nômade pelas infinitas estepes. 

A partir de meados do século XIX, o Império Russo começou a expandir sua área de influência rumo a Ásia Central, chegando bem próximo da fronteira com o Afeganistão – os ingleses, que àquela altura dominavam o Subcontinente Indiano, impediram o avanço dos russos. A influência dos russos na Ásia Central aumentou bastante após a Revolução Comunista de 1917, quando foram criadas as Repúblicas Soviéticas da Ásia Central. 

Assim como ocorreu na África após a chegada dos colonizadores europeus, quando foram criadas fronteiras artificiais entre países sem respeitar os grupos populacionais que ali viviam, o Governo Central em Moscou usou seus próprios critérios para estabelecer as fronteiras entre as Repúblicas da Ásia Central. Surgiram assim o Cazaquistão, o Turcomenistão, o Tadjiquistão, o Uzbequistão e o Quirguistão. A maior parte dos uigures ficou concentrada em uma região do Noroeste da China.

Essa divisão territorial, que também aconteceu na região do Cáucaso há mesma época, não respeitou os limites de uma série de enclaves étnicos, onde grupos minoritários viviam há inúmeras gerações. Para piorar a situação, os russos forçavam a migração de populações e grupos para outras terras conforme os seus interesses. Essa “política” transformou toda a região em uma espécie de colcha de retalhos étnica. 

Dentro da política de planejamento estatal centralizado, os burocratas de Moscou decidiram que toda a região da Ásia Central seria transformada no celeiro da URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Para possibilitar que os solos áridos e semiáridos da região se tornassem produtivos, foi ordenada a construção de centenas de quilômetros de canais de irrigação e de dezenas de grandes reservatórios de água. As principais fontes de água da Ásia Central, os rios Amu Daria e Syr Daria, teriam suas águas aproveitadas a extremos. 

Conforme já tratamos em postagens anteriores, as Repúblicas da Ásia Central foram transformadas em um grande celeiro agrícola, produzindo diversos tipos de grãos e, principalmente, o algodão. Uma das consequências diretas da superexploração das águas dos rios locais na agricultura foi a destruição do Mar de Aral

O domínio de Moscou com mão de ferro na região acabou em 1991, quando toda a URSS simplesmente implodiu. Uma após outras, as antigas Repúblicas Satélites do grande bloco socialista foram declarando independência e acabaram herdando a maior parte da infraestrutura construída no passado. Nas Repúblicas da Ásia Central, a grande herança deixada pelos russos foram os grandes sistemas de irrigação e os reservatórios de água. 

Os problemas de partilha dessa infraestrutura entre os diferentes países da região começaram a se acumular devido aos problemas gerados pela criação de fronteiras artificiais pelos russos. Entre o Tadjiquistão e o Quirguistão, citando um único exemplo, mais de 1/3 da linha de fronteira apresenta disputas por territórios. Além da indefinição de grande parte dos limites territoriais, existem problemas ligados aos enclaves étnicos

Um desses casos é Voruj, um enclave com cerca de 180 km² dentro do território do Quirguistão, onde vive uma população majoritariamente formada por tadjiques. Esse enclave possui uma grande represa que é reivindicada pelos tadjiques, mas que os quirguizes dizem ser propriedade de seu país. 

Entre os dias 29 e 30 de abril, forças militares dos dois países superaram os limites da disputa verbal e partiram para o confronto armado. De acordo com informações divulgadas pala agência de notícias France Press, os confrontos já deixaram perto de 40 mortos e 120 feridos. Mais de 11 mil tiveram de abandonar suas casas e fugir da região do confronto. Um cessar-fogo foi declarado após os embates, mas a situação continua muito tensa.

Um outro ponto nevrálgico da região é o Vale de Fergana (vide foto), uma faixa de terras de extrema fertilidade encravada entre o Uzbequistão, o Quirguistão e o Tadjiquistão. Essa faixa tem aproximadamente 300 km de comprimento e 70 km de largura, onde vivem cerca de 10 milhões de habitantes ou cerca de 1/5 de toda a população das Repúblicas da Ásia Central. Essas populações são de diferentes etnias e os confrontos entre grupos são comuns. Os três países reivindicam trechos diferentes do Vales de Fergara, sem que se chegue a um acordo. 

Na raiz das disputas estão as águas dos rios que nascem nas Montanhas Pamir e que cortam as terras desérticas, formando vales de excepcional fertilidade. Também entram nas disputas os vales férteis criados artificialmente durante o período do Regime Socialista. Existem grandes extensões de terrenos desérticos na região, que apesar de guardarem grandes reservas de gás e de petróleo, causam menos disputas que as preciosas águas dos rios. 

Se já existe uma disputa acirrada pelas águas nessa região hoje, imaginem como será o panorama dentro de poucas décadas, quando se prevê o desaparecimento de inúmeras geleiras nas grandes montanhas por causa das mudanças climáticas e do aquecimento global. 

O que estamos vendo hoje são os primeiros capítulos da guerra pela água, um tipo de conflito que deverá se acirrar em muitas partes do mundo nas próximas décadas.