ALERTA DE EMERGÊNCIA HÍDRICA DECRETADO EM CINCO ESTADOS

O SNM – Sistema Nacional de Meteorologia, emitiu no último dia 27, um alerta conjunto de emergência hídrica para a área da bacia hidrográfica do rio Paraná, na região que abrange os Estados de Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso do Sul, São Paulo e Paraná. O comunicado informa que a região terá chuvas abaixo da média entre os meses de junho e setembro de 2021

Criado oficialmente no dia 3 de maio de 2021, o SNM reúne serviços do INMET – Instituto Nacional de Meteorologia, INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais e CENSIPAM – Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia, e tem como objetivo o fortalecimento das competências centrais de cada uma das instituições.  

Esses órgãos federais são vinculados MAPA – Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, MCTI – Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações e MD – Ministério da Defesa. Entre outros objetivos, o SNM tem a missão de eliminar a sobreposição de atividades e gerar uma cadeia de processos, produtos e dados interligados e complementares

Além das entidades citadas, o alerta do SNM também foi subscrito por todos os órgãos federais ligados à meteorologia, a ANA – Agência Nacional de Águas e o CEMADEN – Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais. 

O alerta do SNM informa que “a análise das chuvas entre outubro de 2019 a abril de 2021 para a bacia do rio Paraná indica que, com exceção de alguns meses quando as precipitações ficaram acima da média climatológica, durante a maior parte do período houve predomínio de déficit hídrico de precipitação, principalmente a partir de fevereiro de 2021.” 

Os dados indicam que o período entre os meses de junho, julho e agosto será caracterizado por um menor volume de chuvas na bacia hidrográfica do rio Paraná. O alerta também esclarece que os dados são consistentes com avaliações de outros centros internacionais de previsão climática. No mês de maio, citando um exemplo, os volumes acumulados de chuva foram de 27 mm na região da bacia do Alto rio Paraná – no mesmo período do ano passado, o volume acumulado havia sido de 98 mm

Conforme comentamos em postagens publicadas nas últimas semanas, os baixos níveis nos reservatórios de usinas hidrelétricas nas Regiões Sudeste e Centro-Oeste representam uma grande ameaça para a geração de energia elétrica no país. De acordo com dados do ONS – Operador Nacional do Sistema Elétrico, as chuvas abaixo da média histórica resultaram nos piores volumes de água acumulada nos reservatórios no período de setembro de 2020 a maio de 2021 em uma série de 91 registros. 

O CMSE – Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico, inclusive, realizou uma reunião em caráter extraordinário no mesmo dia 27 de maio, para avaliar as condições de suprimento energético ao SIN – Sistema Interligado Nacional. Entre outras medidas, o CMSE “decidiu implementar flexibilizações das restrições hidráulicas relativas às usinas hidrelétricas Jupiá, Porto Primavera, Ilha Solteira, Três Irmãos, Xingó, Furnas e Mascarenhas de Moraes.”  

Além de garantir a geração de energia elétrica, insumo fundamental para o país, essas medidas têm como objetivo garantir o fluxo dos caudais e a preservação do uso da água ao longo do período seco de 2021. Falamos aqui do abastecimento de populações, irrigação de plantações, navegação hidroviária, entre outros usos. 

Um claro indicador da situação crítica no alto curso da bacia hidrográfica do rio Paraná é o rio Grande que, junto com o rio Paranaíba, forma o rio Paraná. O principal reservatório dessa sub-bacia hidrográfica é Furnas, mais conhecido como o “mar de Minas”. De acordo com dados do ONS do dia 27 de maio, Furnas está com 36,87% de sua capacidade. Os reservatórios das Usinas Hidrelétricas Água Vermelha e Marimbondo estão com níveis extremamente baixos – 8,70% e 6,59%, respectivamente. 

Na sub-bacia do rio Paranaíba, a situação também não é nada animadora – a exceção da Usina Hidrelétrica de Batalha, que tem seu reservatório com 51,65% da sua capacidade máxima, todos os demais reservatórios estão com capacidades entre 11 e 28%, valores muito baixos quando se considera que o período mais seco do ano ainda está para começar. 

Os baixos caudais nos rios Grande e Paranaíba são refletidos diretamente no reservatório da Usina Hidrelétrica de Ilha Solteira, o primeiro grande aproveitamento das águas do rio Paraná. Os dados do ONS indicam que o nível do reservatório está em 47,03% da sua capacidade máxima. 

Os efeitos da seca também são visíveis no alto da bacia hidrográfica do rio Tocantins. O reservatório da Usina Hidrelétrica de Serra Mesa em Goiás está em 36,95% da sua capacidade máxima. Esse reservatório funciona como um regulador dos caudais do rio Tocantins e garante o funcionamento de várias usinas geradoras a jusante. 

Felizmente, o país ainda pode contar com o potencial de geração de grandes usinas hidrelétricas como Tucuruí, localizada no mesmo rio Tocantins, mas que está com seu reservatório praticamente cheio. Outro caso é o de Itaipu, localizada no médio curso do rio Paraná e cujo reservatório também está com um ótimo nível de armazenamento. Apesar dessas boas notícias, a situação requer muito cuidado. 

Um destaque importante que não pode ficar de fora desta breve análise é a forte produção agrícola desenvolvida na região da bacia hidrográfica do alto rio Paraná. Em qualquer lugar do mundo, a agricultura é a maior consumidora de água – em média, perto de 70% dos recursos hídricos de uma região são consumidos pelas atividades agrícolas. Os principais “gastadores de água” são os sistemas de irrigação das plantações. 

É comum encontrarmos nessas regiões fazendas que utilizam sistemas com tecnologias obsoletas, onde há um consumo exagerado de água e, portanto, um grande desperdício. São mangueiras vazando, pivôs desregulados e controle das operações feitos por funcionários mal treinados. Como resultado, há um consumo exagerado de água. De acordo com as estimativas, 2021 será um ano de safra recorde em várias culturas, o que num período de crise hídrica é um grande problema. 

Em um momento em que a pandemia da Covid-19 ainda não está totalmente controlada e em que a economia ainda sofre com restrições para a livre circulação de pessoas, a “salvação da lavoura” da economia do país está vindo, literalmente, da agropecuária. E como há muitos interesses em jogo, corre-se o risco de as autoridades fazerem vista grosso a alguns exageros dos produtores agrícolas no quesito consumo de água. 

Além de torcermos por boas chuvas no final do ano, precisamos cuidar do bom gerenciamento dos recursos hídricos nesses meses de seca, especialmente nos Estados citados no alerta do SNM. Como demostramos, a crise que estamos vivendo ameaça muito mais do que a geração de energia elétrica. 

USINA SOLAR FLUTUANTE DO LAGO DE SOBRADINHO – UMA BOA IDEIA?

Na postagem anterior fizemos um rápido diagnóstico da situação dos reservatórios das usinas hidrelétricas instaladas na calha do rio São Francisco. Segundo as informações do ONS – Operador Nacional do Sistema Elétrico, o reservatório de Sobradinho está com 64,59%, Três Marias com 66,71% e Itaparica com 52,44%. Esses não são os níveis ideais para o começo do período da seca, mas, como eu citei na postagem: “qualquer nota acima de 5 já é suficiente para passar de ano”. 

A barragem da Usina Hidrelétrica de Sobradinho é um destaque a parte aqui no blog. O processo tumultuado e injusto na remoção das famílias que viviam nas áreas que seriam inundadas pelo lago foi altamente traumatizante e geraram inúmeras postagens aqui no blog. Os altos e baixos nos níveis do reservatório ao longo dos anos também chamam muito a nossa atenção. Sobradinho é sempre destaque aqui em Vida, Água e Companhia. 

Uma notícia relacionada a Sobradinho, que ganha maior relevância nesses tempos de reservatórios baixos e riscos de falta de energia elétrica no curto e médio prazo, é um projeto piloto que vem sendo implementado pelo Governo Federal através da CHESF – Companhia Hidrelétrica do São Francisco. Trata-se de uma usina solar fotovoltaica flutuante com uma potência de geração de 1 MW

Essa usina piloto é formada por 3.792 painéis fotovoltaicos montados sobre uma base flutuante e que cobrem uma área total sobre o espelho d’água de 11 mil metros quadrados. Essa estrutura é fixada ao fundo do lago através de um sistema de cabos e tem capacidade para suportar também o peso dos trabalhadores que precisam circular entre os painéis para fazer a manutenção. 

O “ovo de Colombo” desse projeto é o uso de uma “área” que já pertence a usina hidrelétrica – o Lago de Sobradinho, e toda a infraestrutura de redes de transmissão de energia da própria usina. Existem inúmeras usinas solares já em operação e/ou em instalação por toda a Região Nordeste – as áreas onde esses empreendimentos estão instalados foram compradas ou alugadas, o que gera um custo extra nos investimentos. Essas unidades também precisam ser dotadas de linhas de transmissão para transportar a energia elétrica gerada para os consumidores. Em Sobradinho nada disso é necessário. 

A usina flutuante de Sobradinho foi inaugurada no início de agosto de 2020 e seus resultados estão sendo observados com “lupa”. O Lago de Sobradinho ocupa mais de 4.200 km² quando está em seu nível máximo, tendo espaço de sobra para receber novos módulos flutuantes com painéis fotovoltaicos. Basicamente, o que estamos falando aqui é que existe um enorme potencial para ampliar a capacidade de geração de energia elétrica da Usina de Sobradinho sem a necessidade de alagar mais nenhum km². 

Essa “ideia”, sendo testada e comprovada a sua viabilidade técnica/financeira, poderá ser levada para outros reservatórios já existentes, o que aumentaria gradativamente o potencial de geração de energia elétrica do país e sem o ônus dos impactos ambientais. Vamos relembrar dois casos de usinas hidrelétricas altamente ineficientes que citamos nas últimas postagens: a Usina Hidrelétrica de Jurumirim , no rio Paranapanema no estado de São Paulo, e também a famigerada Usina Hidrelétrica de Balbina, no Estado do Amazonas. 

A Usina de Jurumirim foi inaugurada em 1962, e sua represa formou um lago que ocupou uma área total de 450 km² no rio Paranapanema. Essa área, para efeito de comparação, equivale a quatro vezes o tamanho da Baía da Guanabara. Apesar desse fabuloso “estrago” ambiental, a Hidrelétrica só consegue produzir 40 MW de energia. Em 2005, foi inaugurada a Usina Hidrelétrica de Ourinhos no mesmo rio Paranapanema. Com uma represa com área de apenas 4,5 km² – um centésimo de Jurumirim, essa hidrelétrica consegue produzir os mesmos 40 MW. 

O caso da Usina Hidrelétrica de Balbina é muito mais gritante. Esse polêmico empreendimento, que foi inaugurado em 1989, fica no rio Uatumã, um dos afluentes do rio Amazonas, a cerca de 200 km de Manaus. O lago que foi formado provocou o alagamento de 2.360 km², o equivalente a quase duas vezes o tamanho do município do Rio de Janeiro. A potência máxima da hidrelétrica é de apenas 112 MW, porém, na temporada da seca, a produção fica próxima dos 50 MW, pouco coisa a mais que a produção de Jurumirim. 

A possibilidade de usar o lago dessas usinas hidrelétricas para a instalação de usinas solares fotovoltaicas flutuantes resultaria num substancial aumento da geração de energia elétrica sem qualquer necessidade de mudar a infraestrutura já instalada – aliás, já existe um projeto nesse sentido em Balbina. Isso seria uma forma inteligente de compensar os gravíssimos prejuízos ambientais e impactos sociais/econômicos provocados tanto pela remoção de populações quanto pela perda de áreas produtivas. 

Já existem notícias que tratam da implantação de um outro projeto piloto de usina fotovoltaica flutuante no reservatório da Usina Hidrelétrica de Boa Esperança, no Estado do Piauí. A previsão é de se atingir uma potência instalada de 1,25 MW. Que seja muito bem-vinda. 

Um problema importante que afeta lagos e represas em regiões quentes são as perdas de água por evaporação. Esse problema fica ainda mais grave quando o espelho d’água não é muito profundo, o que facilita o aquecimento e a evaporação da água. Com a instalação de painéis fotovoltaicos flutuando sobre a lâmina d’água, em tese, está se criando uma área de sombra que pode amenizar as perdas de água por evaporação. A presença da água também ajuda a reduzir a temperatura dos painéis, aumentando a sua eficiência.

Por outro lado, essa mesma sombra também pode estimular o crescimento de plantas e de animais aquáticos prejudiciais ao ecossistema do lago. É por isso que o estudo completo de todos os impactos criados pela instalação desse projeto piloto – impactos econômicos da geração de energia elétrica e também na fauna e flora do lago, são tão importantes. A história da humanidade está cheia de exemplos de grandes ideias que se transformaram em fabulosos desastres. 

O desenvolvimento tecnológico nos últimos anos tem resultado na produção de placas fotovoltaicas cada vez mais eficientes e baratas. Esse tipo de geração elétrica vem crescendo rapidamente aqui no Brasil e o país contava com um total de 114 parques fotovoltaicos no final de 2020. Esse tipo de geração elétrica atingiu a importante marca de 7,5 GW em 2020, o que equivale à metade da capacidade instalada da Usina Hidrelétrica de Itaipu.  

De acordo com dados da ABSOLAR – Associação Brasileira de Energia Solar, o preço das placas solares e dos demais equipamentos caiu cerca de 90% nos últimos 10 anos, o que vem incentivando cada vez mais o crescimento do setor.  A maioria dos empreendimentos ficam localizados na Região Nordeste. 

Além dos reservatórios de usinas hidrelétricas, a ideia das usinas fotovoltaicas flutuantes também pode ser levada para reservatórios de abastecimentos de água, rios e canais de irrigação. Dois exemplos na minha vizinhança com grande potencial para receber essa iniciativa – a Represa Guarapiranga, que ocupa uma área com cerca de 23 km² na Zona Sul da Cidade de São Paulo, e o rio Pinheiros, que tem cerca de 25 km de extensão com uma largura média do canal de 100 metros. 

Em nossa sociedade moderna, é impossível imaginarmos a vida sem os confortos e comodidades criados pela energia elétrica. Logo, qualquer nova forma de produzir essa energia com baixos impactos ambientais será sempre muito bem-vinda! 

Que venham as usinas solares fotovoltaicas flutuantes… 

A SITUAÇÃO DOS RESERVATÓRIOS DO NOSSO BOM E VELHO RIO SÃO FRANCISCO

Postagens sobre o rio São Francisco, suas grandes hidrelétricas e seus gigantescos problemas ambientais são razoavelmente frequentes aqui no blog. O São Francisco está muito longe de ser um dos maiores rios brasileiros – rios das bacias hidrográficas do Amazonas, do Paraná e também do conjunto dos rios Tocantins/Araguaia superam com folga, em tamanho e volume de água, o nosso Velho Chico. Porém, quando se fala em importância social e de integração nacional, o rio São Francisco ganha de lavada. 

A relevância do rio São Francisco começou ainda nos primeiros tempos da colonização do país. As margens do rio passaram a sediar grandes fazendas de criação de gado. Essa atividade passou a ganhar uma enorme importância nessas regiões quando os conflitos entre os criadores de gado e os plantadores de cana-de-açúcar se intensificaram. Os animais invadiam as plantações e devoravam com prazer os brotos adocicados de cana.  

Uma decisão do Rei de Portugal a favor dos produtores de cana e açúcar determinou a expulsou de todas as boiadas do litoral nordestino. De acordo com a Carta Régia, os criadores precisavam manter seus animais a, no mínimo, 60 km das plantações. Muitos criadores de gado seguiram as margens do rio São Francisco, buscando pastagens para seus animais nos sertões da Caatinga

Outro momento quando o rio São Francisco mostrou toda a sua importância começou após as primeiras notícias da descoberta de jazidas de ouro na região das Geraes. Relembrando, bandeirantes paulistas descobriram grandes reservas auríferas na Serra do Sabarabuçu, no coração da região que passou a ser conhecida como Minas Geraes, em 1693. Essa notícia se espalhou rapidamente por todo o Brasil e o rio São Francisco se transformou na principal via de ligação entre o litoral e as áreas de mineração.  

Em menos de 50 anos, cerca de 2/3 de toda a população colonial brasileira se deslocou para a região das Minas Geraes, o que nos dá uma ideia do impacto da descoberta das minas de ouro e da importância do rio São Francisco para toda essa gente. Longos trechos navegáveis do rio eram usados para o transporte de pessoas e mercadorias. Onde a navegação não era possível, caminhos marginais ao longo da calha do rio eram as opções. 

Outro momento de grande destaque para o rio São Francisco começou no início do século XX, época em que teve início o aproveitamento energético das águas do rio. A primeira unidade geradora foi a Usina Hidrelétrica de Angiquinho em 1913. O empreendimento pioneiro contava com três turbinas – uma de 175 kVa, uma segunda de 450 kVa e a terceira com 625 kVa. A energia gerada na unidade era transportada por uma rede elétrica a uma distância de 24 km até as fábricas de Delmiro Gouveia na cidade de Pedras, no interior do Estado de Alagoas.  

Foi a partir da década de 1940 que o aproveitamento energético do rio São Francisco ganhou um fortíssimo impulso. Destaque para o complexo de Paulo Afonso, que teve a sua primeira usina hidrelétrica – Paulo Afonso I, inaugurada em 1954, e a última – Paulo Afonso IV, em 1979. Outros marcos no setor foram as Usinas Hidrelétricas de Três Marias, concluída em 1961, e Sobradinho, que entrou em operação em 1979, entre outros empreendimentos. 

A grande importância que o rio São Francisco ganhou no campo da geração de energia elétrica não foi seguida de maiores cuidados com a saúde e a qualidade ambiental de suas águas e margens. O rio sofreu ao longo de vários séculos com a intensa degradação provocada por atividades de mineração, agricultura e pecuária, siderurgia (com destaque para a derrubada de matas para a produção de carvão para queima nos altos fornos), entre outras. O resultado desse conjunto de agressões aparece na redução dos caudais do Velho Chico. 

Um verdadeiro “termômetro” da saúde do rio São Francisco é o Lago de Sobradinho – ao longo das últimas décadas, o espelho d’água vem apresentando enormes variações nos seus níveis, um problema que extrapola as atividades de geração de energia elétrica. As sucessivas reduções nos níveis de água afetam o abastecimento de populações, as indústrias e, principalmente, a produção agrícola – as margens do Lago de Sobradinho abrigam enormes plantações de frutas e outras culturas irrigadas. 

Em meados de novembro de 2017, citando um exemplo dos altos e baixos de Sobradinho, o nível do reservatório estava em 2,8%, o mais baixo desde a sua formação. Cerca de um mês depois, graças à chegada do período das chuvas, o nível do reservatório subiu um pouco e atingiu a marca de 4,16%. A postagem publicada há época afirmava que “Sobradinho ainda estava na UTI (Unidade de Terapia Intensiva), mas já respirava sem aparelhos”. 

Em outro momento, em dezembro de 2019, o nível do reservatório se encontrava com apenas 25% da sua capacidade. Pouco mais de seis meses depois, em julho de 2020, o Lago de Sobradinho já estava com 88,8% de sua capacidade, o maior volume de água registrado desde 2012. As outras duas grandes represas do rio São Francisco – Três Marias e Itaparica, também estavam esbanjando saúde há época com 88,66% e 84%, respectivamente. 

Hoje, de acordo com dados do ONS – Operador Nacional do Sistema Elétrico, do dia 25 de maio, o reservatório de Sobradinho está com 64,59%, Três Marias com 66,71% e Itaparica com 52,44%. Os níveis atuais não são tão confortáveis como os do ano passado, mas, como se dizia nos meus tempos do ensino fundamental, “qualquer nota acima de 5 já é o suficiente para passar de ano”. 

A Usina Hidrelétrica de Sobradinho (vide foto) possui uma capacidade de geração de energia elétrica de 1 GW. Porém, a ideia inicial para a construção da sua grande barragem foi a de atuar como uma regularizadora dos caudais do Baixo rio São Francisco. A jusante de Sobradinho (correnteza abaixo) estão localizadas as Usinas Hidrelétricas Paulo Afonso I, II, III e IV, além de Moxotó, que geram uma potência total de 4,2 GW.  

Em 1988, foi inaugurada a Usina Hidrelétrica de Itaparica, que teve seu nome mudado para Luiz Gonzaga (1912-1989) – cantor, compositor e “Rei do Baião”. Em 1994, foi a vez da inauguração da última grande usina hidrelétrica do rio São Francisco – Xingó, com potência instalada de 3,16 GW. 

No trecho do Alto rio São Francisco encontramos a Usina Hidrelétrica de Três Marias, concluída em 1961 e com uma capacidade total de geração de 396 MW. A barragem dessa represa, que tem cerca de 2,7 km de extensão, foi durante muito tempo a maior barragem construída pelo sistema de aterro do mundo. O espelho d’água pode atingir uma área total de 1.100 km² e armazenar um volume de 21 bilhões de m³ de água. 

Essa rápida exposição mostra a posição de destaque que o rio São Francisco atingiu ao longo das últimas décadas na área de geração de energia elétrica. Os níveis de água armazenados atualmente em suas represas garantirão a operação contínua de todo seu conjunto de usinas hidrelétricas por muitos meses, ajudando a suprir parte importante das demandas energéticas nesses tempos em que outros reservatórios estão “quase” secos. 

A importância do rio São Francisco precisa ser estendida também para o lado social – dezenas de cidades dependem das suas águas para o abastecimento de suas populações. Muitos trabalhadores precisam dessas águas para pescar e navegar, enquanto muitos outros utilizam as águas para irrigar as suas plantações. Preservar o rio e todos os seus recursos – ambientais, sociais e econômicos, é essencial. 

Um dos ícones da situação crítica em que se encontra o São Francisco é o surubim, um peixe que já símbolo do rio. Antes abundante nas águas, o peixe é cada vez mais difícil de ser avistado ou capturado. Um peixe de rios da Amazônia, o cachara, que é muito parecido com o surubim, passou a ser “importado” e vendido como “surubim genérico” em mercados de vilas e cidades às margens do Velho Chico. 

Se isso não é um sinal da decadência do rio, eu não sei dizer o que seria… 

USINA HIDRELÉTRICA DE BALBINA: UM RÁPIDO ESTUDO DE CASO

Num momento em que o país está correndo o risco de enfrentar graves problemas na geração de energia elétrica por causa dos baixos níveis de muitos reservatórios, é importante um olhar crítico para avaliarmos nossos erros e acertos nessa área. Na última postagem falamos da Usina Hidrelétrica de Jurumirim, um péssimo exemplo de projeto. 

Jurumirim fica no rio Paranapanema no Estado de São Paulo e foi concluída no início da década de 1960. O empreendimento criou um reservatório com uma área total alagada de 450 km² com a promessa de gerar 98 MW – o máximo de energia que a hidrelétrica consegue gerar, entretanto, é 40% desse valor.  

Em 2005, no mesmo rio Paranapanema, foi inaugurada uma outra unidade geradora, a Usina Hidrelétrica de Ourinhos. Alagando uma área com apenas um centésimo de Jurumirim (cerca de 4,5 km²), essa hidrelétrica consegue gerar a mesma quantidade de energia elétrica, dando um exemplo de eficiência e respeito ao meio ambiente.

Jurumirim está longe de ser a usina hidrelétrica menos eficiente do Brasil. A grande campeã nessa categoria é a Usina Hidrelétrica de Balbina, instalada no município de Presidente Figueiredo e distante cerca de 200 km da cidade de Manaus, capital do Estado do Amazonas. O empreendimento fica no rio Uatumã, um dos afluentes do rio Amazonas, e foi inaugurado em 1989. A barragem da Usina, com 51 metros de altura, provocou o alagamento de uma área total de 2.360 km², quase duas vezes o tamanho do município do Rio de Janeiro.  

Apesar toda essa área inundada, o volume de produção médio de energia elétrica no empreendimento se situa na casa dos 112 MW – em períodos de forte estiagem, a produção elétrica chega a cair para 50 MW, se aproximando muito da produção de Jurumirim. De acordo com especialistas do setor, que fizeram uma correlação entre área alagada e geração de energia elétrica, Balbina é a pior usina hidrelétrica do Brasil dentro de uma lista com 116 empreendimentos analisados.   

Ao contrário de extensas áreas das Regiões Centro-Oeste e Sudeste, que estão sofrendo com reservatórios de usinas hidrelétricas com baixos níveis devido às fracas chuvas do último verão, grande parte da região Norte do Brasil está enfrentando chuvas fortíssimas nesse momento. A cidade de Manaus, citando um exemplo, está enfrentando uma forte cheia do rio Negro, que está no nível de 29,89 metros (dado do dia 24 de maio), muito próximo do recorde histórico. 

Outro exemplo das boas chuvas que caem na região Norte é a Usina Hidrelétrica de Tucuruí, localizada no Estado do Pará. De acordo com dados do ONS – Operador Nacional do Sistema Elétrico do dia 24 de maio, o nível do reservatório está com 99,31% de sua capacidade máxima. O reservatório de Balbina também vai muito bem e está com 84,34% de sua capacidade máxima. 

Do ponto de vista técnico, a construção da Usina Hidrelétrica de Tucuruí foi um grande sucesso. A hidrelétrica formou um lago com uma superfície total de 2.850 km², porém, o potencial de produção da usina é da ordem de 8,4 GW, o que coloca Tucuruí na seleta lista das mais importantes geradoras de energia elétrica do Brasil. Infelizmente, todo esse sucesso se deu com grandes impactos ambientais e, principalmente, sociais. Siga esse link para maiores detalhes. 

O polêmico e ineficiente empreendimento de Balbina foi concebido durante o período dos Governos Militares (1964-1985), uma época em que não se tinha quase nenhum espaço para contestar decisões governamentais das autoridades “estreladas” (entenda-se como Generais) e não havia ainda a previsão legal de estudos sobre os impactos ao meio ambiente, que só surgiu em 1986 com a publicação da Resolução CONAMA 001. A Hidrelétrica de Balbina tinha como principal objetivo fornecer metade da energia elétrica consumida na cidade de Manaus, onde se localizam os importantes Polo Industrial e a Zona Franca, algo que não foi alcançado.  

Pesquisadores da UFAM – Universidade Federal do Amazonas, e do INPA – Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, chegaram a alertar as autoridades do setor elétrico há época, dentro do limite do possível, sobre o erro que seria a construção de Balbina. Isso aconteceu no momento em que a Hidrelétrica ainda estava na fase de projeto e os estudos poderiam ter sido paralisados. As “otoridades” preferiram não dar ouvidos aos especialistas da Região Amazônica e o desastre social e ambiental acabou consumado, criando o que muitos consideram “um dos maiores crimes ambientais que a engenharia já cometeu neste país”.  

Apesar de gerar uma quantidade “irrisória” de energia elétrica, o gigantesco lago de Balbina é um campeão mundial quando se trata da produção e emissão de gases de efeito estufa como o metano (CH4) e dióxido de carbono (CO2). Como aconteceu em outros empreendimentos hidrelétricos brasileiros, grande parte da floresta que existia nas áreas que foram alagadas pelo reservatório não foram suprimidas antes do fechamento das comportas da represa (vide foto).  

Quando foi encoberta pelas águas, essa vegetação começou a apodrecer e a emitir os gases. Nos momentos de seca, quando as águas baixam, essas emissões são ainda maiores. Para cada MW de energia elétrica produzida na Usina Hidrelétrica de Balbina, há uma emissão de 3 toneladas de gases de efeito estufa – numa usina termelétrica convencional essas emissões são 10 vezes menores e se situam na casa de 0,3 tonelada para cada MW produzido. Falando com muita ironia: do ponto de vista ambiental, é mais interessante demolir essa usina hidrelétrica e construir no seu lugar uma termelétrica alimentada a carvão mineral

Outro aspecto altamente negativo criado pela construção de Balbina foi a remoção, muitas vezes a força, dos moradores ribeirinhos. Muito pior – sem conseguir apresentar documentos de posse das terras, a maioria dos desalojados não recebeu qualquer indenização. A abertura de muitos trabalhos braçais durante a fase de obras de Balbina acabou empregando muitos desses desalojados, amenizando momentaneamente a situação. Porém, conforme o grau de complexidade dos trabalhos foi crescendo, as oportunidades de trabalho para essas pessoas foi diminuindo.  

Depois da conclusão do empreendimento, um grande número de famílias desalojadas ocupou uma vila de casas construídas originalmente para receber os trabalhadores das obras. A construtora responsável conseguiu, com aval da Justiça, expulsar uma grande parte dos invasores, alegando que precisava desmontar as casas, que seriam enviadas para um novo canteiro de obras no Estado do Pará.  

Cerca de 250 famílias conseguiram continuar vivendo nessa vila, que alguns anos mais tarde passou a receber a energia elétrica gerada em Balbina. Aqui há uma grande ironia da história – a tarifa cobrada por essa energia elétrica era, simplesmente, a maior tarifa praticada por uma empresa de distribuição de energia no Brasil.  

Os impactos ao meio ambiente também foram fortíssimos, o que foi comprovado através de um recente estudo sobre a biodiversidade existente nas 37 ilhas formadas no lago da Hidrelétrica, que foi comparada com 3 áreas florestais próximas. Foi constatado que a maioria das populações de grandes mamíferos, aves e tartarugas desapareceu das terras dessas ilhas – apenas 0,7% do território das ilhas ainda conservava uma comunidade diversificada de espécies.  

O isolamento de espécies animais em ilhas, conforme os ensinamentos da Biologia da Conservação, é um caminho praticamente sem volta para a extinção de espécies. Estoques limitados de alimentos, falta de diversidade genética e baixos índices de natalidade, estão entre os principais problemas. Os territórios dessas ilhas também ficaram susceptíveis a vendavais, tempestades e incêndios. 

Em resumo – a construção da Usina Hidrelétrica de Balbina foi um dos grandes erros do nosso país na área da geração da energia elétrica, criando imensos impactos ambientais e sociais sobre uma extensa região da Floresta Amazônica, com pouquíssimos benefícios em troca. Não é à toa que muitos especialistas pregam a desativação da Usina e demolição completa da sua barragem.  

Apesar de parecer absurda num primeiro momento, essa ideia traria excelentes benefícios ambientais para toda a extensa região hoje encoberta pelo lago da Hidrelétrica, área que em poucos anos voltaria ser ocupada pela Floresta Amazônica. Um bonus extra: esse “esvaziamento” da represa também liberaria terras dos índios da etnia Waimiri Atroari, que se autodenominam Kinja, que foram alagadas com a construção de Balbina.

Ecologistas “de carteirinha” da Zona Sul do Rio de Janeiro e dos Jardins em São Paulo vibrariam com essa maravilhosa notícia. Ao mesmo tempo, o Governo brasileiro mostraria ao mundo que está realmente interessado na proteção da Floresta Amazônica e que está tomando medidas praticas nesse sentido. E o que perderíamos com isso? Meros 112 MW, um volume de energia que uma PCH – Pequena Central Hidrelétrica, bem projetada e bem resolvida ambientalmente compensaria.

Até arrisco dizer que muitos estrangeiros realmente interessados na preservação da Amazônia até pagariam os custos de desativação de Balbina e de construção dessa nova PCH.

OS BAIXOS NÍVEIS DOS RESERVATÓRIOS DO RIO PARANAPANEMA, OU REFLETINDO SOBRE A CONSTRUÇÃO DAS USINAS HIDRELÉTRICAS

O ONS – Operador Nacional do Sistema Elétrico, é “uma entidade de direito privado responsável pela coordenação e controle das operações de geração e transmissão de energia elétrica do SIN – Sistema Interligado Nacional“. Em diversas postagens anteriores usamos os dados do ONS com informações sobre o nível dos reservatórios brasileiros. Esses dados, analisados em conjunto com outras informações, possibilitam uma visão ampla de como andam as coisas no sistema de geração de energia elétrica em nosso país. 

Com chuvas abaixo da média em muitas regiões, especialmente em áreas das regiões Sudeste e Centro-Oeste onde encontramos importantes usinas hidrelétricas, os dados indicam que teremos problemas na produção de energia elétrica no curto e médio prazo. Apesar do cenário complicado, as autoridades do setor elétrico garantem que não viveremos um “apagão” como o de 2001. 

Num olhar mais atento no informativo do ONS sobre os reservatórios, chama a atenção o baixo nível dos reservatórios do Paranapanema, um importante rio que tem grande parte de sua calha demarcando a divisa entre os Estados de São Paulo e do Paraná. Com pouco mais de 900 km de extensão, o rio Paranapanema possui 11 usinas hidrelétricas que, juntas, geram 2,4 MW

De acordo com os dados do ONS do dia 23 de maio, o maior reservatório do rio Paranapanema, a Represa de Jurumirim, está com 32,89% da sua capacidade máxima (vide foto). A Represa de Xavantes está em 19,12% e a Represa Capivara, em uma situação bem melhor, está em 62,61% da sua capacidade máxima. Esses são os três principais reservatórios do rio. 

As nascentes do rio Paranapanema ficam na Serra dos Agudos, uma extensão da Serra do Mar, a cerca de 100 km do litoral Sul do Estado de São Paulo. Assim como acontece com o rio Tietê, o Paranapanema corre para o interior na direção do rio Paraná. Na língua dos indígenas da região, Paranapanema significa “rio azarado”, talvez numa alusão à grande dificuldade para a navegação em suas águas. O curso do rio é cheio de obstáculos naturais como rochas, canais estreitos, trechos com corrente muito rápida e/ou muito rasos, bancos de areia e trechos com forte declividade. 

De todos os grandes rios paulistas, o Paranapanema é o que tem a melhor qualidade das águas. Uma das razões para isso é a localização de suas cabeceiras em encostas de morros com excelente cobertura vegetal e o trecho inicial localizado na região com a menor densidade populacional do Estado de São Paulo, onde existem grandes extensões de terras com matas nativas parcial e/ou totalmente preservadas. 

A primeira usina hidrelétrica construída no rio recebeu o nome de Paranapanema e foi implantada na cidade de Piraju. As obras da barragem foram iniciadas em 1926, onde foi prevista a instalação inicial de 3 grupos geradores com potência estimada de 2,5 MW, o que era considerado há época como uma usina de grande porte. O projeto previa a implantação sucessiva de novos grupos geradores, o que foi concluído em 1998, quando a usina atingiu a capacidade total de 31 MW.  

Outro marco importante na história do rio Paranapanema foi a construção da Usina Hidrelétrica de Jurumirim. As obras foram iniciadas em 1956, durante a presidência de Juscelino Kubitschek, e concluídas em 1962. Esse foi um período de forte crescimento econômico no país, quando teve início um ciclo de construção de inúmeras usinas hidrelétricas, especialmente no período dos Governos Militares, entre 1964 e 1985, quando o lema era o “desenvolvimento a qualquer custo”.  

A represa de Jurumirim, formada após a construção da barragem, se estende por cerca de 100 km, com uma largura que atinge até 3 km. O espelho d’água do reservatório cobre uma área com, aproximadamente, 450 km², equivalente a quase quatro vezes o tamanho da Baía da Guanabara. Isso nos dá uma ideia do tamanho dos impactos ambientais criados, onde grandes extensões de matas tiveram de ser suprimidas, além da desapropriação de grandes áreas de produção agrícola.  

Apesar do tamanho impressionante do seu lago, a geração de energia elétrica na Usina Hidrelétrica de Jurumirim é muito baixa – o projeto previa a geração de 98 MW, porém nunca se chegou a esse nível de produção. Estudos feitos em 2014 indicam que os dois grupos geradores da Usina só conseguem atingir 40% da capacidade projetada. A represa acabou tendo sua função alterada, passando a atuar como uma reguladora dos caudais de águas do rio Paranapanema. 

Em tempos, felizmente, já distantes, quando não havia a previsão legal de estudos para averiguação dos impactos ambientais que seriam desencadeados pelas obras, não existiam maiores obstáculos para a realização desses empreendimentos e seguiu-se a construção de usinas hidrelétricas “em série” ao longo da calha do rio Paranapanema: 

  • Usina Hidrelétrica Salto Grande, construída entre 1951 e 1958, com potência instalada de 74 MW;  
  • Usina Hidrelétrica Chavantes, construída entre 1959 e 1971, com potência total de 414 MW;  
  • Usina Hidrelétrica Capivara, a maior usina do rio Paranapanema, inaugurada em 1978, com uma potência total de 619 MW;  
  • Usina Hidrelétrica Rosana, concluída em 1987, com potência instalada de 372 MW. 

A partir de 1986, quando foi publicada a Resolução CONAMA 001, do Conselho Nacional do Meio Ambiente, a realização de obras de grande impacto ambiental passou a ficar dependente da elaboração de um profundo estudo dos impactos ambientais decorrentes. Em grandes projetos de usinas hidrelétricas esses estudos costumam levar mais de 5 anos. Nessa nova fase foram construídos os seguintes empreendimentos: 

  • Usina Hidrelétrica Taquaruçu, concluída em 1992, com potência total de 554 MW;  
  • Usinas Hidrelétricas Canoas I e Canoas II, concluídas em 1999, com potências instaladas de 81 MW e 72 MW, respectivamente;  
  • Usina Hidrelétrica Piraju, concluída em 2002, com 80 MW de potência e  
  • Usina Hidrelétrica Ourinhos, concluída em 2005, com uma potência instalada de 44 MW. 

Um caso que chama a atenção nessa lista é a Usina Hidrelétrica de Ourinhoscom um lago com área de 4,5 km², ou seja, com apenas 1/100 da área ocupada pela represa da Usina Hidrelétrica de Jurumirim, a capacidade geradora das duas usinas é a mesma. Isso demonstra que não são apenas a falta de chuvas e os baixos níveis dos reservatórios os grandes responsáveis pelos problemas na área de geração de energia elétrica no país – muitos erros foram cometidos nos projetos e nas construções desses empreendimentos num passado não tão distante. 

A bacia hidrográfica do rio Paranapanema concentra importantes áreas de produção agrícola dos Estados de São Paulo e do Paraná. Essa região era coberta originalmente pela Mata Atlântica e, desde o final do século XIX, começou a ser ocupada por imensos cafezais. Em décadas mais recentes, a região passou a concentrar grandes plantações de cana-de-açúcar e de grãos. Destruição de matas nativas e avanço de frentes agrícolas sempre impactam nas nascentes dos rios, que têm seus caudais diminuidos ao longo do tempo. 

Um exemplo dos impactos ambientais criados pela construção de sucessivas represas no rio Paranapanema é o desaparecimento do surubim-do-Paranapanema, também conhecido como surubim-pirajuense. Essa espécie endêmica de peixe, que é cada vez mais difícil de ser encontrada nas águas do rio, só foi catalogada em 2002 e, muito provavelmente, surgiu há cerca de 15 milhões de anos.  

Em resumo: as águas do rio Paranapanema não estão nem para peixe nem para geração de eletricidade. Precisamos todos refletir muito sobre tudo isso. 

O RIO TOCANTINS E SUAS USINAS HIDRELÉTRICAS

Na postagem anterior falamos dos contrastes do rio Paraná em diferentes trechos. Na região do alto da sua grande bacia hidrográfica, a segunda maior em tamanho na América do Sul, o rio vem apresentando caudais médios, um reflexo da grande seca que se abateu na região central do Brasil. Na região do Lago de Itaipu, onde chegaram bons aportes de água ao longo do último verão, o nível está excelente. Já no baixo trecho da bacia hidrográfica, dentro do território da Argentina, o rio sofre com a forte seca e com baixíssimos níveis. 

Um outro rio que vive uma situação similar é o Tocantins, um rio 100% brasileiro que nasce na região da Serra Dourada, no Estado de Goiás, e que tem sua foz na Baía do Marajó, bem próximo da cidade de Belém do Pará. Junto com o rio Araguaia, o Tocantins forma uma bacia hidrográfica que ocupa uma área total de 960 mil km², o correspondente a 11% do território brasileiro.  

A bacia hidrográfica Tocantins-Araguaia é considerada a segunda maior em produção de energia elétrica do Brasil. No rio Tocantins foram construídos vários complexos hidrelétricos, transformando o rio numa sucessão de represas. A primeira usina hidrelétrica do rio Tocantins foi Tucuruí, concluída em 1984 e causadora de inúmeros problemas ambientais e sociais apresentados em diversas postagens anteriores.  

O lago de Tucuruí vai muito bem, obrigado: de acordo com informações do ONS – Operador Nacional do Sistema Elétrico, o volume acumulado era de 98,77% de sua capacidade máxima em 22 de maio. É importante destacar que a Usina Hidrelétrica de Tucuruí tem uma potência total instalada de 8,37 mil MW e é uma das mais importantes geradoras do Brasil. 

Na outra “ponta”, na região do alto rio Tocantins, encontramos a Usina Hidrelétrica de Serra Mesa (vide foto), onde as coisas estão bem mais complicadas. O lago da Usina, formado no final da década de 1990 e considerado um dos maiores espelhos d’água do Brasil, amarga um volume total de meros 36,84% de sua capacidade máxima, de acordo com dados de 22 de maio do mesmo ONS

À jusante da Usina de Serra Mesa foi construída uma sucessão de hidrelétricas ao longo dos anos, que dependem dos caudais liberados pela barragem. Em 2002 foram finalizadas as Usinas de Cana Brava e Luís Eduardo de Magalhães. Em 2006 foi a vez da Usina de Peixe Angical e em 2009 as Usinas de Estreito e São Salvador. O rio Araguaia não possui nenhuma usina hidrelétrica instalada. 

A diferença entre esses dois cenários é bem fácil de se explicar – apesar de ser considerado parte de uma bacia hidrográfica independente, o trecho baixo do rio Tocantins está inserido na Floresta Amazônica e goza das benesses da sua generosa temporada de chuvas. Os grandes volumes de água dessas chuvas chegam até o rio Tocantins através de uma série de afluentes e “vitaminam” os volumes armazenados no lago de Tucuruí. Também não são desprezíveis os volumes de água despejados pelo rio Araguaia, que deságua no rio Tocantins bem próximo da cidade de Marabá, no Estado do Pará. 

O alto rio Tocantins, ao contrário, tem suas nascentes e tributários inseridos dentro do bioma Cerrado no Brasil Central. Além de estar sofrendo com volumes de chuvas abaixo da média nos últimos anos, essa extensa região abriga há várias décadas as frentes de expansão da agricultura aqui no Brasil, notadamente a produção de grãos como a soja e o milho. A destruição de grandes trechos da vegetação nativa do Cerrado tem se revertido na redução dos caudais dos rios da região. 

O lago da Usina Hidrelétrica de Serra Mesa ocupa uma área total de 1.784 km², o que é maior que toda a área ocupada pelo município de São Paulo. Considerado o quinto maior lago artificial do Brasil, esse reservatório pode armazenar aproximadamente 54 bilhões de m³ de água. Quando esse Usina foi idealizada, os projetistas imaginaram que seu lago desempenharia um papel semelhante ao da Represa de Três Marias, no rio São Francisco, funcionando como um regulador dos caudais do rio Tocantins no período da seca. Infelizmente, o Lago de Serra Mesa vem enfrentando sucessivas secas desde 2012 e está cada vez mais distante dos objetivos iniciais de sua criação. 

No final de 2018, nós publicamos uma postagem aqui no blog falando da situação crítica de Serra Mesa, que naquela época chegou ao nível de 12,46% (28/10/2018). Naquele momento, toda a Região o Centro-Oeste do país estava passando por um período de forte seca e as populações da região esperavam ansiosamente pela chegada de chuvas em volumes maiores e com melhor distribuição geográfica. 

De acordo com estudos da SECIMA – Secretaria Estadual de Cidade, Meio Ambiente e Recursos Hídricos de Goiás, foi observada uma redução de 10% nos volumes de chuva no Estado desde 2008 – a partir de 2016, a redução foi ainda maior, chegando aos 25%. Neste período, o fenômeno El Niño  se fez presente em 4 anos, tendo provocado uma redução nas chuvas em pelo menos 3 anos. Desde o final do ano passado, a vilã climática no Centro-Oeste brasileiro é La Niña

A ANA – Agência Nacional de Águas, em diversos momentos precisou publicar Resoluções no sentido de reduzir a vazão da Usina Hidrelétrica de Serra Mesa a fim de permitir uma recuperação dos níveis do reservatório. Uma Resolução de 2018, citando um exemplo, determinou a redução da vazão da Hidrelétrica de 300 m³ por segundo para 200 m³ por segundo entre dezembro de 2018 e maio de 2019. Esse foi considerado há época o limite mínimo de água para garantir a operação das usinas hidrelétricas a jusante. 

Além de criar graves problemas para a geração de energia elétrica, os reduzidos caudais desse trecho do rio Tocantins criam inúmeros problemas para a navegação hidroviária. A calha do rio fica tomada por grandes bancos de areia, que se transformam em verdadeiras armadilhas para as embarcações. Além do transporte de grãos como o milho e a soja, a navegação no rio Tocantins é fundamental para o transporte das populações ribeirinhas e de turistas, especialmente pescadores, que buscam a região e seus famosos peixes como o tucunaré. 

Há época das cheias, é possível navegar até 2.000 km pelas águas do rio Tocantins, saindo da cidade de Belém do Pará e chegando a Lajeado, no Estado do Tocantins, o que demonstra todo o potencial dessa hidrovia para o escoamento de grãos produzidos na região Centro-Oeste. Um dos grandes obstáculos ainda existentes para a exploração plena dessa hidrovia é o Pedral do Lourenço, um trecho de 43 km do rio Tocantins repleto de afloramentos rochosos. Na época da seca, somente canoas com remadores habilidosos conseguem vencer esse trecho. 

O Governo Federal vem trabalhando há vários anos no sentido de viabilizar a construção de um canal de navegação através do Pedral do Lourenço – as últimas notícias divulgadas dão conta do bom andamento do processo de licenciamento ambiental. Outra boa notícia foi a reativação da eclusa da barragem da Usina Hidrelétrica de Tucuruí após uma ampla manutenção dos seus equipamentos. 

Todos esses planos, é claro, dependem da boa “saúde” do rio Tocantins, especialmente no trecho do seu alto curso. É fundamental que se façam estudos para determinar quais são exatamente os limites entre os fatores climáticos e os fatores antrópicos (criados pelo ser humano), de forma a se tomar medidas de proteção e de recuperação de remanescentes florestais com vistas à recuperação de nascentes e de afluentes da bacia hidrográfica. 

Jogar a culpa em El Niño, em La Niña e em outros problemas climáticos é simplificar demais a questão. 

OS GRANDES CONTRASTES DO RIO PARANÁ: UM NÍVEL RAZOÁVEL AQUI NO BRASIL E UMA FORTÍSSIMA SECA NA ARGENTINA

Com aproximadamente 4.880 km de extensão, o rio Paraná é considerado o oitavo maior rio do Mundo e sua bacia hidrográfica, que por convenção recebe o nome do rio da Prata (o último rio da bacia), é a segunda maior da América do Sul, só ficando atrás da gigantesca bacia do rio Amazonas. Seus principais afluentes também são rios de porte considerável: Paranaíba, Grande, Tietê, Paranapanema, Iguaçu, Paraguai, Salado, Pilcomayo e Bernejo, entre outros..  

Os importantes rios Uruguai e Negro despejam suas águas diretamente na região do delta do rio Paraná. As águas de todos esses grandes rios e de uma infinidade de rios menores se juntam para formar o grandioso rio da Prata, um verdadeiro ““mar” de águas doces entre a Argentina e o Uruguai. A área total ocupada pela bacia hidrográfica do rio da Prata é de 2,5 milhões de km². 

Um sistema hidrográfico tão grande e tão complexo é, normalmente, cheio de contrastes – e é justamente isso que está acontecendo nesse momento em diferentes trechos do rio Paraná. Vamos entender o que está acontecendo: 

No alto rio Paraná, onde encontramos a Usina Hidrelétrica de Ilha Solteira, as consequências da redução dos volumes das chuvas nas bacias hidrográficas dos rios Paranaíba e Grande são bem visíveis. Conforme já comentamos na postagem anterior, esses dois rios se juntam no ponto em que se encontram as divisas dos Estados de Minas Gerais, São Paulo e Mato Grosso do Sul, e formam o rio Paraná. 

As bacias hidrográficas do rio Grande e do Paranaíba tiveram uma temporada com chuvas abaixo da média, o que está se refletindo em baixos níveis nas calhas dos rios e, especialmente, nos inúmeros reservatórios de usinas hidrelétricas. Esses baixos estoques de água colocam em risco parte da geração de energia elétrica no país, um problema que colocou todas as autoridades do setor em alerta. 

O reservatório da Usina Hidrelétrica de Ilha Solteira, que fica no rio Paraná a pouco mais de 80 km do ponto de confluência dos rios Grande e Paranaíba, é um exemplo de como andam os caudais na região. De acordo com informações do ONS – Operador Nacional do Sistema Elétrico, do dia 19 de maio, o nível do reservatório está em 48,23% de sua capacidade máxima. No início do mês de janeiro, auge do período das chuvas, o nível era de apenas 50,45%, o que mostra a situação crítica dos caudais do rio. 

Cerca de 800 km a jusante (correnteza abaixo), o grande lago da Usina Hidrelétrica de Itaipu vive uma situação bastante diferente. Com a chegada do período chuvoso nas Regiões Sul e Sudeste, grandes volumes de água passaram a chegar ao reservatório e reverteram completamente a situação. O nível das águas, que em novembro de 2020 estava na cota de 216 metros, subiu vigorosamente e atingiu o nível de 220 metros, considerado o volume normal, no final de fevereiro. 

A Usina Hidrelétrica de Itaipu, ou simplesmente Itaipu Binacional, é a maior usina hidrelétrica do Brasil e uma das maiores geradoras de energia elétrica do mundo. O empreendimento é responsável pelo fornecimento de mais de 75% da energia elétrica consumida no Paraguai (algumas fontes falam de 90%) e de cerca de 17% do consumo no Brasil. Itaipu conta com um total de 20 grupos geradores, com uma capacidade total instalada de 14.000 MW. Foram gastas mais de 50 mil horas para realizar totalmente este mega empreendimento, com um custo, a valores há época, de US$ 16 bilhões

Já no baixo curso do rio Paraná, na Argentina, a situação de momento é simplesmente caótica. A forte seca que atingiu o Norte da Argentina, partes do Paraguai e da Bolívia, além da Região Centro-Oeste do Brasil, resultou numa fortíssima redução nos caudais que chegam nesse trecho do rio. O rio Paraguai, que é um dos maiores tributários do baixo curso do rio Paraná, está com níveis extremamente baixos. Na região de Cáceres, no Estado de Mato Grosso, o nível do rio Paraguai está na cota de 2 metros – em anos normais, o nível do rio estaria com cerca de 3,8 metros nessa época do ano. 

Na região de Rosário, um importante polo exportador de soja e sede de algumas das maiores fábricas de esmagamento de soja do mundo, o nível do rio Paraná nos últimos dias tem sido de apenas 90 centímetros, o que vem prejudicando, e muito, os embarques de cargas.  

O canal de navegação existente no rio, que é mantido através de serviços contínuos de dragagem, está com apenas 10 metros de profundidade – por razões de segurança para a navegação, o ideal seria uma profundidade próxima dos 15 metros. De acordo com as autoridades locais, esse é o mais baixo nível do rio Paraná na região de Rosário em 50 anos. O Governo da Argentina renovou emergencialmente o contrato com a empresa responsável pelos serviços de dragagem, uma multinacional de origem belga, o que provocou fortes críticas da oposição e da imprensa. 

A Argentina é o maior exportador mundial de farelo de soja e o terceiro maior exportador de milho, além de um grande exportador de soja (já chegou a ser o terceiro maior exportador, mas andou perdendo posições). A hidrovia do rio Paraná é o principal canal de escoamento dessa produção e os baixos níveis das águas nesse momento de início das exportações da safra é uma péssima notícia para um país que passa por uma fortíssima recessão econômica. 

De acordo com informações da Câmara de Atividades Portuárias e Marítimas, os navios estão sendo carregados com um volume menor de carga – entre 5,5 e 7 mil toneladas a menos, como medida preventiva para evitar que as embarcações encalhem. Em condições normais, a hidrovia do rio Paraná permite o tráfego de grandes cargueiros marítimos da classe Panamax (tamanho padrão para passagem pelo Canal do Panamá até pouco tempo atrás), o que permite o transporte dos grãos e do farelo diretamente para os países clientes da Argentina ao redor do mundo sem a necessidade de transbordo para navios maiores. 

A expectativa dos produtores argentinos é a colheita de uma safra de 45 milhões de toneladas de soja e de 50 milhões de toneladas de milho na atual safra. Até o início de maio, cerca de 35% da soja e 20% do milho já haviam sido colhidos. O setor agrícola é um dos principais motores da economia argentina e a principal fonte de receitas em moeda estrangeira do país. 

Sem poder contar plenamente com a navegação fluvial, os produtores correm o risco de ter de desembolsar valores entre US$ 250 e 300 milhões em fretes rodoviários para transportar a produção até portos mais ao Sul, onde as condições do rio estão melhores para a navegação.  

Com a chegada do inverno no Hemisfério Sul no próximo mês de junho, terá início o período mais seco do ano na Região Centro-Sul do Brasil e no país vizinho. A situação crítica em que se encontra o rio Paraná em seu baixo curso, infelizmente, tenderá a ficar ainda mais complicada nos próximos meses – as fortes chuvas só devem voltar no final deste ano. 

Além de enfrentar uma persistente recessão econômica há mais de três anos, a Argentina vem sendo fortemente atingida por medidas de restrição de circulação de seus cidadãos por causa da pandemia da Covid-19. Como se não bastassem todos esses problemas, medidas populistas do Governo estão criando ainda mais problemas para a economia do país. Os baixos níveis no rio Paraná e as dificuldades para as exportações de grãos e farelo de soja são apenas mais alguns pregos no “caixão” da já combalida economia do país… 

Um mesmo rio, porém, com cenários locais completamente diferentes.

OS BAIXOS NÍVEIS DO RIO PARANAÍBA

Segundo o relatório anual do IGAM – Instituto Mineiro de Gestão das Águas, as áreas de conflito hídrico no Estado de Minas Gerais aumentaram cerca de 14% nos últimos 5 anos. Essas áreas, onde o volume de água captada não é suficiente para atender as demandas de todos os usuários, totalizavam 57 em 2015 e subiram para 65 em 2020. 

De acordo com a avaliação apresentada no Relatório Gestão e Situação das Águas em Minas Gerais 2020, “os problemas de conflito pelo uso da água têm se agravado nos últimos anos, seja por seu uso mais intensivo ou por alterações no ciclo hidrológico”. As áreas que concentram a maioria dos conflitos são Triângulo Mineiro, a bacia hidrográfica do rio São Francisco no Noroeste do Estado e a bacia hidrográfica do rio Paranaíba, foco da postagem de hoje. 

Com cerca de 1.170 km de extensão, o “discreto” rio Paranaíba não fica muito longe em tamanho de rios famosos do Brasil como o Tietê e o Iguaçu. Ele tem suas nascentes na Serra da Mata da Corda, próximo da região do Triângulo Mineiro e trecho final no encontro com as águas do rio Grande, onde é formado o rio Paraná. 

O subsistema de geração elétrica do rio Paranaíba é parte integrante do Subsistema Sudeste / Centro-Oeste da ONS – Operador Nacional do Sistema Elétrico, onde responde por 38,42% da capacidade de armazenamento de energia da bacia/reservatório em relação ao subsistema considerando todos os reservatórios cheios

A palavra Paranaíba vem das línguas indígenas da região e significa algo como “rio ruim”, uma definição provavelmente ligada à grande dificuldade de navegação em suas águas agitadas. Essa “rebeldia” das águas resultou num grande aproveitamento para a geração de energia elétrica – foram construídas 4 usinas na calha do rio: São Simão, Cachoeira Dourada (geração a fio d’água sem reservatório), Itumbiara e Emborcação.   

Além dessas usinas hidrelétricas, o subsistema do rio Paranaíba também incluiu as Usinas Hidrelétricas Batalha e Serra no Facão, no rio São Marcos em Goiás, e a Usina Hidrelétrica de Nova Ponte, no rio Araguari em Minas Gerais. De todos os subsistemas que formam o Subsistema Sudeste / Centro-Oeste, o rio Paranaíba é o que apresenta o maior número de reservatórios com níveis de água muito baixos. 

O primeiro aproveitamento hidráulico das águas do rio Paranaíba se deu em função da necessidade de gerar eletricidade para a construção de Brasília, a nova Capital Federal do país. Há época, as regiões interiores do Brasil apresentavam verdadeiros vazios habitacionais e diversas políticas governamentais foram criadas para povoar essas regiões – a transferência da Capital Federal do Rio de Janeiro para o Planalto Central era parte dessas políticas. A Usina Hidrelétrica de Cachoeira Dourada foi construída na década de 1950 e é considerada uma usina hidrelétrica a fio d’água.  

A construção de usina foi iniciada em 1956 e inaugurada em 1959, com uma potência instalada inicial de 32 MW. Entre 1965 e 1970, a usina entrou numa segunda etapa de obras, quando foram instalados novos grupos geradores e a potência total foi aumentada em 156 MW. Numa terceira etapa de obras na década de 1970, foram agregados novos grupos geradores de 255 MW, além de grupos de geradores menores entre 138 e 230 kW. Finalmente, já na década de 1990, a usina passou pela etapa final de obras e agregou mais 200 MW ao sistema, atingindo uma potência total de aproximadamente 650 MW.  

A partir do final da década de 1970, época das grandes obras de infraestrutura do período dos Governos Militares, foram iniciadas as obras de construção de três usinas hidrelétricas no rio Paranaíba. A primeira a ser inaugurada foi a Usina Hidrelétrica de São Simão, instalada entre os municípios de São Simão, em Goiás, e Santa Vitória, em Minas Gerais.  

Essa usina opera com 6 grupos geradores, que fornecem uma potência total de 1.719 MW. A barragem da usina atinge uma altura de 127 metros, formando um lago com uma área máxima de 720 km² e capacidade para armazenar 12,5 bilhões de m³ de água. A usina foi i augurada em 1978 e em 2017 foi privatizada. De acordo com dados do ONS, o reservatório de São Simão apresentava 13,98% da sua capacidade em 18 de maio

Em 1981, foi inaugurada a Usina Hidrelétrica de Itumbiara, o maior empreendimento do setor no rio Paranaíba, localizada entre os municípios de Itumbiara, em Goiás, e Araporã, em Minas Gerais. A usina possui 6 grupos geradores, que fornecem uma potência total de 2.082 MW. A barragem da usina tem uma altura máxima de 106 metros, com um lago com área máxima de 778 km² e um volume útil de mais de 12 bilhões de m³. O nível do reservatório de Itumbiara está com 23,48% da sua capacidade

Por fim, em 1983, foi inaugurada a Usina Hidrelétrica de Emborcação, construída entre os municípios de Araguari, em Minas Gerais, e Catalão, em Goiás. A usina possui 4 grupos geradores, que fornecem uma potência total de 1.192 MW. A altura máxima da barragem é 158 metros e o lago formado ocupa uma superfície de 473 km², com um armazenamento total de 13 bilhões de m³ de água. O nível do reservatório da Usina está com 21,99% da sua capacidade

A Usina Hidrelétrica de Nova Ponte, no rio Araguari, foi inaugura em 1994 e tem uma potência total instalada de 510 MW. O reservatório dessa Usina ocupa uma área total de 449 km² e, segundo os dados do ONS, está com 16,45% da sua capacidade

A Usina Hidrelétrica Serra do Facão, no rio São Marcos, foi inaugurada em 2010 e possui uma capacidade total instalada de 212 MW. O reservatório da Usina, que ocupa uma área de 218 km², está com um nível de 28,28% de sua capacidade máxima. Já a Usina Hidrelétrica de Batalha, que fica no mesmo rio, está com seu reservatório com confortáveis 54,91% de sua capacidade máxima. Essa usina foi inaugurada em 2014 e conta com uma potência total de 54 MW

Além de sua importância como geradoras de energia elétrica, as usinas hidrelétricas instaladas na bacia hidrográfica do rio Paranaíba têm uma importância ímpar na regularização do volume de águas no rio Paraná. Essa regularização é fundamental para a operação das usinas instaladas nesse rio, que juntas geram perto de 25 mil MW de energia elétrica. As baixas vazões nas águas do rio Paranaíba e também no rio Grande, além de comprometer a geração de energia elétrica em seus respectivos subsistemas, também criam problemas para o subsistema a jusante. 

Um outro problema relevante – a regularização dos níveis de água no rio Paraná também é fundamental para a operação contínua da Hidrovia Tietê-Paraná, a mais importante do Brasil. Com uma extensão total de 2.400 km de águas navegáveis, esta hidrovia permite o transporte de grandes volumes de carga entre num trecho de 1.600 km ao longo do rio Paraná e de 800 km nos rios Tietê e Piracicaba.   

Repetindo o mesmo comentário feito na última postagem, praticamente toda a bacia hidrográfica do rio Paranaíba está inserida dentro do bioma Cerrado. O forte crescimento da agricultura nessa região nas últimas décadas, levou a uma expressiva redução das matas nativas desse bioma. A foto que ilustra esse postagem mostra um trecho do rio e o predomínio dos campos agrícolas na paisagem. A vegetação nativa do Cerrado tem como principal característica a presença de raízes muito grandes, raízes essas que são fundamentais para a infiltração da água das chuvas no subsolo e na recarga das reservas subterrâneas de água, origem das nascentes de muitos rios

Mudanças nos padrões das chuvas ao longo da bacia hidrográfica e aumento no consumo de água, especialmente pela agricultura, ajudam a explicar a baixa vazão do rio Paranaíba. A destruição das matas nativas, entretanto, não deve ser menosprezada e precisa ser levada em conta daqui para a frente. 

A devastação ambiental sempre cobra o seu preço – pode até demorar, mas um dia a conta chega. 

A GRANDE SECA NO “MAR DE MINAS GERAIS”

Segundo informações do ONS – Operador Nacional do Sistema Elétrico, publicadas no dia 17 de maio, o Lago de Furnas, no rio Grande, apresentava um volume útil de 37,56%, um nível extremamente baixo para este momento de início da estação seca do ano. A Usina Hidrelétrica de Furnas faz parte do Subsistema Sudeste /Centro-Oeste, um dos mais importantes complexos geradores de energia elétrica do Brasil. 

A Usina Hidrelétrica de Furnas teve sua construção iniciada em 1958, tempos do Governo Juscelino Kubitschek, onde o lema era “50 anos em 5”. Há época, Furnas era a maior usina hidrelétrica em construção na América Latina e, quando teve suas turbinas acionadas mais do que dobrou a oferta de energia elétrica no Brasil. Furnas foi essencial para o desenvolvimento econômico dos estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, além do Distrito Federal. 

O espelho d’água do Reservatório de Furnas cobre uma área máxima de 1.440 km², sendo o maior lago do Estado de Minas Gerais. Os mineiros, carinhosamente, costumam usar a expressão “mar de Minas” ao se referir ao Lago de Furnas. Um total de 34 municípios são banhados pelas águas do Lago, que tem uma capacidade de armazenamento máxima de 24 bilhões de m³ de água. 

O nome Furnas, segundo consta, vem de uma grande cachoeira que, no dizer dos locais, ficava “enfurnada” entre dois morros num trecho estreito do rio Grande. Esse local apresentava ótimas condições para a construção de uma grande barragem para o represamento do rio, o que acabou sendo feito. O paredão da barragem tem cerca de 500 metros de largura e 120 metros de altura. 

A hidrelétrica possui um conjunto com 8 unidades geradoras de energia elétrica. A primeira dessas unidades entrou em operação em 1963, porém, devido ao momento político delicado vivido no país naquele momento, a inauguração oficial da usina só aconteceria em maio de 1965 já no Governo Castelo Branco. O projeto inicial previa a instalação de 6 grupos geradores, o que foi finalizado em 1966. Uma alteração no projeto permitiu a incorporação de mais 2 grupos geradores, o que foi concluído em 1970. A potência total instalada na Usina Hidrelétrica de Furnas é de 1.216 MW. 

Além do grande impacto na economia do país, Furnas causou enormes mudanças sociais em toda a sua região de entorno. Como sempre acontece com a construção de grandes barragens e formação de grandes represas, a construção de Furnas forçou a desapropriação de mais de 8 mil casas e propriedades rurais, além do deslocamento forçado de cerca de 35 mil moradores. Muitos desses moradores resistiram ao máximo em abandonar suas casas – existem fotos que mostram pessoas presas nos telhados de suas casas cercados pelas águas da represa que subiam velozmente. 

Entre as localidades que foram encobertas pelas águas do lago são destaques a cidade de Guapé e a Vila de São José da Barra que foram reconstruídas em lugares mais altos. Um detalhe interessante da obra foi a necessidade de reverter o curso do rio Piumhi, na região de Capitólio. Esse rio originalmente desaguava no rio Grande, mas foi desviado na direção do rio São Francisco. Para evitar que a cidade de Capitólio fosse inundada pelas águas do lago de Furnas foi necessária a construção de um dique de contenção. 

Apesar dos inúmeros problemas criados inicialmente pela formação do Lago de Furnas, a obra acabou se integrando perfeitamente às paisagens da região e se transformou num dos grandes destinos turísticos do Estado. As águas tranquilas do lago eram ideais para o banho, prática de esportes, pesca e navegação. Como se tudo isso ainda fosse pouco, as margens do lago apresentam inúmeros canyons (cuja palavra equivalente em português é canhão), grutas e cachoeiras, formações que encantavam os turistas. Furnas é, na fala popular do povo mineiro, “tudo de bão“.   

Localizado a mais de 500 km da praia mais próxima no Oceano Atlântico, o “mar” de Minas Gerais começou a atrair verdadeiras multidões para as suas margens. Aos poucos foram surgindo pousadas, hotéis, restaurantes, marinas, pesqueiros e outras instalações voltadas ao atendimento dos turistas. Empresas de viagens e de turismo também descobriram o potencial do Lago de Furnas e passaram a criar pacotes de viagem completos. Bastaram poucos anos para que o turismo se transformasse em uma das atividades mais importantes para a economia dos municípios do entorno do Lago de Furnas. 

Uma outra atividade econômica que surgiu em função do Lago de Furnas foi a piscicultura, onde os peixes são criados em cercados flutuantes. A produção de peixes em cativeiro chegou a atingir a marca 1,6 mil toneladas. Também é preciso citar a grande valorização dos imóveis com vista para o ‘mar” – ter uma casa ou sítio de fim de semana nas margens de Furnas virou símbolo de status.

O Lago de Furnas atingiu tamanha importância regional que resultou na criação da ALAGO – Associação dos Municípios do Lago de Furnas, uma “iniciativa associativista direcionada para a sustentabilidade e a preservação ambiental” de toda a região banhada pelo lago, formada por 39 municípios da região de entorno. A entidade também se ocupa com o desenvolvimento regional e também com a coordenação de ações conjuntas.  

Apesar da extrema importância regional e da grande articulação entre as prefeituras do seu entorno, o Lago de Furnas vem sofrendo com sucessivos ciclos de graves secas nos últimos anos. A primeira dessas secas teve início em 1999 e se estendeu até 2001, ano que entrou para a história por causa do “apagão” do sistema elétrico brasileiro. Depois disso, foram cerca de 10 anos com uma boa acumulação de água em Furnas. 

A partir de 2012, o Lago entrou em um ciclo quase contínuo de fortes secas – em meados de julho daquele ano, o nível do Lago chegou a baixar 15 metros, causando prejuízos estimados em mais de R$ 100 milhões para as cidades do seu entorno. No ano de 2014, uma nova situação crítica em Furnas – registros da época mostram que o volume de chuvas na região foi de apenas 1/3 da média registrada nos 19 anos anteriores. 

Em fevereiro de 2015, a seca persistente levou o Lago de Furnas ao nível mais baixo desde 1999 – 10,62% de acordo com registros do ONS – Operador Nacional do Sistema Elétrico. Ao longo dos anos seguintes, o nível do Lago apresentou uma sucessão de altos e baixos, com o nível máximo sempre ficando muito abaixo da capacidade máxima – aliás, o nível máximo do lago não é atingido há mais de 10 anos. O turismo, a agricultura e a piscultura são as atividades econômicas mais prejudicadas com os baixos níveis contínuos do Lago.

Além de uma sensível redução já observada nos volumes de chuvas em toda a região ao longo dos últimos anos, os persistentes baixos níveis no Lago de Furnas podem também ser resultado do avanço da agricultura sobre as áreas do Cerrado, bioma predominante na região.  

As longas raízes da vegetação nativa do Cerrado são fundamentais para a infiltração da água das chuvas no solo e recarga das fontes subterrâneas que alimentam as nascentes dos rios, rios esses que alimentam o grande reservatório. As respostas dependerão de estudos cada vez mais aprofundados sobre esse tema. 

Os baixos níveis no “mar” de Minas, além de comprometer a geração de energia na usina hidrelétrica, também causam prejuízos de toda a ordem para a população das cidades do entorno. A água tem mesmo múltiplos usos e sua falta pode criar inúmeros problemas. 

FALANDO UM POUCO DO SISTEMA DE GERAÇÃO ELÉTRICA DO BRASIL E DOS SEUS PROBLEMAS

O século XIX foi um dos mais empolgantes para o desenvolvimento das ciências. Antigos dogmas e afirmações religiosas que, durante muitos séculos, responderam a muitas questões científicas, pouco a pouco foram sendo deixados de lado e as ciências passaram a ser o caminho em busca das respostas à inúmeras perguntas que há muito estavam em aberto. 

Pessoalmente, eu vejo a publicação do livro “A origem das espécies”, por Charles Darwin em 1859, como o grande divisor de águas entre a ciência e a religião. Usando de forte base analítica acumulada através de muitos anos de observações, especialmente ao longo da lendária expedição ao redor do mundo no navio da Marinha Real Britânica HMS Beagle, Darwin propôs que as espécies evoluem ao longo do tempo e os indivíduos que melhor se adaptam ao meio ambiente sobrevivem e garantem a perpetuação das suas linhagens. Líderes religiosos abominaram essa ideia (muito abominam até hoje). 

Um dos ramos científicos que mais se desenvolveu há época foram os estudos para o uso da eletricidade. Os fenômenos elétricos eram conhecidos e estudados já há muito tempo, mas foi no século XIX que a eletricidade ganhou as suas primeiras aplicações práticas e começou a mudar o dia a dia das pessoas. Uma das mais empolgantes invenções nessa área foi a lâmpada elétrica, um feito que envolve inúmeros pesquisadores a partir da década de 1830 – a primeira lâmpada funcional e comercialmente viável foi apresentada por Thomas Edison em 1879

A história da eletricidade no Brasil tem fortes ligações com Thomas Edison e começou em 1876, ano em que o Imperador Dom Pedro II viajou para os Estados Unidos para participar das comemorações do primeiro centenário da independência do país.  

Durante a longa estadia em terras norte-americanas, Dom Pedro II, que era reconhecidamente um amante das artes e das ciências, conheceu grandes inventores e empreendedores, com destaque para Alexander Gram Bell, criador de um sistema funcional de telefonia (ainda existem questionamentos quanto ao inventor do aparelho) e Thomas Edison, que há época estava aperfeiçoando a sua lâmpada elétrica com filamento de carbono. 

De acordo com Renato Diniz, pesquisador da história da energia elétrica, foi graças a esse contato inicial entre Thomas Edison e Dom Pedro II que, em 1879, o Governo brasileiro assinou um contrato com a empresa Edison Eletric Light Co. para a concessão e operação de um sistema de iluminação elétrica em estações da Estrada de Ferro Dom Pedro II. 

Uma outra experiência pioneira do uso da eletricidade aqui no Brasil se deu em 1891, quando foi criada uma linha de bondes elétricos ligando o Largo do Machado ao bairro do Flamengo, uma iniciativa que não durou muito por falta de capitais. Em 1895, a empresa belga SAG – Société Anonyme du Gaz, obteve a primeira concessão para exploração da eletricidade na iluminação pública. Todas essas iniciativas acabaram fracassando devido a um problema comum: a geração de energia elétrica há época era realizada em usinas térmicas a carvão, um insumo que era importado e tinha altos custos aqui no Brasil. 

O território brasileiro é, conforme já tratamos em inúmeras postagens anteriores, extremamente pobre em reservas de carvão mineral. Uma das poucas exceções é uma faixa de terras no Sul do Estado de Santa Catarina onde se encontram reservas de carvão de baixa qualidade. Essa falta de carvão, inclusive, está na raiz de grandes desmatamentos em locais como Minas Gerais – as florestas foram sistematicamente derrubadas e transformadas em carvão vegetal para uso na siderurgia. 

A salvação energética do país veio, felizmente, a partir do aproveitamento dos nossos gigantescos recursos hídricos. A primeira unidade geradora de energia elétrica instalada no Brasil remonta ao ano de 1883, no Ribeirão do Inferno, em Diamantina – Minas Gerais. A eletricidade dessa unidade era gerada por um pequeno dínamo ligado a uma roda de água e era usada exclusivamente para acionar bombas de água em uma mina de diamantes. 

A Usina de Marmelos (vide foto), na Zona da Mata Mineira, é considerada a primeira usina hidrelétrica a entrar em operação comercial no Brasil e na América do Sul, mostrando a importância da iniciativa privada na história da eletrificação do país. Marmelos iniciou suas operações em 1889 com dois conjuntos geradores de 125 kW e, gradativamente, foi ampliando a sua potência instalada até atingir 4 MW. A antiga unidade geradora foi descontinuada em 1980 e transformada em um espaço cultural. Duas novas unidades geradoras, Marmelo I e II, foram construídas e continuam em operação. 

Essas experiências pioneiras marcaram o início da construção e operação de uma infinidade de centrais hidrelétricas por todo o Brasil, uma fonte que chegou a responder por cerca de 90% de toda a energia elétrica gerada em nosso país. Há cerca de dois anos atrás nós publicamos uma série de postagens falando bastante sobre a geração de energia elétrica a partir de fontes hidráulicas aqui no Brasil – Água e geração de energia. Siga o link para acessar as postagens. 

De acordo com dados da ANEEL – Agência Nacional de Energia Elétrica, o Brasil encerrou o ano de 2020 com uma capacidade instalada de 174.412,6 MW de potência fiscalizada – existem diversos novos empreendimentos em construção. Desse total em operação, 74,76% das usinas são impulsionadas por fontes consideradas sustentáveis, com baixa emissão de gases do efeito estufa – usinas hidrelétricas, eólicas e fotovoltaicas

Segundo informações da CCEE – Câmara de Comercialização de Energia Elétrica, a maior fonte de geração de energia elétrica no Brasil é a hidráulica, com 875 usinas Hidrelétricas, CGH – Centrais Geradoras Hidrelétricas e PCH – Pequenas Centrais Hidrelétricas. A segunda maior fonte geradora são as centrais eólicas com 615 parques disponíveis, sobretudo nas regiões Nordeste e Sul.  

O sistema de geração de energia elétrica brasileiro ainda conta com 114 parques solares fotovoltaicas e 401 usinas termelétricas. A maioria das usinas termelétricas, que somam 286 empreendimentos, opera a partir da queima da biomassa da cana-de-açúcar. O parque gerador conta ainda com 48 termelétricas a gás, 44 a óleo, 10 a base de carvão mineral, duas nucleares e outras 11 usinas mistas que podem ser utilizar bicombustíveis ou até mesmo reação exotérmica

As fontes hidráulicas respondem sozinhas por cerca de 62% da geração de energia elétrica no Brasil, algo que coloca nosso país em uma posição de destaque no cenário mundial. Infelizmente, existe um, porém nessa história – a geração contínua a partir das fontes hidráulicas depende da regularidade das chuvas, algo que nem sempre acontece da forma esperada.  

O ano de 2020 teve chuvas abaixo da média em regiões que concentram importantes reservatórios de usinas hidrelétricas. A partir do final de 2020, os efeitos do fenômeno climático La Niña começaram a criar mais problemas, reduzindo as chuvas no Sudeste e Centro-Oeste, regiões que concentram a maior parte das usinas hidrelétricas do Brasil. Ao longo de 2021, as chuvas devem continuar abaixo da média.

Segundo dados da ANA – Agência Nacional de Águas, do dia 16 de maio de 2021, o volume equivalente no SIN – Sistema Interligado Nacional, estava em 55,57%. Há exato um ano atrás esse volume estava em 66,75%. Como a maior parte do país entrou no período da seca, a tendência será a redução contínua desses volumes de água até a chegada do período das chuvas no final do ano. Segundo as autoridades do setor, não há riscos de falta de energia ou necessidade de racionamento de energia neste ano de 2021. 

Os riscos ficam para 2022, ano em que todos esperamos já ter superado a pandemia da Covid-19 e ansiamos por ver a nossa economia voltando a acelerar forte. Lembrando – quanto maior a atividade econômica, maior a demanda por energia. Se, eventualmente, tivermos chuvas abaixo da média a partir do final do ano e insuficientes para reabastecer os nossos reservatórios, aí sim teremos grandes problemas num futuro bem próximo.