A COLONIZAÇÃO DO EXTREMO SUL DO BRASIL

São Pedro do Rio Grande do Sul, uma das províncias mais meridionais do Brasil aos tempos do período colonial, representava também o limite Sul da Mata Atlântica. Antes de falarmos do processo de devastação dessa floresta, é importante mostrarmos um pouco do processo de integração do Rio Grande do Sul ao Brasil e de como foi a sua colonização. 

Conforme já apresentamos em postagens anteriores, o Tratado de Tordesilhas estabelecia um meridiano que dividia os territórios do Novo Mundo entre as Coroas de Portugal e de Espanha. A localização exata desse meridiano nunca foi estabelecida corretamente – naqueles tempos antigos, a determinação do posicionamento geográfico – a latitude e, principalmente, a longitude, carregavam uma enorme imprecisão, que podia ser representada em erros de centenas de quilômetros.  

Uma localização aproximada desse meridiano pelo território “brasileiro”, que estabelecia um relativo consenso entre portugueses e espanhóis quanto aos limites territoriais, estabelecia as proximidades da Ilha do Marajó, no Pará, ao Norte, e a Ilha de Santa Catarina, ao Sul, como os pontos de passagem do meridiano. Essa convenção deixava bem claro que o Rio Grande do Sul pertencia à Coroa de Espanha. 

É aqui que teve lugar uma malandragem de parte dos portugueses – em 22 de novembro de 1676, foi assinada a bula papal Romani Pontificis Pastoralis Sollicitudo, que criou o bispado do Rio de Janeiro. Esse documento oficial do Vaticano estabeleceu o território desse bispado entre a Capitania do Espírito Santo, ao Norte, e o rio da Prata, ao Sul.

Sua Santidade – o Papa, recebeu essas informações de seus auxiliares, provavelmente manipuladas de acordo com os interesses da Coroa de Portugal, sem saber que estava alterando o antigo Tratado de Tordesilhas, que foi assinado por um dos seus antecessores. Os portugueses rapidamente se valeriam desse “erro” e ocupariam a região onde se encontra o atual Uruguai, que foi batizada há época de Província Cisplatina. 

Em fins de 1679, uma expedição militar portuguesa comandada pelo governador e capitão-mor Dom Manuel Lobo zarpou do Rio de Janeiro e se dirigiu ao rio da Prata. Em janeiro de 1680, a guarnição militar iniciou a construção de uma fortificação militar – o asentamento recebeu o nome de Colônia do Santíssimo Sacramento. Por pura provocação, o assentamento ficava exatamente em frente a Buenos Aires, a capital do Vice Reino da Prata, localizada do outro lado do rio. 

Existe um aspecto ambiental importante aqui e que foi fundamental para o povoamento inicial das terras do Rio Grande do Sul e da Cisplatina – os colonizadores se assentaram nos Pampas ou Campos Sulinos. Esse bioma, formado por pastagens naturais. pequenos bosques e vegetação arbustiva, cobria cerca de 63% do território gaúcho e praticamente toda a superfície da Região Cisplatina

Um outro aspecto, esse histórico, foram as incursões dos bandeirantes paulistas, que vasculharam toda essa região procurando riquezas minerais e capturando indígenas para escravização. Um dos alvos preferenciais dos ataques dos paulistas eram as reduções ou missões dos jesuítas espanhóis na faixa Oeste da Província. Os indígenas dessas missões já haviam sido “civilizados” e catequizados pelos religiosos, o que tornava as “peças” mais valorizadas para a venda.  

Em muitos dos ataques, as missões jesuíticas acabavam sendo completamente destruídas – o gado vacum e os cavalos ali criados acabavam fugindo e passando a viver de forma selvagem nos Pampas, formando rebanhos com milhares de animais. Sucessivas gerações de paulistas se especializariam na captura desses animais, que eram levados na forma de grandes rebanhos para São Paulo e depois revendidos para outras Províncias – em especial para as Geraes. 

Após a assinatura do Tratado de Madrid, em 1750, e de Santo Ildefonso, em 1777, houve uma repactuação das fronteiras entre os territórios de Portugal e de Espanha na América do Sul. Os territórios já ocupados por colonos portugueses passaram a ser “oficialmente” pertencentes à Coroa de Portugal. Esses tratados, é claro, não resolveriam todas as questões fronteiriças e ainda haveriam grandes embates militares entre portugueses e castelhanos ao longo dos anos. O Rio Grande do Sul foi uma dessas áreas onde haveriam muitos embates. 

Com a “oficialização” da posse, as autoridades portuguesas se esforçariam para assentar o maior número possível de colonos nas terras gaúchas. Uma grande fonte de colonizadores potenciais naqueles tempos era o Arquipélago dos Açores, que apresentava gente demais para terras de menos. Grandes levas de açorianos foram assentadas na região litorânea do Rio Grande do Sul, onde surgiriam diversas cidades importantes como Porto Alegre, fundada em 1772, Rio Grande, onde já existia uma pequena povoação desde 1737, Pelotas, fundada em 1758, entre outras. 

A fim de consolidar a colonização do interior da Província, as autoridades iniciam um processo maciço de distribuição de terras. Cada colono que se predispusesse a migrar para o interior da Província receberia um lote de terras de 3 léguas, uma área equivalente a 108 km². Um comentário feito há época e descrito por Caio Prado Júnior em seu livro História Econômica do Brasil dá conta dos abusos cometidos ao longo desse processo: 

“Um homem que tinha a proteção do governo, tirava uma sesmaria (nome dado às doações de terras) em seu nome, outra em nome do filho mais velho, outras em nome do filho ou filha que estavam no berço; e deste modo há casos de quatro ou mais sesmarias”. 

Esse processo de distribuição de “propriedades a granel” vai levar a formação dos grandes latifúndios, a exemplo do que aconteceu no Sertão Nordestino. Essas propriedades vão se valer das enormes manadas de gado vacum encontradas em suas terras para a produção de couro. Os animais eram abatidos para a retirada de sua pele e as carcaças eram abandonadas nos campos. Naqueles tempos, havia uma grande dificuldade para a aquisição do sal, produto que permitiria a salga e o aproveitamento dessas carnes. 

Com a regularização do fornecimento de grandes cargas de sal, a Província do Rio Grande do Sul se especializará na pecuária e se transformará numa grande produtora e exportadora de charque ou carne seca, como é chamada em outras regiões. Dados de 1793 indicam a exportação de 13 mil arrobas de carne salgada para outras Províncias. Nos primeiros anos do século XIX, essas exportações alcançarão as 600 mil arrobas. Por todo o interior da Província se consolidariam as grandes estâncias, as fazendas produtoras de gado. 

Até a década de 1820, todos os esforços de colonização do Rio Grande do Sul vão ficar concentrados nas áreas litorâneas e lagunares da faixa Leste e, sobretudo, na ocupação dos campos. A faixa Norte da Província, onde se concentra a Mata Atlântica, ficará relativamente isolada e intacta até esse momento. Foi então que o Governo Imperial resolver iniciar uma nova fase da colonização regional. 

Entre 1824 e 1830, cerca de 5.300 colonos alemães chegaram ao Rio Grande do Sul, onde foi fundada a colônia de São Leopoldo. Esses colonos pouco a pouco foram ocupando as terras nas regiões de planície ao longo dos grandes rios que desaguam na Lagoa do Guaíba – especialmente os rios dos Sinos, Gravataí, Caí e Jacuí. Essa experiência foi considerada um grande sucesso há época e abriria as portas da região para a chegada de sucessivas levas de imigrantes europeus. 

Essa nova fase da colonização seria concentrada nas áreas de matas da Serra Gaúcha e de toda a faixa Norte do Rio Grande do Sul. Começaria aí a história da devastação da Mata Atlântica no Estremo Sul do Brasil. 

OS DEJETOS SUÍNOS E A POLUIÇÃO DAS ÁGUAS EM SANTA CATARINA, OU A VINGANÇA DOS PORCOS CONTINUA

Na última postagem falamos de um grave problema ambiental que tomou conta da região Oeste de Santa Catarina no início da década de 2000. O forte crescimento da suinocultura nas pequenas propriedades rurais, sem sistemas adequados para o tratamento dos dejetos produzidos pelos animais, resultou na contaminação dos corpos d’água e numa crise sem precedentes no abastecimento de água das populações. 

A suinocultura sempre foi uma atividade tradicional em Santa Catarina, Estado que foi formado em grande parte por colonizadores de origem alemã, tradicionais apreciadores dessa carne. A partir da década de 1940, a criação tradicional dos animais passou a evoluir para uma escala comercial. Até a década de 1970, os produtores conseguiam lidar com os volumes de dejetos produzidos pelos animais e os problemas ambientais não eram tão grandes. 

Com um aumento cada vez maior no número de animais nas propriedades e com uma expansão cada vez maior das empresas e cooperativas de processamento de carne suína no Estado, os tradicionais sistemas de contenção de dejetos suínos nas propriedades rurais não conseguiam mais suportar os volumes de efluentes, que passaram a escorrer na direção dos corpos d’água e/ou infiltrar no lençol freático. Foi aí que começaram os grandes problemas de contaminação dos corpos d’água de uma extensa região com dejetos suínos. 

Conforme comentamos na postagem anterior, a suinocultura é classificada pelos órgãos ambientais como uma atividade poluidora do meio ambiente – cada suíno pode gerar diariamente um volume de 5% a 8% do seu peso em dejetos. A atividade também requer grandes volumes de água para a limpeza dos viveiros – somando-se os dejetos com a água consumida na limpeza são mais de 10 litros de esgotos a cada dia por animal

No ano 2000, quando esse problema começou a fugir do controle, Santa Catarina contava com um rebanho de mais de 4 milhões de porcos. Naquele ano a produção de carnes e frios atingiu a marca de 665 mil toneladas. O Estado respondia há época por 80% das exportações brasileiras de carne suína e seus derivados, com um faturamento de US$ 231 milhões. 

Para atender a toda essa demanda, cerca de 18 mil propriedades rurais se dedicavam à produção de suínos par venda industrial. A atividade era responsável por 18% do valor bruto da produção agrícola estadual. Esses números mostram a importância da atividade para a população local e justificam a pressão ecológica da suinocultura no Oeste catarinense. 

Se qualquer um dos leitores verificar na gondola de congelados de um supermercado, vai observar que os grandes frigoríficos que trabalham com carnes e produtos de origem suína ficam no Estado de Santa Catarina. Esses grandes grupos praticamente monopolizam a compra dos animais produzidos nas pequenas propriedades, ditando o preço a ser pago ao produtor. Sempre que situações de monopólio acontecem, um lado sempre sai perdendo – nesse caso, como se pode notar, são os pequenos produtores que ficam sujeitos às “regras” do mercado. 

A baixa rentabilidade dos produtores acaba impedindo que estes façam os investimentos necessários em infraestrutura para o tratamento dos dejetos suínos em suas propriedades. Grandes volumes de dejetos vão necessitar de instalações adequadas para o tratamento: uma ótima solução são os biodigestores e as lagoas facultativas com aeradores, que vão permitir a separação dos resíduos sólidos e tratamento dos efluentes antes do lançamento num corpo d’água, além de permitir uma destinação adequada ao lodo sanitário gerado.  

Os dejetos suínos são ricos em fósforo, potássio e nitrato, elementos essenciais para o enriquento de solos para uso agrícola. Ou seja, se devidamente processados e utilizados, esses dejetos deixam de ser um grave problema ambiental e se transformam em um importante insumo agrícola. A separação desses resíduos sólidos (lodo sanitário) dos efluentes líquidos é o primeiro passo para seu aproveitamento.

Relatórios da época mostravam que 75% das propriedades estavam em desacordo com a legislação ambiental. A maioria das propriedades rurais pesquisadas utilizava tanques de decantação para a separação dos efluentes líquidos dos sólidos (vide foto). Esse processo garante um pré-tratamento dos dejetos e uma grande redução da carga orgânica dos poluentes. Porém, verificou-se que a maioria desses tanques não possuía um revestimento no fundo, levando à infiltração de efluentes no solo e à contaminação das águas do lençol freático.  

Para o tratamento final dos efluentes, seria necessário utilizar, pelo menos, um tanque ou lagoa aerada para uma redução ainda maior da carga orgânica, o que poucas propriedades possuíam – os efluentes ainda com grande carga de poluentes eram lançados nos corpos d’água, levando ao já citado colapso do abastecimento das cidades. 

Apesar do custo proibitivo para a maioria dos pequenos produtores rurais, o tratamento dos dejetos de suínos através de biodigestores teria condições de resolver, ao mesmo tempo, o controle sanitário dos efluentes, a reciclagem orgânica dos resíduos para uso como fertilizante e também permitir o aproveitamento do gás gerado pela biodigestão anaeróbia dos resíduos.  

Esse biogás (gás metano) pode ser usado na produção de energia elétrica através de queima em uma turbina geradora a gás, garantindo a autossuficiência elétrica das propriedades e possibilitando a venda dos excedentes de produção para as distribuidoras de eletricidade da região, gerando uma renda extra para a complementação do orçamento das famílias. Já existem alguns projetos pilotos em andamento, porém em escala muito pequena para o tamanho dos problemas na região. 

Ao longo dos últimos anos diversas medidas foram e vem sendo tomadas com vistas ao controle da poluição gerada pelos dejetos suínos no Oeste catarinense, com bons resultados no combate à poluição dos mananciais. As autoridades ambientais passaram a visitar as propriedades rurais com maior regularidade, avaliando as medidas e infraestruturas que estão sendo usadas para o controle dos dejetos. Na grande maioria dos casos, bastaram a execução de pequenas obras civis para se atender os requisitos mínimos exigidos pela legislação. 

Com um controle maior nos despejos dos efluentes, houve uma melhora significativa na qualidade da água dos rios da região e a captação de água para as estações de tratamento pode ser regularizada. O abastecimento das populações, ao menos por enquanto, está garantido. 

Muita coisa ainda precisará ser feita ao longo dos próximos anos de forma a garantir que todos tenham direito ao acesso a água, tanto nas propriedades rurais quanto nas cidades. Além do controle cada vez mais rígido das fontes de poluição, serão necessários investimentos no reflorestamento e na recomposição de áreas que sofreram forte desmatamentos nas últimas décadas. Quanto maior a cobertura florestal de uma região, maior será a produção de água nas nascentes e fontes de água. 

Com a natureza é assim: as agressões ambientais têm um custo – mais cedo ou mais tarde a “fatura” acaba chegando… 

UM ”CASE” AMBIENTAL CATARINENSE, OU A VINGANÇA DOS PORCOS

O Estado de Santa Catarina ocupa uma área total de pouco mais de 95 mil km², o que corresponde a cerca de 1,11% da superfície total do Brasil. Apesar do pequeno território, Santa Catarina foi o Estado brasileiro que mais preservou a Mata Atlântica em termos percentuais – cerca de 17% da superfície do Estado ainda está coberta pelo bioma, restrito em sua grande parte a fragmentos florestais isolados. 

Conforme comentamos na postagem anterior, Santa Catarina seguiu um modelo de colonização diferente do restante do Brasil – ao invés dos grandes latifúndios criados para produção de cana de açúcar ou das gigantescas fazendas de café, o Estado teve sua colonização baseada na pequena propriedade e na produção de multiplas culturas. Uma dessas culturas é criação de porcos em sistema de cooperativas de pequenos produtores rurais. 

As atividades rurais em agricultura e pecuária são as grandes consumidoras de água de uma região ou de um país – consomem 70% da água disponível e, consequentemente, geram grandes agressões ambientais. Santa Catarina, conforme já comentamos anteriormente, sofreu uma intensa destruição da Mata das Araucárias, bioma que cobria a parte Central do Estado.

As araucárias forneciam uma madeira de ótima qualidade – o pinho, além das madeiras nobres encontradas nas matas como a imbuia, a peroba, o marfim, o cedro e a canela. As madeireiras se multiplicaram em todo o Estado e, dentro de poucas décadas, devastaram a Mata das Araucárias.  

Dos cerca de 30 mil km² dessas Matas que existiam originlmente no Estado, restaram entre 900 e 1.500 km² atualmente. Essa destruição trouxe um elevado custo ambiental, principalmente na redução da disponibilidade de água da região. Esses problemas foram posteriormente potencializados pela poluição dos cursos d’água com dejetos suínos, levando o abastecimento de água das populações à beira de um colapso. Vamos entender o caso: 

A suinocultura é considerada pelos órgãos ambientais como uma das maiores geradoras de dejetos por unidade de área ocupada, produzindo em média de 5% a 8% em relação ao peso vivo dos animais em efluentes sanitários. Considerando-se urina, fezes e limpeza dos viveiros, cada porco gera pouco mais de 10 litros de esgotos por dia (algumas fontes afirmam que pode chegar aos 20 litros/dia). O Estado de Santa Catarina, maior produtor de suínos do Brasil com 30% do rebanho nacional, tem mais de 4,7 milhões de animais produzindo quase 50 milhões de litros de esgotos por dia.  

Considerando-se que as cidades brasileiras nunca demonstraram grandes preocupações com a implantação de sistemas de coleta e de tratamento de esgotos, seria difícil imaginar que produtores rurais tivessem esse tipo de preocupação – grande parte desses dejetos acabava sendo lançada em cursos d’água in natura e também infiltrava nos solos, contaminando as águas subterrâneas do lençol freático. 

Os dejetos de suínos possuem altas concentrações de nitrato, fósforo e de potássio, além de grandes quantidades de bactérias e vermes. Um litro de dejeto suíno sem tratamento polui dez vezes mais que a mesma quantidade de esgoto doméstico. Os gases emitidos pela suinocultura também geram desconforto aos humanos por possuírem grandes concentração de gás metano (CH4), que é considerado vinte vezes mais agressor na atmosfera que o gás carbônico.  

Há séculos, criadores de porcos e moradores das cidades em todo o mundo se confrontam por causa do mal cheiro e dos dejetos dos animais. Porém, os prazeres do consumo da carne suína e dos diversos tipos de frios e embutidos acabou por criar uma relativa tolerância e sempre se encontrou uma forma de convívio com os criadores e seus animais. 

A criação de suínos sempre foi uma atividade tradicional em terras catarinenses com base na produção familiar. A partir da década de 1940 foi iniciada a produção em escala industrial, levando ao aumento progressivo de produtores especializados. Até a década de 1970 a produção não era considerada um problema ambiental e as propriedades tinham capacidade de “controlar” os volumes de dejetos gerados na produção.  

Essa falta de preocupação persistiu até o ano 2000, quando o nível de produção de suínos atingiu um nível crítico, comprometendo o abastecimento de água de 5,5 milhões de habitantes das cidades da região, chegando perto do colapso. A maioria das fontes superficiais de água da região estava contaminada por dejetos dos suínos e as estações de tratamento de água não estavam preparadas para tratar águas tão contaminadas – em muitos locais, seria necessário primeiro tratar essa água em uma estação de tratamento de esgotos, para só depois fazer o tratamento da água para consumo humano. 

Além dos problemas localizados na região do oeste Catarinense, essa poluição tinha potencial para atingir outros 15 milhões de habitantes de regiões vizinhas – rios e lençóis subterrâneos estão interligados ao Aquífero Guarani, manancial subterrâneo que se estende por 1,2 milhão de km² em áreas do Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai. As águas estratégicas deste aquífero são utilizadas pelas populações de centenas de cidades. 

Análises laboratoriais feitas em amostras coletadas em corpos d’água e poços da região demonstravam o tamanho da contaminação: 84% das fontes e pequenos mananciais da área em estudo estavam contaminados por coliformes fecais; na cidade de Chapecó por exemplo, foi verificado que pelo menos 97% dos poços rasos estavam contaminados por coliformes totais e quase 70% por coliformes fecais. Nos poços profundos (artesianos e semiartesianos) a contaminação por coliformes fecais era de até 30%.  

Aqui vale lembrar que parte das águas superficiais – principalmente das chuvas, infiltra nos solos e recarrega os diferentes tipos de reservatórios de água. Esse processo pode levar poluentes e contaminantes da superfície para as águas profundas. O grupo de bactérias denominado coliformes tem origem no intestino de animais mamíferos, inclusive o homem, e são eliminadas junto com as fezes. Essas bactérias são consideradas um dos principais indicadores de contaminação das águas. 

Em resumo: a criação intensiva de porcos no Oeste de Santa Catarina transformou os mananciais de água da região em uma imensa “porcaria”. 

Continuamos na próxima postagem. 

A COLONIZAÇÃO DO OESTE CATARINENSE E A DEVASTAÇÃO DA MATA DAS ARAUCÁRIAS

A história de Santa Catarina não foi tão tranquila como normalmente costuma parecer. Em julho de 1839, como uma espécie de extensão da Revolução Farroupilha que tomava conta do Rio Grande do Sul, revoltosos catarinenses concentrados na região de Laguna, no Sul da Província, declararam a República Juliana.

Ao longo de 4 meses, grande parte de Santa Catarina foi transformada em uma república independente do Império Brasileiro. Alguns personagens marcantes dessa “aventura” de românticos foram Anita e Giuseppe Garibaldi. Por absoluta falta de viabilidade econômica e política, além de uma dramática inferioridade em forças militares, a República Juliana terminou em novembro daquele mesmo ano. 

Um outro caso complicado, esse de ordem diplomática, foi a chamada Questão de Palmas, que se estendeu entre 1890 e 1895, onde a Argentina reivindicava as regiões Oeste dos Estados de Santa Catarina e do Paraná. Alegando que a região pertenceria ao país vizinho de acordo com o Tratado de Madrid de 1750, os argentinos pretendiam estender os limites da sua fronteira até os rios Chapecó, em Santa Catarina, e Chopim, no Paraná. Felizmente, a questão pode ser resolvida diplomaticamente e acendeu um alerta entre os governantes brasileiros para que se estimulasse o povoamento daquelas regiões de fronteira. 

Um outro conflito, esse bem mais violento, foi a Guerra do Contestado, que se arrastou entre os anos de 1912 e 1916, deixando um saldo de mais de 5 mil mortos nos embates. A peleja envolveu posseiros e pequenos proprietários de terras da região conhecida como Contestado, área localizada no Oeste catarinense e que estava em litígio entre Santa Catarina e Paraná. 

O imbrólio começou quando empresário norte-americano Percival Farquhar assumiu o controle da Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande em 1908. O empreendimento, com uma extensão total de 1.400 km, começou a ser construído em 1897 e viria a interligar as cidades de Itararé, no interior da Província de São Paulo, a Santa Maria, no Rio Grande do Sul. A ferrovia atravessava toda a região Oeste dos Estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, área rica em florestas e com grande potencial para exploração madeireira. 

Uma das cláusulas do contrato de concessão previa que a ferrovia deteria os direitos de exploração exclusiva dos recursos florestais ao longo de uma faixa de 15 km de cada lado dos trilhos. Inúmeros posseiros e pequenos proprietários de terras dessas regiões, que viviam da coleta da erva-mate e exploração da madeira, foram fortemente prejudicados. Na região do Contestado, essas populações pegaram em armas e partiram para o confronto. Muitos desses revoltosos foram influenciados pelas pregações de religiosos locais autodenominados “messias”.  

Estudiosos modernos apontam a desigualdade social e a luta de classes como uma das principais razões para a deflagração da Guerra do Contestado. Forças do Governo federal e das polícias militares das Províncias enfrentaram os revoltosos, sendo necessários quatro anos para apaziguar a região. Uma das consequências diretas desse movimento foi um grande esforço do Governo de Santa Catarina na colonização e regularização de terras em todo o Oeste do Estado. 

O Oeste catarinense começou a ser ocupado por exploradores de erva-mate a partir de meados do século XIX. A árvore da erva-mate, a Ilex paraguaiensis, tem sua ocorrência consorciada com as Matas das Araucárias – a planta depende do sombreamento criado por árvores maiores para se desenvolver. A produção de erva-mate em Santa Catarina foi de 5 mil toneladas em 1910 – em 1920, essa produção já chegava a 19 mil toneladas.  

Os exploradores viviam uma vida nômade em busca das “manchas” de erva-mate. Grande parte da produção era escoada através dos rios Negro, Uruguai e Prata até Montevideo, no Uruguai, onde era embalada e exportada para Argentina, Paraguai e de volta para o Brasil. 

A colonização efetiva das terras do Oeste catarinense ganhou força logo após o final da Guerra do Contestado. Diversas companhias de colonização que já atuavam no interior do Rio Grande do Sul começaram a mostrar interesse em expandir suas atividades para Santa Catarina. Além da farta disponibilidade de terras de ótima qualidade, o que por si só já se apresentava como um excelente apelo comercial para a venda dos lotes rurais para os pequenos agricultores, a região tinha um grande potencial de ganhos com a exploração madeireira. 

As companhias colonizadoras contavam com o respaldo e completo apoio do Governo de Santa Catarina, que enxergava a “ocupação territorial, combinada com a ideia de desenvolvimento de uma atividade econômica”. Essa solução resolveria tanto os conflitos pela posse da terra, que ficaram evidentes durante a Guerra do Contestado, quanto as possíveis questões de reivindicações territoriais da Argentina, uma possibilidade que ainda incomodava muita gente. 

Formadas em sua grande maioria por comerciantes e especuladores, as companhias colonizadoras adquiriam grandes extensões de terra junto ao Governo de Santa Catarina e se encarregavam de demarcar os lotes. Essa demarcação respeitava as características dos terrenos, especialmente os cursos d’água e a topografia. As empresas também abriam as estradas vicinais e providenciavam infraestruturas básicas como a construção de pontes. 

Os contratos assinados entre o Governo catarinense e as empresas de colonização estabeleciam uma série de condições para a rápida efetivação dos projetos de colonização e ocupação das terras por colonos. Uma cláusula em um desses contratos chama a atenção – ela determinava que:

as terras adquiridas devam ser cultivadas ou aproveitadas dentro de dois anos, contados da data do título definitivo, sob pena de serem levadas a hasta publica, sem direito a reclamação”. 

Com toda essa pressão governamental, somada à grande demanda de madeiras pelas indústrias moveleiras, por setores como a construção civil e, sobretudo, a forte demanda nos mercados internacionais, a Mata das Araucárias em Santa Catarina rapidamente começou a desaparecer. 

Entre 1930 e 1990, perto de 100 milhões de araucárias foram derrubadas para aproveitamento da sua madeira, principalmente nos Estados da Região Sul do Brasil. Entre as décadas de 1930 e 1960, a madeira de pinho das araucárias esteve no topo da lista das madeiras exportadas pelo Brasil. A antiga região de domínio da Mata das Araucárias em Santa Catarina, que correspondia a cerca de 30 mil km², hoje está reduzida a uma área fragmentada entre 900 e 1.500 km².  

Cerca de 85% dos remanescentes florestais da Mata das Araucárias em Santa Catarina tem área inferior a 50 hectares. Essas “ilhas de vegetação”, além de colocarem em risco a própria sobrevivência das araucárias, também criam enormes problemas para a fauna silvestre – populações animais isoladas têm grandes dificuldades para a reprodução e podem se extinguir em poucas décadas. Os demais sistemas florestais da Mata Atlântica no Estado cobrem uma área equivalente a 17% da cobertura original, também composta por inúmeros fragmentos florestais isolados

Toda essa devastação ambiental traz em seu bojo uma série de problemas para as populações locais, que vão da perda de caudais nos rios e processos erosivos nos campos agrícolas até alterações no clima de várias regiões. Vou citar apenas um desses problemas – a maior parte da erva-mate consumida pelos catarinenses, que até poucas décadas atrás era colhida nas florestas locais, hoje em dia é produzida no Estado do Paraná.

A COLONIZAÇÃO E OS DESMATAMENTOS EM SANTA CATARINA

Na última postagem falamos dos avanços da exploração madeireira contra as Matas das Araucárias, também chamada de Floresta Ombrófila Mista, no Estado do Paraná. Esse tipo de formação florestal é um dos muitos subsistemas da Mata Atlântica e tem sua ocorrência nos planaltos de clima subtropical do Sul do Brasil. Também tem presença pontual em regiões serranas de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, além de matas no Sul do Mato Grosso do Sul. 

Além das araucárias, árvore que fornece uma excelente madeira de pinho, essas matas eram ricas em madeiras nobres e de alto valor comercial como a imbuia, a peroba, o marfim, o cedro e a canela. Em pouco mais de um século de exploração intensa, a Mata das Araucárias praticamente desapareceu do Paraná. 

No Estado de Santa Catarina, onde as araucárias formavam cerca de 30% da cobertura florestal original, a história não foi muito diferente. Até o século XIX, a Mata Atlântica com seus diversos sistemas florestais, estava praticamente intocada e cobria cerca de 65% do território catarinense. De lá para cá foram realizados diversos esforços de colonização e de ocupação do território, o que resultou em uma drástica redução da cobertura florestal. 

O Extremo Sul teve uma história de colonização um pouco diferente do restante do Brasil. De acordo com o Tratado de Tordesilhas, assinado entre as Coroas de Portugal e Espanha em 1494, somente a faixa Leste do atual território catarinense pertencia a Portugal – o meridiano de Tordesilhas, que dividia o território brasileiro, passava nas proximidades da Ilha do Marajó ao Norte e da Ilha de Santa Catarina ao Sul. O Rio Grande do Sul ficava inteiramente dentro do território espanhol. 

A primeira expedição oficial a navegar pelo litoral de Santa Catarina data de 1515 e estava sob o comando de Juan Dias Solis, um castelhano a serviço de Portugal. A expedição espanhola comandada pelo italiano Sebastião Caboto em 1526, foi a primeira a realizar um mapeamento completo do litoral. Em um mapa mundi publicado em 1529, apareceu pela primeira vez o nome Santa Catarina. Existem divergências quanto a escolha do nome – pode ter sido uma homenagem a Santa Catarina de Alexandria ou a Catarina Medrano, esposa de Sebastião Caboto. 

A colonização portuguesa começou em 1637, quando bandeirantes paulistas começaram a ocupar a região onde seria fundada a vila de Nossa Senhora do Desterro, atual Florianópolis. Em 1660 seria fundada a vila de Nossa Senhora da Graça, atual São Francisco do Sul. Em 1714 seria fundado Santo Antônio dos Anjos da Laguna, mais conhecida como Laguna. Todas essas ocupações ficavam na faixa Leste de Santa Catarina, território da Coroa de Portugal que estava dentro dos seus limites do Meridiano de Tordesilhas. 

Oficialmente, a maior parte do território de Santa Catarina e a totalidade do território do Rio Grande do Sul só passariam a fazer parte do Brasil a partir da assinatura dos Tratados de Madrid (1770) e de Santo Ildefonso (1777). Entretanto, como todos sabemos, bandeirantes paulistas nunca respeitaram qualquer acordo oficial e desde o século XVII faziam incursões por territórios espanhóis procurando ouro e pedras preciosas, além de atacar aldeias para capturar e escravizar indígenas.

Um dos alvos frequentes das bandeiras paulistas eram as Missões dos Jesuítas espanhóis, principalmente nas margens do rio Paraná e também no Rio Grande do Sul. Neste último se encontrava a região dos chamados Sete Povos das Missões, onde era possível capturar indígenas já “domesticados” e catequizados. 

Em decorrências dos ataques de bandeirantes e de outros aventureiros às Missões, muitas das reduções jesuíticas acabaram sendo completamente destruídas. Os rebanhos bovinos que eram criados nas missões acabaram se dispersando pelos campos sulinos e passarando a viver praticamente como animais selvagens.

Esses grandes rebanhos passariam a ser alvo de novas levas de paulistas que, de tempos em tempos, se dirigiam para a região dos Pampas para capturar os animais e conduzi-los para São Paulo. Ao longo dos caminhos seguidos pelos paulistas, surgiriam diversas sítios e vilas para apoio logístico das expedições. Muitas cidades catarinenses surgiriam a partir daí. 

Preocupada em ocupar a faixa litorânea de Santa Catarina, que àquela altura era muito frequentada por piratas e outros aventureiros, a Coroa de Portugal fez um esforço para assentar colonos trazidos do Arquipélago dos Açores. Essa colonização foi bastante intensa entre os anos de 1748 e 1756, ficando mais concentrada na Ilha de Santa Catarina e regiões próximas no continente. 

Durante muito tempo, a faixa Leste de Santa Catarina foi o limite mais meridional das possessões portuguesas na América e o Extremo Sul sempre foi alvo de embates entre portugueses e espanhóis. Em 1777, inclusive, tropas da Espanha invadiram a Ilha de Santa Catarina e expulsaram todas as autoridades e tropas portuguesas – essa questão só foi resolvida com a assinatura do Tratado de Santo Ildefonso, quando os espanhóis se retiraram. 

A cobiça dos castelhanos pelo Extremo Sul nunca foi totalmente resolvida e as autoridades, primeiro as portuguesas e depois as brasileiras, tiveram de se ocupar em promover o povoamento e a colonização da região. Ao longo de todo o século XIX, diversas levas de imigrantes europeus, sobretudo alemães e italianos, foram chegando à Província e ocupando regiões por toda a faixa Leste, sobretudo ao longo das margens do rio Itajaí. 

Os imigrantes alemães começaram a chegar em Santa Catarina a partir de 1829. A primeira colônia alemã da Província foi instalada em São Pedro de Alcântara e era formada por 523 colonos católicos naturais da cidade de Bremen. Em 1850 foi fundada a colônia de Blumenau, que tinha como líder Hermann Blumenau. Os imigrantes italianos começariam a chegar em grande número a partir de 1877. 

O modelo de colonização das terras catarinenses foi baseado na pequena propriedade, algo bem diferente do sistema de grandes latifúndios adotado na maior parte do Brasil. Esse modelo de colonização teve reflexos na maneira como os desmatamentos se processaram na região – ao invés de grandes extensões de matas derrubadas de uma única vez para a formação de grandes campos agrícolas de cana de açúcar e de café, nessas pequenas propriedades os desmatamentos eram pequenos e feitos gradativamente.  

A faixa Leste de Santa Catarina era coberta pela Floresta Ombrófila Densa, a formação florestal da Mata Atlântica típica da faixa litorânea do país. A Mata foi sendo gradativamente retalhada e transformada em pequenos campos agrícolas. Ou seja, ao invés de um ataque voraz de gafanhotos como aconteceu com o trecho nordestino da Mata Atlântica, os desmatamentos em Santa Catarina se pareceram mais com o ataque de inúmeras formigas saúvas, que foram abrindo sucessivas clareiras no meio da mata. 

A concentração da população na faixa Leste de Santa Catarina só mudaria a partir da Guerra do Contestado, um conflito armado entre posseiros e pequenos proprietários de terra no Oeste dos Estados do Paraná e de Santa Catarina (vide foto).  A construção de uma estrada de ferro entre São Paulo e o Rio Grande do Sul levou à desapropriação de uma faixa de terras de 30 km (15 km de cada lado dos trilhos) ao longo da ferrovia, o que desagradou muita gente.

De acordo com os termos da concessão da ferrovia, a empresa teria direitos exclusivos para a exploração da madeira nessa faixa de terras, deixando de fora os antigos proprietários das terras. Os conflitos, que se estenderam entre 1912 e 1916, ocorreram numa região onde os limites entre Santa Catarina e o Paraná não eram claros – essa região era conhecida como Contestado

Terminado o conflito, o Governo catarinense passou a investir em políticas para o povoamento do interior do Estado, reduzindo assim o imenso vazio populacional de uma extensa área. Esse novo ciclo de colonização daria início a uma intensa fase de derrubada de matas, principalmente de araucárias. 

Falaremos disso na próxima postagem. 

A DESTRUIÇÃO DA MATA DAS ARAUCÁRIAS NO PARANÁ

A Mata Atlântica já foi um dos maiores sistemas florestais do Brasil. Aos tempos da chegada dos primeiros europeus a terras brasileiras, o bioma cobria aproximadamente 1,2 milhão de km² ou perto de 15% de nosso território. A floresta se estendia do Rio Grande do Sul ao Rio Grande do Norte, com grandes porções avançando pelo interior do território e chegando até o Sul do Estado do Mato Grosso do Sul e também a trechos do Paraguai e da Argentina. 

Uma área natural tão grande dificilmente poderia ser formada por um único sistema florestal. Na realidade, o que chamamos de Mata Atlântica é uma verdadeira “colcha de retalhos”, onde encontramos os mais diferentes tipos de vegetação: são matas com diversas características diferentes em função do tipo de solos, da altitude e do clima, além de campos, restingas, manguezais e brejos, entre muitos outros. 

No Estado do Paraná, que teve parte importante de sua cobertura florestal derrubada durante o ciclo do café, essa diversidade de sistemas florestais da Mata Atlântica era bastante visível. Até o final do século XIX, a cobertura florestal original do Estado estava praticamente intocada, apresentando uma área total com, aproximadamente, 168 mil km² ou algo em torno de 83% do território paranaense.  

As faixas Norte e Oeste do Estado eram cobertas pela Floresta Estacional Semidecidual ou Florestal Pluvial. Já em regiões do Sul e do Centro Leste abundavam os Campos Naturais. No Leste, ao longo do litoral e na Serra do Mar, imperava a Floresta Ombrófila Densa. Assim como acontecia no Estado de São Paulo, algumas manchas de vegetação de Cerrado entravam pelo território do Paraná e formavam “ilhas” no meio da densa vegetação. Já em áreas das regiões Central e Sul do Estado, o predomínio era da Mata das Araucárias

A Mata das Araucárias é uma das mais típicas vegetações do Sul do Brasil. Estima-se que as araucárias chegaram a cobrir cerca de 40% do território do Paraná, onde aliás a árvore é um dos símbolos do Estado, 30% da superfície de Santa Catarina e 25% do Rio Grande do Sul. Nessas regiões, as araucárias costumavam crescer consorciadas com uma outra espécie extremamente importante para as populações sulinas – a erva-mate, matéria prima do famoso chimarrão. 

Araucária angustifolia é uma espécie de árvore tipicamente Sul-americana classificada como gimnosperma, ou seja, cujas sementes possuem uma casca dura e não são protegidas pela polpa dos frutos (a grande maioria das árvores são classificadas como angiospermas, ou seja, que produzem frutos com sementes). Outra espécie da mesma família é a Araucária araucana, encontrada na Argentina e no Chile.

É uma espécie adaptada para regiões de clima subtropical, com temperaturas mais baixas nos invernos. No Brasil é encontradas nos planaltos da região Sul, especialmente nos Estados do Paraná e de Santa Catarina, e também nas regiões serranas de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Também são encontradas no Sul do Estado de Mato Grosso do Sul. 

A madeira dessas árvores é de ótima qualidade e foi utilizada intensamente pelas indústrias moveleiras do Sul do Brasil. Foi justamente essa exploração da madeira e a derrubada das matas para a criação de áreas agrícolas as principais responsáveis pelo desaparecimento da maior parte da chamada Mata das Araucárias no Sul do Brasil. 

O marco inicial dos desmatamentos na Mata das Araucárias no Paraná está diretamente associado à inauguração da Ferrovia Curitiba-Paranaguá em 1888, quando a logística do transporte das madeiras até as áreas portuárias foi imensamente facilitada (a foto que ilustra essa postagem é de 1884). Rapidamente, o Paraná se transformou em um grande exportador de madeiras, com destaque para o pinho das araucárias e de outras espécies nobres como a imbuia, a peroba, o marfim, o cedro e a canela.  

De acordo com informações disponíveis, o Planalto de Curitiba já estava completamente devastado no ano de 1900, tamanha a “fúria” das empresas madeireiras. Em 1910, com a conclusão do trecho conhecido como Linha-Sul da Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande, a exploração madeireira avançou rapidamente para a região entre Ponta Grossa e União da Vitória.  

Com o início da I Guerra Mundial (1914-1918), houve uma verdadeira explosão nas exportações de madeira pelo Paraná. Com o início dos conflitos entre as diferentes nações, diversas fontes naturais de matérias primas na Europa foram fechadas. O pinho-de-Riga, uma das mais tradicionais madeiras usadas pela construção civil no continente e extraída de florestas ao redor do Mar Báltico, foi uma dessas matérias primas afetadas. A madeira de pinho das Araucárias, com características muito similares ao pinho-de-Riga, rapidamente foi transformada em uma opção. 

A partir da década de 1920, a derrubada de áreas de matas para a implantação de grandes campos agrícolas veio se juntar ao processo de devastação florestal já em andamento há várias décadas por conta da exploração madeireira. Reinhard Maack (1892-1969), um geólogo e explorador alemão que viveu grande parte da sua vida no Brasil e foi um dos maiores estudiosos das florestas primitivas do Estado do Paraná, escreveu um artigo em 1931, mostrando-se completamente assombrado com o avanço dos desmatamentos no Planalto Paranaense. Vejam esse trecho:  

“O que os homens do Paraná executaram pelas derrubadas e queimadas da floresta não pode ser descrito. Em nenhum outro país do mundo a floresta é tão absurdamente destruída como aqui e enormes áreas cobertas de matas, que no ano de 1926 me impressionaram pela sua primitiva grandiosidade, encontrei em 1930 como capoeira.”  

Os dados disponíveis endossam esse choque de Maack: em 1930, uma larga faixa de matas já havia desaparecido no Leste do Paraná, reduzindo a área florestal para aproximadamente 64% da cobertura original; em 1937, o avanço dos desmatamentos já reduzia essa cobertura florestal para 58% e para 23,92% em 1965. A redução da cobertura florestal continuou avançando ao longo dos anos e, atualmente, restam entre 5 e 17% das matas originais do Estado (há divergências entre as fontes pesquisadas).  

Um capítulo trágico da destruição das matas paranaenses e que merece destaque nesta postagem foi o grande incêndio florestal de 1963, que durou cerca de quatro meses e que consumiu cerca de 1 milhão de hectares de matas nativas, áreas de capoeira e também áreas de reflorestamento na região conhecida como Segundo Planalto do Paraná.

Das exuberantes matas encontradas no Estado nos primeiros tempos da colonização da Brasil, restam hoje remanescentes florestais na Serra do Mar e no Parque Nacional do Iguaçu, respectivamente no Leste e Oeste do Paraná, além de outros fragmentos florestais transformados em parques e Unidades de Conservação. Essa drástica redução das áreas de florestas teve profundos impactos na fauna nativa, nos solos e nas águas. 

Estudos arqueológicos e antropológicos indicam que as populações indígenas que habitavam a Região Sul do Brasil ajudaram na propagação das Matas das Araucárias. Essas populações costumavam viver em abrigos subterrâneos e muitos dos pinhões, as sementes das Araucárias que eram colhidas para alimentação das famílias, caíam no chão e brotavam com tempo. A grande plantadora de Araucárias, entretanto, é uma ave – a gralha-azul. 

A gralha-azul (Cyanocorax caeruleus) é uma ave com aproximadamente 40 cm de comprimento, com coloração das penas do corpo de um azul vivo e com a cabeça, a parte frontal do pescoço e partes do peito na cor preta. Essas aves costumam viver em pequenos bandos, se alimentando de frutas, insetos e, especialmente, dos pinhões das araucárias.

Durante os meses de outono, época em que as araucárias produzem os pinhões, as gralhas-azuis coletam os pinhões e os “estocam” em áreas delimitadas do solo ou os encravam em troncos caídos no chão, criando assim uma reserva de alimentos para o período do inverno. Muitos desses pinhões acabam esquecidos pelas aves e germinam, produzindo novos exemplares de araucárias. 

Com o desaparecimento acelerado das Matas de Araucárias, as gralhas-azuis estão correndo um gravíssimo risco de extinção. Agressões ambientais, como sempre destacamos aqui no blog, nunca ficam isoladas e acabam por afetar a todos – gentes e bichos. 

A CHEGADA DOS CAFEZAIS AO NORTE DO PARANÁ

Cafezais e trilhos de trens sempre andaram juntos durante o pujante ciclo do café na Província de São Paulo. Conforme comentado em postagem anterior, os fazendeiros primeiro adquiriam grandes glebas de terras com matas virgens e as transformavam em grandes cafezais. Com o início da produção dos grãos, os ramais ferroviários eram construídos de forma a garantir o escoamento da grande produção. Essa facilidade de transporte também permitia a chegada de novos habitantes, o que consolidava ou levava à criação de novas cidades. 

Essa dinâmica se repetiu em grande parte do chamado Oeste Paulista e não foi diferente na região de Ourinhos, na divisa entre São Paulo e Paraná. A estação ferroviária da cidade foi inaugurada no final de 1908, consolidando toda a região de entorno como uma grande produtora de café. Meus avós moravam em uma cidade próxima – Assis, e eu lembro bem dos grandes cafezais que ainda existiam por lá no início da década de 1970. 

A grande facilidade logística criada para o escoamento da produção de café das fazendas paulistas da região também se refletiria na outra margem do rio Paranapanema, já em terras do Paraná. Desde meados do século XIX, agricultores paulistas e mineiros passaram a ocupar essa extensa região. A grande distância em relação aos grandes centros urbanos e as dificuldades para o transporte da produção limitaram, por várias décadas, um crescimento maior da região. A chegada da ferrovia e, sobretudo, o início da cafeicultura, mudariam para sempre os rumos do Norte do Paraná. 

O Norte do Paraná tinha exatamente as mesmas características físicas do Oeste Paulista – uma densa cobertura de florestas de Mata Atlântica, profundos solos de terra roxa, além de condições de pluviometria bem parecidas. A diferença mais marcante, por estar localizado mais ao Sul, era uma incidência maior de geadas, uma característica climática que não combina muito com os cafezais. Conforme já comentado, o café é uma planta que não tolera extremos climáticos, tanto o calor quanto o frio. Apesar disso, o café se deu muito bem nessa região. 

Antes da chegada dos primeiros colonizadores “brancos”, toda a região que se estendia entre os rios Paranapanema, Itarajé e Tibaji formava o grande território dos índios Guarani e Kaigang. Esses indígenas abriam pequenas clareiras no meio da densa floresta de Mata Atlântica, onde praticavam uma agricultura de subsistência e de baixo impacto ambiental.  

Conforme a colonização começou a avançar na região e as matas passaram a ser derrubadas para a criação de campos agrícolas, essas populações indígenas passaram a ser “empurradas’ na direção das margens do rio Paraná. Essa “desindianização”, me valendo aqui de um termo muito usado pelo antropólogo Darcy Ribeiro, não foi pacífica e ocorreram inúmeros embates entre colonos e índios. Esses mesmos problemas, aliás, já haviam ocorrido em terras do Oeste Paulista. 

Os municípios pioneiros em terras Norte-paranaenses foram São José da Boa Vista, Colônia Mineira – atual Siqueira Campos, Ribeirão Claro, Jaboticabal – atual Carlópolis, Águas da Prata – atual Jacarezinho, e Água do Lambari – atual Cambará. Como era usual há época, a estrutura de produção era formada por grandes latifúndios, onde imperava o patriarcalismo e todo o trabalho dependia da mão de obra escrava. 

Os cafezais começaram a se multiplicar na região no final do século XIX, especialmente nas cidades de Ribeirão Claro e Jacarezinho. Como era usual há época, a produção precisava ser transportada por tropas de mulas até os terminais ferroviários, onde então seriam embarcadas em vagões e transportadas até o Porto de Santos. Antes da construção do ramal que chegou até Ourinhos, o último terminal ferroviário ficava na região de Botucatu, distante quase 200 km e que nos dá uma ideia das dificuldades para o transporte das sacas de café no lombo dos animais. 

Com a valorização cada vez maior das terras no Oeste da Província de São Paulo nos primeiros anos do século XX, o Norte do Paraná passou a receber um número cada vez maior de agricultores paulistas, que buscavam na região terras com preços mais acessíveis. Entre esses recém chegados, houve um grande destaque – Barbosa Ferraz, um fazendeiro paulista que plantou 1 milhão de pés de café entre Ourinhos e Cambará. Graças a toda essa pujança, a produção cafeeira do Paraná suplantaria a de São Paulo em 1924. 

Essa fase inicial, conhecida por muitos como Ciclo do Café no Norte Velho do Paraná, se estenderá entre os anos de 1903 e 1929, período em que as regiões produtoras se concentravam nas proximidades do território paulista e no entorno da Estrada de Ferro Sorocabana. Durante grande parte desse período, a produção do café concorreria com a da erva-mate, considerada então a grande riqueza do Paraná

No início da década de 1930, o Governo do Paraná passou a criar uma série de incentivos para ampliar a colonização na sua região Norte. Foi construída uma extensão ferroviária até a cidade de Londrina e os produtores locais passaram a contar com uma isenção tributária ao exportar sua produção de café através do Porto de Paranaguá. O principal objetivo dessa política era acabar com o predomínio do Porto de Santos como grande exportador de café do Brasil. 

O Governo local também começou a distribuir lotes de terras para pequenos colonos, onde era possível o plantio de 3 a 4 mil pés de café. Esses produtores recebiam uma ajuda financeiro por um período de até 5 anos, prazo necessário para as plantas começarem a produzir. Um grande número de imigrantes, japoneses e italianos principalmente, conseguiu adquirir suas terras através desse projeto. Essa expansão, conhecida como Ciclo do Café no Norte Novo do Paraná, se estenderá até 1945. 

Após o final da II Guerra Mundial (1939-1945), os preços do café no mercado internacional começaram a subir, um movimento que estimulou uma nova onda de avanço dos cafezais em terras paranaenses. Esse ciclo é conhecido como Café no Norte Novíssimo do Paraná e representa o auge da cultura no Estado. A expansão dos cafezais seguiu cada vez mais na direção do rio Paraná, com uma derrubada de matas que pode ser classificada como “eufórica” – entre as décadas de 1950 e 1960, o Paraná foi o Estado brasileiro campeão em desmatamentos

O final desse ciclo, no início da década de 1970, foi marcado por uma fortíssima geada negra, responsável pela destruição de grande parte dos cafezais do Norte do Paraná. A partir desse traumático evento, a diversificação da produção agrícola em toda a região foi ampliada e os produtores passaram a investir cada vez mais em grãos como o trigo e a soja, além da criação de gado.  O reinado do café no Paraná chegou ao fim.

Nas áreas Central e Sul do Paraná, onde predominavam as Matas de Araucárias – um dos muitos subsistemas florestais da Mata Atlântica, a história foi diferente e os desmatamentos foram motivados pela grande exploração de madeiras. Os resultados para o meio ambiente, infelizmente, foram os mesmos. 

Falaremos disso na próxima postagem. 

O CAFÉ AVANÇA PELO SUL DE MINAS GERAIS

A chegada das grandes plantações de café ao Vale do Paraíba e depois à região de Campinas, a partir da segunda metade do século XIX, foi um verdadeiro divisor de águas para a história da Província de São Paulo. Apesar da reconhecida fama dos paulistas em desbravar e conquistar novos territórios, do ponto de vista econômico a situação da Província nunca foi das melhores. 

Um dos grandes exemplos dessa frustração econômica foi a descoberta das minas de ouro na Região das Geraes, façanha conquistada na última década do século XVII pela bandeira de Fernão Dias Paes (que morreu pouco antes da descoberta e foi substituído por seu genro, Manuel Borba Gato). Depois de várias décadas de muito esforço e quase nenhum resultado, os paulistas finalmente foram contemplados pela sorte grande. Entretanto, esses bandeirantes não conseguiram assegurar o direito de exploração das jazidas – as Geraes foram invadidas por aventureiros de toda a Colônia, movidos pela febre do ouro.  

A disputa entre os grupos terminou num confronto armado entre os paulistas e os emboabas, nome em tupi que os paulistas davam aos forasteiros e que significa “os que invadem ou agridem”. A Guerra dos Emboabas se estendeu entre 1707 e 1709, com os paulistas sendo derrotados e perdendo os direitos de exploração das minas. Com a chegada da cultura do café, a tão sonhada riqueza finalmente “sorriria” para os paulistas. 

Conforme comentamos nas postagens anteriores, os cafezais foram se espalhando pelos férteis solos de terra roxa de São Paulo, sendo seguidos de perto pelos trilhos das ferrovias e pelas cidades que iam surgindo e/ou se consolidando. Os cafeeiros fizeram um caminho ao longo através do Vale do Paraíba, chegando depois na região de Campinas. Depois, foram seguindo na direção do Noroeste de São Paulo, para depois “descer” pelas regiões Central e Oeste rumo ao Norte do Paraná. 

Antes de começar a falar da chegada dos cafezais ao Paraná e dos enormes problemas ambientais que surgiram a partir de então, precisamos falar um pouco da entrada da cultura no Sul da Província de Minas Gerais. Esse processo se deu naturalmente, numa extensão dos grandes cafezais da região limítrofe da Alta Mogiana. Lembro aqui que um dos ramais Companhia Mogiana de Estradas de Ferro chegou na cidade de Poços de Caldas, Minas Gerais, ainda em 1886. 

Produção de café em terras mineiras não era nenhuma novidade àquela altura – desde as primeiras décadas do século XIX, fazendeiros fluminenses e mineiros iniciaram a produção de café na região da Zona da Mata, em áreas lindeiras ao Médio Vale do rio Paraíba.  

O rápido esgotamento dos solos em terras fluminenses levou muitos fazendeiros a buscar regiões alternativas para a implantação das plantações, aproveitando grande parte da infraestrutura de transporte já existente e repetindo os mesmos meios danosos de derrubada indiscriminada de matas e uso irresponsável dos solos. O resultado, como não seria diferente, foi um rápido auge seguido por uma lenta decadência na produção do café em grandes fazendas nessa região. 

Uma das primeiras fontes documentais sobre a presença do café no Sul de Minas Gerais é encontrada no Almanach Sul-Mineiro para o ano de 1874. A publicação afirma que a base da produção agrícola na região de Alfenas eram as culturas do milha e da cana, além da criação de bovinos e suínos. Os cafeeiros, como era comum na época, eram encontrados nos quintais das casas e nas fazendas e a bebida era consumida apenas pelas famílias. A mesma fonte também cita a situação da Freguesia de São Sebastião do Areado: 

Trata-se também atualmente da cultura do café, havendo já para cima de 150.000 pés plantados e em prometedor estado.

Entre as décadas de 1890 e 1910, as plantações de café se espalharam pelas regiões de Alfenas, Barranco Alto, Conceição da Boa Vista, São Sebastião do Areado e São Joaquim da Serra Negra. A importância da cultura, que competia com outras produções, foi aumentando gradativamente – inventários desta região no período entre 1887 e 1898 mostram 22 grandes fazendas de café. 

O Censo de 1920 já mostrava uma situação bem diferente: somente em Alfenas e em Areado foram encontradas 254 propriedades especializadas na produção de café, o que corresponde a quase ¼ das propriedades recenseadas. Os números apurados indicam a existência de quase 1,3 milhão e 1 milhão de pés de café em Alfenas e Areado, respectivamente. 

O escoamento da produção de então era feito, incialmente, quase que exclusivamente através dos trilhos do ramal da ferrovia Mogiana, que chegava até a cidade de Poços de Caldas. Tropas de mulas, como era o costume há época, carregavam as sacas de café desde as fazendas até a estação ferroviária. Já na década de 1890, começou a ser implantada a Estrada de Ferro do Muzambinho, que passou a permitir o transporte das cargas até portos fluviais no rio Verde e o seu transporte e integração com ferrovias que faziam a ligação de Minas Gerais com o Rio de Janeiro. 

Assim como aconteceu com outras regiões produtoras de café, as cidades do Sul de Minas Gerais também foram obrigadas a se adaptar à nova realidade da mão de obra depois da abolição da escravatura em 1888. A região recebeu grandes contingentes de imigrantes estrangeiros, especialmente italianos, que predominaram entre os desembarques entre os anos de 1895 e 1898. As cidades da região tiveram um aumento bastante expressivo em suas populações – um grande exemplo é a cidade de Machado, que entre 1872 e 1920 viu sua população aumentar em 45 vezes

Além de Alfenas, os cafeeiros se espalharam com força pelas regiões de Três Pontas, Guaxupé e Machado, transformando-se em uma importante fonte de riqueza. Porém, diferentemente do que aconteceu na Província de São Paulo, onde era praticada uma espécie de monocultura do café pelas grandes fazendas, no Sul de Minas Gerais foi mantida uma produção mais diversificada, onde se incluíam grãos como o milho, o feijão e o arroz, além da produção de cana de açúcar e a criação de gado vacum e suíno

Essa diversificação das culturas foi fundamental para garantir uma razoável estabilidade econômica nessa região durante as diferentes crises enfrentadas pelo comércio do café, especialmente a grande crise que se seguiu à quebra da Bolsa de Valores de Nova York em 1929. Enquanto muitos dos grandes fazendeiros paulistas foram à bancarrota como essa crise econômica sem precedentes até então, os mineiros conseguiram sobreviver e a cultura do café manteve a sua importância na região. 

A partir da década de 1960, a produção do café em Minas Gerais recebeu grandes incentivos governamentais e passou a crescer muito. Em 1970, a produção do Estado já era de 3,6 milhões de sacas anuais – em 1980, saltou para 8,1 milhões de sacas. Em 1985, Minas Gerais assumiu o posto de maior produtor brasileiro de café.  

Na década de 1990, a produção média foi superior a 10 milhões de sacas ao ano e, atualmente, essa produção já está próxima dos 25 milhões de sacas anuais. Nesse mesmo período, os grandes cafezais praticamente desapareceram dos Estados de São Paulo e do Paraná, que passaram a se dedicar a outras culturas como a cana de açúcar e a produção de grãos. 

Os problemas ambientais no Sul de Minas Gerais, é claro, foram os mesmos vistos em outras regiões – a derrubada de grandes extensões de matas – principalmente de Mata Atlântica (atualmente, regiões do Cerrado produzem variedades especiais de café) para a criação dos campos para o cultivo. Nesse quesito, as terras mineiras encontraram um sócio: os carvoeiros.  

Com a necessidade de grandes volumes de lenha e de madeira para a produção do carvão para os altos fornos das siderúrgicas, os carvoeiros deram uma bela ajuda aos cafeicultores fazendo a limpeza dos terrenos. 

A EXPANSÃO DOS CAFEZAIS E DAS FERROVIAS PELA PROVÍNCIA DE SÃO PAULO

A primeira ferrovia construída em terras paulistas foi São Paulo Railway, mais conhecida como Ferrovia Santos Jundiaí. As obras foram concluídas em 1867 e foram um verdadeiro marco para a produção cafeeira na Província de São Paulo. Apesar da distância entre as áreas produtoras de café e o Porto de Santos não ser tão grande – a região de Campinas, por exemplo, fica a menos de 200 km litoral, existia no meio do caminho um poderoso obstáculo natural – a Serra do Mar e seu fabuloso desnível de quase mil metros entre a Baixada Santista e o Planalto de Piratininga. 

Com a inauguração desse primeiro ramal ferroviário, as sacas de café passaram a ser transportadas no lombo de mulas das fazendas até o terminal de cargas na cidade de Jundiaí e, então, seguiam pelos trilhos até Santos. Essa ferrovia seria ampliada paulatinamente, atendendo cada vez mais cidades e permitindo um aumento crescente da produção cafeeira.

Até 1930, ano em que a cafeicultura entrou em profunda crise devido à quebra da Bolsa de Valores de Nova York em 1929, seriam concluídas 18 ferrovias em São Paulo, onde o principal objetivo era o transporte das cargas de café. Ironicamente, parte da madeira resultante da derrubada das matas para a abertura dos campos agrícolas de café era queimada nas locomotivas movidas a vapor.

Todos os esforços concentrados na construção de ferrovias rapidamente passaram a mostrar resultados na produção cafeeira de São Paulo: em 1870, a produção na Província representava 16% da produção nacional – nesse período, o grande centro de produção era o Vale do Paraíba. Em 1885, as terras paulistas já representavam 40% da produção nacional de café

Entre as décadas de 1870 e 1880, as principais regiões produtoras de café na Província de São Paulo eram o Vale do Paraíba, a Região Central e a Região Mogiana, onde se concentravam aproximadamente 80% da população paulista. Com a construção de novas ferrovias e de ramais ferroviários, tanto a produção cafeeira quanto a população se espalharam pela Província. 

Em 1872, foi concluída a ligação entre Jundiaí e Rio Claro pela Companhia Paulista de Estradas de Ferro – em 1875, essa ferrovia seria expandida até a cidade de Descalvado. Em 1873 foi a vez da Companhia Ytuana de Estradas de Ferro inaugurar uma ligação entre as cidades de Jundiaí e Itu. Essa ferrovia foi ampliada em 1877 até Piracicaba. Em 1875 seria concluída a Estrada de Ferro Sorocabana, ligando a cidade de Sorocaba a São Paulo. Em 1893, as Companhias Ytuana e a Sorocabana se fundiriam. 

Uma outra importante ferrovia que surgiu foi Companhia Mogiana de Estradas de Ferro, que a partir de 1875 passou a interligar as cidades de Campinas e Mogi-Mirim, além da construção de um ramal até Amparo. Em 1886 foi concluído um ramal que atendia a cidade de Poços de Caldas, no Sul de Minas Gerais. Em 1888, os trilhos chegaram até o rio Grande, na divisa entre São Paulo e Minas Gerais, e em 1889 foi concluído o ramal de ligação com a cidade de Franca. 

A Estrada de Ferro Araraquara foi concluída em 1898 e passou a interligar Araraquara e Taquaritinga. Estrada de Ferro do Dourado, nessa mesma região, foi concluída em 1898. Em 1904 foi concluída a Estrada de Ferro Noroeste do Brasil. Na virada do século XX, a Província de São Paulo já acumulava 3.471 km de linhas férreas. Essas vias continuariam se expandido até a década de 1940, quando atingiriam a marca de 8.622 km. 

O traçado dessas ferrovias foi decidido originalmente por grandes grupos de investidores e de fazendeiros de café, que estavam preocupados em criar meios de transporte para a sua produção. Atendendo, e com muitos méritos, essa premissa inicial, as ferrovias também contribuiriam para a formação e consolidação de importantes cidades do interior de São Paulo, ajudando a desenhar a geografia humana de muitas regiões. 

De acordo com dados de 1905, cerca de 70% do volume das cargas transportadas pelas ferrovias paulistas era formado por sacas de café. Além do transporte de cargas, as ferrovias foram se transformando em um importante meio de transportes de pessoas, interligando cidades e regiões.

Uma outra consequência importante da chegada das ferrovias às terras paulistas foi o desenvolvimento e a consolidação da cidade de São Paulo. Até 1860, a cidade tinha uma população de menos de 30 mil habitantes, a maior parte concentrada em núcleos rurais. 

Com a chegada dos primeiros trilhos, a pequena cidade localizada no alto da Serra do Mar se transformou em um importante ponto de entroncamento de diversas linhas ferroviárias, passando a funcionar como um importante entreposto de mercadorias e de pessoas.

A facilidade de acesso dos passageiros entre as cidades do interior e a cidade de São Paulo, e a fácil logística para o transporte de cargas na direção do interior da Província, transformariam a cidade num importante centro de compras e de abastecimento. Esse foi o primeiro passo para a futura transformação da cidade de São Paulo num dos maiores centros industriais do país. 

Dentro da nossa área de interesse – o meio ambiente, a cafeicultura e a construção das ferrovias no território paulista andaram a “par e passo” com a destruição de áreas florestais de Mata Atlântica e de Cerrado. Matas eram derrubadas para a abertura dos campos de cultivo do café e as ferrovias e os ramais ferroviários chegavam na esteira, criando as condições para o escoamento da produção e estimulando o nascimento e crescimento das cidades. 

Um detalhe importante dessa parceria entre cafezais e ferrovias se deu no extremo Oeste da Província de São Paulo: as dificuldades de transporte e a falta de infraestrutura desestimulou a chegada dos cafezais e, consequentemente, das ferrovias. Até meados do século XX, essa região se manteria coberta por densas florestas e com uma população bastante escassa.

Esse grande “vazio populacional”, que também englobava o extremo Oeste do Paraná e o Mato Grosso, levaria o Governo Federal a criar programas para migração e colonização como a Marcha para o Oeste, um tema que trataremos em futura postagem. 

A expansão da cultura cafeeira continuaria sua marcha rumo ao Sul e entraria no Norte do Paraná, inaugurando um novo ciclo de produção e de destruição de matas. Desde meados do século XIX, imigrantes paulistas e mineiros já haviam se estabelecido na região, porém, foi a chegada dos trilhos da Estrada de Ferro Sorocabana ao Oeste de São Paulo (a Estação de Ourinhos foi concluída em 1908) e a criação das facilidades para o escoamento da produção que deram o impulso final para a cafeicultura na região, que superaria a produção paulista na década de 1920. 

Falaremos disso na nossa próxima postagem. 

A PERDA DE COBERTURA FLORESTAL, A AGRICULTURA E A CRISE DA ÁGUA EM SÃO PAULO. ALGUMA LIGAÇÃO?

O Estado de São Paulo, com seus férteis solos, sempre foi um grande celeiro agrícola dentro do Brasil. 

Essa afirmação vem, em princípio, de encontro com os temas tratados nas últimas postagens aqui do blog – a chegada da cultura do café a São Paulo através do Vale do rio Paraíba do Sul e sua posterior irradiação para o Oeste Paulista com seus fabulosos solos de terra roxa. Isto é correto apenas em parte.  

Na verdade, a agricultura e a produção de alimentos são destaques em São Paulo desde meados do século XVI, época da chegada dos primeiros padres jesuítas e fundação de diversas vilas no chamado Planalto de Piratininga. Essa região era formada por uma grande mancha de vegetação de Cerrado, cercada por uma densa cobertura florestal de Mata Atlântica e Mata das Araucárias. O quadro era completado por centenas de córregos e muitos rios de maior porte, que formavam grandes planícies alagáveis e férteis. 

Na obra História da cidade de São Paulo, Affonso de Escragnolle de Taunay (1876-1958) conta que autoridades civis e religiosas que visitaram a paupérrima Vila de São Paulo de Piratininga, ainda nos primeiros anos do século XVII, ficaram espantadas com a grande disponibilidade de alimentos para a população. Havia muito feijão, milho, mandioca, frutas, legumes e verduras, além de diversos tipos de carnes. Mais surpreendente ainda era a produção local de trigo e a grande fartura de vinhos produzidos por religiosos. 

O grande médico e escritor Josué de Castro (1908-1973), autor do clássico Geografia da Fome, afirmava que a Província de São Paulo sempre foi uma exceção no Brasil quando o assunto era fome e desnutrição. As autoridades coloniais priorizavam a produção de açúcar para exportação; depois, a prioridade passou a ser o ouro. Sempre houve descaso com a segurança alimentar da população – produzir alimentos era uma atividade acessória, reservada apenas para os poucos dias de folga. 

Josué de Castro especulava que a grande vitalidade dos bandeirantes paulistas poderia ser o resultado de uma boa alimentação. Um grande exemplo, na opinião do médico, foi Fernão Dias Paes, o grande líder paulista que partiu para a sua última bandeira com mais de 66 anos, o que era uma idade muito avançada há época.  

Dias Paes morreu de “febre” aos 73 anos. Sob o comando de seu genro – Manuel Borba Gato, sua bandeira descobriu alguns anos mais tarde, as lendárias minas de ouro na Serra do Sabarabuçu no coração das Geraes

Foi justamente após a descoberta das minas de ouro nas Geraes e do grande afluxo de aventureiros para os trabalhos de prospecção e garimpo, que São Paulo assumiu uma posição de destaque na produção e exportação de alimentos.  

Grandes tropas de mulas, carregadas com carnes salgadas, farinhas, cereais, rapaduras, compotas (destaco aqui uma marmelada local que fazia muito sucesso entre os mineiros), ferramentas, chapéus, botas e artigos de couro, tecidos grosseiros de algodão, entre outros produtos.  

Os paulistas também vendiam indígenas escravizados, muito “mais em conta” que os “negros da Guiné” e que se mostravam muito úteis para os trabalhos domésticos e serviços mais leves. Bandeiras formadas por aventureiros paulistas costumavam se dirigir aos sertões em busca de riquezas minerais e, frequentemente, atacavam aldeias e capturavam os indígenas.  

As missões dos padres jesuítas espanhóis, com seus índios já catequisados, eram um alvo preferencial dessas bandeiras, algo que gerava muitas reclamações, inclusive junto ao Papa em Roma, por parte dos religiosos do Reino de Espanha. 

Um outro produto tipicamente paulista que fazia sucesso era a aguardente – as famosas “caninhas paulistas”. Algumas vilas do interior da Província como Piracicaba, Pirassununga e Itu se destacavam nessa produção. Os tropeiros paulistas vendiam tudo com altíssimos lucros, inclusive as mulas usadas para o transporte das mercadorias. 

Quando o café chegou em São Paulo no século XIX, a Província já tinha uma longa tradição em agricultura e na derrubada de matas para a formação de campos agrícolas. A expansão da cultura cafeeira durou até o final de década de 1920, quando ocorreu a quebra da Bolsa de Valores de Nova York e teve início o período da Grande Depressão Econômica. A expansão agrícola no Estado continuou com outras culturas como milho, cana de açúcar, feijão, soja e laranja, além de atividades ligadas a pecuária e exploração madeireira. 

O resultado desse multissecular conjunto de atividades agrícolas, extrativistas e agropastoris foi uma enorme devastação da cobertura vegetal na maior parte do território paulista. A Mata Atlântica, que chegou a cobrir 69% do Estado de São Paulo, hoje está reduzida a pouco mais de 13% do território e está concentrada ao longo da Serra do Mar, no Vale do rio Ribeira de Iguape e no Pontal do Paranapanema no Extremo Oeste do território.  

Outro bioma importante do Estado de São Paulo – o Cerrado, que ocupava originalmente cerca de 14% do território paulista, praticamente desapareceu e hoje ocupa uma área de meros 0,8% do território. O mesmo fim foi dado a extensas áreas de transição entre esses biomas

Uma das consequências ambientais mais visíveis dessa intensa e histórica destruição de áreas florestais no Estado de São Paulo pode ser observada na redução dos caudais de importantes rios locais. Vou citar um exemplo: o folclórico rio Piracicaba, tema de inúmeras “modas de viola” do cancioneiro caipira paulista. 

O Piracicaba não é um rio grande – tem apenas 115 km de extensão. Apesar de pequeno, ele sempre foi um rio caudaloso e já foi considerado o mais volumoso afluente do rio Tietê. Era tanta água que permitia a navegação por um bom trecho, inclusive por embarcações movidas a vapor. Essa navegação se estenderia até o final do século XIX.

Como consequência direta da grande produção cafeeira dentro de sua bacia hidrográfica no passado e de grandes canaviais em décadas mais recentes, o rio Piracicaba apresenta caudais cada vez menores. Em anos recentes, o rio ficou muito próximo de secar completamente (vide foto).

Essa queda nos volumes de água é extremamente preocupante – o rio Piracicaba é um dos principais mananciais de abastecimento da Região Metropolitana de Campinas, onde vivem mais de 3 milhões de pessoas. Os antigos degraus de pedra, que deram origem ao nome do rio em língua tupi – “lugar onde os peixes param” ou “degraus para os peixes”, e que eram visíveis apenas nas épocas da seca, agora podem ser vistos em grande parte do ano. 

Apesar da aparente abundância, as verdejantes paisagens do Estado de São Paulo escondem uma disponibilidade de água por habitante menor que a da Região Nordeste e sua famosa Região do Semiárido – a situação só não é pior por que o clima paulista é bem mais ameno que o nordestino e as perdas de água por evaporação são bem menores. Outra “vantagem” são os solos paulistas, que impedem uma infiltração maior das águas das chuvas. Como essa água também é muito bem distribuída, não existem “pontos secos” no Estado.  

Muitas cidades paulistas sofrem com a baixa disponibilidade de água, especialmente nos meses de seca. Cito como exemplo a histórica cidade de Itu, que fica a pouco mais de 100 km de distância da cidade de São Paulo. Há alguns anos atrás eu fiz alguns trabalhos para a empresa de águas e esgotos da cidade e lembro de ter ficado assustado com os baixíssimos níveis dos reservatórios de água. A situação só não descambou para o mais completo caos por que a empresa perfurou dezenas de poços artesianos e passou a captar grandes volumes de água de um aquífero. 

Uma antiga e conhecida moda caipira contava que “o rio de Piracicaba vai botar água prá fora, quando chegar as águas dos olhos de alguém que chora!” Se as coisas não mudaram, nós paulistas teremos de nos abraçar e chorar muito para compensar os caudais perdidos pelos rios por causa dos desmatamentos…