POR QUE O BRASIL NÃO QUEIMA TANTO CARVÃO MINERAL QUANTO OUTROS PAÍSES?

Nas duas últimas postagens aqui do blog falamos sobre os famigerados e poluentes combustíveis de origem fóssil. Esses combustíveis incluem os derivados de petróleo, o carvão mineral e o gás natural, fontes de energia fundamentais para muitos países. 

Um dos combustíveis fósseis mais abundantes e mais consumidos em todo o mundo é o carvão mineral. Em alguns países, citando como exemplo a Índia e a China, parte considerável da geração de energia elétrica vem dessa fonte. Apesar de toda a sua importância, a queima do carvão mineral é uma das maiores fontes de poluição da atmosfera do planeta

Uma pergunta que muitos dos leitores já deve ter feito para alguém – se o carvão mineral é um combustível tão importante assim, por que é que não vemos um uso tão grande dele aqui no Brasil? 

A resposta é bem simples – o nosso país possui poucas reservas de carvão mineral e o tipo desse carvão encontrado por aqui é de baixa qualidade. Vamos entender isso. 

O carvão mineral se formou a partir de grandes áreas de florestas que foram soterradas por diferentes processos naturais há muitos milhões de anos atrás. A madeira das árvores sofreu mudanças na sua composição química, agregando grandes quantidades de carbono em sua composição. Essa mudança química deu ao carvão um grande potencial para gerar muito calor durante a queima. 

Para entendermos isso de uma forma bem resumida, precisamos voltar aos tempos do antigo supercontinente de Gondwana. Essa grande massa de terra era formada pelos atuais territórios da América do Sul, África, Antártida, ilha de Madagascar, Índia, Austrália, Nova Zelândia e outras ilhas menores. Há cerca de 160 milhões de anos, Gondwana começou a se fragmentar e os seus “pedaços” foram espalhados por todos os lados do mundo por forças tectônicas. 

Antes do início desse grande colapso, a maior parte do território de Gondwana era coberto por um grande deserto, que se estendia por grande parte do que é o atual território brasileiro. Como desertos são, essencialmente, terras onde existe muita pouca vegetação, não houve um grande volume de “matéria prima” que pudesse ser transformada em carvão mineral aqui em nossas terras. Para completar, as condições geológicas do nosso território também não favoreceram a formação de grandes reservas de carvão de boa qualidade.

A única região do Brasil onde encontramos reservas de carvão com boa viabilidade econômica para exploração é no Sul do país, mais precisamente em algumas áreas de Santa Catarina, do Rio Grande do Sul e do Paraná. Se qualquer um dos leitores fizer uma rápida pesquisa, verá que um dos grandes centros produtores desse combustível é a região de Tubarão, no Leste catarinense

A falta de carvão mineral sempre foi um problema para o Brasil. Um exemplo rápido que podemos citar foram as primeiras tentativas de se produzir eletricidade em centrais termelétricas a carvão na cidade do Rio de Janeiro ainda no final do século XIX. As empresas donas dos empreendimentos acabaram falindo pouco tempo depois da inauguração devido aos altos custos do carvão, produto que naquela época era 100% importado. 

Um outro exemplo interessante é o caso de Minas Gerais, Estado onde abundam jazidas de minérios como o ferro. Durante o século XVIII, Minas Gerais foi um grande produtor de ouro. Alguns historiadores afirmam que perto de 1 milhão de toneladas de ouro foram extraídas das Minas Gerais e levadas para Portugal naqueles tempos. 

Qualquer tipo de processamento ou beneficiamento de metais requer uma fonte poderosa de calor – falamos aqui de fornos e altos-fornos. Sem dispor de carvão mineral para queimar, nossos ancestrais foram obrigados a improvisar e se valeram de carvão de origem vegetal, o mesmo que é usado para fazer o churrasco do fim de semana. 

Para que todos tenham uma ideia do impacto do uso do carvão vegetal em Minas Gerais: aos tempos da chegada da expedição descobridora de Pedro Álvares Cabral em 1500, o território onde se encontra hoje o Estado de Minas Gerais tinha perto de 47% de sua superfície coberta com vegetação de Mata Atlântica, o equivale a mais de 282 mil km² de matas do bioma. 

Em pouco mais de três séculos e depois de vários ciclos econômicos, a Mata Atlântica hoje está restrita a 10,2% da superfície do território mineiro, ocupando pouco mais de 50 mil km². Os outros 230 mil km² foram, em grande parte, transformados em carvão vegetal para uso nas atividades ligadas à metalurgia. 

O lado positivo dessa falta de carvão mineral em nossas terras é que fomos obrigados a nos voltar para os recursos hídricos disponíveis para a geração de energia elétrica. Como consequência direta dessa escolha forçada, a maior parte da energia elétrica usada atualmente no Brasil vem de centrais hidrelétricas. 

E não existem centrais termelétricas a carvão aqui no Brasil? 

Sim, mas são muito poucas. A imensa maioria dessas unidades geradoras foi construída para funcionar em momentos de falta de água nos reservatórios de usinas hidrelétricas. De acordo com informações do SIN – Sistema Interligado Nacional, existem apenas 8 centrais termelétricas a carvão em operação no Brasil

Mais de 80% de toda a energia elétrica gerada aqui no Brasil vem de fontes renováveis. Perto de 60% dessa energia é gerada em fontes hidráulicas, 11% em fontes eólicas e cerca de 8% em plantas fotovoltaicas. Para efeito de comparação, 60% da energia elétrica utilizada na Índia vem de termelétricas a carvão. 

E tudo isso se deu graças a falta de carvão mineral em nosso território. Meio que “na marra” fomos forçados a criar uma das estruturas de geração de energia elétrica mais sustentáveis do planeta. 

Entretanto, com nada é perfeito nesse mundo, ainda precisamos queimar grandes volumes de carvão mineral em nossas siderúrgicas. Parte desse carvão vem das minas do Sul do país e parte é importada. 

Enquanto não inventarem uma nova fonte de energia sustentável e não poluente que gere altas temperaturas para uso nesses fornos, vamos precisar continuar queimando a nossa cota de carvão, o que perto do que queimam outros países é bem pouco. 

Como eu sempre digo para os meus amigos, nada mal para um país que tem fama de devastar e queimar florestas… 

AS “VANTAGENS” DO USO DO CARVÃO MINERAL

Em setembro de 2015, durante um evento na ONU – Organização das Nações Unidas, a então Presidente do Brasil – Dilma Roussef, fez mais um dos seus discursos “sem pé nem cabeça”. Dessa vez, sua Excelência falou sobre a possibilidade de “estocar vento” como forma de compensar a intermitência desse recurso. 

Como a maioria dos leitores deve saber, a intensidade dos ventos varia ao longo do dia e também ao longo das estações do ano. Eu imagino que a ex-Presidente tentava falar justamente sobre isso em seu discurso – o resultado não foi o esperado, mas o meme ganhou o mundo. 

Comecei a postagem de hoje citando essa verdadeira pérola da política brasileira para falar de um dos maiores problemas da geração de energia em algumas fontes consideradas sustentáveis – a intermitência, ou seja, a incapacidade de se garantir a disponibilidade desse recurso ao longo do tempo. Vamos falar rapidamente de três fontes de energia renovável – hidráulica, eólica e solar. 

A energia hidráulica, como o nome diz, é gerada pela força da água. Um dos melhores exemplos do uso dessa energia é a geração de energia elétrica em centrais hidrelétricas como é o caso da Usina de Itaipu. Apesar de ser considerada uma fonte energética renovável, basta um período de seca mais forte para que todo esse sistema gerador deixe de funcionar. 

No caso da energia solar, o problema é a periocidade – o sol brilha cerca de metade da duração do dia, o que permite o uso dessa energia somente de forma planejada. Os ventos, conforme citamos no começo do texto, são extremamente inconstantes e não podem ser “armazenados” para um uso futuro. 

É aqui que o famigerado carvão mineral apresenta uma séria de vantagens como uma forma de energia disponível para o uso a qualquer hora do dia e em qualquer época do ano. 

Conforme comentamos em uma postagem anterior, o carvão mineral é o combustível fóssil mais abundante do mundo. Ele surgiu a partir do soterramento de antigas grandes áreas florestais em épocas extremamente remotas. A madeira soterrada passou por diversas transformações químicas, tendo absorvido grandes quantidades de carbono. 

Desde tempos imemoriais que populações humanas vem se valendo do poder calorífico do carvão mineral, indo desde a queima para o aquecimento de abrigos nos rigorosos meses de inverno, em fogões para a preparação de alimentos ou ainda em fornos para o derretimento e produção de metais. 

Em meados do século XVIII, o então já importante carvão ganhou uma nova importância – gerar vapor em caldeiras para o impulsionamento de todos os tipos de máquinas a vapor usadas então nas fábricas, o que marcou início da chamada Revolução Industrial. 

O carvão era extraído em minas a céu aberto ou subterrâneas em grande parte do ano e era transportado para terrenos próximos das grandes fábricas. Essa energia ficava estocada e pronta para o uso a qualquer momento. Caso a gerência da fábrica precisasse aumentar o ritmo de produção de uma determinada linha, bastava mandar uma ordem para que os funcionários das caldeiras colocassem mais carvão para queimar. 

Aqui é preciso citar também a importância do uso do próprio carvão no transporte de grandes cargas desse combustível para os grandes centros consumidores. Locomotivas com motores a vapor também passaram a se valer do grande poder calorífico do carvão e passaram a correr por complexas redes de trilhos, criando assim um caminho rápido e de baixo custo para abastecer as grandes cidades com essa fonte de energia. 

No final do século XIX, o mundo passou por uma nova revolução, com o carvão mostrando mais uma vez toda a sua versatilidade como forma de energia estocável. Com a popularização da energia elétrica, grandes cidades começaram a construir centrais termelétricas movidas a partir da queima de carvão mineral. Assim como já acontecia com as fábricas com máquinas a vapor, essas centrais mantinham grandes montanhas de carvão em áreas próximas – bastava simplesmente jogar o carvão nas fornalhas para se gerar grandes quantidades de eletricidade. 

A simplicidade do uso do carvão e a sua disponibilidade em grande parte do mundo colocou essa fonte de energia em grande destaque até os dias de hoje. Estimativas indicam que a queima do carvão significa perto de 40% de toda a energia consumida no mundo atualmente

A queima desse combustível responde por um volume entre 30 e 35% das emissões mundiais de gás carbônico (CO2), um dos principais gases responsáveis pelo Efeito Estufa. O consumo mundial atual de carvão mineral é da ordem de 5,5 bilhões de toneladas por ano.

Em décadas mais recentes, um outro combustível de origem fóssil bem menos poluente passou a roubar parte dos espaços tradicionais do carvão mineral – falo aqui do gás natural. Em países da Europa, principalmente, o gás natural passou a ser usado como uma alternativa ao poluente carvão mineral para a geração de energia elétrica. A Rússia era o principal fornecedor de gás natural para o continente europeu. 

Conforme já tratamos em inúmeras postagens anteriores, essa fonte de energia mais limpa acabou secando e muito países foram obrigados a se voltar para o bom e velho carvão. Em outras partes do mundo, em países como a Índia e a China, o carvão mineral sempre manteve o ‘status” de fonte de energia bastante acessível e prática. 

Recentemente, na COP27, representantes do Governo da Índia falaram em uma espécie de “moratória” para poder aumentar ainda mais o consumo de carvão pelo país. Na Índia, a maior parte da energia elétrica é gerada em centrais termelétricas a carvão, um insumo que o país necessita para manter seu forte ritmo de crescimento industrial. 

E esse é, resumidamente, um dos grandes dilemas energéticos de nosso mundo: apesar de ser reconhecidamente uma das formas de geração de energia mais poluentes do mundo, o carvão até agora vem se mostrando como insubstituível em muitos países e em muitas atividades, como é o caso da siderurgia. 

Enquanto não inventarem novas formas de energia facilmente estocáveis e baratas como o carvão mineral, esse combustível continuará sendo queimado pelos quatro cantos do mundo e poluindo ainda mais a nossa já combalida atmosfera. 

FALANDO UM POUCO SOBRE COMBUSTÍVEIS FÓSSEIS

Há poucos dias atrás falamos de uma pesquisa internacional feita pela Climate Action Against Disinformation ou Ação Contra Desinformação Climática, numa tradução livre, que teve como objetivo mensurar o impacto das notícias falsas, as chamadas fake news, na percepção dos cidadãos sobre o meio ambiente. Os resultados foram entregues aos organizadores da COP27. 

Um dado surpreendente dessa pesquisa foi a desinformação dos cidadãos comuns em relação ao que são e quais são os danos causados ao meio ambiente pelos combustíveis fósseis. Para 40% dos brasileiros, segundo a pesquisa, esses combustíveis são energias limpas. A mesma opinião é compartilhada por 57% dos indianos, 39% dos norte-americanos, 34% dos australianos, 25% dos alemães e por 14% dos britânicos. 

Se algo tão absurdo assim está ocorrendo é por que educadores ambientais, como esse que vos escreve, e demais produtores de conteúdo para sites e blogs da área do meio ambiente não estão fazendo o “dever de casa” do jeito certo. Dito isso, vamos falar um pouco desses tais de combustíveis fósseis. 

São classificados como combustíveis fósseis o petróleo e seus derivados – gasolina, querosene e óleo diesel, entre outros; o carvão mineral, o gás natural e também o GLP – Gás Liquefeito de Petróleo. Em maior ou em menor escala, todos esses combustíveis fazem parte do dia a dia de todos nós. 

Em comum, todos esses combustíveis surgiram a partir da decomposição de matéria orgânica, ou seja, a partir de restos de plantas e de animais. Toda essa matéria orgânica foi soterrada ao longo de diferentes eras geológicas, envolvendo também fatores como pressão e temperatura, num processo que se desenrolou ao longo de dezenas de milhões de anos. 

Vamos começar falando do carvão mineral, o combustível fóssil mais abundante de nosso planeta. Esse mineral foi formado a partir da decomposição de florestas no Período Carbonífero, o que corresponde aproximadamente ao período de tempo entre 360 e 280 milhões de anos atrás. 

Nesse período, grandes extensões de áreas de florestas foram encobertas por espessos mantos de gelo, por deslizamentos de terra devido ao soerguimento de montanhas ou ainda foram encobertas pela invasão de águas dos mares. A madeira das árvores soterradas teve a celulose transformada pela perda de íons de hidrogênio e oxigênio, além de sofrer um enriquecimento por carbono, se transformando assim em carvão mineral. 

A concentração de carbono determina o tipo do carvão mineral – o antracito possui um teor de carbono de 90%, sendo o carvão mineral de formação mais antiga e de maior poder energético. No caso da hulha, a concentração de carbono fica entre 75 e 90%. A seguir vem o linhito e a turfa, com teores de carbono de 70% e 50%, respectivamente, ambos sendo bem menos eficientes na produção de energia. 

O carvão mineral vem sendo usado pela humanidade desde tempos imemoriais para queima em sistemas de aquecimento, em fornos para a produção de metais, em fogões de cozinhas, entre outros usos cotidianos. O carvão mineral ganhou uma enorme importância após a invenção da máquina a vapor em meados do século XVIII, importância que foi renovada nas últimas décadas do século XIX com a popularização do uso da eletricidade, energia que passou a ser gerada em centrais termelétricas a carvão. 

A formação do petróleo é bastante similar à do carvão mineral, porém, esse óleo é o resultado da decomposição de restos de matéria vegetal e de animais em diferentes eras. Trata-se de um líquido inflamável, oleoso e de cor negra. Sua composição básica são hidrocarbonetos, compostos químicos formados por carbono e hidrogênio. 

Uma das principais características do petróleo é a possibilidade do seu fracionamento em diferentes produtos. Esse processo é feito em grandes refinarias, onde o petróleo é fracionado em gasolina, óleo diesel, querosene, querosene de aviação, óleo combustível, entre outros produtos. Um desses produtos é o GLP, o gás engarrafado que é utilizado em fogões e fornos domésticos. 

Outro combustível fóssil bastante importante e que ganhou um enorme destaque nos últimos meses é o gás natural. Esse gás também foi formado a partir da decomposição de matéria orgânica, porém, nem sempre ele está associado às reservas subterrâneas de petróleo. 

A Rússia é um dos grandes produtores mundiais de gás natural e se destacava como o maior fornecedor desse combustível para os países da Europa. Após o início do conflito com a Ucrânia e em resposta a uma série de sanções econômicas impostas pelos países europeus, os russos, simplesmente, fecharam as válvulas dos seus gasodutos, deixando esses países na mão. 

Os países da Europa vinham, há várias décadas, substituindo a queima de carvão mineral em centrais termelétricas pelo gás natural. Apesar de ser um combustível de origem fóssil, o gás natural polui muito menos que o carvão – em tempos de aquecimento global, qualquer redução nas fontes emissoras de gases de efeito estufa é sempre bem-vinda. 

Todos esses combustíveis tem algumas características em comum. Em primeiro lugar são todos de origem fóssil, ou seja, são o resultado de processos de formação que se desenrolaram ao longo de dezenas de milhões de anos. Essa característica torna esses recursos finitos – uma vez esgotadas as suas reservas, serão necessários muitos milhões de anos para repor os “estoques”. 

Outro ponto a ser destacado é a poluição que é gerada pela queima desses combustíveis – destaco aqui a liberação do carbono na atmosfera, que na forma do gás dióxido de carbono (CO2), é um dos principais responsáveis pelo aquecimento global. 

Por fim, respondendo a uma dúvida de grande parte da população, os combustíveis fósseis estão muito longe de ser uma fonte de energia limpa e renovável – a bem da verdade, trata-se de uma energia muito suja e nem um pouco renovável. 

Um dos maiores desafios da humanidade em nossos dias é justamente encontrar fontes energéticas alternativas aos combustíveis fósseis. Entre as mais promissoras destacamos a energia fotovoltaica ou solar, a eólica ou energia dos ventos e os biocombustíveis como o nosso etanol, que polui bem menos que os combustíveis fósseis e ainda pode ser produzido a partir da cana-de-açúcar. 

Daqui para a frente não erre mais – combustível fóssil é sinônimo de poluição do ar, aquecimento global e insustentabilidade ambiental. 

AS VÍTIMAS E OS ”VILÕES” DO CLIMA MUNDIAL NA COP27 

Entre os dias 6 e 18 de novembro, líderes políticos e empresariais, dirigentes de organizações ambientalistas, jornalistas e público em geral estiveram reunidos na cidade egípcia de Sharm el-Sheikh, para as reuniões de trabalho da COP27 – Conferência das Partes das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas.   

Como é de praxe, esse tipo de encontro costuma reunir os “mocinhos”, os “vilões” e as “vítimas” dos problemas ambientais do mundo. Eu costumo chamar de “mocinhos” países como a França, a Alemanha e os Estados Unidos que, durante séculos, foram os maiores emissores de gases de efeito estufa do planeta – subitamente, essas nações “resolveram” mudar sua postura e se transformaram nas grandes defensoras do clima. 

No papel de “vilão” o Brasil é um dos grandes destaques da atualidade. Segundo a narrativa dos “mocinhos”, as queimadas e os incêndios na Amazônia são uma das grandes ameaças ao clima mundial. Eles só não conseguem explicar é que, mesmo após anos contínuos de queimadas “maciças”, perto de 85% da Floresta Amazônica continua tão viva e verde como nos tempos do descobrimento do Brasil em 1500. 

No meio desses dois grupos existe um que é realmente o mais importante e que merece toda a nossa atenção – as vítimas reais do aquecimento global. Essas são as populações e os países que estão convivendo com os efeitos das secas, dos excessos de chuva, com a elevação do nível do mar ou ainda com o derretimento de geleiras, suas fontes principais de água potável. 

Uma dessas nações “vítimas”, que marcou presença na COP27 foi Tuvalu, um pequeno país insular localizado no Sul do Oceano Pacífico. O arquipélago é formado por cerca de 30 ilhas e possui uma área total de apenas 26 km², contando com uma população de aproximadamente 12 mil habitantes. 

O drama de Tuvalu é bem fácil de entender – o ponto mais alto das ilhas fica a apenas 4,6 metros acima do nível do mar. Qualquer elevação no nível do oceano, por menor que seja, provoca uma perda de território. De acordo com as projeções dos especialistas, o nível dos oceanos deverá subir mais de 1 metro até o ano de 2100, um fato que, literalmente, vai riscar a maior parte das ilhas Tuvalu do mapa. 

Tuvalu não está sozinha nesta triste sina – cerca de 52 nações insulares, conhecidas como SIDS – Small Island Developing States ou Pequenos Estados-Ilha em Desenvolvimento, numa tradução livre, poderão desaparecer nos próximos 50 anos devido ao aumento do nível dos oceanos. Esses pequenos países abrigam 1% da população do planeta, além de uma rica biodiversidade. 

De acordo com um estudo feito pelo Instituto para o Meio Ambiente e Segurança Humana, da Universidade das Nações Unidas, cerca de 15% da população de Tuvalu já foi forçada a emigrar para outros países, 12% já migrou internamente e 8% quer migrar, mas não teve condições. Essas migrações deverão aumentar em 70% até 2055. 

Diante de um quadro tão avassalador, Tuvalu poderá simplesmente desaparecer como uma nação organizada em apenas 20 ou 30 anos. Como não poderia ser diferente, Tuvalu foi o primeiro país integrante da UNFCCC – Convenção das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, na sigla em inglês, a assinar o Tratado de Não-Proliferação de Combustíveis Fósseis. 

Já que falamos de uma das “vítimas”, precisamos abrir espaço para um dos “vilões” do clima mundial, que também marcou presença na COP27. Falo aqui da Índia, país que ocupa a nada honrosa 3ª posição entre os maiores emissores mundiais de gases de efeito estufa. 

Os representantes da Índia na COP27 foram muito claros ao defender o posicionamento do seu país – os países mais ricos e desenvolvidos do mundo devem se esforçar para reduzir as suas emissões de gases de efeito estufa, porém, países pobres e em desenvolvimento como a Índia devem ter a liberdade de aumentar suas emissões em nome do desenvolvimento econômico. 

Por maiores que sejam as “náuseas” que esse tipo de posicionamento provoque em alguns líderes mundiais – gosto sempre de citar Emmanuel Macron da França, a situação da Índia exige isso. Com uma população de mais de 1,3 bilhão de habitantes – onde pelo menos a metade vive na mais profunda miséria, o país não pode prescindir de um forte crescimento econômico. 

Um exemplo altamente didático dos problemas indianos – o país precisa gerar cerca de 1 milhão de empregos a cada mês somente para absorver a mão de obra dos jovens que estão chegando ao mercado de trabalho. Se tal geração de empregos fosse possível aqui no Brasil, resolveríamos nosso problema de desemprego em cerca de oito meses. 

A matriz energética da Índia é o que costuma se chamar de suja – 40% de toda a energia consumida no país vem da queima do carvão mineral, cerca de 16% do petróleo e seus derivados e 24% da queima de lenha e outros resíduos. Neste último item entra a lenha usada por 70% das famílias do país para cozinhar. Geração de eletricidade em fontes hidrelétricas e nucleares respondem por uma pequena fatia da matriz energética da Índia. 

Segundo as projeções do Governo indiano, o país precisará aumentar em 40% a queima de carvão ao longo dos próximos dez anos apenas para conseguir manter o forte ritmo de crescimento de sua economia. Segundo dados do FMI – Fundo Monetário Internacional, a Índia cresceu 9,5% em 2021, com estimativas de crescimento de 8,5% em 2022 e 6,6% em 2023. 

Esse forte crescimento econômico significa mais emprego e renda, melhores condições de vida, educação e saúde para centenas de milhões de pobres e miseráveis do país. Na opinião do Governo indiano, todos esses aspectos positivos justificam uma espécie de “licença especial para poluir o planeta”. 

O posicionamento claro da Índia, por mais que incomode ambientalistas dos países ricos e de bolsões de gente refinada como os Jardins em São Paulo e Leblon e Copacabana no Rio de Janeiro, tem o apoio de dezenas de outros países pobres e em desenvolvimento que tem perfis socioeconômicos parecidos com a Índia. 

Como fica bastante fácil de perceber, questões envolvendo os problemas decorrentes das mudanças climáticas não são uma unanimidade mundial como muitos querem nos fazer crer. Resolver esse tipo de impasse não é tarefa fácil. 

Nos filmes, mocinhos e vilões costumam acertar suas diferenças num duelo ao pôr do sol. Na vida real, as coisas são bem mais complicadas…

SEGUNDO PESQUISA, 40% DOS BRASILEIROS ACREDITAM QUE COMBUSTÍVEIS FÓSSEIS SÃO ENERGIA LIMPA 

Foi divulgada há alguns dias atrás uma pesquisa internacional feita pela Climate Action Against Disinformation ou Ação Contra Desinformação Climática, numa tradução livre, que teve como objetivo mensurar o impacto das notícias falsas, as chamadas fake news, na percepção dos cidadãos sobre o meio ambiente. Os resultados foram entregues aos organizadores da COP27

Uma das informações mais surpreendentes e importantes dessa pesquisa é que, para 40% dos brasileiros, combustíveis fósseis como a gasolina e o óleo diesel são considerados como energias limpas. Muito pior – pessoas de outros países, onde a mesma pesquisa foi feita, tem uma percepção semelhante. 

Na Índia, 57% da população tem essa mesma percepção. Nos Estados Unidos são 39% e na Austrália 34%. Na Alemanha e no Reino Unido os índiceS são um pouco mais baixos – 25% e 14%, respectivamente. 

Para quem está habituado a acompanhar notícias sérias sobre os problemas ligados às mudanças climáticas e ao aquecimento global, como é o caso dos leitores desse blog, essa percepção beira o absurdo. Mas as notícias não param por aí: 

  • 44% dos brasileiros não acreditam que ações humanas sejam as causas das mudanças climáticas; 
  • 29% acreditam que “um número grande de cientistas não se entende sobre as causas das mudanças climáticas”; 
  • Para outros 24%, os dados sobre as temperaturas globais ou não são confiáveis ou são manipulados e 
  • 15% não acreditam que a produção de combustíveis fósseis cause problemas de saúde nas pessoas. 

Na opinião dos pesquisadores envolvidos, “esses resultados da pesquisa refletem como as crenças predominantes de desinformação climática estão em todo o mundo. Há uma grande lacuna entre a percepção do público e da ciência em questões básicas, como a responsabilidade humana pela mudança climática.” 

Um estudo recente feito pelo Greenpeace dos Estados Unidos em parceria com as organizações Avaaz e Friends of the Earth mostrou que parte substancial dessa percepção errônea da população tem como origem erros e informações falsas espalhadas pelas redes sociais. 

Segundo esses grupos, as grandes empresas desse setor falham ao não conseguir coibir a veiculação desse tipo de notícia. Segundo a avaliação desses grupos, o Twiter teve a pior nota – 5 de um total de 27 pontos possíveis. Facebook e Tik Tok tiveram notas 9 e 7, respectivamente, enquanto o Pinterest alcançou uma nota 14. 

Por mais interessantes que sejam essas informações – é preciso acender uma luz de alerta entre os educadores ambientais e produtores de conteúdoS na área, a discussão é bem mais ampla. Quem ou qual entidade passará a ter a responsabilidade de filtrar as informações que circulam nas redes sociais, decidindo o que é ou não verdade. 

Nós brasileiros acabamos de sair de um tumultuado processo eleitoral, onde o combate às chamadas fake news teve papel de protagonismo. Inúmeras peças publicitárias de candidatos a cargos públicos foram consideradas ”fake news” e retiradas do ar. Vários sites e blogs de candidatos tiveram o mesmo fim. 

O direito brasileiro e, acredito eu, grande parte das legislações dos países, não apresenta uma definição clara do que são essas ditas fake news – qualquer decisão judicial a esse respeito acabará sendo subjetiva. 

Outra dificuldade séria será a criação de uma “entidade suprema” com poderes para censurar (a palavra é essa mesmo) toda e qualquer notícia falsa sobre problemas ligados às mudanças climáticas. Quem tem autoridade para fazer isso hoje em dia? 

A internet, e por extensão as redes sociais, é controlada a nível mundial por um pequeno número de empresas – Google, Apple, Microsoft, entre outras, a imensa maioria de origem norte-americana. Qualquer que venha a ser essa “entidade suprema”, é certo que ela tenderá a defender os interesses de empresas e cidadãos dos Estados Unidos – quem não for yanke poderá ter sérios problemas. 

Pessoalmente, como educador ambiental que sou, acho que o melhor caminho para combater a desinformação é a boa informação. Modéstia à parte, é o que tentamos fazer nas postagens diárias aqui do blog – apresentar conteúdos relevantes e bem fundamentados sobre os problemas ambientais; cada leitor que use essas informações da melhor maneira possível. 

De qualquer maneira, foi importante saber que grande parte dos cidadãos tem essa ideia errada sobre os combustíveis fósseis – vamos ter de publicar novas postagens mostrando o que realmente está acontecendo no mundo da energia. 

A vida é sempre um eterno aprendizado – tanto para quem procura ensinar quanto para aqueles que buscam aprender. 

A COP27 E A “FARRA” DOS JATINHOS PRIVADOS 

Quem acompanha as notícias da área de aviação com certeza já ouviu falar de Alice, um avião experimental para até 9 passageiros que tem um diferencial muito particular – os dois motores da aeronave são alimentados 100% por energia elétrica. 

Aqui no Brasil, os estudos para o desenvolvimento de aeronaves sustentáveis também vão muito bem, obrigado. A fabricante brasileira Embraer está trabalhando em toda uma linha de novos aviões com propulsão elétrica/hidrogênio – a ENERGIA FAMILY

Esses e muitos outros projetos em desenvolvimento em todo o mundo buscam tecnologias aeronáuticas com baixas emissões de carbono, num primeiro momento, passando depois para aviões com emissões zero. Existe aqui um problema de tempo – os projetos mais promissores só deverão estar voando comercialmente a partir de década de 2030. 

Se para os pesquisadores e empresas dos diversos setores da aviação a busca por emissões de gases de efeito estufa cada vez menores é uma questão de sobrevivência – os consumidores estão pressionando muito, para os líderes mundiais “altamente preocupados” com o meio ambiente, as coisas não estão tão mal assim. Falo da farra dos jatinhos executivos, destaque nas redes sociais desses últimos dias.

Desde o último dia 6 de novembro, líderes mundiais, empresários, representantes de ONGs ligadas ao meio ambiente, entre muitos outros convidados, estão reunidos em Sharm el-Sheikh, uma cidade turística localizada entre o deserto da Península do Sinai e o Mar Vermelho no Egito, para as reuniões da COP – 27ª Conferência das Partes das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas.   

Relembrando, a COP – Conferência das Partes, ou Conference of the Parties em inglês, foi adotada em 1992, logo após a conferência do Rio de Janeiro, como o órgão supremo da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças do Clima. Os países signatários da Convenção ratificaram o acordo em 1994, e passaram a se reunir anualmente a partir de 1995.   

O que deveria ser um “celeiro” de grandes ideias e boas notícias para todos aqueles que estão preocupados com o futuro do planeta, infelizmente acabou se transformando numa fonte de mau exemplo para o mundo. O aeroporto da cidade egípcia está com seus pátios completamente abarrotados de jatos executivos usados pelos “líderes” do evento. 

De acordo com uma reportagem do jornal New York Post, mais de 400 jatos executivos pousaram no aeroporto local nos últimos dias. A rede de notícias britânica BBC News também comentou sobre esse fato usando dados do FlightRadar24, um aplicativo que mostra, em tempo real, o tráfego aéreo em todo o mundo. 

De acordo com algumas informações preliminares, esse número de jatos privados usados pelos participantes da COP27 já representa o dobro do número desses aviões usados para transportar os participantes da COP26, que foi realizada no final de 2021 em Glasgow, na Escócia. 

A situação está sendo considerada tão surreal que grupos de ativistas ambientais fizerem protestos nas pistas do aeroporto egípcio (vide foto). E a grita desse pessoal faz todo o sentido – jatos executivos poluem de 5 a 14 vezes mais que os aviões comerciais que transportam centenas de pessoas a cada viagem. 

Para que todos tenham uma ideia clara do que estou falando – de acordo com um estudo divulgado em 2020, os jatos executivos ou privados lançaram um volume total de 34 milhões de toneladas métricas de carbono na atmosfera em 2016. Esse volume é maior do que as emissões de muitos países pequenos em um ano. 

Um outro dado interessante – um voo de 4 horas de um jato executivo emite o mesmo volume de gases de efeito estufa que um cidadão europeu médio ao longo de um ano. Fica bastante difícil aceitar que governantes e líderes mundiais, que pedem a você para andar de bicicleta, façam suas viagens às custas de tamanha queima de combustíveis fósseis. 

Um exemplo de jatinho executivo favorito dos ricos e famosos é o Gulfstream IV. Muitos desses aviões podem vistos neste momento em Sharm el-Sheikh. De acordo com um estudo de 2017, do Institute for Policy Studies, uma pequena viagem de um desses aviões emite quase que o dobro de carbono na atmosfera que um americano médio ao longo de um ano. 

Todos sabemos que tempo é dinheiro – governantes e grandes empresários não podem perder seu tempo enfrentando filas em aeroportos para viagens em jatos comerciais de carreira. Porém, a tecnologia atual permite que sejam feitas reuniões virtuais – a recente pandemia da Covid-19 mostrou o quanto essa facilidade foi importante. 

O grande problema é que no virtual não dá para tirar aquela foto em grupo, que sairá na capa de jornais e de sites de notícias em todo o mundo, mostrando para o público o quanto esse pessoal está preocupado com a saúde do planeta e com o seu futuro. 

Enquanto isso, continue andando com a sua bicicleta, em trens e em ônibus (de preferência elétricos ou movidos com biocombustíveis), pois as suas emissões de carbono e de gases de efeito estufa é que são as responsáveis pelo aquecimento global. 

Haja “cara de pau”, como dizemos aqui em casa… 

MUDANÇAS CLIMÁTICAS AFETAM MAIS AS MULHERES 

Normalmente, mulheres ganham menos que os homens fazendo o mesmo tipo de trabalho, trabalham mais – incluindo aqui a segunda jornada de trabalho em casa e o cuidado com os filhos, sofrem todo o tipo de discriminação – inclusive pelo simples fato de serem mulheres, além de formarem a maior parcela de pobres em inúmeros países. 

Logo, afirmar que as mulheres formam o grupo de nossas sociedades que mais está sendo afetado pelas mudanças climáticas é “chover no molhado”, como costumamos falar aqui no meu bairro. 

Esse é um assunto que provocou grandes discussões na COP26, realizada em Glasgow na Escócia no final do ano passado e que promete ocupar bons espaços na COP27, que está sendo realizada neste momento em Sharm el-Sheikh, uma cidade turística localizada entre o deserto da Península do Sinai e o Mar Vermelho no Egito. 

Segundo os organizadores, o lema dessa edição da Conferência será “Juntos para a implementação”. Um dos principais objetivos do encontro será a concretização de acordos e compromissos anteriores, a exemplo das negociações firmadas em 2015, na COP 21 em Paris. Porém, não será difícil encontrar um espaço nas agendas para tratar da questão das mulheres.

Relembrando, a COP – Conferência das Partes, ou Conference of the Parties em inglês, foi instituída logo após a Rio 92 – Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento. A COP é o órgão supremo da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças do Clima. Os países signatários da Convenção ratificaram o acordo em 1994, e passaram a se reunir anualmente a partir de 1995.   

De acordo com um relatório elaborado ainda no ano passado pelo Women in Finance Climate Action Group, um coletivo de mulheres líderes de todo o mundo, as mudanças climáticas intensificam as desigualdades, as vulnerabilidades, a pobreza e as relações desiguais de poder entre homens e mulheres.  

Um dado que confirma com clareza essa questão – as mulheres representam 80% das pessoas deslocadas por desastres naturais e pelas mudanças climáticas hoje no mundo. São secas regiões, enchentes, furacões e tempestades, entre outras tragédias. 

Para que os leitores tenham uma ideia do tamanho desse problema – de acordo com um relatório do Banco Mundial, publicado em 2021, até 216 milhões de pessoas terão de abandonar suas regiões por causa de problemas climáticos até o ano de 2050. As estimativas indicam que serão 17 milhões de refugiados somente aqui na América Latina. 

Na maioria das culturas, que são extremamente machistas, as mulheres se encarregam do cuidado do lar e dos filhos. Essas funções costumam colocar as mulheres em contato mais próximo com os recursos naturais em atividades como buscar e carregar água, plantar alimentos, coletar frutos em matas, transportar lenha, entre outras atividades. 

Como as mudanças climáticas estão afetando, por exemplo, a disponibilidade de água, essas mulheres estão sendo obrigadas a realizar caminhadas cada vez maiores em busca do precioso líquido. A redução das chuvas e as secas cada vez mais frequentes também estão afetando a produção de frutas, o que força a buscas por alimentos em lugares cada vez mais distantes de seus lares. 

É fundamental, para não dizer essencial, que as questões relacionadas a essas mulheres ganhem prioridade absoluta em qualquer política voltada ao combate dos efeitos das mudanças climáticas. E a COP é uma excelene oportunidade par isso.

Governos precisam, urgentemente, criar mecanismos financeiros para ajudar de alguma maneira essas mulheres. Um exemplo que podemos citar são os programas de complementação de renda como os que existem aqui no Brasil. Por menores que sejam os valores pagos, são recursos que auxiliam as famílias – em especial as mulheres que chefiam as famílias, a garantir parte do sustento da casa. 

Também é preciso criar mecanismos de microcrédito com vistas a criação de pequenos negócios e empreendedorismo. Esses financiamentos permitem quebrar o ciclo contínuo da pobreza, que em tempos de mudanças climáticas, tende a aumentar ainda mais, permitindo que as mulheres consigam alcançar algum tipo de autossuficiência financeira. 

A preocupação com a flora, a fauna, os recursos hídricos e com a agricultura são importantes. Entretanto, o cuidado com as mulheres é uma garantia de futuro para as novas gerações que, desgraçadamente, herdarão essa nossa Terra cheia de problemas. 

São essas mulheres que estão educando e cuidando dos futuros líderes, homens e mulheres, que terão a ingrata missão de resolver todos os problemas ambientais que gerações anteriores – como a nossa, criaram. 

PESQUISA REVELA QUE JOVENS – ESPECIALMENTE AFRICANOS, ESTÃO RECONSIDERANDO A IDEIA DE TER FILHOS POR CAUSA DAS MUDANÇAS CLIMÁTICAS 

Água, Vida & Cia é um blog que surgiu há pouco mais de seis anos com o objetivo de apresentar os inúmeros problemas ambientais nas áreas de saneamento básico e dos recursos hídricos. Falamos muito da poluição e do descaso com nossos rios, da falta de infraestrutura para o controle de águas pluviais em nossas cidades, da sofrível situação do saneamento básico – especialmente da falta de sistemas de coleta e tratamento de esgotos, entre muitos outros problemas. 

De algum tempo para cá o blog começou a falar bastante dos problemas associados às mudanças climáticas. O problema foi negado sisitematicamente por muitos líderes mundiais ao longo de muitos anos. Porém, o aumento das temperaturas em todo o planeta passou a mostrar todos os seus efeitos danosos nesses últimos dois ou três anos, ficando difícil ficar inerte diante de tamanha enxurrada de más notícias. 

A maior parte dos problemas que estão pipocando no mundo hoje estão ligados a fortes ondas de calor, secas, perdas de safras agrícolas, aumento da frequência e da intensidade de tempestades, incêndios florestais, entre outras questões desse tipo. 

Problemas exclusivamente sociais ligados aos efeitos das mudanças climáticas eram raros em nossas postagens, algo que possivelmente deverá mudar ao longo do tempo. Cada vez mais, problemas ambientais estão afetando diretamente a vida de cidadãos em todo o mundo e será importante tratarmos disso por aqui. 

Uma notícia preocupante, divulgada ontem, dia 9 de novembro, ilustra bem a que ponto chegamos. De acordo com o boletim ONU News, um informativo online da ONU – Organização das Nações Unidas, jovens em todo o mundo estão reconsiderando a ideia de formar uma família e ter filhos por conta dos problemas decorrentes das mudanças climática. 

Pesquisa feita pelo UNICEF – Fundo das Nações Unidas para a Infância, entrevistou 240 mil pessoas em todo o mundo para chegar a essa conclusão. A situação é mais crítica no Norte da África e na África Subsaariana. 

A nível global, dois em cada cinco jovens entrevistados disseram que os impactos gerados pelas mudanças climáticas estão afetando seus desejos de formar uma família. No Oriente Médio e no Norte da África esse percentual sobre para 44% e na África Subsaariana é de 43%. 

Nas duas regiões africanas os jovens relataram que tem sofrido inúmeros choques climáticos e, mais do que em qualquer outra parte do mundo, afirmaram que esses choques afetaram seu acesso a fontes de água e de alimentos, além de comprometer a renda de suas famílias. O pessimismo criado por essas situações impacta diretamente nos planos de vida desses jovens. 

Em 2021, a revista médica inglesa The Lancet publicou uma pesquisa semelhante, onde foram entrevistados 10 mil jovens em todo o mundo. O estudo concluiu que 39% dos jovens se sentiam hesitantes quanto a questão de ter filhos, um percentual bastante próximo do que foi apurado pela pesquisa do UNICEF. 

Outras conclusões importantes da pesquisa: 

Mais da metade dos entrevistados a nível global afirmaram que sofreram com seca e calor extremo. A poluição do ar afeta um quarto dos entrevistados e outro quarto disse ter sofrido com inundações. Um em cada seis entrevistados presenciou tempestades severas ou ciclones frequentes e 10% incêndios florestais. 

Aproximadamente 40% mencionou ter acesso menor a alimentos por conta das mudanças climáticas. Os maiores percentuais dessa afirmação ficaram por conta de jovens da África Subsaariana, seguidos pelo Oriente Médio e Norte da África com 52% e 31%, respectivamente. 

Ao menos um quarto dos entrevistados afirmou que a fonte de renda de suas famílias foi impactada de alguma forma pelas mudanças climáticas. Mais uma vez, as regiões mais afetadas por esse problema foram o Oriente Médio, o Norte da África e a África Subsaariana, com percentuais acima de 30%. 

Outra reclamação frequente é a dificuldade no acesso a água potável, drama citado por 20% dos entrevistados. O Oriente Médio e o Norte da África lideram esse problema, com 35% das citações, seguido pelo Leste Asiático e Pacífico, com 30% das citações. 

Finalizando, cerca de 60% dos entrevistados consideram a possibilidade de mudar de cidade ou de país por conta das mudanças climáticas. Essa questão foi citada por cerca de 70% dos jovens do Oriente Médio e do Norte da África, seguidos por 66% de citações na América Latina e no Caribe. 

Como é bem fácil de ver nos números, o quadro mostrado por essa pesquisa mostra o tamanho do pessimismo dos jovens ante um futuro que será marcado pelos efeitos das mudanças no clima, falta de água e dificuldades cada vez maiores no acesso aos alimentos. 

Em uma série de postagens recentes publicadas aqui no blog mostramos algumas das dificuldades vividas por populações na África em questões como escassez de água, destruição de florestas, degradação de solos agrícolas e redução contínua da capacidade de produção de alimentos em muitos países. 

Diante desse tipo de cenários não é de se estranhar que os jovens africanos sejam os mais pessimistas em relação ao seu próprio futuro e e também da humanidade com um todo.  

AO CONTRÁRIO DO QUE ACONTECE NO RESTO DO MUNDO, O NÍVEL DO MAR ESTÁ BAIXANDO NA ISLÂNDIA 

Localizada a meio caminho entre a Escandinávia e a Groenlândia, a Islândia é uma grande ilha vulcânica com pouco mais de 102 mil km2. Uma das características mais peculiares da ilha é a sua estrutura geológica – cerca de metade da ilha está localizado sobre a Placa Euroasiática e a outra metade sobre a Placa Norte-americana. 

A Islândia é considerada como um dos últimos territórios europeus a ser colonizado por seres humanos, o que se deve ao seu descobrimento tardio. De acordo com a descrição do Landnámabók ou Livro da Colonização, um detalhado manuscrito medieval do século XII, a ilha foi descoberta acidentalmente por navegadores nórdicos por volta do ano 800 de nossa era e os primeiros colonizadores teriam se estabelecido na ilha no ano 874, na região de Reykjavik, capital do país (vide foto). 

De acordo com uma das versões do descobrimento da Islândia (o Landnámabók tem várias), o marinheiro escandinavo Naddoddr se perdeu durante uma viagem para as Ilhas Feroé e acabou atingindo a costa Oeste da ilha. Ele batizou a ilha com o nome Snæland – terra da neve. Anos depois, o explorador norueguês Flóki Vilgerðarson aportou na ilha para passar o inverno e rebatizou o lugar como Ísland – terra do gelo. 

Todas as descrições dos primeiros navegadores e exploradores que chegaram até a Islândia ressaltam a beleza e a magnitude das paisagens geladas da ilha, suas grandes geleiras, seus fiordes e suas fontes de água termais. Essa imagem se perpetuou ao longo da história e se transformaram em uma espécie de marca registrada da ilha em todo o mundo. 

Em tempos de aquecimento global e de aumento das temperaturas em todo o mundo, essa imagem da Islândia precisa ser urgentemente revista. Assim como se assiste na Groenlândia, na Antártida e em outras terras frias do planeta, as paisagens da ilha estão mudando muito rapidamente devido a perda de enormes massas em suas grandes geleiras. 

Um exemplo dessa situação foi o que ocorreu em agosto de 2019, quando foi decretada a morte” oficial da geleira Okjökull. Essa geleira ocupava uma área com cerca de 38 km² em 1901 e vinha perdendo massa desde então, apresentando uma área menor que 1 km² em 2019. A Islândia tem cerca de 400 geleiras e, de acordo com as estimativas atuais, o aquecimento global vai eliminar totas em no máximo 200 anos.  

Muito mais do que uma alteração no padrão climático de toda a ilha, a perda de massa de gelo está provocando mudanças importantes na geografia da Islândia. Uma das mais curiosas é o gradativo soerguimento da ilha em relação ao nível do mar. Enquanto a maioria dos países com fachada oceânica experimenta um avanço do nível do mar, na Islândia as águas estão baixando. 

Um dos efeitos mais evidentes do soerguimento dos solos da Islândia pode ser visto nitidamente nos canais de navegação dos portos ao redor da ilha. Massas de rocha estão aflorando por todos os lados, criando grande dificuldade e perigos reais para a navegação. É importante citar que a indústria pesqueira é uma das principais atividades econômicas da Islândia. 

Segundo as projeções da NASA – Administração de Aeronáutica e Espaço dos Estados Unidos, o derretimento das geleiras ao longo das próximas décadas vai provocar uma elevação de 1 metro nos oceanos de todo o mundo, o que deverá redesenhar o mapa mundi. Na Islândia, ao contrário, o nível do mar deverá apresentar um recuo de 20 cm. 

Para entender o que está acontecendo tomemos como exemplo a maior massa de gelo da Islândia – a geleira Vatnajökull. Essa imensa estrutura natural ocupa uma área com aproximadamente 8.100 km², o que corresponde a 8% da superfície do país. Essa geleira é considerada a segunda maior capa de gelo da Europa e a maior em volume – a espessura do manto de gelo chega a 1 km. 

O peso dessa impressionante massa de gelo sempre exerceu uma poderosa compressão sobre os solos e rochas. Com o gradual derretimento da capa de gelo, o peso sobre o solo vai diminuindo e passa a ocorrer uma gradual descompressão das rochas, que passam a se elevar em relação ao nível do mar. 

De acordo com Thomas Frederikse, um pós-doutorando no Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa, a situação da ilha é mais complexa. Segundo ele, “a camada de gelo é tão pesada que puxa o oceano em direção a ela, devido à gravidade. Mas se o manto de gelo derrete, essa atração começa a enfraquecer e a água se afasta. Quanto mais distante você está do manto de gelo, mais água você recebe”. 

A perda de massa de gelo em geleiras e glaciares de montanha respondem por cerca de 2/3 da elevação do nível do mar em nossos dias. No caso da Islândia, o derretimento de todas as suas geleiras implicaria em um aumento de apenas 1 cm no nível dos oceanos. 

No caso da Groenlândia e Antártida, regiões com áreas imensamente maiores, o derretimento das geleiras seria algo catastrófico para todo o planeta. De acordo com as projeções de especialistas, o derretimento do manto de gelo da Groenlândia tem potencial para elevar o nível dos oceanos em 7,5 metros. No caso da Antártida, esse derretimento contribuiria para um aumento de quase 60 metros no nível dos oceanos. 

Enquanto situações mais catastróficas associadas ao aumento do nível dos oceanos ainda estão no plano teórico, o recuo do mar ao redor da Islândia está exigindo medidas práticas no curto prazo. Áreas portuárias do país precisão receber pesados investimentos para o rebaixamento do nível dos canais de navegação, inclusive com o derrocamento de grandes massas de rocha. Em alguns casos, será mais barato reconstruir as áreas portuárias em outros lugares. 

Como acontece com todo país insular, a Islândia depende fortemente da navegação e da pesca para a sobrevivência de sua pequena população de pouco mais de 360 mil habitantes. A situação “surreal” que está se desenhando em seu litoral não poderá continuar por muito mais tempo, sob risco de destruir a já combalida economia do país. 

O IMPACTO DAS MUDANÇAS CLIMÁTICAS NAS POPULAÇÕES DE INSETOS

Em nossa última postagem apresentamos algumas conclusões de um interessante estudo sobre as mudanças de comportamento de macacos arborícolas e lêmures por causa das mudanças climáticas. Observações em inúmeros sítios nas Américas e na Ilha de Madagascar mostraram que esses animais estão passando mais tempo em incursões nos solos. 

Essa mudança de comportamento está associada, segundo os pesquisadores, ao aumento das temperaturas, o que está provocando mudanças em muitas florestas. Com a diminuição e a irregularidade das chuvas em algumas regiões, uma tendência que deverá se intensificar nos próximos anos, as florestas estão ficando com menos árvores e os animais arborícolas estão buscando sombra e alimentos no solo. 

Desgraçadamente, não são apenas esses primatas que estão sendo impactados pelo aumento das temperaturas – estudos mostram que os insetos também estão sofrendo fortemente com as mudanças climáticas. Alguns estudiosos, inclusive, chegam a profetizar um verdadeiro “apocalipse” para muitas espécies. 

É provável que muitos dos leitores não entendam o significado de um evento dessa magnitude. Para muitos, insetos são criaturas horripilantes – tomando como exemplos as baratas e os mosquitos, sendo causadoras de todos os tipos doenças. Mesmo sendo um argumento parcialmente verdadeiro, a questão é muito mais complexa. 

As diferentes espécies de insetos formam o grupo de animais mais diversificado e mais largamente distribuído do nosso planeta – os artrópodes. Só para esclarecer: artrópodes (filo Arthropoda) são animais dotados de patas articuladas e que possuem esqueleto externo (exoesqueleto) nitidamente segmentado. Entre eles se incluem as ditas baratas e os mosquitos, além de insetos como besouros, borboletas, aranhas, centopeias, entre muitos outros, além de animais como camarões e caranguejos. 

Estimativas afirmam que algo ao redor de 70% de todos os seres vivos já descritos pela ciência são insetos. Calcula-se que já foram descritos aproximadamente 1 milhão de espécies de insetos, faltando algo entre 5 e 30 milhões de espécies a serem descritas. Esses números nos dão uma vaga ideia de importância ecológica dessas pequenas criaturas. 

De acordo com estudos recentes, os primeiros insetos surgiram há cerca de 480 milhões de anos, mais ou menos na mesma época em que as primeiras plantas terrestres começaram a aparecer. Ao longo de sua longa história evolutiva, os insetos foram se diversificando e se adaptando para uma vida em todos os ecossistemas terrestres do planeta – algumas espécies, inclusive, se adaptaram para a vida no meio aquático. 

Uma pesquisa realizada por pesquisadores da Universidade James Cook, da Austrália, mostrou que as mudanças climáticas poderão colocar um fim na história de muitas dessas espécies, ao mesmo tempo em que poderão reduzir drasticamente o número de várias populações desses animais. 

Um dos principais problemas apontados na pesquisa é a pouca capacidade desses animais para regular a temperatura corporal. Insetos são animais ectotérmicos, ou seja – eles não produzem calor suficiente para a termorregulação do organismo e ajustam suas temperaturas corporais por meio de mecanismos comportamentais. 

Nós seres humanos, citando um exemplo, possuímos um organismo que consegue regular a sua temperatura de forma independente das condições ambientais. Nosso suor, por exemplo, permite a redução da temperatura corporal em casos de calor excessivo. 

Essa incapacidade de auto regulação das temperaturas corporais poderá ser fatal para inúmeras espécies de insetos que vivem em regiões onde as temperaturas aumentarão nas próximas décadas. Estudos indicam que as temperaturas poderão aumentar de 2° até 5° C em muitas regiões até o ano 2100. 

Esse aumento das temperaturas também poderá comprometer as fontes de alimentos desses animais. Temperaturas mais altas e uma menor precipitação tendem a transformar áreas que atualmente são cobertas por florestas em campos cobertos por gramíneas. Insetos como os cupins, citando um exemplo, que se alimentam de madeira das árvores, serão altamente prejudicados por essa mudança na flora. 

Também existe o risco de um aumento na predação de diversas espécies de insetos por animais maiores como aves e mamíferos, que eventualmente venham a perder seus nichos ecológicos na copa das árvores. Podemos citar aqui os casos já citados dos macacos e dos lêmures. 

A perda desses insetos terá impactos diretos na vida dos seres humanos. Vou citar o caso mais clássico – a importância de insetos como as abelhas na polinização das plantas. Estimativas indicam que, pelo menos metade de todos os alimentos que nós humanos consumimos, depende da polinização feita por insetos como as abelhas. 

Um outro exemplo: parte considerável da produção de solos férteis se deve a ação de insetos terrestres que se alimentam de folhas e galhos de árvores que caem sobre os solos. Um grande exemplo que podemos citar são as formigas. 

Ou seja: por maiores que sejam as repulsas que muitos sentem em relação a esses pequenos animais, os insetos são essenciais para o funcionamento dos mais diferentes ecossistemas de nosso mundo. O desaparecimento ou a redução de populações de espécies de insetos, mais cedo ou mais tarde, afetará diretamente a vida das populações humanas. 

Entre tantas outras grandes preocupações que as mudanças climáticas estão gerando, precisamos achar espaço para “pequenas” preocupações com o bem estar e a sobrevivência dos insetos.