PINUS: A ESPÉCIE DE PLANTA MAIS AGRESSIVA DO MUNDO

pinus

Nos meus últimos posts falei bastante dos problemas associados à produção do papel e da celulose, especialmente a partir do eucalipto, cultura que responde por 85% da matéria prima usada pela indústria. A matéria prima restante é fornecida pelas plantações de pinus, fortemente concentradas na região sul do Brasil.

Árvores conhecidas como folhosas ou hardwood como o eucalipto produzem a chamada celulose de fibra curta; as coníferas ou softwood como o pinus produzem a celulose de fibra longa. Cada tipo de celulose tem características diferentes, adequadas para a produção de tipos diferentes de papel: a fibra curta é ideal para a produção de papéis macios, de alta absorção e opacidade; a celulose de fibra longa produz papéis de maior resistência mecânica.

O pinus, como qualquer outra planta exótica introduzida em um outro ecossistema, sofre um processo de adaptação ou naturalização e, não encontrando predadores naturais como aqueles existentes em seus ambientes originais, começa a ocupar o espaço das espécies nativas e produz mudanças nos ecossistemas. Essas plantas recebem o título nada honroso de “invasoras biológicas” – o pinus é considerado a espécie de planta mais agressiva do mundo. A espécie de origem norte americana não tem inimigos naturais, predadores ou herbívoros que se alimentem de suas sementes aqui no Brasil. Também não depende de animais ou insetos para sua polinização, cresce em solos pobres e tem alta capacidade de regeneração.

Espécies de árvores como o pinus são grandes dispersoras de sementes, podendo lançar até 3 milhões de sementes por hectare, com um índice de germinação de 90%. As sementes possuem duas abas semelhantes a asas e são facilmente carregadas pelos ventos, invadindo áreas de mata nativa que, vítimas do rápido crescimento das árvores invasoras, acabam sendo sufocadas e mortas em poucos anos. Em Santa Catarina, por exemplo, as áreas de restinga estão sendo invadidas sistematicamente por pinus, que cobre a vegetação – sem a luz solar a vegetação não frutifica e, sem frutas, os animais da fauna silvestre se afastam.

A invasão de espécies exóticas ou contaminação biológica é considerada a segunda maior causa de extinção de espécies no mundo. Grande parte das plantas exóticas introduzidas são de espécies ornamentais, que acabam se tornando invasoras e interferem nos processos ecológicos das áreas invadidas, comprometendo os mecanismos de reciclagem de nutrientes, decomposição, processos evolutivos e polinização. Essas interferências levam à extinção sistemática das espécies nativas, ao empobrecimento dos ecossistemas e  também à perda da variabilidade genética.

As culturas de pinus e eucaliptos são importantes fornecedores de matérias prima para a produção de celulose e papel, grandes fontes de receitas para o nosso país – na pauta de exportações de produtos de origem agrícola, a celulose e o papel ocupam o segundo lugar em importância. Porém, é fundamental que hajam cuidados adequados para minimizar os impactos nas florestas e matas nativas, especialmente com a invasão por sementes.

Em muitos países, especialmente do hemisfério norte, grande parte da produção de celulose e papel é feita a partir da derrubada de árvores das florestas nativas de coníferas. Aqui no Brasil temos a vantagem de utilizar árvores de florestas plantadas e renováveis, o que do ponto de vista ambiental é importante; porém é inadmissível que a implantação dessas florestas artificiais leve à invasão de florestas e matas nativas por sementes de espécies exóticas, levando à redução e destruição gradativa destas áreas.

Desde o descobrimento do Brasil, a introdução de espécies de plantas exóticas tem sido uma constante: começamos com a cana-de-açúcar (Sudeste e Sul Asiático), depois vieram o café (Etiópia), o algodão (Egito – as espécies nativas tem pouca produtividade), tabaco (Andes), cacau (México), coco (Índia), laranja (Oriente Médio), banana (Sudeste Asiático), manga (Sudeste Asiático), batata (Andes), arroz (Extremo Oriente) e o feijão (Andes), entre muitas outras – em épocas mais recentes a soja (Extremo Oriente), o pinus (América do Norte) e o eucalipto (Austrália). Essas plantas exóticas ocuparam mais de 90% da área original da Mata Atlântica, 50% do Cerrado e dos Pampas, grandes extensões da Caatinga – o Pantanal e Amazônia vêem suas bordas sendo atacadas sistematicamente.

É preciso muita atenção para não perdermos o pouco que restou de nossas matas nativas para o pinus e o eucalipto.

“EUCALIPTIZAÇÃO” DO NORTE DO ESPÍRITO SANTO

eucaliptos

Pode-se definir a “eucaliptização” como o processo de plantação massiva de eucaliptos em uma região, substituindo todas as demais atividades produtivas. É um neologismo – uma palavra nova que ainda não existe nos dicionários, mas de incrível precisão para definir a expansão desta cultura em algumas regiões aqui no Brasil e em outros países.

Em tese, a introdução de uma plantação de eucaliptos em uma área já desmatada pela agricultura é benéfica para o meio ambiente: a floresta vai funcionar como um caminho de ligação entre os fragmentos florestais remanescentes, permitindo o transito de animais dispersores de sementes – comunidades de animais e de plantas isolados correm maiores riscos de extinção; florestas em crescimento absorvem grandes quantidades de carbono da atmosfera, ajudando a reduzir a poluição atmosférica e a cobertura vegetal ajuda a proteger o solo da erosão. Esses são alguns dos argumentos usados para justificar a expansão de florestas de eucaliptos em diversos Estados brasileiros. Porém, passados certos limites, essas florestas artificiais assumem o caráter de monocultura, trazendo em sua esteira toda uma série de problemas sociais e ambientais muito conhecidos em nossa história.

Um exemplo dos problemas causados pela expansão descontrolada da cultura do eucalipto pode ser facilmente observado no norte do Estado do Espírito Santo, onde a cultura começou em meados da década de 1960. O governo militar que dirigia o país na época criou diversas políticas para o desenvolvimento florestal, fornecendo vultosos subsídios para que grandes grupos empresariais investissem na produção de papel e celulose. Os Estados também passaram a oferecer uma série de isenções fiscais e a implantar obras de infraestrutura como forma de atrair esses investimentos, com destaque para os Estados do Rio Grande do Sul, Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Bahia e Pará.

No norte do Espírito Santo surgiram diversos empreendimentos florestais para a implantação de grandes plantações de eucalipto. Agindo com extrema agressividade, grandes grupos empresariais passaram a adquirir grandes extensões de terras, inclusive pequenas propriedades rurais e áreas ocupadas por descendentes de quilombolas e comunidades indígenas – nesses casos, como as propriedades eram ocupadas sem que houvesse a comprovação da posse através de documentação, “surgiam” os verdadeiros proprietários com a documentação em mãos e em condições de vender as terras: os “invasores” eram expulsos das terras com respaldo da justiça. De acordo com relatório do PRD – Processo de Articulação e Diálogo entre Agências de Cooperação Ecumênicas Européias e Parceiros Brasileiros, as terras indígenas desta lista simplesmente desapareceram do norte do Espírito Santo ocupadas pelas plantações de eucaliptos: Amarelo, Olho d’Água, Guaxindiba, Porto da Lancha, Cantagalo, Araribá, Braço Morto, Areal, Sauê, Gimuhuna, Piranema, Potiri, Sahy Pequeno, Batinga, Santa Joana, Morcego, Garoupas, Rio da Minhoca, Morobá, Rio da Prata, Ambu, Lagoa Suruaca, Cavalhinho, Sauaçu, Concheira, Rio Quartel, São Bento, Laginha, Baiacu, Peixe Verde, Jurumim e Destacamento. Expulsos de suas terras ancestrais, esses indígenas e quilombolas se refugiaram em outras comunidades distantes ou simplesmente migraram para as periferias das grandes cidades, passando por um processo de aculturamento forçado.

Comunidades que resistiram inicialmente ao avanço das florestas artificiais, passaram a sofrer os impactos ambientais dessa cultura, especialmente com a redução da oferta de água nos rios e córregos da região – florestas de eucalipto em crescimento consomem grandes volumes de água: inúmeros riachos secaram e a produção agrícola de subsistência simplesmente ficou inviável. Em algumas comunidades, os moradores chegaram a ficar sem acesso a lenha para cozinhar – moradores da região relatam que foram presos e acusados de roubo por seguranças das plantações ao coletarem restos de madeira (galhos caídos) dentro de “propriedades privadas”.

A antiga biodiversidade da Mata Atlântica que existia na região também sofreu fortemente sob o impacto da monocultura – antigos remanescentes florestais e matas ciliares foram substituídos por plantações de eucaliptos, reduzindo e isolando os habitats de inúmeras espécies animais nativos, muitos em eminente risco de extinção.

Esse é um resumo do resumo dos impactos econômicos, sociais e ambientais produzidos pela monocultura do eucalipto para que você pare e reflita sobre os problemas que cercam a produção do papel.

“VAZAMENTO DE CAULIM INUNDOU IGARAPÉ”

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O título deste post reproduz uma das muitas manchetes publicadas pelo jornal Diário do Pará referentes aos sucessivos vazamentos de caulim no município de Barcarena – do ano 2000 até hoje foram sete “acidentes” ambientais similares. A informação parece não ter nada a ver com a temática dos resíduos sólidos – lido engano. Explico:

O caulim é um minério composto de silicatos hidratados de alumínio, como a caulinita e a haloisita, e possui larga utilização nas indústrias de cerâmica, de tintas e de papel. A produção de papel responde por 45% do consumo mundial de caulim, que é usado para dar maior alvura, maior durabilidade, maior brilho e melhor resultado na impressão de todo o tipo de documentos. Do total de rejeitos da fabricação do papel, os resíduos de caulim respondem por 22% do volume. As maiores reservas e minas para a exploração do caulim no Brasil são encontradas nos Estados do Amapá e do Pará.

A região amazônica, como todos devem lembrar, concentra a maior rede hidrográfica do mundo – 70% das reservas superficiais de água doce do Brasil estão na região. Apesar da aparente farta disponibilidade, a água usada diariamente pelas famílias ribeirinhas não vem dos grandes e famosos rios, que carreiam grandes quantidades de argila e precisam passar por tratamento antes do seu uso para o abastecimento – é a água limpa e clara dos igarapés que abastece essa população. Quando a população pobre da Amazônia não dispõe de um igarapé nas proximidades de suas casas, é preciso recorrer a um poço para o abastecimento de água. Os igarapés são afloramentos das águas subterrâneas dos lençóis freáticos e aquíferos, e são contados aos milhares em toda a Amazônia.

No início deste mês (01/11/2016) houve um novo vazamento de caulim, atingindo os igarapés Dendê, Curuperé e São João, todos em Barcarena. Centenas de famílias da região, que são abastecidas com a águas desses igarapés, estão tendo de buscar fontes alternativas para o abastecimento de suas casas. Uma nota publicada pelo Ministério Público informou:  “Há fortes indícios de contaminação das águas por substâncias poluentes, cujo consumo pelo ser humano pode ocasionar danos irreversíveis a saúde, por isso, há necessidade de confirmação técnica de tais fatos danosos ao meio ambiente”.

Observem que uma simples e inocente folha de papel branco que você vai utilizar no seu dia a dia, já carrega em seu “DNA” toda uma carga de agressões ambientais, seja nas plantações de eucalipto em larga escala, seja no uso desta matéria prima nas fábricas produtoras de celulose e papel ou ainda na produção dos insumos como o caulim que serão usados no beneficiamento do papel. Essa pequena incursão em um acidente ambiental num igarapé nos confins da Amazônia mostra que os problemas da produção do papel são bem mais profundos do que se pode imaginar e começam bem antes do início da produção do papel propriamente dita.

A reciclagem e reutilização dos papéis são atividades fundamentais para a redução do volume de resíduos que seriam destinados aos lixões e aterros sanitários, temas que ainda trataremos nesta série de posts. Porém é fundamental reduzir sempre que possível o uso do papel, especialmente nos dias atuais em que as mensagens podem ser transmitidas exclusivamente através de meio eletrônico com leitura em tela. Lembro do início da era dos computadores pessoais na década de 1980 (quando meu departamento recebeu um “poderosíssimo” computador Apple II Plus para automatizar todo o controle do estoque de peças da empresa) – os gurus da época falavam que os computadores iriam acabar com o uso do papel nas empresas: em realidade aconteceu justamente o contrário e o uso do papel no mundo não parou de crescer, inclusive nos escritórios.

Ao repensar se é realmente necessário usar alguma folha de papel para uma determinada atividade, você estará contribuindo tanto para a redução dos resíduos sólidos na sua cidade quanto para a redução da poluição de caulim em um pequeno igarapé na Amazônia e ajudando uma família a garantir o seu abastecimento diário de água.

Que mundo maluco e complexo é esse nosso…

O VAZAMENTO DA BARRAGEM EM CATAGUASES: LEMBRA?

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Há pouco mais de um ano, uma barragem de rejeitos de mineração rompeu em Mariana, Estado de Minas Gerais – 62 milhões de m³ de rejeitos vazaram, destruindo o distrito de Bento Rodrigues, onde morreram 19 moradores e poluindo a maior parte da extensão do Rio Doce, desde o Estado de Minas Gerais até a sua foz no Espírito Santo. Essa notícia deve estar bem fresca em sua mente.

Agora eu pergunto: algum de vocês se lembra do rompimento de uma barragem de rejeitos da produção de celulose em Cataguases, também no Estado de Minas Gerais, em 2003?

Para quem não lembra (provavelmente todo mundo), a barragem de uma indústria de celulose rompeu e vazaram cerca de 1,4 bilhões de litros de lixívia ou licor negro, um rejeito tóxico do processo de produção da celulose (algumas fontes consultadas falam de um vazamento na ordem de 1 bilhão de litros).  O vazamento atingiu primeiro o córrego do Cágado, atingindo na sequência os rios Pomba e Paraíba do Sul, provocando fortes danos ao meio ambiente e causando muitos prejuízos para as populações ribeirinhas de cidades nos Estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro. A contaminação química da água foi tão grande que as autoridades ambientais proibiram a captação das águas do Rio Paraíba do Sul para abastecimento, deixando 600 mil pessoas sem água nas suas torneiras.

O caso teve repercussão imediata: a imprensa dizia se tratar do maior acidente ambiental já ocorrido no Brasil até aquele momento. As equipes de reportagem mostravam imagens de famílias com as torneiras secas nas casas, pescadores de braços cruzados observando os peixes mortos nas águas dos rios e, especialmente, autoridades ambientais dos diversos níveis batendo cabeça, sem saber exatamente o que fazer. Uma das poucas providências que foram tomadas foi a aplicação de uma multa pelo IBAMA – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, no valor de R$ 50 milhões contra a empresa responsável pela operação da barragem de rejeitos. O processo jurídico foi tão confuso que, passados treze anos, ainda não houve uma conclusão definitiva e a empresa responsável pelo acidente luta na justiça para reaver o valor da multa.

Enquanto as autoridades discutiam o que fazer e as populações afetadas pelo vazamento continuavam atônitas, a natureza silenciosamente fez a sua parte: diferente do acidente no Rio Doce, a correnteza do rio Paraíba do Sul diluiu gradativamente o licor negro, empurrando vagarosamente as águas poluídas e as carcaças dos peixes mortos para longe; com a melhoria da qualidade das águas, as sucessivas cidades foram restabelecendo os sistemas de captação, tratamento e distribuição de água potável.  

A empresa conteve o vazamento e recuperou a barragem em três dias; a unidade de produção foi fechada e os rejeitos industriais que restaram nos reservatórios foram tratados e gradativamente lançados nas águas dos rios, sem chamar muita atenção – o solo do fundo dos reservatórios recebeu um tratamento com gesso, argila e adubos, recebendo a seguir o plantio de vegetação. A memória curta de nosso povo fez a sua parte e o acidente foi sendo esquecido: os mais jovens da cidade de Cataguases mal sabem descrever o que aconteceu naquele dia do ano de 2003.

O Brasil é líder mundial na produção de celulose de fibra curta de eucalipto, produzindo atualmente 15 milhões de toneladas – as projeções indicam que o país se tornará o segundo maior produtor mundial de celulose no ano de 2020, com cerca de 20 milhões de toneladas. A exportação de celulose, papel e chapas de fibra de madeira responde por 4% da pauta de exportações brasileiras, gerando milhares de empregos e quase US$ 8 bilhões em receitas para o país (2015). Apesar desses números vistosos, existem dezenas de barragens de rejeitos químicos semelhantes àquela da cidade de Cataguases, que merecem atenção e monitoramento constante da sociedade.

Gerar receitas e empregos para o país é fundamental; os diversos tipos de papéis e produtos da indústria madeireira produzidos são importantes no nosso dia a dia, porém não é possível admitir que essa produção continue a colocar a qualidade das águas dos nossos rios em risco.

 

veja também:

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O VAZAMENTO DE REJEITOS DE MINERAÇÃO EM BARCARENA, OU A CASA DA MÃE JOANA

AS FLORESTAS SILENCIOSAS, OU CADA QUAL COM SEU PAPEL

eucalipto

Deixemos um pouco de lado a questão dos resíduos plásticos para falar de outros importantes problemas – papel e celulose.

Iniciei minha vida acadêmica na área de meio ambiente cursando uma pós graduação  em educação ambiental há quase quinze anos atrás. Na conclusão do curso apresentei uma dissertação falando do avanço da ocupação descontrolada das margens das represas do Sistema Cantareira e dos riscos que trariam no futuro ao abastecimento de água da Região Metropolitana de São Paulo – para tristeza geral, a maior parte das previsões que fiz no meu texto se confirmaram em um prazo menor que as estimativas.

Durante os trabalhos em campo na região, percebi a invasão das plantações de eucaliptos, árvores usadas na produção da celulose, “ingrediente”principal para fabricação do papel. Imaginei que essas atividades poderiam afetar a qualidade e a quantidade da água dos reservatórios – meu professor orientador do trabalho de conclusão do curso afirmou que as plantações poderiam ser benéficas se devidamente manejadas, funcionando como um caminho de ligação entre os diversos fragmentos da cobertura florestal original que restaram nos topos das serras.

Vamos entender todas as relações entre as árvores de eucalipto, celulose, papel e meio ambiente:

Os papiros egípcios surgidos por volta do ano 3.000 A.C. são, com certeza, os mais famosos documentos da antiguidade escritos em um material parecido com o papel. O papiro é uma planta aquática muito abundante até hoje no Rio Nilo – as plantas eram colhidas e tinham os caules reduzidos a fibras que, depois de prensadas e secas, se transformavam em lâminas que permitiam que os escribas registrassem em tintas a vida e os costumes das inúmeras dinastias de faraós. Muitos destes documentos resistiram ao tempo e chegaram quase intactos aos nossos dias.

O papel com as características que conhecemos hoje foi inventado na China por volta do ano 105 de nossa era. Consta que T’sai Lun preparou uma mistura de cascas de amoreira, cânhamo e outras fibras vegetais, incluindo também restos de roupas. A massa foi batida e peneirada até formar uma camada bem fina, que foi colocada para secar ao sol. Esse processo original foi aperfeiçoado continuamente ao longo dos séculos, incorporando diferentes tipos de fibras vegetais. Em 1840 foi iniciado o uso da celulose na fabricação do papel, extraída da madeira de árvores, especialmente da família das coníferas, abundantes nas florestas do hemisfério Norte.

A celulose é um polímero natural das plantas, sendo o componente principal da parede celular vegetal e responsável pela manutenção da estrutura (espécie de esqueleto) que sustenta uma planta em pé. A celulose utilizada na produção do papel e papelão utilizados em nosso dia a dia é extraída da madeira de árvores da espécie eucalipto, de origem australiana, plantadas em imensas florestas artificiais conhecidas como “florestas silenciosas” – esse nome se deve ao fato dos animais e aves silvestres evitarem essas áreas pois as espécies de árvores cultivadas não são nativas da flora brasileira e, portanto, não produzem os alimentos das suas dietas naturais. Porém, como ensinou meu professor, essas florestas criam importantes corredores ecológicos de ligação entre fragmentos florestais, permitindo o contato entre populações isoladas de animais – esses animais são importantes dispersores de sementes de plantas: grupos isolados de plantas e de animais correm maiores riscos de extinção na natureza.

De acordo com dados do WWF-Brasil, uma organização não governamental brasileira participante de uma rede internacional comprometida com a conservação da natureza, a produção de uma tonelada de papel novo consome de 50 a 60 eucaliptos, 100 mil litros de água e 5 mil kW/h de energia, além de gerar resíduos, muitos resíduos. Contabilizando, entre outros resíduos, temos cascas das árvores (24%), a lama do cal (22%), lodos do tratamento dos efluentes (17%), fragmentos (14%) e as cinzas (11%), são 800 quilogramas de resíduos em média para cada tonelada de celulose produzida. É aqui que começam os problemas ambientais da produção do papel e do papelão, muito maiores inclusive que os problemas que serão gerados com os diversos tipos de papéis que usamos e descartamos diariamente em nossas casas, empresas, lojas, escolas e fábricas.

Continuaremos nesse assunto nos próximos posts.

A PROBLEMÁTICA RECICLAGEM DO PLÁSTICO

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Um desafio rápido de reciclagem: coloque uma pilha de latinhas de alumínio em algum local público onde circule muita gente – uma rua, avenida ou uma praça. Meça o tempo que vai levar até que algum transeunte pare e pegue as latinhas. Refaça o experimento colocando uma pilha de resíduos plásticos na mesma situação e veja se alguém irá parar e recolher as peças …

E por que isso acontece?

Qualquer peça de alumínio pode ser facilmente convertida em dinheiro em um ponto de reciclagem ou em um ferro velho: aqui próximo da minha casa existe um destes estabelecimentos que está pagando R$ 3,00 pelo quilograma de latinhas de alumínio e até R$ 3,50 por peças maiores como panelas, tubos e chapas do metal. Esse mesmo ferro velho está pagando R$ 1,00 pelo quilograma de garrafas PET vazias – eles não compram resíduos de outros tipos de plásticos.

Para conseguir juntar 1 quilograma de latinhas de alumínio, um catador de materiais recicláveis precisará juntar 67 latinhas, o que não é exatamente um dos trabalhos de Hércules: qualquer boteco da cidade num horário de grande movimento gera isso rapidamente; em se tratando de garrafas PET são necessárias 16 unidades de 2,5 litros ou 20 de 2 litros ou 26 de 1,5 litro ou ainda 36 garrafas de 600 ml – é mais difícil encontrar esse volume de garrafas PET vazias em um único lugar. O catador de recicláveis vai ter de caminhar bastante com sua carrocinha (as PETs são muito volumosas): no final vai conseguir um retorno de R$ 1,00 para cada quilograma recuperado. Não é preciso ser especialista em reciclagem ou em ciências ambientais para entender o sucesso da reciclagem do alumínio (98% das latinhas de alumínio produzidas no Brasil são recicladas).

Outro grande obstáculo são os diferentes tipos de plásticos que existem no mercado – cada um deles utiliza um tipo diferente de polímero e têm uma aplicação diferente. As embalagens e produtos possuem um número de identificação/sigla impressa ou em alto relevo, que especifica o tipo de resina plástica. Confira:

  • 1 – PET (Politereftalato de Etileno) – garrafas de água, refrigerante, embalagem de óleo comestível, etc. – Reciclável na produção de fibras de carpete, linhas de costura e fios sintéticos para tecelagens, fibras para vassouras, embalagens de produtos de limpeza e outros tipos de acessórios plásticos;
  • 2 – PEAD (Polietileno de Alta Densidade) – Embalagens de produtos de higiene e de limpeza, potes e utensílios de cozinha, etc. – Reciclável na produção de embalagens de produtos de limpeza e embalagem de óleo para motor;
  • 3 – PVC (Policloreto de Vinila) – tubulações de água e esgoto, embalagens de detergente, etc. – Reciclável na produção de mangueiras para jardim, cones de sinalização, tubos de esgoto, conduites para eletricidade;
  • 4 – PEBD (Polietileno de Baixa Densidade) – Sacolas plásticas de supermercado, filmes plásticos etc. – Reciclável na produção de envelopes, sacos plásticos, sacos de lixo e tubulações para irrigação;
  • 5 – PP (Polipropileno) – Caixas de CDs, potes de margarina, copos descartáveis, embalagens de biscoito, etc. – Reciclável na produção de caixas e cabos de bateria para automóveis e caminhões, vassouras, escovas, caixas multi uso e bandejas;
  • 6 – PS (Poliestireno) – Embalagens de iogurte, copos e pratos descartáveis, caixas de ovos etc. – Reciclável na produção de placas para isolamento térmico e acessórios para escritório;
  • 7 – Outros – Plásticos diversos – Reciclável na produção de “madeira” plástica e queima para recuperação energética.

São materiais diferentes, que exigem a leitura das embalagens, a separação cuidadosa, o transporte e a comercialização com diferentes fabricantes. Vocês acham que um coletor de recicláveis vai fazer tudo isso ou vai jogar o resíduo num terreno baldio ou num córrego?

Com as latinhas de alumínio não há nenhuma formalidade: basta juntar, talvez amassar para ocupar menos espaço numa sacola e levar até um posto de compra: simples assim!

É preciso muito empenho dos governantes de todos os níveis de Governo para organizar sistemas públicos de coleta seletiva, formação de cooperativas de catadores e processadores de recicláveis, além de usar políticas fiscais para estimular as empresas a utilizarem esses resíduos plásticos como matérias primas dos seus produtos.

Sem esse esforço, nós todos vamos continuar vendo o nosso mundo desaparecer sob montanhas de lixo e mares cobertos de resíduos plásticos.

 

O PLÁSTICO BIODEGRADÁVEL DE ORIGEM VEGETAL

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Nos últimos dois meses tive a oportunidade de acompanhar os efeitos de duas fortes ressacas no litoral sul do Estado de São Paulo – para um camarão de água doce acostumado a ver apenas as “ressacas” dos cachaceiros do bairro nas margens da Represa Guarapiranga, foi assustador ver o mar em fúria. Fiquei assustado também com a quantidade de lixo e resíduos que as fortes ondas lançaram sobre a avenida e os calçadões da praia, especialmente a imensidão de tampas plásticas multi coloridas de garrafas PET de refrigerantes e de água, que tomaram a orla tal qual os confetes no carnaval. Como venho apontando em minhas últimas publicações, é muito preocupante o grande volume de resíduos plásticos descartados sem maiores cuidados no meio ambiente e que estão sufocando os corpos d’água doce e chegando aos borbotões nos oceanos de todo o mundo.

Pesquisas com plásticos biodegradáveis vem sendo desenvolvidas ao longo dos últimos anos e poderão, em algum momento no futuro, resolver ou ao menos amenizar esse problema. Infelizmente, esses produtos ainda não conseguiram engrenar nos mercados por alguns problemas de ordem técnica e de custos. As resinas e polímeros convencionais utilizados na confecção dos mais diferentes tipos de produtos plásticos são sub produtos do refino do petróleo – enquanto o mundo utilizar gasolina, óleo diesel e querosene de aviação, as refinarias de petróleo obrigatoriamente abastecerão os complexos petroquímicos com esses sub produtos, que por serem baratos (mais baratos, inclusive, que os plásticos reciclados) serão transformados em plásticos de todo tipo, inundando o mundo com mais resíduos e peças descartáveis.

O amido é um polímero natural que é encontrado nos grãos de diversos cereais como o milho, aveia, arroz, trigo, cevada e centeio, e também pode ser encontrado em raízes como a batata e a mandioca. Com esse polímero natural é possível a produção de um plástico biodegradável que, diferente dos polímeros inorgânicos de origem petroquímica, ao ser descartado no meio ambiente têm suas moléculas (ou grande parte delas) consumidas por toda uma série de micro-organismos, deixando um volume de resíduos muito pequeno no ambiente. Eu tinha uma sacolinha de um supermercado da Alemanha feito com plástico biodegradável de milho guardada junto com alguns materiais impressos – há pouco eu tentei achar essa sacolinha para comparar alguns dados técnicos impressos com fontes de consulta usadas nesse texto, mas encontrei apenas fragmentos bem pequenos e um pó branco: a sacolinha, literalmente, foi desintegrada.

Aqui no Brasil estão sendo dispensados grandes esforços tecnológicos para viabilizar comercialmente um polietileno verde derivado do etanol da nossa cana-de-açúcar. Esse plástico tem as mesmas características técnicas do polietileno comum (plástico muito utilizado na fabricação de potes e utensílios de cozinha), com as vantagens de ser produzido a partir de uma planta cultivada em larga escala em todo o país e de ser biodegradável (os cientistas alertam que não existe ainda nenhum polímero criado a partir de fontes vegetais que seja 100% biodegradável – sempre haverá algum resíduo).

O polietileno verde é produzido a partir de processos químicos que sintetizam uma resina do etanol. O produto poderá ser utilizado na fabricação de embalagens, peças plásticas para veículos, filmes para a fabricação de fraldas descartáveis entre outros produtos. O Brasil é atualmente um dos maiores produtores mundiais de cana-de-açúcar, com uma produção anual de 740 mil toneladas métricas do produto, usada principalmente na produção do açúcar e do etanol utilizado como combustível veicular; representantes do setor afirmam que existem todas as condições para a ampliação da produção da cana-de-açúcar, de forma atender qualquer nova demanda, especialmente de um setor tão importante como o de plásticos biodegradáveis.

Boas intenções, é claro, existem muitas – enquanto os plásticos biodegradáveis não atingirem níveis de preços de mercado altamente competitivos em relação àqueles praticados pela indústria petroquímica e padrões técnicos equivalentes aos diversos tipos de plásticos atualmente em uso, será difícil romper o monopólio secular das grandes empresas petrolíferas.

Enquanto isso não acontecer, todos teremos de viver sufocados por milhões de toneladas de resíduos plásticos descartados em todos os lugares a nossa volta. Oxalá sobrevivamos!