FALANDO DE ESGOTO SANITÁRIO, OU MEU TRABALHO É UMA GRANDE “MERDA”!

esgotos

Esgoto sanitário é um tema que nem de longe pode ser definido como um dos mais populares em nossa sociedade. Trabalhei por vários anos nas áreas de relações comunitárias e de divulgação de obras para a implantação de redes coletoras de esgotos em cidades da região metropolitana de São Paulo e em diversas cidades litorâneas da chamada Baixada Santista; também integrei a equipe de profissionais que iniciou as obras de implantação da rede de esgotos da cidade de Porto Velho na região amazônica. Muito mais que o trocadilho da chamada (que não deixa de ser uma verdade), conheço muito bem a matéria e sei o quanto é difícil desenvolver esse tipo de trabalho. Em Porto Velho, só para citar um exemplo, trabalhamos um ano e meio para conseguir implantar apenas 32 km de rede coletora de esgotos de um projeto com previsão de mais de 700 km de rede – uma homérica guerra entre diferentes grupos políticos da cidade não permitiu que as obras prosseguissem, apesar da farta alocação de recursos financeiros disponibilizados pelo governo federal na época, além de um fabuloso arsenal de máquinas e equipamentos e de uma equipe técnica altamente capacitada.

Governos de todos os níveis ou fingem que o problema não é seu ou se esforçam ao máximo para fazer o mínimo possível – esgoto é obra invisível e não costuma render votos nas eleições. Diferentes das grandes obras visíveis como pontes, viadutos, escolas e hospitais, as dispendiosas redes de esgotos não permitem grandes cerimônias de inauguração, com prefeitos ou governadores cortando uma vistosa fita de seda; também é um tanto difícil imaginar uma dessas autoridades colocando o nome do seu digníssimo pai ou mãe numa estação de tratamento de esgotos – batizar uma escola ou hospital com o nome de um familiar é muito mais digno. Obras de abastecimento de água, muito mais baratas, rápidas para se executar e geradoras de expressivas votações eleitorais tem a preferência e simpatia da maioria dos políticos. Porém, não custa lembrar, que para cada um litro de água potável que entra em uma residência será gerada a saída de um litro de esgoto – simples assim. Na falta de uma rede coletora adequada os improvisos para a destinação dos esgotos serão multiplicados, afetando diretamente a saúde de grandes contingentes populacionais e causando prejuízos imensos ao meio ambiente.

Qualquer que seja o improviso ou “mágica” que se faça, será muito difícil esconder os despejos de esgotos numa cidade: cada um dos habitantes produz diariamente a sua cota, em média entre 150 e 200 litros de esgoto por dia (no Rio de Janeiro, por exemplo, esse valor supera os 300 litros por dia). Esse número pode, a princípio, parecer exagerado mas considera o consumo total diário de água de uma pessoa como aquela usada nas descargas para transportar os dejetos do vaso sanitário, a água dos banhos, da lavagem das roupas e das louças, escovação de dentes entre outros usos. Numa cidade com 500 mil habitantes encontraremos fácil uma produção diária de, pelo menos, 75 milhões de litros de esgotos por dia. Esses esgotos correrão pelas sarjetas do meio fio das ruas, poluirão córregos e rios, comprometendo inclusive os rios e reservatórios de captação de água para o abastecimento ao longo da bacia hidrográfica, entre outras tragédias ambientais. Como se isso não bastasse, certamente encontraremos outros problemas no saneamento básico desta cidade: ineficiências na coleta do lixo e sua disposição inadequada em lixões, sistemas de águas pluviais problemáticos ou inexistentes, além da proliferação de vetores de doenças (mosquitos, baratas e ratos entre outros), resultando num ambiente insalubre e de péssima qualidade para a vida dos habitantes. Os recentes surtos de dengue, de febre chikungunya e de zika virus (esse último suspeito de estar associado ao surto de microcefalia em bebês), que tanto acompanhamos nos noticiários recentes, são os reflexos mais notórios da nossa falta de cuidado com o saneamento básico.

Em uma sociedade onde o consumismo vem crescendo nos últimos anos, é comum assistirmos comerciais de TV açucarados, onde a temática “qualidade de vida” está diretamente associada ao consumo do produto anunciado. Francamente, é difícil conciliar esse mundo da fantasia com a realidade que nos cerca. Por mais deliciosa que seja a margarina, a alta tecnologia do smart phone ou o conforto do carrão sofisticado, os felizes consumidores destes fantásticos produtos estarão cercados por um meio ambiente mais próximo da tragédia do que do mundo da fantasia.

Os governantes mais sérios, que infelizmente ainda são poucos, estão descobrindo que os investimentos em saneamento básico representarão no médio e no longo prazo uma ferramenta valiosa para a economia de recursos na área de saúde – em cidades com boa infraestrutura de saneamento básico, a incidência de doenças, notadamente as de veiculação hídrica, diminui substancialmente. Estudos internacionais indicam que para cada dólar investido em saneamento básico, gera-se uma economia de até cinco dólares em despesas de saúde pública. Em tempos de crise financeira como estes que estamos vivendo, investimentos públicos (e porquê não privados) maciços em infraestrutura de saneamento básico são uma excelente alternativa para a geração de empregos e economia de recursos dos orçamentos nas áreas da saúde pública.

Infelizmente, o caminho que deve ser percorrido entre as boas idéias e os resultados práticos do saneamento básico é longo, caro e, em alguns casos, até traumático para a população. A execução de qualquer obra pública em regiões urbanas é problemática e apresenta uma série de dificuldades técnicas que vão desde dificuldades logísticas para o transporte e armazenamento de materiais até os problemas de relacionamento com as comunidades do entorno das obras, onde fatalmente surgirão complicações no trânsito local, barulho e poeira entre outros transtornos. Nos casos das obras de redes de esgoto, onde há necessidade de longos períodos de bloqueio em trechos de ruas e avenidas, além da escavação de valas na frente de acessos a residências, escolas e comércios, os problemas e as reclamações se multiplicam. Obras similares nas redes de abastecimento de água, redes de águas pluviais, redes de gás, implantação de dutos subterrâneos para telefonia, TV a cabo e eletricidade que estão sendo realizadas simultaneamente pelos quatro cantos das cidades, aumentarão ainda mais a confusão. É fundamental que todos os envolvidos nos trabalhos tenham uma visão ampla do tema e um entendimento claro da importância das obras como forma de atender as demandas das populações afetadas e solucionar os problemas que surgirão.

Em pleno século XXI, com o Brasil ocupando uma posição de destaque entre as maiores economias do planeta, milhares de cidades em todas as regiões do país mal começaram a implantar redes coletoras de esgoto – estações de tratamento de esgoto então, nem pensar… Vivemos o paradoxo de ser um dos países líderes em números de usuários da internet e da telefonia móvel e, por outro lado, pertencer ao grupo de países com as mais precárias infraestruturas de saneamento básico do mundo – a era da informação e a pré história disputando seu espaço em nossa sociedade.

Existe muito o que se fazer para mudar a cultura das “obras invisíveis” e transformar o saneamento básico numa realidade para todos. É um tema bastante extenso e muito interessante, que será trabalhado em diversos outros posts.

Enquanto isso uma dica: você já deve ter percebido que saneamento básico é essencialmente uma questão de decisão política – a alocação de recursos financeiros e a contratação de empresas com expertise na área nunca será a garantia da efetiva realização e operação dos sistemas. Escolher bons representantes políticos, verdadeiramente comprometidos com essa causa, é o que será um bom começo para uma revolução no saneamento básico na sua cidade ou região.

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