A DESTRUIÇÃO DAS FLORESTAS TROPICAIS NA INDONÉSIA E NA MALÁSIA

Destruição de florestas na Indonésia

A Floresta Amazônica costuma ocupar, frequentemente, as manchetes dos noticiários de todo o mundo quando o assunto em pauta é a destruição das florestas tropicais. Em 2019, celebridades e políticos oportunistas de todo o mundo chegaram a afirmar que a Amazônia estava sendo “transformada em cinzas” pelas queimadas. O Presidente da França, Emmanuel Macron, chegou inclusive a ameaçar o Brasil com um eventual uso de forças militares para conter o avanço dos desmatamentos na “Nossa Amazônia“. 

Essa verdadeira obsessão das nações desenvolvidas pela preservação da Floresta Amazônica, entretanto, costuma desprezar agressões muito mais graves a outros importantes sistemas florestais pelo mundo afora. A Floresta Boreal, também conhecida como Taiga, é um grande exemplo – ela vem sofrendo intensos desmatamentos, principalmente na Rússia, e ninguém ameaça Vladimir Putin

A Floresta Tropical da Indonésia é a terceira maior do tipo no mundo e, em termos percentuais, é o sistema florestal que mais vem sofrendo com os desmatamentos nos últimos anos. Essa floresta ocupava originalmente 60% da superfície total da Indonésia ou uma área equivalente a 1,14 milhões de km².

De acordo com estudos da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, e do World Resource Institute, os intensos desmatamentos já consumiram perto de 20% das florestas indonésias nas últimas décadas. A vizinha Malásia tem um território 6 vezes menor do que a Indonésia, porém abriga 20% de todas as espécies animais do mundo, o que é uma biodiversidade surpreendente.

Um dos grandes vilões dos desmatamentos na Indonésia, e também na vizinha Malásia, atende pelo nome de azeite de dendê, um produto muito conhecido aqui no Brasil, principalmente pela culinária da Região Nordeste. Um dos principais usos do dendê nas últimas décadas foi como biocombustível, adicionado ao óleo diesel. Os produtores do Sudeste Asiático conseguiram vender para o mundo a ideia que o dendê é um biocombustível renovável, que poderia auxiliar na redução da poluição do ar nas grandes cidades. Muitos países passaram a importar o dendê e adicioná-lo ao diesel numa proporção de 10%

A palma-da-Guiné ou dendezeiro é originária da costa Oeste do continente africano, no trecho entre o Senegal e Angola. De acordo com estudos históricos, o óleo da palma vem sendo utilizado pelas populações há mais de 5 mil anos. No Brasil, a espécie foi introduzida no Período Colonial, quando era intenso o trânsito de navios negreiros e mercantes entre a África e o Brasil. Uma extensa região no Estado da Bahia passou a ser dedicada ao cultivo da palma-da-Guiné. Na década de 1960, foram introduzidas as primeiras mudas da espécie no Pará, Estado que responde atualmente por 70% da produção brasileira.  

O azeite de dendê faz parte da culinária regional de diversos Estados brasileiros, sendo a culinária da Bahia uma das mais representativas – o dendê entra em inúmeras receitas como o acarajé e as moquecas. O azeite de dendê também está presente em uma série de alimentos industrializados onde se incluem margarinas, sorvetes, biscoitos, barras de cereais, chocolates, pães, bolos, doces, entre outros. Produtos químicos derivados do azeite de dendê são encontrados em detergentes, sabonetes, velas, cremes faciais e batons, entre muitos outros.  

A produção e o uso do azeite de dendê sofreram um enorme incremento a partir de 2005, quando entrou em vigor o Protocolo de Kyoto, um conjunto de metas negociadas e assinadas pelos países em 1997 para a redução das emissões dos gases de efeito estufa. Um dos principais compromissos assumidos pelos países signatários foi a redução das emissões de gases poluidores em, pelo menos, 5,2% em relação aos níveis emitidos em 1990. Entre as ações propostas destacam-se a reforma dos setores de energia e transportes, proteção das áreas florestais e a promoção do uso de fontes energéticas renováveis, o que criou um grande mercado para o óleo de palma.  

O óleo de palma responde por cerca de 35% da produção mundial de óleos de origem vegetal. Uma das principais razões dessa forte participação do óleo de palma no mercado é a sua alta produtividade, que se situa entre 3 a 5 toneladas por hectare. Essa produtividade é 10 vezes maior que a obtida com a soja, 4 vezes maior do que a do amendoim e 2 vezes maior que o coco. Os baixos preços das terras agrícolas na Malásia e na Indonésia, os baixos custos para a produção do óleo, a farta disponibilidade de mão de obra e as fracas políticas de conservação das áreas florestais nesses países foram determinantes para o rápido crescimento da cultura da palma-da-Guiné nessa região .

Malásia e Indonésia, que já eram tradicionais países produtores e exportadores do óleo de palma, rapidamente viram as suas áreas de produção serem ampliadas e atualmente respondem por 90% da produção mundial. As primeiras mudas de palma-da-Guiné chegaram na Ilha de Sumatra, na Indonésia, em 1911; em 1917, foi a vez da introdução da espécie na Malásia. Em 1995, a produção mundial de óleo de palma foi de 15,2 milhões de toneladas – em 2020, essa produção deverá chegar a 60 milhões de toneladas. Cerca de metade dos desmatamentos nesses dois países tem como objetivo a ampliação das áreas de produção do dendê.  

Queimadas na Indonésia

A intensa devastação ambiental que foi criada pela expansão descontrolada das lavouras de palma-da-Guiné na Malásia e na Indonésia levou a Comunidade Europeia a criar mecanismos que impeçam ou reduzam a importação de óleo de palma desses países. Em abril de 2019, uma Comissão aprovou medidas para controlar e certificar os tipos de óleo de palma que podem ser utilizados como biocombustível no continente europeu, complementando uma legislação aprovada em 2018.  

Os países da União Europeia estão impondo restrições ao uso do óleo de palma por que sua produção, comprovadamente, causa desmatamentos e agrava o aquecimento global, uma realidade completamente oposta aos objetivos estabelecidos pelo Protocolo de Kyoto. Outra questão seríssima é a ameaça que esses desmatamentos representam para uma infinidade de animais nativos dessas florestas como o tigre-de-Sumatra, o orangotango (vide foto no alto) e o rinoceronte-de-Sumatra, entre muitas outras. 

Desde o início de 2018, os preços do óleo de palma já caíram cerca de 15% e as expectativas a longo prazo não são nada otimistas. Os produtores da Malásia e da Indonésia temem que os países da Europa estejam planejando proibir todas as importações de óleo de palma de seus países a partir de 2021. Esses produtores estão protestando fortemente e exigindo que seus Governos adotem medidas retaliatórias contra os países da Europa. Essa é uma história que ainda vai dar “muito pano para a manga”.

Uma outra fonte de problemas para as florestas locais são as indústrias de papel e celulose, que também se aproveitam da legislação ambiental fraca e de políticos corruptos para derrubar florestas centenárias, plantando em seu lugar monoculturas de pinus e eucalipto. Aqui é importante lembrar que a Indonésia possui a segunda maior biodiversidade do mundo, só ficando atrás do Brasil em número de espécies, e a pequena Malásia não fica longe disso. 

Substituir uma floresta riquíssima por plantações comerciais de pinus e eucalipto é um crime ambiental inominável. 

OS GRAVES PROBLEMAS AMBIENTAIS E SOCIAIS DE JACARTA, A CAPITAL DA INDONÉSIA

Favela em Jacarta

Na última postagem falamos de um problema surreal que está tirando o sono de boa parte da população de Jacarta: bairros da Zona Norte da Cidade estão afundando, uma catástrofe que está afetando cerca de 2 milhões de pessoas. Jacarta é a capital da Indonésia e tem uma população de 10 milhões de habitantes. Sua Região Metropolitana abriga 30 milhões de habitantes. 

Além do afundamento e a invasão dos terrenos pela água do mar (alguns locais já afundaram cerca de 4 metros em relação ao nível do mar), a cidade também enfrenta outros problemas típicos das grandes metrópoles mundiais: poluição do ar, coleta e destinação de resíduos sólidos, abastecimento de água e coleta de esgotos, engarrafamentos, enchentes e todo o resto do “pacote”. 

Conforme comentamos na postagem anterior, a retirada de água do lençol freático para o abastecimento da população é uma das principais razões para o afundamento dos terrenos. Isso acontece porque falta infraestrutura de saneamento básico em toda a Região Metropolitana. Como é comum em países em desenvolvimento, existe uma forte migração de populações das áreas rurais para as áreas urbanas, onde os terrenos mais inadequados para a construção civil são invadidos, surgindo enormes favelas nesses locais.  

Jacarta sofreu um crescimento explosivo nas últimas décadas e não houve tempo para a expansão adequadas das redes de água e de esgotos. Cerca de 2/3 da população da Região Metropolitana depende da água de poços para seu abastecimento. Esgotos são dispersados em córregos, rios ou em fossas, o que coloca em risco as águas do lençol freático, num processo conhecido como contaminação cruzada: o esgoto gerado por uma família contamina a água que será usada no abastecimento da própria família. 

A cidade foi construída em uma região pantanosa, com os terrenos conquistados a partir do aterramento de pântanos e mangues. A cidade é atravessada por um total de 13 rios, que recebem grandes volumes de esgotos e resíduos sólidos. Como Jacarta é uma cidade costeira, o ciclo das marés dificulta a dispersão completa dos esgotos nas águas do mar, o que só aumenta o tamanho do problema. 

Uma outra questão ambiental séria da cidade e de toda a sua Região Metropolitana é a poluição do ar. De acordo com medições feitas por especialistas dos Estados Unidos, o índice médio da poluição por material particulado fino, conhecido como PM2.5, em julho de 2017 foi de 74 partículas por metro cúbito de ar. Em julho de 2019, a mesma medição encontrou 148 partículas por metro quadrado de ar. De acordo com as recomendações da OMS – Organização Mundial de Saúde, esse índice deve ser no máximo de 25 partículas por metro cúbico de ar

De acordo com informações do grupo ambientalista Greenpeace à rede de televisão norte-americana CNN, no dia 14 de julho de 2019, a cidade de Jacarta teve um grande pico de poluição, apresentando os maiores índices da Ásia, superando inclusive cidades fortemente poluídas da Índia e da China. A situação foi tão caótica que um grupo de 31 cidadãos da cidade se uniu num processo judicial contra o Governo da Indonésia por causa dos altos níveis de poluição. Na petição foram citados como réus o Presidente do país, Joko Widodo, e os Ministros da Saúde, da Administração Interna, do Meio Ambiente, além do Prefeito de Jacarta. 

As fontes de poluição do ar em Jacarta são várias. Comecemos falando da gigantesca frota de veículos automotores, principalmente carros e motos, que circula pelas ruas da cidade. A deficiência na infraestrutura dos transportes em massa na capital indonésia e em toda a sua Região Metropolitana, a exemplo do que acontece nas grandes cidades brasileiras, estimula o transporte individual, o que resulta em uma enorme emissão de gases tóxicos e em índices de congestionamento gigantescos. 

Outra fonte importante de poluição são as usinas de geração de energia elétrica, onde há uma grande participação de centrais termelétricas a carvão, a gás e a óleo diesel. A Indonésia possui mais de 17 mil ilhas, uma característica que força o uso de sistemas de geração de energia elétrica decentralizados. O país é um grande produtor de carvão mineral – o 5° maior produtor mundial, o que torna os custos de geração nas poluentes centrais termelétricas a carvão muito baixos. 

A população da Indonésia usa intensivamente a lenha como fonte de energia nas residências para cozinhar – aliás, mais da metade da população do país não tem acesso a redes de energia elétrica ou tem condições financeiras para comprar gás engarrafado. Essas emissões se juntam às frequentes queimadas de matas por todo o arquipélago, uma poluição que atinge a capital do país em algumas épocas do ano. Existe um verdadeiro cerco de poluição do ar em Jacarta. 

Jacarta está localiza a poucos graus ao Sul da Linha do Equador, o que lhe assegura um clima equatorial quente e úmido. Todas a as ilhas do arquipélago da Indonésia são atingidas pelas Chuvas da Monção, um conjunto de forte ventos anuais gerados pelo Oceânico Índico, que formam uma intensa temporada de chuvas em todo Sul e Sudeste da Ásia. As Monções na Indonésia não têm a mesma intensidade torrencial vista no Subcontinente Indiano e Sudeste Asiático. A temporada de chuvas se estende entre os meses de outubro e março, causando inúmeros transtornos devido à falta de infraestrutura para o escoamento das águas pluviais

Perto de metade da população da Indonésia sobrevive com uma renda inferior a US$ 2.00 por dia, situação de pobreza que se escancara nos gravíssimos problemas de habitação no país. Uma parte considerável da população de Jacarta mora em “habitações subnormais”, conforme a definição politicamente correta usada para indicar favelas e cortiços, em áreas próximas de rios e sem qualquer infraestrutura urbana (vide foto), sujeitas a fortes alagamentos na temporada das chuvas. 

De acordo com informações da Save the Children, uma organização não governamental internacional que atua no país, cerca de 40% das crianças menores de cinco anos que vivem nesses aglomerados sofrem de desnutrição e tem atraso no crescimento e desenvolvimento, além de sofrerem com doenças associadas aos problemas de saneamento básico como a diarreia. Os adultos também carecem de uma boa alimentação, com muitos trabalhadores sobrevivendo apenas com a ingestão de uma banana frita pela manhã e de um prato rápido de macarrão no almoço

Além dos conhecidos problemas de uma vida em moradias precárias e com falta de serviços de saneamento básico dos mais elementares, essas favelas e cortiços são grandes bolsões de violência urbana, onde é preciso destacar o crescimento do tráfego de drogas no país, especialmente em Jacarta. Além da criminalidade “convencional”, a Indonésia é um campo fértil para o surgimento de grupos extremistas islâmicos, grupos estes que se valem da extrema violência (terrorismo) para impor suas leituras radicais do Alcorão, o livro sagrado dos ismaelitas. Essa característica coloca a violência social da Indonésia em um patamar diferente do que vemos nas grandes cidades aqui do Brasil. 

Nesse quadro resumido que apresentamos, percebemos que Jacarta possui muitos problemas idênticos aos vividos pelas grandes metrópoles brasileiras, além de outros males bem específicos da Indonésia. Porém, talvez a exceção de Maceió, nenhuma grande cidade brasileira está afundando em igual proporção e sujeita a inundação pelas águas do oceano. Hajam problemas.

JACARTA: A METRÓPOLE QUE ESTÁ AFUNDANDO

Jacarta

Vamos propor a seguinte situação hipotética – reportagens de redes de televisão e de portais de notícias informando que a Zona Norte da cidade de São Paulo está começando a afundar e que, dentro de 30 anos, mais de 90% da região ficará embaixo d’água. Imagine a situação de pânico que tomaria conta dos vários milhões de paulistanos que moram nessa região da cidade. 

É exatamente isso que está acontecendo com a Zona Norte da cidade de Jakarta, capital da Indonésia. A cidade possui cerca de 10 milhões de habitantes e é um pouco menor que a cidade de São Paulo. A Região Metropolitana de Jacarta, porém, é bem maior que a de São Paulo e abriga cerca de 30 milhões de habitantes. North Jakarta, a região mais afetada pelo fenômeno, tem cerca de 2 milhões de habitantes e alguns dos seus bairros já afundaram cerca de 4 metros em relação ao nível do mar desde 1970

A Indonésia é um daqueles países surpreendentes sobre o qual você, muito provavelmente, sabe muito pouco. O país é formado por mais de 17 mil ilhas, que compõem o maior arquipélago do mundo. Ocupa uma área de quase 2 milhões de km² e possui uma população de 260 milhões de habitantes. Cerca de 87% da população da Indonésia segue o islamismo, o que a torna a maior nação muçulmana do mundo. 

Até o início do século XVI, Kalapa, antigo nome de Jacarta, era uma pequena cidade com um porto na costa Noroeste da Ilha de Java. A história do lugarejo começou a mudar em 1513, quando uma pequena frota de caravelas portuguesas aportou na região durante uma expedição que buscava as lendárias “ilhas das especiarias”. Como todos devem se lembrar das aulas de história nos tempos do ensino fundamental, os portugueses se lançaram ao mar desde meados do século XV buscando um caminho para as Índias, onde pretendiam adquirir as valiosas especiarias do Oriente para revender. 

As especiarias mais conhecidas e mais valorizadas na época das grandes navegações eram a canela, o gengibre verde e seco, as pimentas, o cravo, a noz-moscada e seu óleo, o almíscar, a algabia e o istorac, produtos usados como temperos, essências e remédios. Também eram de grande interesse dos navegadores o benjoin, a cássia, a mástica, o incenso, a mirra, a madeira de sândalo, a cânfora, a madeira de aloé, a cana-da-índia, a laca, a múmia (remédio), o anil ou índigo (usado como corante para roupas), a tuzia e o ópio, entre muitas outras.

Esses produtos eram comprados tadicionalmente na Índia por mercadores da Ásia e transportados por sucessivas caravanas de camelos até chegar ao Oriente Médio, sendo depois revendidos na Europa por preços centenas de vezes mais altos. Existe um detalhe curioso aqui: muitas especiarias “genéricas” eram encontradas nas matas do Brasil, as chamadas drogas do sertão, e vendidas na Europa como “legítimas especiarias do Oriente”. As principais produtoras e exportadoras desses “genéricos” eram as fazendas dos padres Jesuítas da Companhia de Jesus (S.A. – grifo meu).

A localização estratégica de Kalapa, bem no centro das ilhas onde eram produzidas todas essas especiarias, transformou o lugar num importante porto e centro de comercialização de produtos para os mercadores europeus que navegavam por aquelas águas. Em 1527, a já importante cidade de Kalapa foi invadida por um reino vizinho e teve o seu nome mudado para Jayakarta, origem do atual nome de Jacarta. 

Apesar da localização privilegiada, as terras onde a cidade de Jacarta estava localizada eram muito pantanosas e atravessadas por cerca de 13 rios. A cidade cresceu e se consolidou como metrópole ao longo dos séculos aterrando áreas de mangue e avançando sobre terrenos instáveis. É justamente essa origem dos atuais afundamentos da cidade. De acordo com informações da ONU – Organização das Nações Unidas, existem algumas áreas da cidade que estão afundando a uma razão de 25 cm por ano, o que é desesperador para as populações

Uma das principais causas da instabilidade dos solos de Jacarta é a retirada de águas do subsolo através de poços para o abastecimento da população. De acordo com cálculos das autoridades locais, perto de dois terços da população da Região Metropolitana utiliza águas do subsolo. Isso resulta num processo que é chamado em geologia de subsidência, o que faz com que o solo perca a sua resistência e comece a afundar. Existem outras cidades do mundo que enfrentam um problema parecido, porém com uma velocidade muito menor em relação ao que está acontecendo em algumas partes de Jacarta. 

Uma das alternativas estudadas pelo Governo da Indonésia é a construção de uma nova capital em um terreno mais elevado e seguro no lado indonésio da Ilha de Bornéu, onde também se encontram territórios da Malásia e do Sultanato de Brunei. O audacioso projeto está orçado em US$ 34 bilhões e tem um prazo de 10 anos para ser concluído. A implementação do projeto ainda depende da aprovação do Parlamento da Indonésia

De acordo com declarações do Presidente da Indonésia,  Joko Widodo, a escolha do local da nova Capital da nação levou em conta a sua localização no centro geográfico do país, próximo de outras áreas urbanas e num terreno alto e protegido de furacões e tsunamis. Aqui é preciso lembrar que as mudanças climáticas globais que já estão ocorrendo em várias partes do mundo estão elevando gradativamente o nível dos oceanos, um problema verdadeiramente catastrófico para a Indonésia, um grande país insular. 

A Ilha de Bornéu é a terceira maior do arquipélago indonésio e a que possui a maior parte de sua vegetação original preservada. A Indonésia, conforme já comentamos em postagem anterior, sofre imensamente com a derrubada de florestas nativas para a exploração madeirereira e, principalmente, para criação de novos campos agrícolas, em especial as plantações da palma do dendê. Existem diversas espécies animais locais altamente ameaçadas como o tigre-de-Sumatra e o carismático orangotango. Grupos ambientalistas temem que uma eventual mudança da capital para a Ilha de Bornéu resulte na destruição de importantes remanescentes da exuberante floresta tropical. 

Jacarta e toda a sua Região Metropolitana também padecem dos demais males das grandes cidades do mundo – poluição, pobreza, congestionamentos, falta de infraestrutura urbana, enchentes nos meses de verão, entre outros males. O Governo do país afirma que a nova Capital será pensada e construída visando resolver a maioria desses problemas, onde seriam incluídas também alternativas “verdes” como o uso de energia solar e eólica. Porém, como todos sabemos, existe um enorme abismo entre as promessas feitas por políticos e a vida real. 

A eventual transferência da Capital resultaria na migração de uma parcela substancial da população para a nova cidade e também de parte importante do setor financeiro do país. Isso ajudaria a aliviar a pressão sobre a cidade de Jacarta e comunidades vizinhas, permitindo assim que se revolvam os principais problemas da população. O grande problema é a verdadeira corrida contra o tempo e os efeitos nefastos do avanço do mar contra as áreas que já afundaram. 

A elevação gradativa do nível dos oceanos é um fenômeno que já está provocando estragos em cidades costeiras ou próximas da costa em todo o mundo, inclusive aqui no Brasil. Notícias de mudanças de cidades para locais com terrenos mais altos tenderão a se tornar relativamente frequentes nos próximos anos. Essas mudanças, porém, terão altos custos financeiros e ambientais. Países pobres que também estão expostos a este mesmo problema terão menores condições para realizar essas mudanças e, é claro, sofrerão muito muito mais com os efeitos das mudanças climáticas. 

Desigualdade até nessas horas. Triste! 

VOCÊ JÁ OUVIU FALAR DE ULAN BATOR, UMA DAS CAPITAIS MAIS POLUÍDAS DO MUNDO?

Ulan Bator

Nas duas últimas postagens falamos bastante dos gravíssimos problemas de poluição do ar nas grandes cidades da China. A extrema dependência do país na geração de energia elétrica a partir de centrais termelétricas a carvão é uma das principais fontes de poluição do ar nas cidades. Aproveitando o gancho, vamos falar de problemas muito parecidos na vizinha Mongólia, um dos países mais isolados do mundo. 

A Mongólia possui um território com mais de 1,5 milhão de km², com grandes extensões de estepes, desertos e montanhas, e está localizada entre o Norte da China e a região siberiana da Rússia. Apesar do seu imenso tamanho, a Mongólia possui menos de 3 milhões de habitantes. A capital do país é Ulan Bator (ou Ulaanbaatar), cidade que tem 1,45 milhão de habitantes, metade da população total do país. Cerca de um terço dos atuais mongóis vive da mesma forma que seus antepassados como nômades e seminômades, cuidando de seus rebanhos de carneiros e cavalos. 

O grande momento na história da Mongólia se deu a partir da ascensão de Gengis Khan (1162-1227) à liderança das diferentes tribos mongóis em 1206. Comandando milhares de implacáveis guerreiros/cavaleiros, Gengis Khan rapidamente conquistou enormes extensões de terras para os mongóis, formando o maior império com terras contíguas da história. O Império Mongol (1206-1368) se estendia desde as estepes da Ásia Central até a Europa Central e Oriente Médio a Oeste, ao Norte da Sibéria e a Leste até o Mar do Japão. 

Ao Sul, englobava uma faixa de terras entre o antigo Império Persa (atual Irã) e a Indochina, região do Sudeste Asiático formada pelo Vietnã, Laos, Camboja, Tailândia e Myanmar. Os domínios dos mongóis também incluíam o Subcontinente Indiano, onde se incluem os territórios atuais da Índia, Paquistão e Bangladesh. 

Passado esse breve momento histórico de glória, os mongóis se recolheram ao seu grande território e, muito raramente, notícias vindas daquela região circulam pelo mundo ocidental. Uma dessas poucas notícias, que vem sendo insistentemente divulgada pela imprensa internacional nos últimos anos, trata dos apocalípticos níveis da poluição do ar em Ulan Bator, especialmente no período do inverno. O grande vilão dessa poluição é, como sempre, o carvão mineral

Sem contar com grandes rios para a construção de grandes complexos hidrelétricos e sem ter recursos para investir em centrais de energia nuclear, a Mongólia se vale das grandes reservas de carvão mineral do país para a geração de energia elétrica e para aquecimento doméstico nos rigorosos invernos do país. As médias térmicas nessa época oscilam entre -20° C e -40° C. 

Diversas centrais de geração térmica a carvão foram construídas ao longo dos anos ao redor do núcleo urbano de Ulan Bator com o objetivo de garantir o fornecimento de energia elétrica para a população. Como é usual, a proximidade dessas centrais geradores evitou a construção de longas e dispendiosas linhas de transmissão, como é o caso das usinas hidrelétricas. Entretanto, com o crescimento da mancha urbana, muitas dessas usinas acabaram sendo “engolidas” pela cidade (vide foto), colocando populações em contato direto com os poluentes gerados pela queima do carvão. 

Todavia, essa não é o maior fonte de poluição da cidade – a maior parte da contaminação do ar vem dos aquecedores domésticos a carvão, usados pelas populações que moram nas tradicionais tendas mongóis. Cerca de metade dos habitantes de Ulan Bator são antigos nômades e seminômades que foram obrigados a desistir de seu modo de vida tradicional e acabaram por migrar para a cidade grande em busca de melhores condições de vida. As mudanças climáticas globais já mostram seus efeitos na Mongólia, onde a temperatura média já subiu 2,2° C nas últimas décadas. O clima ficou mais chuvoso em algumas épocas do ano e mais seco em outras, o que tem inviabilizado as tradicionais atividades de pastoreio de ovelhas, cabras e cavalos. 

Esses recém chegados das estepes buscam terrenos livres nas colinas ao redor de Ulan Bator, onde montam suas tendas típicas, as iurtas. Sem acesso a lenha para queimar em suas fornalhas, principalmente para o aquecimento das barracas, esses migrantes se valem da queima do carvão mineral, um produto barato e facilmente encontrado com vendedores de rua. Os habitantes dos gers, assentamentos formados pelas barracas tradicionais, já correspondem a cerca da metade do número total de habitantes da capital mongol. 

De acordo com números do Governo Central, a queima de carvão mineral pelos habitantes dos gers é responsável por cerca de 80% da poluição de Ulan Bator. Nos meses de inverno, quando há um expressivo aumento da queima de carvão, os níveis de poluição de ar na cidade atingem níveis estratosféricos. Medições da concentração de partículas finas em suspensão no ar – os chamados PM2.5, tem atingido a impressionante marca de 999 partículas por metro cúbico de ar. Essa medição só não atinge valores maiores porque os medidores locais só marcam 3 dígitos. 

Conforme já comentamos em postagens anteriores, a OMS – Organização Mundial da Saúde, recomenda como limite máximo uma concentração de 25 partículas de poluentes para cada metro cúbico de ar. A OMS declarou em 2013 que 10% das mortes registradas na cidade estavam diretamente relacionadas com a poluição do ar. Um estudo anterior feito pela entidade já havia afirmado que entre 2004 e 2008 houve um aumento de 45% nos casos de doenças respiratórias. De acordo com o Banco Mundial, a situação caótica de Ulan Bator provoca um gasto adicional ao sistema de saúde da ordem de US$ 1 bilhão por ano

Ironicamente, a grande atividade geradora de ocupação para a crescente massa de trabalhadores da capital mongol é a mineração do carvão. Sem outra qualificação senão a de trabalhos no pastoreio de animais e, usualmente, com baixíssima escolaridade, os camponeses tem grandes limitações no mercado de trabalho. A situação de extrema dependência do país em relação ao carvão encurrala o Governo, tanto do ponto de vista energética quanto do social – não existem muitas alternativas no curto e médio prazo. 

Uma das poucas soluções encontradas pelo Governo está sendo a doação de aquecedores elétricos para os moradores dos gers, que passam a contar também com o fornecimento de energia elétrica altamente subsidiada. Essa é uma solução que apenas transfere a fonte da poluição de lugar, mas já é o suficiente para evitar a ocorrência de milhares de casos de intoxicação dos moradores das barracas devido a inalação da fumaça da queima do carvão. 

As maiores vítimas da intensa poluição em Ulan Bator são, como não seria diferente, as crianças e os idosos. Durante todo o ano as emergências dos hospitais ficam lotadas, com centenas de pessoas apresentando crises de asma e bronquite, alergias, dificuldades para respirar e outros problemas crônicos. Nos meses de inverno, quando a poluição aumenta, a incidência de atendimento nos hospitais aumenta drasticamente. 

Está aí um problema de difícil e complicada solução para um país dos mais pobres do mundo. 

AINDA FALANDO DA POLUIÇÃO DO AR NA CHINA, OU O ONIPRESENTE CARVÃO MINERAL

Geração termelétrica na China

Na última postagem falamos dos gravíssimos problemas de poluição do ar nas grandes cidades da China – e olhem que são muitas essas grandes cidades. Além de grandes metrópoles como Pequim, Xangai e Guangzhou, o país possui centenas de cidades com mais de 1 milhão de habitantes. A principal fonte da poluição nessas cidades são as usinas termelétricas a carvão (vide foto), que combinadas com as emissões de gases gerados por uma gigantesca frota de veículos automotores, indústrias e sistemas de calefação de residências, tornam a atmosfera urbana quase irrespirável. 

Mas, acreditem se quiser, essa situação já foi muito mais crítica até 5 anos atrás, quando as autoridades decidiram “acabar” com a poluição do ar nas cidades da China. Vamos entender o que está acontecendo por lá. 

Para compreender como foi que a situação da poluição do ar nas grandes cidades chinesas chegou à situação atual, é preciso voltar atrás algumas décadas, para os tempos da ascensão de Mao Tsé-Tung e do Comunismo ao poder na China em 1949. Naqueles tempos, a China era um país essencialmente rural e com uma grande parcela da sua população vivendo na miséria. Os planejadores estatais de Mao criaram diversos planos plurianuais com metas ousadas para o crescimento da agricultura e da industrialização do país. Um desses planos foi o polêmico Grande Salto Adiante, implementado entre 1958 e 1961. 

Esse plano incluiu uma grande reforma agrária, onde foram criadas fazendas coletivas e a produção privada foi proibida. Cada família recebia um lote de terra e tinha uma meta de produção de alimentos, meta essa praticamente impossível de se atingir. Também foram estabelecidas metas para uma industrialização rápida do país. Para o ano de 1958, por exemplo, foi estabelecido o objetivo de dobrar a produção de aço do país, que em 1957 havia sido de 5,3 milhões de toneladas

Para se atingir esse crescimento na produção do aço, milhões de trabalhadores foram deslocados das atividades agrícolas para trabalhos nas industrias. Dezenas de milhares de pequenas forjas de “fundo de quintal” foram construídas e foi ordenado que todos os objetos de aço que as famílias possuíssem, desde ferramentas agrícolas até dobradiças de portas e panelas, fossem entregues ao Estado para reprocessamento nessas forjas. A busca pelo cumprimento e superação das metas estabelecidas pelo Estado chinês criou as bases do chamado “desenvolvimento a qualquer custo” no país. 

Existe aqui um detalhe importante aqui que precisa ser lembrado – os delegados regionais e os líderes locais do Partido Comunista encarregados de atingir uma determinada meta em produção agrícola, em industrias e em infraestrutura, podiam acabar presos caso não atingissem as cotas que foram determinadas pelo Comitê Central do Partido Comunista. Pessoas consideradas suspeitas ou “mal vistas” pelo sistema acabavam sendo fuziladas. Logo, atingir uma cota de produção sem se preocupar com as consequências sociais e ambientais podia significar a diferença entre a vida e a morte para muita gente.

Todo esse conjunto de mudanças bruscas na economia da China teve um alto custo social. O maior deles foi a chamada Grande Fome Chinesa, que aconteceu no mesmo período do Grande Salto Adiante e que matou entre 18 e 50 milhões de pessoas, conforme a fonte consultada (O Governo chinês é especialista em esconder números). Além de gigantescos erros no planejamento estatal, no período também houve uma grande seca no Norte da China e chuvas torrenciais no Sul – só as enchentes no Rio Amarelo em 1959, deixaram um rastro de 2 milhões de mortos no Leste do país. 

Apesar desses percalços, a cultura das metas e/ou cotas de produção na China se consolidou e, quaisquer que fossem os custos sociais, econômicos ou ambientais, essas metas seriam cumpridas. Foi justamente o que ocorreu no desenvolvimento da política de geração de energia elétrica – centenas de centrais termelétricas a carvão, algumas altamente ineficientes, foram instaladas por todo o país, sem qualquer tipo de preocupação com as emissões de gases tóxicos e de material particulado. O importante era se atingir os volumes de produção de energia elétrica estabelecidos no Plano Plurianual.

O carvão mineral é abundante na China, principalmente nas regiões Central e Norte. Grandes contingentes de trabalhadores foram encarregados de extrair imensos volumes diários de carvão, que eram embarcados quase que imediatamente e transportados para as grandes cidades do país através da grande malha ferroviária. Chegando nas centrais termelétricas, outros contingentes de trabalhadores trabalhavam dia e noite alimentando as grandes fornalhas dos geradores elétricos. Graças aos esforços coletivos de todos esses trabalhadores, as grandes metas estabelecidas pelo Comitê Central do Partido Comunista Chinês foram alcançadas. 

Esse esforço coletivo transformou a China na segunda maior geradora e consumidora primária de energia do mundo em 2003, ficando atrás apenas dos Estados Unidos. Cerca de 80% da energia elétrica gerada no país vem de centrais termelétricas movidas a combustíveis fósseis, principalmente o carvão mineral e, mais recentemente, o gás natural. Atualmente, a China consome metade da produção mundial de carvão mineral e, todo esse consumo, resulta em muita poluição

Poluição do Ar na China

A poluição do ar nas grandes cidades chinesas, que já era muito grande, chegou a níveis insuportáveis a partir dos primeiros anos da década de 2000 e, a partir de 2014, o Governo Central se viu obrigado a rever suas políticas de geração de energia elétrica. Foi estabelecido um plano de ação emergencial para a redução da poluição atmosférica no país. Foram estabelecidas reduções de 15% nas emissões de dióxido de enxofre e óxidos de nitrogênio em relação aos níveis de 2015 e estabelecido que as 80 maiores cidades do país tenham 80% dos dias com bons níveis de qualidade do ar

Essas medidas atingiram em cheio as centrais termelétricas, as grandes vilãs da poluição nas grandes cidades. Logo de imediato, foi proibida a construção de novas centrais geradoras nas proximidades das cidades. As demais unidades foram obrigadas a instalar sistemas de filtros nas suas chaminés e também estimuladas a melhorar o rendimento dos seus equipamentos para conseguir gerar a mesma quantidade de energia com uma queima menor de carvão. Em unidades geradoras muito antigas, o carvão foi substituído por gás natural. Essa medida também passou a ser adotada nas indústrias.  

Outro foco de ação foram as caldeiras a carvão usadas nos sistemas de calefação dos edifícios residenciais, que foram obrigados a passar a usar gás natural. No inverno de 2015, muitos edifícios que não conseguiram instalar os novos equipamentos a tempo ficaram sem o sistema de calefação (aquecimento) no inverno, o que mostra bem o jeito das coisas funcionarem num país com planejamento central estatal como na China. Uma outra medida adotada, essa já bastante conhecida de todos nós, foi a restrição à circulação de veículos automotores nos grandes centros urbanos, onde foram criados sistemas de rodízio e de horário de circulação. 

Os relatórios de qualidade do ar de 2018 já mostravam uma sensível melhoria nas 338 maiores cidades do país – na média, houve uma redução de 11,8% na presença de partículas de poluição mais finas, conhecidas como PM2.5. O valor médio dessas partículas ficou em 60 microgramas por metro cúbico de ar. O valor máximo recomendado pela OMS – Organização Mundial de Saúde, é de 25 microgramas por metro cúbico de ar. Esse resultado mostra que, apesar dessa importante melhoria nas qualidade do ar, as coisas precisam melhorar muito nas cidades chinesas para se chegar a um ar verdadeiramente “respirável”. 

A China também vem estimulando a produção de energia a partir de fontes alternativas, principalmente a solar e a eólica. O país já é o maior produtor mundial de células fotovoltaicas e de geradores eólicos. As fontes de geração alternativas representam apenas 2% da matriz energética no país e há espaço de sobra para o seu crescimento

Para encerrar – a qualidade do ar nas grandes cidades chinesas nos dias de hoje é péssima, mas poderia ser ainda pior caso as coisas não tivessem começado a mudar anos atrás. 

A PODEROSA CHINA E SUAS CIDADES POLUÍDAS, OU A PODEROSA POLUIÇÃO DO AR NAS CIDADES DA CHINA

Poluição do ar em Pequim

A pandemia da Covid-19 colocou, literalmente, o mundo inteiro em alerta. Tratada inicialmente como uma “gripezinha” por muitos Governos (inclusive o nosso), a doença rapidamente mostrou que era muito mais grave do que parecia inicialmente e começou a fazer dezenas de milhares de vítimas fatais ao redor do mundo. Os países que mais sofrem com essa pandemia até o momento são a Itália, Espanha, França, Inglaterra e Estados Unidos. No Brasil, os dados divulgados pelo Ministério da Saúde até hoje (22 de abril) falam de mais de 45 mil casos confirmados e 2.906 mortes. 

Uma medida extrema tomada pela grande maioria dos países afetados pela Covid-19 foi o isolamento social. Indústrias, comércios, escolas e universidades, e demais serviços não essenciais foram paralisados e os cidadãos aconselhados (usando aqui o termo mais suave) a ficar em suas casas. Estamos todos torcendo para que tudo isso passe logo e que a vida possa voltar ao seu ritmo normal o mais breve possível. 

Há um ponto positivo em toda essa paralisação do mundo – grande parte das fontes de poluição do ar foram “desligadas” e a atmosfera melhorou muito em grandes áreas metropolitanas e em zonas industriais. Existem inúmeras reportagens mostrando fotos de satélite de grandes cidades do mundo com o antes e o depois da pandemia do Corona vírus.  

De acordo com estudos feitos pela Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, a China será, muito provavelmente, o país que terá mais vidas salvas por essa abrupta melhoria das condições atmosféricas. De acordo com as projeções feitas por esse estudo, a redução da poluição do ar em grandes cidades da China em função da quarentena nos últimos dois meses, salvará a vida de 4 mil crianças com menos de cinco anos e perto de 73 mil adultos acima dos 70 anos. Ou seja – ironicamente, a quarentena forçada vai salvar muito mais vidas de problemas de saúde criados pela poluição do ar do que vítimas do Corona vírus. 

A poluição do ar nas grandes cidades da China, já faz muito tempo, deixou de ser um grande problema ambiental e se transformou numa verdadeira tragédia social. De acordo com as recomendações da OMS – Organização Mundial da Saúde, a quantidade de partículas microscópicas de poluentes com tamanho até 2,5 micrômetros – conhecidas como PM2.5, deve ser no máximo da ordem de 25 microgramas por metro cúbico de ar. Essas partículas são produzidas pela combustão de motores de carros, motos e caminhões; queima do carvão em termelétricas, queima de lenha em residências e em processos industriais, entre outras fontes. 

Em grandes regiões metropolitanas da China como Pequim, Hebei e Tianjin já foram detectados níveis dessas partículas até 40 vezes acima do nível recomendado. Estudos conjuntos feitos por universidades americanas e chinesas indicam que a intensa poluição do ar nas grandes cidades da China resulta em 177 mil mortes prematuras a cada ano. A queima do carvão em centrais termelétricas e em grandes empresas é a principal causa da poluição do ar no país

A produção anual de carvão mineral na China supera a impressionante marca de 2 bilhões de toneladas. As principais reservas se encontram na região Norte do país. Todo esse grande volume de carvão alimenta o gigantesco parque de usinas siderúrgicas do país e, especialmente, as onipresentes centrais termelétricas espalhadas pelos quatro cantos da China. Cerca de 80% da geração elétrica do país vêm de combustíveis fósseis; 17% são gerados em centrais hidrelétricas e 2% em usinas nucleares

Uma das grandes “vantagens” das usinas termelétricas é a possibilidade da construção dessas unidades próximas aos grandes centros consumidores, o que evita a necessidade da construção de grandes linhas para a transmissão de energia. Aqui no Brasil, onde uma parte substancial de nossa matriz energética vem de centrais hidrelétricas, precisamos fazer pesados investimentos para a construção de milhares de quilômetros linhas de transmissão de energia elétrica. Em alguns casos, gasta-se mais com a construção de linhas de transmissão do que na construção da usina hidrelétrica. 

É justamente essa concentração maciça de centrais termelétricas a carvão nas proximidades de grandes cidades na China que torna o ar metropolitano tão poluído. Soma-se à tragédia milhões de veículos automotores, fábricas de todos os tipos e uma legislação ambiental que, até poucos anos atrás, fazia vista grossa para os problemas da poluição. Durante décadas a fio, o Governo Central do país estimulou o chamado “desenvolvimento a qualquer custo”, onde o mais importante era a geração de riquezas e empregos. Isso criou um verdadeiro caos ambiental na China, que levará muito tempo para ser resolvido. 

Fatores geográficos e climáticos ajudam a transformar a vida de algumas cidades em um verdadeiro martírio, como é o caso de Pequim. Nos períodos de seca, a cidade é assolada por fortes ventos que trazem grandes quantidades de areia fina do Deserto de Gobi. Essa areia finíssima se junta aos grandes volumes de material particulado da poluição do ar da cidade, tornando a atmosfera quase irrespirável. Os pequinenses costumam chamar essa grossa névoa que envolve a cidade de “arpocalipse”, numa tradução para o chinês, é claro.

A recente guinada na política ambiental da China incorporou entre suas principais metas a substituição do carvão mineral como principal fonte energética do país. Várias minas já foram fechadas e já houve uma redução de 25% na produção do carvão nos últimos anos. Desde o final da década de 1990, vem sendo estimulada a instalação de sistemas de filtragem e dessulfurização nas chaminés das novas termelétricas construídas no país e também o uso de fontes de energia renovável como a hidrelétrica, a solar e a eólica. 

Um exemplo dos esforços chineses para a produção de “energia limpa” foi a construção da Usina Hidrelétrica de Três Gargantas, no rio Yangtzé. Concluída em 2015, Três Gargantas possui uma capacidade instalada de 22.500 MW, o que, em tese, a torna a maior usina hidrelétrica do mundo, superando a Itaipu Binacional instalada entre o Brasil e o Paraguai no rio Paraná, que tem uma potência instalada de 14.500 MW. Entretanto, como as condições hidrológicas do rio Paraná são mais favoráveis do que as do rio Yangtzé, Itaipu tem, frequentemente, conseguido se manter à frente de Três Gargantas na produção de energia elétrica. 

Os problemas que foram criados pela pandemia do Covid-19 em todo o mundo terão, provavelmente, fortes repercussões na economia da China nos próximos anos. Diversas nações estão acusando formalmente o país de ter escondido os dados reais sobre a letalidade do Corona vírus, uma omissão que pode ter custado a vida de milhares de cidadãos de países pelo mundo afora. Por todos os lados se vêm movimentos populares para o boicote aos produtos chineses daqui para a frente. 

Entre as várias justificativas para esse boicote, muitos grupos ambientalistas estão incluindo na conta as grandes emissões de gases de efeito estufa, a poluição de corpos d’água e produção de imensos volumes de resíduos sólidos na China. Esse provável boicote terá, com certeza, profundas repercussões políticas, econômicas e sociais no país, que será forçado a mudar em muitos aspectos. Torçamos para que essas mudanças também tenham reflexos na área ambiental e que as populações das cidades chinesas consigam respirar um pouco melhor. 

A ESCASSEZ DE ÁGUA: O PRINCIPAL “CALCANHAR DE AQUILES” DA CHINA

Rio Yangtzé

Existe um ditado popular que diz que todo mundo possui um ponto fraco ou um “calcanhar de Aquiles”. A origem desse ditado é a lenda de Aquiles, grande guerreiro da mitologia grega. Aquiles era filho do rei Peleu e de Tétis, a deusa grega do mar. A fim de garantir a imortalidade de seu filho, Tétis mergulhou o bebê Aquiles nas águas do rio Estige, porém, a deusa segurou o filho pelo calcanhar e esse ponto do corpo não foi molhado pelas águas sagradas. O calcanhar era o ponto fraco de Aquiles e foi onde ele levou uma flechada mortal durante a invasão de Tróia. 

Países também possuem seus pontos fracos, fragilidades que podem comprometer toda a sua economia. No caso da China, uma dessas fraquezas mais evidentes é a baixa disponibilidade de recursos hídricos. O país possui uma baixa disponibilidade para atender adequadamente as necessidades de sua gigantesca população, sua agricultura e as suas insaciáveis indústrias. Podemos resumir a situação do país em “gente de mais, para água de menos”. 

Essa grave situação vem se somar a uma péssima gestão dos recursos hídricos existentes no país. Nas duas postagens anteriores, apresentamos um rápido resumo das graves agressões aos recursos hídricos do país, que nas últimas décadas foram transformados em verdadeiras valas de esgotos a céu aberto. Populações ficaram sem acesso a fontes de água adequadas para o abastecimento de cidades e irrigação de plantações. A biota aquática perdeu parte importante de seus habitats, onde um dos casos mais graves foi o do baiji, um golfinho de água doce do rio Yangtzé que é considerado extinto desde 2007.  

Os problemas, infelizmente, não param por aí – a disponibilidade de água por habitante está diminuindo ano após ano. Vamos entender essa questão: 

A China tem um território com uma área de 9,6 milhões de km², pouco mais de 1,1 milhão de km² a mais que o Brasil, porém com uma população 7 vezes maior. Apesar do território chinês ser ligeiramente maior do que o brasileiro, existem diferenças físicas marcantes entre os territórios, características que diferenciam fortemente a agricultura nos dois países. Enquanto as áreas montanhosas ocupam aproximadamente 3% do território do Brasil, na China essa proporção supera a casa dos 30%, especialmente na faixa Oeste do país onde se encontra a grandiosa Cordilheira das Himalaias, a mais alta cadeia montanhosa do mundo.  

Outra diferença são as grandes áreas cobertas por desertos no Norte e no Noroeste do país, com destaque para o Deserto de Gobi, um gigante com mais de 1,2 milhão de km² entre o Norte da China e o Sul da Mongólia, além dos Desertos de Baidan Jaran, Hami, Taklamakon e Tengger.  

Essas diferenças no relevo e, consequentemente, no clima, dividem o território chinês em duas áreas agrícolas distintas sob o aspecto hidrológico: uma área úmida no Sul, onde vive uma população da ordem de 700 milhões de habitantes, e uma área seca ao Norte, onde vivem cerca de 550 milhões de habitantes – nessa conta não está incluída a região montanhosa. A região Sul é responsável por um terço da agricultura da China e possui cerca de 80% das reservas de água; já região Norte do país, responde por dois terços da produção agrícola e detém apenas 20% das reservas de água. Não é preciso ser um especialista em recursos hídricos para perceber que a agricultura no Norte chinês é fortemente dependente da irrigação.  

A região Norte da China produz mais de 40% dos grãos do país através de sistemas de agricultura irrigada, com um consumo de água muito acima da disponibilidade natural, onde a água é retirada de aquíferos e lençóis freáticos. O custo ambiental é altíssimo: sem recarga, os aquíferos estão secando a uma razão de 1,5 metro a cada ano – rios e lagos estão desaparecendo e poços precisam ser escavados a profundidades cada vez maiores. Em Pequim, o nível do lençol freático já está em 59 metros de profundidade e continua baixando.  

Entre outras graves consequências, o brusco rebaixamento do lençol freático de uma região tem impactos diretos nas nascentes de rios e córregos, que passam a secar, fazendo com que seus canais se transformem em meros caminhos de pedras. Populações e animais domésticos que consumiam as águas superficiais desses corpos d’água vão passar a depender da água retirada de poços. Já os animais silvestres e da fauna aquática, esses vão ficar sem água e muitos morrerão de sede ou secos. 

Os usos da água na agricultura chinesa enfrentam uma forte competição com o abastecimento de cidades e de indústrias: dados de 2010 indicavam que a demanda para o abastecimento de populações era da ordem de 30 bilhões de metros cúbicos/ano; já os usos industriais demandavam um consumo de 127 bilhões de metros cúbicos de água/ano. Do ponto de vista econômico, o uso da água para fins industriais tem sido priorizado – para produzir uma tonelada de trigo, que vale o equivalente a US$ 200.00, as plantações irrigadas da China chegam a consumir 1 milhão de litros de água; usando a mesma quantidade de água, as indústrias geram produtos com valores na casa de US$ 14 mil, ou seja, um ganho 70 vezes maior. Em um país que prioriza cada vez mais o crescimento econômico, a tendência será de restrições cada vez maiores ao uso de grandes volumes de água pela agricultura.  

O Governo chinês vinha utilizando, há muito tempo, de pesados subsídios para a agricultura, como forma de manter a autossuficiência do país na produção de alimentos. Porém, com a clara sinalização governamental pela prioridade do abastecimento de água para cidades e para indústrias, essa política está sendo revista e abre-se a perspectiva para uma importação cada vez maior de grãos, o que já vem causando uma forte inquietação entre muitos líderes políticos regionais.  

O forte crescimento econômico vivido pela China nas últimas décadas, retirou centenas de milhões de pessoas da pobreza. Com uma situação econômica melhor, essa população se habituou a um consumo maior e mais diversificado de alimentos, incluindo-se no menu carnes, ovos e aves, o que, por sua vez, forçou a um crescimento do consumo de grãos para a produção de ração animal. As mudanças no sistema de produção deverão transformar a China no maior importador mundial de grãos. Lembro aqui que a China é o maior parceiro comercial do Brasil, importando principalmente a soja, grão largamente usado para a produção de ração animal. 

Além dessa disputa direta pela posse das águas, a China já está sofrendo os reflexos do aquecimento global nas geleiras das Montanhas Himalaias. Conforme já comentamos em postagens anteriores, o aumento da temperatura do planeta está provocando um lento e gradual derretimento de geleiras em montanhas como os Alpes na Europa, os Andes na América do Sul, as Montanhas Rochosas na América do Norte, entre outras. A perda acelerada de grandes massas de gelo dessas montanhas comprometerá os caudais de importantes rios. 

Os dois maiores rios da China, o Yangtzé (rio Azul), com 6.300 km de extensão, e o Huang He – também conhecido como Huang Ho (rio Amarelo), com 5.464 km de extensão, tem suas nascentes nas geleiras das Montanhas Himalaias (vide fotos) e estão seriamente ameaçados pelo aquecimento global. Inúmeros rios menores do interior do país também dependem das águas de degelo das Himalaias para formar parte substancial de seus caudais. 

Geleira nascentes do rio Yangtzé

Além desse problema grave, os chineses disputam as águas de outros grandes rios com nascentes nas Himalaias com países vizinhos, uma situação que poderá se agravar nos próximos anos. Exemplos são as águas do rio Brahmaputra, que tem nascentes no Tibete, região controlada pela China, e que correm na direção da Índia e de Bangladesh. Outro caso é o rio Mekong, que também tem nascentes no Planalto Tibetano e que corre por todo o Sudeste Asiático, atravessando cinco países. De forma unilateral, os chineses tem construído represas e desvios para uso exclusivo dessas águas, o que tem desagradado, e muito, os países vizinhos. 

Para dizer o mínimo, os rios chineses não estão para os peixes.