MAIS UMA CRISE NO SISTEMA DE ABASTECIMENTO DE ÁGUA DA REGIÃO METROPOLITANA DO RIO DE JANEIRO

De acordo com o pensamento filosófico de muita gente, o tempo é uma linha contínua, onde os acontecimentos se sucedem e não voltam mais a se repetir. Para outros, esse contínuo de acontecimentos se apresenta na forma de uma curva e, de tempos em tempos, alguns eventos voltam se repetir. A questão do abastecimento de água na Região Metropolitana do Rio de Janeiro parece pertencer a essa segunda linha de pensamento filosófico – estamos assistindo, mais uma vez, problemas com a qualidade da água “tratada” que é fornecida à população. 

Vamos “recontar” a história: 

Desde o último dia 19 de janeiro, moradores de 50 bairros da cidade do Rio de Janeiro e de outros 7 municípios da Baixada Fluminense têm reclamado da qualidade da água que está chegando nas torneiras de suas casas. A água “tratada” fornecida pela CEDAE – Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro, apresenta um aspecto turvo, com gosto de terra e um cheiro ruim (vide foto).  

Há exatamente um ano atrás, os mesmos bairros e os mesmos moradores passaram por um problema semelhante. Estudos feitos pelos técnicos da CEDAE há época atribuíram o problema à geosmina, um composto orgânico formado por carbono, hidrogênio e oxigênio, que é liberado por colônias de cianobactérias presentes na água bruta. O principal manancial de abastecimento da Região Metropolitana do Rio de Janeiro é o rio Guandu, um corpo d’água que recebe quantidades enormes de esgotos sanitários, despejos industriais e muito lixo ao longo de seu curso. 

Sem confirmar se o problema é novamente a presença de geosmina nas águas, a CEDAE aumentou o volume de carvão ativado aplicado na água, produto que consegue reter as impurezas da água bruta, melhorando o resultado final do processo de tratamento. 

A ETA – Estação de Tratamento de Água, do Guandu é considerada a maior unidade do tipo em operação no mundo e possui uma capacidade de produção de 43 mil litros de água tratada por segundo, o que é suficiente para abastecer uma população de até 9 milhões de pessoas. A Unidade responde por mais de 85% da água consumida pela população da Cidade do Rio de Janeiro, além de atender cerca de 70% do abastecimento de cidades da Região da Baixada Fluminense

Conforme já comentamos em diversas postagens anteriores, a região onde se encontra a cidade do Rio de Janeiro e municípios vizinhos carece de grandes rios e, desde os primeiros tempos da fundação das cidades, as populações sofrem com problemas cíclicos de falta de água potável. 

O principal manancial local de abastecimento de água é o rio Guandu, um curso d’água que desde as primeiras décadas do século XX passou a receber águas transpostas a partir da bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul. Essas águas são utilizadas para a geração de energia em várias usinas hidrelétricas instaladas no interior do Estado do Rio de Janeiro e são “reaproveitadas” para o abastecimento das populações da Região Metropolitana. 

Os fabulosos sistemas de engenharia que foram usados para a transposição das águas entre as bacias hidrográficas dos rios Paraíba do Sul e Guandu, entretanto, nada podem fazer em relação à qualidade das águas. O rio Paraíba do Sul é considerado o 5° rio mais poluído do Brasil e enfrenta problemas ligados à lançamentos de esgotos domésticos e industriais em suas águas, extração de areia em sua calha, desmatamentos e projetos de mineração em áreas de nascentes, depósitos de rejeitos industriais e de mineração, despejos de lixo, entre muitos outros. 

Essa água com qualidade já comprometida é desviada e bombeada por uma série de dispositivos hidráulicos na direção das usinas hidrelétricas do Sistema Light e, depois, são despejadas na direção da calha do rio Guandu. Nos municípios que formam a bacia hidrográfica do rio Guandu, o tratamento que a água recebe não é muito diferente e novos volumes de esgotos de todos os tipos, lixo e resíduos sólidos chegam nas águas do rio. 

A matéria orgânica dos esgotos atua como um fertilizante nas águas, estimulando o crescimento de algas de todos os tipos, que por sua vez liberam compostos orgânicos como a geosmina nas águas. Esse processo ocorre de forma contínua durante todo o ano, mas, nos dias quentes do verão do Rio de Janeiro, há um aumento na proliferação de algas nas águas – está criado o enredo para mais uma crise no abastecimento de cariocas e fluminenses. 

Para tratar e tornar essa água potável, a ETA Guandu gasta cerca de 210 toneladas de produtos químicos a cada dia. São cerca de 140 toneladas de Sulfato de Alumínio, 20 toneladas de Cloreto Férrico, 15 toneladas de Cloro, 25 toneladas de Cal Virgem, 10 toneladas de Ácido Fluossilícico (o famoso flúor), além de volumes cada vez maiores de carvão ativado e outros produtos químicos. Ao que tudo indica, esse verdadeiro coquetel de produtos químicos não está sendo suficientemente poderoso para tratar as águas cada vez mais poluídas do rio Guandu. 

A repetição dos mesmos problemas ligados à qualidade da água fornecida à população da Região Metropolitana do Rio de Janeiro esconde um problema muito maior – a população é refém do rio Guandu e não existem fontes alternativas com volumes de água suficientemente grandes para garantir o abastecimento em caso de emergência

Uma questão hipotética que eu já levantei em postagens anteriores – imaginem um acidente com uma barragem de rejeitos de mineração na bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul como os que ocorreram no rio Doce em 2015 ou no rio Paraopebas em 2019, ambos os casos ocorridos em Minas Gerais. De onde é que sairia a água para abastecer a população caso isso venha a ocorrer? 

Isso talvez soe como paranoia para muitos dos leitores, porém, acidentes semelhantes já ocorreram no rio Paraíba do Sul, felizmente a jusante (correnteza abaixo) dos pontos onde as águas do rio são transpostas na direção do rio Guandu. Cito um exemplo: em 2003, a barragem de uma indústria de celulose em Cataguases, Minas Gerais, rompeu e vazaram cerca de 1,4 bilhão de litros de lixívia ou licor negro, um rejeito altamente tóxico gerado no processo de produção da celulose. 

O vazamento atingiu primeiro o córrego do Cágado, atingindo na sequência os rios Pomba e Paraíba do Sul, provocando fortes danos ao meio ambiente e causando muitos prejuízos para as cidades e populações que vivem às margens desses rios. A contaminação química da água foi tão grande que as autoridades ambientais proibiram a captação das águas do Rio Paraíba do Sul para abastecimento, deixando 600 mil pessoas sem água nas suas torneiras em cidades do Leste do Estado de Minas Gerais e Norte do Rio de Janeiro. 

Existem dezenas de barragens de rejeitos minerais instaladas dentro da bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul, algumas em estado bastante crítico – todos devem ter sempre na lembrança o tamanho do estrago que o rompimento de uma dessas barragens pode fazer nas águas de um rio. 

Essa preocupação pode até parecer um grande exagero da minha parte, mas vou usar como exemplo a tragédia da falta de oxigênio hospitalar que está se abatendo sobre a cidade de Manaus nesse momento – as autoridades do município, do Estado e do Governo Federal sabiam que isso poderia acontecer e não tomaram providências antes. Precisou o caos se instalar e muita gente começar a morrer nos hospitais para os responsáveis correrem atrás de soluções para o problema. 

Falaremos mais sobre a questão do abastecimento de água na Região Metropolitana do Rio de Janeiro nas próximas postagens. 

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