POBRE PORTO RICO

Furacão Maria 2017

A Ilha de Porto Rico, chamada inicialmente de San Juan Bautista pelos espanhóis, foi “descoberta” em novembro de 1493 por Cristóvão Colombo na sua segunda expedição às Américas. Como aconteceu com outras ilhas caribenhas, Porto Rico era densamente povoada por indígenas taínos, que chamavam sua ilha de Borikén. O gentílico popular “boricua”, usado para indicar as pessoas nascidas em Porto Rico, é derivado desse nome indígena. 

Porto Rico é a menor das Grandes Antilhas – a ilha possui apenas 9.100 km², o que equivale a menos da metade da superfície do Estado de Sergipe. A população é estimada em 3,5 milhões de pessoas. Desde 1898, quando foi assinado o Tratado de Paris que encerrou a chamada Guerra Hispano-Americana, Porto Rico passou a ser um Estado Livre associado aos Estados Unidos da América e, bem recentemente, foi elevado à condição de Estado norte-americano. 

O primeiro assentamento espanhol em Porto Rico foi fundado em 1508 por Juan Ponce de Leon, que foi nomeado o primeiro Governador da Ilha. Ponce de Leon entraria para a história por causa de sua busca obsessiva pela lendária Fonte da Juventude, uma saga que já foi tema de muitos livros e filmes como “Piratas do Caribe”.

A história colonial de Porto Rico não é muito diferente das outras ilhas do Mar do Caribe. Após a chegada dos primeiros colonizadores, a ilha acabou transformada em um grande canavial. Os indígenas taínos, que foram usados como mão de obra nos primeiros anos da colonização, morreram em grande quantidade devido a doenças trazidas pelos europeus e já em 1520, escravos africanos começaram a chegar na ilha para assumir os trabalhos na agricultura. 

Também como aconteceu com outras colônias espanholas nas ilhas caribenhas, Porto Rico foi relegada a um segundo plano diante das imensas riquezas geradas pela expropriação dos grandes tesouros dos Impérios Asteca e Inca no continente. Foi somente a partir do ano de 1700, com a ascensão da dinastia Bourbon ao trono da Espanha, que Porto Rico passou a receber maior atenção e maiores investimentos da Metrópole. Estradas começaram a ser construídas por toda a ilha, interligando as diversas cidades que surgiram ao longo da costa, favorecendo cada vez mais o escoamento e o comércio de produtos agrícolas. 

A partir do final do século XVIII, com o início de diversos conflitos emancipacionistas por todas as ilhas do Mar do Caribe, a Espanha passou a se preocupar com a manutenção da posse da Ilha de Porto Rico, que àquela altura já era um importante centro comercial na região. Em 1809, a Espanha reconheceu Porto Rico como uma de suas províncias ultramarinas e seus habitantes passaram a ter direto a eleger, por meio de voto, um representante para o Parlamento Espanhol.  

O Governo espanhol também estimulou a imigração de seus cidadãos para a Porto Rico, como forma de melhorar seus vínculos com a ilha – até o final do século XIX, perto de 450 mil imigrantes, a maioria espanhóis, desembarcaram na ilha. A Espanha também aumentou os seus fluxos comerciais com a ilha, tentando assim manter a posse de uma de suas últimas colônias nas Américas. 

Em julho de 1898, como uma consequência da Guerra Hispano-americana, os Estados Unidos invadiram Porto Rico e por lá ficaram. Após a assinatura do Tratado de Paris, a Espanha cedeu Porto Rico, Guam e as Filipinas para os Estados Unidos, além de conceder autonomia para Cuba, que se tornou um país independente. A partir de 1917, os porto-riquenhos passaram a ser considerados cidadãos norte-americanos. Em 2017, após um referendo popular, Porto Rico passou a ser o 51ª Estado norte-americano. 

Assim como aconteceu com a grande maioria das ilhas do Mar do Caribe, Porto Rico derrubou a maior parte de sua cobertura florestal com vistas a abertura de campos agrícolas. Como consequência direta dessa prática multissecular, grande parte da ilha sofre há vários anos com longos períodos de seca, um problema que também está ligado as mudanças climáticas e aos efeitos devastadores de sucessivos fenômenos do El Niño e La Niña. Mas nada disso, porém, se compara a uma sequência assustadora de fortes furacões que tem atingido a ilha como uma frequência e intensidade assustadoras. 

Relembrando apenas os furacões que atingiram a ilha em anos recentes: em 2016, o Furacão Matthew passou perto de Porto Rico e assustou muita gente. Em 7 de setembro de 2017, Porto Rico foi atingido pelo Furacão Irma e, poucos dias depois, pelo Furacão Maria no dia 20. O Maria foi a pior tempestade a atingir a ilha em 100 anos, gerando ventos com velocidade acima de 250 km por hora e provocando chuvas torrenciais e alagamentos generalizados. Esse furacão deixou um saldo oficial de 2.975 mortos e dezenas de bilhões de dólares em prejuízos materiais (vide foto).

Essas duas tempestades em sequência destruíram grande parte da infraestrutura de Porto Rico. Em setembro de 2019, a população de Porto Rico se preparou para a chegada do Furacão Dorian, que felizmente perdeu força e não causou maiores prejuízos. O aumento da incidência e da intensidade dos furacões no Mar do Caribe estão ligados às mudanças climáticas globais

Além de destruir casas e edifícios, esses sucessivos furacões têm causado grandes impactos nos remanescentes florestais de Porto Rico. As fortes ondas geradas pelos ventos avançam contra o litoral, destruindo a faixa de areia das praias e danificando a vegetação de áreas de mangue. No interior da ilha, as áreas florestais sofrem com a força intensa dos ventos e muitas árvores acabam sendo derrubadas. 

Imagens de satélite feitas pela NASA – Agência Espacial Norte-americana na sigla em inglês, logo após a passagem do Furacão Maria, mostraram a ilha de Porto Rico praticamente toda devastada e parecida com uma região que sofreu um pesado bombardeio aéreo numa guerra. Calcula-se que cerca de 30 mil pessoas ainda não conseguiram reconstruir suas casas até hoje

Um exemplo claro da devastação deixada pelos furacões pode ser visto na ilhota de Palominito, localizada nas proximidades da famosa Ilha de Palomino. Até cerca de 25 anos atrás, a ilhota era coberta por vegetação e possuía uma grande população de animais. Nos últimos anos, Palominito passou a ser varrida pelas ondas e fica submersa ao longo de grande parte do ano. Foi em Palominito que o pirata Jack Sparrou acabou abandonado num dos filmes da franquia “Piratas do Caribe”.

Um levantamento recente feito em 60% do litoral de Porto Rico constatou que ao menos 1/5 das praias do país estão sofrendo com a forte erosão marinha, criada por ressacas cada vez mais fortes e frequentes entre os meses de novembro e março, além dos estragos deixados pelos furacões. Esse problema afeta diretamente a indústria do turismo, uma das mais importantes atividades econômicas da ilha. Aliás, faz muito tempo que a economia de Porto Rico não anda “bem das pernas”. 

Apesar de ser o mais novo Estado do país mais rico do mundo, os Estados Unidos, a economia de Porto Rico vai de mal a pior. A economia da ilha está em recessão desde 2005, com uma dívida total de mais de US$ 120 bilhões. Para piorar a situação, o Estado vem enfrentando um decréscimo populacional já há vários anos

Em 1950, a população de Porto Rico era de 2,2 milhões de habitantes e continuou crescendo até 2001, quando atingiu um pico de 3,8 milhões de habitantes. Além da redução da taxa de fertilidade, que tem reflexos diretos na população local, cerca de 90 mil porto-riquenhos migram para a área continental dos Estados Unidos a cada ano. A destruição causada pelas sucessivas tragédias climáticas tem desaminado os porto-riquenhos, que cada vez mais optam por recomeçar a vida em Estados com grandes populações “latinas” como a Flórida e o Texas. 

Com o êxodo de parte cada vez mais expressiva da sua população, principalmente jovens, Porto Rico perde parte importante da sua força de trabalho, o que afeta profundamente o crescimento econômico. E a situação que já não é das melhores, tenderá a piorar cada vez mais ao longo dos próximos anos. 

Devastação ambiental, decréscimo populacional e uma longa e perturbadora recessão econômica – essa é a triste sina do cada vez mais pobre Porto Rico. 

A CRESCENTE ESCASSEZ DE ÁGUA EM CUBA

Falta de água em Havana

Na nossa última postagem falamos de alguns dos principais problemas ambientais da Ilha de Cuba, onde destacamos a destruição de remanescentes florestais para a retirada de madeira e também da caça predatória de animais silvestres para abastecer o mercado negro de carnes do país. Esses dois problemas estão acabando com a biodiversidade de Cuba.

Se existe uma única palavra que pode definir Cuba como nenhuma outra ela seria “escassez“. Falta de tudo na Ilha: madeira, carnes, sabão, eletricidade, peças de reposição e combustível para carros, caminhões e motos; alimentos, entre muitas coisas mais. Os cubanos, assim como nós brasileiros, criaram “jeitinhos para tudo” e vão tocando a vida da melhor maneira possível. 

Um elemento essencial cuja escassez não para de aumentar na Ilha é a água. No início desse ano, citando apenas um exemplo, cerca de 1 milhão de habitantes de Havana ficaram até um mês sem receber uma única gota de água em suas torneiras e dependendo de caminhões pipa. Uma das regiões mais afetadas foi a Cidade Velha, mais conhecida como La Habana Vieja

De acordo com informações da chamada “Imprensa Cubana Livre”, dirigida por refugiados cubanos de Miami – Estados Unidos, cerca de 70% das tubulações da rede de água dessa região da cidade está deteriorada. A infraestrutura de La Habana Vieja e de outras regiões tradicionais da capital do país são anteriores à Revolução Cubana, encerrada em 1959. Tubulações de ferro fundido costumam ter uma vida útil na casa dos 50 anos, o que nos dá uma ideia da quantidade de água que é perdida em inúmeros vazamentos

Os problemas relacionados aos recursos hídricos em Cuba, entretanto, são bem mais complexos. Conforme comentamos em postagem anterior, perto de 70% da cobertura vegetal nativa da ilha desapareceu após cinco séculos de produção de cana de açúcar e tabaco. A presença de cobertura vegetal, como sabemos, é essencial para a infiltração da água das chuvas nos solos e recarga dos lençóis subterrâneos e aquíferos, reservas de água que alimentam as nascentes de rios, riachos e córregos.  

Sem esse processo, os corpos d’água só apresentarão bons volumes de água durante o período das chuvas – ao menor sinal de seca, a água simplesmente desaparece. Em ilhas como Cuba, onde os territórios são pequenos e as bacias hidrográficas costumam ser pouco extensas, a velocidade em que a redução dos caudais se processa é muito grande, o que agrava ainda mais o problema. 

As ilhas do Mar do Caribe estão entre as áreas com maior escassez de água do mundo. De acordo com dados da FAO – Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, dos 36 países do mundo com maior escassez de água na atualidade, 7 estão no Caribe e Cuba, maior país insular e que possui a maior população entre todas as ilhas está no topo dessa lista

Como acontece na maioria dos países do mundo, a maior parte das águas superficiais disponíveis em Cuba são usadas pela agricultura. De acordo com dados de 2008, 65% da água disponível no país era usada em sistemas de irrigação – na maioria dos países esse volume está próximo de 80%. Agora, um dado interessante para ajudar a entender o tamanho do problema da escassez de água em Cuba – de um total de 6,2 milhões de hectares de área agrícola do país, menos de 500 mil hectares são irrigados. 

Segundo informações do Panorama de Uso da Terra de 2015, um informe do Governo Cubano, a maioria dos sistemas de irrigação em operação na Ilha são obsoletos e desperdiçam grandes volumes de água. Os planos do Governo local eram de duplicar a área irrigada até 2020, o que sem a troca dos sistemas de irrigação atuais por outros sistemas mais modernos como o micro gotejamento, é virtualmente impossível por falta de água

Plantações irrigadas costumam apresentar uma produtividade média até 30% maior que os cultivos tradicionais. Esse incremento na produção seria muito bem-vindo em um país que gasta mais de US$ 2 bilhões ao ano com a importação de alimentos básicos e que vem apresentando gravíssimos problemas de desequilíbrio em sua balança comercial desde o colapso da URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, em 1991 e que era a grande parceira comercial de Cuba. 

O país também depende da produção e exportação de produtos de origem agrícola, onde os maiores destaques são o açúcar, o rum e os famosos charutos “habanos puros”. Nessa situação, há uma tentação natural das autoridades em “forçar a mão” para disponibilizar a maior parte dos recursos hídricos para a agricultura, reduzindo proporcionalmente os volumes disponibilizados para a população. Esse desequilíbrio, aparentemente, chegou ao seu limite e a população tem feito grandes protestos diante da sistemática falta de água em suas torneiras (vide foto). 

Uma solução usada tradicionalmente em países com baixa disponibilidade de recursos hídricos superficiais é a perfuração de poços para a captação de águas em lençóis subterrâneos profundos. Em Cuba, essa solução não é eficaz – a ilha é extremamente alongada e estreita, não existindo praticamente nenhum ponto do território distante mais de 50 km do mar. A perfuração maciça de poços vai aumentar consideravelmente os riscos de salinização das reservas de água ainda existentes. Conforme comentamos na última postagem, cerca de 1 milhão de hectares de terras agrícolas do país já sofrem com processos de salinização

Além, da destruição da cobertura vegetal do país e do grande desperdício de água na agricultura, Cuba e outras ilhas do Mar do Caribe vêm sofrendo fortemente com as mudanças climáticas e com alterações nos tradicionais padrões de chuva. Com clima tropical, as Ilhas caribenhas sempre conviveram com duas estações climáticas bem definidas – uma forte temporada de chuvas, equivalente ao inverno da nossa Amazônia, e um verão quente e seco.  

Fenômenos naturais com o El Niño e La Niña tem afetado esse ciclo natural e provocado fortes secas. Outro sério problema enfrentado na região é o aumento da intensidade e da frequência dos furacões, o que tem causado enormes estragos nas ilhas. Um exemplo recente foi o Furacão Matthew, que em 2016 causou enormes estragos no Haiti, Jamaica, Cuba, República Dominicana e Bahamas, além dos Estados Unidos. Outro foi o Furação George, que em 1998 atravessou o Caribe e causou grande destruição na República Dominicana, Haiti, Porto Rico, Antígua e Barbuda, São Cristóvão e Névis, Cuba e Estados Unidos. 

Existem várias soluções técnicas para amenizar o problema de escassez de água em Cuba – desgraçadamente, todas irão demandar pesados investimentos. Essas soluções incluem a troca das redes de distribuição de água nas grandes cidades, o que diminuiria grandemente as perdas. Outra solução é adoção de sistemas para o reúso de água – em Israel, onde a disponibilidade de água ainda é menor do que em Cuba, as águas servidas são usadas em sistemas de irrigação altamente eficientes. A construção de usinas de dessalinização da água do mar, como é feito por exemplo em Curaçao, é um outro caminho para aumentar a oferta de água no país. 

Infelizmente, enquanto os “companheiros revolucionários” ainda derem as cartas em Cuba, nenhuma dessas ideias poderá sair do papel. Sem dinheiro, sem água e com burocratas socialistas mandando no país, a situação em Cuba ainda vai piorar muito antes que qualquer sinal de melhora surja no horizonte. 

CUBA: TERRA DA “REVOLUCIÓN”, DOS ”HABANOS PUROS” E DO “JEITINHO”

Havana

Uma expedição espanhola comandada por Cristóvão Colombo chegou na Ilha de Cuba em 1492, logo após ter descoberto a Ilha de São Domingo, batizada de Hispaniola. Colombo batizou a ilha com o nome de Juana, como uma homenagem à filha dos Reis Católicos da Espanha, Fernando de Aragão e Isabel de Castela. Inicialmente, Colombo imaginou que a ilha fosse uma península do continente americano – foi somente em 1509, que o explorador Sebastián de Ocampo conseguir circunavegar todo o território e comprovar se tratar de uma ilha. 

Logo após desembarcar em terra, Colombo organizou e dividiu seus homens em grupos para explorar a ilha. Dois desses homens, Rodrigo de Jerez e Luís de Torres, ficaram vários dias fora e, quando retornaram, fizeram um relato dos mais curiosos a Colombo – os índios taínos “tinham tochas nas mãos e ervas das quais inalavam fumaça, ervas secas dentro de uma folha, igualmente seca… acesas na ponta, eram chupadas ou aspiradas, o que lhes entorpece a pele e é quase intoxicante, e dizem que dessa forma jamais sentem fadiga“. Acidentalmente, esses dois espanhóis descobriram o produto que faria a ilha famosa em todo o mundo – os charutos cubanos. 

Com o avanço das conquistas nas Américas Central e do Sul, os espanhóis descobriram que o plantio do fumo (Nicotiana tabacum) e o hábito de fumar faziam parte da cultura de diversas tribos indígenas americanas. Levado para a Europa, o fumo conquistou apreciadores no Velho Continente, o que criou uma forte demanda por esse novo produto das Américas. A região de Pinar del Rio, em Cuba, foi rapidamente identificada como a que possuía as melhores terras, além das condições de clima e ecológicas para a produção das melhores folhas de fumo. Os mundialmente famosos “habanos puros” tem suas folhas produzidas exclusivamente nessa região. 

Como aconteceu na maioria das ilhas do Mar do Caribe, a Ilha de Cuba também seria transformada em uma grande produtora de açúcar. As primeiras mudas de cana de açúcar desembarcaram na ilha em 1511, mas Cuba só se tornaria uma grande produtora de açúcar apenas no século XVIII, dividindo espaços com as plantações de fumo. 

Apesar da história da chegada da cana e da produção do açúcar lembrar muito o que aconteceu na Ilha de São Domingo e na Jamaica, em Cuba a situação foi um pouco diferenciada. Nessas duas ilhas, onde os recursos naturais são mais limitados, os engenhos de processamento do açúcar utilizavam a queima do bagaço da cana como combustível para as caldeiras de refino do melaço. Relembrando o que já comentamos em uma postagem anterior, era necessária a queima de até 20 kg de lenha ou outro combustível para a produção de um único quilograma de açúcar

Em Cuba, a maior ilha do Mar do Caribe, a aparente disponibilidade inesgotável de recursos florestais deixou os engenhos locais muito parecidos com os engenhos da região Nordeste do Brasil – essas instalações utilizavam lenha colhida nas florestas para gerar a energia dos processos de produção do açúcar. Essa característica criou duas frentes de desmatamentos: a primeira, derrubando florestas a ferro e a fogo para a abertura de campos para o cultivo da cana, e outra derrubando matas para a obtenção de lenha. 

À semelhança dos grandes engenhos do Nordeste brasileiro, os produtores cubanos abandonavam as suas terras ao primeiro sinal de esgotamento dos solos e partiam para a derrubada de novos trechos de matas, liberando “terras virgens” para a criação de novos campos agrícolas. Essa prática, que foi responsável pela destruição do trecho nordestino da Mata Atlântica aqui no Brasil, também colaborou muito para a devastação das florestas cubanas. Segundo os últimos levantamentos divulgados pelo Governo local, restam apenas 28,6% das matas nativas originais de Cuba

O Arquipélago de Cuba é formado por mais de 1.500 pequenas ilhas e ilhotas, sendo que a Ilha principal tem uma área total aproximada de 105 mil km², pouca coisa maior que o Estado de Pernambuco. O território da Ilha de Cuba possui um formato alongado, com cerca de 1.200 km de comprimento e com uma largura média de 130 km. A população do país é de 11,2 milhões de habitantes. 

Como aconteceu em grande parte das ilhas do Mar do Caribe, Cuba passou a sofrer grande influência dos Estados Unidos, principalmente depois da independência da Espanha em 1898. Os cubanos se envolveram em três conflitos armados contra o domínio espanhol a partir de 1868, só logrando êxito na terceira tentativa, onde contaram com apoio dos Estados Unidos.  

O Tratado de Paris, assinado em 1898, encerrou a guerra de independência, mais conhecida como Guerra Hispano-Americana, quando a Espanha abriu mão de Cuba, Porto Rico e das Filipinas. Os norte-americanos permaneceriam formalmente em Cuba até 1902, mas o seu intervencionismo se estenderia até 1909, quando o país efetivamente deixou o país, não sem antes garantir a posse da polêmica base naval de Guantánamo no Sul da Ilha. Indiretamente, porém, o norte-americanos manteriam uma forte influência econômica sobre Cuba, o que só terminou no final da Revolução Cubana em 1959. 

O uso inconsequente dos solos e a destruição intensa da cobertura florestal na Ilha de Cuba desencadearam dois dos maiores problemas ambientais da ilha na atualidade – a erosão e a alta acidez dos solos. Processos erosivos afetam perto de 2,5 milhões de hectares da ilha, especialmente nas regiões onde a produção de cana é mais intensa.  

Outros 3,4 milhões de hectares de solos têm apresentado altos níveis de acidez, onde a principal causa é falta de rotação das culturas agrícolas, que se limitam a cana de açúcar e ao fumo. Completando o quadro, mais de 1 milhão de hectares de solos sofrem com a salinização. Juntos, esses problemas afetam mais de 60% do território de Cuba. 

Um outro problema grave, que já foi reconhecido até pelo Governo comunista da ilha, é a acelerada perda de biodiversidade. Entre as causas principais estão a destruição de áreas florestais e a perda de habitats. Existe, porém, outros problemas que são bem típicos de Cuba: a caça de animais silvestres e a pesca excessiva, atividades ilegais que surgiram como forma de compensar as deficiências do sistema de “cadernetas de racionamento” criado pelo regime socialista cubano. 

Eu estive em Cuba há alguns anos atrás e, numa das minhas andanças longe das vistas dos “agentes de turismo oficiais”, eu fui de moto até uma cidadezinha mais afastada. Num açougue dessa comunidade, verifiquei que só havia uma única bandeja com pescoços e cabeças de frango – todas as demais bandejas da gondola estavam vazias. Tentei conversar com alguns dos desconfiados moradores, que não sei por que cargas d’água achavam que eu era canadense, que sem querer confirmar, mas confirmando, disseram que aquilo era normal por lá. 

Pois bem – existe um poderoso mercado negro para venda de carnes em Cuba. Espécies silvestres como tartarugas cabeçudas, tartarugas verdes e tartarugas de pente, crocodilos e manatees (peixe-boi marinho), entre outras espécies ameaçadas de extinção, além de peixes e crustáceos marinhos, são caçados e/ou pescados clandestinamente, e tem suas carnes vendidas “por fora do sistema”.  

O quilo da carne de tartaruga ou de crocodilo, citando um exemplo, é vendido nesse mercado negro por valores entre US$ 5.00 e US$ 7.00, o que é muito caro para os padrões cubanos. Mesmo assim, as pessoas fazem um grande esforço econômico para comer uma proteína de qualidade de vez em quando. Numa visita a um restaurante fino de Havana, eu passei por uma situação curiosa que ilustra como funciona esse mercado negro. 

Ao parar nesse restaurante para almoçar, descobri que só serviam carne de frango. Como eu sou alérgico a essa carne, eu falei com o maitre e, pagando módicos US$ 15.00, consegui pedir um belo e suculento filé “bovino” (usei aspas por que só tenho certeza de se tratar de uma carne vermelha). Para infelicidade geral dos cubanos pobres, é assim que as coisas funcionam por lá. 

Outra fonte de problemas é a demanda reprimida por madeiras na ilha, onde há falta do material para a fabricação de móveis elementares como cadeiras, mesas e sofás, para a construção civil e até mesmo para a fabricação de caixões para se enterrar os mortos. Os remanescentes florestais de Cuba são sistematicamente invadidos por madeireiros clandestinos, que derrubam as melhores árvores e levam os troncos para serrarias ilegais por toda a ilha. 

Para se ter uma ideia do tamanho do problema: o Corpo de Guardas Florestais de Cuba aplicou quase 20 mil multas por derrubada ilegal de árvores em 2014, totalizando quase US$ 125 mil, além de apreender mais de 2,2 mil m³ de madeira. A exemplo do que ocorre aqui no Brasil, sabemos que isso é uma fração mínima dos ilícitos cometidos por lá. 

Enquanto os líderes políticos locais só se preocupam com os rumos da “Revolución”, se desenrola uma perda acelerada de espécies animais e vegetais, degradação e perda de solos agrícolas, destruição de fontes de água e de habitats (principalmente costeiros e marinhos) por toda a ilha. 

Esse é o “jeitinho” cubano de tocar a vida. Então, ¡Viva Cuba!   

JAMAICA: TERRA DO AÇÚCAR, DO RUM E DA ”GANJA”

Cannabis na Jamaica

A Jamaica é uma das mais famosas ilhas do Mar do Caribe. Nas últimas décadas ganhou uma enorme projeção mundial graças a um dos seus mais contagiantes ritmos – o reggae, e ao Movimento Rastafári. Entretanto, até um passado recente, o pequeno país era famoso por outro produto típico, “um pouco mais forte” que o ritmo musical – o rum. Destilado a partir do melaço fermentado da cana de açúcar, o rum é uma bebida de forte teor alcoólico, entre 40 e 55° GL. A bebida começou a ser produzida em todo o Caribe a partir do século XVII, época em que os jamaicanos e os haitianos concorriam em busca do título de melhor rum do Caribe. 

O rum da Jamaica é considerado um dos mais fortes e encorpados. A bebida foi popularizada em países da Europa e nos Estados Unidos pelos marinheiros, piratas e corsários, que durante muito tempo fervilhavam no Mar do Caribe em busca dos galeões espanhóis carregados de ouro e prata. Conta-se que esses homens sempre tomavam alguns bons goles de rum antes de atacar algum navio desavisado. 

Com pouco mais de 10 mil km², a Jamaica é a terceira maior ilha das chamadas “Grandes Antilhas” e abriga uma população de aproximadamente 3 milhões de pessoas. A ilha fica localizada ao Sul da Ilha de Cuba e a cerca de 200 km a Oeste da Ilha de Santo Domingo, onde encontramos o Haiti e a República Dominicana. Apesar de muito próximas, cada uma dessas ilhas teve uma história diferente, o que criou problemas parecidos em alguns casos e muito diferentes em outros. 

A Jamaica foi “descoberta” em 1494 por uma expedição liderada por Cristóvão Colombo, já na sua segunda viagem às Américas. Os espanhóis encontraram uma grande população de indígenas tainos e aruaques vivendo em cerca de 200 aldeias por toda a ilha. Em 1509, foi construído o primeiro assentamento europeu na ilha – Sevilha, que acabou sendo abandonado em 1524. Em 1534 foi fundada acidade de San Jago de la Vega, (atual Saint Catherine), elevada à posição de capital da colônia.

Os espanhóis organizaram diversas expedições para exploração da ilha, mas nunca demonstraram um maior interesse na colonização. Nessa época, seus conquistadores estavam expropriando grandes tesouros em ouro e prata no México e no Peru, e todos os olhares estavam fixos na área continental. Em 1655, os britânicos tomaram à força o último forte ainda controlado pelos espanhóis na ilha e assumiram o controle da Jamaica. 

Como aconteceu com a maioria das ilhas do Mar do Caribe, os britânicos transformaram a Jamaica num imenso canavial, com direito a toda a devastação florestal requerida pela atividade. Ao longo de dois séculos, a ilha foi uma grande produtora de açúcar e também a colônia que mais dependia da mão de obra de escravos africanos do Novo Mundo. Na década de 1820, a colônia chegou a produzir anualmente mais de 77 mil toneladas de açúcar

A partir de 1807, quando o tráfico de escravos foi proibido, os ingleses passaram a “importar” chineses e indianos para complementar o quadro de trabalhadores da colônia. Com a abolição da escravidão na Jamaica em 1838, milhares de trabalhadores indianos, mão de obra considerada extremamente barata pelos britânicos, passaram a ser deslocados para a ilha a fim de substituir os antigos escravos nas plantações de cana e produção do açúcar.  

Esses indianos trouxeram as primeiras mudas da Cannabis (vide foto), a conhecida maconha, e popularizaram o hábito de fumar a erva entre os nativos. A “ganja”, nome local da maconha, passaria a fazer parte da vida e da cultura popular dos jamaicanos, participando inclusive de diversos rituais de religiões locais como o conhecido Movimento Rastafári

Ao longo de todo o século XX, a produção agrícola da Jamaica passou a ser diversificada, deixando de ser totalmente dependente da cana e do açúcar. O país passou a produzir e exportar bananas, café, cacau, frutas cítricas, cocos e especiarias. A partir do final da década de 1950, a Jamaica começou a ganhar cada vez mais autonomia em relação ao Reino Unido, conseguindo a sua independência em 1962. Mesmo independente, a ex-colônia mantém uma boa relação com sua antiga metrópole – mais de 85% do açúcar produzido na Jamaica é exportado para a Inglaterra. 

Nas últimas décadas, a produção agrícola vem diminuindo gradativamente a sua participação no PIB – Produto Interno Bruto, da Jamaica, respondendo atualmente por menos de 7%. O setor de serviços, ao contrário, cresceu muito e já responde por mais da metade da economia jamaicana. As áreas ligadas ao turismo são as grandes geradoras de receitas, recebendo mais de 1,3 milhões de turistas a cada ano. 

Outro setor que cresceu muito nos últimos anos foi a mineração, especialmente da bauxita, matéria prima para a produção do alumínio. A mineração, beneficiamento e produção desse metal representa um dos maiores problemas ambientais da Jamaica na atualidade, comprometendo solos, águas e também a qualidade do ar. Esse setor da economia jamaicana é dominado por empresas multinacionais da China.

Conforme já comentamos em uma série anterior de postagens, a mineração é uma das atividades que mais degradam o meio ambiente em todo o mundo. Os problemas começam com a abertura das áreas de cavas, onde florestas e remanescentes florestais são removidos. A escavação dos solos, o transporte e o estocagem temporária dos minérios causam inúmeros problemas nas fontes de água. Outro grave problema são os rejeitos minerais – para a produção de 1 tonelada de alumínio são geradas até 4 toneladas de rejeitos inservíveis

Os depósitos de rejeitos minerais são fontes inesgotáveis de problemas. Expostos às fortes temporadas de chuvas da região do Caribe, esses resíduos absorvem grandes quantidades de águas pluviais, água essa que lixivia (arrasta) partículas de metais pesados como chumbo, arsênico, ferro, estanho e cromo, entre muitos outros, carregando esses elementos para as fontes de água. Acidentes com depósitos de resíduos da mineração, como aconteceu em Mariana e em Brumadinho aqui no Brasil, também são um grande risco. 

Uma das mais problemáticas mineradoras em operação na Jamaica é a empresa estatal chinesa JISCO – Jiuquan Iron and Steel Company. Essa empresa recebeu no último ano, por parte do órgão ambiental da Jamaica, 16 multas judiciais por descumprimento das normas ambientais do país. As principais queixas estão relacionadas à poluição do ar gerada pela unidade de processamento de alumínio e por degradação de corpos d’água com resíduos minerais na área de entorno de um depósito com mais de 250 hectares

Quando a empresa iniciou a produção em sua unidade de processamento de alumínio em 2016, foram anunciados investimentos de mais de US$ 3 bilhões em toda a Jamaica, inclusive com a promessa de construção de uma segunda unidade industrial até 2019 (o que acabou não se concretizando). Esse tipo de anúncio em um país pequeno e pobre “soa como música” para os ouvidos dos políticos. Sedentos por eventuais “compensações financeiras” (entenda-se aqui pagamentos de propinas), esses políticos costumam fazer vista grossa a “eventuais pecados” ambientais que venham a ser cometidos. 

Como sempre costuma acontecer nessas situações, a empresa alega que “não poupa esforços para o monitoramento e controle ambiental de todos os seus processos industriais”. Outra desculpa repetida frequentemente é que a unidade industrial atual está sobrecarregada com a produção. Como parte de seus esforços de relações públicas, a JISCO desenvolve programas de educação para jovens e apoia financeiramente diversas escolas do país. 

Assim como aconteceu na Ilha de São Domingos, a indústria açucareira jamaicana foi responsável pela devastação da maior parte das florestas nativas do país – os maiores fragmentos florestais remanescentes se concentram nas áreas montanhosas da ilha. Os principais atrativos turísticos da Jamaica, assim como em outras ilhas caribenhas, ficam no litoral, o que ajuda a esconder dos turistas a maioria dos problemas ambientais do interior. 

Aos símbolos mais representativos da Jamaica – o reaggae, o açúcar, o rum e a “ganja“, podemos acrescentar os problemas ambientais causados pela mineração. Que coisa mais triste.

AINDA FALANDO DOS PROBLEMAS AMBIENTAIS E SOCIAIS DO HAITI

Haiti

Nas últimas postagens falamos bastante da Ilha de São Domingos, onde se encontra de um lado a República Dominicana, país que possui a economia mais dinâmica do Caribe, e do outro o Haiti, o país mais pobre e desmatado das Américas. A ilha foi o berço da colonização das Américas, tendo assistido ao nascimento da primeira cidade com ocupação permanente – Santo Domingo, além da construção da primeira catedral católica e da fundação da primeira universidade do continente. 

Quando a expedição de Cristóvão Colombo desembarcou na ilha em 1492, encontrou um bioma único, coberto por densa floresta tropical e com farta disponibilidade de fontes de água. A ilha abrigava uma grande população indígena, estimada em até 250 mil indivíduos. Esses indígenas chamavam a ilha de Quiqueya. A colonização, espanhola de um lado e francesa do outro, exterminou a população indígena e devastou a cobertura vegetal da ilha: 70% das florestas da República Dominicana e 98% do Haiti desapareceram. Sucessivas ditaduras e governos militares completaram o quadro da tragédia, tendo sido muito mais devastador no lado haitiano

Para mostrar de uma forma mais detalhada e didática o que tudo isso significou para o Haiti, vamos analisar os problemas ligados à produção de alimentos, uma das necessidades mais fundamentais de qualquer país. 

Devido à incapacidade de produção, cerca de 80% dos alimentos consumidos pelos haitianos precisam ser importados, o que inclui produtos básicos como o arroz, a carne de frango e os ovos. No caso de derivados de leite, essa importação supera a marca de 65%. Dados de 1981 indicam que as importações de alimentos no país há 40 anos atrás eram da ordem de 19%, o que indica o elevado grau de deterioração da economia do Haiti após o terremoto de 2010. 

As importações de arroz são um exemplo do problema: o país precisa importar 400 mil toneladas de arroz a cada ano para atender o consumo da população, a um custo de US$ 240 milhões. Isso pode não parecer muita coisa para um país com o tamanho da economia do Brasil, mas esse valor sozinho corresponde a 1,5% do PIB – Produto Interno Bruto, do Haiti. 

É aqui que entramos no cerne do problema – as dificuldades para a prática da agricultura no país. A topografia local, por si só, já apresenta enormes dificuldades: 75% da superfície do Haiti é formada por terrenos montanhosos e com forte declividade, características que limitam grandemente a produção da maioria das culturas agrícolas, especialmente grãos como o arroz. Relembrando o que comentamos em postagem anterior, a palavra Haiti na antiga língua dos índios arahuacas significa “terra de montanhas”,  

O arroz, que é o cereal mais consumido pelos haitianos, depende de terrenos planos e com grande disponibilidade de água. No Extremo Oriente, onde também é o principal alimento, parte do arroz é produzido em regiões com topografia acidentada em países como a China, o Vietnã, o Japão e a Coreia. Porém, os agricultores de lá realizam complexas obras de engenharia para a formação de terraços em degraus, trabalhos que exigem grande organização social e apoio mútuo entre os agricultores, algo que não encontramos no Haiti. 

Outra dificuldade para os haitianos é a dramática redução dos solos férteis no país. Praticamente toda a cobertura florestal do país já foi destruída, expondo os solos a uma forte erosão pelas águas das chuvas e carreamento da camada fértil na direção dos corpos d’água. A forte declividade dos terrenos intensifica ainda mais os processos erosivos, reduzindo cada vez mais a disponibilidade de solos e, consequentemente, de fontes de água. 

Nas escassas áreas planas dos vales, onde se esperaria encontrar condições mais adequadas para a prática agrícola, existe um outro problema – os lotes das famílias são muito pequenos e cercados, o que impede o uso de máquinas agrícolas básicas como tratores puxando arados. Isso limita os trabalhos na terra ao uso de ferramentas manuais como enxadas, ancinhos e a arados com tração animal, o que exige grandes esforços físicos e resulta em uma baixíssima produtividade (vide foto). 

De acordo com informações do CNSA – Conselho Nacional de Segurança Alimentar, do Haiti, o tamanho médio dos lotes agrícolas se situa numa faixa entre 0,62 e 1,46 hectares (lembrando que 1 hectare equivale a uma área com 10 mil m²), quando o ideal seriam lotes mínimos com aproximadamente 3 hectares. Assim como acontece em outras regiões do mundo, a produção de alimentos dessas pequenas áreas vai atender apenas as necessidades de subsistência das próprias famílias, sem gerar excedentes para a venda. 

Sem conseguir produzir alimentos em quantidade suficiente para atender as suas necessidades e sem dinheiro para conseguir pagar os altos custos dos alimentos importados, cerca de 4,5 milhões de haitianos, o que chega bem próximo de metade da população do país, sofre com a “insegurança alimentar”, o que, em linguagem bem popular, significa que essas pessoas passam fome frequentemente. Segundo dados de 2009 da CNSA, 55% da população do Haiti vive em pobreza extrema

Os problemas ambientais, infelizmente, não param por aí. A derrubada maciça da cobertura vegetal do país destrói os solos e leva a um processo de degradação ambiental conhecido como desertificação. Conforme já comentamos em postagem anterior, o solo fértil é o resultado de milhares de anos de degradação de rochas e formação de sedimentos finos. Esses sedimentos se misturam a matéria orgânica resultante da decomposição de plantas e de restos de animais mortos, além de água e ar. 

Quando o solo fica sem a proteção da vegetação, as águas das chuvas arrastam essa camada de solo fértil milenar e expõe terrenos rochosos ou cobertos por sedimentos inertes onde as plantas não crescem. A radiação solar resseca esses terrenos desnudos, diminuindo a sua capacidade de absorver e reter água, formado um solo com características de deserto. A Península de San Nicolás no Norte do país e sobre a qual já falamos, está sofrendo fortemente com a desertificação. 

A incapacidade dos solos em absorver água leva a outro problema gravíssimo – as águas das chuvas não recarregam os lençóis freáticos e aquíferos subterrâneos, destruindo assim as nascentes das fontes de água. Nos períodos do verão, os rios e córregos apresentam grandes volumes – as águas pluviais escorrem rapidamente sobre os solos e correm diretamente para a calha dos rios. Esse grande volume de águas pluviais provoca enchentes em áreas baixas, destroi as margens dos rios, além de arrastar grandes quantidades de sedimentos para a calha dos rios, intensificando o assoreamento dos canais. Na época da seca, a maioria dos rios apresenta apenas um filete de água ou um leito completamente seco. 

Além de essencial à vida humana, a água é fundamental para a dessedentação dos rebanhos animais e irrigação de culturas agrícolas. O caos ambiental que tomou conta do Haiti há várias décadas está destruindo, literalmente, todos os processos ecológicos ligados à produção de alimentos. Sem água e sem comida, como se faz para sustentar mais de 11 milhões de pessoas? 

A tão propalada sustentabilidade é um tripé onde se equilibram o desenvolvimento econômico, a equidade social e a preservação ambiental. No Haiti, como é possível verificar através desse rápido resumo, se está muito longe de tudo isso. Resolver todos esses problemas é uma tarefa hercúlea, ainda mais em um país marcado pela instabilidade política, corrupção sistêmica e embates violentos entre as diferentes facções que lutam pelo controle do poder. 

Enquanto não se consegue achar um caminho para a recuperação do Haiti, milhões de pessoas vão continuar sofrendo com a falta de água, de alimentos e das mínimas condições de vida, dependendo cada vez mais da ajuda internacional.