O AZEITE DE DENDÊ E AS AMEAÇAS À BIODIVERSIDADE DOS RIOS DA MALÁSIA, OU UM PIRARUCU PERDIDO NUM LAGO DO SUDESTE ASIÁTICO

Dendê

Vamos começar falando de uma notícia surpreendente, publicada pelos grandes veículos de comunicação na última semana: um pirarucu com 2,4 metros de comprimento e cerca de 108 kg foi capturado em um lago de Sabah, uma região da Ilha de Bornéu, na Malásia. Para os que não conhecem, a Malásia é um país continental/insular do Sudeste Asiático, que se estende entre a península malaia e a Austrália. 

Já o pirarucu (Arapaima gigas), esse é um dos peixes mais típicos da Bacia Amazônica. A espécie pode chegar a um comprimento de 3 metros e a um peso superior aos 250 kg, sendo considerado uma das maiores espécies de peixes de escamas de água doce do mundo. O pirarucu foi intensamente caçado por causa da qualidade e sabor de sua carne, estando na lista das espécies mais vulneráveis dos rios da Bacia Amazônica. Durante o Período Colonial, as aldeias dos Jesuítas instaladas na região processavam e salgavam o pirarucu, que depois era vendido em Portugal sob o rótulo de “bacalhau da Amazônia”. 

Imaginar um peixe como o pirarucu nadando nas águas de um lago no outro lado do mundo é surreal e só pode ser explicado pela introdução artificial da espécie nesse ecossistema. Onívoro, o pirarucu come frutas, insetos, moluscos, crustáceos, peixes, anfíbio, répteis e, conforme surja a oportunidade, ovos e aves aquáticas. Um peixe do seu porte introduzido em um outro ecossistema poderá resultar em enormes impactos às outras espécies aquáticas locais. 

Esse caso preocupante e curioso coloca em evidência duas das mais importantes florestas equatoriais do mundo: a Floresta Amazônica e as Florestas do Sudeste Asiático. Também mostra como a mídia internacional trata de maneira diferente problemas muito parecidos: a destruição das florestas e as suas consequências na mudança do clima do planeta. A Floresta Amazônica, talvez pela sua grandeza e por todo o misticismo que a cerca, não sai dos noticiários e o Brasil é responsabilizado sistematicamente, por países industrializados, de ser omisso na proteção da floresta e de ser um dos grandes responsáveis pelo aquecimento global. Apesar do exagero, é preciso reconhecer que parte dessas acusações são verdadeiras. 

Agora, uma pergunta – vocês têm visto notícias frequentes sobre a destruição das Florestas do Sudeste Asiático? Essas notícias até são veiculadas, mas em quantidade muito pequenas quando defrontadas com a realidade – cerca de 2/3 das florestas da Malásia e da Indonésia foram derrubadas nas últimas décadas, especialmente para a exploração da madeira e para ampliação da agricultura. Como consequência de toda essa destruição, os rios locais e toda a sua biodiversidade estão seriamente ameaçados. Uma das grandes vilãs de toda essa devastação ambiental é uma palmeira de origem africana – a palma-da-Guiné ou dendezeiro (Elaeis guineensis), que produz um fruto rico em óleo e muito conhecido pelos brasileiros: o azeite de dendê

O óleo de palma ou azeite de dendê responde por cerca de 35% de todos os óleos de origem vegetal produzidos no mundo, gerando negócios da ordem de US$ 40 bilhões a cada ano. Trata-se de um produto versátil, que pode estar presente em cerca da metade dos produtos vendidos em um supermercado. Uma das aplicações mais recentes do azeite de dendê é o seu uso como biocombustível em motores a diesel. A abertura de campos agrícolas para o plantio de dendezeiros responde por cerca de 0,4% dos desmatamentos mundiais – na Indonésia e Malásia, entretanto, essa cultura responde por metade dos desmatamentos. Ou seja, o biocombustível renovável feito a partir dos frutos do dendezeiro é o maior responsável pela destruição das Florestas Equatoriais do Sudeste Asiático

Uma das áreas que mais vem sofrendo com os desmatamentos e o avanço das plantações de palma na Malásia e também no país vizinho, a Indonésia, são os solos dos pântanos de turfa. Esses solos são formados pelo acúmulo de matéria orgânica de origem vegetal semidecomposta, acumuladas por mais de 8 mil anos nas margens de rios, especialmente nas adjacências de áreas de manguezais. Os solos desses pântanos de turfa têm uma camada entre 8 e 20 metros de profundidade e costumam se estender entre 3 e 5 km sobre uma planície de inundação. As Florestas Equatoriais do Sudeste Asiático possuem cerca de 20 milhões de hectares de solos de turfa, o que corresponde a mais de 60% das turfeiras tropicais do mundo

Os pântanos de turfa funcionam como esponjas, absorvendo todo o excedente de água durante o período das chuvas, ajudando a controlar a intensidade das enchentes. Na época da seca, essas áreas liberam água, ajudando a garantir a vazão mínima dos rios, uma função muito parecida com aquela realizada pelos Banhados dos Pampas Gaúchos. Esses ecossistemas abrigam uma biodiversidade própria e são fundamentais para o equilíbrio dinâmico dos caudais dos rios e também da biodiversidade aquática. 

Os serviços ambientais fornecidos pelas turfeiras vão ainda mais longe: elas também formam uma barreira natural que protege as terras litorâneas contra a intrusão de águas salinas. Também funcionam como filtro, retendo substâncias poluentes que poderiam atingir os rios e lagoas. Fornecem abrigos e alimentos para toda uma gama de animais silvestres, inclusive algumas espécies seriamente ameaçadas de extinção como o rinoceronte de Sumatra (Dicororhinus sumatrensis), além de uma outra função de grande importância ambiental: as turfeiras armazenam grandes quantidades de carbono, evitando assim que ele escape para a atmosfera na forma de dióxido de carbono, um dos gases de efeito estufa responsáveis pelo aquecimento global.

A drenagem dessas áreas pantanosas, que é feita através da abertura de canais, cria solos secos para a construção de moradias e oferece áreas de grande fertilidade para a ampliação de áreas de cultivo. Apesar do aparente ganho em novas áreas disponíveis, a secagem das turfeiras aumenta imensamente os riscos de incêndios florestais, que já são intensos na região. A turfa é um material altamente combustível, usado em muitos países para o aquecimento de casas e para cozinhar – na Escócia, a queima da turfa é usada na destilação do whisky.

O contato acidental da turfa com uma fonte de calor pode resultar em um grande desastre. Em outubro de 1995, citando um exemplo, um incêndio originado numa região de turfeiras em Selangor destruiu 16 hectares da reserva florestal de Bukit Tungaal. Um caso semelhante ocorreu anos depois numa área florestal de Kampung Penadah, onde 160 hectares de floresta foram queimados. 

As Autoridades da Malásia, preocupadas com os ganhos obtidos com as exportações de azeite de dendê, parecem fazer vista grossa para os problemas e vão permitindo um avanço cada vez maior dos desmatamentos e ocupação de pântanos de turfa. Em algumas regiões do país, 80% dos antigos pântanos de turfa foram dessecados e transformados em campos agrícolas. Entre os países que compram o azeite de dendê da Malásia estão a França e a Alemanha, dois dos países que mais têm elevado o tom das críticas ao Brasil por causa da destruição da Floresta Amazônica. 

Enquanto muitos falam e outros ganham muito dinheiro, florestas e pântanos de turfa desaparecem silenciosamente no Sudeste Asiático, comprometendo as águas de rios e lagos, e ameaçando toda a rica biodiversidade aquática onde se encontra até o pirarucu da Amazônia. 

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