A NAVEGAÇÃO NO RIO RENO, OU AO SOM DE “DIE LORELAI”

Castelos do Rio Reno

Uma antiga lenda alemã fala de um rochedo às margens do rio Reno, entre as cidades de Koblenz e Wiesbaden, onde uma linda moça passa os dias a pentear os longos cabelos loiros e a cantar. Os marinheiros dos muitos barcos que passavam pelo lugar, se encantavam com a moça e acabavam por naufragar em choques contra as rochas ou indo ao encontro dos mortais turbilhões na água. A moça da lenda é conhecida como Die Lorelai e existem muitas referências a ela na literatura e nas músicas folclóricas da Alemanha. Neste link você vai encontrar uma maravilhosa versão de uma destas músicas folclóricas. 

Esta lenda tem um fundo de verdade – esse trecho do rio Reno é bem estreito, com uma largura de aproximadamente 25 metros e muitas embarcações ao longo da história encontraram seu fim nos rochedos das margens e do fundo das águas. Na década de 1930, o governo alemão realizou diversas obras no local, implodindo várias rochas e, assim, aumentou em muito a segurança da navegação fluvial, a despeito dos desejos da bela Lorelai

O Reno é um dos rios mais importantes da Europa e, desde a antiguidade, a navegação pelas suas águas vem sendo fundamental para a formação e manutenção de grandes impérios e nações. Com quase 1,3 mil quilômetros de extensão, desde as suas nascentes em geleiras nos Alpes Suíços até sua foz no Mar do Norte nas proximidades de Rotterdam, o rio Reno é uma rota vital para a economia da Suíça, Áustria, Alemanha, Liechtenstein, França e Holanda. 

O Porto de Rotterdam, localizado próximo do encontro das águas do Reno com o Mar do Norte na Holanda, exemplifica a importância dessa importante via de transporte fluvial: é um dos maiores portos do mundo, com cerca de 40 km de extensão linear entre cais e depósitos, movimentando cerca de 400 milhões toneladas de carga a cada ano e empregando aproximadamente 300 mil trabalhadores. A cidade de Rotterdam, que tem 500 mil habitantes, é sede de um importante complexo industrial, além de abrigar o maior polo petroquímico da Europa

A navegação através do rio Reno é dividida em dois trechos distintos: o primeiro, entre o Porto de Rotterdam e a cidade alemã de Diusburg, onde se localiza o maior porto seco do continente, onde circulam mais de 20 mil embarcações de carga a cada ano. Neste trecho, onde o canal do rio é largo e profundo, são utilizadas grandes barcaças de carga. No segundo trecho, entre Diusburg e a cidade de Basileia na Suíça, onde o Reno é mais estreito, são utilizadas barcaças menores, mais fáceis de manobrar e mais seguras.  Este último trecho do rio, que os povos antigos chamavam de Reno Selvagem, até o início do século XIX era bastante irregular e altamente suscetível aos altos e baixos naturais das águas, o que dificultava a nevegação. Foram realizadas diversas obras para estreitar a largura do canal, eliminando baías e lagoas marginais, e assim garantir um nível mais regularizado da profundidade das águas. 

Além do transporte de cargas, o rio Reno também é rota de inúmeras embarcações destinadas ao transporte regular de passageiros, além de disputadas viagens de cruzeiros turísticos. As margens do Reno, especialmente na Alemanha, são famosas pelos seus inúmeros castelos da Era Romantica e imensas regiões produtoras de vinho. A viticultura, aliás, se mantém forte na região há séculos graças a farta disponibilidade de água para a irrigação das plantações e para o transporte das bebidas via navegação fluvial até os grandes centros consumidores no Norte da Europa.

Apesar de fundamental para a economia de diversos países europeus, o rio Reno vem passando por momentos delicados nas últimas décadas. Com a derrota dos nazistas e colapso da Alemanha, que foi praticamente destruída ao final da Segunda Guerra Mundial em 1945, todos os esforços políticos e econômicos se concentraram na reconstrução do país a qualquer custo. Esses custos implicaram, entre outros prejuízos, num processo descontrolado de poluição do rio Reno. Muitos especialistas comparam esse processo ao que ocorreu com o rio Tietê em São Paulo. A situação chegou a um ponto tão crítico que, nas décadas de 1950 e 1960, era praticamente impossível pescar um salmão ou uma enguia, dois dos peixes mais comuns nas antigas águas do Reno. 

A poluição do Reno atingiu seu ápice em 1986, quando a explosão de uma fábrica de produtos químicos na cidade da Basileia levou ao vazamento de uma enorme quantidade de produtos químicos. As águas do rio mudaram para uma cor vermelha e milhares de toneladas de peixes, das poucas espécies que ainda conseguiam sobreviver em meio à poluição das águas, morreram envenenadas em poucos dias. As repercussões deste acidente foram gravíssimas, mas acabaram por desencadear um gigantesco projeto de recuperação ambiental do rio Reno. Após décadas de trabalho e muito investimento em toda a sua bacia hidrográfica, praticamente todas as fontes de poluição foram controladas e o rio Reno voltou a apresentar águas limpas. 

Um outro sério problema ambiental está ligado ao despejo de águas de lastro pelas embarcações que circulam ao longo do rio. Para equilibrar e estabilizar o nível das embarcações, especialmente quando se navega sem carga, as tripulações enchem os tanques do navio com água. Peixes, crustáceos e outros seres vivos acabam sendo sugados durante este processo e acabam nos tanques das embarcações. Ao final das viagens, essa água de lastro é despejada nas proximidades dos portos – muitas espécies exóticas acabam sendo introduzidas no meio ambiente. Uma espécie de camarão do Mar Negro, conhecida como camarão assassino (Dikerogammarus villosus), acabou sendo introduzida desta maneira nas águas do rio Reno. Diversas espécies de pequenos crustáceos nativos do rio foram transformadas em presas deste camarão assassino e hoje estão extintas. 

O aquecimento global também entra na lista de ameaças do importante rio Reno. As águas que formam as suas nascentes, os rios Hinterrhein Vordebrhein na Suíça, vem do derretimento de geleiras nas montanhas dos Alpes. O aumento das temperaturas na Europa está acelerando esse derretimento – nos últimos 25 anos, essas geleiras já perderam 25% de suas massas. Se este padrão de derretimento das geleiras se mantiver, em menos de um século não restará um único cubo de gelo nas montanhas e as nascentes do Reno desaparecerão, para o desespero de milhões de cidadãos que têm suas vidas em sincronia com as correntezas do lendário rio

Nas antigas lendas germânicas, Lorelai era a grande ameaça à navegação nas águas do rio – nos dias de hoje, são as ações dos próprios homens as que mais ameaçam a vida e a economia no Reno. 

O bicho homem é mesmo muito mais temível que qualquer sereia, duende, valquíria ou criatura mítica que se possa imaginar.  

Deus que nos ajude e nos salve de nós mesmos. Amém! 

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