O DANÚBIO “AZUL”

Rio Danúbio

Com aproximadamente 2,8 mil km de extensão, o rio Danúbio atravessa 9 países da Europa e ocupa a posição de segundo maior rio do continente, perdendo apenas para o rio Volga da Rússia. Desde a antiguidade, o Danúbio vem ocupando uma posição destacada no tráfego de cargas e de pessoas entre a região da Floresta Negra, na Alemanha, e o Mar Negro, na divisa da Romênia com a Ucrânia. Essa importância cresceu muito ao longo dos séculos, tanto que, em 1865, foi negociado e assinado o Acordo de Paris, instituindo a livre navegação em suas águas. Pouco tempo depois, em 1866, o compositor austríaco Johann Strauss II apresentou ao mundo aquela que seria a sua valsa mais famosa – título original da peça musical em alemão era “An der schönen blauen Donau”que pode ser traduzido como Sobre o belo Danúbio Azul”. Com o tempo, o nome acabou abreviado para Danúbio Azul. Curiosamente, as águas do rio oscilam entre um verde acinzentado e o marrom, sem nunca apresentar a cor azul. 

A hidrovia do rio Danúbio é uma das mais importantes do mundo, tanto em termos de volumes de cargas e de pessoas transportadas todos os anos quanto pelo número de países cortados por ela: Alemanha, Áustria, Eslováquia, Croácia, Sérvia, Hungria, Bulgária, Romênia e, na região do Delta do Danúbio, um trecho da Ucrânia. A lista de países fica ainda maior quando se incluem os afluentes navegáveis da bacia hidrográfica: República Tcheca (rio March), Bósnia-Herzegovina (rio Save) e Moldávia (rio Pruth). A maior parte dos países listados não têm acesso direto ao mar, algo que representaria um enorme obstáculo ao seu desenvolvimento econômico, uma vez que o comércio marítimo é fundamental para os “grandes” países. 

A ampliação e o desenvolvimento ainda maior da infraestrutura da hidrovia do rio Danúbio está há vários entre as prioridades da União Europeia – o Governo de Bruxelas prevê investimentos totais de 40 bilhões de Euros, considerando-se o período entre 2012 e 2020, especialmente em obras civis. Considando a cotação do Euro hoje (R$ 3,92 em 14/03/2018), estamos falando de um investimento de R$ 160 bilhões, aproximadamente o tamanho do rombo fiscal da economia do Brasil em 2017. Em 2012, citando um exemplo, o baixo volume de chuvas na bacia hidrográfica causou uma forte baixa no nível do Danúbio, o que forçou as empresas de navegação e de fretamentos de navios a reduzir pela metade o volume de cargas transportadas. Em outros anos, foram os excessos das chuvas os grandes causadores de problemas: grandes trechos das margens foram inundados, impedindo as operações de carga e de descarga em muitos portos. Nestas últimas semanas, quando a Europa passou a sofrer com as baixíssimas temperaturas de um inverno louco, vários trechos do rio Danúbio congelaram e estão dificultando a navegação.

Entre os grandes rios europeus, o Danúbio é o único que corre no sentido Oeste-Leste. O rio nasce na região da famosa Floresta Negra, uma cordilheira no Sudoeste da Alemanha que funciona como um verdadeiro divisor de águas na Europa Central: ao Sul encontramos o rio Reno, que tem sua grande bacia hidrográfica correndo na direção do Mar do Norte (Oceano Atlântico); ao Oeste, nascem dois pequenos rios chamados Brigach Breg, que se juntam na altura da cidade de Donaueschigen, formando a partir daí o rio Danúbio (que em alemão é chamado Donau). A partir deste ponto, o rio Danúbio vai atravessar uma infinidade de cidades importantes, onde se destacam: Ulm, Ingolstadt, Ratisbona, Linz, Viena, Bratislava, Budapeste (vide foto), Vukovar, Novi, Sad, Belgrado, Ruse,  Brăila e Galati. Aproximadamente 100 milhões de pessoas vivem na região da bacia hidrográfica do rio Danúbio. 

 Navegável em praticamente toda a sua extensão, o rio Danúbio sempre foi um caminho natural para o povoamento e deslocamento de populações na Europa Central desde os tempos dos Homens de Neanderthal, uma das primeiras espécies de seres humanos a viver no continente. Gregos, romanos, vikings, otomanos, árabes, germânicos, eslavos e hunos, entre outros povos ancestrais, navegaram as águas do Danúbio em busca de caça e comida, povoamento de territórios e criação de cidades, conquistas militares e/ou defesa de territórios já conquistados, comércio, cultura ou, simplesmente, expansão de religiões e de cultos. 

Se a hidrovia do rio Danúbio, sozinha, já era considerada uma das mais importantes do mundo, a partir de 1992 ela simplesmente passou a ter uma importância duplicada. Naquele ano foi concluída uma polêmica obra que vinha sendo imaginada desde o reinado do Imperador Carlos Magno há 1.200 anos atrás: o canal de interligação Meno-Danúbio. Com cerca de 171 quilômetros de extensão, esse canal permitiu a integração entre as hidrovias dos rios Danúbio e Reno através do rio Meno (Main em alemão), que é navegável por 388 km entre as cidades de Bamberg, na Baviera, e Wiesbaden, sua foz no rio Reno. Essa interligação permite a navegação direta por via fluvial entre a cidade romena de Constança, no Mar Negro, e o porto holandês de Rotterdam, no Mar do Norte (Oceano Atlântico).  

Para se ter uma ideia do impacto desta obra na Comunidade Européia, imagine a construção de um canal de navegação entre os rios Paraná e Araguaia, o que permitiria, por exemplo, a navegação fluvial de barcaças de carga e de passageiros entre Letícia, cidade na divisa entre o Brasil e a Colômbia, e Montevídeo, no Uruguai. É evidente que uma hidrovia sulamericana de tais proporções exigiria imensos investimentos e um planejamento de longo prazo, algo que estamos bem longe de conseguir por aqui, mas que traria benefícios econômicos gigantescos aos países e populações que vivem ao longo de todo o trajeto. 

Se Johann Strauss, inspirado por um rio com 2.800 quilômetros de extensão, conseguiu compor uma das valsas mais famosas do mundo, imagine só o que nossos músicos, reconhecidos entre os melhores, não conseguiriam fazer diante de uma hidrovia formada pela união das bacias hidrográficas dos rios Amazonas e Prata? 

Sonhar é mesmo bom demais…

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