A “MORTE” DA GELEIRA OKJÖKULL NA ISLÂNDIA

Reykjavik

Na postagem de hoje, gostaria de tecer alguns comentários sobre uma notícia que foi veiculada discretamente pela imprensa, informação essa que sem uma devida contextualização perde muito da sua real importância. Trata-se do lamentável derretimento de uma geleira na Islândia, um evento que terá profundas repercussões ao longo das próximas décadas.

Neste último dia 18 de agosto, foi descerrada uma placa em homenagem ao desaparecimento da Geleira Okjökull, na Islândia, considerada a primeira geleira batizada do país a derreter em função do aquecimento global. Em 1901, essa geleira apresentava uma massa de gelo que ocupava uma área de 38 km² – em 1° de agosto desse ano, a massa de gelo era inferior a 1 km². A Islândia, nome que significa literalmente “Terra do gelo”, tem cerca de 400 geleiras e, segundo as projeções científicas, dentro de 200 anos todas elas terão desaparecido por causa do aquecimento da temperatura do planeta.

O texto dessa placa traz um importante alerta para toda a humanidade:

“Okjökull é a primeira geleira islandesa a perder seu status de geleira. ‘Nos próximos 200 anos todas as nossas geleiras devem seguir o mesmo caminho. Esse monumento atesta que nós sabemos o que está acontecendo e o que deve ser feito. Só vocês sabem se fizemos o que deveria ter sido feito”. 

Esse não foi um caso isolado – uma outra grande geleira do país que está apresentando um derretimento acelerado e preocupante é Vatnajökull, a maior massa de gelo de toda a Europa. O grande volume de água resultante do derretimento está carregando grandes quantidades de sedimentos na direção de fiordes do Sul do país, o que tem prejudicado o deslocamento de navios pesqueiros entre os portos e as águas do Oceano Atlântico. A exportação de peixes, principalmente da espécie capelim, representa quase 40% das receitas externas do país – uma crise nesse setor pode levar a Islândia rapidamente para uma recessão.

O capelim ou caplin (Mallotus villosus) é um peixe encontrado no Norte dos Oceanos Pacífico e Atlântico, além das águas do Círculo Polar Ártico, onde a espécie se alimenta de krill, um camarão microscópico. O capelim é muito valorizado por causa de suas ovas – o masago, que são usadas, principalmente no Japão, como coberturas de sushis e sashimis. Essa espécie de peixe era abundante nas águas frias ao redor da Islândia. O aumento da temperatura das correntes marinhas que chegam até o país, que muito provavelmente está acontecendo por causa do aquecimento global, tem levado a uma migração dos cardumes de capelim para águas mais ao Norte, o que tem encarecido as operações de pesca dos barcos islandeses. Outras espécies de peixes importantes para a Islândia são o bacalhau e o arenque.

A Islândia é um país insular localizado no Norte do Oceano Atlântico, que ocupa uma superfície de apenas 102 mil km² (equivalente ao Estado de Santa Catarina) e que possui uma população de pouco mais de 300 mil habitantes. Diferente de outros países europeus, a Islândia não possui cidades monumentais com construções imponentes ou uma culinária maravilhosa – a comida do país, aliás, é considerada péssima pela maioria dos visitantes. O charme da Islândia sempre esteve associado à sua natureza gelada e aos seus vulcões ativos. Cerca de 10% da superfície do país é ocupada por geleiras, que formam as paisagens de “cartão-postal” e determinam a dinâmica das águas da Islândia. O país está localizado exatamente no encontro de duas grandes placas tectônicas – a Norte Americana e a Euro-asiática, o que resulta em uma intensa atividade vulcânica.

Em 2010, um dos maiores vulcões da Islândia, o Eyjafjallajökull entrou em uma fase de intensa atividade, lançando grandes quantidades de cinzas na atmosfera. Isso forçou a paralisação do tráfego aéreo de toda a Europa por várias semanas e mostrou toda a força da natureza no pequeno país do “gelo e do fogo”. Naquela ocasião, eu fiquei preso num aeroporto da Espanha por quase dois dias esperando a chegada de um voo de conexão. Centenas de milhares de pessoas em aeroportos de toda a Europa e de vários países ao redor do mundo enfrentaram uma situação de completo caos, onde ninguém conseguia respostas ou qualquer atitude concreta das companhias aéreas.

Uma das mais importantes fontes de divisas da Islândia é o turismo, atividade que poderá ser muito prejudicada em função das mudanças climáticas. O país recebe mais de 2 milhões de visitantes a cada ano, que buscam as paisagens glaciais das suas geleiras, as piscinas naturais com suas águas termais e os vulcões. A capital do país, Reykjavik (vide foto), vem apresentando temperaturas cada vez mais altas ao longo dos verões nos últimos anos, algo que faz os banhos nas águas termais “perderem a graça” para muitos turistas. Já o derretimento acelerado de algumas geleiras, que além de comprometer a tradicional beleza das paisagens, tem reduzido os caudais de muitos rios e prejudicado atividades como canoagem, rafting e a pesca esportiva.

As mudanças climáticas também poderão desencadear uma grande crise energética na Islândia. A energia elétrica do país vem, predominantemente, de usinas hidrelétricas e centrais de energia geotérmica, onde a lava dos vulcões é usada para criar grandes quantidades de vapor e movimentam turbinas de geração de energia. Nesses dois casos, há necessidade de grandes volumes de água, que na Islândia tem como fontes as geleiras, que derretem lentamente e formam os caudais dos rios. Com o aumento gradual das temperaturas do planeta, os invernos no país estão ficando menos rigorosos e com precipitações menores de neve a cada ano – as geleiras perdem massa no verão e não as recuperam no inverno, ficando menores a cada ano que passa.

O derretimento de geleiras por causa do aquecimento global é atualmente um problema mundial e bilhões de pessoas correm o risco de perder suas principais fontes de água dentro de poucas décadas. Na Ásia, o derretimento de geleiras das Montanhas Himalaias poderá comprometer as nascentes de rios importantes como o Indo, GangesBramaputra, Irauádi, Amu Daria e Syr Daria, Yang-Tsé (Rio Azul), Huang-Ho (Rio Amarelo) e o Mekong. Cerca de 2 bilhões de pessoas na Ásia dependem da água desses rios.

Aqui na América do Sul, geleiras dos Andes estão desparecendo a uma velocidade impressionante – das 10 geleiras que existiam na Venezuela em 1952, só restam 5; na Colômbia, 8 geleiras desapareceram restando apenas 6. No Equador, as geleiras dos vulcões Antizana, Cotopaxi e Chimborazo perderam entre 42 e 60% de suas massas. Na Cordillera Blanca no Peru, a cadeia de montanhas em área tropical com a maior concentração de geleiras do mundo, as 722 geleiras existentes sofreram uma redução de 22,4% desde 1970; na Bolívia, as geleiras de Charquini perderam entre 65 e 78% das suas áreas nas últimas décadas.

Na distante Islândia, a velocidade dessas mudanças climáticas é muito maior e seus efeitos mais devastadores. A “morte” da Geleira Okjökull é só um indício do que virá…

 

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