OS “RIOS VOADORES DA AMAZÔNIA” E AS TORNEIRAS DOS PAULISTANOS

Na tarde do dia 18 de agosto de 2019, nós paulistanos fomos surpreendidos por um “fenômeno” climático novo: por volta das 15h00, o céu da cidade começou a escurecer rapidamente e, menos de uma hora depois, todas as luzes das ruas e dos faróis dos veículos já estavam acesas. À primeira vista, parecia que uma violenta tempestade estava prestes a cair sobre a cidade. Mas o que veio a seguir foi algo inédito – uma chuva escura, com água na cor de chá mate. 

Foi somente no dia seguinte que explicações mais plausíveis começaram a surgir – os meteorologistas concluíram que grandes volumes de fumaça das queimadas que ocorriam naquele momento em grandes áreas da Amazônia Ocidental, principalmente no Acre e na Bolívia, foram carregadas pelas fortes correntes de vento na direção da Região Metropolitana de São Paulo. A fuligem e as cinzas dessa fumaça se misturaram às nuvens e teve início a “chuva negra” daquela tarde. 

Esse evento inédito (pelo menos nessa escala) foi um verdadeiro divisor de águas nas “narrativas” sobre a destruição da Amazônia. Políticos oportunistas como Emmanuel Macron, Presidente da França, iniciaram uma série de discursos falando sobre a destruição da “Nossa Amazônia”. Celebridades e famosos de todos os quilates embarcaram nessa canoa e também passaram a divulgar fotos das queimadas na floresta (mesmo que não fossem exatamente fotos de queimadas na Amazônia). Foi um verdadeiro circo. 

A ligação direta entre as queimadas na Amazônia e a “chuva negra” em São Paulo naquela tarde demonstrou a íntima relação que existe entre as duas regiões. Falo aqui dos “rios voadores da Amazônia”, fundamentais para a formação das chuvas em uma extensa faixa do território brasileiro, em especial nas Regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul. São grandes massas de umidade que surgem a partir da evapotranspiração da floresta e que são arrastadas ao longo de milhares de quilômetros, indo provocar chuvas em locais muito distantes da Amazônia

Como todos devem saber, a maior parte da água das chuvas tem como origem a evaporação de imensas quantidades de água nos oceanos. De acordo com algumas estimativas científicas, cerca de 383 mil km³ de água evaporam dos oceanos a cada ano. Esse volume equivale a uma camada de 106 cm da água de todos os oceanos e mares do mundo. Toda essa água evaporada se precipita na forma de chuva, neve, granizo, água congelada, orvalho, entre outras – 75% dessas precipitações ocorrem sobre os oceanos e os 25% restantes sobre os continentes

Uma parte das águas continentais também acaba se perdendo para a atmosfera. Uma parte da águas que está presente nos solos se perde por evaporação e as plantas perdem água através da transpiração. A junção desses dois processos forma a chamada evapotranspiração. Em uma região gigantesca como a Floresta Amazônica, os volumes de água que são lançados de volta a atmosfera através da evapotranspiração são fabulosos e formam os chamados “rios voadores da Amazônia”. 

Esse “rios” carregam grandes massas de umidade, que são espalhadas pelo território brasileiro pela força dos ventos e passam “voando” sobre nossas cabeças sem que nos demos conta. Grandes massas de ar frio vindas do Sul do continente ou da Cordilheira dos Andes se chocam com esse vapor quente, dando início as providenciais chuvas que irrigam nossos campos, transbordam em nossos rios e garantem a sobrevivência de plantas, animais e seres humanos em todos os cantos. 

A grande massa de vegetação da Floresta Amazônica gera uma imensa área de baixa pressão atmosférica, que por sua vez “puxa” uma grande parte da água evaporada no Oceano Atlântico Sul para o interior do nosso continente. A maior parte dessa água é precipitada sobre a floresta na forma de chuva. Num segundo momento, a evapotranspiração da Floresta Amazônica devolve uma grande parte dessa água para a atmosfera na forma de vapor, que primeiro é arrastada no sentido Oeste em direção da Cordilheira dos Andes. 

Com uma altura média de 4 mil metros, a Cordilheira dos Andes forma uma barreira natural que desvia essas massas de umidade em direção ao Sul do continente. Fortes correntes de vento entram em cena e arrastam essa umidade por todo o Centro-Sul do país. Uma parte da umidade vai ser precipitada na forma de neve e chuvas nas encostas da Cordilheira dos Andes, passando a alimentar as nascentes de muitos rios da Bacia Amazônica. Essa verdadeira “bomba d’água” amazônica vem funcionando de maneira interrupta há dezenas de milhões de anos. 

Uma região brasileira que merece destaque por estar justamente no caminho dos “rios voadores” é o Centro-Oeste, transformado nas últimas décadas em um dos mais importantes celeiros agrícolas do mundo. As grandes massas de umidade geradas pela evapotranspiração da Floresta Amazônica trazem as preciosas chuvas que irrigam as terras e faz a produção de grãos dessa região crescer sem parar. As chuvas também permitem o crescimento das extensas pastagens onde dezenas de milhões de cabeças de gado se alimentam. Ou seja – todos os negócios agropecuários são dependentes da Floresta Amazônica!

Essa observação é fundamental aqui – os grandes produtores rurais brasileiros estão sendo acusados sistematicamente pela grande mídia internacional de serem os grandes algozes da destruição da Floresta Amazônica. Fala-se incessantemente que grandes extensões da floresta estão sendo derrubadas e queimadas para permitir o plantio de grandes campos de soja e formação de pastagens para a criação de gado. Existem sim muitos problemas e todos sabemos que alguns fazendeiros gananciosos e muitos pequenos sitiantes imprudentes acabam sendo os responsáveis pelo início de grandes incêndios nas matas. Entretanto, a maior parte dos produtores rurais, especialmente as novas gerações que estão assumindo os negócios das famílias, tem plena consciência da importância da preservação da Floresta Amazônica.

Por maiores problemas que possam existir entre a agropecuária e as florestas, os “rios voadores” demonstram claramente que existe uma perfeita simbiose entre a Floresta Amazônica e os demais biomas brasileiros. Caso a Amazônia venha a ser destruída como muitos profetizam em todo o mundo, esses “rios voadores” irão, literalmente desaparecer, levando junto com eles as chuvas que nutrem os campos de grande parte das regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul. Ou seja: “matar” a Amazônia provocaria a morte da maior parte dos negócios agropecuários do Brasil – todos sairemos perdendo. Muito além de ser um verdadeiro fetiche para políticos, artistas e ambientalistas estrangeiros, a preservação da Floresta Amazônica é fundamental para nós brasileiros, especialmente aqueles que vivem do agronegócio.

E não é só isso – parte substancial da água usada no abastecimento de grande parte da nossa população depende das chuvas formadas a partir da água trazida por esses “rios voadores”. Um desses casos é a Região Metropolitana de São Paulo, que tem no Sistema Cantareira o seu principal manancial de abastecimento. Na última postagem falamos da situação preocupante do Cantareira, onde a ocorrência de chuvas vem diminuindo ano após ano.  

Uma das principais causas apontadas por especialistas para a redução das chuvas nessa região são justamente os desmatamentos na Amazônia e a redução dos volumes de água carregados pelos “rios voadores”. Ou seja – as torneiras dos paulistanos, e de moradores de muitas outras grandes cidades brasileiras, correm o risco de ficar secas por causa de desmatamentos e queimadas na Floresta Amazônica, que está a 2 mil ou 3 mil km de distância de suas casas. 

Encerro com algo para todos pensarem na cama: parodiando um ditado muito conhecido sobre a famosa cidade norte-americana de Las Vegas, nem tudo o que acontece na Amazônia fica na Amazônia… 

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