OS SALMÕES DO RIO TÂMISA E OS “TRAÍRAS” DO RIO TIETÊ

Londres aéreo

Eu tinha uns 10 ou 11 anos de idade quando vi uma reportagem na TV falando dos problemas de poluição no rio Tietê, que naqueles tempos cresciam a olhos vistos. A certa altura, o repórter começou a conversar com Shigeaki Ueki, um importante Ministro do ciclo dos Governos Militares. Perguntado sobre essa questão, o Ministro afirmou que o Governo planejava todo um conjunto de obras de saneamento básico e que, entre 10 e 15 anos, o rio estaria completamente limpo. 

Se essa promessa do Governo Federal e do seu “governo fantoche” no Estado de São Paulo há época tivesse sido cumprida, o rio Tietê estaria limpo no início da década de 1990 e todos nós poderíamos estar pescando, navegando e nadando nas suas águas. Eu sinceramente desconheço qual era a fauna aquática original do antigo rio Tietê, mas posso afirmar que nela se encontravam as traíras, uma espécie de peixe comum em todas as bacias hidrográficas do Brasil. Infelizmente, por causa de promessas de outros “traíras”, que na gíria aqui de São Paulo e de outras regiões do país significa traidor, as promessas não foram cumpridas e o Tietê está no topo da lista de rios mais poluídos do Brasil. 

Vamos falar hoje de um outro rio, que já foi muito mais poluído que o Tietê, e que graças ao esforço monumental de sucessivos Governos, voltou a ser um rio limpo e cheio de ida. Falamos do rio Tâmisa, o mais importante rio da Inglaterra. 

Como a maioria de vocês deve lembrar dos tempos de escola, a Revolução Industrial começou na Inglaterra em meados do século XVIII. O aperfeiçoamento da máquina a vapor pelo matemático e engenheiro escocês James Watt deu um verdadeiro impulso aos sistemas de produção da época e a Inglaterra passou a produzir produtos em série, numa escala que, guardadas as devidas proporções, lembra a China atual. A Inglaterra se tornou uma grande potência econômica e militar, pagando um alto preço ambiental e social para isso, com altíssimos níveis de poluição do ar e da água, montanhas de resíduos de todos os tipos, além de uma grande massa de trabalhadores explorados até os limites da dignidade. 

Uma das maiores vítimas de toda essa poluição foi o rio Tâmisa, que corta a cidade de Londres no sentido Leste-Oeste, e que recebia grandes cargas de todos os tipos de efluentes, que iam dos esgotos domésticos de sua gigantesca população até resíduos de produtos químicos de todos os tipos. Um marco da poluição do rio se deu no verão do ano de 1858, quando algumas sessões do Parlamento Britânico, que fica numa das margens do Tâmisa, tiveram de ser suspensas – ninguém aguentava o mal cheiro que as águas exalavam. Depois de dois meses de náuseas e muito incômodo, os Parlamentares aprovaram um projeto que já estava pronto há cinco anos – o início das obras do sistema de esgotos de Londres. Lentamente, a história do rio Tâmisa começaria a mudar. 

A cidade de Londres foi fundada pelos romanos há mais de 2 mil anos e recebeu o nome de Londinium, palavra que, segundo algumas fontes, significa algo como “seguindo o rio”. A localização estratégica da cidade, com farta disponibilidade de água e cercada por terras aptas para agricultura, além de fácil acesso ao oceano, só fez por aumentar a importância e a boa reputação da cidade, que passou de sede de província romana a corte do Reino da Inglaterra, e depois a capital do Império Britânico. 

O rio Tâmisa nasce no condado de Gloucestershire e suas águas percorrem cerca de 346 km até encontrarem as águas do Mar do Norte. Ao longo do seu curso, o rio atravessa algumas importantes cidades da Inglaterra: Oxford, Eton, Wallingford, Reading, Windsor e Londres. A navegação fluvial é, desde os primeiros anos da ocupação romana, uma importante via para o transporte de passageiros e cargas entre essas cidades. Aos tempos da Revolução Industrial, diversos canais de navegação com eclusas foram construídos, aumentando ainda mais os volumes de cargas transportadas. O rio Tâmisa era o “coração e as veias do Reino”. 

Existem relatos já do ano de 1610 falando da baixa qualidade das águas do rio Tâmisa para consumo humano, problemas que não chegam nem perto daqueles criados pela intensa poluição que surgiu na esteira da forte industrialização do país. A partir da década de 1860, com a implantação dos sistemas de esgotos de Londres, a situação do rio Tâmisa começou a melhorar, mas a solução não foi definitiva. O sistema de esgotos que foi implantado não tratava os esgotos – as tubulações da rede captavam os esgotos e simplesmente os redirecionavam para despejo no rio Tâmisa abaixo da cidade. Em 1950, o decadente rio Tâmisa foi considerado biologicamente morto. Foi a partir dessa época que começaram os investimentos para a construção de estações de tratamento de esgotos em toda a calha do rio Tâmisa. 

Em meados da década de 1970, depois de cerca de 25 anos de investimentos no tratamento dos esgotos das cidades, um salmão nadando nas águas do rio foi visto por moradores. O salmão é uma espécie de peixe que passa a maior parte da sua vida nas águas dos oceanos, mas que há época da reprodução entra nos rios e sobe a correnteza em busca de águas calmas para acasalar e desovar. A espécie é bastante exigente no quesito qualidade das águas – se esse salmão estava nadando no rio Tâmisa, era um sinal de que as coisas estavam indo muito bem, obrigado. 

Atualmente, já são encontradas cerca de 121 espécies de peixes no rio, numa lista que inclui, além do salmão, linguados, percas, arenques e lampreias. Também são encontradas cerca de 400 espécies de invertebrados aquáticos, além de uma infinidade de aves e anfíbios. Eventualmente, até golfinhos e focas têm subido as águas do rio Tâmisa para dar um “alô” aos londrinos, que se aglomeram aos milhares nas margens urbanizadas para se maravilhar com essas aparições. 

O rio Tâmisa é considerado hoje o mais limpo de todos os rios que cruzam as grandes cidades do mundo e é, de longe, uma das grandes atrações turísticas da cidade. A cada ano, centenas de milhares de turistas de todos os cantos do mundo percorrem as suas águas em uma verdadeira frota de barcos de turismo, ávidos por admirar as suas muitas pontes, castelos e construções históricas como o Parlamento Britânico. 

Enquanto o Tâmisa pulsa de vida, nosso bom e velho rio Tietê continua tão morto como antes. Nas duas últimas décadas foram feitos pesados investimentos em obras para o rebaixamento da sua calha com o objetivo de reduzir as enchentes que, historicamente, sempre assolaram a cidade de São Paulo. Também foram feitos investimentos na construção de redes de coleta e em estações de tratamento de esgotos em muitas cidades da Região Metropolitana. Infelizmente, em algumas cidades como Guarulhos, a segunda maior cidade do Estado de São Paulo, praticamente todo o esgoto gerado por uma população de cerca de 1,5 milhão de habitantes é jogado diretamente nas águas do Tietê. 

Graças a essa falta de planejamento na execução de obras em todas as cidades da bacia hidrográfica na Região Metropolitana de São Paulo, o Tietê continua poluído e morto. E, diferente de Londres, o nosso parlamento – a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, fica bem longe das margens do rio. Quem sabe, se nossas “otoridades” fossem obrigadas a sentir o mal cheiro do rio em suas “raras” sessões parlamentares, quem sabe alguma coisa mais efetiva estaria sendo feita em prol do rio. 

Muitos são os paulistanos que, como eu, ainda sonham em assistir uma grande piracema nas águas do nosso rio Tietê. Se os londrinos conseguem ver hoje os salmões subindo novamente o Tâmisa, por que nós não podemos sonhar? 

OS “COCÔS” PRESIDENCIAIS

Jair Bolsonaro

Começo fazendo uma afirmação:

“- Meu trabalho é uma grande merda!”

Muitos de vocês, em algum momento de maior frustração, com certeza já se expressou desta maneira. No meu caso, como escrevi, isso é uma afirmação: sou gestor e educador ambiental, além de jornalista especializado em questões ambientais. Desde junho de 2016, publico diariamente artigos em meu blog falando dos recursos hídricos, dos resíduos sólidos, uso da água na irrigação e geração de energia elétrica, e, entre muitas outras coisas, falando dos problemas ligados aos esgotos. Inclusive, em 2012, publiquei um livro sobre esse assunto: Esgoto Sanitário: que trem é esse sô? Trabalhava na época numa grande construtora de Belo Horizonte e, por isso, o “sotaque” mineiro do título.

Além de conhecimentos formais obtidos em vários cursos universitários, inclusive na área de engenharia civil, tenho uma boa vivência prática com a questão: desde o ano de 2003, venho trabalhando em diversas obras públicas de infraestrutura na área de saneamento básico, onde incluo: o Programa Onda Limpa, que ampliou os sistemas de coleta e tratamento de esgotos no litoral paulista, e o Projeto Tietê, que vem fazendo um trabalho semelhante na Região Metropolitana de São Paulo. Destaco também dois anos de trabalho na cidade de Porto Velho, em Rondônia, onde tentamos implantar um grande sistema de coleta e tratamento de esgotos – brigas entre os diferentes grupos políticos do Estado impediram o avanço das obras.

Nesses último dias, venho observando que Sua Excelência, o Presidente Jair Bolsonaro, vem se mostrando um tanto quanto que obcecado pela questão do saneamento básico, especialmente em relação aos excrementos humanos, o popular “cocô”. Em uma das suas declarações, sua Excelência afirmou que uma das formas de reduzir o impacto ambiental dos excrementos humanos seria a redução do consumo dos alimentos, o que resultaria na necessidade de “fazer cocô” apenas a cada dois dias. Em outra afirmação, afirmou que vai eliminar o “cocô vermelho” dos comunistas do país, seja lá o que isso quer dizer. Mais recentemente, criticou um “cocô fossilizado” de um índio, que parece estar atrasando o licenciamento de uma obra no Paraná.

Com todo o respeito à Sua Excelência, o Sr. Presidente da República, e com base nos meus conhecimentos nessa área, gostaria de tecer alguns comentários:

De todos os problemas do saneamento básico, o várias vezes relembrado “cocô” é um dos menores. Em média, cada brasileiro que mora em áreas urbanas gera cerca de 150 litros de esgotos a cada dia. Esse número incluiu o gasto de água com banhos, lavagem de roupas, limpeza das casas, para cozinhar e lavar a louça, além dos gastos de água nos vasos sanitários, onde são usados entre 3 e 20 litros de água a cada acionamento, conforme o modelo da válvula de descarga. De todo esse volume, o “cocô” representa algo na casa de 3% do volume total de esgotos.

Além de pouco representativo em volume unitário por pessoa, o “cocô” é rapidamente degradado no meio ambiente: formada basicamente por matéria orgânica, a massa fecal, um nome mais técnico para o dito cujo, é consumida por bactérias que vivem na água – o “cocô” vira alimento de bactérias. Uma família ou uma pequena comunidade isolada irá criar impactos ambientais praticamente desprezíveis com seus esgotos domésticos. Os problemas começam com as grandes aglomerações humanas que vivem nas cidades, onde faltam bactérias para comer rapidamente quantidades grandes de massa fecal. Nesses casos, a solução são os sistemas de coleta e tratamento de esgotos, que infelizmente não existem em quantidade suficiente nas cidades de nosso país.

É aqui, Sr. Presidente, que a questão começa a ficar realmente séria e onde sua influência poderá ser decisiva – precisamos aumentar os investimentos públicos em sistemas de coleta e tratamento de esgotos na maioria esmagadora das cidades do país. E não é só isso – os esgotos domésticos são uma pequena parte do rol de problemas associados ao saneamento básico.

Diferente dos esgotos domésticos, onde há basicamente matéria orgânica, os esgotos industriais apresentam uma enorme gama de produtos químicos, óleos e metais pesados, substâncias altamente nocivas ao meio ambiente e que não são consumidas por bactérias. Esses efluentes precisam passar por unidade de tratamento de esgotos industriais específicas para cada um dos casos, com muita fiscalização das autoridades ambientais e órgãos dos Governos.

Outra questão séria do saneamento básico são os sistemas para controle de águas pluviais, algo muito esquecido pelas prefeituras de todo o país. Esses sistemas incluem desde as sarjetas do meio-fio das ruas e avenidas até as grandes tubulações de drenagem para as águas das chuvas, que têm como objetivo o controle dos alagamentos e enchentes. A cada novo período de chuvas, as tragédias das águas se repetem em cidades de todo o país por falta desses sistemas, Sr. Presidente.

Não menos importantes para o saneamento básico, são os serviços de limpeza urbana e destinação dos resíduos sólidos, questões que grande parte de nossas cidades ainda não conseguiram equacionar. Existem perto de 3 mil grandes lixões por todo o país, onde resíduos sólidos de todo os tipos, incluindo-se resíduos perigosos como os hospitalares, industriais e da construção civil, são simplesmente abandonados sem maiores preocupações. Batalhões de catadores de “recicláveis” se aventuram diariamente nesses locais, buscando materiais que possam ser revendidos e transformados no seu sustento diário. Resíduos sólidos descartados de forma irregular ou abandonados nas ruas e em terrenos baldios favorecem o crescimento das populações de vetores – insetos como mosquitos e baratas, ratos, escorpiões e aranhas, entre muitos outros, transmitindo toda uma série de doenças para as populações.

Na época das chuvas, os resíduos sólidos largados por todos os cantos das cidades entopem bueiros e tubulações de drenagem, amplificando, em muito, os alagamentos, as enchentes e os transtornos para parcelas grandes de nossas populações. As questões ambientais do saneamento básico, Sr. Presidente, são grandes e complexas, indo muito além dos problemas ligados ao “cocô”.

Finalizando e sem querer faltar com o respeito ao cargo que Vossa Excelência ocupa, e aos bons projetos e medidas em andamento no seu Governo, afirmo que o saneamento básico não é para amadores.

Um grande abraço Sr. Presidente!

NILO: O APOGEU E A DECADÊNCIA DE UM DOS RIOS MAIS FAMOSOS DO MUNDO

Cartum

Rios e grandes populações são complementares – é só você pensar numa grande cidade ou num grande povo, e, quase que automaticamente, virá a sua mente o nome de um grande rio. Na última postagem falamos do rio Ganges, um dos berços das grandes civilizações do Subcontinente Indiano. Também tratamos do rio Tigre, que junto com o rio Eufrates, foi o berço de inúmeras civilizações da Mesopotâmia. Outro grande rio de  importância na história humana e sobre o qual falamos recentemente é o Mekong, o maior e mais importante do Sudeste Asiático.

Vamos falar hoje de um dos rios mais importantes do mundo – o grande rio Nilo. Esse “grande” tem um duplo significado: o Nilo disputa com o Amazonas o título de rio mais extenso do mundo. A grandeza do rio Nilo também expressa a sua importância histórica – suas águas permitiram o surgimento de uma das maiores e mais importantes civilizações da história humana – os Egípcios. A história, infelizmente, não foi tão generosa com o velho Nilo, que sofre imensamente com a poluição, redução dos caudais, construção de represas, assoreamento e, principalmente, com o grande crescimento das populações que vivem ao longo de suas margens.

De acordo com informações do CNI – Centro Nacional de Investigações do Egito, cerca de 17 mil crianças morrem de diarreia e gastroenterite a cada ano nos países da bacia hidrográfica; essas doenças são contraídas após o consumo das águas contaminadas do rio Nilo. Essa mesma instituição afirma que, caso não sejam adotadas medidas para o controle da poluição, toda a água da calha do Nilo ficará imprópria para o consumo dentro de 15 anos. Essa previsão é dramática – o rio Nilo é a única fonte de água permanente em uma extensa faixa de terras áridas e semiáridas, onde vive uma população de 250 milhões de pessoas. Projeções de crescimento demográfico indicam que essa população irá dobrar até o ano de 2050. Para efeito de comparação, o rio Ganges, o mais importante corpo d’água da Índia e de Bangladesh, atende uma população da ordem de 400 milhões de pessoas.

Os problemas do rio Nilo começam com a intensa disputa pelo controle de suas águas. Além do Egito, país que tem sua vida e história ligados umbilicalmente com o rio, a bacia hidrográfica do Nilo também inclui Sudão, Uganda, Tanzânia, Quênia, República Democrática do Congo, Burundi e Ruanda. Existe uma disputa crescente entre todos esses países pelo uso das águas do Nilo, disputa essa que tem potencial para deflagrar uma guerra regional de grandes proporções.

Entre 1882 e 1952, o Egito esteve sob a administração colonial do Império Britânico, domínio esse que se estendia rumo ao Sul e incorporava grande parte da região, incluindo o Sudão Anglo-Egípcio, Uganda e África Oriental Britânica – no meio dessa grande região, existia um enclave independente, o Reino da Abissínia (atual Etiópia), e colônias da Bélgica. Entre os países que formam a atual bacia hidrográfica do rio Nilo – Egito, Sudão, Uganda, Tanzânia e Quênia, foram formados a partir do desmantelamento dessa estrutura colonial britânica; a República Democrática do Congo, Ruanda e Burundi, são ex-colônias belgas.

A fim de atender aos seus próprios interesses, o Governo Britânico criou um “tratado” para a divisão das águas do rio Nilo, onde 80% do recurso ficava reservado para o Egito e o Sudão. Além do uso pleno das águas do rio, esses países passaram a ter o direito de vetar quaisquer projetos de aproveitamento hidráulico a montante da bacia hidrográfica que, eventualmente, pudessem contrariar seus interesses. Esse “tratado” foi reconfirmado em 1959 e os demais países foram obrigados a se conformar com os 20% restantes das águas do rio Nilo. Não houve qualquer critério geográfico, tanto em aspectos físicos quanto humanos, que justificasse esses percentuais – a partilha das águas atendeu exclusivamente interesses políticos e econômicos dos ingleses. 

O crescimento econômico e demográfico de países do Alto rio Nilo, com grandes necessidades de água para geração de energia elétrica e para irrigação, está levando a rompimentos unilaterais desse “tratado”, situações que tem gerado crescentes tensões com o Egito, maior e mais importante país da bacia hidrográfica. Um dos casos mais graves é a barragem da Usina Hidrelétrica Merowe, construída pela Etiópia na calha do Nilo Azul, o caudaloso tributário que responde por 86% do fluxo de águas do rio Nilo. Com uma capacidade estimada em 7 GW, essa será a maior usina hidrelétrica da África, que também possibilitará a irrigação de uma área com 2,5 milhões de km². Essa barragem tem potencial para “secar”, literalmente, a calha do rio Nilo e está tirando o sono de muita gente. A China é a grande financiadora dessa obra e tem enorme interesse na produção de grãos na região, que serão exportados para seu próprio abastecimento.

Apesar de sua grande extensão, o rio Nilo tem uma vazão pequena, muito mais próxima da vazão do rio Tietê de São Paulo do que a do rio Amazonas, seu grande rival na disputa pelo título de maior rio do mundo. Com a construção de barragens e com a incidência de chuvas cada vez mais irregulares no seu Alto Curso, o rio Nilo vem apresentando vazões cada vez menores. Na região do Delta do rio Nilo, um importante centro de produção agrícola, a intrusão de águas salinas do Mar Mediterrâneo é cada vez maior, criando enormes dificuldades para o abastecimento da grande população da região e para a irrigação de lavouras. O Delta do rio Nilo, que é uma grande ilha verdejante no meio do deserto, corre o risco de desaparecer em um futuro muito próximo.

Enquanto todos esses países e populações se armam de palavras e ânimos numa disputa ferrenha pelo controle das águas do rio Nilo, ninguém parece estar preocupado com a gestão ambiental desse importante recurso hídrico. A população do Egito quadruplicou desde 1960, sem maiores preocupações com a infraestrutura de saneamento básico do país. Cidades de toda a bacia hidrográfica crescem sem qualquer planejamento e infraestrutura, lançando milhões de litros de esgotos e toneladas de resíduos nas águas do rio.

Um grande exemplo é Cartum (vide foto), a capital do Sudão, que fica localizada no encontro dos rios Nilo Branco e Azul, os formadores do curso principal do rio Nilo. A cidade abriga uma população de 1,5 milhão de habitantes e sua região metropolitana já conta com uma população de mais de 4 milhões de pessoas. A mancha metropolitana, que é dividida em três partes pelos rios, cresce sem parar e sem as mínimas infraestruturas de saneamento básico.

Em regiões de nascentes do Alto rio Nilo, são os grandes desmatamentos para ampliação de campos agrícolas a grande fonte de preocupação. São as fortes chuvas que caem nessas regiões florestais que formam os principais caudais da bacia hidrográfica. Sem a proteção da cobertura vegetal, as perdas de água por evaporação aumentam significativamente e a recarga de aquíferos que alimentam os pequenos rios é prejudicada, aumentado também os carreamentos de sedimentos para as calhas dos rios e resultando em contribuições cada vez menores desses pequenos tributários.

Os impactos ambientais para a biodiversidade decorrentes de todo esse crescimento demográfico e dos lançamentos crescentes de efluentes e resíduos nas águas do rio são evidentes. As águas do rio Nilo abrigavam, até poucas décadas atrás, cerca de 123 espécies de peixes. Pesquisadores do Egito afirmam que, no trecho do Baixo rio Nilo no país, 35 dessas espécies já desapareceram. Uma das espécies mais comuns, especialmente durante o período de reprodução nos meses de verão, era o kawara, um peixe que tem um formato que lembra uma frigideira. De acordo com os relatos de muitos pescadores, está sendo cada vez mais raro encontrar peixes dessa espécie nas redes. Outra espécie icônica que desapareceu é o oxirrinco, um peixe que era considerado sagrado para os antigos egípcios. A tendência é de uma piora progressiva no desaparecimento de espécies.

Caso não sejam tomadas medidas para estabilizar ou reverter essa situação, o rio Nilo correrá o risco de virar mais uma grande ruína dessa região histórica.

A DEUSA GANGA MA E AS AGRESSÕES AMBIENTAIS AO RIO GANGES

Gavial do rio Ganges

O nome Himalaia vem do sânscrito, a língua ancestral da Índia e do Nepal, e significa “morada das neves”. As Montanhas Himalaias formam a maior cordilheira do mundo e concentram as maiores geleiras fora da Antártida. Essas geleiras formam as nascentes de alguns dos mais importantes rios da Ásia: Mekong, Indus, Bramaputra, Irauádi, Amu Daria e Syr Daria, Yangtzé (Rio Azul), Huang He (Rio Amarelo), além do famoso e importantíssimo rio Ganges, responsável pelo abastecimento de perto de 400 milhões de pessoas na Índia e em Bangladesh.

A nascente mais importante do Ganges, que fornece cerca de 30% dos caudais do rio, fica nas Montanhas Himalaias, numa gruta sob uma geleira conhecida pelo nome de Gaumukh, palavra que significa “boca da vaca”. De acordo com a mitologia, é nessa gruta que a deusa Ganga assume uma forma física que é representada pelas águas do rio. Os populares a chamam de Ganga Ma, a Mãe Ganga, que é aquela que provê o sustento para todos os seus filhos. Essa imagem mitológica resume o rio Ganges, que é o principal corpo de água do Norte da Índia e de Bangladesh, respondendo pelo abastecimento das populações, indústrias e irrigação de extensas áreas agrícolas – o Ganges, literalmente, sustenta essas populações.

Com aproximadamente 2.500 km de extensão desde suas nascentes nas Himalaias até a sua foz no Golfo de Bengala, onde forma o maior Delta do mundo, o rio Ganges acumula problemas, que vão da intensa poluição por lançamento de esgotos domésticos e industriais aos riscos de desaparecimento das geleiras que formam as suas nascentes. Desde a década de 1940, a geleira Gaumukh já recuou cerca de 3 km e perdeu 1 km da sua espessura. Esse fenômeno está ocorrendo em todas as geleiras das Montanhas Himalaias e, muito provavelmente, é o resultado visível do aquecimento global e de todas as mudanças climáticas já em andamento.

De acordo com estudos realizados pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU – Organização das Nações Unidas, as geleiras das Montanhas Himalaias poderão começar a desaparecer já a partir do ano de 2035. Essa é uma das questões ambientais mais preocupantes da atualidade, especialmente em países da Ásia, que muitos Presidentes pelo mundo afora parecem não enxergar. Cerca de 2 bilhões de pessoas no continente dependem das águas de rios com nascentes nessas geleiras e existe o risco real desses rios serem transformados em rios intermitentes, que só terão água na época das Chuvas da Monção.

A poluição das águas do rio Ganges por causa do lançamento de esgotos de todos os tipos é outra fonte importante de problemas. Cerca de 1/3 da gigantesca população da Índia vive dentro da área da bacia hidrográfica do Ganges, em cidades e vilas que contam com precárias infraestruturas de saneamento básico. Como é comum aqui em nosso país, os Governantes indianos concentram a maior parte dos parcos recursos disponíveis na construção de sistemas de produção de água e em redes de distribuição – a coleta e o tratamento de esgotos são deixados de lado.

Essa situação só não mais grave por que dezenas de milhões de indianos não dispõe de banheiros em suas casas e usam as áreas matas “para se aliviar”. Muitas dessas pessoas, acreditem se quiser, não têm banheiros em suas casas por motivos religiosos – o brâmanes seguem o Código de Manu, que entre outras regras, estabelece que ninguém pode defecar próximo dos locais onde se preparam os alimentos – tratamos desse assunto em uma interessante postagem anterior.

A poluição das águas do Ganges devido ao lançamento de resíduos industriais também é alarmante. Um exemplo dessa poluição pode ser encontrado em Khampur, uma cidade de 4 milhões de habitantes e que conta com um importante complexo industrial. A base da economia da cidade são as indústrias de curtimento e tratamento de couro bovino (o que não deixa de ser irônico, pois as vacas são consideradas sagradas no país). Existem cerca de 370 estabelecimentos desse tipo em Khampur e, de acordo com os dados oficiais, metade deles joga seus efluentes diretamente nas águas do rio Ganges.

Um dos principais produtos usados nessa atividade são os sais de cromo, uma substância que mumifica e evita que o couro apodreça com o passar do tempo. O cromo é um metal de transição com importantes aplicações na metalurgia, especialmente na produção do aço inoxidável. Em altas concentrações na água, os resíduos de cromo podem causar uma série de problemas de saúde no sistema respiratório, infecções, infertilidade e problemas congênitos em recém nascidos. O metal também causa problemas nas guelras dos peixes que vivem nas águas, além de afetar a saúde de animais que bebam essa água contaminada. Além dos sais de cromo, os curtumes usam outros produtos que contém mercúrio e arsênico, causadores de outros tantos problemas de saúde.

Testes feitos nas águas do rio Ganges na região de Khampur encontraram níveis de cromo, mercúrio e arsênico altíssimos – entre 64 e 128 vezes acima do nível máximo tolerado pelas autoridades sanitárias do país. Até mesmo na água tratada para o abastecimento da população, que usa um tratamento convencional, os níveis desses metais pesados estão acima dos limites técnicos de segurança. Os hospitais da cidade realizam, pelo menos, um diagnóstico de doenças graves associadas a esses poluentes a cada dia. É uma situação gravíssima.

O grande volume de resíduos sólidos que acaba sendo lançado diretamente nas águas ou carreado durante o período das fortes Chuvas da Monção também são preocupantes. A economia da Índia está entre as que mais crescem no mundo e parcelas cada vez maiores da população está tendo acesso aos produtos industrializados, especialmente alimentos, roupas, brinquedos e eletrodomésticos. Como sempre acontece em economias emergentes, há uma grande geração de resíduos, especialmente as famigeradas embalagens plásticas, que acabam sendo descartadas diretamente nas ruas, em terrenos baldios e nas águas do rio.

Os problemas de resíduos no Ganges ainda tem um complicador a mais: por razões religiosas, o rio recebe diariamente as cinzas de milhares de corpos cremados em templos religiosos instalados ao longo das suas margens. Em muitos casos, especialmente quando se trata dos corpos de religiosos e de mulheres grávidas, os dogmas da religião ensinam que não há necessidade da cremação e os corpos são jogados diretamente nas águas do rio. Gigantescas ilhas de lixo flutuante, onde se incluem todos os tipos de resíduos e corpos, se formam ao longo da calha do rio, principalmente a montante das sucessivas barragens que foram construídas nas últimas décadas.

Todo esse conjunto de agressões ao corpo d’água, é claro, tem profundos reflexos na biodiversidade aquática. Das mais de 190 espécies de peixes e 90 de anfíbios da fauna aquática do rio Ganges, simplesmente todas estão sob ameaça, onde eu destaco três: os golfinhos-do-rio-Ganges, o gavial e o tubarão-do-Ganges.

Os golfinhos-do-rio-Ganges (Platanista g. gangetica), conhecidos pelo nome popular de susu, já foi tema de várias das nossas postagens. Esses animais, a exemplo de outras espécies de golfinhos e baleias enfrentam grandes dificuldades, se valem de um sofisticado mecanismo de orientação à base de ondas acústicas, parecido com os sonares de navios e submarinos. As grandes ilhas de lixo flutuante nas águas dificultam enormemente as migrações desses golfinhos, que também sofrem com o bloqueio de suas rotas migratórias por causa das sucessivas represas na calha do rio Ganges.

O gavial (Gavialis gangeticus), uma espécie de jacaré exclusiva do Subcontinente Indiano e que tem como principal característica um focinho extremamente fino (vide foto), é outra que está seriamente ameaçada. A poluição das águas e o lixo flutuante afetam os estoques e a caça dos alimentos desse réptil, cada vez mais difícil de ser avistado ao longo das margens do rio Ganges. Já os tubarões-do-Ganges (Glyphis gangeticus), uma espécie endêmica rara adaptada para a vida em água doce, é vítima frequente das redes dos pescadores, além de sofrer com a poluição das águas e com os resíduos.

A situação do rio Ganges é tão caótica que, talvez, só Ganga Ma terá forças para ajudar as populações humanas e de espécies animais impactadas.

O CAVIAR “NOSSO” DE CADA DIA

Esturjão-beluga

Uma pergunta inicial: você sabia que, até meados do século XIX, existiam pinguins no Hemisfério Norte? 

Apesar de parecer uma pegadinha, isto é absolutamente verdadeiro. O Pinguinus impennis era o nome científico da espécie, que era conhecida popularmente como auk ou great auk, ou ainda como alca-gigante e arau-gigante, em línguas latinas. As alcas eram abundantes nas águas  do Atlântico Norte e ao redor do Círculo Polar Ártico, sendo caçadas aos milhares, tanto para alimentação quanto para servir como isca para a pesca do bacalhau e das lagostas. Outros tantos espécimes foram mortos para a retirada de suas penas, usadas no enchimento de travesseiros. Uma das principais razões para o declínio da espécie, entretanto, foi a coleta dos seus ovos, que eram considerados uma verdadeira iguaria. O último casal de alcas foi abatido numa pequena ilha ao largo da Islândia, em 3 de junho de 1844. Os pinguins da Antártida receberam esse nome devido à suas semelhanças com as extintas alcas-gigantes. 

Comecei a postagem de hoje relembrando essa história que ouvi ainda na infância para falar de uma outra espécie que “caminha” a fortes passos para a extinção devido às suas cobiçadas e valiosas ovas – falo do esturjão, uma grande família de peixes de águas salgadas e doces, e do caviar, uma das iguarias mais caras do mundo. O caviar dourado iraniano, que é produzido pelo esturjão-beluga, é um dos mais valorizados do mundo e pode custar o fabuloso preço de US$ 25 mil por kg

O nome esturjão é usado para identificar cerca de 25 espécies de peixes, onde se incluem os chamados esturjões verdadeiros, além de várias espécies aparentadas. Os esturjões são uma das mais antigas espécies de peixes ósseos e são nativos de rios e lagos da Eurásia, uma extensa região que abrange parte do Leste da Europa e Centro da Ásia. Os esturjões possuem um corpo longo, sem escamas e têm um comprimento médio entre 2 e 3,5 metros. O esturjão-kaluga (Huso dauricus), encontrado no rio Amur, pode atingir um comprimento de 5,5 metros e o peso de 1.000 kg.  

Uma outra espécie, o famoso esturjão-beluga (Huso huso) do Mar Cáspio, o maior da família, pode atingir o mesmo comprimento e um peso superior a 2.000 kg. Essa espécie de esturjão é considerado o maior peixe de água doce do mundo.  A famosa foto que ilustra esta postagem mostra um esturjão-beluga, capturado por pescadores russos em 1921, que tinha quase 7 metros de comprimento. Algumas espécies de esturjão chegam a viver mais de 100 anos e, um dado preocupante: só atingem a maturidade sexual após a idade de 20 anos. A maioria das espécies de esturjão vive nas águas de rios e nas regiões de deltas e estuários; algumas espécies vivem exclusivamente em rios. A maioria das espécies de água salgada vivem nas proximidades das áreas costeiras. 

A extração das ovas não-fertilizadas das fêmeas é um processo delicado, complexo e, na minha opinião, muito cruel com os animais. As ovas precisam ser extraídas com a fêmea ainda viva, o que é feito a partir de uma incisão “cirúrgica” no ventre. O saco de ovas é retirado e as ovas precisam ser peneiradas, lavadas, escorridas, selecionadas e salgadas dentro de um período máximo de 15 minutos, garantindo assim a qualidade e o frescor do caviar. Só depois desse processo doloroso é que a fêmea do peixe é morta e encaminhada para o processamento de sua carne. É justamente esse processo de consumo das ovas e abate das fêmeas que tem provocado um declínio vigoroso das populações e, a exemplo do que aconteceu com as alcas-gigantes, está condenando as espécies à extinção. 

Além de todos esses problemas, que já são muitos, os esturjões ainda sofrem com a destruição dos seus habitats. Um dos casos mais dramáticos, tratado em diversas postagens aqui no blog, é o Mar de Aral, na Ásia Central. Localizado entre o Cazaquistão e o Uzbequistão, o Mar de Aral era, até o início do século XX, o quarto maior lago do mundo, com uma área total de 68 mil km² – isto corresponde a 1,5 vezes a área do Estado do Rio de Janeiro ou 165 vezes a área da Baía da Guanabara. Sucessivos projetos de aproveitamento das águas dos rios Amu Daria e Syr Daria, seus principais formadores, ainda nos tempos da antiga URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, levaram o Mar de Aral ao colapso. A maior parte das antigas terras ocupadas pelo lago foram transformadas em um deserto de areias salgadas – o Aralkum, e só resta uma pequena área com água. O lago era rico em peixes, com destaque para o famoso esturjão de Aral (Acipenser nudiventris), que podia atingir até 70 kg. 

A poluição das águas por esgotos não tratados, resíduos de produtos químicos e de defensivos agrícolas, além de metais pesados, é outra fonte de problemas para a sobrevivência de várias espécies, em particular, aquelas que vivem e/ou se reproduzem nas águas de rios como o Volga. Com quase 3.700 km de extensão, o Volga é o maior rio da Europa, e também o dono da maior bacia hidrográfica e também o curso com o maior volume de água do continente. Cerca de 3.200 km do rio são navegáveis e existem cerca de 900 portos nas suas margens. Em meados do século XX, o Governo Soviético construiu um canal de interligação entre os rios Volga e Don, possibilitando a integração hidroviária dos dois rios e também a navegação entre o Mar Cáspio e o Mar Negro.  

Grande parte da população russa vive em áreas da bacia hidrográfica do rio Volga, que também concentra a maior parte da produção agropecuária e industrial do país. Todo esse conjunto de populações e atividades econômicas transformaram o rio num grande esgoto a céu aberto. A bacia hidrográfica do rio Volga possui cerca de 70 espécies de peixes, sendo que 40 têm valor comercial, incluindo nessa lista o esturjão-beluga e o peixe-branco. O esturjão-beluga passa a maior parte de sua vida no Mar Cáspio, lago interior que tem o rio Volga como um dos seus maiores tributários. A espécie precisa migrar para a região do curso superior do rio Volga para a sua reprodução, algo que está ficando cada vez mais  difícil.  

Estimativas recentes indicam que houve uma redução de 90% das populações do valorizado esturjão-beluga nos últimos 20 anos, o que foi provocado pela captura intensa para produção de caviar e consumo da carne, e, especialmente, por causa da intensa poluição das águas e construção de represas no rio Volga. Um outro fator nada desprezível no colapso das populações de esturjões foi o fim da antiga União Soviética. O Governo Central controlava com mão de ferro a produção do caviar, que era uma importante fonte de receitas externas para o bloco socialista, e estabelecia rigorosas cotas de pesca para cada uma das espécies. Com o fim do Governo Central e o surgimento das repúblicas autônomas, todo esse sistema de controle foi abandonado e cada um dos países começou a defender o seu próprio lado. Das espécies de esturjão existentes, 6 estão criticamente ameaçadas de extinção, 6 são consideradas vulneráveis e as demais espécies são consideradas ameaçadas.

Com as fêmeas das diversas espécies de esturjão sendo mortas para a extração das ovas e com a destruição das áreas de reprodução por causa da construção de represas e poluição das águas dos rios, não há como garantir o futuro desses peixes. O que é óbvio para biólogos e ambientalistas, parece não incomodar quem só está preocupado com os  imensos lucros obtidos com a venda do caviar. Triste!

AINDA FALANDO DO AZEITE DE DENDÊ

Orangotangos

Na última postagem falamos dos imensos impactos ambientais que a cultura da palma-da-Guiné (Elaeais guineensis) vem causando nas Florestas Equatoriais do Sudeste Asiático, especialmente na Malásia e na Indonésia. Estudos indicam que cerca de 70% das matas originais já desapareceram por causa do avanço das frentes agrícolas e da exploração da madeira. Cerca da metade dos desmatamentos nesses países tem como objetivo o plantio da palma-da-Guiné, planta que produz um fruto rico em óleo, usado para a produção do óleo de palma ou azeite de dendê, como é mais conhecido no Brasil. Como essa é uma questão fortemente impactante à biodiversidade, especialmente das águas, vamos falar um pouco mais sobre esse assunto.

A palma-da-Guiné ou dendezeiro é originária da costa Oeste do continente africano, no trecho entre o Senegal e Angola. De acordo com estudos históricos, o óleo da palma vem sendo utilizado pelas populações há mais de 5 mil anos. No Brasil, a espécie foi introduzida no Período Colonial, quando era intenso o trânsito de navios negreiros e mercantes entre a África e o Brasil. Uma extensa região no Estado da Bahia passou a ser dedicada ao cultivo da palma-da-Guiné. Na década de 1960, foram introduzidas as primeiras mudas da espécie no Pará, Estado que responde atualmente por 70% da produção brasileira. 

O azeite de dendê faz parte da culinária regional de diversos Estados brasileiros, sendo a culinária da Bahia uma das mais representativas – o dendê entra em inúmeras receitas como o acarajé e as moquecas. O azeite de dendê também está presente em uma série de alimentos industrializados onde se incluem margarinas, sorvetes, biscoitos, barras de cereais, chocolates, pães, bolos, doces, entre outros. Produtos químicos derivados do azeite de dendê são encontrados em detergentes, sabonetes, velas, cremes faciais e batons, entre muitos outros. 

A produção e o uso do azeite de dendê sofreram um enorme incremento a partir de 2005, quando entrou em vigor o Protocolo de Kyoto, um conjunto de metas negociadas e assinadas pelos países em 1997 para a redução das emissões dos gases de efeito estufa. Um dos principais compromissos assumidos pelos países signatários foi a redução das emissões de gases poluidores em, pelo menos, 5,2% em relação aos níveis emitidos em 1990. Entre as ações propostas destacam-se a reforma dos setores de energia e transportes, proteção das áreas florestais e a promoção do uso de fontes energéticas renováveis, o que criou um grande mercado para o óleo de palma. Na União Europeia, citando um exemplo, foi acordado que, até 2020, pelo menos 10% do combustível usado pelos setores de transportes provenham de fontes renováveis, incluindo nessa lista os biocombustíveis

Malásia e Indonésia, que já eram tradicionais países produtores e exportadores do óleo de palma, rapidamente viram as suas áreas de produção serem ampliadas e atualmente respondem por 90% da produção mundial. As primeiras mudas de palma-da-Guiné chegaram na Ilha de Sumatra, na Indonésia, em 1911; em 1917, foi a vez da introdução da espécie na Malásia. Em 1995, a produção mundial de óleo de palma foi de 15,2 milhões de toneladas – em 2020, essa produção deverá chegar a 60 milhões de toneladas. Cerca de metade dos desmatamentos nesses dois países tem como objetivo a ampliação das áreas de produção do dendê

O óleo de palma responde por cerca de 35% da produção mundial de óleos de origem vegetal. Uma das principais razões dessa forte participação do óleo de palma no mercado é a sua alta produtividade, que se situa entre 3 a 5 toneladas por hectare. Essa produtividade é 10 vezes maior que a obtida com a soja, 4 vezes maior do que a do amendoim e 2 vezes maior que o coco. Os baixos preços das terras agrícolas na Malásia e na Indonésia, os baixos custos para a produção do óleo, a farta disponibilidade de mão de obra e as fracas políticas de conservação das áreas florestais nesses países foram determinantes para o rápido crescimento da cultura da palma-da-Guiné. 

A Indonésia é um país insular que ocupa uma área total de 1,9 milhão de km² e abriga uma população de 250 milhões de habitantes, a quarta maior do mundo. O país forma o maior arquipélago do mundo com mais de 17.500 ilhas. A Malásia ocupa parte da Península Malaia e mais uma grande porção insular, com uma área total de 329 mil km² e com uma população de 32 milhões de habitantes. Os dois países são considerados megadiversos, abrigando uma riquíssima biodiversidade e um elevado número de espécies endêmicas. 

A Indonésia possui a segunda maior biodiversidade do mundo, só ficando atrás do Brasil em número de espécies. A Floresta Equatorial cobria cerca de 60% do território indonésio, abrigando espécies como tigres, rinocerontes, orangotangos, elefantes e leopardos, animais que no passado tinham grandes populações espalhadas por todas as principais ilhas do arquipélago. A Malásia, que tem uma área total com cerca de 1,5 vezes o Estado de São Paulo, abriga em seu território cerca de 20% das espécies animais do planeta, o que é uma biodiversidade surpreendente. A destruição acelerada das florestas desses países tem colocado toda essa riqueza biológica em seríssimos riscos. 

Uma dos animais em maior risco de extinção é o rinoceronte-de-Sumatra, espécie que era encontrada nas florestas da Malásia e da Indonésia. No último mês de maio foi anunciada a morte do último macho da espécie na Malásia, só restando agora duas fêmeas. Em algumas áreas florestais da Indonésia ainda existem algumas pequenas populações isoladas, cuja soma total de indivíduos é de menos de 80 rinocerontes. A caça da espécie para a remoção do chifre, considerado um poderoso afrodisíaco em países como a China, e a destruição dos habitats para a implantação de lavouras, especialmente de palma-da-Guiné, estão entre as principais causas do desaparecimento dos rinocerontes-de-Sumatra. Outra espécie da fauna carismática altamente ameaçada são os orangotangos (vide foto), que a cada dia encontram áreas florestais menores para abrigar as suas reduzidas populações

A intensa devastação ambiental criada pela expansão descontrolada das lavouras de palma-da-Guiné na Malásia e na Indonésia levaram a Comunidade Europeia a criar mecanismos que impeçam ou reduzam a importação de óleo de palma desses países. No último mês de abril, uma Comissão aprovou medidas para controlar e certificar os tipos de óleo de palma que podem ser utilizados como biocombustível no continente europeu, complementando uma legislação aprovada em 2018. Os países da União Europeia estão impondo restrições ao uso do óleo de palma por que sua produção, comprovadamente, causa desmatamentos e agrava o aquecimento global, uma realidade completamente oposta aos objetivos estabelecidos pelo Protocolo de Kyoto

Desde o início de 2018, os preços do óleo de palma já caíram cerca de 15% e as expectativas a longo prazo não são nada otimistas. Os produtores da Malásia e da Indonésia temem que os países da Europa estejam planejando proibir todas as importações de óleo de palma de seus países a partir de 2021. Esses produtores estão protestando fortemente e exigindo que seus Governos adotem medidas retaliatórias contra os países da Europa. 

O uso de combustíveis renováveis de origem vegetal pode dar uma enorme contribuição  para a preservação ambiental do nosso planeta e existe um enorme espaço para o crescimento desse mercado. Agora, a produção de biocombustíveis à base da destruição de florestas equatoriais das mais ricas em biodiversidade, como está ocorrendo na Malásia e na Indonésia, não faz o menor sentido. 

O AZEITE DE DENDÊ E AS AMEAÇAS À BIODIVERSIDADE DOS RIOS DA MALÁSIA, OU UM PIRARUCU PERDIDO NUM LAGO DO SUDESTE ASIÁTICO

Dendê

Vamos começar falando de uma notícia surpreendente, publicada pelos grandes veículos de comunicação na última semana: um pirarucu com 2,4 metros de comprimento e cerca de 108 kg foi capturado em um lago de Sabah, uma região da Ilha de Bornéu, na Malásia. Para os que não conhecem, a Malásia é um país continental/insular do Sudeste Asiático, que se estende entre a península malaia e a Austrália. 

Já o pirarucu (Arapaima gigas), esse é um dos peixes mais típicos da Bacia Amazônica. A espécie pode chegar a um comprimento de 3 metros e a um peso superior aos 250 kg, sendo considerado uma das maiores espécies de peixes de escamas de água doce do mundo. O pirarucu foi intensamente caçado por causa da qualidade e sabor de sua carne, estando na lista das espécies mais vulneráveis dos rios da Bacia Amazônica. Durante o Período Colonial, as aldeias dos Jesuítas instaladas na região processavam e salgavam o pirarucu, que depois era vendido em Portugal sob o rótulo de “bacalhau da Amazônia”. 

Imaginar um peixe como o pirarucu nadando nas águas de um lago no outro lado do mundo é surreal e só pode ser explicado pela introdução artificial da espécie nesse ecossistema. Onívoro, o pirarucu come frutas, insetos, moluscos, crustáceos, peixes, anfíbio, répteis e, conforme surja a oportunidade, ovos e aves aquáticas. Um peixe do seu porte introduzido em um outro ecossistema poderá resultar em enormes impactos às outras espécies aquáticas locais. 

Esse caso preocupante e curioso coloca em evidência duas das mais importantes florestas equatoriais do mundo: a Floresta Amazônica e as Florestas do Sudeste Asiático. Também mostra como a mídia internacional trata de maneira diferente problemas muito parecidos: a destruição das florestas e as suas consequências na mudança do clima do planeta. A Floresta Amazônica, talvez pela sua grandeza e por todo o misticismo que a cerca, não sai dos noticiários e o Brasil é responsabilizado sistematicamente, por países industrializados, de ser omisso na proteção da floresta e de ser um dos grandes responsáveis pelo aquecimento global. Apesar do exagero, é preciso reconhecer que parte dessas acusações são verdadeiras. 

Agora, uma pergunta – vocês têm visto notícias frequentes sobre a destruição das Florestas do Sudeste Asiático? Essas notícias até são veiculadas, mas em quantidade muito pequenas quando defrontadas com a realidade – cerca de 2/3 das florestas da Malásia e da Indonésia foram derrubadas nas últimas décadas, especialmente para a exploração da madeira e para ampliação da agricultura. Como consequência de toda essa destruição, os rios locais e toda a sua biodiversidade estão seriamente ameaçados. Uma das grandes vilãs de toda essa devastação ambiental é uma palmeira de origem africana – a palma-da-Guiné ou dendezeiro (Elaeis guineensis), que produz um fruto rico em óleo e muito conhecido pelos brasileiros: o azeite de dendê

O óleo de palma ou azeite de dendê responde por cerca de 35% de todos os óleos de origem vegetal produzidos no mundo, gerando negócios da ordem de US$ 40 bilhões a cada ano. Trata-se de um produto versátil, que pode estar presente em cerca da metade dos produtos vendidos em um supermercado. Uma das aplicações mais recentes do azeite de dendê é o seu uso como biocombustível em motores a diesel. A abertura de campos agrícolas para o plantio de dendezeiros responde por cerca de 0,4% dos desmatamentos mundiais – na Indonésia e Malásia, entretanto, essa cultura responde por metade dos desmatamentos. Ou seja, o biocombustível renovável feito a partir dos frutos do dendezeiro é o maior responsável pela destruição das Florestas Equatoriais do Sudeste Asiático

Uma das áreas que mais vem sofrendo com os desmatamentos e o avanço das plantações de palma na Malásia e também no país vizinho, a Indonésia, são os solos dos pântanos de turfa. Esses solos são formados pelo acúmulo de matéria orgânica de origem vegetal semidecomposta, acumuladas por mais de 8 mil anos nas margens de rios, especialmente nas adjacências de áreas de manguezais. Os solos desses pântanos de turfa têm uma camada entre 8 e 20 metros de profundidade e costumam se estender entre 3 e 5 km sobre uma planície de inundação. As Florestas Equatoriais do Sudeste Asiático possuem cerca de 20 milhões de hectares de solos de turfa, o que corresponde a mais de 60% das turfeiras tropicais do mundo

Os pântanos de turfa funcionam como esponjas, absorvendo todo o excedente de água durante o período das chuvas, ajudando a controlar a intensidade das enchentes. Na época da seca, essas áreas liberam água, ajudando a garantir a vazão mínima dos rios, uma função muito parecida com aquela realizada pelos Banhados dos Pampas Gaúchos. Esses ecossistemas abrigam uma biodiversidade própria e são fundamentais para o equilíbrio dinâmico dos caudais dos rios e também da biodiversidade aquática. 

Os serviços ambientais fornecidos pelas turfeiras vão ainda mais longe: elas também formam uma barreira natural que protege as terras litorâneas contra a intrusão de águas salinas. Também funcionam como filtro, retendo substâncias poluentes que poderiam atingir os rios e lagoas. Fornecem abrigos e alimentos para toda uma gama de animais silvestres, inclusive algumas espécies seriamente ameaçadas de extinção como o rinoceronte de Sumatra (Dicororhinus sumatrensis), além de uma outra função de grande importância ambiental: as turfeiras armazenam grandes quantidades de carbono, evitando assim que ele escape para a atmosfera na forma de dióxido de carbono, um dos gases de efeito estufa responsáveis pelo aquecimento global.

A drenagem dessas áreas pantanosas, que é feita através da abertura de canais, cria solos secos para a construção de moradias e oferece áreas de grande fertilidade para a ampliação de áreas de cultivo. Apesar do aparente ganho em novas áreas disponíveis, a secagem das turfeiras aumenta imensamente os riscos de incêndios florestais, que já são intensos na região. A turfa é um material altamente combustível, usado em muitos países para o aquecimento de casas e para cozinhar – na Escócia, a queima da turfa é usada na destilação do whisky.

O contato acidental da turfa com uma fonte de calor pode resultar em um grande desastre. Em outubro de 1995, citando um exemplo, um incêndio originado numa região de turfeiras em Selangor destruiu 16 hectares da reserva florestal de Bukit Tungaal. Um caso semelhante ocorreu anos depois numa área florestal de Kampung Penadah, onde 160 hectares de floresta foram queimados. 

As Autoridades da Malásia, preocupadas com os ganhos obtidos com as exportações de azeite de dendê, parecem fazer vista grossa para os problemas e vão permitindo um avanço cada vez maior dos desmatamentos e ocupação de pântanos de turfa. Em algumas regiões do país, 80% dos antigos pântanos de turfa foram dessecados e transformados em campos agrícolas. Entre os países que compram o azeite de dendê da Malásia estão a França e a Alemanha, dois dos países que mais têm elevado o tom das críticas ao Brasil por causa da destruição da Floresta Amazônica. 

Enquanto muitos falam e outros ganham muito dinheiro, florestas e pântanos de turfa desaparecem silenciosamente no Sudeste Asiático, comprometendo as águas de rios e lagos, e ameaçando toda a rica biodiversidade aquática onde se encontra até o pirarucu da Amazônia.