OS BAIXOS NÍVEIS DO AÇUDE CASTANHÃO E OS PROBLEMAS DO ABASTECIMENTO DE ÁGUA NA REGIÃO METROPOLITANA DE FORTALEZA

VISITA A OBRAS DA TRANSPOSIÇÃO DO SÃO FRANCISCO E DO CAC COM

A dificuldade no acesso às fontes de água para o abastecimento de populações pode ser colocada no topo da lista de problemas de muitas cidades aqui no Brasil e pelo mundo afora. Na nossa última postagem falamos dos problemas enfrentados pelas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro; também falamos das dificuldades de Nova York, a maior cidade dos Estados Unidos da América, e de Bogotá, a capital de nossa vizinha Colômbia. Motivadas por problemas diferentes, essas cidades tem em comum a necessidade de buscar a água necessária ao abastecimento de suas populações a centenas de quilômetros de distância. 

Existem também os casos de muitas cidades que, apesar de todos os esforços para a realização de grandes obras, não tem conseguido sucesso nessa empreitada. Um bom exemplo é Fortaleza e toda a sua Região Metropolitana, que vem sofrendo há muitos anos com baixos estoques de água. O Governo do Estado empreendeu tempo e recursos na construção de um grande açude no interior do Estado para o armazenamento de água, além de implantar uma grande infraestrutura para o transporte do recurso por mais de 230 km até a Região Metropolitana. Apesar de todas as boas intenções, a natureza não ajudou e este ano não há muita água armazenada – estou falando do Açude Castanhão e sua saga. 

A região Metropolitana de Fortaleza possui 15 municípios e tem uma população de mais de 4 milhões de habitantes, o que corresponde a mais da metade de toda a população urbana do Estado do Ceará. Diferente da faixa litorânea do Leste nordestino, o litoral cearense se apresenta como uma extensão do Semiárido, com uma disponibilidade limitada de água. O principal sistema de abastecimento de água da Região é o Sistema Integrado Gavião, formado pelos reservatórios Pacajus, Pacoti, Riachão e Gavião, entre outros açudes menores.  

De acordo com informações atualizadas da CAGECE – Companhia de Águas e Esgotos do Ceará, “esses reservatórios estão com um bom nível e tem um volume de água suficiente para atender a população da Região Metropolitana de Fortaleza pelos próximos 6 meses“, o que deixa muita pouca margem para situações de emergência. O Sistema Cantareira, principal manancial de abastecimento de água da Região Metropolitana de São Paulo, pode armazenar água suficiente para abastecer grande parte da população por até 3 anos e, mesmo assim, os paulistanos passaram por um enorme sufoco durante a seca que se abateu na Região entre 2014 e 2016. 

Foi justamente para garantir a segurança hídrica da população que foi construído o Açude Castanhão. Inaugurado em 2002, o Castanhão tinha como principal objetivo o de se transformar no maior e principal de abastecimento da Região Metropolitana de Fortaleza, apesar de estar localizado no interior do Estado, a aproximadamente 230 km da capital. Com capacidade para armazenar um volume total de 6,7 bilhões de m³ de água, esse açude é considerado o maior reservatório para usos múltiplos da América Latina. Esse volume corresponde a quase 40% da capacidade total de armazenamento de todos os 8 mil açudes do Ceará, incluindo na lista o famoso Açude Orós, que durante décadas foi o maior de todos. 

Apesar de toda a sua infraestrutura e de todas as expectativas criadas com a construção do Açude do Castanhão, a natureza não tem feito a sua parte nos últimos anos, com chuvas abaixo da média em alguns anos e extremamente irregulares e dispersas em outros. Como resultado dessa falta de “colaboração” da natureza, o nível do Castanhão hoje – 10/12/2019, é de apenas 3,12% da sua capacidade total. Desde o último mês de abril, a captação de água no Açude para o abastecimento da Região Metropolitana está suspensa. 

O Açude Castanhão está localizado oficialmente no município de Alto Santo, porém, o reservatório se distribui em áreas de diversos municípios. O principal rio formador do reservatório é o rio Jaguaribe, o maior rio do estado do Ceará com uma extensão total de 633 km. A bacia hidrográfica do rio Jaguaribe ocupa mais da metade do território cearense e seus caudais são bastante sensíveis aos períodos de forte estiagem, característica que já rendeu o apelido de “maior rio seco do mundo”. Além do Castanhão, o rio Jaguaribe também abriga o famoso Açude Orós e uma infinidade de outros açudes de pequeno porte. 

A instabilidade dos caudais do rio Jaguaribe tem reflexos diretos no Açude Castanhão e, consequentemente, no abastecimento de água da Região Metropolitana de Fortaleza. Entre 2012 e 2015, quando toda a região do Semiárido Nordestino enfrentou uma fortíssima estiagem, o Açude entrou no volume morto e a população foi obrigada a fazer um enorme esforço para economizar água. Já em 2016, o Castanhão foi o principal manancial de abastecimento da Região Metropolitana, fornecendo 70% da água consumida pela população. 

Em 2019, o Estado do Ceará apresentou um volume de chuvas acima da média histórica, o que infelizmente não teve reflexos no aumento do nível do Açude Castanhão. As chuvas não foram uniformes e a bacia hidrográfica do rio Jaguaribe acabou sendo bastante prejudicada. O volume do reservatório aumentou apenas 5 pontos percentuais ao longo desse ano, ficando com um volume 3% menor do que o aumento registrado em 2018. Uma das esperanças da população local é a chegada das águas da Transposição do Rio São Francisco – um dos canais do sistema, com cerca de 400 km de extensão, chegará até o Ceará e as águas transpostas reforçarão os caudais do rio Jaguaribe. 

Os baixíssimos níveis do Açude Castanhão também ameaçam uma série de pequenos municípios do interior cearense como Tabuleiro do Norte, São João do Jaguaribe, Limoeiro do Norte, Jaguaribara e Russas. A se manterem os baixos níveis no reservatório, esses municípios terão o seu abastecimento comprometido a partir do final de janeiro de 2020. Diversos outros municípios que eram atendidos pelo Açude Castanhão estão captando água em poços profundos ou estão buscando pequenos açudes que ainda tem água em seus territórios. 

O Ceará é, historicamente, um dos Estados do Nordeste que mais sofreu com os fortes períodos de estiagem. O Semiárido Nordestino é frequentemente assolado por fortes secas – há registros de grandes tragédias em 1744, 1790, 1877, 1915 e 1932, além de uma infinidade de estiagens menos intensas. Essas fortes secas costumam durar de 2 a 3 anos – as secas de 1877 e de 1932 foram excepcionalmente fortes. Na seca de 1877, conforme comentamos em uma postagem anterior, cerca de 500 mil sertanejos nordestinos que fugiram da seca foram recrutados para trabalhar nos seringais da Amazônia. A grande maioria desses trabalhadores saiu do Ceará, trocando a miséria do sertão pela semiescravidão na Floresta Amazônica

Apesar de contar com a chegada das águas da Transposição do Rio São Francisco, um projeto que já sofreu diversos adiamentos, o Governo do Estado do Ceará tenta buscar outras alternativas para aumentar a disponibilidade de água para o abastecimento de sua população. A mais ousada é um projeto para a instalação de uma grande usina de dessalinização da água do mar na Região Metropolitana. Nas pequenas cidades, os esforços se concentram na escavação de poços e na construção de cisternas nas propriedades rurais. 

Como você pode notar, abastecer grandes populações com água de boa qualidade requer esforços monumentais dos governos e empresas de saneamento básico, e ainda é preciso contar com uma boa ajuda da mãe natureza.

 

AS DIFICULDADES DOS SERVIÇOS DE ABASTECIMENTO DE ÁGUA NAS GRANDES CIDADES, OU BUSCANDO A ÁGUA EM DISTÂNCIAS CADA VEZ MAIORES

Páramos andinos

Na nossa última postagem, falamos da chegada do período das chuvas de verão na Região Centro-Sul do Brasil. Como acontece todos os anos, esse é um período marcado por enchentes, alagamentos e desmoronamento de encostas em muitas cidades, onde o crescimento não foi acompanhado por um planejamento urbano adequado e por obras de infraestrutura, especialmente na área do saneamento básico. Mesmo com todos esses problemas, essas chuvas são fundamentais para a recomposição dos níveis das represas de abastecimento de água e também nos reservatórios das usinas hidrelétricas

Uma informação transversal que surgiu no texto dava conta das dificuldades para o abastecimento das cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro, onde a água precisa ser captada a centenas de quilômetros de distâncias e transportada por complexos sistemas de bombeamento e transposição entre bacias hidrográficas. Esse tema é bem interessante e vamos falar um pouco mais sobre isso hoje. 

A cidade de são Paulo, fundada pelos padres Jesuítas em 1554, seguiu uma “fórmula” muito usada na Idade Média – o assentamento foi formado entre dois rios. De um lado, o rio Tamanduateí, que foi responsável pelo abastecimento de água da população até meados do século XIX; de outro lado, o rio Anhangabaú, escolhido para receber e dispersar o lixo e os resíduos gerados pelos moradores. A escolha do Anhangabaú para essa triste função teve uma boa ajuda dos indígenas – dentro do folclore local, esse rio era amaldiçoado e evitado desde tempos imemoriais pelos índios. 

Com o crescimento da cidade de São Paulo, cresceu também a poluição das águas do rio Tamanduateí, que apresentava uma qualidade cada vez pior. Por volta da década de 1880, a Prefeitura da cidade resolveu buscar água na então distante Serra da Cantareira, famosa pelas suas muitas fontes de água cristalina. Foi criado então o primeiro Sistema Cantareira, que foi responsável por parte importante do abastecimento da cidade até o início da década de 1970, época em que o aumento explosivo da população da Região Metropolitana exigiu a construção de um novo e muito maior sistema de abastecimento de água. 

Sem contar com importantes fontes de água disponíveis nas proximidades, foi escolhida a Região Entre Serras e Águas na divisa com o Estado de Minas Gerais, a mais de 100 km de distância do centro da cidade de são Paulo. Alguns dos principais mananciais do Sistema tem nascentes no Estado vizinho como é o caso do rio Camanducaia. As distâncias que são percorridas pelas águas do Sistema Cantareira chegam até 160 km, onde se incluem represas, canais, tuneis e estações de bombeamento. O Cantareira atende atualmente 7,5 milhões de habitantes. Numa eventual saturação do Sistema Cantareira, a Região Metropolitana de São Paulo terá de buscar águas no rio Ribeira de Iguape, a mais de 250 km de distância.

Na cidade do Rio de Janeiro e municípios vizinhos da Região Metropolitana, cerca de 80% da água usada no abastecimento vem do rio Paraíba do Sul – a margem desse rio mais próxima da capital fluminense fica a quase 200 km de distância. A escolha do sítio onde foi fundada a cidade do Rio de Janeiro se deu em função das boas condições da Baía da Guanabara para o atracamento de grandes embarcações. Apesar da localização altamente estratégica, a região não possui grandes rios e o abastecimento de água sempre foi problemático na cidade. 

A solução para os problemas de abastecimento de água no então Estado da Guanabara, antiga Capital Federal do Brasil, começou a ser resolvida com a entrada em cena da Light & Power Company, empresa que ganhou a concessão dos serviços de geração e distribuição de energia elétrica. A primeira grande obra da empresa foi a Usina Hidrelétrico de Fontes, iniciada em 1903, seguida pela Barragem de Lajes, iniciada em 1905, além de usinas hidrelétricas na calha do rio Paraíba do Sul

Em1950, buscando atender o grande aumento na demanda de energia elétrica do Rio de Janeiro, a Light iniciou a construção da Barragem de Santa Cecília no rio Paraíba do Sul. Essa estrutura fazia parte de um grande sistema de transposição das águas do rio Paraíba do Sul na direção de represas e usinas hidrelétricas da Light no interior do Estado. Graças a esse complexo sistema de transposição, cerca de 60% dos caudais do rio Paraíba do Sul passaram a ser desviados – depois de passar pelas turbinas de geração de energia elétrica, essa água era lançada na bacia hidrográfica do rio Guandu e assim seguia na direção da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, passando a ser usada no abastecimento da população local. 

Uma outra grande cidade que tem de se esforçar bastante para garantir o abastecimento de sua população é Nova York, a maior cidade dos Estados Unidos, que abriga uma população de mais de 15 milhões de habitantes em sua Região Metropolitana. A maior parte da população se concentra em 5 grandes ilhas, localizadas entre o Oceano Atlântico e a foz do rio Hudson. O sistema de abastecimento de água da cidade começou a ser construído em 1830, captando águas no rio Hudson a montante da mancha urbana. A proximidade com as águas salgadas do oceano é sempre problemática para um sistema de abastecimento de água. A intrusão de água salgada na calha do rio, que em algumas épocas do ano aumenta muito, sempre obrigou a captação a grandes distâncias da foz. 

No início da década de 1990, o sistema de abastecimento de água de Nova York atingiu um ponto de saturação, sem conseguir atender mais o crescimento da demanda. Sem contar com recursos para a construção de um novo sistema produtor, orçado na época em US$ 5 bilhões, a empresa de águas da cidade iniciou um amplo programa de economia e uso racional da água, o que garantiu alguns anos de sobrevida ao antigo sistema. Nos últimos anos, contando com dinheiro para a realização das obras, Nova York iniciou a construção de seu novo sistema de abastecimento – as represas estão localizadas a mais de 170 km do centro da cidade, o que exigiu a construção de um complexo sistema de tubulações e túneis para o transporte da água. 

Outra grande cidade que podemos incluir na lista daquelas com dificuldade para o abastecimento de sua população é Bogotá, a capital da Colômbia. Com mais de 7 milhões de habitantes e localizada a uma altitude de 2.640 metros acima do nível do mar, Bogotá sempre contou com as águas do rio Madalena para o seu abastecimento. Esse importante rio, infelizmente, está apresentando uma série de problemas e, dentro de pouco tempo, o abastecimento da população poderá entrar em colapso. As nascentes do rio Madalena dependem da água resultante do derretimento da neve e do gelo acumulado no alto da Cordilheira dos Andes. Conforme comentamos em uma outra postagem, o aquecimento global está provocando o desaparecimento de uma série de geleiras nos Andes Tropicais

Até o início da década de 1950, existiam 14 grandes geleiras nos Andes colombianos – de lá para cá, 8 dessas geleiras já desapareceram e as 6 restantes estão apresentando uma diminuição sistemática de suas massas de gelo. Prevendo o desaparecimento iminente do rio Madalena, a cidade de Bogotá está realizando uma série de obras que permitirão a captação da água dos páramos andinos (vide foto), um tipo de vegetação arbustiva que cresce a partir de altitudes acima dos 3 mil metros e se estende até a linha de formação da neve. Esse tipo de vegetação é muito similar aos banhados dos Pampas Sulinos e tem a características de funcionar como uma esponja que absorve grandes quantidades de água.  

À diferença do rio Madalena, que corta a cidade de Bogotá, esses novos sistemas de captação de água nos páramos ficam a dezenas de quilômetros de distância da mancha urbana, o que vai dificultar e encarecer bastante a captação e o transporte da água

Buscar água em fontes cada vez mais distantes está se tornando uma frequente e triste realidade para as grandes cidades do mundo. 

AS SEMPRE AGUARDADAS CHUVAS DE VERÃO

Chuvas de Verão

Com a chegada do final do ano, tem início o período das fortes chuvas na Região Centro-Sul do Brasil, temporada que, normalmente, se estenderá até o final do mês de março. Em muitas das grandes e médias cidades da Região, a temporada das chuvas também se apresenta como um período de fortes transtornos e tragédias, com enchentes, alagamentos e desmoronamentos de encostas. Essas cidades, em sua grande maioria, cresceram e se desenvolveram sem maiores preocupações com o saneamento básico: esgotos e águas pluviais sempre foram tratados com muito descaso e improviso. Com a chegada das chuvas de verão, a “fatura” desse descaso acaba chegando a todos os seus habitantes. 

Apesar de todos os problemas e tragédias que chegam junto com as chuvas, essa é uma temporada aguardada com grande expectativa: são essas chuvas que enchem os reservatórios das usinas hidrelétricas e as represas de abastecimento das áreas urbanas, garantindo a água que será usada pelas populações ao longo do próximo ano. Um exemplo dessa importância é o Sistema Cantareira, o principal manancial de abastecimento da Região Metropolitana de São Paulo. 

De acordo com informações da Sabesp, empresa responsável pelo abastecimento de água em grande parte do Estado de São Paulo, hoje o Sistema Cantareira está com apenas 38% da sua capacidade de armazenamento (09/12/2019). De acordo com os parâmetros usados pela empresa, quando o nível do Sistema está entre 30% e 40% de sua capacidade, é considerado em Estado de Atenção e a retirada de água passa a ser limitada a 27 mil litros por segundo – de acordo com informações da empresa, a retirada já está abaixo de 25 mil litros/s a fim de economizar água

O Sistema Cantareira foi construído entre as décadas de 1960 e final da década de 1970, possuindo um total de cinco reservatórios na região conhecida como Entre Serras e Águas, que fica na divisa entre o Nordeste do Estado de São Paulo e o Sul de Minas Gerais. Esse sistema foi projetado com o objetivo de substituir o Sistema Cantareira Velho, em operação desde as últimas décadas do século XIX e que não estava mais atendendo as necessidades de consumo da Região Metropolitana. O novo Sistema Cantareira é formado por um complexo conjunto de represas, canais, túneis e estações de bombeamento, responsáveis por transportar a água por distâncias de até 160 km até chegar aos consumidores na Região Metropolitana de São Paulo.  

Até recentemente, o Sistema Cantareira era responsável pelo abastecimento de mais de 9 milhões de pessoas, porém, depois da grande crise de abastecimento vivida na Região entre os anos de 2014 e 2016, o Sistema atende “apenas” 7,5 milhões de pessoas atualmente. A água fornecida pelo Sistema Cantareira abastece as Zonas Norte, Oeste, Central e parte da Zona Leste da cidade de São Paulo, além dos municípios de Franco da Rocha, Francisco Morato, Caieiras, Osasco, Barueri, São Caetano do Sul e Guarulhos. O abastecimento de água da população é complementado por um conjunto de outros mananciais que formam os Sistemas Guarapiranga, Alto Tietê, Rio Grande, entre outros menores. 

Em abril de 2018, a Sabesp inaugurou o Sistema São Lourenço, um novo manancial com capacidade para atender uma população de até 2 milhões de habitantes nos municípios de Barueri, Carapicuíba, Cotia, Itapevi, Osasco, Jandira, Santana de Parnaíba e Vargem Grande Paulista. Esse novo Sistema veio aliviar parte da extrema dependência dos paulistanos em relação ao Sistema Cantareira e ajudar a prevenir os problemas criados pela grande seca de anos anteriores. 

A seca que se abateu na região Entre Serras e Águas a partir de 2014 foi fortíssima e levou o nível do sistema Cantareira para menos de 3% de sua capacidade de armazenamento. Foi necessária a implantação de uma rigorosa redução da pressão nas redes de abastecimento de água (o Governo paulista se recusa em admitir que foi um racionamento de água), além da realização de um conjunto de obras emergenciais para a captação e o transporte de água a partir de outros sistemas produtores. Nas represas do Sistema Cantareira foram realizadas obras que permitiram a captação da água localizada no chamado Volume Morto, uma reserva que está abaixo do nível normal de captação. 

O trauma deixado por essa grande seca também incentivou a construção de um sistema que permite a transposição de águas da Represa Jaguari, localizada na bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul, para a Represa do Atibainha, uma das formadoras do Sistema Cantareira. Inaugurado em março de 2018, esse sistema de transposição entre bacias hidrográficas permite a transferência de águas nos dois sentidos. Em momentos em que o Sistema Cantareira atingir o seu nível máximo, o que não acontece desde 2012, as águas excedentes poderão ser lançadas na Represa Jaguari, reforçando os estoques de água. Em momentos em que o Sistema Cantareira estiver com baixos níveis, a água será retirada da Represa Jaguari e bombeada na direção da Represa do Atibainha   

Apesar de estar localizada dentro do Estado de São Paulo, a Represa Jaguari, e outras localizadas ao longo da bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul, faz parte do sistema de armazenamento de água que é usado para o abastecimento do Estado do Rio de Janeiro. Um volume com cerca de 60% das águas do rio Paraíba do Sul é desviado para o Estado do Rio de Janeiro através de um sofisticado sistema de transposição, onde as águas são usadas primeiro para a geração de energia elétrica e depois são lançadas na direção do rio Guandu e usadas para o abastecimento de 80% da população da Região Metropolitana do Rio de Janeiro

Os Estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais já tiveram de disputar na Justiça o direito pelo uso das águas do rio Paraíba do Sul. A questão chegou inclusive ao STF – Supremo Tribunal Federal, onde foi estabelecido um sistema para a partilha dessas águas. A inauguração do sistema de transposição Jaguari-Atibainha, apesar de estar amparado pela lei, é visto com desconfiança pelos demais Estados que formam a bacia hidrográfica. 

A água é um dos recursos naturais mais escassos e disputados da atualidade. O Brasil está entre os países do mundo com a maior disponibilidade de água doce do planeta. Porém, como deve ser do conhecimento de todos, a maior parte desses recursos estão na Região Norte do país, onde fica a Bacia Amazônica. Em Estados densamente povoados como São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, o recurso é cada vez mais escasso, sendo intensamente disputado por populações, indústrias e agricultura. 

Dentro desse quadro complicado, onde o abastecimento de milhões de pessoas está em jogo, a chegada do período das chuvas é sempre bem-vindo, apesar de todos os eventuais transtornos envolvidos. 

Então, que venham as chuvas…

OS REFUGIADOS DO CLIMA

BANGLADESH-CLIMATE

Eu acredito que a maioria dos leitores deva conhecer a história de Noé, um dos velhos patriarcas da Bíblia. Alertado pelo próprio Deus sobre um iminente dilúvio que desabaria sobre a Terra, Noé recebeu instruções detalhadas para a construção de uma grande embarcação, através da qual poderia salvar sua família, vizinhos e os animais de uma morte certa por afogamento. Chamado de louco pelos seus compatriotas, Noé não se intimidou e gastou muitos anos em sua empreitada. Segundo a narrativa, um casal de cada espécie animal veio voluntariamente se abrigar na arca – nenhum outro ser humano além de Noé e sua família buscou refúgio contra a tragédia. Chuvas torrenciais caíram durante vários dias, cobrindo toda a Terra e matando todos os “pecadores”.  

Evidências geológicas indicam que, por volta do VI milênio antes de Cristo, houve mesmo uma grande enchente em regiões da Ásia Central. Segundo uma das hipóteses dos geólogos, uma série de fortes terremotos pode ter fechado ou reduzido o Estreito de Bósforo, na Turquia, o que foi seguido de períodos de fortes chuvas na Ásia Central. Isso levou a uma forte elevação do nível do Mar Negro, que acabou invadindo grandes extensões de territórios de baixa altitude. Milhares de pessoas (talvez milhões) foram obrigadas a abandonar suas terras e fugir para terrenos mais altos. A história de Noé e de sua saga aparece em diferentes narrativas de diversos povos da região, sendo que a maioria desses relatos são bem anteriores à versão descrita pelos judeus em seu livro sagrado. 

A narrativa do dilúvio bíblico é apenas uma entre milhares de outras histórias e relatos históricos (muitos se aproximam mais do misticismo) de grandes tragédias climáticas vividas por diferentes povos, em diferentes locais e tempos ao longo da história. O rumo e os destinos de muitos povos antigos foram, literalmente, destruídos por eventos climáticos extremos como secas, enchentes e furacões. Nações inteiras acabaram por serem destruídas pela fúria do clima e grandes contingentes populacionais foram deslocados para outras regiões. 

Nas últimas décadas, as mudanças climáticas globais criaram uma nova categoria de refugiados, que passaram a ser chamados de refugiados climáticos ou ambientais. Essa nova “classe” de refugiados veio de somar a outros milhões de deslocados por guerras e por tragédias ambientais naturais. De acordo com estimativas da ONU – Organização das Nações Unidas, existem perto de 65,6 milhões de refugiados de guerras, conflitos internos, perseguições políticas e violações dos direitos humanos no mundo atual. Os refugiados climáticos são estimados em mais de 20 milhões de pessoas a cada ano. 

Entre as principais razões para a migração de populações por causas climáticas estão a desertificação, o aumento do nível do mar, as secas e a interrupção de fenômenos naturais como as monções, o período de fortes chuvas anuais do Subcontinente indiano e Sudeste Asiático. De acordo com o Relatório Mundial de Desastres de 2001, publicado pela Cruz Vermelha Internacional, os desastres ambientais estão superando as guerras como um fator do deslocamento de populações.  

O continente africano oferece diversos exemplos das tragédias que estão sendo criadas pelas mudanças do clima mundial. De acordo com informações recentes divulgadas pela ONU, perto de 45 milhões de pessoas estarão em grave situação de insegurança alimentar nos próximos seis meses por causa da forte seca que está assolando a África Austral, um tema que já tratamos em postagem anterior. Mudanças no padrão climático do Oceano Índico, com origem no aquecimento global, estão reduzindo as chuvas no Sul e no Leste da África, o que tem resultado em um forte período de seca em países como Angola, Lesoto, Madagascar, Malauí, Namíbia, Moçambique, Zâmbia, Zimbábue e África do Sul

Nos últimos cinco anos, as chuvas foram regulares em apenas um. Para piorar a situação, as temperaturas na África Austral aumentaram o dobro da média mundial. Com a falta de chuvas e com o aumento da temperatura, a produção agrícola entrou em colapso em muitas regiões, colocando a sobrevivência de milhões de pessoas em risco. Sem outras alternativas, essas populações passam a migrar em busca de melhores condições de vida em outras regiões. 

Parte dessa mesma região foi atingida em março deste ano pelo ciclone Idai, que causou forte destruição em Moçambique, Madagascar, Malauí, Zimbábue e África do Sul. Foram registradas mais de 700 mortes, especialmente em Moçambique, e centenas de milhares de pessoas ficaram desabrigadas. As estimativas oficiais afirmam que perto de 2,5 milhões de pessoas foram afetadas diretamente pela fúria do Idai

O aumento do nível do mar também está se transformando em uma outra forte razão para o deslocamento de populações. Em 2009, os habitantes das Ilhas Carteret, em Papua Nova Guiné, se transformaram nos primeiros refugiados climáticos oficiais por causa da elevação do nível do mar. Com uma altitude máxima de 1,7 metro acima do nível do mar, as terras dessas ilhas passaram a ser varridas pelas ondas, o que destruía casas e plantações. 

Sem outra alternativa, o Governo local iniciou um plano de evacuação total da população em março de 2009. Os cerca de 2.600 habitantes foram transferidos para ilhas próximas com maior altitude, como a Ilha de Bougainville localizada a cerca de 80 km de distância. Conforme comentamos na postagem anterior, as maiores vítimas das mudanças climáticas são as populações pobres dos países mais pobres. Os moradores das Ilhas Carteret nunca contaram com eletricidade ou com veículos com motores a combustão interna e, consequentemente, suas contribuições em termos de emissão de gases de efeito estufa ao longo da história foram desprezíveis. 

O aumento do nível do mar está entre as maiores ameaças climáticas dos próximos anos. Em um relatório recente do Banco Asiático de Desenvolvimento – Mudança Climática e Migração na Ásia e no Pacífico, há previsões bastante preocupantes dos impactos da elevação do nível dos oceanos na região. As estimativas falam de 37 milhões de deslocados na Índia, 22 milhões na China e 21 milhões na Indonésia até o ano de 2050. Em Bangladesh, país que tem atualmente 170 milhões habitantes, as estimativas falam de 30 milhões de refugiados climáticos até o ano de 2050

A Ilha de Bhola (vide foto), que fica na região da foz do rio Meghna na costa de Bangladesh, é um exemplo do que já está acontecendo na região. Desde a década de 1990, cerca de 500 mil pessoas dessa ilha já perderam as suas terras por causa da elevação do nível do mar e foram obrigadas a se mudar para outras regiões. 

Apesar de ser uma “criação” bastante recente da humanidade, os refugiados climáticos serão em breve um dos maiores desafios humanitários do nosso planeta, afetando populações em todo o mundo. 

MUDANÇAS CLIMÁTICAS JÁ FORÇAM O DESLOCAMENTO DE MAIS DE 20 MILHÕES DE PESSOAS A CADA ANO

Refugiados climáticos

A Organização não governamental internacional Oxfam divulgou um relatório na última segunda-feira, dia 2 de dezembro, com o título “Obrigados a deixar suas casas”. Nesse relatório, desastres climáticos como furacões, tempestades, enchentes e ciclones, são apontados como a causa do deslocamento forçado de mais de 20 milhões de pessoas a cada ano nessa última década em todo o mundo. A publicação do relatório coincidiu com a abertura da COP 25 – Conferência do Clima, organizada pela ONU – Organização das Nações Unidas, que está sendo realizada em Madrid, Espanha. 

A Oxfam International é uma confederação de 19 organizações e mais de 3.000 parceiros, que atua em mais de 90 países na busca de soluções para os problemas da pobreza, desigualdade e da injustiça, por meio de campanhas, programas de desenvolvimento e ações emergenciais. A Oxfam foi fundada no Reino Unido em 1942 e sua sede mundial fica em Nairóbi, no Quênia. 

De acordo com o relatório da Oxfam, é “três vezes mais provável que alguém seja forçado a deixar a sua casa por ciclones, inundações ou incêndios florestais do que por conflitos, e até sete vezes mais do que por terremotos ou erupções vulcânicas“. Para chegar a essas conclusões, a Organização analisou dados de catástrofes climáticas de todo o mundo no período entre 2008 e 2018. Foi a análise detalhada desses dados que mostrou o número total de pessoas que foram afetadas por eventos climáticos em todo o mundo a cada ano. 

Chama a atenção no relatório que não são apenas os países pobres e em desenvolvimento os que são vulneráveis às catástrofes com origem climática – na Europa, a lista dos países altamente vulneráveis a esses eventos é encabeçada pela República Tcheca, Grécia e Espanha. Em anos recentes, esses países foram assolados por secas, enchentes e grandes incêndios florestais, demonstrando uma grande falta de preparo para o gerenciamento e atendimento das populações que foram afetadas. 

No entanto, são mesmo as populações dos países de rendimento médio-baixo e baixo as mais susceptíveis aos impactos das crises climáticas. Cidadãos da Índia, Nigéria e Bolívia, citando como exemplo, tem cerca de 4 vezes mais chances de serem forçados a abandonar suas casas por causa de desastres climáticos naturais do que seus congêneres de países ricos como os Estados Unidos. Ironicamente, esses países são os que menos geram gases de efeito estufa, os grandes vilões do aquecimento global e das mudanças climáticas. 

Outra importante informação contida no relatório mostra que sete dos dez países com maiores riscos de deslocamento de populações por causa de fenômenos meteorológicos são as pequenas nações insulares em desenvolvimento. Entre 2008 e 2018, cerca de 5% da população de Cuba e República Dominicana, na região do Mar do Caribe, e de Tuvalu, ilha polinésia do Oceano Pacífico, foram deslocadas por condições climáticas extremas, mais especificamente por furacões e tufões que atingiram essas ilhas nos últimos anos. As emissões de gases causadores do efeito estufa per capita dessas nações equivale a 1/3 das emissões dos países ricos

Um exemplo bem recente da ira do clima mundial foram as fortes chuvas que assolaram vários países do Leste da África há cerca de 10 dias, com destaque especial para o Quênia. As fortes enxurradas provocaram grandes deslizamentos de encostas e as enchentes e ondas de lama destruíram cerca de 22 mil casas e mataram ao menos 100 pessoas. Informações da Cruz Vermelha do Quênia falam de 160 mil desabrigados. Incluindo-se nessa conta os desabrigados no Sudão do Sul, Somália, Tanzânia e Etiópia, a cifra chega à casa de 1 milhão de vítimas

Outros exemplos recentes que podemos citar são os incêndios florestais que estão devastando extensas áreas da Austrália e as enchentes em Veneza. No caso da Austrália, a origem do problema é uma forte seca que está castigando uma grande parte do país – aliás, a frequência das secas aumentou muito nessa ilha-continente nas últimas décadas. A situação está sendo agravada por fortes ventos, que ajudam a espalhar as chamas. Em Veneza, o grande vilão das enchentes são fenômenos climáticos no Mar Adriático, o que está provocando uma forte alta nas marés, um fenômeno que os locais chamam de “acqua alta”. No pico das inundações, mais de 90% da cidade ficou encoberto pelas águas. 

Existe, porém, uma grande diferença entre os eventos no Leste da África e as tragédias da Austrália e da Itália – a situação econômica dos diferentes países e a capacidade de atendimento às vítimas climáticas. Enquanto a Austrália e a Itália são países ricos e com recursos para acolher suas vítimas, os países africanos estão no grupo das nações pobres, onde as vítimas não podem contar com uma ajuda adequada dos Governos de seus países. Esse é, justamente, um dos principais alertas do relatório da Oxfam. De acordo com um dos diretores da organização, “são as pessoas mais pobres, dos países mais pobres, que pagam o preço mais alto”. 

Entre outras reinvindicações, a Oxfam espera que a COP 25 conclua a revisão do Mecanismo Internacional de Varsóvia para Perdas e Danos. Esse mecanismo foi propostos na COP 19, que ocorreu em Varsóvia, na Polônia, em 2013, com o objetivo de oferecer proteção às populações mais vulneráveis às mudanças climáticas. A Organização espera que os países membros deem um forte impulso para a criação de novos fundos de emergência com vistas ao apoio e a recuperação das comunidades atingidas por catástrofes climáticas. Também se espera que os países estipulem metas mais ambiciosas com vistas a redução das suas emissões de gases causadores do efeito estufa. 

O principal acordo internacional para a redução das emissões mundiais de gases causadores do efeito estufa é o Acordo de Paris, assinado em 2015, durante a COP 21 e com validade a partir de 2020. Pelo acordo, os 195 países signatários se comprometerem a reduzir suas emissões com vistas a conter o aquecimento global até o final do século XXI abaixo de 2° C, preferencialmente em 1,5° C, além de reforçar a capacidade dos países em promover o desenvolvimento sustentável

Entre muitos líderes mundiais que participam da COP 25 existe um consenso sobre a necessidade de tornar as medidas para a contenção dos gases de efeito estufa ainda mais restritivas.  Pelo “andar da carruagem”, as medidas propostas pelo Acordo de Paris são muito tímidas e insuficientes para limitar o aquecimento global aos valores pretendidos. Por outro lado, muitos países resistem fortemente a essa ideia, sob o argumento de riscos ao seu crescimento econômico. Entre as vozes dissonantes, o grande destaque são os Estados Unidos, país cujo Governo já decidiu pela sua retirada do Acordo de Paris. 

Enquanto os representantes de quase 200 nações discutem o futuro do planeta e os riscos das mudanças climáticas globais sem chegar a um consenso na COP 25, o risco de um aumento progressivo do número de “refugiados climáticos” ano após ano será cada vez maior. 

É fundamental que fique bem claro a todos os representantes dos países que estamos tratando do futuro de toda a humanidade. 

O GRADUAL DESAPARECIMENTO DO LAGO CHADE NA ÁFRICA

Lago Chade

Na nossa última postagem falamos dos problemas enfrentados pelo Lago Titicaca nos Altiplanos Andinos, que vem sofrendo com a intensa poluição de suas águas e também com uma lenta redução do seu nível. Ações antrópicas, ou seja, de origem humana, e o aquecimento global estão na base dos problemas. Um outro exemplo de lago que está sofrendo com terríveis problemas é o Lago Chade, na África. Até o início da década de 1960, o Chade tinha um espelho d’água com uma superfície de 25 mil km², cerca de três vezes o tamanho do Lago Titicaca – atualmente, o Lago Chade apresenta apenas 10% dessa área

O Lago Chade ocupa terras de quatro países: Chade, Camarões, Níger e Nigéria. Durante muitas eras, o Lago foi a principal fonte de água de uma região conhecida como Cinturão do Sahel, uma extensa faixa de terras entre o Oceano Atlântico a Leste e o Mar Vermelho a Oeste, separando o Deserto do Saara e as regiões de savanas na África. Uma população de 40 milhões de habitantes vive nas cercanias e depende das águas do Lago Chade. 

O Norte da África vem sofrendo as consequências de fortes mudanças climáticas e geológicas naturais há milhares de anos, que alteraram completamente o clima e as paisagens da região. Há cerca de 20 mil anos atrás, após o último período de Glaciação ou Era do Gelo, como é mais conhecida popularmente, o Norte da África apresentava um clima mais úmido e com temperaturas mais baixas que as atuais, contanto com diversos rios permanentes. De acordo com estudos recentes, o famoso Rio Nilo, que hoje atravessa o Egito de Sul a Norte e deságua no Mar Mediterrâneo, naqueles tempos atravessava todo o Norte da África e tinha a sua foz no Oceano Atlântico. Para a maioria dos especialistas, porém, essa mudança no curso do rio Nilo ocorreu há mais de 30 milhões de anos atrás. 

Grande parte do território que hoje se encontra soterrado por dezenas de metros de dunas de areia seca era coberto por densas florestas – as partes “mais secas” eram cobertas por vegetação de savana, muito parecida com o nosso Cerrado. Todos os animais africanos que você costuma ver nos documentários como elefantes, girafas, zebras, antílopes, rinocerontes, hipopótamos, macacos e aves de todos os tipos se espalhavam por todo esse território. Pinturas rupestres deixadas pelos antigos habitantes da região em pedras espalhadas por todo o deserto do Saara mostram cenas onde aparecem todos esses animais. Se você pudesse viajar no tempo e acabasse por desembarcar no meio desse território, nada lhe lembraria a imagem atual do grande deserto. 

Foi então que começaram as mudanças – nosso planeta sofreu uma leve alteração no seu eixo de rotação, o que foi suficiente para alterar a incidência solar no Norte da África e provocar uma alteração climática nos regimes de umidade e temperatura. Mudanças no relevo, provavelmente criadas por terremotos ou por um afundamento tectônico, desviaram o rio Nilo para o seu curso atual, com foz no Mar Mediterrâneo. Completando esse quadro de mudanças climáticas, grandes rios permanentes começaram a secar. Alguns cientistas afirmam que essas mudanças ocorreram a menos tempo, há cerca de 5 mil anos atrás, mas com as mesmas consequências – as florestas retrocederam lentamente até desaparecer e as áreas de savana se ampliaram.  

Todo esse profundo conjunto de mudanças climáticas, é claro, trouxe seus reflexos para o Lago Chade, que iniciou um lento e contínuo processo de encolhimento. Além de evidências físicas, existem relatos de observadores oculares que corroboram essas mudanças. Legiões romanas realizaram expedições pelo Deserto do Saara aos tempos do início da Era Cristã e deixaram registros sobre o Lago Chade, que tinha naquela época cerca de 300 mil km², uma área equivalente à da Alemanha. Isso demonstra que esse Lago, que até poucas décadas atrás era considerado o sexto maior do mundo, está num processo de encolhimento contínuo há milhares de anos. 

A lenta e gradual redução do Lago Chade sofreu um grande incremento a partir da década de 1960. Grandes projetos de agricultura irrigada passaram a ser implantados nas margens do Lago, contando com grandes estímulos dos diferentes Governos. A partir da década de 1950 teve início a chamada Revolução Verde – diversos avanços tecnológicos na produção de defensivos agrícolas e de fertilizantes mudaram as práticas na agricultura, o que permitiu um grande aumento da produção e redução da fome no mundo. Governos de países com grande carência na produção de alimentos e sujeitos a frequentes “epidemias” de fome passaram a fazer grandes investimentos em agricultura irrigada, contando para isso com apoio financeiro e tecnológico de organismos internacionais como a FAO – Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura. 

Os países localizados no entorno do Lago Chade, é claro, passaram a fazer a sua própria lição de casa e as águas passaram a ser usadas de forma não sustentável, com uso abusivo e grandes perdas por evaporação. Outra fonte importante de impactos ao Lago foi a construção de usinas hidrelétricas nas calhas de muitos dos seus rios formadores. Sem estudos de impacto ao meio ambiente, uma prática muito pouco usada naqueles tempos, essas obras provocaram uma grande redução na vazão dos rios tributários do Lago Chade, o que combinado ao uso abusivo de suas águas para irrigação levou a atual situação de crise hídrica e humanitária. 

Na década de 1980, a área ocupada pelo Lago Chade oscilava entre 10 e 20% da área existente até o início da década de 1960 – em alguns anos, essa redução atingiu a impressionante marca de 95%. A redução acentuada do nível do Lago passou a inviabilizar inúmeros projetos agrícolas, que passaram a ficar extremamente distantes das suas águas e sem condições de fazer o bombeamento. Muito projetos foram transferidos para as “novas margens” do Lago, ocupando terras que, até pouco tempo antes, faziam parte do fundo do Chade. 

O colapso na produção de alimentos e a falta de água provocou o deslocamento forçado de milhões de pessoas nos países da região de entorno do Lago Chade nas últimas décadas (vide foto). Além dos problemas ligados ao encolhimento do Lago, toda a região do Cinturão do Sahel passou a enfrentar uma drástica redução no volume de chuvas desde a década de 1970. Estudos meteorológicos indicam que as chuvas se deslocaram para regiões mais ao Sul e colocam a culpa nas mudanças climáticas globais

Nos últimos anos, as crescentes tragédias climáticas e ambientais da região ocupada pelo Lago Chade ganharam um novo e explosivo componente – uma guerra religiosa liderada pelo grupo islâmico extremista Boko Haram. Guiados por uma leitura bastante distorcida do Alcorão, o livro sagrado dos islamitas (que preferem esse nome ao usual muçulmano). Esses guerrilheiros atacam e matam populações cristãs, e também sequestram aqueles que se declaram islamitas – principalmente mulheres jovens, que são levados para campos de prisioneiros e submetidos a um ensino radical dos dogmas da religião.  

As autoridades locais calculam que mais de 2 milhões de pessoas já foram deslocadas pelos ataques do Boko Haram. A ONU – Organização das Nações Unidas, estima que 11 milhões de pessoas estão sendo impactadas diretamente pelas ações do grupo e necessitam de ajuda humanitária frequente. No total, a somatória de problemas nas regiões de entorno do Lago Chade afeta cerca de 40 milhões de pessoas, o que é uma das maiores tragédias humanitárias de nossos tempos. 

A natureza muitas vezes é cruel e suas mudanças afetam grandes comunidades de pessoas e animais. Agora, quando fenômenos naturais se somam aos efeitos das obras humanas, como é o caso das mudanças climáticas globais, as coisas ficam catastróficas como no Lago Chade.