AINDA FALANDO DOS RESERVATÓRIOS QUE ABASTECEM A CIDADE DE SÃO PAULO 

Na última postagem falamos rapidamente dos problemas no abastecimento de água para a população de São Paulo e de cidades vizinhas da Região Metropolitana. As abundantes fontes de água dos primeiros tempos da cidade – algumas citações antigas chegam a falar de 2 mil riachos, ribeirões e rios no município, foram destruídas ao longo do crescimento da cidade

Até a década de 1990, grande parte da população da cidade era obrigada a conviver com um sistema de rodízio no abastecimento de água. Em regiões mais distantes da área central – a famosa periferia da cidade, o abastecimento dependia da escavação de poços semiartesianos. Esse foi o caso da casa da minha família que, até meados da década de 1970, usou água de poço. 

A solução para essa crise crônica de água na cidade começou a ser desenhada ainda na década de 1960, época em que o Governo do Estado de São Paulo resolveu construir um grande sistema produtor de água para atender as populações das cidades da Região Metropolitana de São Paulo e também de grandes cidades do interior como Campinas. 

Esse grande projeto, que recebeu o nome de Sistema Cantareira, foi concluído no início dos anos de 1980 e, gradativamente, passou a permitir a universalização do abastecimento de água da população paulistana. Redes de distribuição de água passaram a chegar aos bairros mais distantes, dando a sensação de que todos os problemas relativos à água estavam resolvidos.  

O Sistema Cantareira passou a responder por 70% de toda a água consumida pela população da Região Metropolitana de São Paulo e de parte da população de cidades da região de Campinas. Essa alta dependência de um único sistema produtor de água cobraria um alto preço no futuro. 

Em 2014, uma grande seca assolou a região dos principais mananciais que formam o Sistema Cantareira, o que desencadeou uma grande crise no abastecimento de água de milhões de pessoas. Essa crise forçou a adoção de um rigoroso racionamento de água por parte da população até o início de 2016. 

Passada essa crise histórica que marcou profundamente a vida dos paulistanos, as preocupações com o nível do Sistema Cantareira viraram uma espécie de “rotina” para a população metropolitana. Sites que divulgam a situação dos mananciais foram criados e muita gente – como é o meu caso, consultam as informações frequentemente. 

Um detalhe que vem saltando aos olhos desde a grande crise hídrica 2014-2016, é o fato do Sistema Cantareira nunca mais ter atingido a cota máxima dos reservatórios. Aliás, a última vez que o Sistema ficou completamente cheio foi em 2010. Desde então, raramente o índice de 60% da capacidade máxima é atingido. 

As nascentes dos principais rios formadores do Sistema Cantareira ficam na Serra da Mantiqueira, um conjunto de montanhas que se estende por cerca de 500 km ao longo da divisa dos Estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. A região concentra uma grande infinidade de nascentes e afloramentos de água, que formam importantes rios da região Sudeste. O nome da região tem origem na expressão tupi-guarani amantikir, que pode ser traduzido comoa montanha que chora”. 

Até o início do século XIX, a Serra da Mantiqueira era coberta pela luxuriante vegetação da Mata Atlântica, um complexo sistema vegetal que se estendia do Norte do Rio Grande do Sul até o Rio Grande do Norte, com alguns trechos entrando pelo interior do continente e chegando até o Norte da Argentina e Leste do Paraguai. 

Conforme já tratamos em inúmeras postagens aqui do blog, a Mata Atlântica vem sofrendo agressões ambientais desde o início da colonização do Brasil. Primeiro foram os grandes canaviais do Nordeste, que praticamente dizimaram o bioma na Região. Uma segunda onda de destruição veio na esteira da produção da produção do café, cultura que marcou o início dos desmatamentos da Serra da Mantiqueira a partir de meados do século XIX. 

Outra fonte importante de pressão sobre os recursos madeireiros da Serra da Mantiqueira veio com o desenvolvimento da indústria metalúrgica no Estado de Minas Gerais. A produção de ferro, aço e de outros metais depende da geração de calor em altos-fornos. Sem contar com fontes de carvão mineral, os fornos de Minas Gerais foram alimentados com carvão de origem vegetal – algo como 230 mil km2 de florestas de Mata Atlântica viraram carvão no Estado

Nas últimas décadas, os desmatamentos na Serra da Mantiqueira vêm atingindo fragmentos de remanescentes florestais, pressionados pela expansão de campos para a criação de gado leiteiro e de plantações. Essa pressão sobre o que restou das matas está se refletindo numa diminuição ainda maior da vazão das antigas fontes de água, inclusive de muitos rios formadores do Sistema Cantareira. 

Os mananciais que formam Sistema Cantareira, entretanto, não são os únicos que estão sendo pressionados pela devastação ambiental. Represas dos Sistemas Guarapiranga, Rio Grande e Alto Tiete, citando alguns exemplos, sofrem de males muito parecidos. 

Começo falando da Guarapiranga, represa localizada na Zona Sul do município de São Paulo e que é uma espécie de símbolo aqui do meu bairro (aliás, eu tenho uma visão de parte da represa pela janela aqui de casa). A Guarapiranga foi construída no início do século XX para funcionar como uma regularizadora da vazão do rio Tiete para fins de geração de energia elétrica, uma função que manteve até 1928, quando foi reclassificada como manancial de abastecimento de água. 

A Guarapiranga foi vítima do crescimento descontrolado da mancha urbana da cidade de São Paulo, um processo que ganhou muita força a partir do início da década de 1960. Grandes indústrias de autopeças se instalaram na região, o que criou uma forte demanda por lotes populares para os milhares de trabalhadores que foram atraídos de todos os cantos do país. Os terrenos baratos das áreas dos mananciais da represa passaram a ser loteadas e transformados em bairros populares. A foto que ilustra essa postagem dá uma boa ideia da concentração de imóveis ao redor da represa.

Além da destruição das matas da região, esse verdadeiro “mar de casas” passou a despejar grandes volumes de esgotos in natura nos córregos e riachos formadores da Guarapiranga. Além da redução do volume de água, a represa passou a conviver com altos níveis de poluição por esgotos.  

Esse é exatamente o mesmo drama da represa do Rio Grande. Essa represa foi formada por um dos braços da represa Billings, que foi isolado por uma barragem para ficar protegido da grande poluição das águas por esgotos. A Billings foi construída com o objetivo de gerar energia hidrelétrica na década de 1930, e poderia representar uma importante fonte para o abastecimento de água da população da Região Metropolitana. O crescimento das cidades em seu entorno, desgraçadamente, transformou a represa numa grande vala de esgotos a céu aberto. 

Entre todos os mananciais da Região Metropolitana de São Paulo, o único que está em boas condições é a represa de Cotia. Detalhe – essa represa fica no meio de uma grande área de mata preservada. 

As chuvas são importantes para garantir o abastecimento de água da população. Porém, preservar matas, especialmente nas áreas de nascentes e ao redor das represas é essencial. Está aí o exemplo de São Paulo para provar isso… 

FALANDO UM POUCO DO ABASTECIMENTO DE ÁGUA NA REGIÃO METROPOLITANA DE SÃO PAULO E DOS SEUS PROBLEMAS

A cidade de São Paulo completou 468 anos nesse dia 25 de janeiro, com direito a feriado prolongado de quatro dias para muita gente. Maior cidade do Brasil, a metrópole caótica concentra uma população de mais de 12 milhões de habitantes e tem enormes problemas em todas as áreas. Mesmo assim, nós paulistanos somos apaixonados por Sampa.  

Até o final da década de 1860, São Paulo não passava de uma cidadezinha perdida no meio do Planalto de Piratininga. Naqueles velhos tempos, juntando a população de todos os núcleos habitacionais do município, a população mal chegava aos 30 mil habitantes. Até então, fontes de água potável abundavam por todos os lados. 

Com a introdução dos grandes cafezais no interior do Estado e com a construção das estradas de ferro que ligavam os centros de produção ao porto de Santos, a geografia colocou a cidadezinha numa posição estratégica entre o interior e o litoral. Bastaram apenas uns poucos anos para transformar aquele fim de mundo num importante centro comercial e logístico, o que mudaria para sempre os rumos da cidade, que nunca mais parou de crescer. 

Ao longo dos primeiros séculos da sua história, os principais mananciais de abastecimento da população de São Paulo eram o rio Tamanduateí e vários dos seus afluentes. Aliás, o local escolhido pelos padres jesuítas para a fundação da cidade em 1554 – o Pátio do Colégio, foi o alto de uma colina ao lado desse rio. Porém, conforme a cidade começou a crescer, o lançamento de esgotos começou a comprometer a qualidade das águas do rio Tamanduateí. 

Em 1877 foi criada a Companhia Cantareira de Águas e Esgotos, uma autarquia da cidade de São Paulo que seria a responsável pelo abastecimento e a qualidade das águas servidas para a população. Um dos primeiros trabalhos realizados pela empresa foi o de aumentar o volume de águas que chegavam na Represa do Engordador, que assumiu o papel de principal manancial de abastecimento da cidade na época. Sistemas de adutoras foram instalados a partir de fontes de águas na Serra da Cantareira, permitindo a regularização do fornecimento de água nos chafarizes e bicas públicas ao longo de todo o ano.  

Em 1893, objetivando aumentar ainda mais o volume de águas usadas para o abastecimento da cidade de São Paulo, foi construída uma linha férrea destinada ao transporte dos materiais e equipamentos que seriam usados na construção de barragens e adutoras. Esse sistema ficou conhecido como Cantareira Velho e foi o principal sistema produtor de água da cidade por quase um século.  

Um detalhe curioso: após a conclusão das obras, a linha férrea passou a ser usada para o transporte de passageiros. Essa foi a origem do famoso Trenzinho da Cantareira, com sua antológica parada no bairro do Jaçanã, imortalizada na música “Trem das Onze” de Adoniran Barbosa e transformada num ícone cultural da cidade de São Paulo.  

O crescimento populacional da cidade de São Paulo, entretanto, sempre foi muito maior do que a oferta de água potável. Ao longo da maior parte do século XX, grande parte da população da cidade – em especial as áreas periféricas, sofreram com a falta de água potável. Essas populações precisavam se valer da escavação de poços semiartesianos – chamados também de poços caipira, cacimba e cacimbão. Eu lembro que a minha casa usou água de poço até meados da década de 1970. 

No início da década de 1960, a Secretaria de Planejamento do Estado de São Paulo chegou à conclusão que a Região Metropolitana de São Paulo necessitava de um maior volume de água para garantir o abastecimento local e realizou uma série de estudos visando encontrar novas fontes de abastecimento.  

Relatos históricos apontam que foram apresentadas duas opções: a do Sistema Cantareira, com produção de 33 m³/s de água a um custo à época de US$ 1 bilhão, e a do Juquiá (Vale do Ribeira), com produção de 70 m³/s de água a um custo de US$ 6 bilhões. A escolha recaiu sobre Sistema Cantareira, pois o projeto do Juquiá, além do alto custo de construção, implicaria em maiores gastos operacionais com sistemas de bombeamento d’água. 

O Sistema Cantareira foi construído entre o final da década de 1960 e início da década de 1980. O sistema possui cinco reservatórios: Jaguari, Jacareí, Cachoeira e Atibainha (na Bacia do Rio Piracicaba) e Paiva Castro (na bacia do Alto Tietê), além de uma pequena represa no alto da Serra da Cantareira, a Águas Claras.  

O Sistema foi projetado com as represas em altitudes diferentes em função da topografia da região. Graças a essas diferenças de altitude, o Sistema Cantareira utiliza a força da gravidade para conduzir as águas desde as represas de Jaguari e Jacareí, na região de Bragança Paulista, passando para as represas de Cachoeira, Atibainha e Paiva Castro.  

Um sistema de túneis conduz a água até Estação Elevatória Santa Inês, que bombeia as águas para a represa de Águas Claras na Serra da Cantareira. De Águas Claras a água é enviada para a Estação de Tratamento do Guaraú, na zona norte da cidade de São Paulo. Após o tratamento, a preciosa água chega aos lares, indústrias, escritórios e comércios de grande parte da Região Metropolitana. 

Após a criação do Sistema Cantareira e da realização de inúmeras obras de implantação de redes de distribuição de água potável, o abastecimento de água finalmente foi universalizado entre a população paulistana. Falamos aqui da década de 1990, o que em termos históricos é algo bastante recente. 

A sensação de segurança hídrica que a construção desse grande manancial de abastecimento fez com que as autoridades ficassem “relaxadas” demais e diversas obras complementares – especialmente a interligação dos diversos mananciais de abastecimento da Região Metropolitana, fossem deixadas de lado. 

Em 2014, devido a maior seca da região em mais de 80 anos, o Sistema Cantareira entrou em crise. As represas começaram a secar, chegando até o chamado “volume morto” (quando o nível das águas fica abaixo dos pontos de captação do sistema). As populações das Regiões Metropolitanas de São Paulo e de Campinas foram obrigadas a entrar num rigoroso sistema de racionamento de água. Essa crise se estendeu até o início de 2016. 

Desde então, o acompanhamento dos níveis dos mananciais de abastecimento – em especial do Sistema Cantareira, passou a fazer parte da vida de muita gente. As notícias mais recentes, infelizmente, não são as mais animadoras. Apesar de boa parte do país estar enfrentando chuvas bem acima da média, os mananciais que abastecem São Paulo e sua Região Metropolitana estão recebendo volumes de água abaixo do que seria esperado. 

O nível do Sistema Cantareira está em 30,2% de sua capacidade máxima (dados do dia 25/01/2022). Há exato um ano atrás o nível do Sistema estava com 42,2%, uma situação um pouco mais confortável. No total, o volume de água armazenada em todos os reservatórios que abastecem a Região Metropolitana está no nível de 46%. O período chuvoso ainda vai se estender até o final de março, mas uma luz amarela já está acesa. 

É complicado saber que regiões de nosso país estão sofrendo com o excesso de chuvas e ver as importantes represas de nossas vizinhanças aqui em São Paulo “capengando” com a seca.  

“BRASIL: CAMPEÃO MUNDIAL DE RAIOS”

Na postagem anterior falamos dos grandes prejuízos que os municípios brasileiros vêm sofrendo ao longo dos últimos anos com as fortes chuvas e todos os problemas associados. Segundo um estudo da CNM – Confederação Nacional dos Municípios, os prejuízos causados pelas chuvas entre o dia 1° de outubro de 2017 e 17 de janeiro de 2022, já somam um total de R$ 55,5 bilhões. 

Quem leu a postagem deve ter percebido que esses prejuízos anuais vêm crescendo ao longo dos anos. Isso se deve ao aumento da intensidade e da frequência das chuvas em muitas regiões em consequência das mudanças climáticas globais. Uma das maiores evidencias dessas mudanças é o aumento da intensidade do El Niño e de La Niña, fenômenos climáticos que influenciam diretamente as chuvas aqui no Brasil. 

Se as chuvas estão aumentando em frequência e intensidade, raciocinando de forma lógica, a ocorrência de raios também deve estar aumentando no país. Se você pensou isso – parabéns! Acertou em cheio. 

Cientistas do Grupo de Eletricidade Atmosférica do INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, lançaram no último mês de novembro, um livro intitulado “Brasil: campeão mundial de raios”, o mesmo título que usamos nesta postagem. O livro foi o resultado de trinta anos de estudos e coleta de dados atmosféricos em todo o Brasil. 

Segundo o estudo liderado pelos cientistas Osmar Pinto Jr e Iara Cardoso, a média anual de descargas elétricas no país deverá atingir a cifra de 100 milhões até o final desse século. Aqui é importante citar que o Brasil já é o país campeão absoluto em raios do mundo com uma média anual de 70 milhões de raios.  

Para efeito de comparação, o segundo colocado é o Congo, com média anual de 43,2 milhões de raios. Na sequência vem os Estados Unidos, com 35 milhões de raios por ano, a Austrália com 31,2 milhões, a China com 28 milhões e a Índia com 26,9 milhões de raios. 

As projeções dos cientistas indicam que a Amazônia será a região brasileira com o maior aumento da incidência de raios, aumento que deverá atingir a marca dos 50%. A Amazônia já é líder nacional em descargas atmosféricas devido à grande incidência de tempestades em toda a região. 

Um exemplo da grande incidência de raios na região é uma área da Floresta Amazônica localizada às margens do rio Negro e a cerca de 100 km da cidade de Manaus. De acordo com a análise de imagens de satélite, essa área de 25 km2 é atingida por raios ao longo de 250 dias a cada ano

Para as Regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, as projeções indicam um aumento da incidência de raios entre 20% e 40%. Já para a Região Nordeste, que é a mais seca do país e a menos sujeita a fortes tempestades, é esperado um aumento de 10% na incidência de raios. 

Os cientistas brasileiros usaram os principais modelos matemáticos de previsão meteorológica disponíveis no mundo para montar as suas projeções. Esses modelos estimam o aumento do calor e, consequentemente, indicam o aumento das tempestades e dos raios. 

As projeções indicam um aumento no número de dias de tempestades por grau de elevação na temperatura da ordem de 35% no Hemisfério Sul. Outro fator importante considerado no estudo foi o aumento da temperatura global em 1,18° C desde o final do século XIX, com destaque para os últimos sete anos, considerados os anos mais quentes já registrados na história. 

Outra constatação importante do estudo está ligada aos fenômenos climáticos El Niño e La Niña que, conforme já citamos, tem aumentado de intensidade ao longo dos últimos anos. Esses fenômenos podem aumentar a incidência de tempestades e de raios no país. Em 2021, ano de ocorrência de La Niña, o número total de raios no Brasil superou a marca dos 110 milhões. 

A queda de raios é responsável por cerca de 70% dos desligamentos das linhas de transmissão de energia elétrica e por aproximadamente 40% dos desligamentos nas redes de distribuição de energia elétrica nas cidades. Além disso, as descargas elétricas provocam danos em um grande número de aparelhos eletroeletrônicos e em eletrodomésticos. 

Acidentes com raios também produzem um grande número de vítimas a cada ano. Segundo dados do INPE, o Brasil ocupa a sétima posição mundial em mortes por raios: foram registradas 2.194 vítimas fatais desde o ano 2000, o que dá uma média de 110 casos por ano

Cerca de 300 pessoas atingidas por raios conseguem sobreviver a cada ano no país, porém com graves sequelas. Além de queimaduras, as vítimas podem apresentar traumas físicos e neurológicos. De acordo com os especialistas, entre 80% e 90% dos acidentes com raios poderiam ser evitados com simples medidas de segurança

Segundo as estatísticas, a chance de uma pessoa ser atingida por um raio é de uma em um milhão. Porém, se essa pessoa estiver em um local aberto durante uma tempestade, a chance de ser atingida por um raio passa a ser de uma em mil. Ou seja – sair de lugares abertos como campos, praias e piscinas e procurar um local abrigado durante uma tempestade é uma ação de segurança das mais fundamentais. 

A Região Sudeste do país responde por 26% dos casos de acidentes com raios. A maioria das mortes em decorrência deste tipo de acidente – 67%, ocorrem no verão e na primavera. Outro dado curioso: 82% das mortes registradas são de homens, enquanto que as mulheres respondem por apenas 18% dos casos fatais. 

Para encerrar, um resumo dos locais mais propícios a esses acidentes: 26% das fatalidades ocorrem em atividades ligadas ao agronegócio; 21% dos casos com pessoas que estavam dentro de casa, mas próximas da rede elétrica ou dos canos da rede hidráulica do imóvel; 9% envolvem pessoas em áreas abertas em rios, praias e piscinas; 9% com pessoas abrigadas embaixo de árvores; 8% em áreas descampadas e 7% envolvendo pessoas próximas a veículos ou em veículos abertos em rodovias. 

Em tempos de mudanças climáticas e de alterações nos padrões das chuvas em muitas regiões, esse estudo vem como mais um alerta para a nossa segurança pessoal. Precisamos ficar cada vez mais atentos aos sinais dos céus, seja para as chuvas, seja para os raios! 

CHUVAS CAUSARAM PREJUÍZOS DE R$ 55,5 BILHÕES AOS MUNICÍPIOS BRASILEIROS ENTRE 2017 E 2022 

Segundo um estudo realizado pela CNM – Confederação Nacional dos Municípios, os prejuízos causados pelas chuvas entre o dia 1° de outubro de 2017 e 17 de janeiro de 2022, já somam um total de R$ 55,5 bilhões. Como a temporada de chuvas na Região Centro-Sul do Brasil ainda deve se estender até o final do mês de março, essa conta deverá aumentar ainda mais. 

O período das chuvas na Região Centro-Sul, de acordo com definição do SINPDEC – Sistema Nacional de Proteção e Defesa Civil, vai do início de outubro e até o final de março. As maiores perdas para os municípios ocorreram no período chuvoso 2020/2021, quando os prejuízos atingiram a marca de R$ 18,9 bilhões. Na sequência vem o período chuvoso deste ano, com prejuízos de R$ 17,2 bilhões até o momento, e o relativo a 2018/2019, com danos estimados em R$ 8,2 bilhões. 

No período estudado entre os anos de 2017 e 2022, foram decretadas 5.622 Situações de Emergência em todo o Brasil. É importante lembrar que, nessas situações, as Prefeituras são dispensadas de realizar concorrências públicas de acordo com a legislação para a contratação de serviços e compra de produtos. Por mais trágicas que sejam as situações das populações, muita gente acaba lucrando com o desvio de dinheiro público nesses momentos. 

Até o dia 17 de janeiro deste ano, o número de municípios em Situação de Emergência já havia atingido a marca de 1.302. O recorde anterior era do período chuvoso 2017/2018, com um total de 1.155 decretações. Como ainda teremos, pelo menos, mais dois meses de chuvas fortes até o fim deste período chuvoso, há chances desse recorde ser aumentado ainda mais. 

Cerca de 28,8 milhões de pessoas foram afetadas diretamente pelos problemas causados pelas chuvas entre 2017/2022. O período chuvoso 2019/2020 foi o que resultou no maior número de casas danificadas e ou destruídas – 143.602 imóveis, seguido pelo período 2020/2021 com 130.884 imóveis afetados. 

A parte mais trágica desse estudo – 637 pessoas perderam suas vidas no período em decorrência das chuvas. O período chuvoso 2018/2019 foi o mais trágico com 327 mortes, 171,7 mil pessoas desabrigadas e 819,8 mil desalojadas. Mais de 14,8 milhões de pessoas foram afetadas diretamente pelas chuvas. 

Além desses prejuízos mensuráveis, existem outras perdas que são difíceis de contabilizar. A produção agropecuária é um grande exemplo. As chuvas destroem plantações e matam animais das criações, prejuízos que levam anos para serem superados pelos produtores rurais. Nas cidades, lojas tem estoques de produtos destruídos e/ou danificados, e prestadores de serviços ficam por longos períodos sem trabalhar. 

Outro tipo de prejuízo que acaba não entrando em estudos desse tipo são aqueles causados pelas obras públicas voltadas justamente para o combate das enchentes. Além dos desvios de recursos durante as fases de projeto e construção, muitas dessas obras se mostram inúteis – os chamados “elefantes brancos”. O dinheiro público é gasto e a população não vê qualquer tipo de resultado prático. 

Vou citar um exemplo aqui da cidade de São Paulo – o rebaixamento da calha do rio Tietê, um projeto iniciado em 2002, e que tinha um custo inicial de R$ 1,1 bilhão. De acordo com as premissas do projeto, a calha do Tietê, o maior rio da Região Metropolitana e do Estado de São Paulo, seria rebaixado em 2,5 metros, aumentando a capacidade da calha e evitando a ocorrência as famosas enchentes da cidade. 

Com inauguração prevista inicialmente para 2004, a obra só foi concluída em 2006. Os custos, é claro, ficaram bem maiores do que o que foi previsto inicialmente. Foram mais de R$ 34 milhões extras (algumas fontes chegam a falar de R$ 200 milhões). 

O discurso feito inicialmente pelo Governo do Estado afirmava que as chances de novas enchentes cairiam de “50% para apenas 1% após a conclusão das obras”. Segundo a propaganda oficial, o volume da calha do rio foi duplicado. Eu não sei exatamente em qual planeta essas autoridades vivem, mas as grandes enchentes continuam a transtornar a vida dos paulistanos. 

A desculpa oficial para a persistência das enchentes foi a falta de continuidade dos trabalhos de remoção dos sedimentos da calha do rio. O estranho é que o Governo do Estado de São Paulo está há mais de 20 anos nas mãos do mesmo partido que realizou as obras de rebaixamento da calha do rio Tiete. A pergunta é: por que esses senhores não cuidaram para que esses trabalhos tivessem continuidade? 

Existem, entretanto, casos de obras públicas para o combate de enchentes que alcançaram excelentes resultados. Ainda falando da cidade de São Paulo temos o caso do Piscinão do Pacaembu, obra que foi construída sob a Praça Charles Miller, exatamente na frente do famoso estádio de futebol paulistano. 

O bairro do Pacaembu nasceu em 1925, quando a famosa Companhia City, empresa inglesa de arquitetura, iniciou o loteamento e a urbanização da região. Uma das primeiras ações da empresa foram os trabalhos de drenagem e aterro de grandes áreas, que culminaram com a canalização do ribeirão Pacaembu e a construção da avenida homônima, até hoje a principal via do bairro.  

A Companhia City também doou para a Prefeitura de São Paulo em 1935, o terreno de 75 mil m² onde seria construído o famoso Estádio do Pacaembu, inaugurado em 1940. O octogenário estádio faz parte do patrimônio histórico da cidade e está passando por obras de readequação atualmente.   

Além da criação de um dos bairros mais charmosos da cidade de São Paulo, as ações da City, involuntariamente, acabaram por consolidar todo um ambiente favorável à formação de fortes enxurradas em dias de chuva, com a formação de enchentes violentas na parte baixa do bairro onde fica a Praça Charles Miller.  

O famoso “endereço” das enchentes criou transtornos no bairro por várias décadas até que, em 1993, as autoridades da Prefeitura e do Governo do Estado juntaram forças e iniciaram as obras de um gigantesco reservatório subterrâneo com capacidade para armazenar 75 milhões de litros de água das chuvas. O projeto pioneiro na cidade, mais conhecido Piscinão do Pacaembu, foi inaugurado em 1995 e se transformou rapidamente numa referência no combate de enchentes localizadas.  

Na maioria dos casos, as enchentes são criadas pelas mãos humanas, numa conta em que entram desmatamentos, canalizações de córregos, construção de avenidas de fundo de vale, ocupação de encostas de morros, aterros de áreas de várzeas, entre muitos outros problemas. Também precisamos citar a “mão grande” de muita gente que desvia recursos de obras públicas para o combate das enchentes. 

Uma coisa é certa – as chuvas de verão vão continuar caindo sobre o nosso país, quiçá com volumes cada vez maiores por causa dos efeitos do aquecimento global. Ou nossas cidades aprendem a conviver de forma “harmoniosa” (ou no mínimo menos desastrosa) com essas águas ou passaremos o resto de nossas vidas contabilizando os prejuízos causados pelas chuvas. 

ÁGUAS ESPRAIADAS: UMA AVENIDA MULTIBILIONÁRIA DA CIDADE DE SÃO PAULO

Pancadas de chuvas fortíssimas, vento, árvores caídas, queda da energia elétrica, enchentes, transito caótico e tudo o mais que o pacote de uma típica tarde de verão na cidade de São Paulo pode oferecer aos seus habitantes. 

Em resumo, esse foi o conteúdo da última postagem aqui do blog. Guardadas as particularidades geográficas da minha cidade e de suas fortes chuvas de final de tarde, os problemas causados não devem ter ficado muito distantes daqueles vividos por muitos dos leitores em suas próprias cidades. 

Verão e chuvas fazem parte das paisagens de um país como o Brasil e contra isso existe pouca coisa a se fazer. Agora, muitos dos problemas que essas chuvas provocam em nossas cidades ano após ano, aí tem marca das mãos humanas – falando isso num “sentido” mais amplo da palavra. 

No caso da cidade de São Paulo, a origem das enchentes está diretamente ligada à ocupação de extensas áreas das várzeas dos grandes rios do Planalto de Piratininga. Esses terrenos baixo e planos recebiam o excesso de água das chuvas nos meses de verão e ficavam alagados, formando pequenos pantanais por vários meses. 

Também podemos incluir na lista de obras das mãos humanas a construção de uma infinidade de avenidas de fundo de vale por toda a mancha urbana paulistana. Os córregos eram primeiro canalizados e no lugar do seu leito e margens surgia uma grande avenida, o que era essencial para uma metrópole que cresceu a altas taxas nas primeiras décadas do século XX.  

Um exemplo clássico é o do rio Anhangabaú, no centro da cidade, que foi canalizado para a construção de parte da Avenida 9 de Julho e do Parque do Anhangabaú. Também se inclui aqui a importante interligação do corredor Norte Sul no trecho da Avenida Tiradentes, que vem da Zona Norte da Cidade, e da Avenida 23 de Maio – que ocupou parte do antigo Ribeirão do Itororó, que vem da Zona Sul. 

Além dos aspectos técnicos, a questão também incluiu muito do que nós aqui chamamos de “mão grande”, ou seja, desvio de dinheiro público em muitas dessas obras. A construção de uma grande avenida, envolve muito dinheiro, indo desde a desapropriação de imóveis, serviços de terraplenagem e escavação, construção de galerias, asfalto e muitas outras obras complementares. Muita gente ganhou muito dinheiro com isso (honesta e desonestamente). E na pressa, muitos estudos sobre o impacto das obras na dinâmica das águas pluviais sequer foram cogitados. 

Um exemplo bastante atual de como se fazer uma obra para desviar muito dinheiro dos cofres da cidade foi o que aconteceu com a Avenidas das Águas Espraiadas, na Zona Sul da Cidade de São Paulo. Só para constar: o Prefeito da cidade há época era famoso entre a população pelo slogan informal – rouba, mas faz! 

O Córrego das Águas Espraiadas ficava na metade do caminho entre São Paulo e Santo Amaro, cidadezinha foi incorporada pela grande metrópole na década de 1930. Ele tinha um leito extremamente pedregoso e largo – daí a origem do nome, e nunca despertou maiores interesses do poder público. 

Com o intenso processo de crescimento da cidade de São Paulo, que foi marcado pela falta de preocupação de casas de baixo custo para as populações mais pobres, a várzea do córrego passou a ser ocupada por moradias “populares”, ou seja, por favelas. Em 1980 já existiam 68 núcleos habitacionais ao longo dos pouco mais de 5 km do Córrego das Águas Espraiadas. A população chegou a ser estimada em 80 mil habitantes. 

Depois de algumas tentativas frustradas por outras administrações, os Prefeitos Paulo Maluf (1993-1996) e seu sucessor Celso Pitta (1997-2000), levaram a cabo as obras de retificação do córrego e pavimentação de uma avenida de aproximadamente 5 km, ligando a Marginal Pinheiros até a região do Aeroporto de Congonhas. Após a conclusão das obras, a valorização imobiliária das áreas circunvizinhas às antigas favelas foi de quase 1.000%. 

Sem entrar em maiores detalhes – clique aqui para ver uma postagem completa sobre esse caso, a obra custou a bagatela de US$ 600 milhões. Considerando-se a extensão de 5 km, o custo por quilômetro linear chega aos impressionantes US$ 120 milhões, o que faz da Avenida a mais cara do mundo, com um custo por quilômetro equivalente ao do Eurotunnel, famoso túnel que liga a França à Inglaterra sob o Canal da Mancha. 

Um detalhe curioso dessa grande avenida com três faixas de rolamento em cada uma das margens do córrego é que ela terminava em um grande muro nas proximidades do Aeroporto de Congonhas – os carros precisam desviar para pequenas ruas laterais para prosseguir. O projeto original previa uma extensão de mais 3 km até uma outra grande avenida já existente, mas faltou dinheiro para isso… 

O Ministério Público Federal denunciou 11 pessoas por desvio de recursos públicos, peculato, superfaturamento de obra e lavagem de dinheiro. Entre os acusados estão os ex-prefeitos Paulo Maluf e Celso Pitta (morto em 2009), diversos agentes públicos e funcionários de grandes empreiteiras. Os processos seguem a passos de tartaruga, com inúmeras apelações e outras jogadas jurídicas muito bem arquitetadas.   

Não é necessário ser um gênio em matemática para concluir que os cofres públicos de uma cidade – mesmo se tratando da maior e mais rica cidade do país, não suportam uma sangria tão grande de recursos públicos. Em qualquer administração pública séria e honesta, esse dinheiro ajudaria a resolveu o problemas de enchentes em dezenas de córregos, beneficiando milhares e milhares de moradores. 

Mas a saga da Avenida das Águas Espraiadas não termina aqui – em 2012, tendo em vista melhorar a infraestrutura de transportes da cidade de São Paulo para a Copa do Mundo de Futebol em 2014, o Governo do Estado iniciou a construção de uma linha de monotrilho nessa avenida. O objetivo era ligar o Aeroporto de Congonhas a outras linhas do sistema metropolitano de transportes. 

A maior parte dos viadutos do monotrilho seriam instalados no canteiro central da Avenida das Águas Espraiadas. O custo total da obra foi estimado em R$ 3 bilhões há época, um valor que seria justificado pela grande velocidade da construção e pelo atendimento de mais de 200 mil passageiros por dia. 

Pois bem: estamos às vésperas do início da Copa do Mundo 2022, no Qatar, e o tal do monotrilho ainda não está em operação – aliás, ainda faltam muitas obras a serem concluídas. O custo total já passa dos R$ 4 bilhões, sendo que a extensão original da linha, que seria de 12 km, foi reduzida a pouco mais de 6 km

Esse é ou não é um grande exemplo de como se gastar (e de desviar) dinheiro público, sem resolver os problemas da população. Já as enchentes… bem, isso já faz parte das paisagens paulistanas. 

UMA TÍPICA TARDE DE VERÃO NA CIDADE DE SÃO PAULO

As fortes chuvas desse verão estão causando grandes prejuízos por grande parte do Brasil. Em diversas postagens publicadas aqui no blog ao longo das duas últimas semanas mostramos parte do drama vivido por muita gente. 

Aqui na minha cidade, São Paulo, essa época do ano também costuma ser problemática. A cidade cresceu demais, derrubando matas, canalizando córregos, avançando sobre as encostas de morros e, especialmente, ocupando as antigas várzeas dos grandes rios

A principal característica dos verões paulistanos são as tempestades do final da tarde. Ontem e hoje enfrentei sérios problemas no trabalho – os temporais desabaram um pouco antes da hora (normalmente essa chuva começa a cair por volta das 16h30), prejudicando a conclusão de algumas obras civis de acabamento. 

Saindo do trabalho de volta para casa, árvores caídas por todos os lados, ruas com pontos de alagamento, semáforos apagados e trânsito sendo desviado – haja paciência! Para os mais desafortunados, que moram ao lado dos inúmeros córregos da cidade, muita água invadindo as casas. Em muitos lugares, esses problemas vêm se arrastando desde o final do século XIX e uma solução definitiva ainda não apareceu. 

Uma história “verídica verdadeira” que eu sempre recordo nesses momentos é a das senhoras da alta sociedade paulistana durante os fatídicos anos da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Essas abastadas senhoras costumavam se reunir as tardes para tomar chá e para tricotar blusas de lã para “os pobres soldados franceses entrincheirados nos campos de batalha“. 

Pessoalmente, eu acho até elogiável toda essa dedicação. Minha crítica – aqui mesmo na nossa cidade, muitas famílias das áreas baixas ao largo dos rios Tietê e Tamanduateí já sofriam com as constantes enchentes, sem contar com a boa vontade dessas senhoras na doação de alguns agasalhos. 

São Paulo tem algumas particularidades geográficas, a começar pela sua localização. A cidade é cortada pelo Trópico de Capricórnio, que passa ao lado do Pico do Jaraguá, um dos cartões postais da metrópole. Esse Trópico marca o limite entre a região com o chamado Clima Tropical de Altitude e o Subtropical, predominante na Região Sul do país. 

Para completar, a região da Baixada Santista no litoral paulista e a pouco mais de 60 km do centro da cidade, tem o clima Tropical Atlântico. O encontro dessas três zonas climáticas torna o clima de São Paulo bastante peculiar. Não é incomum experimentarmos as quatro estações do ano no mesmo dia. 

No verão, a cidade experimenta dias muito quentes (na última terça-feira, dia 18, os termômetros de São Paulo atingiram a marca de 33.4° C, a temperatura mais alta desse ano) e finais de tarde com grandes massas de nuvens carregadas desde o “vizinho” Oceano Atlântico. Essa combinação costuma resultar em fortes temporais de final de tarde. 

O município de São Paulo ocupa uma área de 1.521 km², sendo que a maior parte desse território se encontra ocupado por construções, com grandes áreas de solos impermeabilizadas por concreto e asfalto. O quadro fica ainda mais caótico quando verificamos a forte conurbação – junção de cidades, em toda a Região Metropolitana. Cidades vizinhas como Osasco, Guarulhos, Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano do Sul, entre muitas outras, formam uma única mancha urbana com São Paulo. 

Essa grande massa de concreto e asfalto gera um fenômeno conhecido como Ilha Urbana de Calor. O centro de São Paulo chega a apresentar temperaturas entre 5 e 7° C acima de áreas periféricas ainda cobertas por vegetação como a Serra da Cantareira, na Zona Norte, e Parelheiros, no Extremo Sul da Cidade. Essa massa de calor funciona como uma espécie de “imã”, atraindo as massas de nuvens de chuva. 

A grande quantidade de solos impermeáveis na mancha urbana da cidade agrava um outro problema – o grande volume de água despejado sobre a cidade não consegue penetrar no solo (o que também é agravado pela falta de vegetação em muitas regiões). Correndo sobre a superfície dos solos, essa água chega com grande velocidade aos rios e córregos, que enchem e transbordam. 

O Planalto de Piratininga, que foi escolhido para a fundação de uma escola e uma capela pelos padres Jesuítas criando o embrião que criou a cidade de São Paulo, era uma grande mancha de vegetação de Cerrado cercada por Mata Atlântica e pela Mata das Araucárias. Nessas terras abundavam rios e córregos – fontes antigas citam até 2.000 cursos de água na região. 

Grandes áreas do Planalto de Piratininga eram formadas por várzeas, terras baixas ao largo dos rios que alagavam durante o verão por causa das chuvas. Aliás, o nome indígena Piratininga significa “peixe seco” – essas áreas alagadas eram tomadas por peixes, que ficavam presos nas poças de água com o fim da temporada de chuvas. Os indígenas coletavam e comiam os peixes que restavam nas poças secas. 

Pois bem – com o vigoroso crescimento que a cidade passou a viver já nas últimas décadas do século XIX, essas importantes áreas de várzea passaram a ser aterradas e ocupadas por construções. Sem espaço extra para acomodar o excesso de águas das chuvas de verão, as ruas da cidade passaram a sofrer com os alagamentos. 

A situação de São Paulo se complicou ainda mais com a canalização maciça de córregos para a construção das chamadas avenidas de fundo de vale. Muitas avenidas importantes e famosas da cidade estão localizadas sobre o antigo leito de córregos e rios. Exemplos: Avenidas Pacaembu, Anhaia Melo. dos Bandeirantes, Cupecê, Vale do Anhangabaú, entre muitas outras. 

Muitos rios e córregos escaparam dessa canalização, mas acabaram com suas margens comprimidas por causa da construção de avenidas. Esses são os casos da Marginal Tiete e da Avenida do Estado, essa última construída as margens do rio Tamanduateí. 

Sempre que chegam os meses de verão com suas fortes chuvas, todas essas verdadeiras barbeiragens feitas ao longo da história da cidade vêm à tona – literalmente. Enchentes, trânsito complicado, famílias desabrigadas, desmoronamentos de encostas, entre muitos outros. 

Corrigir tudo isso vai custar uma verdadeira fortuna e, entra prefeito sai prefeito, só obras paliativas são realizadas. Enquanto isso, milhões de pessoas vão continuar sofrendo com as enchentes e seus problemas… 

A GRANDE CHEIA NO RIO TOCANTINS E AS MAIORES INUNDAÇÕES DOS ÚLTIMOS 20 ANOS

O rio Tocantins tem aproximadamente 2.400 km de extensão, sendo considerado o segundo maior rio totalmente brasileiro, perdendo apenas para o nosso bom e velho rio São Francisco. Ele nasce na Serra Dourada, no Estado de Goiás, e segue rumo ao Norte, atravessando o Tocantins, Maranhão e Pará, onde tem a sua foz nas proximidades da Ilha do Marajó. 

Em conjunto com o rio Araguaia forma uma bacia hidrográfica que se estende por uma área total de 960 mil km², algo que corresponde a 11% do território brasileiro. É uma das maiores bacias hidrográficas totalmente localizadas dentro do território brasileiro. 

Grande parte da bacia hidrográfica dos rios Tocantins/Araguaia fica dentro do Cerrado brasileiro, um dos biomas que mais perdeu vegetação nativa nos últimos 50 anos. Essa devastação no Cerrado tem tudo a ver com o desenvolvimento de sementes de grãos adaptados ao clima e aos solos ácidos do bioma na década de 1970, com grande destaque para a soja

Transformado na principal área de produção de grãos do país, o Cerrado passou a enfrentar uma série de problemas ambientais, onde destaco os impactos dos desmatamentos nos processos de recarga dos grandes aquíferos da região do Brasil Central. Sem essa recarga, importantes rios da região como o Araguaia e o Tocantins tiveram substanciais reduções em seus caudais. 

Relembrando, o Cerrado é chamado por muitos especialistas de “berço das águas do Brasil”. A região concentra alguns dos maiores aquíferos do país como o Guarani, o Bambuí e o Urucuia. As nascentes de água dessa extensa região formam 7 grandes bacias hidrográficas: Paraná, Paraguai, Parnaíba, São Francisco, Tocantins/Araguaia, Atlântico Leste e Atlântico Nordeste Ocidental. Rios com nascentes na região também são tributários da Bacia Amazônica. 

Nas temporadas de seca no Cerrado, esses rios vinham apresentando volumes cada vez menores de água, além de mostrar calhas extremamente assoreadas e entulhadas de sedimentos de todos os tipos. Já citamos, inclusive, alguns casos de rios da região que se transformaram em intermitentes – ficam completamente secos no verão, auge da seca. 

A forte temporada de chuvas que tem atingido uma extensa faixa de terras entre as Regiões Sudeste, Centro-Oeste e parte do Nordeste nessas últimas semanas, tem se refletido em toda a bacia hidrográfica Tocantins/Araguaia, que há muito tempo não via tanta água. 

Um dos sintomas dessa abundância de água, que é bastante positiva para o país, é o alto nível da barragem da Usina Hidrelétrica de Tucuruí, uma das mais importantes do país. De acordo com informações do ONS – Operador Nacional do Sistema Elétrico, do dia 17 de janeiro, o reservatório se encontra em 95,65% de sua capacidade. 

O lado negativo desse grande volume de águas nos rios da bacia hidrográfica são os inevitáveis transbordamentos, como o que está ocorrendo na importante cidade de Marabá, no Pará. A cidade está enfrentando a maior inundação dos últimos 20 anos. O rio Itacaiúnas, que é afluente do rio Tocantins e corta a cidade, está mais de 13 metros acima do seu nível normal. 

De acordo com informações da Defesa Civil local, já são mais de 2 mil famílias atingidas e outras centenas estão isoladas pelas enchentes. Muitas dessas famílias estão vivendo no segundo piso ou até mesmo na laje de suas casas, sendo que muitas delas estão resistindo em abandonar seus imóveis. 

Uma das cidades mais fortemente atingida pela cheia do rio Tocantins é São Miguel do Tocantins, localizada na região conhecida como Bico do Papagaio, onde os Estados do Tocantins, do Maranhão e do Pará fazem divisa. Não muito distante, já no Maranhão, a cidade de Imperatriz também está sendo fortemente impactada. 

Essa cheia atípica do rio Tocantins, que se acentuou fortemente a partir do início do ano, está causando problemas em quatro Estados: Goiás, Tocantins, Maranhão e Pará. O nível da água do rio superou as chamadas cotas de atenção, o que colocou as autoridades locais e populações em alerta constante. 

No final do mês de dezembro esse aumento na vazão do rio já era bastante perceptível. Um exemplo foi o que ocorreu na Usina Hidrelétrica Luís Eduardo Magalhães, localizada em Tupiratins em Goiás. Com o perceptível aumento da vazão de água na barragem, a Prefeitura local já emitiu um comunicado de alerta para a população. 

A Usina Hidrelétrica de Tucuruí, inclusive, teve de abrir cinco de suas comportas no dia 3 de janeiro, para controlar o grande volume de água que está chegando no reservatório. De acordo com a Eletronorte – Centrais Elétricas do Norte do Brasil, estatal responsável pela operação da hidrelétrica, essas operações de abertura das comportas são normais durante a estação chuvosa. Porém, a empresa destacou que a manobra foi antecipada devido “à quantidade de chuva atípica para esta época do ano nas cabeceiras dos rios Tocantins e Araguaia”. 

O ponto preocupante dessa situação é que as fortes chuvas continuando caindo em muitas regiões e parte dessas águas vai continuar correndo na direção das calhas dos rios da bacia hidrográfica Tocantins/Araguaia, seguindo rumo ao Norte, em direção da Baía do Marajó. Isso vai continuar provocando transtornos para as populações de centenas de cidades e vila ribeirinhas. 

As abençoadas e aguardadas chuvas de verão na Região Centro-Sul do país, que colocaram fim a uma das maiores secas dos últimos 90 anos, tem esse seu “lado negro”, que causa muita destruição e tragédias na vida de muita gente. 

Como eu sempre costumo comentar, a água é um dos elementos mais importantes de nosso mundo e uma das mais poderosas forças da natureza. A convivência é muitas vezes difícil, mas ela é imprescindível nas nossas vidas… 

COM AS CHUVAS, AUMENTAM AS PREOCUPAÇÕES COM DOENÇAS COMO A DENGUE, A CHIKUNGUNYA E A ZIKA 

Nas últimas semanas, os noticiários e as redes sociais tiveram dois temas de maior relevância e compartilhamentos: as fortes chuvas que assolaram o Sul da Bahia e depois grande parte do Estado de Minas Gerais, e a variante Ômicron da Covid-19, onde aqui incluo também o debate sobre a vacinação das crianças. 

Em meio a tantos problemas, existe uma questão importante que acabou ficando meio de lado nas discussões: os vírus arbóreos transmissores de doenças como a Dengue, a Zika e a febre Chikungunya

O elo em comum entre essas doenças é um velho conhecido aqui do blog: o mosquito Aedes aegypti, o principal transmissor dos vírus arbóreos causadores dessas doenças. Apesar de ter ficado bastante ofuscado pelo Corona Vírus nesses últimos dois anos, o mosquito e as suas doenças seguem causando grandes problemas para as populações. Nessa época de chuvas, quando os mosquitos aumentam fortemente a sua reprodução, precisamos todos nos cuidar. 

Vou começar falando de São Paulo, a minha cidade. Mesmo sem ter ocupado quase nenhum espaço nos noticiários, os casos de Dengue na cidade mais do que triplicaram ao longo de 2021. A Secretaria Municipal de Saúde divulgou um balanço em meados de novembro passado, onde constam 7.203 casos confirmados de Dengue na cidade até aquele momento ante um total de 2.026 casos registrados em todo o ano de 2020. 

Aqui é importante ressaltar que em 2020 houve uma redução expressiva do número de casos quando se compara com o ano de 2019, quando a cidade registrou 16.966 casos confirmados da doença com três mortes. É bastante provável que essa queda no número de casos esteja diretamente associada às políticas de restrição à circulação de pessoas em 2020 por causa da epidemia da Covid-19. 

Uma outra hipótese, bastante plausível, é que houve uma subnotificação dos casos. Com medo do Corona vírus, muita gente fez questão de se manter o mais longe possível de postos de saúde e hospitais, preferindo tratar a doença com remédios caseiros ou outros tratamentos paliativos. 

Esse brusco aumento nos casos de Dengue em 2021, seguindo essas linhas de raciocínio, decorreria de um relaxamento nas medidas de combate aos criadouros do mosquito Aedes aegypti ou ainda da volta da população às unidades médicas em busca de tratamento. A preocupação dos especialistas é o número de casos continuar aumentando ao longo desse novo ano. 

Outro exemplo preocupante de aumento de casos de doenças por vírus arbóreos é o Ceará, Estado que nas últimas décadas tem sido um dos campeões brasileiros “nessas modalidades”. De acordo com dados da Secretaria Estadual de Saúde, os casos confirmados de Dengue em 2021, foram 31.185 com 19 mortes ante os 20.550 casos confirmados em 2020. 

Além da Dengue, o Ceará registrou 4.756 casos confirmados de febre Chikungunya e 175 casos de Zika. Nenhuma morte por essas doenças foi registrada no Estado. As autoridades médicas do Ceará atribuem esse menor número de casos confirmados em 2020 à subnotificação por causa da epidemia da Covid-19. 

Com uma temporada de chuvas bem acima da média em muitas regiões brasileiras, é de se esperar que assistiremos um aumento expressivo no número de casos dessas doenças ao longo dos próximos meses. Aqui há um ponto importante a ser considerado: todas essas doenças, em maior ou menor grau, criam dificuldades respiratórias, o que poderá agravar casos de Covid-19. 

O mosquito Aedes aegypti é um importante vetor de transmissão de doenças virais, especialmente os chamados arbovírus, há mais de 100 anos aqui no Brasil. De origem africana, esse mosquito chegou às Américas de carona em embarcações mercantis, principalmente nos famigerados navios negreiros, e se disseminou em áreas de clima tropical e subtropical do Norte da Argentina até o Sul dos Estados Unidos. 

Como todo bom mosquito, o Aedes aegypti precisa de um meio aquático para a sua reprodução. E não falamos aqui de grandes corpos d`água como rios, lagoas e represas. Basta uma pequena reserva de água em resíduos plásticos, latas, casca de ovos ou uma caixa d`água destampada para que surja um verdadeiro criadouro desses insetos. 

Um dado interessante do mecanismo de reprodução desse mosquito é a resistência dos seus ovos. Quando a fêmea do Aedes aegypti identifica um local apenas com potencial para acumular água, ela faz a postura dos ovos, que podem sobreviver até dois anos aguardando o momento certo para eclodir. Quando esse recipiente enche de água – logo após uma chuva por exemplo, os ovos são reanimados em apenas 15 minutos. 

A primeira fase da vida de um mosquito é na forma de uma larva, evoluindo para uma pupa em apenas 5 dias e bastando apenas 2 dias para se transformar num mosquito adulto e com vida independente da água para sobreviver (vide foto). Em média, um ovo precisa de um espaço de tempo entre 7 e 10 dias para gerar um mosquito já voando. 

Em um país com climas predominantemente equatorial e tropical como o Brasil, mosquitos como o Aedes aegypti se reproduzem praticamente durante todo o ano. Porém, são nos períodos de chuva quando essa reprodução aumenta exponencialmente. E graças ao nosso tradicional descuido com a gestão resíduos sólidos, nossas cidades se transformam em grandes “maternidades” de mosquitos nessas épocas do ano (as temporadas de chuvas não são iguais em todo o Brasil). 

É um tanto desagradável ficar repetindo as mesmas informações ano após ano, mas é importante alertar a todos sobre os cuidados com os resíduos espalhados nos quintais e casas, onde existe qualquer possibilidade para a reprodução dos mosquitos – especialmente o Aedes aegypti

Façam todos uma boa inspeção em suas casas e, particularmente, em terrenos baldios próximos. Encontrando resíduos e recipientes com água parada, trate imediatamente de esvaziá-los e descartá-los corretamente. Esse simples cuidado protegerá tanto a sua família quanto os seus vizinhos. 

Manter-se sempre alerta contra o Corona vírus é importante, especialmente quando uma nova variante com alto poder de contaminação está circulando por todo o mundo. Mas o bom e velho cuidado com as nossas já “tradicionais” arboviroses também é fundamental para que todos tenhamos uma vida saudável! 

AS FORTES CHUVAS DESSE VERÃO E O NÍVEL DOS RESERVATÓRIOS 

O primeiro mês do verão 2021/2022 foi marcado por chuvas acima da média em muitas regiões brasileiras, a começar pelo que foi visto no Sul da Bahia e no Norte de Minas Gerais. Nessas últimas semanas, as chuvas se concentraram ao longo de uma extensa região desde o Estado do Rio de Janeiro e do Vale do rio Paraíba em São Paulo, até regiões do Brasil Central em Goiás e Tocantins. Minas Gerais foi o Estado mais castigado por essas fortes chuvas. 

De acordo com um balanço preliminar divulgado pela Defesa Civil de Minas Gerais no dia 13 de janeiro, o saldo desse período de fortes chuvas no Estado até o momento é de 3.992 desabrigados, 24.610 desalojados e 24 vítimas fatais. São 341 municípios em situação de emergência. A intensidade e a extensão das chuvas diminuíram bastante, mas os estragos e os problemas ainda vão se fazer presentes por muitas semanas, quiçá meses (vide foto). 

Em outra postagem falaremos melhor sobre isso, mas, apesar dos volumes de chuva terem caído acima dos valores médios dos últimos anos, o que em parte explica o tamanho da destruição causada, não podemos nos esquecer dos grandes desmatamentos que essas regiões sofreram ao longo dos últimos séculos.  

Solos desnudos e/ou cobertos por uma vegetação mais rala – como pastagens e plantações, absorvem quantidades pequenas das águas das chuvas. Essa água então forma uma lâmina que corre pela superfície, atingindo o leito dos rios com grande força e velocidade. Sem conseguir acomodar esse grande volume de água, os rios transbordam e inundam cidades e vilas. 

Apesar de todos esses graves problemas, precisamos “dar graças aos céus” por essas abençoadas chuvas. Conforme comentamos em muitas postagens anteriores, a Região Central do país passava pela maior seca dos últimos 90 anos até poucas semanas atrás. Reservatórios de grandes e importantes usinas hidrelétricas estavam com baixos níveis, um problema que ameaçava parte importante do abastecimento de energia elétrica do Brasil. 

De acordo com dados do ONS – Operador Nacional do Sistema Elétrico, os reservatórios das usinas hidrelétricas das Regiões Sudeste e Centro-Oeste, que são responsáveis por cerca de 70% da geração de energia elétrica do país, atingiram seu pior nível em setembro de 2021, quando se registrou apenas 16% da capacidade hídrica total

Com a chegada do período das chuvas nessas regiões, o volume de água armazenada nos reservatórios já chegou a 35% da capacidade na primeira quinzena de janeiro de 2022. Esse é o melhor índice registrado desde agosto de 2020, quando os volumes armazenados de água correspondiam a 42% da capacidade total. 

Um exemplo da abundância de águas nessa temporada pode ser visto na Represa de Três Marias, na Região Central de Minas Gerais. De acordo com dados do ONS do dia 15 de janeiro, o reservatório está com 91% de sua capacidade total. Apesar dos bons números, a situação não é de todo confortável. Os volumes de água que estão chegando na represa são muito altos e a empresa responsável pela operação, a CEMIG – Companhia Energética de Minas Gerais, estuda abrir as comportas para aliviar a represa. Essa ação foi suspensa temporariamente. 

Os grandes volumes de água que o rio São Francisco está recebendo em áreas da sua bacia hidrográfica dentro do Estado de Minas Gerais e também em Goiás e no Tocantins, já estão sendo sentidos nas barragens de Sobradinho e de Luís Gonzaga (antiga Itaparica), no Norte da Bahia. Segundo dados do ONS de 15 de janeiro, essas barragens estão com níveis de 63,49% e 55,51%, respectivamente. 

Outros bons exemplos de reservatórios de água que vem sendo muito beneficiados com as fortes chuvas na região central do Brasil são os das Usinas Hidrelétricas de Tucuruí, no Pará, e de Serra Mesa, em Tocantins. Ambas as hidrelétricas estão instaladas na calha do rio Tocantins. De acordo com o ONS, o reservatório de Tucuruí está com 95,95% da sua capacidade. É importante destacar que a Usina Hidrelétrica de Tucuruí tem uma potência total instalada de 8,37 mil MW e é uma das mais importantes geradoras do Brasil. 

Em Serra Mesa, o reservatório está com 41,27% de sua capacidade máxima. Esse reservatório possui um espelho d’água que pode atingir a marca de 1.784 km², o que o coloca como o maior depósito artificial de água doce da América Latina. Possui uma capacidade nominal para armazenar 54,4 bilhões de m³ de água, porém, ao longo dos últimos anos, o nível do reservatório vem apresentando muito altos e baixos, ficando muito longe de atingir seu nível máximo. 

As boas chuvas, infelizmente, ainda não estão mostrando melhores resultados na vazão da bacia hidrográfica do alto rio Paraná. Uma das mais importantes usinas hidrelétricas da região, Ilha Solteira, aparece com o nível do seu reservatório com 0,00% nos dados do ONS. Isso significa que o nível do rio Paraná está numa cota abaixo dos 323 metros em relação ao nível do mar. 

A temporada de chuvas na Região Centro-Sul do Brasil deverá se estender até o mês de abril, o que nos dá esperanças de que dias bem melhores ainda virão para muitos dos reservatórios que ainda estão apresentando níveis muito baixos e/ou críticos. 

As previsões climáticas divulgadas pelo INMET – Instituto Nacional de Meteorologia, em novembro de 2021, indicavam chuvas abaixo da média em muitas regiões brasileiras nos meses de dezembro e janeiro. Entre essas regiões se incluíam a Bahia, Minas Gerais, Goiás e Tocantins. Essas previsões, felizmente, não se confirmaram e grande parte desses Estados estão convivendo com chuvas bem acima da média histórica. 

Para o mês de fevereiro, os modelos climáticos do INMET estão prevendo chuvas irregulares em praticamente toda a Região Central e também na Região Sul. Em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul as chuvas previstas deverão ficar abaixo da média histórica. 

Vamos torcer por alguma margem de erro nessas previsões, esperando que as chuvas fiquem ou dentro ou acima da média histórica. Lembro aqui que estamos vivendo sob a influência do fenômeno climático La Niña, palavra que vem do espanhol e significa a menina””. 

Essa menina peralta, juntamente com seu irmão El Niño (“o menino”), costumam pregar peças nos meteorologistas, alterando bastante as condições climáticas em grande parte do mundo. 

Vamos esperar para ver o que o clima nos reserva para os próximos meses. 

CHUVAS EM MINAS GERAIS DIMINUEM, MAS OS PROBLEMAS PROSSEGUEM 

Uma imagem marcante desta quinta-feira, dia 13 de janeiro, foi o deslizamento de uma das encostas do Morro do Enforcado em Ouro Preto, uma das mais famosas cidades históricas de Minas Gerais. Saturados de água, os solos se desprenderam e correram na direção de dois casarões centenários, que foram completamente destruídos. Felizmente, as perdas foram apenas materiais. 

Depois de cair de forma intermitente entre os dias 5 e 12 de janeiro, as chuvas começam a diminuir em grande parte de Minas Gerais e em outros Estados. Entretanto, rios continuam com altos níveis, solos estão encharcados e muitas estruturas como rodovias, pontes e barragens ainda apresentam riscos de colapso. Centenas de milhares de pessoas continuam com suas casas inundadas, sendo que parte desse grupo simplesmente não tem mais uma casa para chamar de sua. 

Governos de todos os níveis não tem poupado esforços em seus trabalhos de atendimentos aos desalojados e nas obras emergenciais para a recuperação de trechos de estradas, encabeçamento de pontes e até mesmo recuperação completa de obras de arte (nome dados a pontes, viadutos e outras estruturas do tipo). Serão muitos meses – em alguns casos anos, para recuperar tudo o que foi destruído por essa intensa temporada de chuvas. 

Entre as muitas preocupações dessa fase de “rescaldo” da tragédia, existem algumas barragens que, mesmo seriamente danificadas pelos grandes volumes de água, ainda estão resistindo. Um exemplo é a Barragem do Carioca, no rio Pará. 

Localizada entre as cidades de Pará de Minas e Conceição do Pará, essa barragem reúne as águas dos rios Pará e São João, dois dos corpos d`água mais importantes da região e que receberam imensos volumes de água nos últimos dias.  

Diante do risco iminente de rompimento – existem diversos vídeos nas redes sociais mostrando grandes volumes de água escapando por cima da barragem (vide foto), as autoridades ordenaram a evacuação de mais de 2.600 pessoas que viviam em áreas próximas das margens nos municípios de Pará de Minas, Pitangui, Onça de Pitangui e Conceição do Pará. 

Com a redução do nível das águas, as autoridades estão considerando que a situação está sob controle, apesar de ainda existirem riscos. O transbordamento da represa provocou uma grande erosão num dos aterros laterais, além de uma fratura no duto principal da estrutura. Serão necessárias obras para a recuperação desses danos assim que as condições meteorológicas permitirem. 

Segundo um boletim divulgado pela Defesa Civil de Minas Gerais no dia 13 de janeiro, o saldo desse período de fortes chuvas no Estado até o momento é de 3.992 desabrigados, 24.610 desalojados e 24 vítimas fatais. São 341 municípios em situação de emergência

Na Região Metropolitana de Belo Horizonte, o município de Nova Lima foi um dos mais afetados. O município fica na área da bacia hidrográfica do rio das Velhas, cujo nível chegou a subir 7 metros no pico das chuvas na região. Cerca de 600 casas foram atingidas pelas enchentes e mais de 4 mil moradores foram desalojados. 

Outro município da Região Metropolitana seriamente impactado pelas chuvas foi Betim, onde mais de 36 mil moradores foram impactados. As áreas mais afetadas ficam próximas ao Córrego Bandeirinhas, que transbordou devido ao excesso de águas. As informações da Defesa Civil mostram que a cidade possui 279 desabrigados e 9.251 desalojados. 

O aumento expressivo do nível do rio Betim também resultou em transbordamentos, que atingiram principalmente as regiões Central e Norte da cidade, em especial os bairros Vila das Flores e Nossa Senhora de Fátima. A Represa de Vargem das Flores também transbordou devido ao alto volume de chuvas, afetando bairro localizados a jusante da barragem. 

Outra região que foi fortemente castigada pelas chuvas foi vale do rio Paraopeba, onde a cidade de Brumadinho foi uma das mais impactadas. Grande parte da cidade foi afetada pela forte elevação do nível do rio. Encostas de morros de morros deslizaram, estradas de acesso foram inundadas e ou danificadas pelas águas. A Defesa Civil municipal informou em seu último boletim que existem 887 pessoas desalojadas e 305 desabrigadas na cidade. 

Outra fonte de grandes preocupações são as barragens de rejeitos de mineração, estruturas que existem em grande quantidade em todo o todo o Estado de Minas Gerais. O Governo do Estado e o Ministério Público Estadual notificaram as empresas responsáveis pela operação de 31 barragens de rejeitos de mineração a prestarem informações sobre as condições de segurança dessas estruturas

Como todos devem se lembrar, ocorreram dois grandes acidentes com estruturas desse tipo nos últimos anos – em 2015, ocorreu o rompimento de uma barragem em Mariana, o que causou um enorme estrago em praticamente toda a calha do rio Doce. Em 2019 foi a vez da Barragem do Córrego do Feijão, em Brumadinho, causando a destruição de uma extensa área da cidade de Brumadinho e do rio Paraopeba. 

Barragens de contenção de rejeitos minerais exigem um acompanhamento constante das suas condições de segurança. Um dos itens mais preocupante é o excesso de água – o colapso da barragem do Córrego do Feijão, segundo alguns estudos bem recentes, entrou em colapso devido ao excesso de água e à liquefação dos rejeitos minerais. 

Ainda serão necessárias várias semanas até que se consiga reorganizar razoavelmente a vida da maioria dessas cidades e localidades atingidas pelas fortes chuvas. Vamos torcer para que as condições climáticas deem uma trégua nesses próximos dias, permitindo que as águas dos rios baixem e que os solos consigam secar.  

Enquanto isso, as autoridades e populações precisam ficar atentas – o pior já pode ter passado, mas ainda existem muitos riscos sérios: o desmoronamento do morro em Ouro Preto é um exemplo disso