A POLUIÇÃO DAS ÁGUAS E AS ENCHENTES NO PLANALTO DE PIRATININGA

Ontem, dia 20 de outubro, foi um típico dia de fortes chuvas na Região Metropolitana de São Paulo. Na cidade de São Paulo foram registrados 18 pontos de alagamento (vide foto) e o transbordamento de três córregos: Mandaqui, Ipiranga e Saracura. As 16h30, a CET – Companhia de Engenharia de Tráfego, registrou 216 km de lentidão nas ruas e avenidas de São Paulo. Outras cidades da Região Metropolitana passaram por problemas bem semelhantes. 

Enchentes em São Paulo e cidades do entorno são comuns nos meses de verão, quando tem início a temporada de chuvas. Aliás, basta uma chuva mais forte em qualquer época do ano para que muitos pontos críticos nas cidades da região fiquem debaixo d’água. Isso foi o resultado do crescimento explosivo da mancha urbana, da canalização excessiva de córregos e ribeirões, além do uso inadequado da complexa rede de rios, córregos e ribeirões existentes na região. 

De acordo com estudos recentes, o Planalto de Piratininga era uma grande mancha de vegetação de Cerrado cercada pela Mata Atlântica – Floresta Ombrófila Densa, de um lado, e Floresta Ombrófila Mista – mais conhecida como Mata das Araucárias, de outro. Consultando registros históricos, você encontrará informações que falam de um número de corpos d’água entre 200 e 3.000 córregos, ribeirões e rios somente no município de São Paulo

Desde os primeiros anos após a fundação de vilas como São Paulo de Piratininga e Santo André da Borda do Campo em meados do século XVI, os jesuítas se convenceram do grande potencial da região para a produção de alimentos. De acordo com o Padre Manual da Nóbrega, líder dos jesuítas, os campos locais eram ideais “para a criação do gado e todo gênero de cultivos“. Outro padre da congregação, Baltazar Fernandes, registrou: “tão bom o mantimento desta terra, que não alembra o pão do reino“. O registro a seguir nos foi deixado pelo padre José de Anchieta: 

“…é terra de grandes campos, fertilíssima de muitos pastos e gados, de bois, porcos, cavalos, etc., e abastada de muitos mantimentos. Nelas se dão uvas e fazem vinho, marmelos em grande quantidade e se fazem muitas marmeladas, romãs e outras árvores de fruto da terra de Portugal. Idem, se dão rosas, cravinas, lírios brancos”. 

Essa vocação agropastoril das terras paulistas ganharia uma nova dimensão a partir do fracasso dos canaviais da faixa costeira. Após sucessivos ataques e pilhagens de piratas, os donatários das Capitanias de São Vicente e de Santo Amaro acabaram por desistir da cultura. Os chamados paulistas se especializariam na produção de alimentos, que seriam “exportados” para outras Províncias, em especial a de Minas Geraes

A pergunta que surge ao ler sobre tudo isso: como uma terra tão rica em fontes de água e com solos tão férteis se converteu em grandes cidades cheias de córregos e rios poluídos, e ainda sujeita a enchentes catastróficas recorrentes? Respondendo de forma bem direta – crescimento desordenada e péssima gestão dos recursos hídricos.  

Até meados do século do século XIX, São Paulo era uma cidadezinha perdida no alto da Serra do Mar, com uma população de menos de 30 mil habitantes espalhados por diversas vilas dentro da área do município. O mesmo acontecia com as demais cidades que formam atualmente a Região Metropolitana.

Até aquele momento, não existiam grandes problemas ambientais relacionados aos recursos hídricos da região. Ao contrário – como grande parte da população se dedicava a atividades agropastoris, as águas eram fundamentais para a produção das pequenas propriedades. 

Outra característica interessante dessa época era o uso intenso da navegação fluvial para o transporte de mercadorias e pessoas. Às margens do rio Tamanduateí, no centro da cidade de São Paulo e onde encontramos a famosa Rua 25 de Março, existia um importante porto fluvial e o chamado Mercado Caipira. Aliás, o nome da atual Ladeira Porto Geral vem daí. Através desse porto, produtores de toda a região de entorno – agricultores, criadores de animais, pescadores, oleiros, madeireiros, entre outros, transportavam seus produtos para venda no antigo mercado. 

Com o início do ciclo de produção de grandes volumes de café no Estado de São Paulo e a transformação da pequena cidade de São Paulo em um importante centro de entroncamento de diversas estradas de ferro, a situação começou a mudar rapidamente. A cidade se transformou em um importante centro de negócios, entreposto logístico, centro comercial e de produção de uma infinidade de itens. A população começou a crescer rapidamente – na virada do século XX, a cidade já se aproximava dos 240 mil habitantes. 

Esse súbito aumento da população levou a uma forte demanda por terrenos para a construção de casas, estabelecimentos comerciais, galpões industriais, entre outros. Rapidamente, Governantes e empresários do ramo imobiliário perceberam o grande valor das grandes áreas de várzea da cidade. Várzeas são terrenos baixos ao largo das margens de rios que funcionam como uma “área de escape” para os volumes excendentes de águas no período das chuvas. Ou seja – eram as áreas de várzea as responsáveis pelo controle das enchentes

Com aval das Autoridades municípais, muitas dessas áreas passaram a ser aterradas e transformadas em “solo urbano” passível de comercialização e construções. Importantes córregos e ribeirões passaram a ter o seu leito cada vez mais “espremido” em meio as construções que foram surgindo.

Num segundo momento, muitos desses córregos e ribeirões passaram a ser canalizados, criando assim novas áreas que poderiam ser usadas para construções. É por isso que existem muitas dúvidas atualmente sobre a quantidade de corpos d’água que existiam dentro do município de São Paulo no passado – grande parte foi coberta pelo crescimento da cidade sem deixar vestígios. 

Para que todos tenham uma ideia do tamanho do problema – somente entre os anos de 1938 e 1945, período da administração do Prefeito Francisco Prestes Maia, cerca de 4 mil km lineares de córregos, riachos e rios foram canalizados e transformados em ruas e avenidas na cidade de São Paulo

Todo esse avanço sobre as áreas de várzeas e a maciça canalização de córregos e ribeirões está na origem de um dos grandes problemas urbanos de São Paulo e de praticamente todas as demais cidades da Região Metropolitana – as enchentes recorrentes que, ano após ano, atormentam a vida de toda a população.

Aquele espaço extra que as várzeas proporcionavam para acomodar as águas excedentes da chuva simplesmente deixou de existir – como as águas precisam ir para algum lugar, elas tomam as ruas e as avenidas das cidades. 

Outro problema que foi criado pelo crescimento populacional foi o aumento da quantidade de esgotos e de resíduos gerados pela população. Um cidadão paulistano médio gera cerca de 150 litros de esgotos a cada dia. Essa conta inclui os efluentes do vaso sanitário, banhos, lavagem de roupas e de louças, limpeza da casa, etc. Desde aqueles tempos antigos da história das cidades, os corpos d’água eram transformados nos grandes receptores desses esgotos – essa é a origem da poluição das águas. 

Também precisamos incluir nessa conta uma grande quantidade de resíduos de todos os tipos – onde se incluem desde o lixo doméstico até móveis, pneus e eletrodomésticos, que a população acaba descartando no leito de córregos, ribeirões e rios das cidades da Região Metropolitana. É só chover um pouco mais forte para que esse “grande conjunto da obra” se transforme em grandes enchentes. 

Além dos problemas já citados, essa má gestão dos importantes recursos hídricos que existiam na região do Planalto de Piratininga resultou em uma outra grande dificuldade – cerca de 70% da água consumida pela população metropolitana precisa ser importada de outras regiões

Como diziam os antigos: “durma-se com um barulho desses”! 

PINHEIROS E TAMANDUATEÍ, OS PRINCIPAIS TRIBUTÁRIOS DO RIO TIETÊ NA REGIÃO METROPOLITANA DE SÃO PAULO

O Tietê é, de longe, o rio mais poluído do Brasil. Das suas nascentes no alto da Serra do Mar em Salesópolis até sua entrada na Região Metropolitana de São Paulo, o rio Tietê é um rio bastante saudável – suas águas não são exatamente cristalinas, mas, com um tratamento básico numa ETA – Estação de Tratamento de Água, podem ser servidas com total segurança à população. 

Os problemas do rio Tietê começam dentro da grande Região Metropolitana, onde vivem perto de 20 milhões de pessoas em 39 municípios, a maioria deles inseridos dentro da sua bacia hidrográfica. Como principal canal de drenagem da Região, o rio Tietê recebe grandes quantidades de esgotos domésticos in natura, efluentes industriais de todos os tipos, águas pluviais, sedimentos e areia em grandes volumes, além de lixo, muito lixo. 

Como consequência direta de todo esse descaso, uma grande mancha de poluição é formada nas águas do rio e será perceptível até pouco mais de 150 km correnteza abaixo. Até anos recentes, quando os volumes de esgotos coletados e tratados eram bem menores do que nos dias atuais, essa mancha de poluição chegava a uma distância de 300 km da Região Metropolitana de São Paulo. 

O rio Tietê, porém, não está sozinho nesta triste sina Metropolitana – existem centenas de córregos e pequenos ribeirões espalhados por todos os cantos da mancha urbana, que capilarizam todo esse descarte de esgotos, resíduos e lixo na direção da calha principal do rio. Aqui é preciso destacar o papel dos dois principais rios tributários do Tietê na Região Metropolitana: os rios Tamanduateí e Pinheiros. 

Historicamente, o rio Tamanduateí ocupou um papel de destaque no desenvolvimento da pequena Vila de São Paulo de Piratininga, hoje transformada na maior cidade do Hemisfério Sul. O local escolhido pelos padres jesuítas para a fundação de um colégio destinado aos trabalhos de catequese dos indígenas era uma pequena elevação na confluência dos rios Tamanduateí e Anhangabaú.

A escolha dessa localidade fazia parte da tradição portuguesa – um dos rios seria usado para a coleta de água para o abastecimento da população, no caso o rio Tamanduateí, e o outro, o rio Anhangabaú, seria usado para o descarte do lixo. 

Algumas fontes dizem que a palavra significa Tamanduateí significa “rio dos tamanduás verdadeiros”. Outras afirmam que a palavra significa “rio das muitas voltas”, o que seria um nome bastante adequado ao rio sinuoso de outrora, com nascentes na Serra do Mar no município de Mauá, que depois atravessa os municípios de Santo André e São Caetano do Sul, todos na região do ABCD Paulista.

Por fim, o rio Tamanduateí corta o município de São Paulo no sentido Leste-Oeste até desaguar no rio Tietê, nas proximidades do Centro de Exposições do Anhembi (lembrando que este é o antigo nome do rio Tietê). Com uma extensão total de 35 km, é rio pequeno, porém foi de extrema importância para toda a região. 

Até meados do século XIX, o rio Tamanduateí era a principal fonte de abastecimento de água da cidade de São Paulo. O grande crescimento da mancha urbana, que levou à destruição de matas ciliares e ao aterro de inúmeras áreas de várzea àquela altura, e também a poluição devido ao lançamento de esgotos, passaram a se refletir numa acentuada degradação da qualidade das suas águas. A partir da década de 1860, começaram a ser feitas obras para a coleta e o transporte de água a partir de fontes na Serra da Cantareira e o rio Tamanduateí acabou sendo relegado ao triste papel de “vala de esgotos”. 

Entre meados e o fim do século XIX, diversas obras de retificação foram realizadas no rio Tamanduateí, transformando o antigo curso sinuoso em um canal retilíneo – as antigas áreas de várzea, que permitiam o transbordando natural das águas excedentes dos períodos das chuvas, acabaram aterradas e transformadas gradativamente em terrenos para a especulação imobiliária.

O trecho final do rio acabou espremido por altas paredes de concreto e pedras. A partir do ano de 1880, começou um intenso debate público na cidade de São Paulo, onde se buscava um “plano de embelezamento” da região da Várzea do Carmo – as discussões se estenderiam por exatos 30 anos. 

Em 1910 foi decidido transformar a Várzea do Carmo em um grande parque, projeto que contaria com o apoio da iniciativa privada (que receberia parte dos terrenos recuperados das áreas alagáveis em troca dos serviços). O projeto só foi aprovado pelos órgãos públicos em 1914 e o Parque foi entregue à população em 1922, ano do Centenário da Independência.

A partir do ano de 1938, com o engenheiro Francisco Prestes Maia assumindo a prefeitura da cidade de São Paulo, tem início a implantação do seu famoso Plano de Avenidas, onde os desvalorizados terrenos das várzeas e das margens dos córregos e rios seriam transformados em grandes avenidas de fundo de vale.  

As margens do rio Tamanduateí foram transformadas, gradativamente, na longa e movimentada Avenida do Estado, ligando o centro de São Paulo à região do ABC. O antigo leito sinuoso do rio, repleto de várzeas e de matas, é atualmente uma triste vala cercado por paredes e pistas de rodagem. Na temporada de chuvas, as regiões lindeiras do rio enfrentam gigantescas enchentes – sem as margens e sem as várzeas, não há lugar para onde a água excedente possa fluir rapidamente. 

O rio Pinheiros, na Zona Sul do município de são Paulo, não teve uma história muito diferente. Afastado do centro da cidade, o rio Pinheiros foi até o início do século XX o centro de uma grande área rural. Suas águas passaram a ganhar importância para a cidade de São Paulo a partir de 1908, quando foi construída a Represa de Santo Amaro, nome que depois foi mudado para Guarapiranga.  

Essa represa foi concebida originalmente para regularizar a vazão dos rios Pinheiros e Tietê. As águas desses rios eram responsáveis pelo acionamento das turbinas da Usina Hidrelétrica de Santana de Parnaíba, primeira geradora de eletricidade da região metropolitana de São Paulo e uma das principais impulsionadoras do processo de industrialização. A partir de 1928, a represa foi “promovida” a manancial de abastecimento de água da cidade de São Paulo. 

Um outro momento importante na história do rio Pinheiros teria início em 1925, quando um Decreto da Presidência da República autorizou a construção do Complexo Energético da Represa Billings e da Usina Hidrelétrica Henry Borden em Cubatão. Esse projeto previa a transposição de águas da bacia hidrográfica do rio Tietê em direção à Represa Billings, na região do ABC Paulista – o canal do rio Pinheiros passaria então por diversas obras de retificação e alargamento.

Esse sistema também contaria com duas estações de bombeamento de água, também conhecidas como usinas de traição, sendo uma na Vila Olímpia e outra na região da Pedreira. A foto que ilustra essa postagem, retirada do livro Alto dos Pinheiros – história e histórias, mostra um trecho do rio Pinheiros em 1929, antes da realização dessas obras.

A empresa responsável pela construção do complexo Billings / Henry Borden, a São Paulo Tramway, Light and Power Company, também detinha os direitos de distribuição de energia elétrica e também concessão para implantação de linhas de bonde na cidade de São Paulo. A empresa também era dona de uma empresa de urbanização – a Companhia City. 

Valendo-se de todo o seu potencial, a empresa criou linhas de bonde ligando as regiões de Moema, Brooklin Paulista e Santo Amaro ao centro de São Paulo. O elegante bairro do Alto de Pinheiros, na Zona Oeste da cidade, foi um empreendimento criado pela Companhia City.  

A lógica empresarial da Light e da City era bastante simples – compravam terrenos em áreas afastadas, criavam toda a infraestrutura urbana nos loteamentos e, por fim, instalavam uma linha de bondes, o que valorizava imensamente os terrenos. As terras onde fica o Alto de Pinheiros, citando como exemplo, eram terras alagáveis da várzea do rio Pinheiros, que foram drenadas e aterradas – atualmente constituem alguns dos endereços mais caros da Zona Oeste de São Paulo.

Essas ações, entre muitas outras, levaram a uma expansão da mancha urbana da cidade de São Paulo em direção às Zonas Sul e Oeste, resultando numa ocupação cada vez maior das áreas de margens do rio Pinheiros. Toda essa expansão urbana, infelizmente, não foi seguida de obras de saneamento básico para a coleta e tratamento dos esgotos da crescente população – o rio Pinheiros passaria a ser a “grande vala” de esgotos da região. 

Assim como já havia acontecido nas áreas de margens e várzeas dos rios Tietê e Tamanduateí, as margens do rio Pinheiros também acabariam transformadas em grandes avenidas – as famosas Marginais do rio Pinheiros. Isolado e relegado à própria sorte, o Pinheiros acabou se transformando em um rio de águas mortas e malcheirosas, como tantos outros corpos d’água da Região Metropolitana. 

Triste maneira de se tratar importantes e límpidos rios de outrora. 

ANHEMBI, O “RIO DAS ANHUMAS”, MAIS CONHECIDO ENTRE NÓS COMO RIO TIETÊ

Até o começo do século XVIII, os paulistas chamavam o rio Tietê de Anhembi, nome dado pelos indígenas do Planalto de Piratininga e que derivava da antiga palavra tupi-guarani “anhumby”, que significa “rio das anhumas”. Outrora abundantes em meio à vegetação das margens alagadiças do rio, a anhuma é uma ave anseriforme da família Anhimidae. Também é conhecida como anhuma, anhima, inhaúma e inhuma, palavras que derivam do tupi ña’un – “ave preta”. 

Infelizmente, faz muito tempo que não existem mais anhumas ou a maior parte da antiga fauna que habitava as margens do rio Tietê. O crescimento desenfreado da cidade, a retificação do curso do rio (vide foto) e a destruição das antigas várzeas alagáveis, além, sobretudo, da intensa poluição que tomou conta das águas do rio nas últimas décadas, tornou quase impossível a existência de vida nas suas águas. O Tietê é considerado o rio mais poluído do Brasil. 

Com nascentes na densa vegetação da Mata Atlântica no alto da Serra do Mar, em Salesópolis, o Rio Tietê poderia ser apenas mais um riachão sem maior importância caso corresse na direção do Oceano Atlântico, localizado a pouco mais de 20 km serra abaixo. O relevo acidentado e a altitude de 1.120 metros da Serra do Mar, porém, forçaram as águas do rio na direção contrária, atravessando todo o Estado de São Paulo rumo aos sertões, percorrendo uma extensão total de 1.136 km até encontrar sua foz no rio Paraná.  

Transformado num rio morto e poluído ao atravessar a Região Metropolitana de São Paulo, o Tietê consegue, naturalmente, depurar suas águas pouco a pouco e, na altura da cidade de Barra Bonita, distante 300 km da capital, ele volta a ser um rio vivo e irreconhecível para muita gente – um verdadeiro “milagre” da natureza. 

As águas do rio Tietê são usadas no abastecimento de dezenas de cidades no interior do Estado de São Paulo, na geração de energia elétrica, na irrigação de lavouras e captadas por inúmeras instalações industriais. Milhares de pescadores profissionais retiram seu sustento das águas do rio e outros tantos amadores se divertem em pescarias nos finais de semana. As águas limpas do rio, acredite se quiser, proporcionam lazer e diversão para muita gente, gerando grandes receitas para empresas dos ramos de turismo e hotelaria.  

Estudos arqueológicos indicam a presença humana nas margens do rio Tietê há, pelo menos, 6.000 anos, período em que diferentes grupos indígenas se sucederam na ocupação das várzeas e margens, onde encontravam terra fértil para a produção de suas culturas de subsistência, caça farta e muito peixe. O primeiro europeu a desembarcar em terras paulistas no início do século XVI, um náufrago português chamado João Ramalho, teve a sorte de ser acolhido pelos indígenas e a astúcia de entender rapidamente um antigo costume dos nativos – o cunhadismo.  

Sempre que um homem se casava, a família da noiva passava a considerá-lo com um membro da família, ou seja, todos os irmãos da noiva, os cunhados, passavam a ser seus irmãos. Cronistas da época registraram que João Ramalho, valendo-se deste artifício, se casou com várias índias de tribos diferentes e contava com uma “família” com 5 mil índios. Essa rede familiar de João Ramalho foi fundamental para a fundação e o sucesso futuro da Vila de São Paulo de Piratininga em 1554 e também no processo de catequese dos indígenas pelos padres jesuítas. 

A partir da fundação da Vila de São Paulo de Piratininga, o rio Tietê assumiu o papel de principal via de transporte da região do Planalto Paulista. O transporte entre as diversas vilas da região era facilitado pelo conjunto dos rios Tietê (chamado Anhembi na época), Tamanduateí e Pinheiros, que facilitavam as ligações entre as vilas de São Paulo de Piratininga, Santo André, São Miguel Paulista, Pinheiros, Santo Amaro, Carapicuíba, Santana de Parnaíba, entre outras.  

O rio Tietê também foi ponto de partida de inúmeras expedições de sertanistas da terra, que iniciaram um incansável trabalho de prospecção de riquezas minerais sertões adentro. Navegando nas famosas canoas monçoeiras, as expedições partiam do porto de Araritaguaba, Freguesia de Itu, hoje Porto Feliz, em São Paulo. O trecho do rio entre a cidade de São Paulo e Itu possui diversas cachoeiras, e permite uma navegação difícil apenas em canoas pequenas.  

O ilustrador e pioneiro da fotografia no Brasil, Hércules Florence (1804-1879), que nos legou os registros da Expedição Langsdorff (1825-1829), descreve alguns detalhes da construção destas canoas, arte ainda existente nas primeiras décadas do século XIX: 

“Os mestres do estaleiro fluvial de Porto Feliz e seus operários haviam preparado dois canoões com cinco pés de largo (1,65 m), cinquenta de comprimento (16,5m) e três e meio de profundidade (1,155 m), feitos de um só tronco de árvore de carvalho e trabalhado por fora, de fundo chato e pouca curvatura. Embarcações pesadas, muito fortes, ainda assim era comum não resistirem aos choques com as pedras impelidas com a rapidez das águas. “ 

O primeiro roteiro das monções paulistas seguia o trajeto pelos rios Tietê, Grande (Paraná), Anhanduí, e Pardo; atravessavam por terra os chamados Campos das Vacarias, e depois seguiam pelos rios Emboteteu (Miranda), Paraguai e Cuiabá. Foi seguindo este roteiro que os paulistas avançaram muito além da linha do Tratado de Tordesilhas, marco divisório estabelecido entre os territórios de Portugal e Espanha em 1494, e atingiram as terras distantes de Goiás, Mato Grosso e Amazônia Ocidental, ampliando os limites do atual território brasileiro. Sem o “caminho líquido” oferecido pelo rio Tietê, talvez o Brasil fosse muito menor do que é hoje. 

Além de importante via de transporte, as águas do rio Tietê eram fundamentais para as atividades agropecuárias dos antigos sitiantes do Planalto de Piratininga, para a dispersão de esgotos e de detritos. O rio também se destacava em outros usos: fornecimento de areia e argila para a construção civil. As antigas construções da pequena cidade eram feitas em taipa de pilão e em pau a pique. 

O rio Tietê também era um ponto de encontro para as lavadeiras de roupas, para os trabalhadores dos curtumes e tecelagens, pescadores, ceramistas ou oleiros, caçadores, entre muitas outras profissões que não existem mais. As crianças daqueles tempos antigos também tinham sua principal área de lazer no rio, onde podiam pescar e nadar. 

Já como fonte de abastecimento de água, o rio Tietê nunca teve uma importância maior. A Vila de São Paulo de Piratininga foi fundada num ponto elevado bem próximo do rio Tamanduateí, que até meados do século XIX foi o principal manancial de abastecimento da cidade. Talvez por causa disso, ele nunca tenha recebido o cuidado que merecia e acabou sendo transformado na grande valeta de esgotos de São Paulo e cidades vizinhas. 

Outro ponto que contribuiu, e muito, para a degradação das águas do rio Tietê dentro da Região Metropolitana de São Paulo foi a implantação das Vias Marginais, grandes avenidas construídas ao longo das margens do rio a partir da década de 1950. Essas avenidas afastaram as populações do contato diário com as águas do rio – a poluição das águas e o lançamento de esgotos, lixo e entulhos só fizeram aumentar depois disso. 

Nas últimas décadas, os diversos níveis de Governo têm feito grandes esforços para melhorar a qualidade ambiental do rio Tietê – o nível de coleta e tratamento dos esgotos gerados pela população vêm sendo gradativamente elevados, o que resulta em águas “menos poluídas”. A antiga mancha de poluição, que se estendia por cerca de 300 km nas águas do rio, está reduzida a perto de 150 km – melhorou muito, mas ainda há um longo caminho a ser percorrido. 

A esperança de todos é que o rio volte a ser novamente “tietê”, palavra indígena que significa “água verdadeira”. 

A DEGRADAÇÃO E A DESTRUIÇÃO DOS RIOS DA MATA ATLÂNTICA

Ao longo de uma longa sequência de postagens, contamos de forma bem resumida a triste saga da Mata Atlântica. Aos tempos da chegada dos primeiros descobridores europeus às nossas terras, a Mata Atlântica ocupava perto de 1,2 milhão de km² ou cerca de 15% do atual território brasileiro. 

Ao longo de mais de cinco séculos de intensa degradação ambiental, ora para o plantio de cana de açúcar, ora para a plantio de café e exploração madeireira, a Mata Atlântica acabou reduzida a um sem número de fragmentos, que ocupam uma área entre 9 e 15% da área original, conforme a fonte consultada

Essa perda massiva de cobertura florestal trouxe inúmeros consequências das mais negativas para a flora e a fauna, mas, sobretudo, para os recursos hídricos da região outrora coberta pela luxuriante floresta. Rios e fontes de água dependem da boa “saúde” das áreas florestais – solos cobertos por densa vegetação propiciam uma melhor infiltração da água que recarrega os lençóis subterrâneos e os aquíferos, o que vai resultar em bons volumes de água brotando das nascentes, especialmente nos meses de seca. 

A cobertura florestal também protege as calhas dos rios do assoreamento e entulhamento. Solos desnudos expostos às chuvas sofrem processos erosivos, o que vai resultar em grandes volumes de sedimentos sendo carreados para o leito dos rios. A vegetação também retém galhos de árvores, troncos caídos, restos de folhas e de animais mortos, que também poderiam ser arrastados para as calhas dos rios e criariam pontos de represamento das águas e/ou poluição das águas. 

Grande parte da população brasileira vive dentro dos antigos domínios da Mata Atlântica, tanto em áreas urbanas quanto em propriedades rurais. O descaso histórico com a preservação dessa importante floresta tem como consequência uma alternância de períodos de carência de água em muitas regiões e de enchentes e alagamentos em outras – em comum, a maior parte desses problemas estão associados com a devastação da Mata Atlântica. 

Tomemos como exemplo as duas maiores cidades brasileiras – São Paulo e Rio de Janeiro: 

Entre os anos de 2014 e 2015, a Região Metropolitana de São Paulo sofreu com a maior estiagem de sua história. O Sistema Cantareira, um gigantesco conjunto de represas localizadas nas bordas da Serra da Mantiqueira, enfrentou uma drástica redução nos volumes de chuvas, o que resultou numa drástica redução do volume de água das represas.

Aliás, o Sistema entrou no chamado “volume morto”, quando o nível de água dos reservatórios fica abaixo do nível de captação. Todas as populações das cidades da Região Metropolitana de São Paulo e de Campinas foram obrigadas a enfrentar um rigoroso racionamento de água. 

A empresa responsável pela maior parte do abastecimento de água no Estado de São Paulo, a Sabesp, precisou realizar uma série de obras emergenciais para interligação de outros reservatórios do sistema e, assim, garantir um mínimo abastecimento à população. Passada a situação de emergência, duas coisas ficaram muito claras – a falta de planejamento da Sabesp e a necessidade de reflorestar grandes áreas ao longo das nascentes e dos rios formadores do Sistema Cantareira. 

A cidade do Rio de Janeiro também tem seríssimos problemas no seu sistema de abastecimento de águas, praticamente dependente do rio Guandu, um corpo d’água alimentado por águas transpostas a partir da bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul. Esse rio está totalmente inserido dentro dos domínios da Mata Atlântica e sofre com a poluição, com o assoreamento e com a perda de cobertura florestal. Mais de 80% da água utilizada no abastecimento da população da cidade do Rio de Janeiro e de várias cidades da Baixada Fluminense dependem das águas do rio Paraíba do Sul

Imaginem o que aconteceria a toda essa gente se ocorresse um acidente com uma barragem de rejeitos de mineração a exemplo do que se passou com o rio Doce, um outro importante rio da Mata Atlântica que corre desde Minas Gerais até o Espírito Santo? 

Esses são apenas dois exemplos de Regiões Metropolitanas densamente povoadas dentro dos domínios da Mata Atlântica, que dependem de rios degradados e poluídos do bioma. Existem centenas de cidades de Norte a Sul do Brasil que se encontram dentro do que já foi a Mata Atlântica e que hoje estão à mercê de uma série de problemas criados a partir da devastação das matas. 

Falando apenas do gravíssimo problema da poluição das águas, os rios mais poluídos são, em sua grande maioria, corpos d’água que ficam dentro dos domínios da Mata Atlântica. Vejam; 

Rio Tietê – o maior rio do Estado de São Paulo e também o rio mais poluído do Brasil; 

Rio Iguaçu – Maior rio do Estado do Paraná e dono da segunda colocação entre os rios mais poluídos do Brasil; 

Rio Ipojuca – Terceiro rio mais poluído do país, o Ipojuca nasce no Agreste Pernambucano e tem seu trecho final na Zona da Mata, o nome local da Mata Atlântica. Outro rio de Pernambuco, o Capibaribe, tem essa mesma configuração geográfica e entra na lista como o sétimo entre os rios mais poluídos do país. 

Podemos incluir nessa lista os já citados rio Paraíba do Sul (vide foto) e rio Doce, respectivamente o quinto e o décimo colocados na lista dos rios mais poluídos do Brasil. Dezenas de milhões de brasileiros e centenas de cidades dependem das águas desses rios para o seu abastecimento e grandes volumes de dinheiro precisam ser gastos diariamente em Estações de Tratamento de Água e em produtos químicos na potabilização dessas águas. 

A partir da próxima postagem vamos fazer um raio X na situação ambiental dos principais rios da Mata Atlântica, mostrando os seus inúmeros problemas e também sobre os grandes desafios ambientais para a recuperação da qualidade de suas águas. 

UMA GRAVÍSSIMA SECA NO INTERIOR DO ESTADO DE SÃO PAULO E EM OUTRAS REGIÕES DO PAÍS

Enquanto muita gente anda se preocupando demais com as “grandes” queimadas na Amazônia e no Pantanal Mato-grossense, como se esses fossem problemas ambientais isolados, muitas outras regiões brasileiras também estão sofrendo com a forte seca e correm risco de assistir a ocorrência de grandes incêndios florestais. 

Entre esses casos estão o Norte e o Oeste do Estado de São Paulo, que estão passando pela pior seca dos últimos 50 anos, de acordo com informações da UNESP – Universidade Estadual Paulista. Grandes cidades como Ribeirão Preto e Araçatuba adotaram sistemas de racionamento a fim de garantir um mínimo de fornecimento de água aos seus habitantes. 

O importante rio Preto, que deu nome a São José do Rio Preto e responde por cerca de um terço do abastecimento da população, é um exemplo da força da estiagem – várias nascentes de córregos e riachos que desaguam no rio já secaram, deixando o seu leito quase seco. Perto de 180 mil moradores da cidade ficam com as torneiras secas entre as 12 e as 22 horas. Em Araçatuba, uma medida semelhante foi tomada e afeta cerca de 40 bairros. 

A forte seca que se abate sobre toda a região Central do Brasil está afetando importantes rios. O rio Paraguai, o mais importante da região do Pantanal de Mato Grosso, é um exemplo – em muitos trechos, o nível do rio mal atinge meio metro. No rio Paraná a situação não é muito diferente.

Na hidrovia dos rios Paraguai-Paraná na Argentina, a situação chegou ao ponto de o Senado do país decretar situação de emergência – os baixos níveis das águas se transformaram em um grave risco para a navegação fluvial.  Segundo especialistas do país, essa é a maior seca no rio Paraná dos últimos 100 anos. Os incêndios florestais também tem sido um grande problema na Argentina – 13 das Províncias do país sofrem com as fortes queimadas.

Enquanto sofremos com a forte estiagem e com os incêndios florestais por aqui na América do Sul, outras regiões do mundo estão sofrendo com fortes chuvas, um claro indicativo dos grandes problemas ambientais na “máquina planetária” e que estão sendo criados pelas mudanças climáticas. 

Na Índia, as famosas Chuvas da Monção deste ano estão muito acima da média histórica. Há cerca de duas semanas atrás, a cidade de Mumbai foi castigada com uma chuva que superou a marca dos 250 mm. Grande e cheia de problemas de drenagem de águas pluviais como São Paulo, Mumbai ficou, literalmente, embaixo d’água. 

Diversos países europeus também tem sofrido com as intensas chuvas deste ano. França, Alemanha, Áustria, Polônia, Hungria e República Checa estão entre os mais castigados. Na Itália, os problemas foram agravados por uma fortíssima precipitação de granizo há alguns dias atrás, com queda de pedras de gelo do tamanho de bolas de pingue-pongue. Em Maiorca, ilha pertencente à Espanha, os temporais alagaram ruas e garagens de prédios – o mesmo ocorreu no Nordeste da Inglaterra. 

Até na distante Rússia as chuvas não tem dado trégua – ao longo da costa do Mar Negro, perto de 60 pessoas já morreram devido às devastadoras trombas d’água que têm se formado e muitas regiões do grande país sofrem com as enchentes. 

Ou seja – os problemas climáticos são bem maiores e bem mais graves do que muitos podem imaginar. Muito pior – estão todos interligados. 

Torçamos todos pela chegada do tão aguardado período das chuvas aqui no Brasil!

O AVANÇO DA SOJA PELOS ESTADOS DA REGIÃO SUL E SÃO PAULO

Eu me lembro bem da primeira vez que vi uma plantação de soja – foi bem no começo da década de 1970, no sítio de um dos meus tios na cidade de Lutécia, região Centro Oeste de São Paulo. Meu tio era agricultor e alternava culturas como o milho e o amendoim. Nossa família costumava passar os meses das férias escolares nessa pequena cidade, onde também moravam meus avós. 

Confesso que aquela plantação, que devia ocupar uns dois hectares, não me impressionou nada – a soja estava seca e pronta para a colheita. Soube depois que aquela era a primeira vez que meu estava plantando o grão, num experimento que fazia parte de um programa do Governo para a popularização da cultura da soja no Estado de São Paulo. Acabei, involuntariamente, sendo uma testemunha ocular do avanço da soja em terras paulistas naqueles tempos. 

Conforme comentamos em postagens anteriores, a história da soja em terras brasileiras começou no final do século XIX, quando sementes foram trazidas dos Estados Unidos para escolas de agronomia da Bahia e de São Paulo. A cultura da soja teve início no Rio Grande do Sul por volta da década de 1920 – o grão produzido nessa fase era destinado exclusivamente para a produção de ração para animais. 

O primeiro salto na produção da soja ocorreu em 1947, época em que a Europa enfrentava problemas com a falta de óleos e gorduras vegetais. As exportações brasileiras começaram nessa época e foram crescendo paulatinamente. O grande trunfo para os produtores era a possibilidade de alternar a produção do trigo, uma cultura tipicamente de inverno, com a soja, uma cultura de verão

Nos Estados de Santa Catarina e Paraná, que também eram produtores de trigo, os produtores também acabaram por descobrir essa possibilidade de alternar a cultura com a soja e, naturalmente, a soja passou a ganhar espaço nos campos. A sinergia entre as duas culturas agrícolas era excelente – além da sucessão inverno/verão, a produção utilizava exatamente os mesmos equipamentos e implementos agrícolas, o que garantia uma renda extra aos produtores com investimento muito baixo (isso quando consorciada com a produção do trigo). 

No Estado do Paraná, a soja teve seu começo sendo plantada no entre-ruas dos cafezais ainda na década de 1960 (vide foto). Com o processo de erradicação dos cafezais a partir da década de 1970 e com a abertura de novos campos agrícolas, a produção de soja teve grande expansão no Estado, sendo plantada como cultura de sucessão com o trigo e com o milho. Em Santa Catarina, os primeiros registros de soja datam dos primeiros anos da década de 1970.  

O trigo era uma importante cultura agrícola nesses Estados e desde antes da década de 1940 os Governos estaduais vinham incentivando a sua produção. O Brasil sempre dependeu do trigo importado, principalmente da Argentina, e era importante aumentar a produção local. Entretanto, na década de 1960, o Governo Federal fez um acordo com o Estados Unidos, onde foi acordada uma redução nos impostos de importação do trigo norte-americano. Esse acordo acabou com a competitividade da produção local de trigo, levando a uma migração para a produção da soja. 

O Rio Grande do Sul era o grande fornecedor de sementes para os Estados vizinhos e as variedades de soja plantadas tinham praticamente as mesmas características, sendo bastante adaptadas para as características climáticas da região Sul. Lembro aqui que a variedade de soja produzida há época aqui no Brasil era a mesma plantada nos Estados Unidos e na China, países de clima temperado – o clima subtropical do Sul do Brasil era o que mais se aproximava do clima desses países. 

No Estado de São Paulo, o clima já não era tão favorável para a produção da soja. Cortado pelo Trópico de Capricórnio, o Estado está numa faixa de transição entre o clima Subtropical e o Tropical de Altitude, o que fazia com que apenas algumas regiões se adequassem ao cultivo da soja. O grão também começou a ser plantado nos ciclos de alternância de culturas como o milho, o feijão e o amendoim, além do plantio consorciado com cafezais. A cultura só ganharia robustez em terras paulistas a partir da criação das variedades adaptadas ao clima do Cerrado, bioma que ocupa uma extensa faixa no Centro do Estado de São Paulo. 

Até 1975, todas as variedades de soja plantadas no Brasil eram de origem norte-americana, razoavelmente, adaptáveis às condições climáticas do Sul brasileiro. Essa pouca adaptabilidade ao clima e aos solos do Brasil se refletia numa baixa produtividade – a produção mal chegava a 20 sacas de 60 kg por hectare (cerca de 1.200 kg/hectare), valor muito abaixo da atual produtividade média brasileira, que supera o valor de 3.100 kg/hectare

Essa baixa produtividade do plantio individual de soja tinha reflexos diretos nos custos de produção, que acabavam por ficar muito altos. O plantio da soja só compensava mesmo quando consorciado com o trigo, onde os subsídios governamentais cobriam os custos de produção. Com a decadência da cultura do trigo, a rentabilidade para os produtores caiu muito. 

A criação do Centro Nacional de Pesquisa de Soja em 1975, uma unidade da EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias, viria a mudar o cenário do grão no país. A principal missão desse Centro era a pesquisa e o desenvolvimento de variedades de soja adaptadas às diversas condições de solo e de climas do Brasil, sendo focado inicialmente na região Sul. Outra missão importante desse Centro era o desenvolvimento de técnicas de plantio específicas para as condições brasileiras.  

Os ganhos em produtividade passaram a viabilizar as plantações, tornando a cultura atrativa do ponto de vista financeiro. Outro aspecto altamente relevante foi a consolidação do complexo da soja a partir da instalação de indústrias produtoras de óleo, rações, de produção de sementes, de fertilizantes e de defensivos agrícolas. Todo esse complexo criou estabilidade para os plantadores do grão, que passaram a ter demanda garantida para o seu produto, estimulando cada vez mais a expansão da cultura, que passou a ocupar espaços no campo cada vez mais importantes ao lado do trigo, do feijão e do milho, entre outras culturas.  

Foi a partir dessa experiência na região Sul do país que a Embrapa deu um verdadeiro salto na criação de novas variedades de soja, atingindo um novo patamar que mudaria para sempre os campos brasileiros: a adaptação da cultura para os climas quentes e, principalmente, para as características dos solos do Cerrado brasileiro. A história da soja e da agricultura, com todos os problemas ambientais que conhecemos, nunca mais seria a mesma – a soja deixaria de ser uma coadjuvante nos campos e passaria a ocupar o papel principal. 

A agricultura é, tradicionalmente, uma fonte de problemas para as áreas florestais. Surgida entre 12 mil e 10 mil anos atrás, as primeiras práticas agrícolas foram feitas em planícies alagáveis da Mesopotâmia, da Índia e da China, áreas onde haviam poucas árvores. Logo, a prática agrícola passou a estar associada a solos “livres” de árvores. Conforme a agricultura foi se expandido pelo mundo antigo e chegou a regiões cobertas por florestas, a primeira coisa que as populações faziam eram derrubar as matas e queimar os troncos de árvores, criando assim solos desnudos para a prática da agricultura. 

Aqui no Brasil, a luxuriante Mata Atlântica sempre foi um obstáculo para a prática agrícola. Desde os tempos da formação dos primeiros canaviais em nosso litoral, a Mata Atlântica vem sendo devastada para a abertura de campos agrícolas. Na Região Sul, onde essa floresta cobria grande parte dos territórios dos Estados, essa vegetação precisou ser eliminada para o surgimento de grandes campos agrícolas e pastagens para animais. E o advento da soja nas últimas décadas acabou dando uma grande contribuição para esse processo de destruição de muitos remanescentes da antiga cobertura vegetal. 

Muita gente costuma chamar isso de progresso… 

O AVANÇO DA SOJA NAS TERRAS DO RIO GRANDE DO SUL

A soja chegou ao Brasil nos últimos anos do século XIX, quando foram feitos alguns experimentos em escolas agrícolas da Bahia e de São Paulo. A produção do grão em grande escala começou mesmo na região de Santa Rosa, município do Nororeste do Rio Grande do Sul. Existe aqui divergências de datas – algumas fontes afirmam que foi em 1914 e outras que foi em 1923. Divergências à parte, a região de Santa Rosa está inserida 100% nos domínios da Mata Atlântica e esse é o nosso ponto de interesse. 

Toda a faixa Norte do Estado do Rio Grande do Sul era coberta por uma densa floresta de Mata Atlântica que começava no litoral e se estendia até a fronteira com Argentina. Essa mata avançava pelo território argentino e chegava até o Leste do Paraguai. Em grande parte, essa mata era formada pela chamada Floresta Ombrófila Mista, mais conhecida entre nós como Mata das Araucárias. A colonização do Noroeste do Rio Grande do Sul foi motivada em grande parte pela grande disponibilidade de madeiras de grande valor comercial como o pinho, o cedro, as imbuias e os marfins. 

Bastaram poucas décadas para os recursos florestais dessa região se esgotarem e as principais atividades econômicas se voltaram para a produção agrícola e pecuária. O Governo gaúcho estimularia a produção de trigo e de frutas de clima temperado na região. Foi dentro desse ambiente que a soja paulatinamente foi ganhando seu espaço. O grão se mostrou excepcional para uso como um importante ingrediente na produção de ração para animais. 

Até o ano de 1950, as microrregiões vizinhas de Santa Rosa, Missões e de Ijuí concentravam 93,65% da produção de soja do Rio Grande do Sul. O município de Santa Rosa, pioneiro no cultivo do grão, apresentava nesse ano uma produção de 24 mil toneladas, o que correspondia a 70% da produção gaúcha, com uma área cultivada de 17 mil hectares

Toda essa produção era destinada ao “consumo próprio” desses municípios, usada principalmente como ingrediente para a ração de animais. O primeiro registro de comercialização de sacas de soja no Rio Grande do Sul data de 1936. A soja passou a ganhar importância econômica em 1947, quando a Europa enfrentou uma crise na produção de gorduras e óleos vegetais e começaram as exportações dos grãos produzidos no Rio Grande do Sul

Em 1950, o Estado já possuía quatro empresas especializadas na produção de óleos e gorduras vegetais a partir do processamento da soja. Apesar de serem empresas de pequenos e médio porte, essas empresas passaram a estimular o aumento da produção de soja no Rio Grande do Sul. Ao final da década de 1950 eram 9 indústrias, número que aumentou para 14 no final da década de 1960.

Um fator mercadológico importante, que estimulou a produção da soja no Brasil, era a diferença do período de safra em relação aos Estados Unidos. Devido à diferença entre as estações climáticas nos Hemisférios Norte e Sul, a soja brasileira chegava ao mercado internacional exatamente no período de entressafra dos Estados Unidos. Essa situação fazia com que os preços do produto estivessem em alta devido à escassez do período, o que proporcionava bons ganhos para os produtores. 

Graças a isso, a participação da produção brasileira de soja passou a ganhar relevância no mercado mundial – em 1968 ela representava 1,64% da produção mundial e saltou para 8,28% já em 1973. O Brasil também se beneficiou de diversos problemas climáticos nos Estados Unidos como as grandes nevascas e as enchentes no rio Mississipi entre 1972 e 1973;.

Outro fator importante foi o início das importações pela antiga URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, e de uma forte queda na produção de farinha de peixe (fonte de proteína) ao longo da década de 1970, o que estimulou um aumento na produção de derivados de soja.

Os produtores de trigo também perceberam que podiam se favorecer da cultura da soja – o trigo é uma cultura de inverno e poderia ser alternado com o plantio da soja no verão, aumentando a rentabilidade das lavouras. Os mesmos implementos e equipamentos agrícolas usados pelo trigo podiam ser utilizados no plantio e colheita da soja. A cultura também se adaptou perfeitamente aos solos das áreas de campos onde o trigo era cultivado. 

Ao longo da década de 1960, a cultura do trigo entrou em crise no Rio Grande do Sul. O Governo brasileiro fez um acordo com os Estados Unidos, reduzindo a carga tributária para a importação do produto americano, o que prejudicou, e muito, a competitividade do trigo produzido no Brasil. Problemas climáticos também afetaram a produção do trigo no período – os produtores passaram a abandonar essa cultura e passaram a se concentrar na produção da soja. 

Esse período também foi marcado por um importante aumento da mecanização do campo, o que resultou num aumento substancial da produtividade. A partir do final da década de 1950, o Governo Federal criou uma série de incentivos para a indústria automobilística e de auto peças, o que estimulou a instalação de diversas empresas fabricantes de tratores e máquinas agrícolas no país. Com a produção nacional, esses equipamentos ficaram mais baratos e cada vez mais acessíveis aos pequenos e médios produtores. 

O sucesso da soja no Rio Grande do Sul contou também com a eficiente estrutura de cooperativas que surgiram em função da cultura do trigo e que rapidamente passou a ser usada pelos produtores de soja. Operando no sistema de cooperativas, os pequenos e médios produtores tinham grandes facilidades para comercializar o seu produto em condições mais favoráveis, além de contar com uma boa estrutura de assistência técnica agrícola. 

O Governo Federal, que a partir da década de 1960 passou a estimular políticas para o aumento das exportações brasileiras, também foi fundamental para a consolidação da cultura da soja no Rio Grande do Sul. Essas políticas começavam com a garantia de preços mínimos para os produtores e com a concessão de financiamentos para a produção pelos bancos oficiais a juros baixos e/ou subsidiados. Esse conjunto de estímulos também seriam fundamentais para a expansão da cultura da soja nos demais Estados da Região Sul e também em São Paulo 

Entre 1965 e 1970, a área de produção de soja no Rio Grande do Sul mais do que dobrou, chegando perto dos 500 mil hectares. Entre 1970 e 1975, a produção teve um novo salto, atingindo a marca de 3,1 milhões de hectares e passando a ocupar cerca de 40% das terras agricultáveis do Estado.  Atualmente, a cultura ocupa perto de 6 milhões de hectares de terras no Estado.

A demanda internacional pela soja não parou mais de crescer – especialmente pela China, e os produtores brasileiros buscariam novas áreas para a expansão dos campos agrícolas. No Rio Grande do Sul houve um grande aumento na demanda por novas terras e as as áreas renascentes da Mata Atlântica no Estado passaram a ser cada vez mais pressionadas. 

A Mata Atlântica, que originalmente cobria 25% do território do Rio Grande do Sul, hoje está reduzida a apenas 7,5% do território gaúcho. Esses remanescentes florestais estão altamente fragmentados e localizados principalmente em topos de morros, encostas de serras e outras áreas de difícil acesso. Além dos graves problemas criados para as fontes de água, essa fragmentação de áreas florestais pode levar inúmeras espécies animais e vegetais à extinção. 

Assim como aconteceu nos ciclos da produção do açúcar, do café e na exportação de madeiras, entre outros, destruímos grande parte de nossas riquezas naturais para fornecer gêneros alimentícios e matérias primas para os mercados internacionais. Infelizmente, o mesmo ocorreu (e está ocorrendo) com a soja no Rio Grande do Sul e em outros Estados – derrubamos matas riquíssimas para produzir soja, um grão que é usado em grande parte para produzir ração para porcos na China e em outros países. 

Sempre me pergunto se esses foram bons negócios para nós brasileiros… 

UM GRÃO QUE ATENDE PELO NOME DE SOJA CHEGA AO SUL DO BRASIL

A soja, um grão de origem asiática, despontou nas últimas décadas como “a grande” cultura do agronegócio brasileiro. Nesse complicado ano de 2020, com pandemia de Covid-19 e tudo mais, as exportações brasileiras acumuladas de soja já estão batendo a marca de 70 milhões de toneladas. O Brasil conquistou recentemente o título de “maior produtor de soja do mundo”.

A soja surgiu na China há cerca de 5 mil anos atrás, a partir do cruzamento de duas espécies selvagens de grãos. O grão resultante possui um alto teor de gordura e proteína, caindo rapidamente no gosto popular e passando a ser um ingrediente fundamental na culinária chinesa na forma de óleos e molhos. Foi ao longo do século XX, porém, que a soja começou a ganhar o mundo, tendo sido plantada inicialmente nos Estados Unidos, onde o grão se adaptou rapidamente ao clima, muito similar ao da China. No Brasil, a soja precisou seguir por um longo caminho até se transformar na “estrela” do campo. 

Nenhuma outra cultura agrícola avançou tão rapidamente pelos campos do nosso país como a soja. E este fenômeno não se deu apenas em terras brasileiras: a soja avançou por diferentes países como Índia, Estados Unidos, Argentina, Paraguai e, nas últimas décadas, por diversos países africanos. Ao contrário de culturas tradicionais como o trigo, a cevada e o centeio, que gastaram milhares de anos para conquistar o mundo, a soja o fez em menos de um século. 

Durante muito tempo, a soja foi considerada uma espécie de “curiosidade” agrícola aqui no Brasil. As primeiras sementes do grão foram trazidas dos Estados Unidos e chegaram à Escola de Agronomia da Bahia em 1882. Vários agricultores receberam as sementes com instruções para o plantio, que acabou não sendo muito bem-sucedido por causa do clima quente da Bahia – a planta preferia um clima Temperado como o do Meio Oeste americano. Os agricultores brasileiros também não conseguiam entender exatamente para que ela servia – o grão, apesar de lembrar um pouco ao feijão, não tinha o mesmo sabor ou textura quando cozido e temperado.  

Há notícias de estudos com a soja em 1891 no Instituto Agronômico de Campinas no interior do Estado de São Paulo, que segundo consta, distribuiu sementes da planta para diversos produtores. De acordo com informações da EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias, foram realizados plantios experimentais da planta a partir de 1901 no Estado do Rio Grande do Sul, onde se buscavam melhores resultados graças ao clima Subtropical, mais próximo do clima Temperado dos Estados Unidos.  

No Estado de São Paulo, após a chegada dos primeiros imigrantes japoneses, o grão passou a ser encontrado no comércio com um pouco mais de facilidade. Fora esses casos isolados, não há notícias do cultivo da soja em maior escala até a década de 1920, quando produtores do Noroeste do Rio Grande do Sul passaram efetivamente a plantar soja com vista à produção de ração para porcos.  

Uma das histórias interessantes sobre o começo da cultura da soja no Brasil e que demonstra o quanto a sua produção era considerada “marginal” pelos agricultores pode ser vista na vida de Albert Lehenbauer, um missionário luterano americano, que foi o responsável pela popularização do grão entre os seus paroquianos. Segundo os relatos preservados, o pastor Lehenbauer ficou extremamente chocado com o grau de pobreza de algumas vilas rurais da região de Santa Rosa, cidade gaúcha para a qual foi enviado como missionários.  

Em 1923, voltando de uma viagem de férias aos Estados Unidos, o pastor trouxe algumas garrafas com grãos de soja. Esses grãos foram distribuídos em pequenas latas e punhados entre os membros de sua congregação. O pastor Lehenbauer orientou pessoalmente cada agricultor sobre o plantio da soja, ensinando cada um sobre o grande potencial energético do grão para a engorda dos animais, especialmente os porcos. Essas comunidades rurais podem ser consideradas as primeiras do Brasil a viverem do plantio da soja.  

O cultivo da soja só passou a ganhar destaque a partir da década de 1940, quando as indústrias perceberam o potencial do grão para a produção de óleos e gorduras vegetais. Com o avanço da urbanização, que passou a se acentuar a partir dessa data, as famílias passaram a mudar alguns de seus hábitos alimentares – o tradicional uso da banha de origem animal para a preparação de alimentos passaria a ser substituído pelo uso de óleos e gorduras de origem vegetal.  

Além desse uso, a soja passou a encontrar seu espaço como uma nova fonte de proteína para consumo humano, especialmente na forma de farinhas para o enriquecimento de alimentos, e também se consolidou como insumo básico para a fabricação de rações para alimentação animal. E foi assim, lentamente, que o grão de origem asiática passou a fazer parte das paisagens gaúchas, disputando seu espaço com o trigo e o arroz, e também com a pecuária, essas as mais tradicionais atividades do Extremo Sul do Brasil. 

Além dos cultivos criados nas áreas de campos naturais do Rio Grande do Sul – os famosos Pampas Gaúchos, a cultura da soja encontraria espaço nos férteis solos dos antigos domínios da Mata Atlântica na faixa Norte do Estado. Conforme comentamos em postagem anterior, o Governo Imperial passou a implementar uma série de políticas para o estímular a ocupação territórial do Extremo Sul. Uma das alternativas era a abertura para uma imigração europeia a partir da década de 1820, disponibilizando terrenos, sementes e ajuda financeira para o assentamento desses imigrantes. 

Com muitas disputas territoriais não resolvidas com a Argentina, país que reivindicava a posse do Rio Grande do Sul, as invasões por tropas e grupos castelhanos eram frequentes. A questão ganhava uma maior dramaticidade pelo escasso povoamento da Província. A questão da colonização do Extremo Sul por imigrantes, preferencialmente por europeus católicos brancos, começou a ser gestada ainda no Governo de Dom João VI, foi implementada já no reinado de Dom Pedro I e foi consolidada pelo Imperador Dom Pedro II. O movimento migratório prosseguiria no Período Republicano. 

A região Noroeste do Estado, rica em matas com grande potencial madeireiro – especialmente a madeira de pinho das araucárias, foi transformada em uma dessas frentes de colonização. Em poucas décadas, essas matas desapareceram e foram transformadas em campos agrícolas e pastagens. O cultivo da soja se transformaria em uma excelente opção econômica para os agricultores locais. 

O clima subtropical dessa região, com invernos frios e secos e verões quentes e chuvosos, era muito parecido com aquele das regiões originais do grão, o que levou a uma perfeita aclimatação da cultura ao Sul do Brasil.  Lembro aqui que as sementes de soja passariam por um intenso trabalho de melhoramento genético na década de 1970 pela Embrapa, onde surgiriam variedades especialmente adaptadas para os solos e clima do Cerrado brasileiro

O Rio Grande do Sul funcionou como uma espécie de “laboratório” para a produção da soja em áreas de clima subtropical do Brasil, abrindo o caminho para o avanço da cultura sobre áreas dentro dos domínios da Mata Atlântica em Santa Catarina e no Paraná. Grandes fragmentos de matas que haviam resistido à extração madeireira ou a implantação de outras culturas, dessa vez sucumbiriam ao avanço da soja. 

Continuaremos na próxima postagem. 

A PRODUÇÃO DE ALIMENTOS NO BRASIL: DO DESCASO À SUPERPRODUÇÃO

De acordo com as últimas projeções do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento feitas no mês de maio, a safra de grãos do Brasil em 2020 deverá superar a marca de 250 milhões de toneladas. Essas estimativas indicam que o Valor Bruto da Produção Agropecuária (VBP) atingirá este ano a marca dos R$ 703,8 bilhões, cerca de 8% acima do valor produzido em 2019. E olhem que estamos falando de um ano complicado pela epidemia da Covid-19. 

Nas últimas décadas o Brasil se transformou em uma verdadeira potência agrícola – os nossos produtos do campo sustentam cerca de 1 bilhão de pessoas em todo o mundo. O agronegócio se transformou em uma das mais importantes atividades econômicas do Brasil. 

Esses números impressionantes escondem uma antiga realidade que pouca gente se lembra – até poucos anos atrás, nosso país dependia da importação de alimentos para conseguir complementar as necessidades de sustento da população. Em 1998, o Brasil importou 2 milhões de toneladas de milho, 1,2 milhões de toneladas de arroz e 6,2 milhões de toneladas de trigo, entre outros alimentos. De lá para cá o jogo mudou completamente. 

Continuamos dependendo das importações de trigo, vindo principalmente da Argentina, mas recentemente, tivemos uma notícia surpreendente – o Estado do Ceará, famoso pelas grandes estiagens e problemas de abastecimento de água, está produzindo trigo e com uma produtividade acima da média mundial. De resto – vamos muito bem e já somos campeões na exportação de muitos alimentos.

Neste ano de 2020, as exportações de soja já atingiram o valor acumulado de 70 milhões de toneladas; o milho deverá atingir a marca das 33 milhões de toneladas. Até o polêmico arroz, grão que teve um grande aumento no preço do varejo nos últimos meses, já teve cerca de 2 milhões de toneladas exportadas esse ano.  

É interesse ressaltar que nos boletins semestrais da FAO – Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação, até o ano de 1998, o Brasil raramente era citado como um grande produtor de alimentos. Então, “de repente”, o país despontou como um dos maiores produtores de alimentos do mundo e passou a assustar muitos dos antigos grandes produtores.  

A história constantemente repetida sobre as queimadas e a destruição da Floresta Amazônica está ligada a isso – muita gente no exterior acredita que o vigoroso salto da nossa produção agropecuária se deu mediante a avanços no bioma Amazônia, quando na verdade elas estão concentradas nos domínios do Cerrado e da Mata Atlântica. 

A relação entre a produção de alimentos e o alto consumo de água já foi tema de uma longa série de postagens anteriores. As atividades agropecuárias são as maiores consumidoras de água do mundo – elas consomem perto de 70% dos recursos hídricos de uma região. Desta vez, vamos focar nos impactos do avanço das frentes agrícolas e pecuárias sobre o bioma Mata Atlântica

Nosso ponto de partida é uma antiga constatação feita por inúmeros intelectuais brasileiros ao longo da nossa história – a produção de alimentos para a população nunca foi uma prioridade aqui no Brasil. Nosso país sempre foi uma grande plataforma para a produção e exportação de commodities e produtos para as grandes nações do mundo. Vejam: açúcar, ouro, café, algodão, látex, madeiras, minério de ferro, carnes, entre muitos outros

Um dos mais interessantes trabalhos já publicados sobre a alimentação dos brasileiros é o clássico Geografia da Fome, escrito na década de 1940 por Josué de Castro (1908-1973), médico, nutrólogo, professor, geógrafo, cientista social, político, escritor e ativista brasileiro do combate à fome. Dividindo o país por regiões, Castro mostra o contínuo dilema entre a necessidade de produzir gêneros exportáveis e a carência de alimentos para se oferecer aos trabalhadores.  

A exceção de São Paulo, que desde os seus primeiros tempos se especializou na produção de alimentos para exportação para outras Províncias, todas as populações das demais regiões brasileiras sempre sofreram com a desnutrição por falta de uma alimentação saudável e balanceada. 

Um exemplo típico da falta de preocupação com a alimentação dos trabalhadores eram os grandes canaviais do Nordeste – os senhores das Casas-grandes não admitiam qualquer produção de gêneros alimentícios em grande escala ou a criação de bois em suas terras. Toda a capacidade instalada e todas as terras disponíveis eram destinadas para a produção de açúcar para a exportação. Uma pequena roça para a produção de mandioca ou a criação de uma vaquinha leiteira era o máximo que alguns toleravam. 

“Não planto um só pé de mandioca para não cair no absurdo de renunciar à melhor cultura do país pela pior que nele há…” 

Esse comentário foi feito por um desses antigos grandes senhores de terras do Nordeste a uma autoridade do Governo e nos foi legada por Darcy Ribeiro em seu livro O Povo Brasileiro. Esses grandes senhores e outras importantes autoridades dispunham de recursos para comprar alimentos importados – para a classe trabalhadora, quando muito, a subnutrição. 

Os escravos africanos, que formavam a grande massa de trabalhadores dos canaviais e dos engenhos, precisavam dispor das poucas horas de folga aos domingos para produzir algum alimento complementar à parca ração que recebiam dos seus senhores. Cada escravo ajeitava um pedacinho de terra entre os limites dos canaviais e as matas remanescentes, onde formavam um pequeno roçado de mandioca e de milho. 

Josué de Castro comentou a esse respeito: “Descobrindo cedo que as terras do Nordeste se prestavam maravilhosamente ao cultivo da cana de açúcar, os colonizadores sacrificaram todas as outras possibilidades ao plantio exclusivo da cana. Aos interesses da monocultura intempestiva, destruindo quase que inteiramente o revestimento vivo, vegetal e animal da região, subvertendo por completo o equilíbrio ecológico da paisagem e entravando todas as tentativas de cultivo de outras plantas alimentares no lugar, degradando ao máximo, desse modo os recursos alimentares da região.” 

Outro exemplo da falta de comprometimento com a produção de alimentos foram os tempos da mineração do ouro nas Geraes – todos os esforços dos aventureiros foram focados nas atividades de prospecção e mineração do ouro, sobrando quase nenhum tempo para a preparação de um simples roçado de mandioca. Nas palavras de Josué de Castro: 

“Morria-se de inanição ao lado de montes de ouro pelo abandono da cultura e da criação”. 

Essa mentalidade de produção de gêneros e matérias primas para exportação, associada a total falta de infraestrutura de transportes do país, resultaria num país de “infinitos roçadinhos” e de pequenas lavouras voltadas ao abastecimento de cidade e localidades interioranas. As populações das grandes cidades da faixa litorânea do país dependeriam, e muito, de alimentos importados.

Essa triste realidade para um país com tantas terras aptas para agricultura e pecuária persistiria até o advento da I Guerra Mundial (1914-1918), conflito que comprometeu fortemente todas as importações brasileiras. De uma hora para outra, começou a faltar tudo – do trigo para o pão, ao arroz e o milho. 

Foi a partir de então que a produção de alimentos em grande escala começou a se transformar em uma política estratégica para o país. Grandes áreas nos domínios da Mata Atlântica, especialmente nas regiões Sul e Sudeste, veriam o surgimento de grandes plantações de grãos e outros alimentos. Os Governos também passariam a se ocupar em distribuir terras para os trabalhadores rurais e a estimular a colonização dos grandes “vazios” territoriais do país

Continuaremos na próxima postagem. 

A MATA ATLÂNTICA NO NORTE DO ESPÍRITO SANTO: A FRONTEIRA FINAL

Ao longo de mais de 50 postagens, mostramos um resumo do intenso processo de devastação da Mata Atlântica de Norte a Sul do Brasil. Esses processos começaram com a produção de açúcar no litoral do Nordeste, passando depois para o ciclo de exploração do ouro e para a produção de metais nas Geraes.  

Depois assistimos ao avanço dos cafezais, que partindo da Província do Rio de Janeiro se espalharam por Minas Gerais, Espírito Santo, São Paulo e Norte do Paraná. Na Região Sul foi a intensa exploração do pinho, a madeira das araucárias, que deu início ao fim da Mata Atlântica. 

Em meados do século XX, um último grande trecho contínuo de Mata Atlântica remanescente se estendia entre o Sul da Bahia e o Norte do Espírito Santo. Esse verdadeiro “milagre” não ocorreu por mero acaso. Conforme já comentamos, essa região era o território dos temidos índios botocudos, que botavam medo até em outras nações indígenas.  

De acordo com a descrição deixada pelo historiador português Pero de Magalhães Gândavo (1540-1579), “chamam-se Aymorés, a língua deles é diferente dos outros índios, ninguém os entende, são eles tão altos e tão largos de corpo que quase parecem gigantes; são muito altos, não parecem com outros índios da Terra”. Estudos feitos em anos recentes em ossos desses índios encontrados em escavações arqueológicas identificaram DNA polinésio nessas populações. 

A descoberta das minas de ouro na Região das Geraes também deu a sua contribuição para a preservação das matas capixabas. A fim de evitar o acesso de aventureiros e, principalmente, de estrangeiros às regiões de mineração, a Coroa de Portugal decretou grande parte do litoral do Espírito Santo como “Áreas Phroibidas”. Um Decreto Real limitava o povoamento, as construções e as expedições a uma faixa de 3 léguas (15 km) do litoral capixaba, especialmente nas proximidades da região da foz do rio Doce

Graças a todos esses percalços, uma faixa substancial da Mata Atlântico acabou sendo, involuntariamente, preservada. Em meados do século XIX, as matas do Sul da Bahia passaram a ser usadas para o plantio do cacau, uma árvore nativa da Amazônia e das florestas da América Central que necessita da sombra de outras árvores para se desenvolver. O cacau gerou muita riqueza aos coronéis baianos até a década de 1940, quando a concorrência da produção em países da África começou a superar a produção local. 

O início do fim das matas no Norte do Espírito foi motivado por um verdadeiro cataclisma que passou a varrer as terras do Planalto Central – a construção da cidade de Brasília a partir de 1956. A transferência da Capital Federal do Rio de Janeiro para o centro do país estava prevista desde o final do século XIX, através de um dispositivo na Constituição Republicana de 1891. Por razões estratégicas e geopolíticas, era preciso estimular a ocupação e colonização dos imensos vazios territoriais do país. A “Marcha para o Oeste”, que citamos em postagens anteriores, é uma das faces mais visíveis dessa política de interiorização. 

As boas intensões do Governo Juscelino Kubitschek, porém, esbarravam em enormes problemas de falta de infraestrutura de todos os tipos nos sertões de Goiás, que iam da falta de estradas e de energia elétrica à carência total de mão de obra e de fornecimento das mais elementares matérias primas e insumos para a construção civil. Praticamente tudo precisaria vir de fora. É aqui que entraram em cena as matas do Norte do Espírito Santo – elas seriam transformadas em uma importante fonte de madeira para uso na construção civil de Brasília. 

De acordo com dados oficiais, cerca de 25% da mão de obra capixaba estava empregada em trabalhos ligados à exploração madeireira no ano de 1959, véspera da inauguração de Brasília. Nesse mesmo ano, existiam cerca de 1.500 serrarias em operação apenas no Norte do Espírito Santo – somente no trecho entre Vitória e Linhares existiam 120 dessas empresas. A produção incluía vigas, caibros, ripas, placas e pranchas de madeira para a construção civil, além de dormentes para as linhas férreas. 

Uma das grandes facilitadoras dessa exploração madeireira foi a Ferrovia Vitória-Minas, que liga a capital capixaba a Belo Horizonte. As grandes cargas de madeira que chegavam em Belo Horizonte seguiam em comboios de caminhões até Brasília, enfrentando mais de 1.100 km de caminhos ainda precários da Rodovia BR-040, que só seria inaugurada oficialmente em 1959. O lema do Governo Kubitschek era “50 anos em 5” – logo, era preciso destruir em 5 anos o que foi poupado nas florestas do Espírito Santo em mais de 450 anos de colonização. 

Uma testemunha ocular desse período de intensa derrubada de florestas no Espírito Santo foi o pesquisador capixaba Augusto Ruschi (1915-1986), agrônomo e ecologista pioneiro no Brasil. Apaixonada pela natureza, Ruschi realizou grandes estudos nas matas capixabas, descobrindo inúmeras espécies de plantas e animais – principalmente os beija ‘flores da Mata Atlântica. Deixou como legado mais de 20 livros e 400 artigos científicos. Foi uma das vozes que mais se sobressaiu em defesa das matas capixabas”. Já no final de sua vida declarou: 

Nosso estado, infelizmente, foi a ‘universidade’ que formou os maiores especialistas em destruição de florestas, seguramente, de todo o universo.” 

Àquela altura, o Espírito Santo já havia perdido 23 mil km² dos 38 mil km² de sua antiga cobertura florestal de Mata Atlântica. Esse processo de intensa devastação de áreas naturais levou inúmeras espécies de aves, árvores e orquídeas à extinção. Infelizmente, seus apelos não foram ouvidos e a devastação continuou – atualmente, resta menos de 10% da cobertura florestal original ou pouco mais de 4.500 km²

O grande vazio deixado pelas antigas matas foi rapidamente ocupado pelos cafezais da espécie conilon (Coffea canephora), um grão muito usado na preparação de blends (misturas de cafés) e na produção do café solúvel. O Espírito Santo é o maior produtor brasileiro desse tipo de café, respondendo por mais de 75% da produção nacional. O produto responde atualmente por cerca de 35% do PIB – Produto Interno Bruto, agrícola do Estado, sendo a principal fonte de renda de 80% das propriedades rurais capixabas em “terras quentes”. 

Uma outra espécie vegetal que acabou por invadir os antigos domínios da Mata Atlântica foi o eucalipto (vide foto), uma árvore de origem australiana muito usada na produção de celulose e papel. A cultura do eucalipto chegou ao Estado em meados da década de 1960. O governo militar, que dirigia o país há época, criou diversas políticas para o desenvolvimento florestal, fornecendo vultosos subsídios para que grandes grupos empresariais investissem na produção de papel e celulose. E como resultado, imensas áreas do Espírito Santo acabaram transformadas num “mar sem fim” de eucaliptos. 

Entre outros inúmeros problemas ambientais, as grandes plantações de eucaliptos ocuparam terras indígenas ancestrais. Cito algumas: Amarelo, Olho d’Água, Guaxindiba, Porto da Lancha, Cantagalo, Araribá, Braço Morto, Areal, Sauê, Gimuhuna, Piranema, Potiri, Sahy Pequeno, Batinga, Santa Joana, Morcego, Garoupas, Rio da Minhoca, Morobá, Rio da Prata, Prata, Ambu, Lagoa Suruaca, Cavalinho, Sauaçu, Concheira, Rio Quartel, São Bento, Laginha, Baiacu, Peixe Verde, Jurumim e Destacamento. As comunidades que ali viviam foram simplesmente dispersadas aos “quatro cantos do mundo”. 

Pequenas comunidades de “não indígenas” que resistiram inicialmente ao avanço das florestas artificiais, também passaram a sofrer com os impactos ambientais dessa cultura, especialmente com a redução da oferta de água nos rios e córregos da região – florestas de eucalipto em crescimento consomem grandes volumes de água. Inúmeros riachos secaram e a produção agrícola de subsistência simplesmente ficou inviável.

Em algumas comunidades, os moradores chegaram a ficar sem acesso a lenha para cozinhar – moradores da região relatam que foram presos e acusados de roubo por seguranças das plantações ao coletarem restos de madeira (galhos caídos) dentro de “propriedades privadas”. 

A antiga e rica floresta que era de todos – a Mata Atlântica, foi substituída pela floresta privada de poucos. Olha no que é que deu…