FORTES CHUVAS CONTINUAM CASTIGANDO CIDADES DA FAIXA LESTE DO NORDESTE BRASILEIRO

O Distúrbio Ondulatório do Leste continua causando estragos em toda a faixa Leste da Região Nordeste. Chuvas fortes e frequentes, que há vários dias vem caindo numa extensa região entre o Leste do Rio Grande do Norte e o Leste de Sergipe, vão continuar. O Leste e o Sul da Bahia vêm enfrentando chuvas menos intensas. 

São esperados grandes volumes acumulados de chuvas para os próximos dias em Natal, João Pessoa, Recife e Alagoas, eventos climáticos que sempre são seguidos de enchentes, alagamentos e deslizamentos de encostas. Duas pessoas já morreram em Alagoas por conta das fortes chuvas. 

O Distúrbio Ondulatório de Leste é um fenômeno climático que provoca uma perturbação nos ventos e na pressão que atuam na faixa tropical do globo terrestre que fica entre a África e o litoral do Brasil. Essa perturbação interfere no regime dos ventos alísios.  

Os ventos alísios sopram no sentido Leste-Oeste, formando nuvens de chuvas, que atravessam o Oceano Atlântico e chegam ao litoral Leste do Brasil. É esse distúrbio que está provocando as fortes chuvas nos Estados de Alagoas, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte.  

Nessa segunda-feira, dia 4 de julho, o Governo Federal reconheceu a Situação de Emergência em 15 cidades dos Estados de Alagoas, Bahia, Pernambuco e Rio Grande do Norte, além de incluir cidades no Amazonas e em Santa Catarina que também estão sendo castigadas com fortes chuvas. 

As cidades brasileiras, em sua grande maioria, não estão preparadas para suportar fortes chuvas. Essa é uma triste realidade que assola especialmente as médias e grandes cidades, aglomerados humanos que cresceram sem maiores preocupações com a construção de sistemas adequados para a drenagem das águas pluviais

O drama é ainda maior quando se verificam as péssimas políticas para a construção de moradias populares. Sem opção, dezenas de milhares de famílias em todo o país se voltam para os terrenos baratos das áreas de várzea e das encostas de morros. Construções precárias, sem as mínimas condições de segurança, vão se amontoando nos morros – bastam alguns poucos dias de chuva mais forte para colocar muitas dessas construções em risco. 

Na faixa Leste da Região Nordeste a situação é agravada pela falta de vegetação nativa nas margens de rios e nas encostas dos morros. Conforme já comentamos em inúmeras postagens aqui do blog, o trecho local da Mata Atlântica foi literalmente arrasado por séculos de cultivo da cana de açúcar. 

A Mata Atlântica dominava uma área equivalente a 15% do território brasileiro há época da chegada dos primeiros europeus às costas brasileiras. O bioma era predominante ao longo do litoral da região Nordeste entre o Sul da Bahia e o Rio Grande do Norte. Essa mata ocupava uma faixa com largura entre 60 e 80 km, entre a região do Agreste e o Oceano Atlântico. Em pouco mais de trezentos anos de monocultura da cana-de-açúcar, a maior parte dessas matas simplesmente desapareceram.  

Sem a proteção das matas, os férteis solos de massapê passaram a sofrer com os processos de erosão e grandes volumes acabaram sendo arrastados para a calha dos rios e levados na direção do Oceano Atlântico. Conforme os solos iam empobrecendo, os agricultores avançavam contra os remanescentes florestais em busca de “terras virgens”. Assim, gradativamente, a Mata Atlântica “sumiu dos mapas”.  

Essa destruição ocorreu ao longo de toda a costa Leste da região Nordeste e, entre outras consequências, resultou na destruição de inúmeros rios. Como exemplo podemos citar os rios Ipojuca e o Capibaribe em Pernambuco. Não por acaso, esses dois aparecem no topo da lista dos rios mais poluídos do Brasil – o Ipojuca ocupa a 3° posição, ficando atrás apenas dos famosos rios Tietê, de São Paulo, e Iguaçu, no Paraná. O rio Capibaribe está na 7° posição no ranking da poluição dos rios brasileiros. 

Rios caudalosos, que antes só podiam ser atravessados de canoa, passaram a ser vencidos facilmente a pé graças ao contínuo assoreamento e entulhamento dos seus leitos. Águas límpidas e transparentes que permitiam os banhos de rio, as lavagens de roupas e louças transformaram-se em esgotos.  

Sobre essa destruição em larga escala dos rios nordestinos, o grande intelectual pernambucano Gilberto Freyre deixou o seguinte registro:  

O monocultor rico do Nordeste fez da água dos rios um mictório. Um mictório de caldas fedorentas de suas usinas. E as caldas fedorentas matam os peixes. Envenenam as pescadas. Emporcalham as margens. A calda que as usinas de açúcar lançam todas as safras nas águas dos rios sacrifica cada fim de ano parte considerável da produção de peixes no Nordeste.” 

Entre outros inúmeros serviços ambientais, rios são os canais naturais para a drenagem das águas pluviais. Se seus canais foram tomados por areia e outros resíduos sólidos carreados ao longo de muitas décadas, vai faltar espaço para receber as águas das chuvas. Resultado – enchentes e alagamentos generalizados vão tomar conta das partes mais baixas das cidades. 

A falta de vegetação ao longo das margens e, em especial, nas encostas de morros é outro ponto crítico. As raízes da vegetação têm papel ímpar para a infiltração de parte da água das chuvas nos solos. Além de ser fundamental para a recarga de lençóis subterrâneos e aquíferos, essa vegetação ajuda a reduzir o volume e a velocidade das águas pluviais rumo a calha dos rios. Essas raízes também evitam o desmoronamento das encostas. 

Esse delay ou retardo nos volumes de água que chegam aos rios permite que haja tempo para escoar os volumes excedentes, evitando que haja transbordamentos. Na falta desses mecanismos naturais, as cidades precisam criar sistemas artificiais para a retenção das águas excedentes. Falo aqui de bacias de detenção abertas, piscinões e represas, entre outros tipos de sistemas. A construção desses tipos de estruturas depende de grandes volumes financeiros, tempo e vontade política, coisas em falta nas nossas cidades. 

Como sempre comentamos aqui em nossas postagens, temporadas de chuvas são e sempre serão coisas normais em um país como o nosso, onde grande parte do território fica dentro de latitudes com climas tropical e equatorial. 

Fenômenos climáticos como Distúrbio Ondulatório do Leste vão continuar a acontecer, salvo alguma mudança que venha a ocorrer devido ao aquecimento global e as mudanças climáticas já perceptíveis em todo o mundo. Logo, notícias desse tipo vão continuar frequentes.  

Ou assumimos as inevitáveis temporadas de chuvas aqui em nossas terras, ou vamos ficar sempre lamentando as más notícias e as mortes de inocentes por contas das águas pluviais. 

SEGUNDO A ONU, PAÍSES INVESTEM POUCO EM CIÊNCIAS DO OCEANO

Entre os dias 27 de junho e 1 de julho aconteceu a Conferência dos Oceanos da ONU – Organização da Nações Unidas, em Lisboa, numa organização conjunta dos Governos de Portugal e do Quênia. O principal objetivo dessa Conferência foi criar as bases para que se atinjam os 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável antes de 2030. 

Contrariando os discursos de muitos ambientalistas de “escritórios com ar condicionado”, de alguns líderes mundiais e de muitas celebridades, que repetem a exaustão que a Floresta Amazônica é o pulmão do mundo, essa é uma função que os mares e oceanos realizam com distinção – eles geram metade do oxigênio da nossa atmosfera

Além de ser uma fábrica viva de oxigênio, as águas salgadas absorvem ¼ de todas as emissões de dióxido de carbono, além de capturar cerca de 90% do calor adicional gerado por essas emissões. Oceanos e mares também formam um grande amortecedor global contra os impactos das mudanças climáticas. 

E as coisas não param por aí – oceanos e mares cobrem perto de 70% da superfície do Planeta Terra e são o lar de aproximadamente 80% de todos os seres vivos. Ou seja – eles formam o maior bioma de nosso planeta. Não é a toa que uma grande parte dos alimentos consumidos pela humanidade vem dos mares.

Apesar de toda a sua importância, oceanos e mares não recebem a atenção que lhes seria merecida por parte dos Governos. De acordo com documento publicado durante a Conferência dos Oceanos, os países gastam, em média, apenas 1,7% dos recursos nacionais de pesquisa com as áreas da ciência ligados aos oceanos. 

Quando analisamos o caso do Brasil, a situação é muito mais dramática: apenas 0,03% dos recursos destinados a pesquisas científicas em nosso país são usados em estudos sobre mares e oceanos. De acordo com uma declaração de um porta-voz da ONU, o “gasto médio é muito, muito pequeno”. Por minha conta e risco, digo que no caso do Brasil é “simplesmente ridículo“.  

O Brasil tem uma linha de costa com extensão total de aproximadamente 7.400 km. Quando se consideram as águas jurisdicionais do nosso país, falamos de um território com cerca de 3,5 milhões de km2, chamado tecnicamente de ZEE – Zona Econômica Exclusiva, ou como, como a nossa Marinha prefere chamar – Amazônia Azul

Desde 2004, o Brasil está reivindicando junto a CLCS – Comissão de Limites da Plataforma Continental, na sigla em inglês, uma organização da ONU, um aumento da área de direitos econômicos exclusivos. Caso o pleito brasileiro seja aceito, a nossa Amazônia Azul sofrerá um aumento de mais de 2,1 milhões de km2, passando para uma área total próxima dos 5,7 milhões de km2.  

Para que todos tenham uma vaga ideia da importância da Amazônia Azul: ela concentra 85% de nossas reservas de petróleo, 75% do gás natural e 45% de nossa produção de pescados. Mais de 95% do comércio exterior do Brasil é feito por via marítima. A ANM – Agência Nacional de Mineração, estima que sob essas águas existem grandes reservas de níquel, cobre, cobalto e manganês, mas faltam estudos técnicos mais profundos. 

Com todo potencial econômico já explorado e a explorar, é fundamental que se destinem verbas mais substanciais para pesquisas científicas em áreas como biologia marinha, oceanografia, mineralogia e geologia, meteorologia, engenharia naval, entre muitas outras áreas afins.  

Citando apenas um dos muitos problemas – a Marinha do Brasil, força nacional responsável pela defesa e patrulhamento de todo esse “mundo de águas”, está com uma frota envelhecida, com muitos navios sendo aposentados e com poucos recursos para se reequipar. Existem novos submarinos e fragatas em construção, porém, a quantidade está muito aquém das necessidades. 

Um exemplo da falta de uma força naval atuante foi o que vimos em 2019, quando um trecho não contínuo de mais de 2 mil km de praias nos Estados de Alagoas, Bahia, Ceará, Maranhão, Paraíba, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe foi tomado por grandes manchas de óleo. O país foi pego, literalmente, de “calças curtas” e demorou muito para entendermos o que aconteceu. 

Depois de mais de dois anos de investigação, a Polícia Federal concluiu que os vazamentos de óleo foram causados por um navio petroleiro de bandeira grega. A embarcação seguia da Venezuela para a África do Sul quando houve o vazamento de mais de 5 mil toneladas de petróleo em uma área a cerca de 700 km da costa do Nordeste. Nenhum suposto culpado ainda foi condenado. 

Os problemas dos oceanos e mares, desgraçadamente, não se limitam a problemas econômicos e de segurança. Um dos mais graves e urgentes são os problemas decorrentes da poluição das águas marinhas. Entram aqui os grandes vazamentos de petróleo, como o exemplo já citado, acidificação das águas e morte dos recifes de coral, problema esse ligado ao aquecimento global, e, principalmente, a poluição das águas por resíduos de plástico

De acordo com estimativas de especialistas, cerca de 10% das 100 milhões de toneladas de plásticos produzidas anualmente em nosso planeta acabem chegando aos oceanos, jogadas diretamente nas águas por cidades costeiras ou por despejo de navios ou arrastadas do interior dos continentes por chuvas e caudais de rios te doso os tamanhos. 

Estudos do PNUMA – Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, indicam que existem atualmente 18 mil fragmentos visíveis de plásticos flutuando em cada quilômetro quadrado de mar – é indeterminada a quantidade de resíduos que está submersa nos oceanos. 

As inocentes sacolas plásticas como as de supermercados, tão presentes em nosso dia a dia, representam até 27% desse lixo flutuante dos oceanos, segundo algumas medições já feitas. Felizmente, muitas cidades e países já proibiram a distribuição dessas sacolas. 

Um exemplo dos danos ambientais provocados pelos resíduos plásticos nos oceanos é uma imensa ilha flutuante descoberta no Oceano Pacífico em 1997. Essa ilha está localizada a meio caminho das ilhas do Havaí e as costas do estado americano da Califórnia, numa região onde as diversas correntes oceânicas se encontram e formam uma espécie de redemoinho. Essa ilha se estende por cerca de 1.000 quilômetros e concentra aproximadamente 4 milhões de toneladas de todo o tipo de resíduos plásticos. 

Para entender como todo esse grande bioma funciona e como está sendo impactado por agressões ambientais, sobre pesca e mudanças climáticas, não existe outro caminho senão investir pesado em todos os tipos de pesquisas científicas. 

Oceanos e mares são importantes demais para todos nós, mesmo para aqueles povos que vivem a milhares de quilômetros de uma praia. É preciso multiplicar, no mínimo, por dez os recursos financeiros destinados às pesquisas. No caso brasileiro, será necessário multiplicar por cem… 

CHINA “EXPORTA” POLUIÇÃO PARTICULADA DO AR PARA A COREIA DO SUL

O transporte natural de material particulado a longas distâncias pelas correntes de vento vem ocorrendo em nosso planeta há milhões de anos. Um exemplo: de acordo com um estudo da NASA – Administração Nacional da Aeronáutica e Espaço dos Estados Unidos, na sigla em inglês, mais de 27 milhões de toneladas de material particulado do Deserto do Saara são carregadas pelos ventos até a Amazônia todos os anos

É interessante observar que no meio de todo esse material particulado, formado em sua maior parte por areia fina, chegam cerca de 22 mil toneladas de fósforo, um importante fertilizante. Ou seja – os fortes ventos alísios que sopram da África em direção da América do Sul e que carregam grandes massa de chuvas, também são responsáveis por parte da fertilização da maior floresta equatorial do mundo. 

Infelizmente, esse fascinante mecanismo muitas vezes acaba carregando “problemas” de uma região para outra. Um exemplo dramático que apresentamos aqui no blog em 2019, foi a “chuva negra” que caiu na cidade de São Paulo, um fenômeno que foi provocado pela fuligem de grandes queimadas no Sul e no Oeste da Amazônia. Essa fuligem chegou na cidade carregada por fortes correntes de vento. 

Um fenômeno muito parecido está complicando a vida de milhões de pessoas na Coreia do Sul – uma densa neblina formada por uma poeira muito fina está cobrindo quase todo o território do país desde o início deste ano. O “fenômeno” está causando coceira nos olhos e irritação na garganta da população. 

Esse evento não é novo: assim como acontece na Amazônia, a Península Coreana vem sendo bombardeada há milhares de anos por nuvens de poeira amarela, também conhecida como poeira asiática, que é arrastada pelos ventos desde os grandes desertos do Norte da China e da Mongólia. Esse fenômeno é comum nos meses de primavera. 

Nos últimos anos, entretanto, os coreanos vêm observando que a “poeira amarela” tem ficado cada vez mais escura devido aos grandes volumes de poluentes liberados na atmosfera pela China, seu grande país vizinho. É essa poluição “exportada” pelos chineses que está causando problemas para a saúde dos coreanos. 

De acordo com informações de órgãos de saúde da Coreia do Sul, a concentração de material particulado do tipo PM 2.5 está mais de sete vezes acima do nível máximo recomendado pela OMS – Organização Mundial de Saúde. As informações também dão conta de um crescimento vigoroso das vendas de máscaras, purificadores de ar e secadores, o que demonstra o desespero da população. 

De acordo com as recomendações da OMS, a quantidade de partículas microscópicas de poluentes com tamanho até 2,5 micrômetros – conhecidas como PM2.5, deve ser no máximo da ordem de 25 microgramas por metro cúbico de ar. Essas partículas são produzidas pela combustão de motores de carros, motos e caminhões; queima do carvão em termelétricas, queima de lenha em residências e em processos industriais, entre outras fontes. 

Nos últimos anos, a China assumiu o posto de maior emissor de GEE – Gases de Efeito Estufa, do mundo, colocando os Estados Unidos, líder absoluto nessas emissões entre 1850 e 2016, na segunda colocação. De acordo com estudos do WRI – World Resources Institute, a China sozinha responde por quase 1/3 das emissões globais de GEE. 

A poluição do ar nas grandes cidades da China, já faz muito tempo, deixou de ser um grande problema ambiental e se transformou numa verdadeira tragédia social. Em grandes regiões metropolitanas da China como Pequim, Hebei e Tianjin já foram detectados níveis de partículas PM 2.5 até 40 vezes acima do nível recomendado pela OMS.  

Estudos conjuntos feitos por universidades americanas e chinesas indicam que a intensa poluição do ar nas grandes cidades da China resulta em 177 mil mortes prematuras a cada ano. A queima do carvão em centrais termelétricas e em grandes empresas é a principal causa da poluição do ar no país.  

A produção anual de carvão mineral na China supera a impressionante marca de 2 bilhões de toneladas. As principais reservas se encontram na região Norte do país. Todo esse grande volume de carvão alimenta o gigantesco parque de usinas siderúrgicas do país e, especialmente, as onipresentes centrais termelétricas espalhadas pelos quatro cantos da China. Cerca de 80% da geração elétrica do país vêm de combustíveis fósseis; 17% são gerados em centrais hidrelétricas e 2% em usinas nucleares. 

Se qualquer um dos leitores consultar um mapa mundi, vai observar facilmente a proximidade entre a costa da China e a Coreia do Sul, separadas pelo Mar Amarelo. Em alguns trechos, a distância é de pouco mais de 200 km. A distância aérea entre Pequim e Seul, as respectivas capitais desses países, é de 952 km. Nuvens de poluição são facilmente carregadas pelos ventos de um lado para o outro. 

De acordo com estudos de especialistas em Ciências Atmosféricas da Universidade Yonsei de Seul, “os dias com extrema neblina e o aparente aumento deste fenômeno na península da Coreia nos últimos quatro ou cinco anos correspondem principalmente a condições meteorológicas específicas que aumentaram o transporte de partículas da China. A isto é preciso somar as emissões locais.” 

Ainda segundo esses estudos, algo entre 70% e 80% da poluição que é carregada junto com a “poeira amarela” que está tomando conta da Coreia do Sul tem sua origem na China – o restante é gerado dentro do próprio território coreano.  

A Coreia do Sul é a quarta maior economia da Ásia e, como a maioria dos seus países vizinhos, utiliza grandes volumes de combustíveis fósseis em suas indústrias e, especialmente, para a geração de energia elétrica. O país também conta com uma gigantesca frota de veículos automotores. 

Por maiores que sejam os esforços dos coreanos para controlar a sua parte nessa nuvem de poluição, e olhem que o país vem trabalhando muito para isso, os grandes volumes de poluentes vindos da China sempre serão substanciais e continuarão causando problemas para a saúde da população do país. Sem um grande esforço por parte dos chineses para reduzir essa poluição, o problema continuará insolúvel. 

Sem querer desanimar os coreanos, a China pretende atingir um nível zero de emissões de carbono somente por volta do ano 2050. Até lá, muitas nuvens de poluição vão continuar atravessando o Mar Amarelo… 

MINISTROS DO MEIO AMBIENTE DA UNIÃO EUROPEIA APROVAM O FIM DOS CARROS COM MOTORES A COMBUSTÃO INTERNA A PARTIR DE 2035

Os Ministros de Meio Ambiente dos países que formam a União Europeia aprovaram um acordo que pode significar o fim das vendas de carros movidos a motores de combustão interna a partir de 2035. Esse novo acordo completa um outro que vai eliminar todos os incentivos fiscais para a venda de veículos com emissão zero e de baixa emissão. 

Essas medidas fazem parte do ambicioso plano ambiental da UE – União Europeia, para a redução das emissões dos GEE –Gases de Efeito Estufa. Os países do bloco europeu têm como meta uma redução de 15% nas emissões de GEE por veículos até 2025 e de 55% até o ano 2030. 

Os países já acordaram que uma revisão das metas será feita em 2026, onde serão avaliados os impactos do desenvolvimento tecnológico. A expectativa de todos é que os próximos anos serão bastante férteis para o desenvolvimento de novas tecnologias limpas para aplicação nos veículos. 

Uma das grandes apostas rumo as emissões zero nos países europeus são os veículos elétricos. A frota atual nos países da União Europeia é calculada em 1,4 milhão de automóveis – a expectativa é de se atingir até 30 milhões de veículos até 2030, onde se incluiriam também os carros com motores híbridos elétrico/hidrogênio. 

Os esforços da UE no combate as emissões de gases de efeito estufa já datam de vários anos. Um dos esforços mais evidentes se deu área de geração de energia elétrica, onde muitas centrais termelétricas a carvão foram substituídas por outras alimentadas a gás natural. Muito desse esforço foi perdido nos últimos meses por causa do conflito entre a Rússia e a Ucrânia. 

Entre as inúmeras medidas punitivas contra a Rússia, os países da União Europeia impuseram uma série de embargos econômicos contra o país. Entre os produtos russos mais impactados estão o petróleo e o gás natural. Um exemplo dos impactos graves dessas medidas é o que se vê na Alemanha, país que supria metade das suas necessidades de gás a partir das exportações da Rússia. 

Inúmeras centrais termelétricas a carvão alemãs que estavam sendo retiradas de operação foram religadas. A própria mineração desse combustível fóssil voltou a ganhar força no país. Um exemplo foi a recente destruição de uma floresta de 12 mil anos para liberar o terreno para a mineração da lignite ou carvão-marrom. 

Essas dificuldades criam um paradigma importante – deixar de usar veículos com motores de combustão interna e passar a usar veículos elétricos que utilizam baterias que foram carregadas com a eletricidade gerada em termelétricas movidas a carvão ou a gás. Se somadas as emissões de GEE nos dois casos, se chegará à conclusão que se mudaram apenas os locais onde os gases de efeito estufa são gerados. 

Uma solução tecnológica que talvez venha a ser mais interessante do ponto de vista ambiental é o uso de células de hidrogênio para gerar energia elétrica para alimentar os motores desses carros. Essa tecnologia já existe atualmente, porém os custos energéticos para a produção do hidrogênio ainda são muito altos e geram grandes emissões de GEE. 

As células de hidrogênio funcionam como um gerador elétrico. Uma célula eletroquímica transforma a energia potencial do hidrogênio (que é um gás altamente explosivo) em eletricidade através de reações químicas. Além do hidrogênio, essa célula necessidade de oxigênio, elemento que funcionará como oxidante da reação química. O único subproduto do processo é a água, resultado da combinação do hidrogênio com oxigênio. 

A beleza de carros soltando água pelo escapamento esbarra nos processos de produção do hidrogênio. Um dos processos clássicos que todos devem conhecer é a eletrolise da água, onde uma corrente elétrica é usada para quebrar as moléculas e separar o hidrogênio do oxigênio. Muitos de vocês devem ter feito essa experiência nas aulas de química nos tempos do colégio (para os mais novos é ensino fundamental). 

Do ponto de vista energético, a eletrólise da água é altamente eficiente – 80% da energia utilizada no processo é efetivamente transformada em hidrogênio. Para efeito de comparação, um motor de combustão interna de um carro tem uma eficiência de apenas 30% – o restante da energia resultante da queima do combustível é transformado em calor. 

Aqui esbarramos no mesmo problema da recarga das baterias dos carros elétricos – usar combustíveis fósseis como o carvão e o gás natural, que são poluentes, para gerar eletricidade. Ou seja – vamos queimar carvão ou gás natural para gerar a eletricidade que será usada na eletrólise da água e obtenção do hidrogênio. 

O método mais usado em todo o mundo para a produção de hidrogênio é a chamada reforma do gás natural – quase metade do hidrogênio utilizado no mundo é obtido através desse processo. São utilizadas várias técnicas: a reforma por vapor de metano, a gaseificação do gás natural, a oxidação parcial dos hidrocarbonetos, entre outras. Os custos de produção de hidrogênio através desses processos equivalem entre 1/3 e ¼ dos custos da eletrolise. 

Além dos custos energéticos (é preciso uma fonte de calor para fazer as reações químicas acontecerem), existe a geração de resíduos indesejáveis como o dióxido de carbono – CO2, um dos mais importantes gases de efeito estufa da nossa atmosfera. Falando no popular “é se cobrir um santo descobrindo outro”. 

Um experimento recente que divulgamos aqui no blog mostrou que é possível produzir hidrogênio usando como fonte de energia a luz do sol. Nesse processo são utilizados catalisadores de baixo custo para quebrar as moléculas da água e separar o hidrogênio e o oxigênio. Caso essa tecnologia se torne viável, ela vai ajudar a resolver o problema da produção do hidrogênio. 

A melhor alternativa do ponto de vista ambiental já existente para se produzir hidrogênio é se utilizar fontes renováveis para a geração da eletricidade. Aqui destacam-se especialmente as fontes fotovoltaicas e as eólicas. Conforme já destacamos em várias postagens aqui no blog, cada uma dessas fontes de energia tem seus problemas, mas são muito menos danosas para o meio ambiente que as fontes fósseis. 

O hidrogênio que é produzido a partir de fontes de energia renováveis é chamado, com todo o mérito, de “hidrogênio verde”. Um projeto bastante interessante que começou a ser discutido aqui no Brasil é o uso de energia eólica gerada ao longo do litoral da Região Nordeste. Estudos preliminares indicam que o potencial de geração local é a 700 GW ou algo equivalente a mais de 50 usinas hidrelétricas de Itaipu

Apesar das melhores intenções dos países da União Europeia, muitas pedras aparecerão no caminho dessa transição energética. Existem vários países do bloco com menor nível de desenvolvimento já estão buscando mecanismos que permitam “empurrar” esses prazos um pouco mais para a frente. 

Também serão necessários investimentos pesados em sistemas de transporte ferroviário para o transporte de carga e passageiros. Esse esforço inclui linhas de trens de alta velocidade, um sistema que pode substituir o uso dos aviões para transporte entre as grandes cidades do continente. 

Uma coisa é certa – os próximos dez anos serão emocionantes, tanto pelos problemas ambientais que surgirão quanto pelas soluções tecnológicas que serão criadas para combater esses problemas. 

O VERÃO ESCALDANTE NO JAPÃO E OS RISCOS PARA O ABASTECIMENTO DE ENERGIA ELÉTRICA 

A exemplo da América do Norte, de parte da Europa e de regiões do Centro e Norte da China, o Japão também está enfrentando uma sequência de dias com temperaturas bem acima da média. De acordo com informações do Governo japonês, os últimos 10 dias foram os mais quentes dos últimos 100 anos. 

O Governo do país reforçou um apelo junto aos moradores de Tóquio, a capital do país, a continuar economizando energia elétrica. O Governo Metropolitano apagou as luzes de seus escritórios e desligou pelo menos um dos elevadores de seus edifícios para dar exemplo para a população. 

O país é mais um que vem sofrendo com os altos custos dos combustíveis, em especial o carvão e o gás natural que são usados na geração de energia elétrica. Centrais termelétricas a carvão e a gás natural respondem por mais de 70% da geração elétrica no país. Cerca de 9% da geração de energia do país vem de centrais nucleares, 17% de fontes de geração renováveis como fotovoltaica e eólica e o restante de outras fontes como a geração hidrelétrica. 

A geração nuclear já chegou a responder por cerca de ¼ do consumo do Japão, um cenário que mudou radicalmente após o acidente com a Usina de Fukushima em 2011. Para quem não se recorda,  em 11 de março daquele ano um forte terremoto com intensidade 8,9 graus na escala Richter sacudiu o leito marinho do Oceano Pacífico ao largo da Ilha Honshu, a maior do arquipélago do Japão.  

Diferente de outros fortes terremotos que atingem a região com relativa frequência, esse abalo sísmico resultou na formação de um grande tsunami, uma grande onda com altura entre 13 e 15 metros. Essa onda atingiu em cheio a Usina Nuclear de Fukushima, que foi encoberta por uma onda de mais de 5 metros de altura. Entre as áreas atingidas estava o prédio dos geradores, onde a água provocou o desligamento dos geradores de emergência. 

Entre outros problemas, a falta de energia elétrica provocou a interrupção do bombeamento da água usada no resfriamento dos reatores nucleares da usina e resultou num superaquecimento e fusão parcial dos núcleos dos reatores 1, 2 e 3. Se seguiram explosões de hidrogênio, o que danificou a estrutura de confinamento dos reatores. Começava assim a saga de um dos maiores acidentes nucleares da história. 

Entre outras providencias, o Governo do Japão ordenou o desligamento imediato de todas as usinas nucleares do país e uma revisão completa e atualização tecnológica dos sistemas de segurança. Os combustíveis fósseis ganharam uma importância ainda maior para a geração de energia elétrica no país, apesar de parte das usinas nucleares voltarem gradativamente a entrar em operação. 

O cenário de risco de escassez de energia elétrico que vinha se desenrolando desde o acidente de Fukushima em 2011, voltou a ganhar força em meados do ano passado quando o consumo de combustíveis voltou a crescer fortemente em todo o mundo após a “paralisia econômica” que foi criada pela pandemia da Covid-19. É justamente em meio a esse cenário de altos custos e de escassez de energia que o Japão está enfrentando essa onda de calor. 

Como é usual em períodos de forte calor ou de frio extremo, o consumo de energia nas residências aumenta muito. Na situação atual, os vilões da explosão do consumo de energia elétrica é o uso intensivo de ventiladores e equipamentos de ar condicionado. Em tempos de escassez e de altos custos de geração, essa é uma situação complicada. 

De acordo com informações da Japan Eletric Power Exchange o preço da energia elétrica para a Região Metropolitana de Tóquio foi elevado para US$ 1.47 por quilowatt/hora, o maior preço desde janeiro de 2021. No atual cenário econômico internacional, esses custos poderão aumentar ainda mais. 

Uma notícia que deu algum alento ao mercado veio de grandes indústrias siderúrgicas do país como a Nippon Steel e a JFE Holdings. Essas empresas possuem centrais de geração de energia elétrica próprias em suas plantas e assumiram um compromisso com o Governo de aumentar a sua geração e lançar a energia elétrica excedente na rede de transmissão elétrica nacional. 

Os super organizados japoneses criaram recentemente um sistema de alerta para os momentos em que o consumo de energia elétrica se aproximar de níveis críticos. Quando a folga entre a produção e o consumo de eletricidade ficar abaixo de uma margem de segurança de 5%, o Governo emitirá um aviso para os consumidores; quando a margem de segurança cair abaixo de 3% será emitido um alerta. Os consumidores colaboram da melhor maneira possível reduzindo seu consumo. 

O Governo japonês tinha planos para desativar 100 das 114 usinas térmicas a carvão mais antigas até o ano de 2030, uma meta que já vinha sendo repensada devido às mudanças no cenário. As demais 26 usinas desse tipo em operação utilizam uma tecnologia mais moderna, sendo bem mais eficientes em termos de produção de energia e também bem menos poluentes que as antigas termelétricas, apesar de poluírem o dobro quando comparadas a uma central térmica a gás.  

Os japoneses pretendem aumentar a participação de fontes de geração renováveis como a fotovoltaica, eólica e de queima de biomassa a valores próximos de ¼ da matriz energética do país até 2030. Também esperam aumentar a participação da geração nuclear a valores entre 20 e 22% da matriz energética, um percentual que ainda continuaria abaixo do que era gerado antes do acidente nuclear de Fukushima

Falar de geração de energia nuclear no país é sempre um tema delicado. Além da questão de Fukushima, ainda pairam sobre os japoneses as lembranças dos ataques por armamentos nucleares – falo aqui das bombas atômicas lançadas sobre as cidades de Hiroshima Nagasaki, eventos que culminaram com a rendição incondicional do país e marcaram o fim da Segunda Guerra Mundial em 1945.    

Um trunfo que os japoneses tem a seu favor é o setsuden, um movimento civil de estímulo a conservação e economia de energia elétrica. Esse movimento surgiu imediatamente após o acidente com a usina nuclear de Fukushima, quando a população ficou preocupada com possíveis blecautes.  

Com as mudanças climáticas globais que já são visíveis em várias partes do mundo, ondas de calor ou de frio extremos serão cada vez mais frequentes, o que implicará em aumentos cada vez maiores nos volumes de energia necessários para resfriamento ou aquecimento das residências. Novas fontes de energia, principalmente renováveis, precisão ser desenvolvidas e implantadas para suprir toda essa demanda. 

E os países que não fizerem isso estarão condenados a sofrer cada vez mais com ondas de calor ou de frio cada vez mais intensos. 

SUL DA CHINA ENFRENTA CHUVAS FORTÍSSIMAS ENQUANTO O CENTRO E NORTE DO PAÍS SOFREM COM ONDAS DE CALOR

A China, a segunda maior economia do mundo e também uma das que mais crescem em tamanho e influencia, parece estar vivendo uma espécie de “inferno astral”. Um exemplo: Xangai, uma cidade de 25 milhões de habitantes, enfrentou recentemente um lockdown de dois meses por causa de um surto de Covid-19. Isso acontece num momento em que a doença está sob controle na maior parte do mundo. 

Outro tormento na vida dos chineses é a crise energética criada pelos elevados preços do gás natural, do petróleo e do carvão, problema que está afetando países de todo o mundo. Essa crise afeta desde os grandes conglomerados industriais, que estão sendo obrigados a limitar seu consumo de energia, até os cidadãos comuns, que sofrem com constantes blackouts no fornecimento de energia elétrica em suas casas. 

Nas últimas semanas, a China vem sendo assolada por problemas climáticos. Sete províncias do Sul do país estão sofrendo com fortes chuvas, o que vem provocando grandes enchentes. Enquanto isso, regiões do Centro e do Norte da China estão sendo assoladas por fortes ondas de calor a exemplo do que está ocorrendo na América do Norte e em partes da Europa

Esses diferentes eventos climáticos não são novidade no país, entretanto, o aumento da frequência de ondas de calor e de grandes enchentes está criando muita apreensão entre os chineses. Há exato um ano, citando um exemplo, a parte central da China sofreu com “as maiores chuvas em mil anos”, conforme se noticiou há época.

O território da China é imenso e ocupa uma área de mais de 9,5 milhões de km² – isso corresponde a 1 milhão de km² a mais que o Brasil. Com todo esse tamanho, assim como acontece aqui em nossas terras, o país tem diferentes padrões climáticos, de relevo e também biomas diversificados. 

No total, a China possui oito tipos de clima diferentes, indo de climas semiáridos e desérticos no Norte, onde encontramos os desertos de Gobi e Takla Makan, até um clima subtropical de monção no Sul similar ao encontrado nos países do Sudeste Asiático. As zonas climáticas são divididas em equatorial, tropical, subtropical, temperada, temperada fria e fria. 

O relevo do país também é bastante particular, destacando-se os grandes maciços montanhosos da faixa Oeste – a Cordilheira do Himalaia. No cume dessas montanhas existem enormes glaciares que formam as nascentes de importantes rios do país. Destacam-se o Yangtzé, mais conhecido entre nós como rio Azul, e o Huang He ou Huang Ho, o famoso rio Amarelo. 

O Yangtzé é o maior rio da China e também um dos maiores do mundo, só perdendo para os rios Amazonas e Nilo. O rio tem mais de 6.300 km de extensão e forma uma bacia hidrográfica com cerca de 1,1 milhão de km². O rio Huang Ho é um pouco menor, com cerca de 5.500 km de extensão e dono de uma bacia hidrográfica com aproximadamente 550 mil km². 

Os trechos médios e inferiores desses rios drenam as terras mais férteis da China, onde desde tempos imemoriais vem se desenvolvendo atividades agrícolas e pecuárias. Agricultura e florestas, conforme já destacamos em postagens aqui no blog, são “forças” incompatíveis na natureza, ou seja, para a formação de campos agrícolas é necessário suprimir áreas florestais. 

Desmatamentos em larga escala levam, entre outros problemas, a formação de grandes enchentes nos períodos de chuvas mais fortes, além de provocar o assoreamento e entulhamento da calha dos rios. É essa receita, que vem sendo usada em países de todo o mundo, que está na raiz das grandes e históricas enchentes que, ano após ano, causam enormes transtornos na China. 

Enquanto as chuvas e as fortes enchentes costumam abundar nas faixas Central e Sul do país, todo o Norte da China sofre com a falta de água. A maior parte das regiões Noroeste, Norte e Nordeste da China são ocupadas por grandes desertos, como é o caso do Deserto de Gobi. Esse deserto se divide entre a China e a Mongólia, ocupando uma área com 1,3 milhão de km².  

Também merecem destaques o Deserto de Takla Makan, com cerca de 270 mil km², o Deserto de Baidan Jaran, com 50 mil km², e o Deserto de Mu Us, com 32 mil km². Além desses, existem alguns desertos menores como Lop, Dsootoyn Elisen, Hami e Tengger.  

O Deserto de Gobi, citando apenas um exemplo, está em expansão e avança cerca de 3.600 km² rumo ao Sul a cada ano. As grandes tempestades de areia que ocorrem nessa região de deserto lançam sedimentos a distâncias de até 2.000 km ao Sul, atingindo importantes áreas agrícolas. Os chineses estão reflorestando grandes faixas de terra para combater o avanço desses desertos

A escassez de água em toda a faixa Norte da China tem reflexos diretos na produção agrícola: cerca de 1/3 de toda a produção está concentrada na faixa Sul do país, que também concentra 80% das reservas de água. Já a faixa Norte do país, que concentra apenas 20% dos recursos hídricos, responde pelo equivalente a 2/3 de toda a produção agrícola. 

Qual o segredo? Super exploração das fontes de água

A região Norte da China produz mais de 40% dos grãos do país através de sistemas de agricultura irrigada, com um consumo de água muito acima da disponibilidade natural, onde a água é retirada de aquíferos e lençóis freáticos. O custo ambiental é altíssimo: sem recarga, os aquíferos estão secando a uma razão de 1,5 metro a cada ano – rios e lagos estão desaparecendo e poços precisam ser escavados a profundidades cada vez maiores. Em Pequim, o nível do lençol freático já está em 59 metros de profundidade e continua baixando.   

O país também investe pesado na construção de sistemas de transposição entre bacias hidrográficas, desviando volumes crescentes de água de rios da faixa Central do país. As condições climáticas já naturalmente complicadas dessa extensa região estão se tornando ainda mais críticas em consequências das mudanças climáticas globais. Grandes ondas de calor estão se tornando cada vez mais frequentes, complicando ainda mais a vida de centenas de milhões de chineses. 

Além de todo o drama humano, as enchentes no Sul e as ondas de calor no Centro e no Norte do país estão provocando graves problemas econômicos para a já enfraquecida economia chinesa. Calor extremo sempre leva ao aumento do consumo de energia elétrica por causa do uso intensivo de ventiladores e sistemas de ar condicionado pela população. Em momento em que já existe uma crise energética, as grandes empresas ficam com volumes ainda menores de energia para trabalhar. 

Já as grandes enchentes no Sul estão afetando importantes áreas industrias em cidades como Foshan, Guangzhou, Dongguan e Shenzen. Além dos enormes prejuízos para as empresas locais, isso gera problemas em todo o mundo – a China é, há várias décadas, a principal “fábrica” do mundo. 

Isso é ou não é um verdadeiro “inferno astral” chinês? 

G7 SE REUNE NA ALEMANHA E A CRISE ALIMENTAR GLOBAL SERÁ UM DOS TEMAS PRINCIPAIS 

O Grupo dos Sete ou simplesmente G7 é um grupo que reúne alguns dos países mais industrializados do mundo: Estados Unidos, Alemanha, França, Reino Unido, Itália, Canadá e Japão. De acordo com informações do FMI – Fundo Monetário Internacional, esses países representam mais de 64% da riqueza líquida global ou algo equivalente a 263 trilhões de dólares.  

Curiosamente, a China, a segunda maior economia do mundo e também uma das que mais cresce em tamanho e influencia, não faz parte desse “clube”. O G7 foi criado em meados da década de 1970, época em que seus membros representavam as maiores economias do mundo, o que indica claramente o quão defasada está sua estrutura. 

Até 2014, a Rússia participava do grupo como convidada, muito mais pelo receio do seu poderio nuclear do que pelo tamanho de sua economia. O país foi expulso do grupo após a invasão e anexação da península da Crimeia naquele ano. Lembramos aqui que a Crimeia é, historicamente, parte da Ucrânia e essa agressão russa está na raiz do atual conflito entre os dois países. 

Os líderes do G7 se reunirão na Alemanha por três dias a partir de 26 de junho. Entre as principais pautas do encontro destacam-se os receios desses países quanto a uma ameaça de recessão global decorrente dos sucessivos aumentos dos preços dos combustíveis – em especial petróleo, gás e carvão; a inflação decorrente desses aumentos e também os riscos de uma crise na produção global de alimentos. 

Alguns dos pontos nevrálgicos desses problemas está associado diretamente ao conflito criado na Ucrânia pela invasão por tropas da Rússia. Os russos alegam que essa intervenção (nunca usam a palavra guerra) decorreu das ameaças aos russos étnicos que vivem em algumas províncias ucranianas – em especial Donetsk e Luhansk. Essas províncias declararam independência da Ucrânia e foram prontamente “reconhecidas” pelo Governo da Rússia. 

Conforme já tratamos em postagens anteriores, o conflito na Ucrânia desencadeou em uma série de problemas para outros países em todo o mundo. Para países europeus, em especial para a Alemanha, o conflito trouxe graves problemas para o fornecimento de gás natural. A Rússia é um dos maiores produtores e exportadores de gás do mundo e, desde a década de 1950, a Alemanha é um dos seus maiores consumidores – metade do gás consumido no país vem da Rússia. 

Outro problema grave está ligado à produção e exportação de alimentos. Citando um único exemplo: Rússia e Ucrânia respondem por 1/3 de toda a produção mundial de trigo. Com o início do conflito, parte substancial dessas exportações ficaram comprometidas – do lado russo existe todo um conjunto de sanções econômicas internacionais que proíbem suas exportações.  

Do lado ucraniano, os problemas estão ligados às dificuldades de produção nos campos e também as dificuldades para exportação a partir do porto de Odessa, o mais importante do país. O país tem feito esforços para exportar os estoques da última safra por via ferroviária através de países vizinhos como a Polônia e a Romênia, mas a capacidade das ferrovias locais fica muito aquém do escoamento marítimo via Mar Negro. 

A questão da produção agrícola ganha contornos mais dramáticos quando se inclui na equação as exportações de fertilizantes da Rússia e de Belarus, seu país aliado. A Rússia é um dos principais fornecedores de fertilizantes nitrogenados do Brasil. O país também é um importante fornecedor de fertilizantes fosfatados e, junto com Belarus, de fertilizantes a base de potássio. 

Em resposta à agressão contra a Ucrânia, as principais economias do mundo passaram a impor embargos econômicos à Rússia, medidas que passaram a comprometer as principais exportações de commodities e produtos da Rússia. Mesmo estando bem longe, o Brasil acabou sendo pego no fogo cruzado entre países. 

O Brasil, que é uma das maiores potencias agropecuárias do mundo, é totalmente dependente da importação de fertilizantes – o país importa 95% dos fertilizantes nitrogenados, 75% dos fertilizantes fosfatados e 95% dos fertilizantes a base de potássio. Até mesmo os Estados Unidos, a maior economia do mundo, está sofrendo com a falta desses fertilizantes. 

A crise desencadeada pelo conflito na Ucrânia veio se somar aos problemas criados pela pandemia da Covid-19 nos campos europeus – a falta de mão de obra. Com as políticas de fechamento dos países e proibição à livre circulação de pessoas, grande parte da mão de obra dos campos da Europa Ocidental, que era formada basicamente por cidadãos do Leste Europeu, voltou para seus países de origem. Essa falta de mão de obra comprometeu a produção de várias culturas.

No Reino Unido só fez por agravar os problemas criados pelo Brexit, a saída do bloco da União Europeia poucas semanas antes do início oficial da pandemia. Centenas de milhares de cidadãos europeus perderam o direito de trabalhar livremente na Inglaterra, em Gales, na Escócia e na Irlanda do Norte, o que afetou diretamente a produção agrícola e outras atividades que eram realizadas por esses estrangeiros. 

Além de todo um rol de impactos econômicos, o somatório de todos esses problemas na área agrícola levou a uma redução substancial dos estoques e os fluxos de alimentos em várias partes do mundo, inclusive para os países membros do G7. E como esse tema é do interesse das grandes economias, é evidente que não serão poupados esforços na busca de soluções. 

Tradicionalmente, as reuniões do G7 também costumam dedicar grande parte do seu tempo à discussão de problemas ambientais globais, onde a “destruição e queima” da Floresta Amazônica pelo Brasil é o tópico principal. Aqui destacamos que muitos dos membros do G7 estão chegando na reunião deste anos com “telhado de vidro”. Vou citar apenas dois casos: 

A Alemanha, conforme destacamos em uma postagem, autorizou a derrubada de uma floresta milenar com o objetivo de liberar a área para a exploração da lignite ou carvão-marrom, um combustível fóssil altamente poluente que será utilizado pelo país em substituição ao gás natural que vinha da Rússia. 

No caso dos Estados Unidos, pesa contra o país a liberação da produção em áreas de conservação ambiental, questão também comentada aqui no blog. A justificativa dos norte-americanos para a adoção dessa medida foi justamente liberar áreas para o aumento da produção agrícola do país e, assim, contribuir na minimização dos riscos para a alimentação da população mundial. 

Por via das dúvidas, é bom ficarmos de olho nas reuniões desse grupo – além de concentrar a maior parte do dinheiro do mundo, essas nações também possuem fartos estoques de hipocrisia… 

AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS E OS RISCOS (AINDA MAIORES) PARA OS ALPINISTAS NO MONTE EVEREST 

As mudanças climáticas estão criando graves problemas para as populações de diferentes regiões do mundo. Em nossas últimas postagens falamos da forte onda de calor que está assolando a América do Norte e a Europa, onde destacamos que a Itália está sofrendo tanto com o calor quanto com a maior seca dos últimos 70 anos

Uma notícia que tem circulado na internet e que ilustra bem as consequências do aumento das temperaturas no planeta diz respeito ao Monte Everest, a mais alta montanha do mundo e que está localizada na Cordilheira do Himalaia na fronteira entre o Nepal e o Tibete, Região Autônoma da China. 

As autoridades do Nepal, país que concentra a maior parte dos acampamentos-base utilizados pelos alpinistas que vão tentar escalar a montanha, anunciaram que vão mudar a localização de um desses acampamentos por razões de segurança. O aumento das temperaturas nessa região está provocando o derretimento e a desestabilização de massas de gelo na montanha, o que pode resultar em perigosas avalanches. 

A principal massa de gelo da região é a Geleira do Khumbu, localizada entre os Montes Everest e Lhotse-Nuptse. Essa é considerada a geleira mais alta do mundo, se estendendo entre altitudes de 7.600 e 4.900 metros. É classificada também como uma das geleiras mais longas do planeta. A geleira se encontra com o trecho final da trilha do acampamento-base que fica entre Lukla e Namche

Avalanches já mataram muitos aventureiros na região do Monte Everest. Em 2015, lembrando um dos casos, um terremoto com magnitude 7,8 graus na escala Richter atingiu o Nepal, matando 3,7 mil pessoas no país. O forte tremor de terra foi sentido na região do Monte Everest, onde provocou uma grande avalanche – ao menos 18 alpinistas e membros das equipes de apoio morreram soterrados pelo gelo.  

Exatamente um ano antes dessa tragédia uma outra avalanche havia matado 16 guias nepaleses na mesma região. A região é isolada e bastante perigosa, o que faz com que o Ministério do Turismo do país tente limitar ao máximo o número de alpinistas que tentam escalar o Monte Everest a cada ano – em média, apenas mil pessoas, entre alpinistas e equipes de apoio, são autorizadas a entrar na região.  

O Everest é a montanha mais alta do mundo com 8.849 metros acima do nível do mar. Sua escalada é também uma das mais difíceis. Os primeiros a realizaram a façanha foram Edmund Hillary, um alpinista da Nova Zelândia, e Tenzing Norgay, um guia sherpa do Tibete, em 1953. Desde então, cerca de 6 mil pessoas conseguiram repetir a façanha – pelo menos 311 pessoas morreram tentando chegar ao pico. 

De acordo com o comunicado do Governo nepalês, um novo acampamento-base será construído entre 200 e 400 metros abaixo da altitude do acampamento atual, numa posição melhor protegida das avalanches. Além de proteger melhor os alpinistas estrangeiros, essa medida também visa a segurança dos guias sherpas, uma etnia que vive nas altas montanhas do Nepal e do Tibete e que é muito empregada como guias e carregadores pelos esportistas. 

Escalar o Monte Everest não é uma tarefa das mais fáceis. A região é bastante isolada e o acesso só pode ser feito através de trilhas pelas montanhas. A porta de acesso às montanhas começa por Lukla, uma minúscula cidade no Nordeste do Nepal que fica a cerca de 30 minutos de voo de Katmandu, a capital do país. 

Lukla fica a cerca de 40 km do Monte Everest, um percurso onde existem diversos acampamentos-base para o pernoite dos aventureiros. Além de carregar todos os equipamentos necessários a escalada – cordas, ganchos, botas, entre outros itens, as equipes precisam carregar alimentos, bebidas, sacos de dormir, material médico, radiocomunicadores, entre muitos outros equipamentos e produtos essenciais, o que abre oportunidade de trabalho para os sherpas

O acampamento-base número 4 é o último ponto de parada para quem vai tentar a escalada do Everest. Essa subida final pode ser feita entre 6 e 10 horas, o que vai depender muito das condições climáticas e também do preparo físico dos alpinistas. Muitas vezes os aventureiros precisam abortar a escalada por causa de mudanças bruscas nas condições climáticas – aliás, a maioria desses alpinistas não conseguem atingir o cume do Monte Everest. 

Além de perigosa, a escalada do Monte Everest é uma brincadeira cara. De acordo com informações de algumas agências de turismo especializadas no assunto, o interessado terá de desembolsar valores entre US$ 45 mil e US$ 160 mil para tentar realizar a façanha. Esses valores se referem ao lado nepalês da montanha. 

Pelo lado tibetano, a aventura é um pouco mais barata – o pacote padrão custa cerca de US$ 15 mil e existe uma opção de luxo ao custo de US$ 18 mil. Desde 2019, a Associação Chinesa de Montanhismo estabeleceu uma taxa de segurança no valor de US$ 5 mil. Essa taxa é reembolsada ao final da escalada caso não tenha acontecido nenhum acidente ou problema ambiental. 

O derretimento de geleiras nas Montanhas Himalaias é um problema com consequências muito mais graves que os riscos a esses alpinistas. Considerada a cadeia com as montanhas mais altas do mundo, as Himalaias abrigam as nascentes de alguns dos maiores e mais importantes rios da Ásia. De memória eu cito o Ganges, Indo e Bramaputra – todos no Subcontinente Indiano; o Mekong, maior e mais importante rio do Sudeste Asiático. 

Na China temos os rios Yangtzé e o Huang He ou Huang Ho. Não podemos nos esquecer do Amu Daria e do Syr Daria, os mais importantes rios da Ásia Central e principais formadores do Mar de Aral. Todos esses rios são formados a partir das águas resultantes do derretimento de geleiras ou glaciares existentes no alto das Montanhas Himalaias. 

O aquecimento global está ameaçando todas essas geleiras, o que representa um risco para mais de 2 bilhões de pessoas que dependem desses rios para o abastecimento, agricultura, pecuária, geração de energia elétrica e transportes. Um exemplo que sempre cito é o rio Ganges – cerca de 500 milhões de pessoas na Índia e em Bangladesh dependem diretamente das águas desse rio. 

A geleira Gaumukh, antiga palavra em sânscrito que significa “boca da vaca”, onde se forma a principal nascente do rio Ganges nas Himalaias, está desparecendo a olhos vistos. Desde a década de 1940, essa geleira já recuou cerca de 3 km e perdeu 1 km da sua espessura – alguns especialistas temem que a Gaumukh despareça ao longo da década de 2030. 

São tempos complicados esses de aquecimento global…

ITÁLIA ESTÁ ENFRENTANDO UMA FORTE ONDA DE CALOR E TAMBÉM A PIOR SECA EM 70 ANOS

“O Hemisfério Norte tá uma brasa, mora!” 

Quem tem mais de cinquenta anos vai entender essa frase com muita facilidade. Era uma gíria muito usada na década de 1960 e nos tempos da Jovem Guarda, sendo usada para indicar algo que era muito bom. Exemplo: essa garota é uma brasa… 

Nas últimas semanas, falar que o Hemisfério Norte está uma brasa é ser literal – tanto a América do Norte quanto a Europa estão enfrentando temperaturas altíssimas para essa época do ano. O verão por lá começou apenas essa semana, mas os termômetros de muitos lugares estão mostrando temperaturas acima dos 40° C. 

A Itália é um desses casos – além de altas temperaturas, o país também está vivendo a pior seca dos últimos 70 anos. Por experiência própria aqui em nosso país, especialmente na região do Semiárido Nordestino, todos sabemos o que essa combinação produz. 

O clima do país está sendo fortemente influenciado por um anticiclone – batizado de Scipione. Essa área de forte pressão está puxando o ar quente do Deserto do Saara, no Norte da África, para o centro do Mar Mediterrâneo, fenômeno que tem provocado temperaturas altíssimas em várias regiões da Europa. 

As autoridades italianas já haviam emitido um alerta para uma forte onda de calor no último sábado, dia 18 de junho, informando que várias regiões enfrentariam temperaturas próximas de 40° C. Entre as cidades citadas estavam Roma, Florença, Bolonha, Ferrara e Milão, todas localizadas nas regiões Central e Norte do país. 

Até aqui, não falamos de nenhuma novidade – as ondas de calor vêm se tornando cada vez mais comuns na Europa ao longo dos últimos anos. No ano passado, citando só um exemplo, o responsável foi o anticiclone Lúcifer, que causou entre outros problemas grandes incêndios florestais na Itália e na Grécia. 

Este ano o calor está sendo acompanhado de uma fortíssima seca em todo o Norte da Itália, especialmente no Vale do Pó, o maior rio italiano. Esse rio nasce nos Alpes Italianos junto à fronteira com a França e percorre 652 km no sentido Leste até desaguar no Mar Adriático ao Sul da famosa cidade de Veneza. 

Para nós brasileiros, um rio desse tamanho é pouco mais que um “riachão”. Para a Itália, cujo território equivale a soma dos Estados de São Paulo e do Rio de Janeiro, o rio Pó é um verdadeiro mar de águas doces. 

A Lombardia e o Piemonte, dois dos estados italianos atravessados pelo rio Pó, são os maiores celeiros agrícolas do país. Cerca de 93% da produção italiana de arroz está concentrada nesses dois estados, que também são grandes produtores de trigo e cevada, entre outros grãos, A região também concentra grande parte da pecuária do país. 

Apesar de ser um país pequeno, a Itália é a maior produtora agrícola da União Europeia, com uma produção anual da ordem de 132 bilhões de Euros. Cerca de 70% do território do país é destinado para fins de produção agropecuária. O país é um grande exportador de arroz, vegetais embalados, carne de porco e produtos lácteos.  

O país já vinha enfrentando problemas nesses setores desde 2020, quando a pandemia da Covid-19, que atingiu fortemente a Itália, resultou numa enorme redução da mão de obra nos campos. Milhares de estrangeiros, especialmente de países do Leste Europeu, foram forçados a voltar para seus países de origem devido as políticas de restrição de circulação de pessoas. 

De acordo com informações das associações de agricultores, a produção italiana de forragens, cevada e outros grãos deverá sofrer uma redução entre 30 e 40% na safra deste ano. Os produtores também informam que o abate do gado deverá ser antecipado por causa da falta de pastagens e de ração para os animais. Em tempos de falta de alimentos em todo o mundo, essa é uma péssima perspectiva. 

Uma outra cultura importante do Norte da Itália que está sendo fortemente afetada pela seca são as avelãs, um tipo de nós muito usada na produção dos famosos chocolates e bombons do país. O Piemonte é o maior produtor de avelãs do país. A seca também está afetando a produção de uvas, o que trará enormes impactos na poderosa indústria de vinhos do país. 

Além da falta de chuvas, o nível do rio Pó também vem sentindo os efeitos da redução dos volumes de neves que caem nos Alpes. Essa neve derrete com a chegada da primavera e as águas descem as encostas das montanhas na direção dos rios do Vale do Pó. Um fenômeno parecido está acontecendo em outras cadeias de montanhas do mundo como é o caso dos Andes aqui na América do Sul.

Um exemplo da situação caótica do rio Pó é visto na produção de energia elétrica – as hidrelétricas localizadas na calha do rio respondem por 15% de toda a produção italiana. Tanto o rio quanto os reservatórios das hidrelétricas estão nos mais baixos níveis de sua história (vide foto) e a produção já foi reduzida a apenas 50% dos níveis de 2021. 

As águas dos rios dessa bacia hidrográfica também são fundamentais para o abastecimento das populações de centenas de cidades. Inúmeras localidades já decretaram o racionamento e proibiram o uso em atividades não essenciais. Em várias cidades do Piemonte o abastecimento está sendo feito através de caminhões pipa, algo que lembra muito a rotina de cidades do nosso Semiárido Nordestino

A falta de água para o abastecimento das populações das cidades também afeta em cheio um dos setores mais importantes da economia da Itália – o turismo. Todos os anos – especialmente na época do verão, milhões de turistas de todo o mundo costumam visitar país – foram 50 milhões de turistas em 2019. 

Naquele ano o setor do turismo gerou quase 200 bilhões de Euros em receitas no país, o que corresponde a quase 13% do PIB – Produto Interno Bruto, da Itália. Em 2020, primeiro ano da pandemia da Covid-19, essas receitas caíram pela metade, o que não foi muito diferente em 2021, quando o número de visitantes caiu 75%.  

Com o fim da emergência sanitária e de todas as restrições à livre circulação de pessoas, os italianos esperavam recuperar uma grande parte de suas perdas nessa área. Infelizmente, a forte seca deste ano deverá frustrar as expectativas de muita gente que vive do turismo no país. Mais tempos difíceis pela frente… 

A situação da Itália hoje é um resumo dos problemas que as mudanças climáticas já provocam e que provocarão em todo o mundo: redução da produção de energia hidrelétrica, quebra e redução de safras agrícolas, redução de rebanhos animais, problemas para o abastecimento de cidades e populações, entre muitos outros. 

Em maior ou menor grau, todos os países já estão enfrentando seus próprios problemas. E a situação tenderá a piorar nos próximos anos. 

MAIS UMA ONDA DE FORTE CALOR NA EUROPA 

O verão na Europa começou nesse dia 21 de junho as 10h14. Agosto costuma ser o mês mais quente no continente, sendo inclusive a época das férias de muita gente. As praias costumam ficar lotadas, especialmente na orla do Mar Mediterrâneo. Destaques são as ilhas da Grécia e as inúmeras praias da Itália e do Sul da França e Espanha, entre outros destinos bastante procurados especialmente por europeus do Norte. 

O calor, entretanto, chegou bem mais cedo este ano – uma forte onda de calor está assolando grande parte da Europa nas últimas semanas a exemplo do que está acontecendo na América do Norte. O calor está concentrado nas Regiões Sudoeste e Oeste do continente, onde a temperatura média chegou aos 38º C.  

Na última sexta-feira, citando um exemplo, Madrid viu seus termômetros atingirem a marca dos 40º C. De acordo com a AEMET – Agencia Estatal de Meteorologia da Espanha, os termômetros madrileños não marcavam essa temperatura desde 1981. 

Temperaturas recordes foram registradas em outras cidades da Espanha. Em San Sebastian, no País Basco, os termômetros marcaram 43,5º C e atingiram os 42º C em Zaragoza. Em um país tropical como o Brasil, temperaturas como essas são frequentes em muitas regiões, porém, em um país de clima temperado, esses valores podem ser classificados como “absurdos”. 

A situação não é muito diferente na França – muitas cidades, inclusive, proibiram a realização de eventos públicos mesmo em locais fechados e com sistemas de ar condicionado. Em muitas regiões do país os termômetros tem superado a marca dos 40º C, podendo chegar até os 42º C. A cidade de Tarascon, no Sul do país, registrou uma temperatura noturna de 26,8º C, um recorde para o mês de junho. 

Outro país que está, literalmente, ardendo nas últimas semanas é a Itália. Aliás, a próxima postagem será totalmente dedicada ao país. O vale do rio Pó, a maior bacia hidrográfica italiana e grande região de produção agropecuária, está sendo castigado por uma forte seca, a maior dos últimos 70 anos. Metade da produção agrícola está ameaçada, uma péssima notícia em tempos de carência de alimentos no mundo

O Sudoeste da Alemanha também viveu seus dias de sufoco nas últimas semanas, quando a temperatura atingiu 36,5º C. Entre outros problemas, o calor provocou um grande incêndio numa área de florestas na região de Brandemburg e resultou na destruição de 100 hectares de matas. 

A Península Ibérica, que nas últimas décadas vem se tornando uma área cada vez mais sujeita a secas e a grandes incêndios florestais, está enfrentando temperaturas entre 10 e 15º C acima da média, as mais altas dos últimos 20 anos. 

Toda a região está sofrendo com rios com níveis cada vez mais baixos e com grandes incêndios florestais como é o caso da Catalunha, no Leste da Espanha, e de Zamora, próxima da fronteira com Portugal. De acordo com informações do Governo regional de Zamora, mais de 25 mil hectares de matas já viraram cinzas nos últimos dias. 

Portugal até o momento está escapando dos picos mais fortes da onda de calor. Em Lisboa, citando um exemplo, as temperaturas tem atingido máximas de 27º C, um nível ainda bastante confortável. Essa trégua, porém, deve ser temporária – em anos anteriores as terras portuguesas também sofreram em demasiado com o calor e os incêndios florestais. 

A menos de um ano atrás publicamos uma série de postagens aqui no blog falando de um outra fortíssima onda de calor na Europa – essa mais nova temporada de altas temperaturas só vem confirmar que o continente está sendo afetado diretamente pelas mudanças climáticas globais. 

Em agosto de 2021, a Itália e a Região dos Balcãs enfrentaram temperaturas sem precedentes. Na ilha italiana da Sicília, localizada ao Sudoeste do país, foi registrada a temperatura surreal de 47,8º C. Os italianos se referiam a essa poderosa onda de calor pelo sugestivo nome de “Lúcifer”, devido ao calor, literalmente, infernal que trouxe para o país. 

Há época, o Serviço Copernicus para Alterações Climáticas da União Europeia afirmou que o mês de julho de 2021 foi o segundo mais quente já registrado no continente Europeu em toda a história. Não se surpreendam com uma eventual atualização dessa informação nos próximos meses – o verão europeu acabou de começar…    

Concorre contra os países europeus, especial os que possuem fachada para o Mar Mediterrâneo, a proximidade com o Saara, o maior e um dos mais quentes desertos do mundo. O Estreito de Gibraltar, que separa o Sul da Espanha do Norte da África, tem pouco mais de 14 km, o que nos dá uma ideia de quão próximo está o Saara da Europa. 

E a questão não para por aí – estudos mostram que o Deserto do Saara aumentou sua área de influência em cerca de 10% nos últimos cem anos. Essa expansão se deu especialmente rumo ao Sul na direção do Sahel, mas também pode ser sentida no Oriente Médio e no Sul da Europa. 

Estudos indicam que esse crescimento do Saara se deve em grande parte a fatores naturais, um processo que vem se desenrolando há cerca de 20 mil anos. Porém, os pesquisadores afirmam que cerca de 1/3 das mudanças climáticas no Saara se devem a fatores antrópicos, ou seja, são decorrentes das mudanças climáticas globais provocadas pelas atividades de nós seres humanos. 

As mudanças climáticas também estão alterando importantes correntes marítimas, o que também pode estar contribuindo para um aumento das temperaturas na Europa e também para a incidência das ondas de calor. Um exemplo é o que está acontecendo com a AMOC – Circulação de Revolvimento Meridional do Atlântico, na sigla em inglês, que faz parte de todo um conjunto de poderosos fluxos de correntes marítimas de todos os oceanos e mares do mundo. 

A AMOC tem uma profunda influência no clima global, especialmente na Europa e nos Estados Unidos. Estudos indicam que está ocorrendo uma desaceleração dessa circulação, o que, entre outras consequências, está contribuindo para o derretimento da capa de gelo da Groenlândia e alterando o ciclo de chuvas em algumas regiões. Essas mudanças podem estar alterando os padrões climáticos em muitas regiões. 

Ainda serão necessários muitos estudos para que se entenda exatamente o que está acontecendo na Europa. Entretanto, é inegável que as ondas de calor no continente estão ficando cada vez mais frequentes ano após ano. Ninguém sabe onde as mudanças climáticas nos levarão. 

Finalizando, uma dica cultural para os leitores – assistam o filme “O dia depois de amanhã”. No enredo, a AMOC para de circular e todo o Hemisfério Norte entra numa nova Era do Gelo. Será um bom divertimento e fará todos pensarem na seriedade das mudanças climáticas globais.