BANCOS CHINESES SÃO ACUSADOS DE FINANCIAR OPERAÇÕES DE DESMATAMENTO EM TODO O MUNDO

Reportagens em jornais, revistas e sites de notícias de todo o mundo publicadas nesse dia 4 maio, repercutiram as conclusões de um relatório da Forests & Finance, uma coalizão global de organizações não governamentais, onde se analisaram os financiamentos concedidos pelo sistema bancário da China a operações de desmatamento em todo o mundo. 

Os dados mostraram que entre janeiro de 2016 e abril de 2020, bancos da China concederam empréstimos e serviços de subscrição no valor de US$ 15 bilhões para empresas que comercializaram commodities ligadas ao desmatamento ilegal em países do Sudeste Asiático, África e também no Brasil

A divulgação dessas informações ocorre poucos dias depois do Secretário-Geral do PCC – Partido Comunista Chinês, Xi Jinping, afirmar na Cúpula do Clima que seu país irá neutralizar as emissões de carbono até o ano de 2026. O pronunciamento do líder chinês já havia deixado dúvidas entre os demais líderes mundiais, que questionaram a capacidade da China em cumprir tais promessas. 

O sistema bancário da China ultrapassou o da Comunidade Europeia em 2014 e, desde então, é o maior do mundo em ativos. Desde então, bancos chineses passaram a se destacar na concessão de créditos e empréstimos para economias em desenvolvimento em todo o mundo. As informações da Forest & Finance colocam em xeque a forma como tais transações financeiras são realizadas. 

Em uma postagem publicada em 15 de maio de 2020, tratamos exatamente dos desmatamentos em países do Sudeste Asiático e das importações de madeira pela China, país que está entre os maiores consumidores desse recurso no mundo. Indonésia e Malásia estão entre os maiores exportadores de madeira para a China. As áreas desmatadas nesses países são usadas principalmente para a ampliação de plantações da palmeira do dendê

As atividades de exploração intensa dos recursos florestais no Sudeste Asiático são antigas e começaram na época das grandes navegações, quando os primeiros exploradores europeus chegaram na região em busca das “especiarias do Oriente”. Além dos valiosos temperos, pimentas, pedras preciosas e corantes orientais, esses exploradores/mercadores também tinham grande interesse nas ótimas madeiras da região como o sândalo e o aloé, usadas tradicionalmente na construção de móveis e objetos de luxo. Depois passaram a ganhar importância as madeiras para a construção civil e naval.  

Países como Portugal, Espanha, Holanda, França e Inglaterra rapidamente foram conquistando seus espaços na região e estabeleceram suas colônias, entrepostos comerciais e protetorados. Falando de maneira bem resumida, surgiram as colônias portuguesas em Gôa, Damão e Diu na Índia, Macau na China e Timor no Extremo Leste do arquipélago indonésio; as Filipinas da Espanha, o vice-reino da Índia da Inglaterra, a Malásia da Holanda e a Indochina da França. Todas essas nações europeias usaram e abusaram dos recursos naturais da região por muito tempo.   

Citando um único exemplo: a criação dos grandes seringais produtores de látex nas colônias inglesas da região, que foram os responsáveis diretos pelo fim da demanda do látex da Amazônia a partir do final do século XIX. Milhares de quilômetros de florestas nativas do Sudeste Asiático foram derrubadas para a introdução das seringueiras “inglesas” (lembrando aqui que os ingleses roubaram as sementes da seringueira na Amazônia).  

Em décadas mais recentes, foi a expansão das plantações da palma da Guiné a grande vilã do desmatamento regional, principalmente na Indonésia e na Malásia. O óleo da palma, mais conhecido aqui no Brasil como azeite de dendê, foi elevado à falsa condição de “combustível renovável”. O óleo de palma passou a ser exportado em grande escala para ser usado como aditivo no óleo diesel em muitos países, principalmente na Europa. 

Nos últimos anos, a faixa de “grande vilã” dos desmatamentos no Sudeste Asiático passou para as mãos da China. Na condição de uma das economias que mais cresce no mundo, a China se transformou numa voraz consumidora de minerais, combustíveis, madeiras e outras matérias primas essenciais para o seu desenvolvimento. Pela proximidade geográfica, os países da região foram transformados em grandes fornecedores de muitos desses produtos.  

As importações de madeira pelos chineses tiveram um grande aumento a partir de 1998, quando a região central do país sofreu com as fortíssimas inundações do rio Yangtzé. A fim de prevenir futuras tragédias, o Governo Central da China passou a impor fortes restrições à exploração de madeira nas florestas dessa região. Até 1998, as importações de madeira pela China eram da ordem de 4 milhões de toneladas métricas – em 1999, logo após o início das restrições, essas importações saltaram para 10 milhões de toneladas métricas e não pararam de crescer desde então.  

Grupos empresariais chineses e dos países do Sudeste Asiático, financiados com generosos recursos financeiros concedidos pelo sistema bancário da China, conseguiram obter grandes concessões para exploração de áreas florestais na Malásia, Indonésia e em Papua Nova Guiné, países que possuem legislações ambientais muito fracas e altamente permissíveis, onde praticamente “tudo pode”.  

Os longos tentáculos chineses também se estendem para a Tailândia, Camboja, Laos e Vietnã. Em anos recentes, grupos empresariais vietnamitas passaram a avançar na direção dos paupérrimos Laos e Camboja, buscando terras para a implantação de seringais e plantações de palma da Guiné. Grandes áreas florestais nesses países também passaram a sofrer com os desmatamentos.  

No arquipélago das Filipinas, a situação é um pouco diferenciada – por causa de antigos laços comerciais e pela proximidade geográfica, o país foi transformado no grande fornecedor de madeiras para o Japão, nação que durante várias décadas foi a grande potência econômica da Ásia. Conforme comentamos em postagem anterior, as Filipinas ocupam a nada honrosa posição de país com um dos maiores percentuais de destruição de florestas nativas do mundo.  

A África é outra região onde os capitais chineses financiam grandes operações florestais. Conforme já tratamos em postagens anteriores, a África é vista como o “futuro celeiro” da China. Já há muitos anos, os chineses vêm trabalhando com muitos governos africanos para viabilizar a construção de obras de infraestrutura como hidrelétricas, rodovias, ferrovias e portos. Generosos financiamentos com aval do Governo chinês foram aportados nessas obras. 

De acordo com o teor do relatório, os mesmos mecanismos de poucas perguntas ao se conceder os financiamentos também se estenderam a empresas brasileiras do setor madeireiro que, bem por acaso, exportam seus produtos para a China.

Essa destruição massiva de recursos florestais e hídricos se junta aos enormes problemas sociais das populações desses países, transformando essas regiões nas mais insustentáveis do mundo. O moderno conceito de Sustentabilidade é formado pelo equilíbrio das áreas Social, Econômica e Ambiental. Infelizmente, o que mais se vê é uma busca frenética e selvagem apenas pelos ganhos econômicos de curto prazo

Em tempos em que muita gente está preocupada com os desmatamentos em todo o mundo e de suas consequências para as mudanças climáticas globais, derretimento de geleiras e redução de caudais em rios importantes, a divulgação das operações de financiamento dos bancos chineses a empresas madeireiras ‘suspeitas” é preocupante. 

Precisamos acabar de uma vez por todas com a hipocrisia e passar a trabalhar com seriedade pela saúde ambiental do planeta! 

O ICÔNICO MONTE FUJI E SUAS NEVES

O Monte Fuji, ou Fujiyama para os japoneses, é um vulcão ativo e a montanha mais altada ilha de Honshu, a maior do arquipélago do Japão. A montanha fica localizada a Oeste da cidade de Tóquio, na divisa entre as províncias de Shizuoka e de Yamanashi. Em dias com céu limpo, os moradores de Tóquio conseguem ver o monte numa linha próxima ao Oceano Pacífico. 

O formato cônico do Monte Fuji coberto de neve se transformou em um dos símbolos mais conhecidos do Japão. A imagem aparece em pinturas, gravuras, tecidos, tapeçarias e porcelanas antigas. Em tempos modernos, o Monte Fuji passou a ser reproduzido através de fotografias, filmes e material impresso. 

Durante os meses de inverno, em especial no mês de dezembro, a montanha costuma ficar coberta com uma capa de neve. Nessa temporada, a montanha é uma das grandes atrações turísticas da região. Nesse último ano, entretanto, o volume de neve que caiu sobre as encostas do Monte Fuji foi muito pequeno e a montanha ficou “pelada” por vários meses, um problema que se insere em um quadro mais amplo de mudanças climáticas mundiais. 

No final de setembro de 2020 caíram as primeiras neves da temporada sobre as encostas da montanha. Essa fina camada de neve derreteu em poucos dias, deixando a montanha praticamente sem cobertura até o final de dezembro, quando caiu uma nova camada de neve. Apesar das baixas temperaturas do mês de janeiro, a maior parte das neves desapareceram em poucos dias devido aos ventos com temperaturas acima de 0° C. 

De acordo com análises de imagens feitas pelo satélite Landsat-8 do Programa Earth Observatory da NASA – Administração de Aeronáutica e Espaço dos Estados Unidos, na sigla em inglês, a cobertura de neve no Monte Fuji foi a menor em 20 anos.  

Um detalhe interessante do ano de 2020 foi a formação de La Niña nas águas do Oceano Pacífico, um fenômeno climático que costuma deixar o Japão com as águas costeiras mais frias e com temperaturas mais baixas nas ilhas. Fortes nevascas caíram na costa Oeste do país, mas a região do monte Fuji, que fica na costa Leste, não foi atingida. 

Medições feitas através de estações meteorológicas terrestres instaladas ao redor do Monte Fuji mostraram um quadro ainda mais preocupante – a precipitação de neve até o dia 24 de dezembro atingiu apenas 10% dos volumes medidos em anos normais. Também foi verificado que as temperaturas na região foram bem mais altas que a média dos anos anteriores. 

Projeções climáticas de longo prazo indicam que as condições ambientais da montanha estão mudando. A temperatura média no cume do Monte Fuji nos meses de verão aumentou cerca de 2° C. Esse aumento de temperatura pode estar por trás do avanço da linha da floresta pela encosta da montanha – nos últimos 40 anos, a floresta “subiu” cerca de 30 metros. 

Uma outra indicação de mudanças climáticas no Japão está ligada ao tradicional espetáculo da floração das cerejeiras, um dos eventos naturais mais aguardados do país. Na cidade de Kyoto, a antiga capital do Japão, as primeiras árvores floresceram no dia 26 de março neste ano. De acordo com as anotações oficiais da cidade, que são cuidadosamente compiladas desde o ano 812, essa foi a floração mais precoce de todos os tempos. Até então, a florada mais precoce havia sido registrada em 27 de março de 1403 e a mais tardia em 5 de março de 1323. 

De acordo com declarações de cientistas japoneses, a floração das cerejeiras depende das temperaturas dos meses de fevereiro e março – quanto mais alta a temperatura, mais cedo as flores surgem. Análises feitas nas datas de floração das cerejeiras de Kyoto indicam que a flores estão surgindo cada vez mais cedo nos últimos 50 anos, um período que coincide com o aumento das temperaturas do planeta. 

Nesse mesmo período, o país passou a ser assolado por fortes ondas de calor na época do verão. Em 2018, citando um exemplo, a temperatura atingiu a marca de 41,1° C, uma das maiores já registradas no país. Registros da época indicam que mais de mil pessoas, principalmente idosos, morreram em decorrência dessa onda de calor. 

Nesse mesmo ano, a ilha Esanbe Hanakita Kojima, que ficava localizada no Nordeste do arquipélago japonês e ocupava menos de 2 km², foi dada como ”desaparecida”. Esse trágico evento, que passou totalmente despercebido das autoridades do país, só foi notado pelo escritor Hiroshi Shimizu, que estava escrevendo um livro sobre as ilhas da região e tentou visitar a ilha em 2018.  

De acordo com a Marinha do Japão, a última vez que a ilha foi visitada por uma de suas embarcações foi em 1978. Desde então, nenhuma outra visita oficial a ilha foi feita e, portanto, ninguém sabe afirmar ao certo quando e como foi que a ilha desapareceu. A hipótese mais provável é um aumento do nível do Oceano Pacífico na região, que foi encobrindo o pequeno pedaço de terra gradativamente, algo que lembra muito o que ocorreu com a ilha New Moore na costa da Índia há mesma época. 

Esse procedimento da Marinha japonesa pode parecer estranho, mas a verdade é que o arquipélago do Japão é formado por 6.852 ilhas. São quatro grandes ilhas – Honshu, Hokkaido, Kyushu e Shikoku, que formam 97% do território do país. Todas as demais ilhas são muito pequenas e a maioria é desabitada. Logo, não é de se estranhar que uma pequena ilha desapareceu e ninguém percebeu. 

Apesar de ocupar um território com pouco mais de 377 mil km², o Japão é um dos maiores emissores mundiais de gases de efeito estufa, especialmente o dióxido de carbono. O país é fortemente dependente da queima do carvão mineral para geração de eletricidade em usinas termelétricas. O país vinha reduzindo a sua dependência de combustíveis fósseis nessa área até o desastre na usina nuclear de Fukushima em 2011. 

A central nuclear foi atingida por um tsunami que foi gerado por um forte maremoto. Com o impacto das ondas, três dos seis reatores nucleares foram atingidos e derreteram. Esse foi o maior acidente nuclear desde a explosão de um reator na usina nuclear de Chernobil na Ucrânia em 1.986. Após o desligamento de Fukushima, diversas usinas termelétricas a carvão tiveram de ser reativadas para compensar a produção de energia elétrica. 

O Japão vem realizando grandes esforços ambientais nas últimas décadas e já anunciou que pretende alcançar a neutralidade nas emissões de carbono até 2050, ou seja, zerar todas as emissões de gases de efeito estufa. Para isso acontecer, estão sendo planejados pesados investimentos em diversas áreas, principalmente em fontes de energia renováveis. 

Torçamos para que todas essas medidas, que estão sendo implementadas no Japão e em outros países do mundo, consigam atingir a tão esperada neutralidade nas emissões de carbono e que consigamos, ao menos, estabilizar as grandes mudanças climáticas globais.

O DERRETIMENTO DE GELEIRAS NOS ALPES

Nas últimas postagens falamos do derretimento de geleiras em montanhas de lugares distantes do globo terrestre como a Cordilheira dos Andes, na América do Sul, as Montanhas Ruwenzori da África e na região das Himalaias, as grandes montanhas que ocupam um vasto território da Ásia. 

Na Ásia Central, essas regiões problemáticas costumam ter nomes terminados com o sufixo de origem persas “istão”, palavra que significa” lugar”. Aí se incluem o Afeganistão, Paquistão, Tadjiquistão, Quirguistão, Rajastão, Uzbequistão, entre outros. Muitas pessoas maldosas, quando querem se referir a lugares distantes e perdidos em nosso mundo, costumam usar o nome “fim-do-mundistão”. 

Entretanto, não são só as geleiras dessas regiões distantes que estão desaparecendo. O fenômeno está ocorrendo em todo o mundo, inclusive na civilizada Europa. Na rica e exclusiva Suíça, por exemplo, podemos ver isso claramente nas geleiras que formam as nascentes do rio Reno, um dos mais importantes da Europa. 

Desde a antiguidade, a navegação pelas águas do rio Reno vem sendo fundamental para a formação e manutenção de grandes impérios e nações da Europa. Com quase 1,3 mil quilômetros de extensão, desde as suas nascentes nos Alpes Suíços até sua foz no Mar do Norte nas proximidades de Rotterdam, o rio Reno é uma rota vital para a economia da Suíça, Áustria, Alemanha, Liechtenstein, França e Holanda.  

Porto de Rotterdam, localizado próximo do encontro das águas do Reno com o Mar do Norte na Holanda, exemplifica a importância dessa grande via de transporte fluvial: é um dos maiores portos do mundo, com cerca de 40 km de extensão linear entre cais e depósitos, movimentando cerca de 400 milhões de toneladas de carga a cada ano e empregando aproximadamente 300 mil trabalhadores. A cidade de Rotterdam, que tem 500 mil habitantes, também é sede de um importante complexo industrial, além de abrigar o maior polo petroquímico da Europa. 

Os Alpes são a maior cadeia de montanhas da Europa Ocidental. Além da Suíça, país que tem sua imagem associada diretamente aos Alpes, essas montanhas também abrangem terras da França, Principado de Mônaco, Itália, Alemanha, Áustria, Liechtenstein, Eslovênia e Hungria. Essa posição geográfica transforma as montanhas alpinas em uma verdadeira “caixa d’água” do continente. 

Além das geleiras que formam as nascentes do rio Reno, os Alpes abrigam outras geleiras formadoras de outros importantes afluentes de rios do continente como o Ródano, o Danúbio e o Pó. Em toda a extensão dos Alpes, geleiras estão perdendo grandes massas de gelo, o que está trazendo enormes preocupações para centenas de milhões de pessoas. 

Ao longo da última década, os efeitos do aquecimento global fizeram com que as geleiras no topo das montanhas dos alpes Suíços perdessem aproximadamente 1/5 de sua massa de gelo. Somente no ano de 2018, os glaciares alpinos do país perderam 2,5% do seu volume, resultado da combinação de uma baixa precipitação de neve e de altas temperaturas.  

Um exemplo do drama das geleiras suíças pode ser observado no cume da Montanha Weissfluhjoch, que se encontra a 2.400 metros de altitude. Nesse local está instalado o Instituto Suíço para o Estudo da Neve e Avalanches. Ao longo do mesmo ano de 2018, não houve nenhuma nevasca com precipitação superior a 1 cm. De acordo com os registros da instituição, essa foi a primeira vez que não ocorreram fortes nevascas na montanha desde o início dos registros há mais de 80 anos.  

Para quem está acostumado com um clima tropical como o do Brasil, esse tipo de informação talvez não signifique nada muito diferente de dias menos frios no inverno suíço. As geleiras das montanhas alpinas, entretanto, são importantes fontes de água para as planícies baixas do resto do país e muitas regiões da Europa. O derretimento gradual dos glaciares nas montanhas alimenta toda uma rede de pequenos córregos e riachos, que por sua vez são afluentes de grandes rios.   

As águas que formam as duas principais nascentes do Reno, os rios Hinterrhein e Vordebrhein, vem do derretimento de geleiras nos Alpes suíços. Nos últimos 25 anos, essas geleiras já perderam mais de 1/4 de suas massas em consequência do aquecimento global. Caso o ritmo do derretimento dessas geleiras se mantenha, em menos de um século não restará um único cubo de gelo nas montanhas e o rio Reno perderá uma parte considerável dos seus caudais. 

Em 2018, pela primeira vez na história, o tráfego de embarcações de carga na hidrovia do rio Reno precisou ser paralisado por causa da queda brusca do nível de suas águas devido à forte seca regional. Nas proximidades da cidade alemã de Frankfurt, um ponto crítico do rio, o nível do Reno baixou para apenas 1,5 metro de profundidade. É esse cenário assustador, que poderá se tornar cada vez mais frequente com a sistemática redução das geleiras alpinas formadoras do rio, que assusta empresários, políticos e cidadãos de toda a bacia hidrográfica do rio Reno.  

De acordo com o levantamento de alguns climatologistas, a Suíça perdeu mais de 500 geleiras desde 1850. Somente 50 dessas geleiras, as maiores, tinham um nome. Uma dessas geleiras, chamada de Pizol, perdeu entre 80% e 90% de sua massa de gelo desde 2006 e se transformou num símbolo da situação dos glaciares no país. A exemplo do que fizeram os islandeses após o derretimento da geleira Okjökull, os suíços também organizaram um funeral para a geleira Pizol, da qual resta apenas uma área menor do que 4 campos de futebol.  

Uma atividade econômica que está ameaçada de fortes impactos na Suíça por causa da perda de massa nas geleiras alpinas é a de geração elétrica. Cerca de 60% da energia consumida na Suíça vem de centrais hidrelétricas alimentadas por rios com nascentes nas geleiras alpinas. De acordo com estudos feitos pela Universidade Técnica EPFL, de Lausanne, a redução dos caudais dos rios do país provocará uma forte redução na geração hidrelétrica – em 2035, a participação dessa energia cairá para 46% do total.  

A velocidade do derretimento dessas geleiras também representa uma séria ameaça para uma série de pequenas cidades, vilas e fazendas localizadas às margens de pequenos rios. Nos meses de verão, quando o ritmo do derretimento é bem mais intenso, a forte enxurrada e as pedras arrastadas destroem casas, pontes e outras construções, deixando centenas de pessoas desabrigadas. Alguns especialistas vêm defendendo abertamente a construção de grandes barragens para controlar o fluxo dessas águas, ao mesmo tempo que a água armazenada poderá garantir a sobrevida de muitas das centrais hidrelétricas do país.  

Como se nota, os riscos de desaparecimento de geleiras e rios não afetará apenas “paisecos do terceiro mundo” como muita gente imagina. Esses problemas vão afetar o mundo inteiro!

TROPAS DO TADJIQUISTÃO E DO QUIRGUISTÃO ENTRAM EM CONFRONTO NUMA DISPUTA POR TERRAS E ÁGUAS

No último dia 29 de abril, a postagem aqui no blog tratou das grandes geleiras das Montanhas Pamir na Ásia Central, formadores das nascentes de importantes rios da região. Elas são formadas pela junção das cordilheiras Tian Shan, Karakorum, Kunklun e Indocuche.  Elas formam o conjunto de montanhas mais altas do mundo, com alguns cumes superando a altitude de 7 mil metros. Essas montanhas surgiram como uma extensão da Cordilheira do Himalaia. 

As Montanhas Pamir se estendem pelo Tadjiquistão, Quirguistão, China, Afeganistão e Paquistão. Essas montanhas abrigam um número considerável de geleiras de altitude, onde se formam as nascentes de importantes rios da Ásia Central. Uma dessas geleiras é a Fortambeck, localizada a Oeste do Pico Korzhenevskaya no Tadjiquistão, o terceiro cume mais alto das Montanhas Pamir com 7.105 metros de altitude. Essa geleira se estende por mais de 230 km. 

Infelizmente, por uma trágica coincidência do destino, no momento em que fazíamos a publicação do texto, tropas do Tadjiquistão e do Quirguistão se enfrentavam na região de Kok-Tash, dentro do território do Quirguistão. O motivo da disputa é um grande reservatório de água que fica dentro de um enclave com população majoritariamente tadjique. 

Para entendermos esse conflito, precisamos relembrar um pouco da história das Repúblicas da Ásia Central. Essa região vem sendo habitada desde a mais remota antiguidade por povos nômades como os cazaques, os uzbeques, os tadjiques, os turcomenos, os quirguizes e os uigures, entre muitos outros. Cada um desses povos tinha uma área predominante, mas muitas tribos preferiam a vida nômade pelas infinitas estepes. 

A partir de meados do século XIX, o Império Russo começou a expandir sua área de influência rumo a Ásia Central, chegando bem próximo da fronteira com o Afeganistão – os ingleses, que àquela altura dominavam o Subcontinente Indiano, impediram o avanço dos russos. A influência dos russos na Ásia Central aumentou bastante após a Revolução Comunista de 1917, quando foram criadas as Repúblicas Soviéticas da Ásia Central. 

Assim como ocorreu na África após a chegada dos colonizadores europeus, quando foram criadas fronteiras artificiais entre países sem respeitar os grupos populacionais que ali viviam, o Governo Central em Moscou usou seus próprios critérios para estabelecer as fronteiras entre as Repúblicas da Ásia Central. Surgiram assim o Cazaquistão, o Turcomenistão, o Tadjiquistão, o Uzbequistão e o Quirguistão. A maior parte dos uigures ficou concentrada em uma região do Noroeste da China.

Essa divisão territorial, que também aconteceu na região do Cáucaso há mesma época, não respeitou os limites de uma série de enclaves étnicos, onde grupos minoritários viviam há inúmeras gerações. Para piorar a situação, os russos forçavam a migração de populações e grupos para outras terras conforme os seus interesses. Essa “política” transformou toda a região em uma espécie de colcha de retalhos étnica. 

Dentro da política de planejamento estatal centralizado, os burocratas de Moscou decidiram que toda a região da Ásia Central seria transformada no celeiro da URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Para possibilitar que os solos áridos e semiáridos da região se tornassem produtivos, foi ordenada a construção de centenas de quilômetros de canais de irrigação e de dezenas de grandes reservatórios de água. As principais fontes de água da Ásia Central, os rios Amu Daria e Syr Daria, teriam suas águas aproveitadas a extremos. 

Conforme já tratamos em postagens anteriores, as Repúblicas da Ásia Central foram transformadas em um grande celeiro agrícola, produzindo diversos tipos de grãos e, principalmente, o algodão. Uma das consequências diretas da superexploração das águas dos rios locais na agricultura foi a destruição do Mar de Aral

O domínio de Moscou com mão de ferro na região acabou em 1991, quando toda a URSS simplesmente implodiu. Uma após outras, as antigas Repúblicas Satélites do grande bloco socialista foram declarando independência e acabaram herdando a maior parte da infraestrutura construída no passado. Nas Repúblicas da Ásia Central, a grande herança deixada pelos russos foram os grandes sistemas de irrigação e os reservatórios de água. 

Os problemas de partilha dessa infraestrutura entre os diferentes países da região começaram a se acumular devido aos problemas gerados pela criação de fronteiras artificiais pelos russos. Entre o Tadjiquistão e o Quirguistão, citando um único exemplo, mais de 1/3 da linha de fronteira apresenta disputas por territórios. Além da indefinição de grande parte dos limites territoriais, existem problemas ligados aos enclaves étnicos

Um desses casos é Voruj, um enclave com cerca de 180 km² dentro do território do Quirguistão, onde vive uma população majoritariamente formada por tadjiques. Esse enclave possui uma grande represa que é reivindicada pelos tadjiques, mas que os quirguizes dizem ser propriedade de seu país. 

Entre os dias 29 e 30 de abril, forças militares dos dois países superaram os limites da disputa verbal e partiram para o confronto armado. De acordo com informações divulgadas pala agência de notícias France Press, os confrontos já deixaram perto de 40 mortos e 120 feridos. Mais de 11 mil tiveram de abandonar suas casas e fugir da região do confronto. Um cessar-fogo foi declarado após os embates, mas a situação continua muito tensa.

Um outro ponto nevrálgico da região é o Vale de Fergana (vide foto), uma faixa de terras de extrema fertilidade encravada entre o Uzbequistão, o Quirguistão e o Tadjiquistão. Essa faixa tem aproximadamente 300 km de comprimento e 70 km de largura, onde vivem cerca de 10 milhões de habitantes ou cerca de 1/5 de toda a população das Repúblicas da Ásia Central. Essas populações são de diferentes etnias e os confrontos entre grupos são comuns. Os três países reivindicam trechos diferentes do Vales de Fergara, sem que se chegue a um acordo. 

Na raiz das disputas estão as águas dos rios que nascem nas Montanhas Pamir e que cortam as terras desérticas, formando vales de excepcional fertilidade. Também entram nas disputas os vales férteis criados artificialmente durante o período do Regime Socialista. Existem grandes extensões de terrenos desérticos na região, que apesar de guardarem grandes reservas de gás e de petróleo, causam menos disputas que as preciosas águas dos rios. 

Se já existe uma disputa acirrada pelas águas nessa região hoje, imaginem como será o panorama dentro de poucas décadas, quando se prevê o desaparecimento de inúmeras geleiras nas grandes montanhas por causa das mudanças climáticas e do aquecimento global. 

O que estamos vendo hoje são os primeiros capítulos da guerra pela água, um tipo de conflito que deverá se acirrar em muitas partes do mundo nas próximas décadas. 

GAUMUKH, A ”BOCA DA VACA”

Nessa sequência de postagens, estamos falando dos graves riscos de derretimento de importantes geleiras em altas montanhas, uma situação que está colocando as nascentes de importantes rios sob forte risco de desaparecimento. Mostramos alguns casos na Cordilheira dos Andes, a maior cadeia de montanhas da América do Sul, nas Montanhas Ruwenzori da África e na região da Cordilheira do Himalaia, as grandes montanhas da Ásia. 

Na postagem de hoje gostaria de ser um pouco mais objetivo e mostrar a situação real das nascentes do rio Ganges, o maior e mais importante rio do Subcontinente Indiano, responsável pelo abastecimento de mais de 500 milhões de pessoas na Índia e em Bangladesh. A geleira da nascente principal do rio é considerada sagrada por muitos indianos (como aliás acontce com quase tudo no país) e está desaparecendo a “olhos vistos”. 

No alto da Cordilheira do Himalaia, no Norte da Índia, existe uma gruta sob uma geleira. Os locais chamam o lugar de Gaumukh, palavra que significa “boca da vaca”, nome que passou a identificar a geleira. De acordo com a crença popular, é nesse local que a deusa Ganga assume uma forma física, que é representada pelas águas de degelo que ali se formam e que vão correr montanha abaixo na forma de um rio. Os populares a chamam de Maa Ganga, o que significa a Mãe Ganga, aquela que provê o sustento para todos os seus filhos. O nome do rio – Ganges, é uma alusão direta ao nome da deusa. 

O rio Ganges percorre cerca de 2.500 km, cortando todo o Norte da Índia até atingir a região do seu delta em Bangladesh. Ao longo desse caminho, o rio corta inúmeras cidades e provê água para o abastecimento de centenas de milhões de habitantes, além de possibilitar a irrigação de grande parte das plantações que sustentam a toda essa gente. O “sustento” que é citado na lenda é literal. 

Em meio ao clima semiárido de grandes extensões do Norte da Índia, o rio Ganges é, em muitos casos, a única fonte de água perene disponível para a população. As águas do rio Ganges são as que mais carregam sedimentos entre todos os rios do mundo, sedimentos que se depositam nas margens do rio, especialmente nas Planícies Indo-Gangéticas, a região mais densamente povoada e considerada o celeiro da Índia. Esses sedimentos são ricos em nutrientes naturais e elementos químicos como fósforo e enxofre, que fertilizam as terras e garantem boas colheitas

Aos caudais permanentes que escorrem das geleiras nas Montanhas Himalaias se juntam as águas das chuvas da temporada das Monções, um ciclo de grande abundância de águas e regulador da vida das populações locais há milhares de anos. Com a cheia dos rios, grandes volumes de sedimentos são carreados para as terras baixas das planícies e vão fertilizar esses solos para o período de plantio. A camada de argila que se acumula sobre os solos é chamada pelos locais de “terra dos deuses”. 

Uma das culturas mais tradicionais dessas planícies é o arroz, que é semeado entre os meses de junho e setembro, acompanhando o recuo das águas das enchentes. Também são essenciais as plantações de rajma, os feijões vermelhos, trigo, cevada, lentilha, milho, batatas, frutas, verduras e flores, além de uma infinidade de ervas, fungos e especiarias essenciais para a culinária indiana. Ao redor dessas plantações são criados milhões de animais como vacas, búfalos, ovelhas, cabras, cavalos, porcos, galinhas, frangos e outras aves. 

Fugindo um pouco dos aspectos físicos da geografia do rio Ganges, algo que todos nós conseguimos entender e confirmar a importância, também existe um lado espiritual dessas águas que foge completamente à nossa compreensão. Para os povos locais, principalmente da maioria hindu, as águas do rio Ganges são as mais sagradas do mundo. 

Um exemplo da fé religiosa dos hindus é repetida todos os anos numa perigosa jornada que leva centenas de milhares de pessoas até a região das nascentes do rio Ganges em Gangotre. Eles enfrentam algumas das estradas mais perigosas do mundo, vias que, em muitos trechos, não passam de um simples recorte nas encostas rochosas, tendo os altos paredões das Himalaias de um lado e profundos abismos do outro. A indestrutível fé destes crentes é o combustível que os move rumo a uma altitude de mais de 3.000 metros na busca das puras águas das nascentes do Ganges. 

Essa mesma devoção às águas sagradas do Ganges também pode ser vista na morte, quando os crentes se dirigem para locais sagrados nas margens do rio para lançar nas águas as cinzas de seus familiares mortos. A cidade de Varanasi é um desses lugares, sendo considerada um dos mais sagrados da fé hindu e o lar espiritual dos mais de 330 milhões de deuses e deusas do panteão local. Famílias de toda a Índia transportam seus falecidos entes queridos até Varanasi para que sejam cremados em cerimônias especiais.  

A cidade também recebe milhares de pessoas idosas e doentes, que almejam passar seus últimos dias na terra às margens do rio Ganges. De acordo com dogmas do hinduísmo, quem morre nas margens do Ganges, em especial na cidade de Varanasi, pode conseguir a salvação final sem ter de enfrentar uma nova reencarnação. 

Um resumo da importância do rio Ganges para os indianos pode ser lido num pequeno trecho de um livro de Jawarharlal Nehru, que foi Primeiro Ministro da Índia nos primeiros anos após a independência do país: 

“O Rio Ganges, acima de tudo, é o rio da Índia, que manteve cativo o coração da Índia e atraiu incontáveis milhões às suas margens desde a alvorada da história. A história do Ganges, de sua fonte ao mar, dos tempos antigos aos modernos, é a história da civilização e da cultura da Índia, da ascensão e queda de impérios, de cidades grandes e orgulhosas, de aventuras do homem.” 

Pois bem – desde a década de 1940, a geleira de Gaumukh (vide foto) sofreu um recuo de quase 3 km, além de perder quase 1 km na sua espessura. Esse fenômeno, conforme comentamos em outras postagens, está sendo observado em diversas geleiras da Cordilheira do Himalaia. De acordo com estudos realizados pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU – Organização das Nações Unidas, as geleiras dos Himalaias, onde se encontram as nascentes dos maiores rios da Ásia, podem começar a desaparecer a partir do ano de 2.035 devido ao aquecimento global e as mudanças climáticas.  

O iminente desaparecimento da geleira Gaumukh e de outras formadoras de nascentes não representará de imediato o fim do rio Ganges. Enquanto os fortes ventos da temporada das Monções empurrarem as grandes massas de nuvens na direção das encostas das Montanhas Himalaias, as chuvas cairão em abundância e as águas ocuparão a calha e as planícies ao longo do rio Ganges. Os problemas ficarão por conta do período das secas, onde a calha do rio poderá ficar completamente sem água – o Ganges poderá se transformar num enorme rio de águas temporárias. 

Também precisamos lembrar que o mesmo aquecimento global que está ameaçando as geleiras das altas montanhas também representa uma grande ameaça para o regime dos ventos e correntes marítimas do Oceano Índico. Medições sistemáticas das temperaturas das águas desse oceano, que vêm sendo realizadas desde o final do século XIX, têm indicado um aumento gradual da temperatura das águas nas últimas décadas. Uma das consequências visíveis dessas mudanças são variações nos padrões das chuvas da Monção – em algumas regiões houve um aumento das chuvas e em outros uma diminuição. 

A questão é particularmente preocupante porque alguns dos principais rios da Ásia têm suas nascentes nas geleiras do Himalaia e são responsáveis pelo abastecimento de mais de 2 bilhões de pessoas em diversos países.  

Que os deuses do grande panteão hindu nos protejam! 

AS GELEIRAS DAS MONTANHAS PAMIR NA ÁSIA CENTRAL E SEUS RIOS

A Cordilheira Pamir na Ásia Central, também conhecida como as Montanhas Pamir, é formada pela junção das cordilheiras Tian ShanKarakorumKunklun Indocuche. Elas formam o conjunto de montanhas mais altas do mundo, com alguns cumes superando a altitude de 7 mil metros. Essas montanhas surgiram como uma extensão da Cordilheira do Himalaia. 

As Montanhas Pamir se estendem pelo Tadjiquistão, Quirguistão, China, Afeganistão e Paquistão. Essas montanhas abrigam um número considerável de geleiras de altitude, onde se formam as nascentes de importantes rios da Ásia Central. Uma dessas geleiras é a Fortambeck, localizada a Oeste do Pico Korzhenevskaya no Tadjiquistão, o terceiro cume mais alto das Montanhas Pamir com 7.105 metros de altitude. Essa geleira se estende por mais de 230 km. 

A impressionante massa de montanhas das cordilheiras do Himalaia e Pamir começaram a se formar há cerca de 60 milhões de anos atrás quando a grande massa de terras do Subcontinente Indiano se chocou com a Ásia. Conforme já comentamos em postagens anteriores, o Subcontinente Indiano formava parte do supercontinente de Gondwana junto com a África, a América do Sul, a Antártida, Madagascar, Austrália, Nova Zelândia, Nova Guiné, Nova Caledônia e outras ilhas menores. 

A fragmentação de Gondwana se deu a partir da movimentação do conjunto de placas tectônicas e por força de processos de vulcanismo. A Placa Indiana ou Índica se movimentou lentamente para o Norte até se chocar com a grande massa de terras da Placa Eurasiática. A Placa Indiana avançou por baixo do Planalto Tibetano, forçando o soerguimento dos terrenos e fazendo surgir o conjunto de montanhas mais jovens de nosso planeta. 

A palavra Himalaia, que foi usada para definir a cordilheira principal, vem do sânscrito e significa “morada das neves”. Os cumes mais altos são cobertos permanentemente por neve e abrigam os maiores glaciares localizados fora da Antártida. Esses glaciares formam as nascentes de alguns dos rios mais importantes da Ásia como Indo, o Ganges, o Mekong, o Amu Daria e o Syr Dária, além do rio Yangtzé

Os rios formados nos glaciares das Montanhas Pamir não tem essa mesma magnitude, mas são extremamente importantes em uma região cercada por grandes extensões de solos áridos. Entre esses rios podemos destacar os rios Helmande, Cabul, KunarPanjPamir Hari

O rio Helmande tem 1.150 km de extensão e é o maior rio do Afeganistão. Ele nasce nas montanhas da Cordilheira de Baba no Centro-Oeste do país e corre na direção dos pântanos do Sistão, uma grande bacia endorreica que se forma na Depressão de Godzadeh na fronteira entre o Afeganistão e o Irã. Esse rio recebe a água de vários tributários com nascentes nas montanhas como o Argandabe e o Tamaque

Outro rio importante é o Cabul, que nasce nas montanhas de Sanglak no Leste do Afeganistão e que corre por mais de 700 km até desaguar no rio Indo, no Paquistão. Esse rio atravessa importantes cidades como Cabul, a capital do Afeganistão (vide foto), Charharbagh Jalalabad.  O rio Panj tem cerca de 1.125 km de extensão, se formando a partir da junção dos rios Pamir e Uacan. Esse rio delimita grande parte da fronteira entre o Afeganistão e o Tadjiquistão e tem sua foz no rio Amu Daria.

Um outro rio importante, porém, com dimensões modestas é o rio Kunar, que tem cerca de 480 km de extensão, se dividindo entre o território do Afeganistão e do Paquistão. As nascentes desse rio se formam em glaciares nas montanhas Indocuche e ele desagua no rio Cabul nas proximidades da cidade de Jalalabad

Um estudo realizado em 1990 pela ACNUR – Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, demonstrou que 60% da população da província de Kunar, no Leste do Afeganistão, dependia do consumo das águas desse rio, que segundo o mesmo estudo não eram potáveis. 

Outro rio de destaque é o Hari Hud, que nasce na Cordilheira Indocuche, no centro do Afeganistão, e que segue por cerca de 1.100 km atravessando o Irã e o Turcomenistão, até desaparecer no Deserto de Karakum. Ao longo do seu curso, o rio Hari Hud atravessa alguns vales famosos pela sua alta fertilidade e cultivo intenso desde a antiguidade. Quando entra no Turcomenistão o rio passa a ser chamado de Tejen ou Tedzhen

Nas Repúblicas da Ásia Central da Quirguízia, Turcomenistão e Tadjiquistão, que até poucas décadas atrás faziam parte da URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, as águas vindas das nascentes das Montanhas Pamir são bem aproveitadas. Nos tempos do planejamento centralizado em Moscou, essas Repúblicas receberam a “missão” de produzir alimentos e algodão a partir de grandes sistemas de agricultura irrigada. Grandes obras hidráulicas e canais de irrigação foram construídos, permitindo o aproveitamento das águas, um uso que se manteve após a queda da URSS. 

No Irã, território para onde correm as águas de alguns dos rios com nascentes nas Montanhas Pamir, o dinheiro gerado pela venda do petróleo pode garantir os recursos necessários para um bom aproveitamento das águas em sistemas de irrigação e de armazenamento. No Paquistão, conforme comentamos em postagem anterior, é o rio Indo que garante cerca de 90% da produção agrícola do país e também o abastecimento das populações das principais cidades. 

Já no seco e pobre Afeganistão, país que vive em estado de guerra há várias décadas, esses rios são as únicas fontes de água permanentes para uso pela população. O Afeganistão tem grande parte do seu território ocupado pelas Montanhas Pamir e, consequentemente, abriga as nascentes de importantes rios. Ironicamente, cerca de 70% dessas águas correm para os países vizinhos, tornando o Afeganistão um país com poucos recursos hídricos.  

O quadro afegão se torna ainda mais dramático quando se observa que, por falta de recursos financeiros básicos, o país não consegue realizar investimentos para a implantação de sistemas de irrigação e assim aumentar a produção de alimentos necessários para atender a sua população de mais de 38 milhões de habitantes. As incertezas sobre o futuro do país aumentaram nesses últimos meses após o anúncio da retirada das tropas militares dos Estados Unidos, presentes no país desde 2001.  

Além da instabilidade política, do caos social e da ruína econômica, o Afeganistão corre o risco de ser também o país que mais poderá ser afetado pelas mudanças climáticas na Ásia Central. Com o aumento das temperaturas do planeta, há risco reais para o desaparecimento de 30% das geleiras existentes nas montanhas da região. Um exemplo do que poderá acontecer foi visto no rio Hari Hud alguns anos atrás. 

No ano 2000, toda a região da bacia hidrográfica do rio Hari Hud enfrentou uma seca prolongada e o rio acabou secando completamente por 10 meses, uma tragédia que afetou milhares de pessoas. Imaginem agora o caos que seria criado pelo desaparecimento de algum rio no Afeganistão… 

Infelizmente, é só uma questão de tempo até isso acontecer. 

UM IMPORTANTE RIO CHAMADO INDO

A gestão dos resíduos sólidos urbanos é um dos maiores problemas ambientais de nosso país. Ao contrário do que muitos “ambientalistas de ar condicionado” costumam pregar, as queimadas e a “destruição” da Floresta Amazônica não são os nossos maiores problemas ambientais. Essa ingrata posição pertence às cidades brasileiras, onde vive nada menos do que 84% dos brasileiros, o que nos dá uma clara ideia da magnitude dos problemas. 

O “tsunami” de lixo que avançou sobre praias da Paraíba e do Rio Grande do Norte, que foi apresentado em nossa última postagem, nos dá uma ideia dos problemas associados à coleta, transporte e destinação final dos resíduos sólidos. Infelizmente, os problemas não param por aí e também envolvem moradia e ocupação de áreas de riscos, enchentes, abastecimento de água, coleta e tratamentos de esgotos, ente muitos outros problemas. 

Falando de esgotos sanitários, minha área de especialização, cerca de metade da população brasileira não tem acesso a esse serviço. Fossas negras ou o simples despejo dos efluentes em córregos e outros corpos d’água ocupam o topo das soluções encontradas pelas populações. No grupo que, supostamente, conta com o serviço, parte importante do esgoto transportado não recebe o tratamento adequado. Nosso país terá um imenso trabalho pela frente até que se equacione essa questão. 

Agora, deixem-me contar uma história curiosa: 

No vale do Indo, um dos mais importantes rios do Subcontinente Indiano e quem tem sua bacia hidrográfica dividida entre a Índia e o Paquistão, surgiu há mais de 5 mil anos uma das mais importantes civilizações da antiguidade. Uma das mais impressionantes cidades desse período foi Molenjodaro, fundada por volta do ano 2.700 a.C. (algumas fontes citam 3.200 a. C.).

Localizada há época as margens do rio Indo, Molenjodaro tinha uma grande população e era um importante centro de produção de alimentos, tecidos, metais e cerâmica, entre outros produtos. A cidade se destacava no comércio da região do Oceano Índico. 

Uma das características mais impressionantes da cidade era a sua complexa rede de abastecimento de água e de coleta de esgotos. Tubulações subterrâneas, feitas de argila cozida ao sol, conduziam a água desde as nascentes até tanques na cidade, onde os moradores a coletavam em jarros; o esgoto que saía das casas corria através de condutos de tijolos sob as ruas.  Em pleno século XXI, uma grande parte das cidades brasileiras ainda não conseguiu chegar a esse modelo de infraestrutura de saneamento básico.

E não é só isso – inscrições religiosas em sânscrito, a língua sagrada desses povos antigos (ancestrais, entre outros, dos atuais hindus), traziam recomendações para o armazenamento da água em jarros de cobre e ensinava ainda que esses jarros deveriam ser colocados no fogo ou ao sol para ferver a água, ou recomendava se colocar um ferro em brasas dentro da água para purificá-la. 

O rio Indo (ou Indus) tem suas nascentes na Cordilheira do Himalaia e percorre cerca de 3.180 km até atingir sua foz no Oceano Índico. O Indo é o maior e mais importante rio do Paquistão e suas águas respondem pela irrigação e nutrição de 90% das culturas agrícolas do país. Sem as águas do rio Indo, grande parte do Paquistão se transformaria em um deserto árido – o restante do país já é hoje uma sucessão de terrenos áridos e semiáridos. E foi justamente isso o que aconteceu com Molenjodaro

Devido a fenômenos naturais, o rio Indo mudou seu curso e toda a região de Molenjodaro acabou se tornando extremamente árida. A população foi obrigada a abandonar a cidade por volta do ano 1.700 a.C. As impressionantes ruínas da cidade só seriam redescobertas em 1922 pelo arqueólogo inglês Sir John Marshall, um dos maiores pesquisadores da Civilização do Vale do Indo

O Paquistão ocupa uma área total de 796 mil km², entre o Noroeste da Índia, o Afeganistão e a China. Apesar de ser um dos poucos membros do seleto grupo de nações que possuem armamentos nucleares, o Paquistão é um país de economia essencialmente agropecuária. O país tem uma área com 22 milhões de hectares de terras agrícolas (o que corresponde a 38% da área total do país) e 43% da população economicamente ativa trabalha em atividades rurais, em agricultura e pecuária.  

Do total de terras agricultáveis, 19 milhões de hectares utilizam sistemas de irrigação para produzir e 16 milhões de hectares dependem diretamente das águas do rio Indo – observem que é uma situação bastante semelhante à do Egito em relação às águas do rio Nilo. A agricultura gera 25% do PIB – Produto Interno Bruto, do Paquistão. Um dos produtos de destaque da agricultura é o algodão, onde o país ocupa a terceira posição logo atrás da Índia e da China

Para aqueles que não sabem, o Paquistão, a Índia e Bangladesh formaram, até 1947, a maior parte do território da Índia Britânica. Para a conclusão do processo de independência e em função dos inúmeros conflitos religiosos entre os grupos hindus e muçulmanos, o antigo território foi dividido entre os grupos – Paquistão e Bangladesh (que há época era chamado de Paquistão Oriental) com maioria muçulmana de um lado e Índia, com maioria hindu, de outro. 

No processo de partilha, a região montanhosa da Caxemira, no limite entre os territórios dos dois países, ficou com uma situação indefinida, com partes anexadas pelo Paquistão e partes pela Índia. Posteriormente, a China anexou uma área da região em 1962, acirrando ainda mais a disputa regional. As tensões entre as partes, em diversos momentos, acabaram em confronto armado 

Muito mais do que a posse do território, essa região da Cordilheira do Himalaia é disputada por causa das diversas geleiras da região e, consequentemente, pela sua importância como fonte de água em uma região onde esse recurso é escasso. Existe uma desconfiança mútua entre as partes – quem assumir o controle definitivo da região poderá desviar os recursos hídricos para seu próprio território. E existem perigosos precedentes.

A China, conforme já comentamos em outra postagem, tem realizado obras hídricas na sua porção da Cordilheiras do Himalaia, especialmente na região do Tibete (ocupada pelos chineses em 1950), e está desviando cursos de água dessa região na direção do seu território. O Norte da China é extremamente árido e o Governo central está construindo inúmeros canais para aumentar a oferta de água na região. Países vizinhos do Sudeste Asiático e a Índia, prejudicados com essas obras, protestam. 

Além da complexidade da situação criada por essa disputa territorial entre todas essas nações, o aquecimento global e as mudanças climáticas estão criando as suas próprias ameaças. De acordo com estimativas dos especialistas, 1/3 das geleiras das Himalaias poderão desaparecer nas próximas décadas devido ao aumento das temperaturas na região, uma perspectiva assustadora para centenas de milhões de pessoas que dependem das águas de rios com nascentes nessas montanhas. 

A complexidade da questão ambiental em nossos dias é, simplesmente, impressionante! 

UM “TSUNAMI” DE LIXO INVADE PRAIAS DO NORDESTE BRASILEIRO

Na nossa última postagem falamos de um fenômeno climático que vem crescendo em regiões de altas latitudes do Hemisfério Norte – os “tsunamis” de gelo. Com o derretimento de volumes de gelo cada vez maiores em regiões que até agora costumavam apresentar baixas temperaturas durante a maior parte do ano, rios tem ficado abarrotados com grandes massas de gelo fragmentado – com a força da correnteza e dos ventos, esse gelo vem sendo empurrado na direção das margens e está causando problemas e riscos para as populações de muitas cidades. 

Enquanto fazia pesquisas em busca de maiores informações sobre esse assunto, passei a observar uma série de notícias que tratavam de grandes volumes de lixo que estavam sendo encontrados em praias do Nordeste brasileiro. Guardadas as devidas diferenças, essas descrições me fizeram pensar em um grande “tsunami de lixo” avançando contra as praias da Paraíba e do Rio Grande do Norte, uma analogia que não está muito longe da realidade. 

De acordo com as informações publicadas, autoridades da Secretaria do Meio Ambiente da Paraíba relatam que, desde o último dia 16 de abril, grandes volumes de lixo começaram a ser encontrados ao longo das praias da região de João Pessoa, capital do Estado. Ao que tudo indica, os detritos foram arrastados desde longas distâncias pelas correntes marítimas. 

Segundo um relatório oficial divulgado no dia 23, o volume total de resíduos recolhidos já totalizava 12 toneladas. No dia seguinte, foi feita uma atualização e a Prefeitura da cidade confirmou que o volume total recolhido já superava 40 toneladas. De acordo com informações do Secretário do Meio Ambiente, os resíduos continham embalagens plásticas, materiais publicitários, calçados, restos de documentos, entre outros materiais. 

Entre os resíduos recolhidos foram encontradas seringas, tubos de coleta de materiais para exames laboratoriais e outros itens de descarte típicos de hospitais e unidades de saúde. Essa questão é preocupante uma vez que parte dos profissionais e voluntários envolvidos nos trabalhos de limpeza não usaram os equipamentos de proteção adequados. Informações e dados impressos nos resíduos indicam Pernambuco como o local de origem. 

A partir do dia 21, notícias sobre a chegada de grandes volumes de resíduos semelhantes em praias do Rio Grande do Norte passaram a ser divulgadas. Entre as praias afetadas estão Baía Formosa, Canguaretama, Tibau do Sul e Nísia Floresta. As características dos materiais eram as mesmas e as pistas sobre a origem dos resíduos encontrados nas praias potiguares também apontavam para o Estado de Pernambuco. 

Essas situações, que lembram muito o caso das misteriosas manchas de óleo que atingiram praias em diversos Estados da região Nordeste no início de 2019, escancaram alguns dos maiores problemas ambientais do país – as questões do meio ambiente urbano. Muito se fala das queimadas e dos desmatamentos na região da Floresta Amazônica, porém, são as cidades e seus milhões de habitantes as maiores vítimas das mazelas ambientais em nosso país. E as questões ligadas aos resíduos sólidos são as mais urgentes. 

De acordo com dados divulgados pela ABRELPE – Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais, o Brasil gerou aproximadamente 79 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos em 2018. Como sabemos que existem muitos descartes irregulares em lixões, terrenos baldios e corpos d’água, esse volume de resíduos deve ser bem maior. 

A geração e o descarte dos resíduos sólidos nas cidades brasileiras cresceram gradativamente ao longo de grande parte do século XX, acompanhando o processo de urbanização da população observado no mesmo período. A partir da década de 1960, quando tem início o uso em larga escala de embalagens de plástico aqui em nosso país, passa a ser observado um crescimento acelerado nos volumes de resíduos sólidos urbanos, que atualmente supera a marca de 1 kg/habitante/dia. 

O crescimento dos volumes de resíduos não foi acompanhado de uma evolução adequada das metodologias de coleta e descarte final. Na grande maioria dos municípios brasileiros, os resíduos recolhidos continuaram a ser encaminhados para os famosos lixões, grandes terrenos afastados dos centros urbanos, onde os materiais eram simplesmente largados ao relento – quando muito, eram cobertos com uma camada de terra. 

Para reorganizar e disciplinar a gestão dos resíduos sólidos, foi lançada em 2010 a Política Nacional dos Resíduos Sólidos – PNRS, através da Lei nº 12.305/10. Essa nova Política tinha como objetivo principal o enfrentamento dos principais problemas ambientais, sociais e econômicos decorrentes do manejo inadequado dos resíduos sólidos. 

De acordo com a nova Política, todos os Municípios brasileiros precisariam elaborar e apresentar num prazo de dois anos, contados a partir de 2010, um Plano de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos, com a colaboração dos Governos Estaduais, possibilitando assim o acesso aos recursos financeiros do Governo Federal.  

O objetivo inicial declarado era acabar com os inúmeros lixões e aterros clandestinos até 2014. Infelizmente, como sempre acontece aqui em nosso país, a “tal” Política não pegou. De acordo com dados da ABTRE – Associação Brasileira de Tratamento de Resíduos e Efluentes, o Brasil tinha 2.707 lixões em 2020. Apesar de muito grande, esse número apresentou uma redução de 17% em relação a 2019, quando existiam 3.527 lixões no país, distribuídos em cerca de 1.600 municípios

Os grandes volumes de resíduos encontrados nas praias da Paraíba e do Rio Grande do Norte nada mais são do que um reflexo dessa falta de cuidado com a coleta e o descarte dos grandes volumes de resíduos, além de mostrar claramente o quanto as nossas cidades precisam evoluir para cumprir integralmente a Política Nacional dos Resíduos Sólidos. 

Entre as grandes catástrofes ambientais de nossos dias, a poluição dos oceanos com resíduos de plástico é uma das maiores. Estimativas atuais indicam que um volume entre 8 e 10 milhões de toneladas de resíduos plásticos chegam aos oceanos a cada ano. De acordo com estudos recentes, esse volume de resíduos poderá triplicar até 2040. Em publicações aqui no blog já mostramos grandes ilhas de resíduos plásticos encontradas no Oceano Pacífico e no Mar do Caribe, exemplos que mostram como as coisas vão mal para os oceanos. 

Diferentemente do que muitos “ambientalistas” afirmam, a Floresta Amazônica não é o pulmão do mundo – cerca de 54% de todo o oxigênio produzido em nosso planeta vem das algas presentes nos oceanos e mares. Além de ameaçar essa vegetação marinha e sua importante produção de oxigênio, os resíduos plásticos também são fatais para os animais que vivem nessas águas. 

Um dos principais compromissos ambientais assumidos pelo Governo brasileiro na Cúpula do Clima 2021, que foram muito além das questões ligadas à preservação da Amazônia, foi o de prosseguir com a redução dos lixões clandestinos e com a implementação dos termos da Política Nacional de Resíduos Sólidos. 

Isso talvez não faça muito sentido para você que acredita que questões ambientais só devam tratar de florestas. Mas saiba que cerca de 84% de todos os brasileiros vivem em cidades e questões tipicamente urbanas como os resíduos sólidos são fundamentais para todos eles. 

O TSUNAMI DE GELO EM KHABAROVSK, NA RÚSSIA, ÀS VÉSPERAS DA CÚPULA DO CLIMA 2021

Entre os dias 22 e 23 de abril, cerca de quarenta líderes mundiais se reuniram em ambiente virtual para discutir alguns dos mais importantes e graves problemas ambientais de nossos dias. Falo aqui da Cúpula do Clima 2021, capitaneada pelo Presidente dos Estados Unidos, Joe Biden

Havia uma preocupação grande em relação à situação do Brasil que, devido aos desmatamentos e queimadas na região da Floresta Amazônica, corria o risco de ser transformado no “grande vilão” da reunião. Felizmente, o bom senso reinou durante a conferência e as discussões foram bastante produtivas.  

Foram muitas as promessas de reduções das emissões de gases de efeito estufa, de aumento no uso de energias renováveis e na limpeza da matriz energética. Tiradas demagógicas contra o Brasil, felizmente, foram deixadas de lado nesse encontro e os líderes mundiais mostraram uma visão mais pragmática das questões envolvidas.

Um acontecimento interessante e que ocorreu bem às vésperas da Cúpula do Clima foi um grande “tsunami de gelo” que assustou os moradores da cidade de Khabarovsk, no Extremo Leste da Rússia. Grandes blocos de gelo que estavam descendo o rio Amur começaram a se acumular nas proximidades da cidade e, graças as forças da correnteza e dos ventos, começaram a avançar pelas margens, lembrando uma grande onda de um tsunami. 

A massa de gelo destruiu a grade de metal que isola uma passarela de pedestres e, por muito pouco, não atingiu alguns transeuntes que passavam no exato momento. O que chama a atenção é que esse tipo de ocorrência está se tornando cada vez mais frequente e incidentes muito parecido já ocorreram no Alasca, no Canadá e na Groenlândia, entre muitos outros lugares

O rio Amur se forma a partir da junção de vários rios com nascentes na região das Montanhas Altai, que ficam localizadas na fronteira entre a Rússia, a China e o Cazaquistão. O rio segue no sentido Leste por mais de 2.500 km até a sua foz no Mar de Okhotsk, no Estremo Leste da Rússia. Nesse período de início da primavera no Hemisfério Norte, o rio Amur recebe grandes quantidades de neve derretida e fragmentos de gelo. Nos últimos anos, porém, com o aumento gradual da temperatura na região, os volumes de gelo no rio têm aumentado bastante. 

No Alasca, Estado norte-americano que fica dentro do Círculo Polar Ártico, os tsunamis de gelo também estão se tornando perigosamente frequentes. Uma reportagem recente mostrou o caso da região de Barry Arm, um pequeno estreito localizado na Baía de Prince William Sound, no Golfo do Alasca. 

Com o aumento das temperaturas da região nos últimos anos, os moradores tem observado um grande aumento nas massas de gelo que descem dos terrenos mais altos durante o chamado degelo da primavera. Existe uma preocupação real com o deslizamento de milhões de toneladas de gelo e pedras, o que poderia gerar um grande tsunami de gelo e que seguiria na direção das casas de centenas de moradores do lugar. 

A preocupação da população tem um grande fundamento – o maior tsunami já registrado na história ocorreu no Alasca em 1958. Batizado de megatsunami da Baía Lituya, a catástrofe foi gerada por um terremoto de magnitude 7,8 graus na escala Richter. Os deslizamentos de terra movimentaram um volume aproximado de 30 milhões de metros cúbicos de rocha e gelo para a entrada estreita da baía.  

O tsunami gerado criou ondas de até 30 metros de altura (segundo o relato de testemunhas oculares) e causou destruição em locais com altitudes de até 520 metros acima do nível do mar. E como lembra um antigo ditado – “gato escaldado tem medo de água fria”, os moradores locais temem a repetição da tragédia a partir de um tsunami de gelo. 

Conforme mostramos em postagens recentes, geleiras localizadas no alto de grandes cadeias montanhosas como os Andes, na América do Sul, os Montes Ruwendozi, na África, e a Cordilheira do Himalaia, na Ásia, estão ameaçadas pelo aumento das temperaturas globais. Essas geleiras, que também são chamadas de glaciares, formam as nascentes de grandes e importantes rios, que abastecem centenas de milhões de pessoas.  

Além das geleiras das montanhas, o aquecimento global também está provocando o derretimento de imensas massas de gelo em regiões de altas latitudes – um exemplo é a Groenlândia, gigantesca ilha localizada ao largo da América do Norte. Pelo andar da carruagem, conforme eu especulei em uma postagem, o aumento das temperaturas do planeta e o derretimento da calota de gelo poderá transformar a Groenlândia em uma área agrícola dentro de poucas décadas. 

Sinais evidentes do aquecimento global também podem ser vistos na Sibéria, região da Rússia que sempre foi sinônimo de frio extremo. Em junho de 2020, época em que os termômetros da Sibéria costumavam atingir temperaturas máximas de verão ente 10 e 14° C, a cidade de Verkhoyansk registrou inacreditáveis 38° C, temperatura típica do verão do Rio de Janeiro. 

Com o aumento da frequência de ciclos de temperatura tão mais altos que a média em regiões frias, existe um risco real do aumento das ocorrências dos tsunamis de gelo, o que fatalmente poderá desencadear em grandes destruições em cidades localizadas às margens de grandes rios e, muito pior, tais eventos poderão resultar na morte de pessoas. 

Os gases de efeito estufa figuram no topo da lista dos principais responsáveis pelo aumento das temperaturas do planeta. Esses gases, onde destacamos o dióxido de carbono (CO2) e o metano (CH4), são liberados pela queima de combustíveis fósseis como os derivados de petróleo e o carvão mineral, assim como em outras atividades humanas como indústrias, transportes, agricultura e pecuáriao processo digestivo de uma vaca, por exemplo, pode gerar entre 70 e 120 kg de metano em um ano

Um discurso que vinha sendo alimentado há algum tempo e que felizmente parece ter sido deixado de lado dizia que as queimadas da Amazônia eram as grandes responsáveis pela emissão de gases de efeito estufa e, consequentemente, eram as principais responsáveis pelo aumento das temperaturas globais. Esse discurso não sobrevive a uma simples análise das emissões dos demais países do globo. 

O país que mais produz gases de efeito estufa é a China, sendo responsável por quase 1/3 das emissões globais. Na sequência vem os Estados Unidos, com 15% das emissões, a Índia com 7%, a União Europeia com 6% e o Brasil, já distante do topo, com 3%, sendo que cerca de 40% das emissões brasileiras tem sua origem na agropecuária. Como é bem fácil perceber, estamos muito longe de sermos os vilões do clima mundial, porém, não estamos isentos de dar a nossa contribuição para melhorar a situação.

Líderes das mais importantes economias do mundo assumiram diversos compromissos públicos no sentido da redução das suas emissões de gases de efeito estufa e do aumento da geração de energia a partir de fontes renováveis. A situação ambiental de nosso planeta é preocupante e vamos torcer para que essas promessas e compromissos assumidos na Cúpula do Clima sejam efetivamente colocados em prática. 

“AS NEVES DO KILIMANJARO”, OU FALANDO DO DESAPARECIMENTO DE GELEIRAS NA ÁFRICA

As primeiras notícias conhecidas sobre montanhas com picos cobertos de neve no escaldante continente africano remontam a Cláudio Ptolomeu – matemático, geógrafo, astrônomo e cartógrafo da antiguidade. Ptolomeu era de origem grega, mas nasceu em Alexandria, no Egito, no ano 90 a.C. A descrição de Ptolomeu, baseada em relatos de viajantes, cita as Montanhas da Lua, uma pequena cordilheira com altas montanhas na região das nascentes do rio Nilo. A existência de montes nevados na África seria considerada uma verdadeira fantasia por muitos e muitos séculos. 

A primeira expedição europeia para a região, conhecida atualmente como os Montes Ruwenzori ou Rwenzori, ocorreu em 1889 e foi comandada por Henry Morton Stanley, um jornalista britânico que ficou famoso em todo o mundo por sua viagem a procura de David Livingstone através da África. A região foi elevada à categoria de Patrimônio Mundial pela Unesco – Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, e tem a maior parte de sua área distribuída entre o Parque Nacional dos Montes Ruwenzori, em Uganda, e o Parque Nacional de Virunga, na República Democrática do Congo. Uma parte das montanhas fica dentro do território da Tanzânia

A fama mundial da região e de suas montanhas nevadas veio em 1936, quando o já famoso escritor norte-americano Ernest Hemingway publicou o conto “As neves do Kilimanjaro” na Revista Esquire. Em 1952, o conto foi adaptado para o cinema com o mesmo nome e foi estrelado por Gregory PeckSusan Hayward e Ava Gardner. Com o sucesso do livro e do filme, os Montes Ruwenzori e, em particular, o Monte Kilimanjaro foram transformados numa das maiores atrações turísticas da África. 

A grande atração africana, infelizmente, está com os seus dias contados – de acordo com declaração do Secretário-assistente da ONU – Organização das Nações Unidas, Satya Tripathi em 2019, as últimas neves do Monte Kilimanjaro irão derreter até 2030 devido aos efeitos do aquecimento global. As fotos abaixo foram tiradas por um satélite da NASA – Administração de Espaço e Aeronáutica dos Estados Unidos, na sigla em inglês, e mostram o Monte Kilimanjaro em 1994 e em 2001. A diferença no volume de gelo é alarmante!

Quando a expedição liderada por Luisi Amadeu de Saboia atingiu o cume do Monte Kilimanjaro, que tem uma altura de 5.900 metros, pela primeira vez em 1906, existiam nas montanhas da região 43 glaciares ou geleiras, distribuídos em seis picos de montanhas e ocupando uma área total de 7,5 km². Em 2005, o número de glaciares já havia caído pela metade e a massa de gelo estava reduzida a apenas 1,5 km². Estimativas atuais afirmam que mais de 80% dos glaciares da cordilheira já desapareceram

A cordilheira onde se encontram os Montes Ruwenzori tem cerca de 120 km de comprimento e 65 de largura, e surgiu a partir dos choques entre as placas tectônicas da África e da Arábia. Foram essas mesmas forças que formaram o  Rift Valley ou a Grande Fenda da África. As geleiras se formaram há cerca de 12 mil anos atrás, período que foi muito chuvoso na região, e estavam resistindo até os nossos dias. 

As geleiras dos Montes Ruwenzori enfrentam os mesmos problemas de geleiras na Cordilheira do Himalaia, na Cordilheira dos Andes, nos Alpes e em outras montanhas de todo o mundo – o aumento das temperaturas globais. Alguns dos mais importantes rios do mundo são formados a partir da água resultante do degelo desses glaciares no alto de montanhas. O aumento acelerado das temperaturas do planeta ameaça as geleiras, um problema que põe em cheque o abastecimento de centenas de milhões de pessoas em todo o mundo. 

Conforme comentamos na postagem anterior, as temperaturas do nosso planeta estão aumentando devido à uma concentração cada vez maior de gases de efeito estufa na atmosfera. Entre esses gases destacam-se o dióxido de Carbono (CO2) e o Metano (CH4), além do vapor de água. O efeito estufa é um fenômeno natural e essencial para a vida no planeta Terra, porém, quando suas consequências ultrapassam certos limites, ele se transforma em um grande vilão do clima.

A queima de combustíveis fósseis como o carvão mineral e os derivados de petróleo estão entre as maiores fontes dos gases de efeito estufa. Também entram na lista as queimadas, a agricultura, as indústrias, os rebanhos bovinos e ovinos, entre outros. O derretimento de grandes massas de gelo em todo o mundo é o sinal mais evidente das mudanças climáticas em andamento. 

Além do derretimento dessas geleiras, as mudanças climáticas na África ficam muito evidentes quando se observa o avanço do Deserto do Saara rumo ao Sul do Continente e o aumento das chuvas em regiões do Leste Africano. Também merece destaque o aumento da intensidade das secas em Áreas do Sul, do Sudeste e Leste africano, problemas que estão ligados diretamente a mudanças climáticas no Oceano Índico

Na Tanzânia, os caudais de diversos rios com nascentes formadas a partir do derretimento do gelo dos glaciares dos Montes Ruwenzori já foram reduzidos à metade, o que vem criando uma série de problemas para o abastecimento de inúmeras aldeias.  

A fama e as paisagens das geleiras em meio ao clima quente das Savanas (vide foto principal) trazem cerca de 20 mil turistas a cada ano para a região do Monte Kilimanjaro, onde inclusive existe um grande aeroporto internacional. As autoridades da Tanzânia e dos países vizinhos temem a perda dessa importante fonte de receitas em moeda estrangeira. Sem as neves do Kilimanjaro e de outras montanhas, o interesse pela região deverá cair muito – existem inúmeras montanhas cobertas por gelo na Europa, na América do Norte e na Ásia, países de origem da grande maioria dos turistas que visitam essa região da África.

Em 2010, uma geleira localizada no Pico Margherita, um dos cumes gêmeos do Monte Stanley, partiu ao meio. Essa é a terceira montanha mais alta da África e está localizada na divisa entre Uganda e o Congo, fazendo parte da cordilheira dos Montes Ruwenzori. Grandes blocos de gelo se deslocaram e bloquearam uma rota segura que os alpinistas usavam para chegar ao cume. Com a mudança nas condições de segurança, muitos alpinistas deixaram de visitar a formação. O ocorrido, é claro, se deu por causa da diminuição da massa de gelo e ilustra claramente os impactos que o derretimento das geleiras já vem provocando no turismo da região.

Torçamos todos para que a Cúpula do Clima 2021, que começou a ser realizada virtualmente ontem, consiga chegar a resultados práticos no controle e redução das emissões de gases de efeito estufa e que consigamos salvar o pouco que ainda restou das geleiras africanas.