UM PROBLEMA DE SANEAMENTO BÁSICO ELEMENTAR NA ÍNDIA: A FALTA DE BANHEIROS

Quem quer ser um milionário

O surpreendente filme “Quem quer ser um milionário?” (Slumdog Millionaire) pegou o mundo de surpresa em 2008. A produção britânica/americana filmada na Índia e falando da realidade do povo indiano foi indicado em 10 categorias do Oscar e levou 8 estatuetas, inclusive o cobiçado prêmio de Melhor Filme. Contando com um elenco de atores desconhecidos no mundo ocidental e com um modesto orçamento de US$ 15 milhões, o filme lotou cinemas em todo o mundo e arrecadou mais de US$ 370 milhões em bilheterias – uma verdadeira façanha! 

Algumas das passagens do filme mostram a vida dura das populações pobres das favelas de Bombaim, antigo nome da cidade de Mumbai, onde salta aos olhos os imensos problemas de saneamento básico. Numa cena das mais divertidas, os protagonistas principais da história, Salim e Jamal Malik (vide foto), trabalham num “negócio” de locação de latrinas comunitárias para os moradores da favela, onde criam uma tremenda confusão. Para quem ainda não viu o filme, eu recomendo. Fugindo um pouco da ficção, um dos grandes méritos do filme foi mostrar ao mundo um dos grandes dramas das pessoas mais pobres da Índia – a falta de banheiros. 

De acordo com dados oficiais do Governo da Índia de 2011, aproximadamente 53% dos lares indianos não dispunham de uma latrina, o modelo de “vaso sanitário” mais usado no país. Isso indicava que 60% da população do país, que na época estava na casa de 1,25 bilhão de habitantes, ou defecava a céu aberto ou utilizava instalações sanitárias precárias como aquelas mostradas no filme “Quem quer ser um milionário”. Estamos falando de 750 milhões de pessoas sem acesso a instalações sanitárias adequadas

A defecação a céu aberto era e ainda é um dos grandes problemas de saúde pública na Índia e em muitos outros países do mundo. A ONU – Organização das Nações Unidas, calcula que cerca de 2,5 bilhões de pessoas no planeta não dispõem de instalações sanitárias e estipulou o dia 19 de novembro como o “Dia Mundial do Banheiro”, com o objetivo de destacar a importância do saneamento básico na vida das pessoas. De acordo com dados do UNICEF – Fundo das Nações Unidas para a Infância, 130 mil crianças indianas morreram de diarreia na Índia em 2013, o que corresponde a quase um quarto dessas mortes em todo o mundo. A diarreia está ligada diretamente à falta de saneamento básico. 

Olhando esses números absurdos pela primeira vez, você poderá ficar com a impressão que essa falta de instalações sanitárias das mais elementares nas residências dos indianos pode ser apenas uma consequência da pobreza da população. Ledo engano. Hábitos culturais e religiosos, machismo e até mesmo o sistema de castas, que divide a população em diferentes estratos sociais, estão na raiz do problema no país. 

Um exemplo de resistência à construção de banheiros em residências são os brâmanes (ou brâhmana), um dos mais importantes grupos religiosos da Índia. Esse grupo faz uma leitura bastante ortodoxa dos livros sagrados do hinduísmo, especialmente do Código de Manu, um conjunto de regras que regula a vida religiosa, civil e pessoal dos fiéis. Uma dessas regras, de ordem higiênica, diz que a população não pode defecar nas proximidades de suas casas, uma norma que acaba impedindo a construção de banheiros nas residências. Existem muitas vilas e pequenas cidades com população brâmane na Índia onde nenhuma das casas possui banheiros. 

Os moradores são obrigados a caminhar até as matas nas áreas de entorno para “se aliviar”. Essa situação peculiar é particularmente perigosa para as mulheres, que ficam expostas a ataques de maníacos sexuais e também ao estupro coletivo praticado por homens de outras castas ou religiões. É comum que essas mulheres se organizem em grupos, saindo de madrugada para as matas. Num grande esforço físico, essas mulheres passarão o dia inteiro “segurando” suas bexigas e intestinos, para só voltar às matas em grupo no início da noite. 

Em 2017, o ator e ativista indiano Akshay Kumarproduziu e atuou no papel principal do filme “Toilet, que se transformou num grande sucesso de bilheteria na Índia. O enredo, baseado em fatos reais, mostra o drama dos moradores de uma vila brâmane sem banheiros e o esforço do filho de um dos sacerdotes para mudar essa realidade. O Governo da Índia, que vem realizando esforços hercúleos para implantar redes de água e esgotos em todo o país, foi um dos grandes apoiadores da produção. Bill Gates, fundador da Microsoft e presidente da Fundação Bill e Melinda Gates, declarou que “Toilet” foi um dos melhores acontecimentos de 2017

O tradicional sistema de castas, que foi abolido pela Constituição da Índia pós-independência, ainda continua dividindo os indianos em uma escala hierárquica e é outra fonte importante de problemas. Os dalits, grupos que formam as castas mais baixas e mais pobres da sociedade indiana, costumam viver separados do restante da população e, via de regra, não usam (ou não podem usar) os banheiros públicos espalhados por todo o país. Chamados de intocáveis, os dalits realizam os trabalhos considerados indignos e sujos, onde se incluiu a lida com os mortos (animais ou pessoas), coleta de lixo, trabalhos com couro, escavação de fossas, varrição e lavagem de ruas, entre outros. 

Estatísticas indicam que 16% da população da Índia é formada por dalits, sendo que 80% dessa população vive em área rurais. Grande parte dos dalits que vivem nas áreas urbanas são obrigados a morar nas ruas, uma vez que eles não são bem-vindos nem entre os moradores das favelas. Ainda persiste entre muitos cidadãos a ideia que essas pessoas, consideradas impuras, precisam viver separadas do restante da população. Vivendo ao relento, essas populações não tem outra alternativa senão urinar e defecar em áreas públicas. 

Há vários anos, O Governo Central da Índia vem fazendo pesados investimentos para construir e “popularizar” o uso dos banheiros. Em 2014 foi lançado um grande programa para a construção de banheiros em todo o país e, até 2019, os dados indicam que 100 milhões de instalações já foram construídas, principalmente nas residências. Esses esforços já garantiram o acesso de mais de 600 milhões de pessoas aos sanitários. Apesar de todos esses esforços, muitos indianos ainda resistem ao uso desses banheiros. Muitas vilas e pequenas cidades de população brâmane, citando um exemplo, foram contempladas com a construção de banheiros públicos, mas os moradores mais velhos ainda mantêm as suas tradições seculares. 

Apesar de todos os benefícios que estas medidas sanitárias básicas (para não dizer elementares) trazem para as populações, o problema está muito longe de ser resolvido. A maior parte das redes de esgotos sanitários instaladas para atender a esse grande volume de novos banheiros lança os efluentes em córregos e rios sem qualquer tipo de tratamento, contaminando as fontes de água usadas para o abastecimento das mesmas populações. Um exemplo que citamos na postagem anterior é o importante rio Yamuna, que, entre outras cidades, abastece Nova Déli, a capital da Índia com seus 20 milhões de habitantes. De acordo com alguns especialistas locais, os caudais desse rio são “100% massa fecal”. 

Para um país que já sofre com uma baixa oferta de recursos hídricos para atender a sua imensa população, a Índia vai precisar redobrar, sabe-se lá como, seus esforços na área de saneamento básico e passar a construir também estações de tratamento de esgotos. É um enorme desafio para um país que está perto de se tornar a terceira maior economia do mundo, só ficando atrás dos Estados Unidos e da China, mas que, ao mesmo tempo, tem uma parte importante da sua população vivendo na miséria absoluta. 

 

OS GIGANTESCOS PROBLEMAS NO ABASTECIMENTO DE ÁGUA NA ÍNDIA

Abastecimento de água na Índia

A Índia é um país de números superlativos em diversas áreas. 

Apesar de possuir um território com área equivalente a menos de 40% do território brasileiro, a Índia ganha disparado no quesito população – são aproximadamente 1,34 bilhões de habitantes, população que só perde em tamanho para a China. Projeções de crescimento demográfico indicam que até o ano de 2035, a Índia terá a maior população do mundo. 

Além do tamanho descomunal, a população indiana forma uma verdadeira colcha de retalho no que diz respeito a culturas, costumes, religiões e línguas utilizadas – são mais de 400 idiomas e dialetos falados no país, o que nos dá uma leve ideia da complexidade e dos problemas socioculturais do país. Os idiomas oficiais são o inglês e o hindu, que funcionam como língua de ligação. Cada um dos Estados da Índia possui um idioma oficial falado por dezenas de milhões de pessoas. Quem inventou a expressão “caldeirão cultural”, provavelmente conhecia a Índia. 

O PIB – Produto Interno Bruto, da Índia vem apresentando altas taxas de crescimento nas últimas décadas, onde a taxa média de crescimento é de 6% ao ano. O país já ocupa a sétima posição entre as maiores economias do mundo. Porém, apesar dos importantes avanços econômicos e sociais, a Índia possui enormes problemas em todas as áreas, que geram graves impactos na área ambiental. Vamos começar falando dos problemas ligados ao abastecimento de água. 

Talvez o maior exemplo de má gestão dos recursos hídricos da Índia seja o rio Ganges. Com nascentes nas Montanhas Himalaias, o rio Ganges percorre mais de 2.500 km até sua foz num grande delta em Bangladesh. Nesse percurso, o rio é o principal manancial de abastecimento para mais de 400 milhões de pessoas. Apesar de toda a sua importância, o rio Ganges vem agonizando com a intensa poluição de suas águas – praticamente todos os esgotos domésticos e industriais despejados pelas cidades e vilas de sua bacia hidrográfica correm na direção de sua calha sem nenhum tipo de tratamento. 

Um exemplo que já citamos em uma postagem anterior é a cidade de Khanpur, um importante centro industrial que tem uma população de 4 milhões de habitantes. Além de despejar todos os esgotos domésticos diretamente nas águas do rio Ganges, a cidade também produz grandes volumes de esgotos industriais altamente tóxicos.  

A maior parte das indústrias de Khanpur se dedica ao curtimento e processamento do couro, especialmente bovino. Nesses processos são usados produtos que contém elementos químicos altamente tóxicos como o mercúrio, o arsênico e, principalmente os sais de cromo. Dos cerca de 370 curtumes instalados na cidade, pelo menos metade despeja seus efluentes no rio Ganges sem qualquer tipo de tratamento. 

O cromo pode causar problemas nas guelras dos peixes e também provocar alguns tipos de câncer em animais que bebam ou mantenham contato com águas contaminadas. Profissionais que trabalham nos curtumes, expostos diariamente a toda uma gama de produtos químicos, podem apresentar problemas como rinite, problemas no estômago, lesões na pele e, em casos extremos, riscos de desenvolver câncer no pulmão. O consumo de água contaminada com cromo está provocado uma série de doenças nas populações da região. 

As águas do rio Ganges constituem o principal manancial de abastecimento de inúmeras cidades de toda uma faixa no Norte da Índia. Os sistemas produtores de água dessas cidades são antigos e não conseguem eliminar muitos desses poluentes – muita gente acaba sendo contaminada com metais pesados e elementos tóxicos presentes nessa “água tratada”. Esses sistemas também não conseguem produzir água tratada em quantidade suficiente para atender toda a população das cidades. 

Outro exemplo gravíssimo de degradação é o rio Yamuna, um dos mais importantes cursos d’água do Norte da Índia. Com cerca de 1.370 km de extensão, o rio Yamuna é um dos principais afluentes do rio Ganges. Entre as cidades de dependem da captação de água no rio para abastecimento de sua população está Nova Déli, a capital da Índia, que tem uma população de mais de 20 milhões de habitantes. Alguns especialistas afirmam que o Yamuna é o rio mais poluído do mundo

O tratamento de águas altamente poluídas é possível e exige o uso de grandes quantidades de produtos químicos, o que nem sempre resulta em uma água 100% potável. Um exemplo já citado inúmeras vezes aqui no blog é o do rio Guandu, principal manancial de abastecimento da Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Moradores de diversas regiões das cidades abastecidas com as águas do rio Guandu vêm recebendo água de péssima qualidade já há vários meses. Em Nova Déli, além da qualidade questionável da água tratada, a população sofre com a baixa disponibilidade.  

Na maioria dos bairros da cidade, as torneiras têm água por apenas duas horas a cada dia – uma hora pela manhã e outra hora a noite. Os moradores que possuem recursos se valem da compra de água mineral ou de caminhões pipa, que é armazenada em cisternas. Para os mais pobres, restam poucas opções como o armazenamento das águas das chuvas. 

Outra grande cidade que sofre com a falta de água é Mumbai (antiga Bombaim), a capital financeira da Índia. Com cerca de 18 milhões de habitantes, Mumbai é frequentemente obrigada a conviver com um draconiano racionamento de água: um dia com água nas torneiras e seis dias com as torneiras secas. As perdas de água na rede de distribuição da cidade são enormes – calculadas em 700 milhões de litros a cada dia. Além de vazamentos nas tubulações, existem milhares de ramificações ilegais, os chamados “gatos”

Nas pequenas cidades e vilas da zona rural, onde vive perto de 70% da população do país, a água é coletada de poços ou diretamente dos cursos d’água (vide foto), sendo consumida sem nenhum tipo de tratamento. Essa água frequentemente está contaminada por esgotos domésticos e, não raras vezes, por despejos industriais. Nas regiões mais secas como o Rajastão no Noroeste do país, as populações muitas vezes dependem de ações emergenciais de distribuição de água através de caminhões pipa, uma situação semelhante vivida muitas vezes pelos sertanejos da nossa Caatinga.

Os conflitos entre diferentes usuários de uma mesma bacia hidrográfica também criam enormes problemas para o abastecimento das populações. Um exemplo é o do rio Cauvery (ou Kaveri) no Sul do país. Quatro Estados indianos – Karnataka, Tamil Nadu, Kerala e Pondichéry, lutam há várias décadas em tribunais do país pelo direito pleno de uso das águas. Sem conseguir chegar a um acordo razoável de partilha, esses Estados vivem em um eterno conflito pelo uso desse precioso recurso. 

Um outro problema nada desprezível para o país são as disputas internacionais pelas fontes de água. Diversos rios da Índia têm suas nascentes nas Montanhas Himalaias fora de suas fronteiras, como é o caso do rio Brahmaputra, o principal curso d’água do Nordeste da Índia e um dos mais importantes de Bangladesh. As nascentes desse rio se encontram no Tibete, país que foi ocupado pela China na década de 1950. A China planeja desviar parte das águas desse rio para atender projetos de irrigação nas suas regiões áridas de Xinjiang Gansu. Esses desvios poderão reduzir os caudais do rio Brahmaputra em até 30%Se é difícil se chegar a um consenso entre diferentes Estados indianos sobre o uso das águas de um rio, imaginem as dificuldades entre países diferentes. 

Completando o complicado quadro do abastecimento de água na Índia, temos um país que possui 16% da população mundial e apenas 4% das reservas mundiais de água doce. Para efeito de comparação, o Brasil possui 3% da população mundial e 13% das reservas de água doce do planeta. Ou seja – o acesso a água potável de qualidade e em quantidade na Índia é um luxo para poucos.

Continuaremos na próxima postagem.

A CRESCENTE ESCASSEZ DE RECURSOS HÍDRICOS NO ALTIPLANO ANDINO, OU AINDA FALANDO DO LAGO POOPÓ

Lago Titicaca

Na última postagem falamos do desaparecimento do Lago Poopó, na região do Altilplano Boliviano. Esse lago era o segundo maior corpo d’água da Bolívia e, nos períodos de cheia, chegava a cobrir uma superfície da ordem de 2.500 km². Uma das principais razões para o desaparecimento do Lago foi o desvio das águas do rio Desaguadero, sua principal fonte de alimentação, para projetos de irrigação. 

O desaparecimento do Lago Poopó é só um capítulo a mais na intensa disputa pela água em toda a região. O Altiplano é um grande deserto de altitude e a maior parte dos seus solos é inadequada para a prática da agricultura. Nas áreas onde existem bons solos é necessário o uso intensivo de irrigação. Entre as poucas culturas que se adaptam aos solos e clima do Altiplano estão a batata e a quinoa, um grão rico em proteína. A quinoa, aliás, virou uma espécie de grão da moda em todo o mundo, especialmente entre os adeptos da alimentação natural. Essa explosão no consumo tem estimulado o aumento da produção do grão em diversas regiões dos Andes, o que, consequentemente, vem resultando em uma maior pressão sobre os escassos recursos hídricos. 

O Altiplano Andino é um extenso planalto com altitudes acima dos 3.500 metros, que se estende entre as montanhas da Cordilheira dos Andes, ocupando partes do Norte do Chile e da Argentina, do Oeste da Bolívia e do Sul do Peru. O clima do Altiplano é frio e úmido, com características entre o semiárido e o árido, além de pouca disponibilidade de fontes de água. As temperaturas médias vão dos 3° C nas proximidades da Cordilheira dos Andes Ocidentais até 12° C na região de entorno do Lago Titicaca (vide foto). Dependendo da época do ano, as temperaturas máximas podem oscilar desde 24° C durante o dia até -20° C durante a noite. 

Estudos arqueológicos indicam que a ocupação do Altiplano por populações humanas começou há cerca de 6 mil anos atrás. Por volta do ano 1.500 a.C, a região assistiu ao nascimento da civilização Tiwanaku (ou Tihuanaco), que atingiu seu auge no século X de nossa era, sendo então dominada pelo Império Inca. Esse povo alcançou um enorme desenvolvimento em tecnologias agrícolas adaptadas às difíceis condições do Altiplano. Muitas dessas tecnologias foram adotadas pelos Incas. 

Nessa época, o Lago Titicaca era bem maior, com um nível cerca de 5 metros mais alto do que a média de décadas atrás. O Poopó, o Uru-uru e outros lagos da região estavam unidos na época e formavam o grande Lago Tauca. Esse grande volume de água armazenada no Altiplano era um resquício da última era glacial e a sua maior parte se perdeu devido a evaporação. Mesmo contando com uma disponibilidade de água bem maior do que na atualidade, esse povo aprendeu a produzir muito em suas lavouras gastando o mínimo possível de água. 

O povo Tiwanaku utilizava plataformas elevadas para o cultivo de alimentos, conhecidas como suka kollu. Entre as plataformas eram construídos canais rasos preenchidos com água. Esses canais forneciam a umidade para as culturas em crescimento e também ajudavam a proteger as plantas do excesso de radiação solar, comum em altas altitudes. Também auxiliavam na drenagem do excesso de águas no período das chuvas e protegiam as plantas durante os dias de geada. Esse sistema de plataformas elevadas permitiu que a civilização Tiwanaku alcançasse uma produtividade agrícola no Altiplano cerca de dez vezes maior que em nossos dias atuais. 

Com a conquista dos Incas pelos invasores espanhóis sob a liderança de Francisco Pizarro em 1533, todo o sistema de produção no vasto império indígena entrou em rápido declínio. Sedentos por ouro, prata e outros metais preciosos, os espanhóis passaram a escravizar os povos indígenas, que eram usados nos trabalhos de mineração. Um dos grandes exemplos do uso dessa mão de obra escrava foram as minas de prata de Potosí que, de acordo com dados oficiais, produziu cerca de 31 mil toneladas de prata entre os séculos XVI e XIX

Os vários séculos de colonização espanhola deixaram marcas negativas entre os povos do Altiplano, principalmente no que diz respeito ao uso sustentável dos recursos naturais, em especial dos recursos hídricos. A mineração é um bom exemplo do descaso. Na região de entorno do desaparecido Lago Poopó, citando um exemplo, existem centenas de minas e garimpos de ouro, pedras preciosas e outros metais valiosos. Durante décadas, quiçá séculos, essas minas e garimpos produziram imensas quantidades de rejeitos minerais, que foram abandonados sobre os solos sem maiores cuidados.  

As chuvas carrearam imensas quantidades desses rejeitos na direção do Lago Poopó, que gradualmente teve a sua profundidade reduzida devido ao assoreamento. Esses rejeitos também contaminaram as águas com grandes quantidades de metais pesados e tóxicos como mercúrio e arsênico, o que provocou a morte de grandes quantidades de peixes e aves aquáticas. A pouca profundidade do lago também contribuiu, e muito, para um aumento nas perdas de água por evaporação. 

Outro exemplo de péssima gestão dos recursos hídricos pode ser visto no Lago Titicaca, o maior manancial de água doce do Altiplano. As cidades na região de entorno do Lago cresceram muito, e desordenadamente, e se transformaram em grandes consumidoras e poluidoras das águas, despejando diariamente grandes volumes de esgotos não tratados e toneladas de lixo. A cidade de El Alto de La Paz, na Bolívia, é um bom exemplo – de povoado há cerca de 30 anos, a cidade agora conta com uma população de 800 mil habitantes. No lado peruano, podemos citar Juliaca Puno, cidades que possuem juntas 500 mil habitantes. A imagem abaixo mostra a intensa poluição do rio Coata, que cruza a cidade de Pune no Peru.

Poluição no Lago Titicaca

Conforme já comentamos em postagem anterior, existem perto de 25 rios e riachos que alimentam o Lago Titicaca e que nascem a partir do degelo de glaciares no alto da Cordilheira dos Andes. Devido as mudanças climáticas globais, essas massas de gelo estão diminuindo rapidamente, o que tem provocado uma diminuição dos aportes de água no Lago Titicaca. De acordo com informações da Universidad Nacional del Altiplano, em Puno no Peru, até 1986, o nível médio do espelho d’água do Lago Titicaca se situava na cota dos 3.812 metros de altitude (algumas fontes falam de 3.821 metros). Atualmente, o nível do Lago está na cota dos 3.808 metros de altitude, o que indica a perda de uma lâmina de água de 4 metros. Outras fontes falam da perda de apenas 1 metro

A redução dos caudais dos rios e riachos que desaguam no Titicaca também são resultado da implantação de dezenas de projetos de irrigação em áreas agrícolas ao redor do Lago. O rápido crescimento das cidades criou uma forte demanda para a produção de alimentos. Utilizando técnicas agrícolas inadequadas, esses sistemas de irrigação desperdiçam muita água, que se perde por evaporação – gasta-se água demais para uma produção pequena de alimentos. 

Toda a região do Altiplano também sofre com a contaminação das águas por rejeitos da mineração, por resíduos tóxicos de fertilizantes e defensivos agrícolas, por esgotos domésticos e muito lixo. Completando o quadro, as populações das cidades da região não param de crescer. Apesar de tremendamente dramático, o desaparecimento do Lago Poopó foi só o começo dos muitos problemas ambientais que ainda recairão sobre a região do Altiplano Andino nas próximas décadas. 

 

A DESTRUIÇÃO TOTAL DO LAGO POOPÓ NA BOLÍVIA

Lago Poopó

Nas últimas postagens falamos dos inúmeros problemas ambientais enfrentados pela Venezuela, onde destacamos a gradual destruição do Lago de Maracaibo, na região Noroeste do país. Antigo importante centro de produção petrolífera, o Maracaibo hoje sofre com inúmeros vazamentos de óleo nas instalações de produção desativadas. As grandes manchas de petróleo nas águas, praias, costões e manguezais estão destruindo toda a fauna aquática e comprometendo o sustento de milhares de pescadores locais.

Um outro exemplo dramático de devastação de um grande corpo d’água na América do Sul foi o que se abateu sobre o Lago Poopó, na Bolívia. Porém, diferente do que aconteceu com o Lago de Maracaibo, as agressões foram bem mais contundentes e tiveram como resultado o desaparecimento total do lago Poopó, que até então era o segundo maior lago da Bolívia. Vamos entender essa dramática história:

O Lago Poopó ficava na região do Altiplano a cerca de 3.686 metros de altitude. O Altiplano é um extenso planalto com altitudes acima dos 3.500 metros, que se estende entre as montanhas da Cordilheira dos Andes, ocupando partes do Norte do Chile e da Argentina, do Oeste da Bolívia e do Sul do Peru. O espelho d’água do Lago Poopó, no período das cheias, se espalhava por uma área total de 2.500 km², o equivalente a seis vezes o tamanho da Baía da Guanabara.

A alimentação do Lago Poopó estava ligada diretamente ao Lago Titicaca, o maior corpo d’água da América do Sul. Conforme já comentamos em postagens anteriores, o Lago Titicaca é alimentado por rios e córregos formados a partir do degelo de glaciares ou geleira localizadas no alto das montanhas Andinas. Na parte Sul do Lago Titicaca existe uma fenda natural, conhecida como rio Desaguadero, que funcionava como um canal de drenagem para as águas excedentes. Todo o excesso de água do Titicaca era conduzido pelo rio Desaguadero na direção do Lago Poopó, localizado num trecho mais baixo do Altiplano. O lago Poopó funcionava como um lago terminal fechado da bacia hidrográfica.

Nessa configuração de bacia hidrográfica, chamada tecnicamente de bacia endorreica, a água se perde por evaporação. Um exemplo que podemos citar desse tipo de bacia hidrográfica é o Mar Morto entre Israel e Jordânia, no Oriente Médio, que é alimentado pelas águas do rio Jordão. No caso do Lago Poopó, sua estabilidade dependia dos aportes frequentes de água vindos do Lago Titicaca.

O destino do Lago Poopó começou a ser selado a partir da redução do nível do Lago Titicacaque baixou cerca de 1 metro nas últimas décadas, o que reduziu a quantidade de água drenada pelo rio Desaguadero. Geleiras de montanhas de todo o mundo estão sofrendo os efeitos do Aquecimento Global e os glaciares da Cordilheira dos Andes também estão sendo dramaticamente afetados. Nos últimos 50 anos, diversas geleiras dessas montanhas já desapareceram e muitas outras estão perdendo a sua massa de gelo rapidamente.

Para aumentar o problema, o Governo local autorizou a realização de diversas obras para a construção de sistemas de irrigação a partir das águas do rio DesaguaderoUma parte considerável das águas que correriam na direção do Lago Poopó passou a ser desviada sem maiores critérios para diversos projetos agrícolas. Sem receber os despejos sistemáticos de água do Lago Titicaca, o Lago Poopó começou a secar.

A tragédia ambiental que se abateu sobre o Lago Poopó, porém, tem outro componente bombástico – a mineração predatória e intensa realizada na região desde o tempo dos conquistadores espanhóis. Usando técnicas das mais rudimentares, os mineiros da região nunca se preocuparam com a construção de barragens de rejeitos minerais, assunto que temos falado bastante nas nossas postagens. O Lago Poopó foi transformado “na barragem de rejeitos” do Altiplano, recebendo sedimentos arrastados por alguns rios e pelas escassas chuvas ao longo dos séculos. O acúmulo desses rejeitos reduziu gradativamente a profundidade do lago e amplificou os efeitos da evaporação das águas.

Em anos passados, o nível de contaminação das águas do Lago com metais pesados chegou a um nível altamente crítico, resultando na mortandade de 30 milhões de peixes em um único dia – milhares de aves, que se alimentavam destes peixes envenenados tiveram o mesmo fim. As aves e animais que conseguiram fugir a tempo, ganharam uma sobrevida em outras regiões – os flamingos rosados do Poopó, por exemplo, migraram para o pequeno Lago Oruro em uma região próxima, um corpo d’água que também está secando. Nesse novo ambiente, a carência de nutrientes está afetando a saúde dessas aves – as vistosas penas rosas passaram a apresentar uma cor branca (semelhante ao que ocorreu com os guarás vermelhos do rio Cubatão, em São Paulo).

De acordo com as avaliações já feitas por especialistas da Bolívia, o desaparecimento das águas do Lago Poopó provocou a extinção local de cerca de 200 espécies de aves, peixes, mamíferos, répteis e anfíbios, além de uma grande variedade de plantas. Parte importante dessas espécies era endêmicas e não são encontradas em outras partes da Bolívia. Mesmo que seja possível voltar a encher todo o Lago (alguns trechos chegam a acumular um pouco de água, mas secam em pouco tempo), ele nunca mais voltará a ser o mesmo tipo de bioma que já foi no passado.

O desastre também teve um custo humano. Cerca de 350 famílias das comunidades indígenas locais, em sua maioria pescadores do lago, foram afetadas. Os Urus eram os donos do lago e tiravam o seu sustento das águas do Poopó, o seu “território”. Essas comunidades tinham como fonte principal de alimentos um grupo com 38 espécies de animais entre peixes, aves e mamíferos: nada sobrou. De acordo com as leis bolivianas, o território dos Urus é formado pelo espelho d’água dos diversos lagos do país e eles não podem cultivar as terras, um território que pertence aos indígenas da etnia Aymarás.

O desaparecimento do Lago Poopó foi um longo e contínuo processo de degradação ambiental, denunciado sistematicamente por anos a fio por ambientalistas e especialistas em recursos hídricos da Bolívia. Essas denúncias contaram com forte apoio de órgãos de imprensa opositores ao antigo Governo do Presidente Evo Morales. Dentro da forte ideologia política daquele Governo, a sistemática redução dos níveis do Lago Poopó “foi uma consequência do aquecimento global, um fenômeno provocado pelas grandes nações capitalistas do Hemisfério Norte.” Nenhuma providência prática para controlar ou reduzir o problema foi tomada.

A Bolívia tem uma longa história de exploração selvagem dos seus recursos naturais, uma trágica herança do período colonial. O antigo Vice-Reino do Peru, do qual a Bolívia fazia parte, se mostrou, já nos primeiros anos após a conquista pela Espanha, como uma das mais promissoras províncias minerais do Novo Mundo. A descoberta das minas de prata de Potosí, em 1545, consolidou ainda mais essa realidade. Em 1611, a cidade homônima que surgiu no local já tinha uma população de 150 mil habitantes, a segunda cidade mais populosa do mundo, só ficando atrás de Paris. De acordo com dados oficiais, saíram das minas de Potosí, entre os séculos XVI e XIX, cerca de 31 mil toneladas de prata.

Uma outra frente de forte pressão sobre os recursos naturais da Bolívia está se desenrolando atualmente na Floresta Amazônica, bioma que cobre perto da metade do território boliviano. Assim como acontece na Amazônia brasileira, o trecho boliviano da Floresta também vem sofrendo com grandes desmatamentos e queimadas. A exploração madeireira, o garimpo e a abertura de novas frentes agrícolas estão os problemas mais graves.

Mudam os lugares, mudam os tempos, mas os problemas ambientais se mantêm quase que inalterados.

OS INÚMEROS PROBLEMAS AMBIENTAIS NA VENEZUELA

Consumo de água poluída em Caracas

Nas duas últimas postagens falamos dos grandes problemas ambientais criados pela exploração de petróleo no Lago de Maracaibo, no Noroeste da Venezuela. De grande produtor de petróleo em décadas passadas, o Maracaibo se transformou num grande depósito de plataformas e instalações petrolíferas abandonadas. Corroídas pela ferrugem e falta de manutenção, a maioria dessas estruturas está repleta de vazamentos de petróleo. As antigas águas verdes do Lago de Maracaibo hoje estão tomadas por grandes manchas de óleo, o que vem destruindo a fauna aquática e prejudicando as comunidades de pescadores de suas margens. 

Infelizmente, esse não é o único grave problema ambiental do país. Dirigida já há muitos anos por um regime ditatorial e centralizar, a Venezuela é um exemplo de descaso com o meio ambiente. Um dos maiores problemas ambientais da Venezuela são os grandes desmatamentos, que ameaçam alguns dos biomas mais espetaculares do mundo. Existem também grandes problemas com incêndios florestais e com o tráfico de animais silvestres. As cidades também sofrem com a poluição das águas, do ar e com gravíssimos problemas na coleta e destinação dos resíduos sólidos.  

O Regime Bolivariano criou um órgão para cuidar de todos esses problemas – o Ministério da Habitação, Habitat e Ecossocialismo (seja lá o que isso signifique). Além de muitos discursos em favor do Regime, esse Ministério quase nada consegue fazer para reverter a situação crítica em que as cidades e ecossistemas venezuelanos se encontram. Vamos citar dois exemplos. 

Guanta é uma pequena cidade costeira no Norte da Venezuela com cerca de 45 mil habitantes e distante cerca de 330 km de Caracas. Graças às suas maravilhosas praias no Mar do Caribe, a cidade e sua região formavam um importante destino turístico até poucas décadas atrás. Atualmente, a cidade e sua população vivem em meio a uma nuvem de material particulado. Diversos artigos publicados em jornais e revistas se referem a Guanta como “A Cidade Invisível”. 

A origem dessa poluição é uma grande fábrica de cimento controlada pelo Regime Bolivariano. Até 2008, a empresa mexicana Cemex era a dona da empresa, quanto então, por ordem do então Presidente Hugo Chaves, a empresa foi estatizada e passou a ser controlada pela Vencemos – Venezoelana de Cementos. Entre os argumentos usados pelo Regime Bolivariano para assumir o controle da empresa estava justamente o desrespeito ao meio ambiente e aos direitos trabalhistas dos operários. 

Todos os principais cargos de direção e gerência da empresa foram colocados nas mãos de “companheiros” bolivarianos que, dentro de pouco tempo, conseguiram transformar um problema de emissões descontroladas de material particulado em uma tragédia ambiental regional. Ao invés de melhorar os processos produtivos, consolidar as rotinas de manutenção periódica como a troca de filtros e ampliar a instalação de sistemas de filtragem, os “companheiros” concentraram seus esforços, como é de praxe no país, em discursos e atos em apoio ao Regime Bolivariano. A gestão das operações da cimenteira foi colocado em um plano bem secundário.

Sem os cuidados necessários, os precários sistemas de filtragem da empresa ficaram saturados e pararam de funcionar. A cidade de Guanta passou a ser tomada por uma gigantesca nuvem de material particulado. Uma grossa camada de pó encobriu os telhados, ruas da cidade, veículos e também o interior das casas. Segundo o relato de alguns moradores, se esse pó não é retirado diariamente, ele forma uma crosta que não desgruda mais. 

O maior problema criado por essa poluição são as doenças respiratórias na população,  que atingem especialmente as crianças menores. Segundo relato de funcionários do Centro de Diagnósticos Gerais da cidade, os principais problemas são infecções respiratórias, bronquiolite e pneumonia. São atendidos de 30 a 40 casos graves por semana, especialmente crianças e pacientes asmáticos. Apesar dos inúmeros apelos da população, as autoridades não conseguem resolver os problemas

Outro conjunto de problemas gravíssimos vividos pelas populações das cidades da Venezuela estão na área do saneamento básico. Há problemas generalizados no fornecimento de água tratada, na coleta e transporte dos esgotos (nem pensar em tratamento), além de grandes dificuldades na coleta e destinação dos resíduos sólidos. Os problemas vão da falta de investimentos à gestão caótica das empresas e departamentos responsáveis por esses serviços, o que eu costumo chamar de “companheirização”. Caracas, a capital do país e maior cidade da Venezuela, é a que mais sofre com esse conjunto  de problemas. 

Um grande exemplo a ser citado são as dificuldades vividas pela população com a falta de água potável, um serviço irregular e frequentemente sujeito a interrupções por causa dos constantes blackouts na rede elétrica. O sistema de transmissão de energia elétrica da Venezuela está sobrecarregado e a rede não consegue atender a demanda da população. As cidades sofrem com apagões diários que, entre outros problemas, paralisam os sistemas de bombeamento de água potável. Sem o fornecimento de água potável e sem dinheiro para comprar água mineral, milhares de pessoas passaram a recorrer às águas poluídas de rios e córregos das cidades. 

Em 2019, o país passou por duas crises generalizadas de transmissão de energia elétrica, quando a maior parte das cidades ficou às escuras por vários dias. Enquanto o Presidente Nicolás Maduro culpava os Estados Unidos por atos de sabotagem do sistema elétrico, mais de 70% da população do país ficou às escuras e sem abastecimento de água. A foto que ilustra essa postagem mostra um grupo de moradores da periferia de Caracas coletando água no rio Guaire, uma espécie de rio Tietê da Venezuela, durante uma das inúmeras crises no abastecimento de água potável. 

O rio Guaire corta a Região Metropolitana de Caracas no sentido Leste a Oeste. Sua extensa bacia hidrográfica recebe toda a carga de esgotos e de efluentes industriais não tratados. Os níveis de poluição das águas são altíssimos. A cidade de Caracas tem uma população de 3 milhões de habitantes e está inserida em uma região metropolitana com mais de 5,8 milhões de habitantes, o que dá uma ideia do tamanho dos problemas ambientais

Uma das mais visíveis faces dos problemas de abastecimento de água nas cidades da Venezuela é o aumento da mortalidade infantil. De acordo com dados do UNICEF – Fundo das Nações Unidas para a Infância, e do Banco Mundial, a taxa de mortalidade infantil no país em 2017 retrocedeu para os níveis de 1977, quando a morte de crianças com menos de um mês de vida atingia 19 crianças a cada 1000 nascidas vivas. Em 2008, a situação melhorou e a taxa de mortalidade caiu para 9,7 mortes para cada 1000 nascimentos. Em 2013, a curva se inverteu e as mortes de crianças voltaram a crescer

Outro índice que mostra a deterioração das condições de vida da população foi apresentado por uma pesquisa feita pelas principais universidades da Venezuela em 2018. Foram entrevistadas 6.168 famílias em todo o país. De acordo com os dados apurados, 64% dos entrevistados afirmaram ter perdido uma média de 11 quilos do seu peso nos últimos 12 meses devido à falta de alimentos. Sem contar com uma alimentação adequada e sem acesso a água potável, a população mais pobre adoece frequentemente e, tragicamente, os mais fracos não conseguem sobreviver. 

Pobreza e preservação ambiental são duas coisas que nunca andam juntas. Enquanto a situação econômica e social na Venezuela não melhorar, a degradação ambiental do país vai continuar aumentando. Trágico!

OS VAZAMENTOS DE PETRÓLEO NO LAGO DE MARACAIBO NA VENEZUELA

Lago Maracaibo

Há pouco mais de seis meses, misteriosas manchas de óleo começaram a aparecer em várias praias da região Nordeste do Brasil. Essas manchas apareceram primeiro em praias da Paraíba. Com o passar das semanas, as manchas de óleo se espalharam por uma área de costa com mais de 2 mil km, atingindo os Estados de Alagoas, Bahia, Ceará, Maranhão, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe. Resíduos de óleo também chegaram ao Espírito Santo, já na Região Sudeste, e no Pará, na Região Norte. 

Passados todos esses meses, as autoridades brasileiras ainda não conseguiram descobrir exatamente qual foi a origem ou origens desses derramamentos de óleo – existem várias hipóteses, mas ainda nenhuma certeza. Uma das poucas evidências científicas já comprovadas é a origem do óleo – a Venezuela. Diversos testes feitos em laboratórios da Petrobrás e de Universidades comprovaram o “DNA” venezuelano desse óleo

Apesar de todas as negativas do Governo da Venezuela, essa suspeita chamou a atenção para o estado precário das instalações petrolíferas do país, que sofrem com a falta de recursos para a manutenção. Vários jornalistas internacionais conseguiram “driblar” as regras de censura do Regime Bolivariano e passaram a aparecer diversas reportagens em jornais internacionais mostrando a precariedade da indústria petrolífera da Venezuela. O Lago de Maracaibo, que já foi um dos maiores centros de produção de petróleo do país, é um retrato da crítica situação ambiental na Venezuela. 

O Lago de Maracaibo fica na região Noroeste da Venezuela e ocupa uma área total de 13,2 mil km², o que equivale a cerca da metade do território do Estado de Alagoas. Tecnicamente falando, o Lago é uma grande baía interna de água salobra, conectada ao Golfo da Venezuela através de um canal com 55 km de extensão, o Estreito Tablazo

As águas protegidas do Lago de Maracaibo transformaram a região num dos mais importantes biomas da Venezuela. A presença de diversas espécies de peixes, crustáceos e moluscos, algumas endêmicas, transformou o Lago em uma importante zona pesqueira do país. Mamíferos aquáticos como botos e peixes-boi marinhos sempre buscaram as águas verdes e tranquilas do Lago. As áreas de entorno também sempre foram refúgios para inúmeras espécies de aves, répteis e muitos mamíferos. 

A condição de paraíso da biodiversidade da região sofreu inúmeros impactos a partir do início do século XX, quando foram feitas as primeiras descobertas de reservas de petróleo e gás na Venezuela. O Lago de Maracaibo passou a responder por cerca de um terço da produção total de petróleo no país, produção que superou a marca de 3 milhões de barris/dia no início da década de 2000. A indústria petrolífera foi transformada na espinha dorsal da economia da Venezuela. 

Conforme comentamos na postagem anterior, a Venezuela entrou numa espiral de decadência econômica nos últimos anos, onde a origem do problema é de ordem política. O país passou a ser governado pelo chamado Regime Bolivariano, uma variação sul-americana piorada do socialismo, onde o Governo era o responsável por uma série de programas sociais voltados ao atendimento das populações mais pobres do país. O financiamento de todos esses programas sociais era lastreado pelos altos preços do petróleo no mercado internacional. Até 2008, quando o barril do petróleo chegou a valer US$ 160.00, havia dinheiro sobrando no país para a manutenção desses gastos – porém, já em 2009, quando o preço do barril de petróleo caiu para menos de US$ 40.00, a fonte, literalmente, secou

A brusca redução na entrada de recursos econômicos externos na Venezuela, que não voltou mais aos patamares anteriores, colocou o país numa longa e desesperadora crise econômica. Imagens de prateleiras de supermercados completamente vazias, de longas filas para a compra de produtos básicos como pão e carne, e também a imagem de pessoas revirando latas de lixo em busca de comida, passaram a representar a situação do país em todo o mundo. Mais de 4 milhões de venezuelanos já deixaram o país na condição de refugiados, sendo que aproximadamente 130 mil desses se encontram no Brasil. 

A PDVSA – Petróleos de Venezuela, que já vinha apresentando problemas de gestão há vários anos, entrou em colapso. A produção de petróleo no país caiu de 3 milhões de barris dia para pouco mais de 1 milhão. Na região do Lago de Maracaibo, essa produção caiu de pouco mais de 1 milhão de barris dia para cerca de 160 mil barris. Além dos inúmeros problemas operacionais na exploração e produção de petróleo e derivados, a situação política da Venezuela, que é comandada por um regime ditatorial e onde opositores do regime são perseguidos, levou a uma série de sanções internacionais e a proibição de venda do petróleo venezuelano no mercado internacional. 

A combinação de queda no preço do petróleo, com a grande redução na produção e com sanções internacionais, comprometeu gravemente as operações da PDVSA. Uma das áreas mais críticas, a manutenção de equipamentos e instalações, simplesmente foi abandonada. Diversas plataformas de perfuração de petróleo no Lago de Maracaibo foram abandonadas e muitas das unidades em operação apresentam vazamentos generalizados de óleo em tubulações, oleodutos subaquáticos, bombas e tanques. As poucas operações de carregamento envolvem antigos navios petroleiros “piratas” e com tripulações com baixo treinamento, o que tem levado a inúmeros derramamentos de óleo nas águas. 

De acordo com informações de empresas de consultoria do ramo petrolífero da Venezuela, a produção de petróleo no Lago de Maracaibo atingiu seu auge em 2001, com um pico de produção de 1,55 milhão de barris/dia. Nessa época, mais de 5 mil poços de petróleo estavam em operação no Maracaibo. Em 2018, a produção despencou para 250 mil barris diários e, segundo o sindicato local dos trabalhadores, menos de 400 poços estavam em operação. Toda essa infraestrutura abandonada já apresentava graves sinais de corrosão de tubulações e de depredação – grande parte dos equipamentos foram roubados. Muitos desses poços apresentam grandes vazamentos de óleo.

As antigas águas verdes do Lago de Maracaibo estão tomadas por grandes manchas de óleo (vide foto); praias e costões rochosos estão cobertos com uma grossa camada de petróleo. De acordo com relatos de muitos pescadores, o volume de peixes, crustáceos e moluscos capturados atualmente nas águas e manguezais representa apenas uma fração de anos passados. Além do pouco volume de produção, a qualidade das presas é lamentável – os animais têm os corpos cobertos por óleo e, muito pior: quando preparados para servir como alimento, cheiram a petróleo. Além de não conseguirem mais vender os seus produtos, os pescadores não têm conseguido alimentar suas próprias famílias. 

Lago de Maracaibo 2

Um sintoma da situação crítica das populações do Lago de Maracaibo pode ser verificado pelo aumento da caça de botos, peixes-boi e de outros animais para a obtenção de carne para alimentação. Essas espécies, que já fazem parte de listas de espécies altamente vulneráveis, correm o risco de desaparecimento na região do Maracaibo, seja pela contaminação das águas por resíduos de petróleo, seja pela caça predatória. 

A dramática situação do Lago de Maracaibo e de suas populações humanas e animais, infelizmente, não apresenta qualquer perspectiva de melhoria no curto e no médio prazo, podendo inclusive piorar ainda mais. Sem mudanças na estrutura política do país, o caos econômico na Venezuela vai continuar e, com ele, a solução dos vazamentos de petróleo no Lago de Maracaibo, no rio Orinoco e em outros biomas do país não vai ser possível.

Pescador Lago de Maracaibo

A ASCENSÃO E O COLAPSO DA INDÚSTRIA PETROLÍFERA DA VENEZUELA

PDVSA

Nas ultimas postagens falamos dos graves problemas ambientais provocados por derramamentos de petróleo na Nigéria, a maior economia continental e país com a maior população da África. Grande parte desses vazamentos de petróleo são resultado da perfuração de dutos para o roubo de óleo – dados do Governo local estimam que 10% de todo o petróleo produzido no país é roubado por grupos criminosos especializados.  

O petróleo roubado é conduzido para centenas de pequenas refinarias clandestinas, onde são produzidos derivados de petróleo como gasolina, óleo diesel e querosene. Rios, lagos e também o lençol freático de áreas densamente povoadas do país estão com suas águas poluídas com óleo e substâncias químicas associadas ao petróleo e as populações têm consumido água contaminada. A situação é gravíssima, mas o mundo parece não estar preocupado com isso. 

Um problema semelhante está ocorrendo na Venezuela, país que faz fronteira com o extremo Norte do Brasil, porém, as razões desses vazamentos são outras – a crise econômica e política que o país enfrenta está na raiz do sucateamento das instalações petrolíferas, principal causa dos derramamentos do petróleo. Vamos entender essa história:

Até umas poucas décadas atrás, a Venezuela era o país mais rico da América do Sul. Lembro de uma ocasião, no final da década de 1980, quando alguns amigos sugeriram uma viagem de férias para Mérida, uma antiga cidade colonial nos Andes Venezuelanos. Conforme começamos a pesquisar sobre a região, descobrimos que era preciso tirar um visto para entrar no país e as dificuldades, naquela época, eram as mesmas da atualidade para se conseguir tirar um visto de turismo para viajar para os Estados Unidos. 

A história de sucesso da antiga Venezuela começou no início do século XX, quando foram descobertas as primeiras reservas de petróleo no país. A exploração comercial do petróleo começou em 1922 e a atividade acabou se transformando na espinha dorsal da economia do país. Os estudos geológicos que se seguiram comprovaram que a Venezuela era dona das maiores reservas de petróleo e gás do mundo, superando inclusive as reservas da Arábia Saudita. Essas reservas se concentram na região do Lago Maracaibo e na bacia hidrográfica do rio Orinoco (ou Orenoco). 

Como sempre ocorreu ao longo da história da América do Sul e dos seus recursos naturais, não demorou muito para as grandes nações do mundo voltarem seus olhos para a fabulosa riqueza petrolífera da Venezuela. Rapidamente, as grandes empresas petrolíferas mundiais realizaram “negociações” para a obtenção de blocos de concessão de exploração no país. Essas empresas passaram a dominar a economia e, de quebra, os rumos políticos do país. 

Durante várias décadas, a exploração do petróleo na Venezuela foi feita exclusivamente por empresas estrangeiras, onde os lucros com as vendas do produto eram desproporcionalmente divididos com o Governo do país. Em 1973, uma votação determinou a nacionalização da indústria petrolífera e em 1976 foi criada a PDVSA – Petróleos de Venezuela, estatal que passou a comandar a exploração, refino e as exportações do petróleo e seus derivados.  

PDVSA cresceu rápido e em poucos anos se transformou em uma das maiores empresas petrolíferas do mundo, se tornando cada vez mais independente do Governo. Na década de 1990, a empresa iniciou um processo de abertura do capital e atração de investidores estrangeiros, como forma de aumentar consolidar o seu crescimento e sua posição no mercado mundial.  

Em 1999, com a eleição de Hugo Chávez para a Presidência da República, a PDVSA inverteu sua curva de crescimento e iniciou um forte e gradual processo de declínio. Chávez, que em 1992 comandou um frustrado golpe de estado, implantou o chamado Bolivarianismo na Venezuela, uma espécie de socialismo sul-americano piorado. Entre outras medidas populistas, o Governo passou a limitar os investimentos e a participação de grupos estrangeiros na PDVSA a partir de 2001, além de criar todos os tipos de empecilhos para a atuação de empresas estrangeiras no país.   

Apesar do forte processo de desindustrialização e da necessidade cada vez maior de importação de alimentos e bens de consumo de todos os tipos, os altos preços do petróleo no mercado internacional permitiam a prática de fortes políticas para a redução da pobreza e de intervenção do Estado na economia do país. O Governo da Venezuela “surfou nessa onda” enquanto pode. O barril de petróleo, que no ano de 2008 chegou a valer perto de US$ 160.00, despencou bruscamente para pouco mais de US$ 40.00 em 2009. Sem essas receitas externas do petróleo que irrigavam e nutriam a economia, a Venezuela iniciou sua caminhada rumo ao colapso atual.  

Além da queda nos preços internacionais, a Venezuela já vinha sofrendo uma redução sistemática da produção de petróleo, onde o problema estava na má gestão da PDVSA, que passou a ser comandada por “companheiros” Bolivarianos. No início da década de 2000, a Venezuela apresentava uma produção diária de mais de 3 milhões de barris de petróleo – atualmente, a produção do país mal consegue superar a barreira de 1 milhão de barris/dia.  

As unidades de extração e produção de petróleo também vêm diminuindo gradativamente – no início de 2016, o país dispunha de 70 plataformas de exploração de petróleo e, hoje, são pouco mais de 20 unidades. Essa queda brusca da produção e exportação do petróleo e seus derivados está ligada diretamente às sanções econômicas internacionais enfrentadas pela Venezuela.  

Sem os recursos gerados pela venda do petróleo, a economia da Venezuela entrou numa espécie de espiral decrescente. A população do país começou a sofrer com o desemprego e com a falta dos produtos mais essenciais – faltam desde alimentos até papel higiênico nos mercados. Mais de 4 milhões de venezuelanos já fugiram do país em busca das mínimas condições de vida – centenas de milhares desses refugiados vieram para o Brasil. O Regime Bolivariano do país, é claro, passou a jogar a culpa da crise no colo das “grandes nações imperialistas do mundo”, em especial os Estados Unidos. 

Além de afetar a vida de toda a população, essa crise econômica também passou a representar dificuldades para a importação da nafta pela Venezuela, um produto químico essencial para a produção local de petróleo. O petróleo bruto venezuelano é muito denso, apresentando uma consistência quase sólida. Para tornar o produto viscoso e fluído para o bombeamento em tubulações e oleodutos, o petróleo venezuelano precisa receber a adição de diluentes químicos como a nafta. O maior fornecedor de nafta para a Venezuela eram os Estados Unidos, país que também ocupava a posição de maior comprador de petróleo da Venezuela e que acabou alçado à condição de grande inimigo do país pelo regime Bolivariano.  

Com a decadência e má gestão da PDVSA, veio o sucateamento de toda a indústria petrolífera da Venezuela. Um exemplo dessa situação pode ser visto nitidamente no Lago de Maracaibo, um dos maiores centros de produção de petróleo do país. Com mais de 13 mil km² de área, as águas verdes do Lago de Maracaibo estão sendo tomadas por manchas de óleo. Há cerca de dez anos, a produção local de petróleo era da ordem de 1 milhão de barris/dia e, atualmente, essa produção mal consegue superar a barreira dos 160 mil barris/dia. Com a queda da produção e das receitas, a PDVSA ficou sem recursos para a manutenção das plataformas e das tubulações – há vazamentos de petróleo por todos os lados.  

Continuaremos na próxima postagem.