OS PROBLEMAS AMBIENTAIS DA FLORESTA AMAZÔNICA EM UM RÁPIDO RESUMO 

Ao longo das últimas postagens apresentamos um quadro geral dos enormes problemas ambientais que se desenrolam na Floresta Amazônica. Ao contrário do que muitos políticos, famosos e ambientalistas internacionais repetem à exaustão, queimadas, derrubada de árvores e garimpo ilegal, entre outros graves problemas, não acontecem só no Brasil: esses males estão cercando a grande floresta equatorial por todos os lados

A Floresta Amazônica ocupa uma área de aproximadamente 5,5 milhões de km2 – algumas fontes falam de 7 milhões de km2, área essa que inclui diversos trechos de biomas de transição. Cerca de 60% da Floresta Amazônica fica dentro do território brasileiro, sendo o restante distribuído entre Bolívia, Equador, Colômbia, Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana Francesa

Essa distribuição da Floresta Amazônica entre diversos países também pressupõe a divisão de muitos dos problemas ambientais. Para apresentar um quadro geral, fizemos um rápido resumo dos problemas em cada um dos países amazônicos. 

Brasil: Um relatório do INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais divulgado no último dia 18 de novembro, indicou um aumento na taxa de desmatamento na Amazônia Legal Brasileira no período entre 1° de agosto de 2020 e 31 de julho de 2021. Os dados indicam um aumento na taxa de desmatamentos de 21,97% e uma perda de 13.225 km² de cobertura vegetal no período

A Amazônia Legal compreende toda a área coberta pela Floresta Amazônica no Brasil, além de todo o território dos Estados de Mato Grosso e Tocantins, além de uma faixa no Leste do Estado do Maranhão – a maior parte dessas áreas “extras” é coberta pelo bioma Cerrado. A área total é de 5 milhões de km².

Essa perda de cobertura florestal na Amazônia brasileira normalmente está associada a expansão de campos para a prática da agricultura e também para a formação de pastagens para a criação de gado. Também existem casos de derrubada de mata para a exploração de madeiras nobres, além da destruição de matas por atividades de garimpo – todas ilegais. 

Colômbia: A Floresta Amazônica na Colômbia ocupa uma área total de mais de 480 mil km2, o que corresponde a 42% do território do país. A maior parte das agressões ambientais guarda muitas semelhanças com o que acontece aqui no Brasil. Na Colômbia, porém, existe um diferencial importante: grande parte dos desmatamentos e das agressões ambientais ao bioma são comandados por grupos armados ligados aos diferentes movimentos revolucionários do país. 

A Colômbia é, de longe, a maior produtora e exportadora mundial de cocaína, além de outras drogas. Grande parte dos campos de plantio da coca (Erythroxylum coca) ficam em áreas desmatadas dentro da Amazônia colombiana. Essas terras são usadas em ciclos curtos de produção até o esgotamento da fertilidade dos solos, quando então são substituídas por solos virgens em novos trechos desmatados da floresta. 

Além dos desmatamentos, os trabalhos de refino e processamento das folhas de coca para a obtenção da cocaína despejam milhares de litros de produtos químicos nos rios e corpos d’água, causando diversos problemas ambientais. 

Equador: A maior parte dos problemas ambientais da Floresta Amazônica no Equador estão associados a extração e ao transporte do petróleo. O bioma ocupa uma área total de 120 mil km2 no país. De acordo com informações do Ministério do Meio Ambiente do Equador, ocorreram 1.169 vazamentos de petróleo no país entre 2005 e 2015. Cerca de 81% desses vazamentos ocorreram na Floresta Amazônica, onde foram perdidos cerca de 350 mil barris de petróleo

Em sua grande maioria, esses vazamentos ocorreram durante o transporte do petróleo através de oleodutos, infraestruturas que transporte o óleo desde os campos de produção no meio da Amazônia até os portos no Oceano Pacífico. O Governo do país está movendo diversos processos judiciais contra grupos petroleiros internacionais.  

Peru: A Floresta Amazônica ocupa mais de 60% da superfície do Peru, com uma área total de mais de 782 mil km2. Em área, essa é a segunda maior extensão da Floresta Amazônica depois do trecho brasileiro. Desmatamentos para a abertura de campos agrícolas e para a formação de pastagens também são comuns no Peru, onde também existe extração ilegal de madeira, garimpos e plantações de coca. Porém, merece destaque o crescimento das plantações de palma da Guiné no país. Essa árvore, só para relembrar, produz um coco rico em óleo, de onde se extrai o famoso azeite de dendê

Em 2020, a Amazônia peruana perdeu uma área de 203 mil hectares, a maior perda florestal dos últimos 20 anos. Segundo estimativas do Governo local, parte desses desmatamentos foi provocados pela pandemia da Covid-19 – peruanos desempregados abandonaram as cidades e voltaram para suas vilas de origem, onde passaram a se dedicar ao cultivo de víveres e à criação de animais. A derrubada de grandes trechos de matas para a produção do dendê também é inegável. 

Bolívia: Entre 2001 e 2020, a Bolívia perdeu 9,5% de sua cobertura vegetal, o que corresponde a uma área de 6,11 milhões de hectares. Desse total, ao menos 3 milhões de hectares se referem a desmatamentos e queimadas no trecho boliviano da Floresta Amazônica. O bioma ocupa cerca de 472 mil km2 no país. 

Essa perda maciça de cobertura florestal, que também inclui áreas de savana na região do Chaco, foi uma decorrência do grande crescimento da produção de grãos no país, destaque especial para a soja. Os sucessivos governos populistas que estão no poder nas últimas décadas tem, inclusive, estimulado as queimadas pelos agricultores. 

Venezuela: A grande ameaça no trecho venezuelano da Floresta Amazônica, que ocupa uma área de 458 mil km2 no país, são as atividades mineradoras e o garimpo do ouro e de diamantes. Nocauteada por uma gravíssima crise econômica, a Venezuela encontrou na mineração uma fonte de divisas. O Governo realizou uma série de mudanças na legislação do país, transformando praticamente todas as terras em áreas de mineração. Isso incluiu reservas da biodiversidade, florestas nacionais, terras indígenas e de afrodescendentes. 

O grande projeto governamental de mineração atende pelo pomposo nome de “Arco Mineiro do Orinoco“. Entre os grupos mais ameaçados estão os indígenas Ianomâmis, cujo território se distribui entre o Brasil e a Venezuela. 

Na Guiana, no Suriname e na Guiana Francesa também existem problemas, mas esse são bem menores do que nos demais países amazônicos. Como fica bem fácil de se notar, a Floresta Amazônica não tem problemas apenas no Brasil – ela está sofrendo um verdadeiro cerco por todos os lados! 

O GARIMPO DO OURO E AS NOVAS AMEAÇAS AOS IANOMÂMIS NO BRASIL E NA VENEZUELA, OU AINDA FALANDO DO ARCO MINEIRO DO ORINOCO

Quem tem acompanhado as postagens mais recentes aqui do blog já percebeu que a situação da Floresta Amazônica é infinitamente mais complicada do que as falas de muitos dos seus “defensores” pelo mundo afora. Acusar sistematicamente o Brasil pela “destruição do pulmão do mundo” é uma visão muito simplificada do problema. 

A Floresta Amazônica está sofrendo um verdadeiro cerco por todos os lados, onde os atores da tragédia são brasileiros, colombianos, peruanos, equatorianos, bolivianos e venezuelanos, entre muitos outros. Além de gente “local”, existem cumplices dessa destruição em todo o mundo – são empresas estrangeiras que compram madeiras, minérios, animais silvestres, plantas e outras riquezas retiradas da grande Floresta. 

Um capítulo dramático dessa saga de destruição é o que está acontecendo na porção venezuelana da floresta. Milhares de pessoas comuns, atormentadas pela profunda crise econômica vivida na Venezuela, estão sendo cooptadas para trabalhar em garimpos e outras atividades de mineração. Trabalhando muitas vezes sob a mira de armas, esses cidadãos estão revirando margens e leitos de rios por toda a Floresta Amazônica em busca de ouro, diamantes e outros minerais nobres. 

Esse grande movimento de mineradores na Amazônia venezuelana recebe o nome de “Arco Mineiro do Orinoco”, um projeto oficial do Governo local que está repleto de ilegalidades e de agressões contra o meio ambiente. A partir de todo um controverso conjunto de modificações na legislação do país, praticamente todo o território da Venezuela foi transformado em áreas de mineração. Isso inclui florestas nacionais, reservas da biosfera, terras indígenas e de afrodescendentes, entre outras – o Governo precisa ganhar dinheiro, custe o que custar. 

A área destinada a esse projeto cobre cerca de 112 mil km2 no Estado de Bolívar, formando um grande polígono com o rio Orinoco no centro. A extremidade Leste desse polígono se aproxima perigosamente da Reserva da Biosfera Alto Orinoco-Casiquiare, uma área com 8,2 milhões de hectares onde vivem os índios Ianomâmis na Venezuela

Os Ianomâmis (ou Yanomâmis) são um dos povos indígenas mais antigos da América do Sul e se espalham por um extenso território entre o Extremo Norte do Brasil e o Sul da Venezuela. São cerca de 35 mil indígenas distribuídos em cerca de 350 comunidades nos dois países. No Brasil, esse povo conta com cerca de 15 mil indivíduos distribuídos numa faixa de terras entre o Noroeste de Roraima e Norte do Amazonas

No total, o território dos Ianomâmis tem uma área de 192 mil km2, uma área pouca coisa menor que o território do Estado brasileiro do Paraná ou de toda a Grã-Bretanha. Isso nos dá uma ideia da enorme dificuldade das autoridades para controlar a entrada e saída de pessoas nesse território, um problema que se complica devido ao caráter binacional da área. Garimpeiros e madeireiros se aproveitam dessa dificuldade de fiscalização e invadem constantemente a terra indígena. 

contato dos Ianomâmis com os “brancos” (palavra que tem uma conotação mais cultural do que étnica) é bastante recente. Ele ocorreu na década de 1940, quando equipes de topografia foram enviadas para a região para delimitar a fronteira entre o Brasil e a Venezuela. Funcionários do antigo SPI – Serviço de Proteção ao Índio, e missionários religiosos se estabeleceram na região logo depois, um contato que trouxe as primeiras epidemias de gripe e sarampo, doenças que foram fatais para muitos indígenas. 

Outra lembrança trágica do contato dos indígenas com invasores se deu na década de 1970, quando o Governo Militar iniciou a construção de uma rodovia dentro do território Ianomâmi. Doenças trazidas pelos forasteiros dizimaram a população de duas aldeias na comunidade Ianomâmi de Opiktheri

Ao longo da década de 1980, o território dos Ianomâmis sofreu uma intensa invasão de garimpeiros – estimativas da época falam de cerca de 40 mil invasores. Foram registrados inúmeros confrontos armados, destruição de aldeias e exposição dos indígenas às doenças trazidas pelos invasores. As autoridades calculam que 20% da população Ianomâmi morreu ao longo de sete anos

A tragédia vivida pelos indígenas nesse período ganhou as manchetes em todo o Brasil e no mundo, causando uma enorme comoção. Sob muita pressão de grupos de defesa dos povos indígenas, de ambientalistas, líderes políticos e religiosos de todo o mundo, o território dos indígenas no Brasil foi demarcado em 1992, ficando conhecido como Parque Ianomâmi. 

Apesar de todo o arcabouço legal e o status de área indígena, frequentemente circulam notícias da invasão do território Ianomâmi por garimpeiros e madeireiros, de confrontos e mortes de indígenas, da destruição de grandes áreas de floresta. No lado venezuelano, as coisas também sempre foram muito complicadas para os indígenas. 

Com o aprofundamento da crise na Venezuela, país que há quase um século tinha na exploração do petróleo a sua base econômica, a mineração foi alçada à condição de “salvação da lavoura”. Com o plano de mineração no Arco Mineiro do Orinoco, milhares de venezuelanos pobres estão sendo estimulados a se aventurar nas selvas do país em busca de ouro, diamantes e outros minerais valiosos. 

A proximidade cada vez maior com os garimpeiros está sendo fatal para os indígenas. Segundo informações da Hutukara Associação Ianomâmi, cerca de 3 mil hectares da Terra Indígena foram destruídos pelo garimpo ilegal entre janeiro e setembro de 2021. As regiões mais impactadas são Waikás, Aracaçá e Kayanau – a destruição segue na direção da região de Xitei

Os Ianomâmis também estão sofrendo com o crescimento dos casos de malária. Segundo o Conselho Distrital de Saúde Indígena Ianomâmi e Ye’kwana, foram mais de 27 mil casos registrados em 2020. Até setembro deste ano, já foram registrados 20 mil casos. Segundo os especialistas, os desmatamentos feitos pelos garimpeiros aumentam a incidência dos mosquitos transmissores da doença. 

A Polícia Federal brasileira realizou há poucos dias atrás uma grande operação de combate ao garimpo ilegal no Território Ianomâmi. Foram apreendidos 75 aeronaves, 17 veículos, 10 balsas, 6 embarcações, 85 mil litros de combustível e 650 cartuchos de munições, além de 30 toneladas de minérios. Apesar de não acontecerem na velocidade e na frequência necessárias ao tamanho do problema, essas operações policiais são constantes no lado brasileiro do território dos Ianomâmis. 

No outro lado da fronteira, infelizmente, ações desse tipo são cada vez mais raras. Como principal responsável pelo estímulo à mineração no país, especialmente na busca pelo cobiçado ouro, o Governo da Venezuela está fazendo vista grossa a toda a tragédia vivida pelos Ianomâmis. Numa escala repugnante de valores, ouro e pedras preciosas são muito mais importantes que árvores, rios, fauna e indígenas. 

Lamentável…

O ARCO MINEIRO DO ORINOCO, OU A AMAZÔNIA VENEZUELANA SOB RISCO

Em um comunicado recente, o FMI – Fundo Monetário Internacional, indicou que a Venezuela deverá encerrar o ano de 2021 com a menor renda per capita das Américas, ficando atrás do, até então, país mais pobre da região – o Haiti. Segundo as projeções do FMI, a renda anual dos venezuelanos ficará em US$ 1,627.00. 

Com 28 milhões de habitantes e dona das maiores reservas mapeadas de petróleo do mundo, a Venezuela foi, até poucas décadas atrás, uma das nações mais ricas da América Latina. Com a ascensão de Hugo Chaves ao poder em 1999, e com a implantação de sua Revolução Bolivariana, o país entrou num ciclo contínuo de decadência econômica e social

De acordo com pesquisa da UCAB – Universidade Católica Andrés Bello, e de outras duas importantes instituições de ensino do país, 94,5% da população da Venezuela vive na pobreza, com uma renda inferior a US$ 3.20/dia. Desse total, 76,6% vive abaixo da linha da pobreza com uma renda inferior a US$ 1.20/dia. A inflação deverá fechar o ano numa taxa de 2.700%

Parte dessa verdadeira tragédia social é bastante visível. Milhares de venezuelanos fogem do país em busca de melhores condições de vida em países vizinhos. A cidade de Pacarana, no Norte do Estado de Roraima exemplifica essa tragédia. A região é a porta de entrada desses imigrantes no Brasil – até 800 venezuelanos chegam a cada dia e as estimativas do Governo Federal indicam que mais de 260 mil já vivem como refugiados no país. 

Um dos lados menos visíveis da tragédia da Venezuela é o que está se passando em áreas do Centro e do Sul do país, onde milhares de garimpeiros estão devastando áreas naturais em busca de minerais preciosos como ouro, coltan, bauxita e cobre, além de diamantes. Muito pior – essa enorme tragédia ambiental está sendo patrocinada e estimulada pelo Governo central do país. 

O Governo da Venezuela vinha anunciando desde, 2011, um megaprojeto de mineração: o AMO – Arco Mineiro do Orinoco. O projeto abrangia uma área poligonal de 112 mil km2 no Estado de Bolívar, onde as estimativas preliminares indicam a existência de mais de 7 mil toneladas em reservas de ouro, diamantes e outros minerais

Diversos grupos mineradores internacionais demonstraram interesse inicial, porém, devido à degradação das condições políticas do país, nenhum contrato foi fechado. Com o colapso da exploração petrolífera, que caiu de mais de 4 milhões de barris/dia para pouco mais de 300 mil barris/dia, o Governo da Venezuela resolveu partir para o vale-tudo: foram feitas mudanças na legislação para permitir a exploração mineral em praticamente todo o país. 

Oficialmente, o Plano Nacional de Mineração 2019-2025, do Governo da Venezuela, estabeleceu a mineração como uma prioridade para a “diversificação da economia” do país. Além da Região Amazônica, esse plano apresenta excelentes “oportunidades de negócios” na faixa Norte do país, onde se incluem reservas de feldspato, cal, areia e também áreas para a produção de carvão vegetal – inclusive, foi criada uma empresa para esse fim subordinada ao Exército venezuelano. 

De acordo com informações da RAISG – Rede Amazônica de Informação Socioambiental Georrefenciada, já existem mais de 2 mil pontos de mineração “legalizada” pelo Governo venezuelano na Amazônia local, onde se estima que mais de 189 mil pessoas estejam trabalhando. Essas áreas de mineração são altamente predatórias ao meio ambiente, sendo que muitas delas estão dentro de áreas indígenas (ao menos 16 áreas). 

As maiores concentrações dessas áreas de mineração ou de garimpo estão concentradas nas bacias hidrográficas dos rios Cuyuni, Caroni, Paragua e Caura, no Estado de Bolívar, e dos rios Ventauri, Sipapo e Negro, nas cabeceiras do rio Orinoco, no Estado do Amazonas, todas dentro do território da Venezuela. 

A Floresta Amazônica ocupa uma área total de mais de 458 mil km2 na Venezuela, o que corresponde à metade do território do país. A maior parte da Amazônia venezuelana está concentrada ao Sul do rio Orinoco, justamente nos Estados do Amazonas e de Bolívar, os maiores do país. 

De acordo com estimativas do Governo da Venezuela feitas em 2019, esses garimpos produziram 25,4 toneladas de ouro, a maior produção anual já contabilizada no país. Porém, de acordo com analistas ligados à oposição, essa produção superou a cifra das 80 toneladas. Desvios de ouro nessas operações, a exemplo do que vimos em Serra Pelada aqui no Brasil, são comuns. 

Classificada como estratégica para a Venezuela, essa mineração foi colocada “sob controle” das Forças Armadas do país. Os militares, segundo relatos de muitos refugiados, têm ordens para eliminar qualquer fonte de problemas que impeçam o avanço das atividades mineradoras. Existem inúmeros postos do Banco Central da Venezuela por todas essas regiões, onde o ouro pode ser vendido “sem perguntas”. 

Grupos armados, inclusive antigos guerrilheiros da Colômbia, estão no controle dessas áreas de garimpo sob a proteção dos militares venezuelanos. Notícias de torturas, assassinatos e mortes de garimpeiros são praticamente diárias, porém, desde que o ouro e outros minerais valiosos continuem sendo produzidos, os militares e as autoridades da Venezuela continuarão a fazer vista grossa. 

Atividades de mineração, conforme já tratamos inúmeras vezes em postagens aqui no blog, são danosas ao meio ambiente, mesmo quando realizadas por empresas sérias com profissionais qualificados. No vale-tudo dos garimpos “legalizados” da Venezuela, essa extração vem sendo feito da maneira mais selvagem possível. 

O pacote inclui a devastação da cobertura florestal, dragas no leito e nas margens dos rios, uso de grandes volumes de mercúrio nos processos de separação do ouro de outros metais, confrontos e mortes de indígenas, torturas e muita violência. Estudos preliminares feitos por biólogos na região indicam altos níveis de contaminação nos rios por mercúrio. Como não existe, porém, o menor interesse do Governo em apoiar esse tipo de estudo, as informações disponíveis são muito limitadas. 

Com o salário mínimo na Venezuela valendo o equivalente a US$ 3.50/mês, milhares de pessoas tem abandonado a vida nas cidades e saído na direção desses garimpos para tentar a sorte. Além da extrema violência dos grupos que controlam essas áreas, essas populações se expõem aos riscos de doenças tropicais como a malária e a febre amarela, a falta de saneamento básico e de assistência médica, dificuldades para adquirir alimentos, escassez de transportes, entre outras dificuldades para as condições mínimas de vida. 

Nessa luta pela simples sobrevivência diária, quem é que se importa com a destruição do meio ambiente ou com a conservação da Floresta Amazônica? 

BOLÍVIA PERDEU 9,5% DA SUA COBERTURA VEGETAL ENTRE 2001 E 2020

O título da postagem de hoje é bastante impactante. A informação é da Global Forest Watch, uma plataforma online que permite monitorar as florestas do mundo praticamente em tempo real. Segundo os dados analisados, A Bolívia perdeu um total de 6,11 milhões de hectares de florestas nesse período. Deste total, foram mais de 3 milhões de hectares de floresta primária úmida, que também atende com o nome de Floresta Amazônica. O bioma perdeu 7,4% de sua área nesse período

Em 2020, último ano analisado nesse estudo, foram quase 300 mil hectares de florestas perdidas, a quarta maior área em desmatamentos no mundo. A principal razão para essa perda de cobertura vegetal é o forte crescimento da agricultura na Bolívia. O país já está entre os 10 maiores produtores de soja do mundo e é o quarto maior produtor da América do Sul, além de produzir outros grãos como milho e trigo. 

Cerca de 20% do território boliviano é coberto por vegetação de savana, onde se destaca o Cerrado (uma parte desse bioma tipicamente brasileiro entra no território da Bolívia), os Llanos de Moxos e o Pantanal. Assim como aconteceu aqui no Cerrado brasileiro, as savanas bolivianas também assistiram a um forte avanço das frentes agrícolas nas últimas décadas. E esse avanço tem ido cada vez mais para o Norte do país onde fica a Amazônia boliviana. 

O território da Bolívia tem 1.098.581 Km2 e pode ser dividido em três grandes regiões geográficas: a Amazônia, o Chaco e os Andes. A Floresta Amazônica cobre cerca de 43% do território do país. O Chaco inclui as vegetações de savana já citadas e, os 37% restantes, são as regiões elevadas da Cordilheira dos Andes e do Altiplano Boliviano, onde a agricultura não é muito favorecida. 

De acordo com informações da ANAPO – Associação de Produtores de Oleaginosas e Trigo, a produção anual de soja na Bolívia oscila entre 4,5 e 5 milhões de toneladas, sendo que 60% desse volume é exportado. A cultura gera mais de 110 mil empregos diretos e indiretos, representando cerca de 6% do PIB – Produto Interno Bruto. 

A cultura da soja começou a se expandir fortemente no país no início da década de 1990, época em que agricultores brasileiros passaram a buscar terras com preços mais acessíveis na Bolívia, repetindo um movimento que anos antes invadiu o Paraguai. A região de Santa Cruz de la Sierra se mostrou a mais promissora para essa cultura, que depois passou a se espalhar por toda a região do Chaco. 

É aqui que entra nessa “equação” um componente que conhecemos bem aqui no Brasil: o avanço descontrolado dessas frentes agrícolas. Sem uma legislação adequada e sem uma política governamental de fiscalização bem estruturada, a produção agrícola foi avançando pelas regiões de savana da Bolívia praticamente sem controle e chegando até a região Amazônica do país. 

Para complicar ainda mais a situação, o país entrou num longo ciclo de governos populistas como foi o caso do Governo Evo Morales, iniciado em 2006, e que se estendeu até 2019. Interessado nos ganhos gerados pela produção agrícola para o financiamento de suas políticas sociais, Morales fez “vista grossa” a boa parte dos abusos ambientais. 

Os resultados econômicos do período saltam às vistas – o PIB boliviano passou de US$ 9,5 bilhões para US$ 40 bilhões em pouco mais de 15 anos, a maior taxa de crescimento da América Latina. A inflação foi reduzida e os índices de pobreza caíram fortemente. Segundo o PNUD – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, cerca de 37,2% da população da Bolívia vivia abaixo da linha da pobreza até 2019. Aliás, esse discurso de combate à pobreza passou a dominar as políticas do Governo. 

Citando um exemplo: Morales costumava defender o uso do “chaqueo”, palavra local para as queimadas, como uma ferramenta essencial para o trabalho dos pequenos agricultores. Segundo o Presidente, “uma família pobre precisa ter o direito de limpar, no mínimo, uma área equivalente a meio hectare para produzir milho e a um hectare para a produção de arroz“. Segundo o discurso, esse seria o mínimo de produção agrícola necessária para a sobrevivência de uma família. 

Na prática, como todos devem suspeitar, é bastante difícil controlar as chamas de uma queimada e limitar sua área a meio ou a um hectare – o fogo costuma seguir sua própria vontade. Ao longo de 2019 e de 2020, a situação das queimadas foi bastante agravada no país devido a uma forte seca e as altas temperaturas. A Floresta Amazônica no país ardeu como nunca. 

No seu último ano de Governo, inclusive, Morales realizou uma alteração na legislação ambiental – os agricultores foram autorizados a ampliar as queimadas de 5 para 20 hectares. Não por coincidência, os grandes incêndios florestais na Floresta Amazônica aumentaram desde então. No dia 20 de agosto de 2019, relembrando um fato, a cidade de São Paulo foi tomada por uma chuva com água “cor de chá”, um fenômeno que foi provocado devido a fortes massas de fumaça de queimadas vindas da Amazônia boliviana. 

Na visão de muitos analistas, a derrota de Morales na tentativa de conseguir um quarto mandato como Presidente da Bolívia nas eleições de 2019, se deu em função de uma reação da opinião pública às fortes queimadas no país. Uma das áreas destruídas pelo fogo naquele ano foi Chiquitania, uma região de florestas próxima de Santa Cruz de la Sierra que fornecia madeira para a construção civil e para o artesanato das populações mais pobres. 

Grupos opositores ao Presidente-candidato canalizaram a revolta dessas populações e organizaram grandes manifestações de protesto. As eleições locais foram marcadas por denúncias de fraudes e irregularidades, sendo anuladas logo depois pela justiça eleitoral, contribuindo assim para o afastamento de Evo Morales da Presidência da República, que renunciou ao cargo em meados de novembro. 

Depois de um turbulento período de instabilidade política, quando a Bolívia foi dirigida interinamente pela líder da oposição, a senadora Jeanine Añez, uma nova campanha eleitoral alçou um antigo aliado de Evo Morales – Luís Arce, ao poder em outubro de 2020. Grande parte da antiga “fórmula” de crescimento econômico a qualquer custo ambiental foi retomada.  

Somente nesse ano de 2021, a área total de queimada na Bolívia já superou a marca dos 1,65 milhões de hectares, o que inclui o Chaco e a Floresta Amazônica. Isso equivale a mais de ¾ da superfície do Estado de Sergipe, o que nos dá uma ideia de como andam as coisas por lá. 

E, muito pior – não há a menor sinalização de mudança no curto e médio prazo… 

A CAÓTICA EXPLORAÇÃO DE PETRÓLEO NA FLORESTA AMAZÔNICA NO EQUADOR 

De acordo com dados do Ministério do Meio Ambiente do Equador e que foram analisados pela Amazon Frontlines, um grupo internacional que luta na defesa dos direitos dos povos indígenas, ocorreram 1.169 vazamentos de petróleo no país entre 2005 e 2015. Cerca de 81% desses vazamentos ocorreram na Floresta Amazônica, onde foram perdidos cerca de 350 mil barris de petróleo

A Floresta Amazônica possui aproximadamente 120 mil km2 de área no Equador, o que corresponde a quase metade do território do país. As agressões ambientais no bioma incluem o “pacote clássico”: desmatamentos de áreas para implantação de campos agrícolas, queimadas, retirada de madeira – destaque aqui para a madeira de balsa, extração mineral e garimpos ilegais, além do plantio e produção de narcóticos como a cocaína, a exemplo do que ocorre em áreas da Amazônia em outros países Andinos

O país, entretanto, tem um grande diferencial quando se fala em agressões ambientais ao bioma Amazônico – o Equador é um grande produtor de petróleo. A extração comercial de petróleo na Amazônia equatoriana começou na década de 1960, apresentando um forte crescimento na década de 1970, quando grandes petrolíferas internacionais como a Shell e a Texaco começaram a operar no país. Cerca de 68% da área da Amazônia equatoriana está sob concessão para a exploração petrolífera e se estimam em mais de 4 mil poços de petróleo na região

Um exemplo dos muitos acidentes com petróleo na região foi o que ocorreu em abril de 2020, quando uma tubulação do SOTE – Sistema Oleoduto Transequatoriano, foi atingida por um deslizamento de terra e provocou o vazamento de um volume entre 4 mil e 15 mil barris de petróleo (existem divergências nas fontes de informação). 

Esse vazamento ocorreu entre as províncias de Sucumbios Napo, e a mancha de óleo atingiu os rios Cocal Napo. Esse foi considerado o maior vazamento de petróleo no Equador nos últimos 15 anos. Ao menos 2 mil famílias indígenas e outros 120 mil ribeirinhos ficaram sem acesso a fontes de água potável, além de sofrerem com a restrição à pesca, uma das principais fontes de proteína dessas populações. 

O oleoduto SOTE tem cerca de 500 km de extensão e está em operação desde 1972. Esse sistema permite o transporte do óleo cru desde as áreas de produção na Floresta Amazônica até os portos localizados no Oceano Pacífico, atravessando a Cordilheira dos Andes. Essa é uma região com forte atividade sísmica, o que resulta em frequentes acidentes e danos nas tubulações. 

De acordo com inúmeras denúncias de ambientalistas e de grupos de defesa das nações indígenas, essa exploração petrolífera foi iniciada sem uma legislação ambiental adequada, o que acabou resultando em graves agressões ambiental. Segundo essas denúncias, várias nações indígenas foram altamente impactadas, sendo que vários grupos desapareceram por completo. 

Uma das questões discutidas é a concessão de blocos de exploração petrolífera dentro de áreas “teoricamente” de preservação como reservas indígenas, reservas naturais e parques nacionais. A maior concentração de áreas de exploração fica na região Norte do Equador, território ancestral de povos indígenas como os Cofan, Siona, Secoya e Waorani, além de abrigar grupos dos Napo-kichwas e Shuars, que se estabeleceram na região durante o ciclo da exploração do látex. 

exploração de petróleo no Equador teve início no começo do século XX, quando foram abertos os primeiros poços na Península de Santa Helena no litoral do país. Em meados desse século foram feitas as primeiras descobertas de grandes reservas de petróleo na Floresta Amazônica, fato que chamou a atenção das grandes petrolífera internacionais e colocou o país entre os grandes produtores mundiais.  

Rapidamente, a extração e a exportação do petróleo se transformaram na principal atividade econômica do Equador, tendo as demais atividades econômicas relegadas a um segundo plano. Nessa primeira fase, as grandes petrolíferas estrangeiras passaram a dominar a economia do país, cometendo todos os tipos de abusos de econômicos, sociais e ambientais. 

Essa situação só começaria a mudar em 1989, quando o petróleo foi nacionalizado com a criação da EP Petroecuador – Empresa Estatal Petróleos del Ecuador. Essa nova empresa nasceu a partir da reestruturação da antiga CEPE – Corporación Estatal Petrolera Ecuatoriana, criada em 1972

Essa nova etapa da produção petrolífera no país foi marcada pela abertura de uma série de processos judiciais contra as antigas concessionárias. Um dos casos mais rumorosos foi o processo judicial movido contra a Chevron-Texaco, grupo que operou no Equador ao longo de 26 anos. Segundo as estimativas oficiais, o grupo perfurou 339 poços em blocos de concessão com uma área total de 430 mil hectares, com um volume de petróleo extraído calculado em 1,5 bilhão de barris

De acordo com as denúncias difusas do Governo do Equador, as operações da Chevron-Texaco resultaram em vazamentos de milhões de barris de petróleo em rios e matas, além da queima de grandes volumes de gás. Essas agressões teriam resultado em desmatamentos, contaminação de áreas pantanosas, perda de biodiversidade, apropriação de materiais naturais, salinização de rios, morte de animais domésticos e selvagens, exploração de mão de obra local, aumento da incidência de doenças como o câncer, entre outros problemas. 

Essa ação, que foi chamada de “julgamento do século” no país, resultou na condenação da Chevron-Texaco em 2011. O grupo foi condenado ao pagamento de uma multa no valor de US$ 9,5 bilhões. A Justiça equatoriana também exigiu que o grupo se desculpasse publicamente pelos danos ambientais dentro de um prazo de 15 dias, sob pena de ter o valor da multa dobrado. A Chevron-Texaco não se pronunciou e a multa passou ao valor de US$ 19 bilhões. 

Apesar do forte discurso nacionalista e da aparente preocupação com os impactos ambientais criados pela exploração petrolífera, o Equador continuou dependendo economicamente dessa atividade. As receitas geradas pela exportação do óleo cru garantem a importação de derivados de petróleo e de outros bens e produtos essenciais ao país. A exploração a “qualquer custo” continuou a ser incentivada, valendo a famosa opção por fazer “vista grossa” para os pequenos pecados ambientais. 

Em um momento em que o barril de petróleo Brent, uma das referências do mercado internacional, está cotado na casa dos US$ 80,00, é muito difícil imaginar que o Equador faça qualquer movimento mais drástico para resolver os enormes problemas gerados pela exploração do petróleo na Floresta Amazônica. 

Afinal de contas, o que são alguns milhares de índios e ribeirinhos, águas, matas e biodiversidade, quando as receitas da exploração do petróleo garantem a saúde econômica de um país com 18 milhões de habitantes… 

A AMAZÔNIA PERUANA TAMBÉM SOFRE COM OS DESMATAMENTOS 

O Brasil, a Bolívia e o Peru estão no topo da lista nada lisonjeira dos campeões mundiais em desmatamentos. Em comum, esses países compartilham a Floresta Amazônica, bioma que sofre agressões por todos os lados. Nas últimas postagens falamos dos problemas da floresta na Colômbia – hoje vamos falar um pouco da situação do bioma no Peru. 

O trecho peruano da Floresta Amazônica ocupa uma área de mais de 782 mil km2, o que corresponde a mais de 60% da superfície total do país vizinho. Depois do Brasil, o Peru é o país com a maior extensão da Amazônia em seu território. E os problemas ambientais por lá também não são nada pequenos. 

De acordo com informações da Global Forest Watch, um aplicativo de código aberto para monitorar florestas globais quase em tempo real, a Floresta Amazônica perdeu 3,1% de sua área no Peru entre 2002 e 2020. Desapareceram 2,16 milhões de hectares de floresta primária úmida nesse período

Essa grande perda de cobertura florestal está ligada a alguns problemas bastante conhecidos aqui no Brasil: desmatamentos para a abertura de campos agrícolas e para a formação de pastagens para o gado; exploração ilegal de madeiras e mineração – destaque aqui para os garimpos ilegais de ouro. Também existem problemas típicos dos países andinos da região – a plantação da coca e a produção e o refino da cocaína a exemplo do que ocorre na Colômbia. 

Em 2020, contrariando todas as expectativas por causa das restrições impostas pela epidemia da Covid-19, os desmatamentos cresceram no Peru. Foram mais de 203 mil hectares de perdas em cobertura florestal na Amazônia peruana em 2020, a maior registrada em 20 anos. Essa perda foi cerca de 55 mil hectares maior do que o registrado em 2019 e 177 mil hectares além do que foi registrado em 2014. 

Entre as razões para esse aumento nos desmatamentos, a principal suspeita recai sobre o grande desemprego que foi gerado pela pandemia da Covid-19 e a rígida quarentena imposta à população do país. Muitos peruanos acabaram voltando para as suas cidades e vilas de origem, onde passaram a se dedicar a atividades agropecuárias de subsistência. Isso teria gerado uma forte pressão para a derrubada de trechos de matas para a abertura de áreas para a agricultura e a criação de animais. 

A pandemia também levou muitos funcionários públicos ao afastamento de suas funções, o que acabou se refletindo em um número menor de fiscais em campo – como diz o velho ditado: “quando o gato saí de férias, os ratos fazem a festa”. Foi exatamente isso o que parece ter acontecido na Amazônia peruana. O que preocupa os especialistas é que as autoridades do país ainda não apresentaram um plano para conter esse crescimento nos desmatamentos. 

De acordo com um estudo publicado pelo MAAP – Projeto de Monitoramento da Amazônia Andina, na sigla em inglês, essa perda anual de florestas no Peru equivale a uma liberação de 12,5 milhões de toneladas métricas de carbono na atmosfera, algo equivalente às emissões de 10 milhões de automóveis. Se for considerado o período entre 2003 e 2020, são mais de 100 milhões de toneladas métricas de carbono ou o equivalente às emissões de 80 milhões de automóveis. 

Conforme tratamos em inúmeras postagens recentes, um dos maiores problemas climáticos do nosso planeta são as emissões de gases de Efeito Estufa, o que é uma das principais causa do aquecimento global. Dentro desse contexto, a preservação e o replantio de florestas é uma prioridade absoluta em todo o mundo.  

Árvores em crescimento absorvem grandes quantidades de carbono da atmosfera, ajudando a minimizar os problemas atmosféricos que induzem ao aquecimento global. Infelizmente, o que se vê é um aumento cada vez maior da derrubada de florestas em todo o mundo. De acordo com dados da ONU – Organização das Nações Unidas, foram perdidos mais de 420 milhões de hectares em áreas florestais em todo o mundo desde 1990, especialmente para a prática da agricultura

Além do Brasil e de países amazônicos vizinhos, essas grandes perdas de florestas também incluem a República Democrática do Congo e a Indonésia. Apesar de ocuparem regiões bastante distintas no globo terrestre, existe um elo em comum entre os desmatamentos em muitos desses países – a derrubada de florestas nativas para a formação de plantações de palma da Guiné, árvore que produz um coco de onde se extrai o valioso azeite de dendê

óleo de palma ou azeite de dendê responde por cerca de 35% de todos os óleos de origem vegetal produzidos no mundo, gerando negócios da ordem de US$ 40 bilhões a cada ano. Esse óleo está presente em uma série de alimentos industrializados onde se incluem margarinas, sorvetes, biscoitos, barras de cereais, chocolates, pães, bolos, doces, entre outros. Produtos químicos derivados do azeite de dendê são encontrados em detergentes, sabonetes, velas, cremes faciais e batons, entre muitos outros.   

Uma das aplicações mais recentes do azeite de dendê é o seu uso como biocombustível em motores a diesel. A abertura de campos agrícolas para o plantio de dendezeiros responde por cerca de 0,4% dos desmatamentos mundiais. Ou seja, o biocombustível renovável feito a partir dos frutos do dendezeiro é um dos grandes responsáveis pela destruição de florestas equatoriais e tropicais em todo o mundo. 

No Peru, a produção de azeite de dendê vem crescendo aceleradamente nos últimos anos. De acordo com uma estimativa feita pelo Governo do Peru em 2013, o país possuí um total de 1,4 milhões de hectares de terras adequadas para o cultivo da palma da Guiné no trecho local da Amazônia. Muitas dessas terras já foram desmatadas e transformadas em plantações dessa palmeira. Uma das regiões mais afetadas é Loreto. 

Uma das grandes ironias da devastação de florestas no Peru para a formação de plantações de palma da Guiné é que existe um programa de estimulo patrocinado pelo UNODC – Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crimes, na sigla em inglês. Esse programa estimula pequenos fazendeiros que plantam coca, a matéria prima da cocaína, a se transformarem em produtores de azeite de dendê, um produto que em tese seria sustentável

De acordo com executivos de grandes empresas do Peru que se dedicam a essa atividade, existe demanda de consumo mundial desse óleo que justificam a implantação de mais de 230 mil hectares de plantações de palma da Guiné no país. É claro que a maioria dessas áreas estão previstas para a região da Amazônia peruana. 

Para encerrar – países da União Europeia estão entre os maiores consumidores mundiais de azeite de dendê, produto que é usado, entre outros fins, na produção de biodiesel, um combustível sustentável. Entenderam a ironia? 

Enquanto isso, a Floresta Amazônica vai virando fumaça…

AINDA FALANDO DA DEVASTAÇÃO DA FLORESTA AMAZÔNICA NA COLÔMBIA

Na postagem anterior falamos rapidamente dos enormes problemas ambientais enfrentados pelo trecho colombiano da Floresta Amazônica. Cerca de 9% da maior floresta equatorial do mundo fica dentro do território do país vizinho e, guardadas as devidas proporções, os problemas por lá são até maiores do que os que temos por aqui. 

Um problema grave enfrentado pelo Governo central da Colômbia são os grupos revolucionários armados. Ao longo de mais cinquenta anos, esses grupos dominaram grandes áreas do país, especialmente dentro dos limites da Amazônia, e acabaram se valendo do plantio da coca e do refino e processamento da cocaína como fonte de financiamento para as suas operações. 

Há cinco anos atrás, o Governo e vários desses grupos paramilitares assinaram um acordo de paz, a partir do qual se esperava que a vida no país voltasse à normalidade. Infelizmente, muitos guerrilheiros “desempregados” acabaram juntando forças e criando seus próprios territórios, trocando a luta política pelo lucrativo comércio de entorpecentes. 

modus operandi usado para o cultivo da coca dentro do território da Floresta Amazônica lembra muito os tempos do plantio dos grandes cafezais nos domínios da Mata Atlântica no século XIX. Grandes extensões da mata eram derrubadas e queimadas, liberando os solos virgens e extremamente férteis para a formação dos cafezais. 

Sem a proteção da floresta e expostos às intempéries, esses solos perdiam a fertilidade dentro de poucos anos. Como haviam grandes extensões de matas virgens, novas áreas eram derrubadas e transformadas em novos cafezais. As antigas áreas com solos esgotados eram simplesmente abandonadas à sua própria sorte. É exatamente o mesmo modelo adotado para as plantações de coca na Colômbia. 

As terras usadas para essa produção normalmente ficam localizadas dentro de áreas públicas ou, em alguns casos, são propriedades particulares que foram tomadas pelos traficantes. Dados da Polícia Nacional da Colômbia de 2018, informam que aproximadamente 47% das plantações de drogas no país se encontravam dentro de Parques Nacionais Naturais, reservas indígenas ou em comunidades quilombolas. A área total ocupada por essas plantações superava a marca dos 225 mil hectares.   

Em áreas controladas por grupos guerrilheiros ou, mais precisamente, por narcotraficantes, como vem ocorrendo na Colômbia, ou em regiões isoladas onde a presença do Estado é insignificante, as populações locais são simplesmente forçadas, mediante os tipos mais cruéis de ameaças, a dedicar parte ou todo o seu tempo trabalhando no plantio e processamento dessas drogas.   

Produtores de drogas não tem qualquer compromisso com o meio ambiente – eles querem as melhores terras para conseguir uma alta produtividade em suas “culturas”. E não existem terras melhores do que os solos virgens de uma mata nativa. Em associação com contrabandistas de madeiras nobres, grandes extensões dessas matas são derrubadas a golpes de machado ou com motosserras (as queimadas são sempre evitadas para não chamar a atenção das autoridades), onde são formadas grandes áreas de cultivo.  

Como toda a região é minuciosamente monitorada por satélites de vigilância, os produtores costumam se valer do plantio “consorciado” com outras espécies agrícolas comuns como uma forma de disfarçar suas plantações de drogas. Nas Serras da Cordilheira dos Andes na Colômbia é mais comum o cultivo da batata e do milho junto com a coca e a papoula (essa última é matéria prima da heroína). Em regiões de planícies é mais comum o uso da mandioca e do milho. 

Conforme as necessidades de cada cultivo, serão usadas grandes quantidades de fertilizantes, além de muitos produtos químicos para o controle de insetos e ervas daninhas. As embalagens desses produtos serão descartadas sem qualquer preocupação com a contaminação de solos ou corpos d’água. Nos casos onde o objetivo é a produção de cocaína e heroína, coquetéis de produtos químicos serão utilizados no processamento das folhas e flores, com os resíduos descartados em solos e corpos d’água sem o menor remorso. 

Além de todos os problemas de violência que são decorrentes e/ou fazem parte da atividade criminosa, o plantio e o processamento de drogas ilícitas causa danos aos ecossistemas estratégicos, destrói a cobertura vegetal, leva espécie endêmicas à extinção, causa diminuição de áreas naturais, deteriora a qualidade dos corpos d’água devido a degradação física, química e biológica. Dependendo da área ocupada pelas plantações, o ciclo das chuvas e o clima local podem ser afetados, além de haver um aumento nas emissões de dióxido de carbono.  

Para completar, a “cereja do bolo”: quando a fertilidade dos solos ou a qualidade das águas nas plantações atinge elevados níveis de degradação, as atividades são simplesmente transferidas para áreas mais promissoras, onde os solos virgens das matas são excepcionalmente férteis e as águas límpidas abundam. O que fica para traz é um rastro de destruição – talvez a figura de “terra arrasada” seja a mais adequada.  

As áreas devastadas pela produção dessas drogas vão se juntar a outras grandes extensões destruídas por práticas agrícolas insustentáveis e irresponsáveis em todo o continente. Não é incomum a transformação de antigas áreas de plantio de coca em pastagens para a criação de gado. 

Entre as principais rotas usadas para o escoamento dessas drogas estão os rios da Bacia Amazônica dentro do território brasileiro. Existem milhares de embarcações usadas para o transporte de pessoas e cargas entre cidades espalhadas por toda a Amazônia. Os entorpecentes são misturados com cargas de peixes, frutas e cereais, sendo assim transportados para regiões onde estão instalados grandes portos e também os grandes aeroportos. 

Entre os maiores mercados consumidores estão os países da União Europeia e os Estados Unidos. De quando em vez, a Polícia Federal e a Marinha do Brasil conseguem abordar alguma dessas embarcações e fazer uma grande apreensão de entorpecentes.  O gigantismo da Amazônia, infelizmente, joga a favor dos traficantes. 

Muitos ecologistas de “carteirinha”, que “lutam abnegadamente” contra a destruição da Floresta Amazônica e de outros importantes biomas desde seus confortáveis apartamentos no Leblon, Ipanema e Copacabana, no Rio de Janeiro; nos Jardins e na Vila Madalena em São Paulo, ou ainda em áreas nobres de Nova York, Londres ou Paris, costumam cheirar suas “carreirinhas” de cocaína ou usar heroína sem maiores preocupações.   

Hipocrisia também destrói florestas… 

A DEVASTAÇÃO DA FLORESTA AMAZÔNICA – NA COLÔMBIA 

O trecho colombiano da Floresta Amazônica ocupa uma área total de mais de 480 mil km², o que corresponde a cerca de 42% do território do país vizinho. Considerando que o bioma Amazônico ocupa uma área com aproximadamente 5,5 milhões de km² (existem estimativas que falam de até 7 milhões de km², cifra que inclui áreas de transição entre biomas), a Colômbia abriga cerca de 9% da Floresta Amazônica

Muito de fala na imprensa internacional das queimadas e da devastação ambiental na Amazônia brasileira, porém, muitos parecem desconhecer o fato que 40% da floresta está inserida dentro do território de países vizinhos. Além da Colômbia, entram na lista Bolívia, Equador, Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana Francesa. Em cada um desses países, em maior ou menor escala, existem inúmeros problemas ambientais

Na Colômbia, guardadas as devidas proporções, os problemas ambientais são até mais graves do que os que ocorrem no Brasil. Além da expansão das frentes agrícolas convencionais, da exploração madeireira e da criação de pastagens para o gado, o país vem sofrendo já há várias décadas com o domínio de extensas áreas do seu território por grupos revolucionários armados, como é o caso das FARC – Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (vide foto).  Esses grupos associaram seus objetivos revolucionários com o narcotráfico.

A origem dos grupos revolucionários armados da Colômbia remonta ao final da década de 1940, época em que o país entrou num forte ciclo de tensões políticas. Em abril de 1948, o candidato liberal à presidência da república – Jorge Eliécer Gaitán foi assassinado, desencadeando em um período de distúrbios e tensões sociais conhecidos como “La  Violencia”. Esses distúrbios se espalharam por todo o país e resultaram num saldo de, pelo menos, 180 mil colombianos mortos até o início da década de 1950. 

Ao longo das décadas seguintes, foram surgindo vários grupos armados de oposição política, grupos esses que foram conquistando seus próprios territórios, especialmente dentro da Floresta Amazônica. Pouco a pouco, esses grupos perceberam que o controle da produção e da exportação de cocaína seria uma importante fonte de financiamento para as suas atividades revolucionárias. 

Há cerca de cinco anos, sem nos prendermos a muitos detalhes, o Governo central da Colômbia e vários desses grupos armados chegaram a um acordo de paz, onde se imaginava estabelecer um clima de normalidade em todo o país. Infelizmente, não foi exatamente o que aconteceu. 

Inúmeros guerrilheiros “desempregados” passaram a organizar seus próprios grupos de narcotráfico e passaram a controlar pequenos territórios por toda a Amazônia colombiana. Esses grupos organizam desmatamentos e nessas áreas implantam cultivos de coca, planta nativa da Cordilheira dos Andes e da qual se extrai a valiosa cocaína. 

O Ministério Público da Colômbia afirma que esses grupos se concentram na região Sul do país e, desde 2016, eles vêm praticando um desmatamento bastante acelerado de extensas áreas da Floresta Amazônica. Segundo informações do IDEAM – Instituto de Hidrología, Meteorología y Estudios Ambientales, da Colômbia, os desmatamentos na Amazônia colombiana aumentaram cerca de 76% em apenas dois anos, passando de cerca de 123 mil hectares em 2015 para 219 mil hectares em 2017. 

As áreas desmatadas são usadas para a introdução de cultivos de coca, para pecuária extensiva e também para a construção de unidades para o refino e processamento das folhas de coca para obtenção da cocaína. De acordo com informações coletados por jornalistas estrangeiros, muitos latifundiários se valem da associação com os narcotraficantes e estão pagando os camponeses para derrubar trechos da floresta para ampliar suas fazendas. 

A coca (Erythroxylum coca) é uma planta arbustiva originária de terrenos elevados da Cordilheira dos Andes na Bolívia e no Peru. As folhas da coca possuem substancias com propriedades analgésicas que aplacam a fome e a fadiga. Os indígenas da região conhecem as propriedades da planta desde a antiguidade e tem o hábito de mascar suas folhas. 

Até o início da década de 1990, a Colômbia respondia por menos de 15% da produção mundial de folhas de coca. A partir dos primeiros anos da década de 2000, a produção cresceu muito, com o país chegando a concentrar 80% de toda a produção de cocaína do mundo

De acordo com estimativas do UNIDOC, Escritório das Nações Unidas contra as Drogas e o Crime, a produção de coca na Colômbia emprega mais de 60 mil famílias no país. A produção de cocaína pura é estimada em mais de 1.200 toneladas/ano

Os cultivos estão concentrados nos departamentos de Norte de Santander, na região Nordeste; Nariño, Putumayo e Cauca, na região Sudoeste; e Antioquia, no Noroeste. A UNIDOC estima que 48% das áreas de cultivo de coca no país esteja concentrada em áreas protegidas dentro da Floresta Amazônica, especialmente em parques nacionais e reservas indígenas

De acordo com estimativas da ONU – Organização das Nações Unidas, o narcotráfico internacional movimenta mais de US$ 320 bilhões a cada ano, um valor que corresponde a 1% do PIB – Produto Interno Bruto, mundial. A cocaína é uma das grandes “estrelas”, tendo os Estados Unidos e países da União Europeia como grandes mercados consumidores. Esse comércio ilícito gera ao menos US$ 35 bilhões ao ano apenas no mercado norte-americano. 

É o enorme poderio paramilitar e econômico dessa “indústria” que está por trás de grande parte da devastação ambiental da Floresta Amazônica na Colômbia. De acordo com a publicação “Coca: Desmatamento, contaminação e pobreza” da PNC – Policía Nacional de Colômbia, “a produção de drogas destrói no país uma média de 40.531 hectares de florestas por ano, ou seja, cerca de 111 hectares por dia, onde 80 por cento das espécies de árvores analisadas só existem nesse bioma”.  

Essa degradação ambiental também se reflete na destruição de habitats, onde são afetadas uma infinidade de espécies animais: são “600 aves, 170 répteis, 100 anfíbios e mais de 600 peixes”.  Além da perda de floresta para o plantio da coca, as operações de refino para a obtenção da cocaína usam grandes volumes de produtos químicos, cujos resíduos são despejados nos rios. 

Para o refino da cocaína são utilizados acetona, querosene, ácido sulfúrico, cal, carbureto e tolueno. Segundo os especialistas, a produção de cada quilograma da pasta básica de cocaína gera entre 400 e 600 gramas de resíduos químicos

Continuaremos a falar dos problemas na Amazônia colombiana na próxima postagem. 

A TAXA DE DESMATAMENTO NA AMAZÔNIA LEGAL BRASILEIRA CRESCEU 21,97% NO ÚLTIMO ANO 

No último dia 18 de novembro, o INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, divulgou o relatório sobre os desmatamentos na Amazônia Legal Brasileira no período entre 1° de agosto de 2020 e 31 de julho de 2021. Os dados indicam um aumento na taxa de desmatamentos de 21,97% e uma perda de 13.225 km² de cobertura vegetal no período

O INPE coordena o PRODES – Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite. Toda a região da Amazônia Legal é fotografada sistematicamente por satélites de monitoramento ligados ao órgão e as novas imagens são comparadas com as imagens em arquivo pelos técnicos do órgão. Quando existe alguma diferença nas áreas de vegetação, essa perda é computada no sistema, sem qualquer tipo de ingerência política. 

Em primeiro lugar, essa é uma informação vexaminosa para o país, cujos representantes assumiram inúmeras promessas de zerar os desmatamentos ilegais até o ano de 2030, promessas que inclusive foram confirmadas na recente reunião da COP26, em Glasgow, na Escócia, há pouco mais de 15 dias atrás. Como diz o velho ditado: “a gente poderia ter ido dormir sem essa notícia”. 

Dito isto, existem algumas considerações a serem feitas: 

A notícia deixa claro que os dados se referem a Amazônia Legal, um conceito que nem todos os leitores – especialmente os estrangeiros, entendem corretamente. Além de incluir a totalidade da região onde encontramos a Floresta Amazônica, a região da Amazônia Legal inclui a totalidade do Estado do Mato Grosso e do Tocantins, além de parte do Maranhão, o que corresponde a uma área total de mais de 5,2 milhões de km²

Caso qualquer um dos leitores tenha a curiosidade de consultar um mapa de biomas, vai perceber facilmente que o bioma Amazônico ocupa apenas a faixa Norte do Estado do Mato Grosso, um pequeno trecho no Noroeste do Tocantins e uma faixa no Leste do Maranhão. A maior parte do Mato Grosso e do Tocantins são cobertas pelo bioma Cerrado. No Maranhão, além do bioma Amazônico, existem áreas cobertas pelos biomas Cerrado e Caatinga. 

De acordo com os dados divulgados pelo INPE, o Estado do Mato Grosso perdeu 2.263 km² de cobertura vegetal no período, que tanto podem ser do bioma Amazônico quanto do Cerrado. Em tempos onde o mundo inteiro está olhando com lupa tudo o que está acontecendo na Floresta Amazônica, essa imprecisão na informação pode ser bastante significativa. 

Um outro dado interessante é o peso do Pará nessa taxa de desmatamento – o Estado perdeu 5.257 km² de cobertura vegetal no período, o que corresponde a 40% do total. Em postagem recente falamos da grande concentração de queimadas na região Nordeste do Pará, justamente uma das regiões onde a Floresta Amazônica sofreu os maiores desmatamentos ao longo da história. 

Naquela postagem comentamos que a maior parte das queimadas vem de pequenas propriedades onde se utiliza a coivara, a tradicional técnica indígena de uso do fogo para a limpeza de áreas para a prática de agricultura de subsistência. Também falamos que muitas dessas queimadas são feitas por madeireiros e garimpeiros de forma ilegal, onde só existe um único remédio – usar a força da lei como forma de inibição

Outro Estado onde a situação é preocupante é Rondônia, onde a área desmatada foi de 1.681 km². Localizado inteiramente dentro do bioma Amazônico, o Estado é um grande produtor de grãos, especialmente soja, e de gado bovino – esses desmatamentos podem estar ligados ao aumento de áreas para produção agropecuária.  

Se isso for confirmado, teremos sérios problemas a médio e longo prazo: está se formando um verdadeiro cerco às exportações brasileiras de grãos e carnes por alguns países. Qualquer um desses produtos que venha dessas áreas de desmatamento ilegal na Amazônia ficarão fora do mercado internacional, com potencial para comprometer produtos de outras regiões brasileiras distantes. 

Outro Estado que aparece em destaque no relatório do INPE é o Amazonas, Reconhecido como o Estado onde a Floresta Amazônica apresenta a maior cobertura vegetal original, o Amazonas perdeu 2.347 km² de áreas verdes no período, um crescimento de mais de 55% em relação ao período anterior. Será importante que as autoridades competentes examinem com cuidado o que acontece por lá. 

Um dos maiores problemas que enfrentamos nessa área são as dificuldades de fiscalização. Falamos de uma região que tem exatamente a metade da área da Europa (incluindo na conta todo o trecho europeu da Rússia). Além de muito grande, a região faz fronteira com diversos países, sendo muito fácil para qualquer um entrar e sair sem qualquer tipo de controle governamental. 

Para complicar ainda mais o problema, o número de fiscais na região é baixíssimo. Segundo informações divulgadas pela imprensa, o IBAMA – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente, um dos órgãos que tem entre suas atribuições a fiscalização da Amazônia, perdeu 55% dos seus fiscais nos últimos 10 anos – de um total de 1.311 fiscais em 2010, o órgão estaria com apenas com 591 fiscais atualmente. 

Nos últimos anos, contingentes das Forças Armadas Brasileiras e da Força Nacional de Segurança têm feito trabalhos de apoio às ações de combate aos desmatamentos, coibição do garimpo ilegal e exploração irregular de madeiras na região. Imagino que sem esse apoio as taxas de desmatamento teriam sido ainda maiores. 

Sem qualquer cor partidária ou ideologia, é preciso que Governantes de todos os níveis – Governo Federal e também os Estados e Municípios da Amazônia Legal, se unam na criação de um plano sério para o combate a esses desmatamentos ilegais na região. É preciso sempre lembrar que nosso país assumiu o compromisso de zerar os desmatamentos ilegais até 2030, ou seja, daqui a pouco mais de 8 anjos. 

A perda e cobertura vegetal que foi anunciada corresponde a apenas 0,25% da área total da Amazônia Legal, porém, para figuras do calibre de Emmanuel Macron, Leonardo di Caprio e Greta Thunberg, essa área é maior do que o Deserto do Saara

PS: Postagem n° 1.400 do Blog.

“A ENERGIA SOLAR É REALMENTE LIMPA?” 

A intrigante pergunta no título dessa postagem repete o título de um interessante documentário produzido pela DW – Deutsche Welle, o canal de televisão pública da Alemanha. Com pouco mais de 8 minutos de duração, o enredo do documentário faz a gente parar para pensar em tudo o que vive sendo repetido sobre o uso da energia fotovoltaica. 

A geração fotovoltaica é uma das mais limpas em uso atualmente no mundo – para cada 1 kW/hora gerado, esse sistema emite apenas 40 gramas de dióxido de carbono (CO2), um dos gases de Efeito Estufa mais importantes e reconhecido como um dos grandes vilões do aquecimento global.  

Para efeito de comparação, a geração de energia elétrica em fontes que usam derivados de petróleo produz 486 gramas de CO2 para cada 1 kW/hora. O gás natural e o carvão mineral produzem, respectivamente, 500 e 1.000 gramas de CO2 para cada 1 kW/hora gerados. A campeã em baixa emissão é a energia eólica com apenas 16 gramas de CO2 para 1 kW/hora gerado

A geração fotovoltaica é comprovadamente uma das mais limpas, mas não é tão limpa quanto imaginamos. A produção dos painéis solares utiliza matérias primas e envolve diversos processos de produção industrial, os quais, como acontece em todos os processos similares, deixam a sua pegada de carbono. Vejamos:

Comecemos falando das principais matérias primas de origem mineral usadas na fabricação dos painéis: a sílica e a prata. As atividades mineradoras, conforme já tratamos em outras postagens, são altamente agressivas ao meio ambiente. A cobertura vegetal de uma determinada área é suprimida, os solos são escavados e enormes volumes de sedimentos precisam ser transportados.  

Esses trabalhos envolvem o uso de máquinas pesadas com motores que queimam óleo diesel e outros combustíveis fósseis. As rochas precisam passar por um beneficiamento, o que gera grandes volumes de rejeitos minerais. É comum a presença de metais pesados como o mercúrio, chumbo e o cromo nesses rejeitos, elementos que causam graves contaminações nas fontes de água. Depósitos de rejeitos minerais também podem criar grandes acidentes ambientais (lembram de Mariana e de Brumadinho?). 

A sílica é a matéria prima do silício, um cristal semicondutor fundamental na indústria eletroeletrônica. Para a extração de silício com alto grau de pureza, a sílica passa por complexos processos de refino, onde se gera o tetracloreto de silício, um resíduo altamente tóxico ao meio ambiente. Caso não seja devidamente contido e reciclado, esse material pode se transformar em um perigoso contaminante das fontes de água. 

A maior produtora de painéis solares do mundo é a China, um país que não tem uma das melhores famas na gestão ambiental, e também nas suas políticas de trabalho e gestão de mão de obra. Vamos direto na “jugular”: grande parte da energia elétrica usada na China vem de centrais térmicas a carvão, combustível fóssil campeão em emissões de gases de efeito estufa. Lembro que a eletricidade é um insumo industrial fundamental. 

Durante o processo de produção dos painéis solares diversos produtos químicos tóxicos são usados. Um destaque é o ácido fluorídrico, produto usado para limpar as pastilhas de silício antes da montagem final dos painéis. Esse produto é altamente corrosivo e precisa ser manuseado com extremo cuidado pelos trabalhadores. Outros elementos químicos perigosos como arsênico, cádmio e chumbo também podem entrar nos processos produtivos. 

Numa segunda etapa passamos para a fase do transporte dos produtos, que além dos painéis solares incluem conversores de energia, reguladores de tensão e baterias, entre outros. Os grandes navios cargueiros em operação são movidos, majoritariamente, com óleo combustível, um dos derivados de petróleo mais poluentes em uso. Esse transporte também pode envolver aviões, trens e caminhões, onde também se usam combustíveis fósseis. 

De acordo com algumas estimativas, toda essa pegada de carbono envolvida nessas primeiras fases da produção dos painéis solares e demais equipamentos serão compensadas em cerca de 2,5 anos pela geração de energia elétrica limpa. Essa é uma conta que faz bastante sentido. 

Painéis solares podem ser usados até por 30 anos e, algum dia, acabarão precisando ser substituídos. A exposição contínua aos raios solares e aos elementos naturais – especialmente grãos de areia carreados pelos ventos, deixam o revestimento superficial dos painéis cada vez mais fosco, o que vai reduzindo o seu rendimento na produção da eletricidade. 

Também existe o problema da obsolescência tecnológica – painéis antigos geram menos energia elétrica por metro quadrado que os novos modelos. A necessidade de modernização sempre vai levar a uma substituição sistemática desses materiais. 

De acordo com dados da IEA – International Energy Agency, Agencia Internacional de Energia na sigla em inglês, as fontes de geração fotovoltaica em países como China, Alemanha, Japão e Estados Unidos se aproximam rapidamente de 30% da matriz energética. A EIA prevê um crescimento de, pelo menos, 50% nesse volume até 2030. Hajam painéis solares e demais equipamentos. 

Segundo a IRENA – International Renewable Energy Agency, Agência Internacional de Energia Renovável na sigla em inglês, o volume atual de resíduos de painéis solares é da ordem de 250 mil toneladas a cada ano. As projeções indicam que em 2050, devido ao forte crescimento do setor, esse volume chegará a 78 milhões de toneladas/ano

Aqui chegamos ao mesmo problema enfrentado pelo chamado lixo eletrônico: a reciclagem é inviável economicamente. Componentes eletrônicos utilizam uma série de metais nobres de alto valor, onde se incluem coltan, ouro, prata, platina, cobre, estanho, níquel, cromo e zinco, entre muitos outros. Apesar de valiosos, as quantidades desses metais por volume são muito pequenas e os custos envolvidos para a sua retirada são enormes

Já existem depósitos com grandes montanhas de painéis solares antigos esperando por uma destinação ambiental adequada, algo que ainda está longe de ser alcançado. E essa montanha de resíduos está crescendo de forma exponencial. 

A energia fotovoltaica tem se mostrado fundamental na redução mundial das emissões de gases de efeito estufa. Porém, ainda serão necessários enormes esforços para tornar essa geração 100% verde, algo que não ocorre nesse momento.