AS QUEIMADAS NOS CANAVIAIS DA ÍNDIA E A POLUIÇÃO DO AR NAS GRANDES CIDADES

Mulher indiana cortando cana

Na postagem anterior falamos de um dos mais graves problemas ambientais da Índia – os altíssimos níveis de poluição do ar nas grandes cidades do país. De acordo com estudos realizados pela OMS – Organização Mundial de Saúde, 14 das 15 cidades com o ar mais poluído do mundo estão na Índia, onde se inclui Nova Déli, Mumbai, Calcutá, Chennai, Bangalore, Hyderabad, entre outras.

Além dos conhecidos problemas criados pelas emissões de veículos automotores, de fábricas e de centrais de geração termelétrica a carvão, as queimadas realizadas em propriedades rurais, especialmente em canaviais, também geram um substancial volume de gases poluentes.

A cana-de-açúcar é, há milhares de anos, uma das culturas agrícolas de destaque na Índia e a queima da sua palha nos momentos de colheita é feita para facilitar o corte das plantas. O Brasil é o maior produtor de cana-de-açúcar do mundo, usada como matéria prima para a produção de açúcar e de etanol (álcool combustível), entre outros produtos. A produção brasileira de cana-de-açúcar é da ordem de 720 milhões de toneladas.

A Índia vem na segunda posição, com uma produção anual de 320 milhões de toneladas, seguida pela China com 112 milhões de toneladas. Nesses dois países, a produção é destinada quase que exclusivamente para a produção do açúcar. Brasil, Índia e China produzem dois terços de toda a cana-de-açúcar do mundo. Cada indiano consome mais de 40 kg por ano e são os maiores consumidores de açúcar per capita do mundo. A média de consumo mundial é de 23 kg por habitante; nos Estados Unidos e na Europa o consumo é mais alto, da ordem de 32,5 e 35,1 kg, respectivamente.

Diferente do que acontece aqui no Brasil, onde grande parte da produção é feita em grandes propriedades, na Índia o plantio da cana-de-açúcar é realizado por pequenos produtores rurais em áreas com um tamanho médio de 1,8 hectares. Segundo estimativas do Governo central do país, são 30 milhões de propriedades produtoras, onde o plantio e a colheita manual são feitos por famílias. A queima de tantos canaviais ao mesmo tempo, assim como é feito em muitas regiões aqui no Brasil, gera enormes problemas ambientais.

A queima da palha de 1 tonelada de cana gera a emissão de 9 kg de CO2 (dióxido de carbono), além de outros gases como o monóxido de carbono (CO), o óxido nitroso (N2O), o metano (CH4). A queima da palha também contribui para a formação do ozônio (O3). Outro problema sério é a geração de fuligem – quem mora próximo de regiões produtoras de cana conhece bem o drama dos períodos de queima dos canaviais e da fumaça e da fuligem que invadem as casas dos moradores.

Um dos grandes problemas ambientais criados por esses gases é a chuva ácida, que contamina fontes de abastecimento de água, o que pode comprometer a biodiversidade, provocar a destruição de áreas florestais e induzir mortandades de peixes. Atingindo populações humanas, esses gases diminuem a resistência do organismo, causam infecções e irritação nos olhos, além de problemas cardiorespiratórios.

A cana-de-açúcar (Saccharum officinarum) é originária da Índia e resulta da hibridização de diversas espécies nativas do Sudeste Asiático, incluindo espécies do Subcontinente Indiano, China, Nova Guiné, Filipinas e Malásia, entre outras. Estudos indicam que o cultivo da planta começou por volta do ano 6 mil a.C, quando os indianos desenvolveram o processo de refino e produção do açúcar, que em sânscrito é çakkara. Os árabes adaptaram a palavra para súkkar e, posteriormente, os gregos usaram a palavra para sákcharon, raiz da conhecida palavra sacarose.

A produção do açúcar vem sendo uma atividade econômica fundamental para os indianos desde o passado remoto. Além de constituir uma parte importante da cultura e da culinária indiana, o açúcar sempre foi um importante produto de exportação. Mercadores indianos vendiam o açúcar em portos de todo o Oceano Índico, popularizando o seu consumo como remédio e alimento.

A partir da Índia, a cultura da cana-de-açúcar se estendeu para a Pérsia meridional e depois para a Península da Arábia. Os primeiros europeus a conhecer a cana-de-açúcar e a experimentar o açúcar foram provavelmente os soldados gregos que acompanhavam Alexandre III da Macedônia (356-323 a.C.). Mercadores árabes se encarregaram de espalhar o açúcar por todo o Oriente Médio, Norte da África, Ásia Central e Europa. Os primeiros canaviais na Europa surgiram no Sul da Espanha em 711 e na Sicília, ilha do Sul da Itália, em 827. Em Portugal, as primeiras mudas de cana-de-açúcar foram plantadas na região do Algarve a parte do ano de 1159.

Nas principais línguas da Europa Ocidental e dos países nórdicos é bastante fácil perceber que a palavra árabe seguiu o caminho dos mercadores: açúcar, azúcarazucre, sucre, azucre, sucre, suggar, siúcra, zucchero, suiker, zucker, sukker, socker, sukke, sykur e sokeri, respectivamente, em português, espanhol, galego, catalão, basco, francês, inglês, irlandês, italiano, holandês, alemão, dinamarquês, sueco, islandês, norueguês e finalndês.

A cana-de-açúcar chegou ao Brasil na década de 1530, nos mesmos navios que transportaram os primeiros colonizadores, escravos e bois. Desde a alta Idade Média, o açúcar se transformou em um dos produtos mais cobiçados do mundo, sendo vendido em gramas e a “peso de ouro” nas boticas da Europa. Durante os nossos três primeiros séculos de história, o plantio da cana e a produção do açúcar refinado para exportação foram as atividades econômicas mais importantes do Brasil. Essa cultura também foi a principal responsável pela destruição do trecho Nordestino da Mata Atlântica.

As principais regiões produtoras de açúcar no mundo se encontram nas zonas de clima tropical e subtropical, especialmente em países pobres e em desenvolvimento. Além dos problemas ambientais criados pela derrubada de matas para a abertura de campos agrícolas e da poluição gerada pela queima da palha na época das colheitas, a cultura do açúcar também é famosa pelo uso de mão de obra infantil e exploração dos trabalhadores. As famílias dos agricultores são pobres e as crianças são obrigadas a ajudar os pais desde a mais tenra idade.

Na Índia, onde 68% da população vive em áreas rurais, mais de 100 milhões de pessoas  dependem, direta e indiretamente, das atividades ligadas à produção da cana-de-açúcar. A imensa maioria é oriunda das camadas mais pobres da sociedade. Por mais problemas que a queima da palha possa gerar nas grandes cidades, a dependendência que essa imensa massa de pessoas tem da cultura da cana-de-açúcar coloca os Governantes contra a parede.

Em várias regiões do mundo, a queima dos canaviais não é mais necessária, uma vez que a colheita é feita por máquinas agrícolas. Aqui no Brasil, grandes esforços vem sendo feitos para minimizar esse problema. No Estado de São Paulo, citando um exemplo, as grandes usinas produtoras de açúcar são proibidas de queimar os canaviais desde 2017 e vem utilizando maquinário nas colheitas. Apesar dos enormes ganhos ambientais, essa mudança obrigou a requalificação de cerca de 400 mil trabalhadores que trabalhavam no corte da cana e que ficariam desempregados. Imaginar algo do tipo na Índia é quase impossível.

O grande dilema da Índia: escolher entre o doce sabor do açúcar e o combate aos graves efeitos da poluição em suas grandes cidades. Difícil escolha.

A SUFOCANTE ATMOSFERA DAS GRANDES CIDADES DA ÍNDIA

Poluição em Nova Déli

Em novembro de 2019, a capital da Índia – Nova Déli, e cidades vizinhas da Região Metropolitana foram tomadas, mais uma vez, por uma forte e densa nuvem de poluição, muito parecida com um nevoeiro. Voos foram cancelados por falta de segurança devido à baixa visibilidade, problema que também causou diversos engavetamentos nas grandes avenidas das cidades. Moradores que andavam pelas ruas passaram mal, com dificuldades respiratórias e vômitos. O Governo decretou estado de emergência, pedindo que a população não saísse às ruas, numa espécie de quarentena. Escolas, indústrias e comércio em geral permaneceram fechados por vários dias. 

De acordo com medições e análises da qualidade do ar, a atmosfera da região apresentava naquele momento uma concentração de partículas em suspensão de 113 microgramas para cada metro cúbico de ar. De acordo com as recomendações da OMS – Organização Mundial de Saúde, a concentração máxima de partículas finas a que uma pessoa pode ser exposta não deve exceder a 10 microgramas por metro cúbico de ar. Isso que indica que os moradores de Nova Déli e região de entorno estavam convivendo com níveis de poluição mais de dez vezes acima do máximo aconselhado

De acordo com estudos realizados pela Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, a expectativa de vida de um indiano médio que vive dentro da atmosfera altamente poluída da capital da Índia é reduzida, em média, em 10,2 anos. Respirando um ar altamente poluído, esses indianos podem desenvolver inúmeras doenças, especialmente no trato respiratório como o câncer de pulmão e doenças cardiovasculares, e ficam sujeitos a uma morte prematura. Segundo os especialistas, respirar o ar da cidade têm riscos semelhantes ao de se fumar 50 cigarros por dia. 

De acordo com dados da Comissão Lancelot sobre Estudos sobre Poluição e Saúde, cerca de 25% das mortes que acontecem anualmente na Índia estão associadas aos efeitos nocivos da poluição do ar. Cerca de 92% das mortes provocadas pela poluição do ar acontecem em países de baixa e média renda como a Índia. Essa Comissão é uma iniciativa do jornal médico britânico Lancelot que tem como objetivo “aumentar a consciência global acerca da poluição química, superar a negligência com as doenças relacionadas à poluição e mobilizar os recursos e a vontade política necessários para enfrentar, efetivamente, os desafios existentes”. 

Um estudo feito pela OMS em 2014 feito em 1.600 cidades de 91 países, colocou Nova Déli na posição de cidade mais poluída do mundo. A capital indiana não está sozinha nessa situação – 14 das 15 cidades com o ar mais poluído do mundo estão na Índia. As principais fontes de poluição são os veículos, a queima de carvão em usinas termelétricas, indústrias antigas que não usam sistemas de filtros em suas chaminés e também a queima de palha de arroz e as queimadas dos canaviais feitas por agricultores. Em algumas épocas do ano, especialmente no inverno, as condições climáticas facilitam o acúmulo de poluentes. 

Conforme comentamos em postagens anteriores, a Índia é um dos países que mais crescem no mundo, tanto em termos econômicos quanto populacionais. O país tem cerca de 1,34 bilhão de habitantes, só perdendo para China. Projeções demográficas indicam que o país terá a maior população do mundo em 2035. Assim como acontece com a China, a mão de obra indiana é muito barata, o que torna o país atrativo para a produção de uma imensa gama de produtos de consumo, industriais e, especialmente, na área de tecnologia da informação, além da prestação de serviços. 

Esse contexto econômico e social transformou a Índia num dos maiores consumidores de energia elétrica do mundo e com um agravante – cerca de 2/3 de toda a energia elétrica consumida no país vem de centrais termoelétricas a carvão. Essa situação coloca o país entre os maiores emissores de dióxido de carbono do mundo e transforma a atmosfera das suas principais cidades em um inferno tóxico para seus moradores. A fortíssima poluição do ar se junta a poluição dos solos e das águas no país

As populações mais pobres das grandes cidades, como sempre, são as que mais sofrem com os altíssimos níveis de poluição do ar. Em Nova Déli, por exemplo, uma reportagem da AFP – Agência de Notícias France Press, apurou que o custo de uma máscara para se defender minimamente da poluição custa o equivalente ao ganho diário de um motorista de riquixá, os tradicionais triciclos motorizados usados no transporte de pessoas. Já um circulador de ar residencial com sistema de filtro custa o equivalente a um ano de salário desse motorista. 

O mesmo drama se estende aos operários da construção civil, ambulantes e vendedores de ruas, varredores de rua e coletores de lixo, lavadeiras e mais um sem número de atividades feitas ao ar livre. Também precisam ser incluídos nessa lista as imensas legiões de sem-teto que moram nas ruas e grotões das grandes cidades indianas, onde se incluem os dalits, membros das castas mais baixas da sociedade indiana, inválidos, idosos, órfãos e demais miseráveis do país. 

A cada nova crise ambiental, o Governo da Índia se apressa em apresentar novos programas para o controle das fontes de poluição. No orçamento de 2020, por exemplo, o Governo reservou US$ 45 milhões para o desenvolvimento de programas para o controle das principais fontes de poluição no país, um valor irrisório para as dimensões do problema. De acordo com especialistas locais, será necessária a criação de programas para o combate à poluição que sejam legalmente vinculantes, o que forçará as empresas e autoridades a se empenhar com vigor, sob o risco de severas penalidades para os infratores. 

Enquanto nada de efetivo é feito, os problemas ambientais não param de crescer. O forte crescimento populacional do país gera uma demanda mensal de 1 milhão de novos postos de trabalho, o mínimo necessário para absorver a população jovem que está entrando no mercado. Novas centrais de geração de energia elétrica estão em construção e existem planos para muitas mais. Empresas expandem suas linhas de produção sem maiores preocupações com os impactos ambientais. A crescente classe média indiana realiza seus sonhos de consumo comprando automóveis, que se juntarão a frota crescente de ônibus, caminhões, motocicletas e riquixás. 

A situação crítica da poluição do ar nas grandes cidades da Índia faz lembrar dos antigos problemas de Cubatão, município da Região da Baixada Santista em São Paulo, que na década de 1980 era conhecido como o Vale da Morte. A região abrigava um imenso complexo petroquímico e siderúrgico numa época em que valia tudo pelo desenvolvimento econômico. Depois de inúmeras tragédias, o Governo do Estado de São Paulo resolveu agir, sob forte pressão da opinião pública, e as coisas começaram a mudar – 95% das fontes de poluição foram controladas e a cidade é hoje um exemplo mundial de gestão ambiental

É bastante improvável que algo parecido aconteça na Índia num curto prazo, mas precisamos ser otimistas – tudo tem que ter limites. 

UM PROBLEMA DE SANEAMENTO BÁSICO ELEMENTAR NA ÍNDIA: A FALTA DE BANHEIROS

Quem quer ser um milionário

O surpreendente filme “Quem quer ser um milionário?” (Slumdog Millionaire) pegou o mundo de surpresa em 2008. A produção britânica/americana filmada na Índia e falando da realidade do povo indiano foi indicado em 10 categorias do Oscar e levou 8 estatuetas, inclusive o cobiçado prêmio de Melhor Filme. Contando com um elenco de atores desconhecidos no mundo ocidental e com um modesto orçamento de US$ 15 milhões, o filme lotou cinemas em todo o mundo e arrecadou mais de US$ 370 milhões em bilheterias – uma verdadeira façanha! 

Algumas das passagens do filme mostram a vida dura das populações pobres das favelas de Bombaim, antigo nome da cidade de Mumbai, onde salta aos olhos os imensos problemas de saneamento básico. Numa cena das mais divertidas, os protagonistas principais da história, Salim e Jamal Malik (vide foto), trabalham num “negócio” de locação de latrinas comunitárias para os moradores da favela, onde criam uma tremenda confusão. Para quem ainda não viu o filme, eu recomendo. Fugindo um pouco da ficção, um dos grandes méritos do filme foi mostrar ao mundo um dos grandes dramas das pessoas mais pobres da Índia – a falta de banheiros. 

De acordo com dados oficiais do Governo da Índia de 2011, aproximadamente 53% dos lares indianos não dispunham de uma latrina, o modelo de “vaso sanitário” mais usado no país. Isso indicava que 60% da população do país, que na época estava na casa de 1,25 bilhão de habitantes, ou defecava a céu aberto ou utilizava instalações sanitárias precárias como aquelas mostradas no filme “Quem quer ser um milionário”. Estamos falando de 750 milhões de pessoas sem acesso a instalações sanitárias adequadas

A defecação a céu aberto era e ainda é um dos grandes problemas de saúde pública na Índia e em muitos outros países do mundo. A ONU – Organização das Nações Unidas, calcula que cerca de 2,5 bilhões de pessoas no planeta não dispõem de instalações sanitárias e estipulou o dia 19 de novembro como o “Dia Mundial do Banheiro”, com o objetivo de destacar a importância do saneamento básico na vida das pessoas. De acordo com dados do UNICEF – Fundo das Nações Unidas para a Infância, 130 mil crianças indianas morreram de diarreia na Índia em 2013, o que corresponde a quase um quarto dessas mortes em todo o mundo. A diarreia está ligada diretamente à falta de saneamento básico. 

Olhando esses números absurdos pela primeira vez, você poderá ficar com a impressão que essa falta de instalações sanitárias das mais elementares nas residências dos indianos pode ser apenas uma consequência da pobreza da população. Ledo engano. Hábitos culturais e religiosos, machismo e até mesmo o sistema de castas, que divide a população em diferentes estratos sociais, estão na raiz do problema no país. 

Um exemplo de resistência à construção de banheiros em residências são os brâmanes (ou brâhmana), um dos mais importantes grupos religiosos da Índia. Esse grupo faz uma leitura bastante ortodoxa dos livros sagrados do hinduísmo, especialmente do Código de Manu, um conjunto de regras que regula a vida religiosa, civil e pessoal dos fiéis. Uma dessas regras, de ordem higiênica, diz que a população não pode defecar nas proximidades de suas casas, uma norma que acaba impedindo a construção de banheiros nas residências. Existem muitas vilas e pequenas cidades com população brâmane na Índia onde nenhuma das casas possui banheiros. 

Os moradores são obrigados a caminhar até as matas nas áreas de entorno para “se aliviar”. Essa situação peculiar é particularmente perigosa para as mulheres, que ficam expostas a ataques de maníacos sexuais e também ao estupro coletivo praticado por homens de outras castas ou religiões. É comum que essas mulheres se organizem em grupos, saindo de madrugada para as matas. Num grande esforço físico, essas mulheres passarão o dia inteiro “segurando” suas bexigas e intestinos, para só voltar às matas em grupo no início da noite. 

Em 2017, o ator e ativista indiano Akshay Kumarproduziu e atuou no papel principal do filme “Toilet, que se transformou num grande sucesso de bilheteria na Índia. O enredo, baseado em fatos reais, mostra o drama dos moradores de uma vila brâmane sem banheiros e o esforço do filho de um dos sacerdotes para mudar essa realidade. O Governo da Índia, que vem realizando esforços hercúleos para implantar redes de água e esgotos em todo o país, foi um dos grandes apoiadores da produção. Bill Gates, fundador da Microsoft e presidente da Fundação Bill e Melinda Gates, declarou que “Toilet” foi um dos melhores acontecimentos de 2017

O tradicional sistema de castas, que foi abolido pela Constituição da Índia pós-independência, ainda continua dividindo os indianos em uma escala hierárquica e é outra fonte importante de problemas. Os dalits, grupos que formam as castas mais baixas e mais pobres da sociedade indiana, costumam viver separados do restante da população e, via de regra, não usam (ou não podem usar) os banheiros públicos espalhados por todo o país. Chamados de intocáveis, os dalits realizam os trabalhos considerados indignos e sujos, onde se incluiu a lida com os mortos (animais ou pessoas), coleta de lixo, trabalhos com couro, escavação de fossas, varrição e lavagem de ruas, entre outros. 

Estatísticas indicam que 16% da população da Índia é formada por dalits, sendo que 80% dessa população vive em área rurais. Grande parte dos dalits que vivem nas áreas urbanas são obrigados a morar nas ruas, uma vez que eles não são bem-vindos nem entre os moradores das favelas. Ainda persiste entre muitos cidadãos a ideia que essas pessoas, consideradas impuras, precisam viver separadas do restante da população. Vivendo ao relento, essas populações não tem outra alternativa senão urinar e defecar em áreas públicas. 

Há vários anos, O Governo Central da Índia vem fazendo pesados investimentos para construir e “popularizar” o uso dos banheiros. Em 2014 foi lançado um grande programa para a construção de banheiros em todo o país e, até 2019, os dados indicam que 100 milhões de instalações já foram construídas, principalmente nas residências. Esses esforços já garantiram o acesso de mais de 600 milhões de pessoas aos sanitários. Apesar de todos esses esforços, muitos indianos ainda resistem ao uso desses banheiros. Muitas vilas e pequenas cidades de população brâmane, citando um exemplo, foram contempladas com a construção de banheiros públicos, mas os moradores mais velhos ainda mantêm as suas tradições seculares. 

Apesar de todos os benefícios que estas medidas sanitárias básicas (para não dizer elementares) trazem para as populações, o problema está muito longe de ser resolvido. A maior parte das redes de esgotos sanitários instaladas para atender a esse grande volume de novos banheiros lança os efluentes em córregos e rios sem qualquer tipo de tratamento, contaminando as fontes de água usadas para o abastecimento das mesmas populações. Um exemplo que citamos na postagem anterior é o importante rio Yamuna, que, entre outras cidades, abastece Nova Déli, a capital da Índia com seus 20 milhões de habitantes. De acordo com alguns especialistas locais, os caudais desse rio são “100% massa fecal”. 

Para um país que já sofre com uma baixa oferta de recursos hídricos para atender a sua imensa população, a Índia vai precisar redobrar, sabe-se lá como, seus esforços na área de saneamento básico e passar a construir também estações de tratamento de esgotos. É um enorme desafio para um país que está perto de se tornar a terceira maior economia do mundo, só ficando atrás dos Estados Unidos e da China, mas que, ao mesmo tempo, tem uma parte importante da sua população vivendo na miséria absoluta. 

 

OS GIGANTESCOS PROBLEMAS NO ABASTECIMENTO DE ÁGUA NA ÍNDIA

Abastecimento de água na Índia

A Índia é um país de números superlativos em diversas áreas. 

Apesar de possuir um território com área equivalente a menos de 40% do território brasileiro, a Índia ganha disparado no quesito população – são aproximadamente 1,34 bilhões de habitantes, população que só perde em tamanho para a China. Projeções de crescimento demográfico indicam que até o ano de 2035, a Índia terá a maior população do mundo. 

Além do tamanho descomunal, a população indiana forma uma verdadeira colcha de retalho no que diz respeito a culturas, costumes, religiões e línguas utilizadas – são mais de 400 idiomas e dialetos falados no país, o que nos dá uma leve ideia da complexidade e dos problemas socioculturais do país. Os idiomas oficiais são o inglês e o hindu, que funcionam como língua de ligação. Cada um dos Estados da Índia possui um idioma oficial falado por dezenas de milhões de pessoas. Quem inventou a expressão “caldeirão cultural”, provavelmente conhecia a Índia. 

O PIB – Produto Interno Bruto, da Índia vem apresentando altas taxas de crescimento nas últimas décadas, onde a taxa média de crescimento é de 6% ao ano. O país já ocupa a sétima posição entre as maiores economias do mundo. Porém, apesar dos importantes avanços econômicos e sociais, a Índia possui enormes problemas em todas as áreas, que geram graves impactos na área ambiental. Vamos começar falando dos problemas ligados ao abastecimento de água. 

Talvez o maior exemplo de má gestão dos recursos hídricos da Índia seja o rio Ganges. Com nascentes nas Montanhas Himalaias, o rio Ganges percorre mais de 2.500 km até sua foz num grande delta em Bangladesh. Nesse percurso, o rio é o principal manancial de abastecimento para mais de 400 milhões de pessoas. Apesar de toda a sua importância, o rio Ganges vem agonizando com a intensa poluição de suas águas – praticamente todos os esgotos domésticos e industriais despejados pelas cidades e vilas de sua bacia hidrográfica correm na direção de sua calha sem nenhum tipo de tratamento. 

Um exemplo que já citamos em uma postagem anterior é a cidade de Khanpur, um importante centro industrial que tem uma população de 4 milhões de habitantes. Além de despejar todos os esgotos domésticos diretamente nas águas do rio Ganges, a cidade também produz grandes volumes de esgotos industriais altamente tóxicos.  

A maior parte das indústrias de Khanpur se dedica ao curtimento e processamento do couro, especialmente bovino. Nesses processos são usados produtos que contém elementos químicos altamente tóxicos como o mercúrio, o arsênico e, principalmente os sais de cromo. Dos cerca de 370 curtumes instalados na cidade, pelo menos metade despeja seus efluentes no rio Ganges sem qualquer tipo de tratamento. 

O cromo pode causar problemas nas guelras dos peixes e também provocar alguns tipos de câncer em animais que bebam ou mantenham contato com águas contaminadas. Profissionais que trabalham nos curtumes, expostos diariamente a toda uma gama de produtos químicos, podem apresentar problemas como rinite, problemas no estômago, lesões na pele e, em casos extremos, riscos de desenvolver câncer no pulmão. O consumo de água contaminada com cromo está provocado uma série de doenças nas populações da região. 

As águas do rio Ganges constituem o principal manancial de abastecimento de inúmeras cidades de toda uma faixa no Norte da Índia. Os sistemas produtores de água dessas cidades são antigos e não conseguem eliminar muitos desses poluentes – muita gente acaba sendo contaminada com metais pesados e elementos tóxicos presentes nessa “água tratada”. Esses sistemas também não conseguem produzir água tratada em quantidade suficiente para atender toda a população das cidades. 

Outro exemplo gravíssimo de degradação é o rio Yamuna, um dos mais importantes cursos d’água do Norte da Índia. Com cerca de 1.370 km de extensão, o rio Yamuna é um dos principais afluentes do rio Ganges. Entre as cidades de dependem da captação de água no rio para abastecimento de sua população está Nova Déli, a capital da Índia, que tem uma população de mais de 20 milhões de habitantes. Alguns especialistas afirmam que o Yamuna é o rio mais poluído do mundo

O tratamento de águas altamente poluídas é possível e exige o uso de grandes quantidades de produtos químicos, o que nem sempre resulta em uma água 100% potável. Um exemplo já citado inúmeras vezes aqui no blog é o do rio Guandu, principal manancial de abastecimento da Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Moradores de diversas regiões das cidades abastecidas com as águas do rio Guandu vêm recebendo água de péssima qualidade já há vários meses. Em Nova Déli, além da qualidade questionável da água tratada, a população sofre com a baixa disponibilidade.  

Na maioria dos bairros da cidade, as torneiras têm água por apenas duas horas a cada dia – uma hora pela manhã e outra hora a noite. Os moradores que possuem recursos se valem da compra de água mineral ou de caminhões pipa, que é armazenada em cisternas. Para os mais pobres, restam poucas opções como o armazenamento das águas das chuvas. 

Outra grande cidade que sofre com a falta de água é Mumbai (antiga Bombaim), a capital financeira da Índia. Com cerca de 18 milhões de habitantes, Mumbai é frequentemente obrigada a conviver com um draconiano racionamento de água: um dia com água nas torneiras e seis dias com as torneiras secas. As perdas de água na rede de distribuição da cidade são enormes – calculadas em 700 milhões de litros a cada dia. Além de vazamentos nas tubulações, existem milhares de ramificações ilegais, os chamados “gatos”

Nas pequenas cidades e vilas da zona rural, onde vive perto de 70% da população do país, a água é coletada de poços ou diretamente dos cursos d’água (vide foto), sendo consumida sem nenhum tipo de tratamento. Essa água frequentemente está contaminada por esgotos domésticos e, não raras vezes, por despejos industriais. Nas regiões mais secas como o Rajastão no Noroeste do país, as populações muitas vezes dependem de ações emergenciais de distribuição de água através de caminhões pipa, uma situação semelhante vivida muitas vezes pelos sertanejos da nossa Caatinga.

Os conflitos entre diferentes usuários de uma mesma bacia hidrográfica também criam enormes problemas para o abastecimento das populações. Um exemplo é o do rio Cauvery (ou Kaveri) no Sul do país. Quatro Estados indianos – Karnataka, Tamil Nadu, Kerala e Pondichéry, lutam há várias décadas em tribunais do país pelo direito pleno de uso das águas. Sem conseguir chegar a um acordo razoável de partilha, esses Estados vivem em um eterno conflito pelo uso desse precioso recurso. 

Um outro problema nada desprezível para o país são as disputas internacionais pelas fontes de água. Diversos rios da Índia têm suas nascentes nas Montanhas Himalaias fora de suas fronteiras, como é o caso do rio Brahmaputra, o principal curso d’água do Nordeste da Índia e um dos mais importantes de Bangladesh. As nascentes desse rio se encontram no Tibete, país que foi ocupado pela China na década de 1950. A China planeja desviar parte das águas desse rio para atender projetos de irrigação nas suas regiões áridas de Xinjiang Gansu. Esses desvios poderão reduzir os caudais do rio Brahmaputra em até 30%Se é difícil se chegar a um consenso entre diferentes Estados indianos sobre o uso das águas de um rio, imaginem as dificuldades entre países diferentes. 

Completando o complicado quadro do abastecimento de água na Índia, temos um país que possui 16% da população mundial e apenas 4% das reservas mundiais de água doce. Para efeito de comparação, o Brasil possui 3% da população mundial e 13% das reservas de água doce do planeta. Ou seja – o acesso a água potável de qualidade e em quantidade na Índia é um luxo para poucos.

Continuaremos na próxima postagem.

A CRESCENTE ESCASSEZ DE RECURSOS HÍDRICOS NO ALTIPLANO ANDINO, OU AINDA FALANDO DO LAGO POOPÓ

Lago Titicaca

Na última postagem falamos do desaparecimento do Lago Poopó, na região do Altilplano Boliviano. Esse lago era o segundo maior corpo d’água da Bolívia e, nos períodos de cheia, chegava a cobrir uma superfície da ordem de 2.500 km². Uma das principais razões para o desaparecimento do Lago foi o desvio das águas do rio Desaguadero, sua principal fonte de alimentação, para projetos de irrigação. 

O desaparecimento do Lago Poopó é só um capítulo a mais na intensa disputa pela água em toda a região. O Altiplano é um grande deserto de altitude e a maior parte dos seus solos é inadequada para a prática da agricultura. Nas áreas onde existem bons solos é necessário o uso intensivo de irrigação. Entre as poucas culturas que se adaptam aos solos e clima do Altiplano estão a batata e a quinoa, um grão rico em proteína. A quinoa, aliás, virou uma espécie de grão da moda em todo o mundo, especialmente entre os adeptos da alimentação natural. Essa explosão no consumo tem estimulado o aumento da produção do grão em diversas regiões dos Andes, o que, consequentemente, vem resultando em uma maior pressão sobre os escassos recursos hídricos. 

O Altiplano Andino é um extenso planalto com altitudes acima dos 3.500 metros, que se estende entre as montanhas da Cordilheira dos Andes, ocupando partes do Norte do Chile e da Argentina, do Oeste da Bolívia e do Sul do Peru. O clima do Altiplano é frio e úmido, com características entre o semiárido e o árido, além de pouca disponibilidade de fontes de água. As temperaturas médias vão dos 3° C nas proximidades da Cordilheira dos Andes Ocidentais até 12° C na região de entorno do Lago Titicaca (vide foto). Dependendo da época do ano, as temperaturas máximas podem oscilar desde 24° C durante o dia até -20° C durante a noite. 

Estudos arqueológicos indicam que a ocupação do Altiplano por populações humanas começou há cerca de 6 mil anos atrás. Por volta do ano 1.500 a.C, a região assistiu ao nascimento da civilização Tiwanaku (ou Tihuanaco), que atingiu seu auge no século X de nossa era, sendo então dominada pelo Império Inca. Esse povo alcançou um enorme desenvolvimento em tecnologias agrícolas adaptadas às difíceis condições do Altiplano. Muitas dessas tecnologias foram adotadas pelos Incas. 

Nessa época, o Lago Titicaca era bem maior, com um nível cerca de 5 metros mais alto do que a média de décadas atrás. O Poopó, o Uru-uru e outros lagos da região estavam unidos na época e formavam o grande Lago Tauca. Esse grande volume de água armazenada no Altiplano era um resquício da última era glacial e a sua maior parte se perdeu devido a evaporação. Mesmo contando com uma disponibilidade de água bem maior do que na atualidade, esse povo aprendeu a produzir muito em suas lavouras gastando o mínimo possível de água. 

O povo Tiwanaku utilizava plataformas elevadas para o cultivo de alimentos, conhecidas como suka kollu. Entre as plataformas eram construídos canais rasos preenchidos com água. Esses canais forneciam a umidade para as culturas em crescimento e também ajudavam a proteger as plantas do excesso de radiação solar, comum em altas altitudes. Também auxiliavam na drenagem do excesso de águas no período das chuvas e protegiam as plantas durante os dias de geada. Esse sistema de plataformas elevadas permitiu que a civilização Tiwanaku alcançasse uma produtividade agrícola no Altiplano cerca de dez vezes maior que em nossos dias atuais. 

Com a conquista dos Incas pelos invasores espanhóis sob a liderança de Francisco Pizarro em 1533, todo o sistema de produção no vasto império indígena entrou em rápido declínio. Sedentos por ouro, prata e outros metais preciosos, os espanhóis passaram a escravizar os povos indígenas, que eram usados nos trabalhos de mineração. Um dos grandes exemplos do uso dessa mão de obra escrava foram as minas de prata de Potosí que, de acordo com dados oficiais, produziu cerca de 31 mil toneladas de prata entre os séculos XVI e XIX

Os vários séculos de colonização espanhola deixaram marcas negativas entre os povos do Altiplano, principalmente no que diz respeito ao uso sustentável dos recursos naturais, em especial dos recursos hídricos. A mineração é um bom exemplo do descaso. Na região de entorno do desaparecido Lago Poopó, citando um exemplo, existem centenas de minas e garimpos de ouro, pedras preciosas e outros metais valiosos. Durante décadas, quiçá séculos, essas minas e garimpos produziram imensas quantidades de rejeitos minerais, que foram abandonados sobre os solos sem maiores cuidados.  

As chuvas carrearam imensas quantidades desses rejeitos na direção do Lago Poopó, que gradualmente teve a sua profundidade reduzida devido ao assoreamento. Esses rejeitos também contaminaram as águas com grandes quantidades de metais pesados e tóxicos como mercúrio e arsênico, o que provocou a morte de grandes quantidades de peixes e aves aquáticas. A pouca profundidade do lago também contribuiu, e muito, para um aumento nas perdas de água por evaporação. 

Outro exemplo de péssima gestão dos recursos hídricos pode ser visto no Lago Titicaca, o maior manancial de água doce do Altiplano. As cidades na região de entorno do Lago cresceram muito, e desordenadamente, e se transformaram em grandes consumidoras e poluidoras das águas, despejando diariamente grandes volumes de esgotos não tratados e toneladas de lixo. A cidade de El Alto de La Paz, na Bolívia, é um bom exemplo – de povoado há cerca de 30 anos, a cidade agora conta com uma população de 800 mil habitantes. No lado peruano, podemos citar Juliaca Puno, cidades que possuem juntas 500 mil habitantes. A imagem abaixo mostra a intensa poluição do rio Coata, que cruza a cidade de Pune no Peru.

Poluição no Lago Titicaca

Conforme já comentamos em postagem anterior, existem perto de 25 rios e riachos que alimentam o Lago Titicaca e que nascem a partir do degelo de glaciares no alto da Cordilheira dos Andes. Devido as mudanças climáticas globais, essas massas de gelo estão diminuindo rapidamente, o que tem provocado uma diminuição dos aportes de água no Lago Titicaca. De acordo com informações da Universidad Nacional del Altiplano, em Puno no Peru, até 1986, o nível médio do espelho d’água do Lago Titicaca se situava na cota dos 3.812 metros de altitude (algumas fontes falam de 3.821 metros). Atualmente, o nível do Lago está na cota dos 3.808 metros de altitude, o que indica a perda de uma lâmina de água de 4 metros. Outras fontes falam da perda de apenas 1 metro

A redução dos caudais dos rios e riachos que desaguam no Titicaca também são resultado da implantação de dezenas de projetos de irrigação em áreas agrícolas ao redor do Lago. O rápido crescimento das cidades criou uma forte demanda para a produção de alimentos. Utilizando técnicas agrícolas inadequadas, esses sistemas de irrigação desperdiçam muita água, que se perde por evaporação – gasta-se água demais para uma produção pequena de alimentos. 

Toda a região do Altiplano também sofre com a contaminação das águas por rejeitos da mineração, por resíduos tóxicos de fertilizantes e defensivos agrícolas, por esgotos domésticos e muito lixo. Completando o quadro, as populações das cidades da região não param de crescer. Apesar de tremendamente dramático, o desaparecimento do Lago Poopó foi só o começo dos muitos problemas ambientais que ainda recairão sobre a região do Altiplano Andino nas próximas décadas. 

 

A DESTRUIÇÃO TOTAL DO LAGO POOPÓ NA BOLÍVIA

Lago Poopó

Nas últimas postagens falamos dos inúmeros problemas ambientais enfrentados pela Venezuela, onde destacamos a gradual destruição do Lago de Maracaibo, na região Noroeste do país. Antigo importante centro de produção petrolífera, o Maracaibo hoje sofre com inúmeros vazamentos de óleo nas instalações de produção desativadas. As grandes manchas de petróleo nas águas, praias, costões e manguezais estão destruindo toda a fauna aquática e comprometendo o sustento de milhares de pescadores locais.

Um outro exemplo dramático de devastação de um grande corpo d’água na América do Sul foi o que se abateu sobre o Lago Poopó, na Bolívia. Porém, diferente do que aconteceu com o Lago de Maracaibo, as agressões foram bem mais contundentes e tiveram como resultado o desaparecimento total do lago Poopó, que até então era o segundo maior lago da Bolívia. Vamos entender essa dramática história:

O Lago Poopó ficava na região do Altiplano a cerca de 3.686 metros de altitude. O Altiplano é um extenso planalto com altitudes acima dos 3.500 metros, que se estende entre as montanhas da Cordilheira dos Andes, ocupando partes do Norte do Chile e da Argentina, do Oeste da Bolívia e do Sul do Peru. O espelho d’água do Lago Poopó, no período das cheias, se espalhava por uma área total de 2.500 km², o equivalente a seis vezes o tamanho da Baía da Guanabara.

A alimentação do Lago Poopó estava ligada diretamente ao Lago Titicaca, o maior corpo d’água da América do Sul. Conforme já comentamos em postagens anteriores, o Lago Titicaca é alimentado por rios e córregos formados a partir do degelo de glaciares ou geleira localizadas no alto das montanhas Andinas. Na parte Sul do Lago Titicaca existe uma fenda natural, conhecida como rio Desaguadero, que funcionava como um canal de drenagem para as águas excedentes. Todo o excesso de água do Titicaca era conduzido pelo rio Desaguadero na direção do Lago Poopó, localizado num trecho mais baixo do Altiplano. O lago Poopó funcionava como um lago terminal fechado da bacia hidrográfica.

Nessa configuração de bacia hidrográfica, chamada tecnicamente de bacia endorreica, a água se perde por evaporação. Um exemplo que podemos citar desse tipo de bacia hidrográfica é o Mar Morto entre Israel e Jordânia, no Oriente Médio, que é alimentado pelas águas do rio Jordão. No caso do Lago Poopó, sua estabilidade dependia dos aportes frequentes de água vindos do Lago Titicaca.

O destino do Lago Poopó começou a ser selado a partir da redução do nível do Lago Titicacaque baixou cerca de 1 metro nas últimas décadas, o que reduziu a quantidade de água drenada pelo rio Desaguadero. Geleiras de montanhas de todo o mundo estão sofrendo os efeitos do Aquecimento Global e os glaciares da Cordilheira dos Andes também estão sendo dramaticamente afetados. Nos últimos 50 anos, diversas geleiras dessas montanhas já desapareceram e muitas outras estão perdendo a sua massa de gelo rapidamente.

Para aumentar o problema, o Governo local autorizou a realização de diversas obras para a construção de sistemas de irrigação a partir das águas do rio DesaguaderoUma parte considerável das águas que correriam na direção do Lago Poopó passou a ser desviada sem maiores critérios para diversos projetos agrícolas. Sem receber os despejos sistemáticos de água do Lago Titicaca, o Lago Poopó começou a secar.

A tragédia ambiental que se abateu sobre o Lago Poopó, porém, tem outro componente bombástico – a mineração predatória e intensa realizada na região desde o tempo dos conquistadores espanhóis. Usando técnicas das mais rudimentares, os mineiros da região nunca se preocuparam com a construção de barragens de rejeitos minerais, assunto que temos falado bastante nas nossas postagens. O Lago Poopó foi transformado “na barragem de rejeitos” do Altiplano, recebendo sedimentos arrastados por alguns rios e pelas escassas chuvas ao longo dos séculos. O acúmulo desses rejeitos reduziu gradativamente a profundidade do lago e amplificou os efeitos da evaporação das águas.

Em anos passados, o nível de contaminação das águas do Lago com metais pesados chegou a um nível altamente crítico, resultando na mortandade de 30 milhões de peixes em um único dia – milhares de aves, que se alimentavam destes peixes envenenados tiveram o mesmo fim. As aves e animais que conseguiram fugir a tempo, ganharam uma sobrevida em outras regiões – os flamingos rosados do Poopó, por exemplo, migraram para o pequeno Lago Oruro em uma região próxima, um corpo d’água que também está secando. Nesse novo ambiente, a carência de nutrientes está afetando a saúde dessas aves – as vistosas penas rosas passaram a apresentar uma cor branca (semelhante ao que ocorreu com os guarás vermelhos do rio Cubatão, em São Paulo).

De acordo com as avaliações já feitas por especialistas da Bolívia, o desaparecimento das águas do Lago Poopó provocou a extinção local de cerca de 200 espécies de aves, peixes, mamíferos, répteis e anfíbios, além de uma grande variedade de plantas. Parte importante dessas espécies era endêmicas e não são encontradas em outras partes da Bolívia. Mesmo que seja possível voltar a encher todo o Lago (alguns trechos chegam a acumular um pouco de água, mas secam em pouco tempo), ele nunca mais voltará a ser o mesmo tipo de bioma que já foi no passado.

O desastre também teve um custo humano. Cerca de 350 famílias das comunidades indígenas locais, em sua maioria pescadores do lago, foram afetadas. Os Urus eram os donos do lago e tiravam o seu sustento das águas do Poopó, o seu “território”. Essas comunidades tinham como fonte principal de alimentos um grupo com 38 espécies de animais entre peixes, aves e mamíferos: nada sobrou. De acordo com as leis bolivianas, o território dos Urus é formado pelo espelho d’água dos diversos lagos do país e eles não podem cultivar as terras, um território que pertence aos indígenas da etnia Aymarás.

O desaparecimento do Lago Poopó foi um longo e contínuo processo de degradação ambiental, denunciado sistematicamente por anos a fio por ambientalistas e especialistas em recursos hídricos da Bolívia. Essas denúncias contaram com forte apoio de órgãos de imprensa opositores ao antigo Governo do Presidente Evo Morales. Dentro da forte ideologia política daquele Governo, a sistemática redução dos níveis do Lago Poopó “foi uma consequência do aquecimento global, um fenômeno provocado pelas grandes nações capitalistas do Hemisfério Norte.” Nenhuma providência prática para controlar ou reduzir o problema foi tomada.

A Bolívia tem uma longa história de exploração selvagem dos seus recursos naturais, uma trágica herança do período colonial. O antigo Vice-Reino do Peru, do qual a Bolívia fazia parte, se mostrou, já nos primeiros anos após a conquista pela Espanha, como uma das mais promissoras províncias minerais do Novo Mundo. A descoberta das minas de prata de Potosí, em 1545, consolidou ainda mais essa realidade. Em 1611, a cidade homônima que surgiu no local já tinha uma população de 150 mil habitantes, a segunda cidade mais populosa do mundo, só ficando atrás de Paris. De acordo com dados oficiais, saíram das minas de Potosí, entre os séculos XVI e XIX, cerca de 31 mil toneladas de prata.

Uma outra frente de forte pressão sobre os recursos naturais da Bolívia está se desenrolando atualmente na Floresta Amazônica, bioma que cobre perto da metade do território boliviano. Assim como acontece na Amazônia brasileira, o trecho boliviano da Floresta também vem sofrendo com grandes desmatamentos e queimadas. A exploração madeireira, o garimpo e a abertura de novas frentes agrícolas estão os problemas mais graves.

Mudam os lugares, mudam os tempos, mas os problemas ambientais se mantêm quase que inalterados.

OS INÚMEROS PROBLEMAS AMBIENTAIS NA VENEZUELA

Consumo de água poluída em Caracas

Nas duas últimas postagens falamos dos grandes problemas ambientais criados pela exploração de petróleo no Lago de Maracaibo, no Noroeste da Venezuela. De grande produtor de petróleo em décadas passadas, o Maracaibo se transformou num grande depósito de plataformas e instalações petrolíferas abandonadas. Corroídas pela ferrugem e falta de manutenção, a maioria dessas estruturas está repleta de vazamentos de petróleo. As antigas águas verdes do Lago de Maracaibo hoje estão tomadas por grandes manchas de óleo, o que vem destruindo a fauna aquática e prejudicando as comunidades de pescadores de suas margens. 

Infelizmente, esse não é o único grave problema ambiental do país. Dirigida já há muitos anos por um regime ditatorial e centralizar, a Venezuela é um exemplo de descaso com o meio ambiente. Um dos maiores problemas ambientais da Venezuela são os grandes desmatamentos, que ameaçam alguns dos biomas mais espetaculares do mundo. Existem também grandes problemas com incêndios florestais e com o tráfico de animais silvestres. As cidades também sofrem com a poluição das águas, do ar e com gravíssimos problemas na coleta e destinação dos resíduos sólidos.  

O Regime Bolivariano criou um órgão para cuidar de todos esses problemas – o Ministério da Habitação, Habitat e Ecossocialismo (seja lá o que isso signifique). Além de muitos discursos em favor do Regime, esse Ministério quase nada consegue fazer para reverter a situação crítica em que as cidades e ecossistemas venezuelanos se encontram. Vamos citar dois exemplos. 

Guanta é uma pequena cidade costeira no Norte da Venezuela com cerca de 45 mil habitantes e distante cerca de 330 km de Caracas. Graças às suas maravilhosas praias no Mar do Caribe, a cidade e sua região formavam um importante destino turístico até poucas décadas atrás. Atualmente, a cidade e sua população vivem em meio a uma nuvem de material particulado. Diversos artigos publicados em jornais e revistas se referem a Guanta como “A Cidade Invisível”. 

A origem dessa poluição é uma grande fábrica de cimento controlada pelo Regime Bolivariano. Até 2008, a empresa mexicana Cemex era a dona da empresa, quanto então, por ordem do então Presidente Hugo Chaves, a empresa foi estatizada e passou a ser controlada pela Vencemos – Venezoelana de Cementos. Entre os argumentos usados pelo Regime Bolivariano para assumir o controle da empresa estava justamente o desrespeito ao meio ambiente e aos direitos trabalhistas dos operários. 

Todos os principais cargos de direção e gerência da empresa foram colocados nas mãos de “companheiros” bolivarianos que, dentro de pouco tempo, conseguiram transformar um problema de emissões descontroladas de material particulado em uma tragédia ambiental regional. Ao invés de melhorar os processos produtivos, consolidar as rotinas de manutenção periódica como a troca de filtros e ampliar a instalação de sistemas de filtragem, os “companheiros” concentraram seus esforços, como é de praxe no país, em discursos e atos em apoio ao Regime Bolivariano. A gestão das operações da cimenteira foi colocado em um plano bem secundário.

Sem os cuidados necessários, os precários sistemas de filtragem da empresa ficaram saturados e pararam de funcionar. A cidade de Guanta passou a ser tomada por uma gigantesca nuvem de material particulado. Uma grossa camada de pó encobriu os telhados, ruas da cidade, veículos e também o interior das casas. Segundo o relato de alguns moradores, se esse pó não é retirado diariamente, ele forma uma crosta que não desgruda mais. 

O maior problema criado por essa poluição são as doenças respiratórias na população,  que atingem especialmente as crianças menores. Segundo relato de funcionários do Centro de Diagnósticos Gerais da cidade, os principais problemas são infecções respiratórias, bronquiolite e pneumonia. São atendidos de 30 a 40 casos graves por semana, especialmente crianças e pacientes asmáticos. Apesar dos inúmeros apelos da população, as autoridades não conseguem resolver os problemas

Outro conjunto de problemas gravíssimos vividos pelas populações das cidades da Venezuela estão na área do saneamento básico. Há problemas generalizados no fornecimento de água tratada, na coleta e transporte dos esgotos (nem pensar em tratamento), além de grandes dificuldades na coleta e destinação dos resíduos sólidos. Os problemas vão da falta de investimentos à gestão caótica das empresas e departamentos responsáveis por esses serviços, o que eu costumo chamar de “companheirização”. Caracas, a capital do país e maior cidade da Venezuela, é a que mais sofre com esse conjunto  de problemas. 

Um grande exemplo a ser citado são as dificuldades vividas pela população com a falta de água potável, um serviço irregular e frequentemente sujeito a interrupções por causa dos constantes blackouts na rede elétrica. O sistema de transmissão de energia elétrica da Venezuela está sobrecarregado e a rede não consegue atender a demanda da população. As cidades sofrem com apagões diários que, entre outros problemas, paralisam os sistemas de bombeamento de água potável. Sem o fornecimento de água potável e sem dinheiro para comprar água mineral, milhares de pessoas passaram a recorrer às águas poluídas de rios e córregos das cidades. 

Em 2019, o país passou por duas crises generalizadas de transmissão de energia elétrica, quando a maior parte das cidades ficou às escuras por vários dias. Enquanto o Presidente Nicolás Maduro culpava os Estados Unidos por atos de sabotagem do sistema elétrico, mais de 70% da população do país ficou às escuras e sem abastecimento de água. A foto que ilustra essa postagem mostra um grupo de moradores da periferia de Caracas coletando água no rio Guaire, uma espécie de rio Tietê da Venezuela, durante uma das inúmeras crises no abastecimento de água potável. 

O rio Guaire corta a Região Metropolitana de Caracas no sentido Leste a Oeste. Sua extensa bacia hidrográfica recebe toda a carga de esgotos e de efluentes industriais não tratados. Os níveis de poluição das águas são altíssimos. A cidade de Caracas tem uma população de 3 milhões de habitantes e está inserida em uma região metropolitana com mais de 5,8 milhões de habitantes, o que dá uma ideia do tamanho dos problemas ambientais

Uma das mais visíveis faces dos problemas de abastecimento de água nas cidades da Venezuela é o aumento da mortalidade infantil. De acordo com dados do UNICEF – Fundo das Nações Unidas para a Infância, e do Banco Mundial, a taxa de mortalidade infantil no país em 2017 retrocedeu para os níveis de 1977, quando a morte de crianças com menos de um mês de vida atingia 19 crianças a cada 1000 nascidas vivas. Em 2008, a situação melhorou e a taxa de mortalidade caiu para 9,7 mortes para cada 1000 nascimentos. Em 2013, a curva se inverteu e as mortes de crianças voltaram a crescer

Outro índice que mostra a deterioração das condições de vida da população foi apresentado por uma pesquisa feita pelas principais universidades da Venezuela em 2018. Foram entrevistadas 6.168 famílias em todo o país. De acordo com os dados apurados, 64% dos entrevistados afirmaram ter perdido uma média de 11 quilos do seu peso nos últimos 12 meses devido à falta de alimentos. Sem contar com uma alimentação adequada e sem acesso a água potável, a população mais pobre adoece frequentemente e, tragicamente, os mais fracos não conseguem sobreviver. 

Pobreza e preservação ambiental são duas coisas que nunca andam juntas. Enquanto a situação econômica e social na Venezuela não melhorar, a degradação ambiental do país vai continuar aumentando. Trágico!