O AUDACIOSO ROUBO DE SEMENTES DE SERINGUEIRAS POR HENRY WICKHAM EM 1876

Henry Wickham

A exploração intensiva do látex na Floresta Amazônica, a partir de meados do século XIX, criou uma poderosa indústria, conhecida como gomífera, e uma seleta elite equatorial. Nos áureos tempos do chamado Ciclo da Borracha, que durou aproximadamente 70 anos, essa elite dominou o mercado mundial do látex, onde o Brasil era responsável por 95% da oferta dessa matéria-prima. A partir de 1913, os seringais plantados por ingleses em territórios coloniais do Sudeste Asiático inundaram o mercado mundial com seu látex e em poucos anos quebraram o monopólio da Amazônia. Vamos entender um pouco melhor esse capítulo da história do látex e da Amazônia: 

Os indígenas das ilhas do Caribe e das Américas Central e do Sul conheciam e usavam o látex séculos antes da chegada dos primeiros exploradores europeus no século XV. Cristovão Colombo citou nativos do Haiti brincando com bolas elásticas de látex. Hernan Cortez, o conquistador do México, encontrou bolas semelhantes sendo usadas em jogos pelos indígenas, mesmo relato feito pelos primeiros religiosos que trabalharam na região da Amazônia brasileira. 

O geógrafo francês Charles-Marie de la Condamine descobriu a árvore que produzia o látex em 1743 e acompanhou indígenas da Amazônia durante os processos de extração da seiva das seringueiras e de fabricação da goma. No início da década de 1760, o botânico francês Fusée Aublet propôs a classificação científica da seringueira, que foi batizada com o nome de Hevea brasiliensis – o nome deriva da palavra hevé, nome com o qual os indígenas identificavam a árvore. 

Uma das primeiras aplicações industriais conhecidas do látex foi a fabricação de apagadores de lousa em 1772, na Inglaterra. Em 1820, o látex passou a ser usado para a fabricação de borrachas para apagar traços feitos a lápis. Outros produtos foram surgindo, apesar das limitações técnicas do látex na época – as peças ficavam grudentas em dias de muito calor e quebradiças em dias muito frios. Esse quadro mudou em 1839, quando Charles Goodyear criou o processo de vulcanização da borracha e fez explodir as suas aplicações na indústria. Para se ter uma ideia do crescimento do consumo, a Amazônia exportou 8 toneladas de látex em 1827 – em 1860, essas exportações bateram na marca de 2.673 toneladas. 

As grandes potências industriais da época, que se tornaram dependentes do látex da Amazônia e de toda uma gama de importantes produtos industriais fabricados com a borracha, não se sentiam nem um pouco confortáveis com o monopólio da produção nas mãos do Brasil e de outros países Sul-americanos. Era preciso encontrar outras fontes de produção e beneficiamento do látex, em territórios preferencialmente controlados por essas grandes potencias. Teve início assim um dos primeiros casos conhecidos de biopirataria da história, responsável pelo fim da indústria gomífera da Amazônia. 

A primeira tentativa conhecida de coleta e exportação de sementes da seringueira para a Inglaterra coube ao médico e botânico inglês Richard Spruce (1817-1893), que participou de explorações na Amazônia entre 1849 e 1866. Durante uma de suas andanças pela Floresta, Spruce conseguiu coletar uma grande quantidade de sementes da Hevea brasiliensis, que foram cuidadosamente embaladas e enviadas ao Jardim Botânico Real de Londres, o Kew Gardens. As sementes coletadas se deterioram rapidamente e não sobreviveram à longa travessia pelo Oceano Atlântico. Em diversas outras tentativas feitas por exploradores estrangeiros foi observado o mesmo problema. 

Apesar do fracasso com as sementes da seringueira, Richard Spruce coletou, classificou e estudou cerca de 30 mil espécies vegetais da Amazônia e dos Andes, tendo enviado uma grande quantidade dessas espécies para os jardins botânicos e universidades da Inglaterra. Diplomatas ingleses faziam um trabalho corpo a corpo junto às autoridades alfandegárias do Brasil e de países vizinhos, alegando que estas espécies eram de interesse científico para toda a humanidade. A figura da soberana da Inglaterra, a Rainha Vitória, era frequentemente citada por esses diplomatas e apresentada como uma “amante de plantas”. As mudas e sementes seriam cultivadas em jardins botânicos como o Kew Gardens de Londres, para o deleite da soberana. 

Em outras ocasiões, quando não podiam contar com a ajuda desses diplomatas, os exploradores buscavam alternativas bizarras para contrabandear mudas e sementes de plantas da Amazônia para a Inglaterra e outros países. Num dos casos mais interessantes, um explorador inglês enviou uma grande quantidade de sementes de seringueira dentro de dois grandes jacarés empalhados. Como era de se esperar, as sementes estavam completamente deterioradas quando chegaram ao seu destino.

Os ingleses obteriam êxito no “roubo” de sementes da seringueira somente em meados da década de 1870, pelas mãos do aventureiro Henry Wickham (1846-1928), que começou a se aventurar pelas Américas com 27 anos de idade. Buscando fazer fortuna, Wickham (vide foto) viajou primeiro pela América Central e depois pela Venezuela, onde aprendeu muito sobre a extração e o beneficiamento do látex com os indígenas. O aventureiro também aprendeu a identificar as melhores espécies de árvores produtoras do látex (a Hevea brasiliensis não é a única) e também sobre as manhas e artimanhas para a preservação das sementes oleosas. Wickham, que sabia do interesse do seu país na aquisição legal ou ilegal dessas sementes, encaminhou uma carta para o diretor do Kew Gardens, afirmando que sabia onde coletar e como enviar adequadamente esse material.  

No final de 1875, Wickham recebeu uma carta do Kew Gardens com uma proposta comercial para a realização dessa missão. Em fevereiro de 1876, Henry Wickham, que já estava morando em Santarém, viajou com a esposa e um ajudante para a casa de um norte-americano que vivia nas margens do rio Tapajós há vários anos. Foi a partir dali que ele se lançou ao trabalho e passou a coletar sementes da Hevea brasiliensis em terrenos mais altos, onde sabia se encontrarem os melhores espécimes da árvore. Ao longo de três meses de trabalho, conseguiu reunir cerca de 70 mil sementes de seringueira.

Todo esse volume de sementes, que pesava cerca de 1 tonelada, foi acondicionado em 50 cestas de palha de fabricação indígena. As sementes foram envoltas em pacotes feitos com folhas de bananeira, um truque que Wickham aprendeu com os índios da Venezuela e que evitava que as sementes se deteriorassem. 

Para a sorte de Henry Wickham e de seu projeto para o contrabando das sementes, o navio inglês SS Amazonas estava na região e se preparava para realizar a viagem de Manaus até Liverpol. O capitão do navio, num gesto de puro patriotismo, concordou em levar a preciosa carga para a Inglaterra. Diplomatas ingleses sediados em Manaus fizeram o seu “trabalho” junto aos fiscais da alfândega local, que não criaram maiores problemas para o embarque das “cestas indígenas”. 

Henry Wickhan recebeu cerca de 700 libras esterlinas como recompensa pelo seu trabalho sujo, mas não logrou êxito em sua maior ambição – chefiar a implantação dos seringais em colônias inglesas do Sudeste Asiático. Autoridades do Governo inglês e diretores do Kew Gardens o consideravam uma pessoa “não confiável” para essa missão. Anos mais tarde, ele acabou sendo agraciado com o respeitável título de Sir pela Rainha Vitória, em reconhecimento aos seus serviços pelo país. Os botânicos ingleses conseguiram produzir cerca de 2.900 mudas de seringueiras em suas estufas. Essas mudas só passaram a ser plantadas nas colônias inglesas do Sudeste Asiático em 1894, quando a demanda pela borracha passou a crescer fortemente com o início da produção em massa de automóveis. 

A produção de látex nos seringais do Oriente começou em 1900, quando foram produzidas cerca de 4 toneladas, um volume desprezível quando comparado às 26.760 toneladas exportadas pela Amazônia naquele mesmo ano. Essa produção, entretanto, foi crescendo exponencialmente e, em 1913, superou a produção do látex da Amazônia. Bastaram uns poucos anos mais para destruir, em definitivo, a indústria gomífera da Amazônia. 

Um relatório oficial da diretoria do Kew Gardens, justificando o roubo das sementes da seringueira anos mais tarde, disse que aquilo foi um ato pelo “bem da humanidade – um seringueiro bêbado, depois de uma noite de cachaça, poderia destruir todas as árvores em seu caminho”. 

Ou seja, a preocupação “hipócrita” com as queimadas na Amazônia, como se nota, ocupa os gringos há muito mais tempo do que todos nós imaginamos.

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JULIO ARANÃ: O REI DO LÁTEX NA AMAZÔNIA PERUANA E SEUS MILHARES DE ESCRAVOS INDÍGENAS

Rio Putumayo

Nessa sequência de postagens, estamos mostrando algumas histórias da ocupação da Amazônia durante o Ciclo da Borracha que, entre meados do século XIX e o ano de 1920, trouxe prosperidade e muita riqueza para uma pequena elite equatorial. Para centenas de milhares de seringueiros pobres, grande parte arregimentada nas áreas mais miseráveis dos sertões do Nordeste, essa aventura nos confins da Floresta Amazônica resultou em suor, lágrimas e pobreza num “inferno verde”. 

Ao contrário do que essas histórias possam sugerir, a saga da exploração do látex não ficou limitada ao trecho brasileiro da Amazônia – essas tragédias se espalharam por toda a Bacia Amazônica; onde houvessem seringueiras, as árvores produtoras do látex, surgiriam seringalistas e seringueiros à suas sombras.  

Conforme comentamos em postagens anteriores, a seringueira, cujo nome científico é Hevea brasiliensis, é uma árvore nativa da Amazônia e, não custa lembrar, a grande Floresta se distribui entre Brasil, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela, Suriname, Guiana e Guiana Francesa. Como mais de 60% da Floresta Amazônica se encontra em território brasileiro, nosso país teve todas as condições naturais para se tornar o maior produtor mundial de látex. Porém, nossos vizinhos também partilharam, em maior ou menor grau, das riquezas e das tragédias sociais geradas pela exploração, processamento e exportação do látex. No caso da região do rio Putumayo, é impossível falar desses problemas sem lembrar de Julio Araña, um personagem sui generis da história da Amazônia e que era conhecido por seus pares como o “rei do Putumayo“. 

O rio Putumayo, que no trecho final dentro do território brasileiro recebe o nome de rio Içá, é um dos grandes afluentes formadores do rio Solimões. O Putumayo nasce nos contrafortes orientais da Cordilheira dos Andes, numa região conhecida como Nudo de Los Pastos, na Colômbia. O rio tem aproximadamente 1.800 km de extensão (algumas fontes falam de 1.650 km) e ao longo do seu curso ele faz a divisa entre a Colômbia e o Equador, e depois entre a Colômbia e o Peru. Os principais rios formadores do Putumayo são Guamúrez, San Miguel e Igara Paraná. O nome Putumayo é de origem quéchua, uma importante língua indígena andina, e significa algo como “rio das vasilhas”, numa referência a uma fruta de casca dura que os indígenas usavam para fazer vasilhames, algo semelhante às nossas cabaças.

O rio Putumayo é navegável em praticamente toda a sua extensão, sendo uma importante via de transportes e comunicação para as populações das regiões Amazônicas do Equador, Peru e Colômbia, além de permitir a comunicação por via fluvial com a Amazônia brasileira. A Cordilheira dos Andes, uma imponente cadeia montanhosa que se estende por toda a face oeste da América do Sul desde a Terra do Fogo até o Norte da Colômbia, é um divisor natural entre as populações que vivem na costa do Oceano Pacífico e aquelas que vivem a Leste da Cordilheira – no nosso caso, as populações da Floresta Amazônica. Para essas regiões ao Leste da Cordilheira dos Andes, a navegação pelos rios da bacia Amazônica é uma importante atividade social e econômica, pois lhes permite uma saída para o Oceano Atlântico, em condições muito superiores às saídas existentes para o Oceano Pacífico em seus respectivos países.  

Julio César Araña del Águilamuito provavelmente, é um ilustre desconhecido para a maioria dos leitores – porém, nos áureos tempos do Ciclo da Borracha, o empreendedor e depois político peruano comandou um gigantesco império gomífero, com uma área do tamanho da Bélgica. Em 1907, para que todos tenham uma ideia do tamanho de seu patrimônio, Julio Araña registrou sua empresa em Londres, a Companhia Peruana da Amazônia, onde declarou um patrimônio de 1 milhão de libras esterlinas. A empresa tinha a sua sede em Iquitos, no Peru, e diversas associações com empresas da Europa.  

Com o passar dos anos, Julio Araña foi estendendo os seus domínios para toda a região da bacia hidrográfica do rio Putumayo, incorporando seringais na Colômbia e no Equador. Uma das alcunhas “conquistadas” por Julio Araña ao longo dos anos foi a de “el Rey del Putomayo” – ele foi, provavelmente, o maior produtor individual de látex da Amazônia. Por questões de “civilidade”, Araña enviou sua esposa e filhos para viver no Sul da França, onde professores ingleses poderiam proporcionar uma “melhor” educação para os seus herdeiros.  

Uma característica da exploração do látex em terras brasileiras, fato que teve enormes repercussões após a publicação dos relatos de Euclides da Cunha durante a Comissão Mista Brasileiro-Peruana de Reconhecimento do Alto Purus, realizada entre 1904 e 1905, foram as observações acerca do regime de semi escravidão imposto aos trabalhadores pelos seringalistas. No caso do Império de Julio Araña, a exploração do látex era feita por indígenas escravizados – a famosa foto que ilustra esta postagem, publicada por um jornal em 1913, mostra alguns dos seus “trabalhadores” indígenas acorrentados. 

As péssimas condições de vida nos seringais e as jornadas de trabalho extenuantes para se conseguir atingir as cotas de produção de látex custaram, segundo algumas fontes, a vida de 30 mil indígenas (é possível que o número de mortos tenha sido bem maior). Segundo alguns cálculos feitos por historiadores, isso significa que, para cada jogo de quatro pneus fabricado a partir do látex produzido nos seringais de Julio Arana, um indígena morreu.  

Jornais do Peru, da Colômbia e do Equador começaram a receber inúmeras denúncias sobre a tortura e a morte de trabalhadores, estupro sistemático de mulheres indígenas nos seringais e das condições de vida absolutamente insuportáveis nos centros de produção de Julio Araña. Reportagens investigativas se multiplicaram, acompanhadas de editoriais cheios de denúncias e com provas irrefutáveis de tudo o que acontecia dentro do Império de Julio Araña. “Inexplicavelmente”, nenhuma denúncia contra ele ou contra as suas empresas jamais conseguia prosperar dentro no Peru.  

Foi somente no final de 1912, depois de intensa pressão internacional, que o Congresso peruano decidiu instalar um Comitê Parlamentar para investir a procedência das acusações contra Julio Araña. Esse comitê teve duração de seis meses – Julio Araña negou ter conhecimento de qualquer uma das acusações e colocou a culpa de eventuais ocorrências em seus funcionários, afirmando inclusive que esses agiram por conta própria, sem que ele fosse consultado. De acordo com declarações registradas, Julio Araña alegou que suas empresas “estavam ajudando a civilizar regiões do interior da Floresta Amazônica“. Por “falta de provas”, o Governo do Peru não processou o empreendedor.

O Governo Britânico tentou abrir processos judiciais internacionais contra Araña, inclusive pressionando o Brasil e os Estados Unidos a colaborar nas causas. Com o início da Primeira Guerra Mundial em 1914, o assunto acabou sendo deixado de lado. As empresas de Julio Araña mantiveram as suas operações até 1920, quando a concorrência com os seringais do Sudeste Asiático inviabilizou a produção do látex na Amazônia.

Julio Araña conseguiu se manter impunemente no mundo dos negócios até 1932, quando conflitos armados entre a Colômbia e o Peru pela disputa de fronteiras fez com que ele perdesse a maior parte de suas terras e acabasse falido. O destino, porém, sorriu mais uma vez para Julio Araña – com o prestígio dos tempos de “el Rey del Putumayo” e de sua enorme popularidade, conseguiu se eleger como senador, vivendo tranquilamente com a “imunidade parlamentar” até sua confortável morte aos 88 anos, em 1952.  

Qualquer semelhança com políticos brasileiros na atualidade não é mera coincidência – tratam-se de estruturas políticas e econômicas criadas, desde sempre, em toda a América Latina para proteger e favorecer as classes ricas e poderosas. 

OS SERINGAIS, OS SERINGUEIROS E OS SERINGALISTAS DA AMAZÔNIA

Vapor amazônico

O Primeiro Ciclo da Borracha, conforme comentamos em postagens anteriores, teve início em meados do século XIX e se estendeu até 1920, quando os custos de produção, beneficiamento e exportação do látex da Amazônia perdeu completamente a competitividade no mercado mundial. Essa decadência começou em 1913, quando os seringais plantados por empresas da Inglaterra em países do Sudeste Asiático iniciaram a sua produção. O início da I Grande Guerra Mundial (1914-1918), que provocou um aumento na demanda por borracha, ajudou a dar uma sobrevida ao látex da Amazônia. 

Entre o nascer e o ocaso da indústria gomífera da Amazônia, seringalistas, grandes atacadistas e exportadores ganharam verdadeiros rios de dinheiro. Manaus, uma das sedes dessa elite equatorial, recebeu todos os melhoramentos encontrados nas cidades mais prosperas do mundo há época e era conhecida como a “Paris dos trópicos”. Por outro lado, os seringueiros e outros trabalhadores responsáveis pela extração do látex nas selvas, sobreviviam numa situação análoga à escravidão – talvez até pior, uma vez que os escravos não tinham dívidas a pagar. Vamos falar um pouco sobre esses universos tão contraditórios. 

Os seringalistas, chamados por muitos de Senhores da Borracha e também Coronéis de Barranco, eram os donos dos seringais e empregadores de todo um conjunto de trabalhadores envolvidos na extração e beneficiamento do látex. Normalmente, esses homens já estavam envolvidos em atividades comerciais e dispunham de algum capital para iniciar o seu próprio negócio na indústria gomífera. Nos primeiros tempos da exploração do látex, aventureiros montavam expedições baseadas em embarcações a vapor e se embrenhavam pelos rios da Bacia Amazônica buscando regiões com grandes concentrações de árvores seringueiras (Hevea brasiliensis). A seringueira é uma árvore típica da Floresta Amazônica e quanto maior a concentração de árvores, maior seria a produtividade do seringal. 

Um elemento importante nessas viagens exploratórias eram os jagunços, “profissionais” contratados com a missão de “limpar” os terrenos infestados com indígenas. Conforme já comentamos em outras postagens, a “limpeza de territórios” foi corriqueira desde os primeiros tempos da colonização da Amazônia. Unidades militares fortemente armadas se encarregavam de expulsar ou exterminar as tribos indígenas mais hostis – os índios mais mansos eram levados para os aldeamentos dos religiosos para a catequização. Os indígenas que conseguiam escapar desses ataques, foram se embrenhando em rios e matas cada vez mais distantes nos confins da Amazônia, onde imaginavam estar seguros – com o início da exploração dos látex, essa relativa segurança acabou. 

Uma das primeiras construções de um seringal era o barração, normalmente localizada na margem de um grande rio, estrategicamente posicionado para facilitar o embarque e o desembarque de mercadorias, ferramentas e víveres, além de permitir o fácil escoamento da produção de látex. Ao redor desse barracão eram construídas a casas do staff do seringalista, normalmente chamadas de Centros. Entre esses profissionais destacam-se os mateiros, responsável por localizar as seringueiras na mata e abrir as estradas de acesso.  

O noteiro ou aviador era o responsável pela venda de produtos aos seringueiros (alimentos, ferramentas, bebidas, etc), vendas que eram anotadas em uma caderneta e descontadas da produção do látex. Também moravam nos Centros o gerente do seringal, os jagunços e também os tropeiros ou comboeiros, encarregados pelo transporte das mercadorias e da produção. Os seringalistas, normalmente, moravam com suas famílias numa casa bastante confortável numa cidade e raramente se davam ao trabalho de visitar seus seringais nos confins das matas. 

Na base dessa estrutura encontravam-se os seringueiros, os responsáveis pelo trabalho mais difícil e insalubre dos seringais – a coleta do látex nas árvores espalhadas pela mata e a produção das pélas, grandes peças de látex defumado. Os seringueiros eram instalados em casebres de palha ao lado de uma “estrada” de seringueiras. Essas estradas eram picadas abertas no meio da mata, onde podiam ser encontradas entre 100 e 120 seringueiras. Em regiões com alta concentração de seringueiras, esse número podia chegar até 160 árvores. 

A rotina dos seringueiros costumava começar antes do nascer do sol, quando eles começavam a percorrer a sua estrada sob o facho da luz de uma lamparina presa na cabeça, a poronga. Ao encontrar as seringueiras, era feito o corte das bandeiras, incisões feitas na casca da árvore para a extração do látex. Dependendo do tamanho do tronco, cada árvore podia ter duas ou três bandeiras. O corte das árvores era feito em dias alternados, um cuidado tomado para não exaurir a capacidade de produção da árvore. Os cortes precisavam ser feitos com bastante cuidado – se fossem muito rasos, o fluxo de látex seria muito pequeno; cortes muito profundos poderiam matar a árvore. 

Após completar toda a estrada, o seringueiro refazia todo o percurso recolhendo em um balde o látex que escorreu das árvores ao longo do dia e foi acumulado em pequenas tigelas presas nos troncos. Os seringueiros sempre realizavam essas caminhadas pelas estradas armados com uma espingarda – essa era uma precaução em caso de encontro com algum índio hostil; com muita sorte, ele também poderia encontrar algum animal silvestre pelo caminho e assim poderia garantir uma proteína para o seu magro jantar. 

Quando finalmente conseguiam voltar para seus casebres, tinha início o seu “terceiro turno” de trabalho – a defumação do látex para a formação das pélas de borracha, um trabalho que só terminava depois de escurecer. Os seringueiros tinham cotas de produção a cumprir e, não raramente, eram obrigados a trabalhar por até 17 horas seguidas a cada dia. Eles sempre começam os trabalhos de madrugada para evitar as chuvas, que normalmente caiam no final da tarde e costumavam prejudicar o rendimento do trabalho. 

De acordo com os contratos de trabalho assinados com os seringalistas e também com as “normas trabalhistas” da época, os seringueiros deveriam receber 60% do preço da venda do látex. Os patrões sempre davam um jeito de pagar valores cada vez mais irrisórios, além de inflacionar os preços dos mantimentos e outros ítens vendidos nos barracões do seringal. Os seringueiros estavam sempre em dívida com os patrões e eram obrigados a trabalhar cada vez mais para atender as cotas de produção de pélas de látex. A esposa e os filhos acabavam envolvidos nesse processo e eram obrigados a trabalhar em conjunto na produção da matéria-prima

No alto dessa cadeia produtiva encontravam-se os grandes atacadistas, que circulavam em grandes embarcações a vapor pelos rios da Bacia Amazônica (vide foto) e que comprovam a produção de látex dos seringalistas. O pagamento era feito parte em dinheiro e parte em mercadorias como alimentos, roupas, ferramentas, bebidas, fumo, munição para as espingardas e também artigos de luxo para as famílias dos Coronéis dos Barrancos. 

As grandes Casas Exportadoras do látex ficavam em Manaus e em Belém, sendo as responsáveis pela exportação do valioso látex para Europa, Estados Unidos e Japão, os grandes produtores de artigos de borracha. Como seria de esperar, eram os exportadores que auferiam os maiores lucros da indústria gomífera e tinham em suas mãos o controle dos preços e dos volumes exportados. Quando essas empresas perceberam que o látex da Amazônia deixou de ser competitivo no mercado internacional, elas fecharam suas portas e largaram seringalistas e seringueiros com montanhas de pélas de látex sem valor. 

Seringalistas que haviam guardado algum recurso para um “dia de chuva”, ainda conseguiram reorganizar suas vidas e partir para outros negócios mundo afora. Já os seringueiros, esses foram largados no meio das matas e sujeitos à sua própria sorte. 

A lei da selva, onde o mais forte sobrevive, nunca foi tão cruel. 

A CONSTRUÇÃO DA FERROVIA MADEIRA-MAMORÉ EM RONDÔNIA

Ferrovia Madeira-Mamoré

A exploração do látex da Amazônia, a partir de meados do século XIX, colocou a maior floresta equatorial no mapa do mundo e foi um dos mais importantes fatores para impulsionar a colonização da Bacia Amazônica. A força da indústria gomífera na região pode ser comprovada pela saga do Acre, um antigo território da Bolívia, que foi invadido por seringalistas e seringueiros brasileiros, quase provocando uma guerra de grandes proporções entre os dois países. Grupos revoltosos brasileiros declararam a Independência do Acre em três ocasiões diferentes entre 1899 e 1903, o que forçou o Governo do Brasil a negociar a compra do território do Acre junto ao Governo Boliviano, acordo que culminou com a assinatura do Tratado de Petrópolis em 17 de novembro de 1903. 

Entre outras condições, o Tratado de Petrópolis estabeleceu o compromisso do Governo brasileiro em levar a cabo a construção de uma ferrovia de interligação entre os rios Mamoré, na divisa entre o Brasil e a Bolívia, e o trecho navegável do rio Madeira, a partir da Cachoeira de Santo Antônio, nas proximidades da cidade de Porto Velho. O trecho inicial do rio Madeira, que nasce a partir da junção das águas dos rios Guaporé, Mamoré e Beni, é repleto de afloramentos rochosos, corredeiras e cachoeiras, o que impedia o transporte fluvial e a exportação do látex e de outros produtos bolivianos a partir dessa via. Os rios Purus e Juruá, dois importantes afluentes do rio Solimões com cabeceiras no território do Acre, eram as vias navegáveis que permitiam uma saída da Bolívia em direção ao Oceano Atlântico, mas foram perdidas após a cessão daquele território ao Brasil. 

O território da Bolívia sempre foi um dos mais isolados da América do Sul, cercado pela Cordilheira dos Andes a Oeste, pela Floresta Amazônica ao Norte e em grande parte do Leste, além de possuir áreas úmidas no Gran Chaco ao Sul e no Pantanal de Mato Grosso a Leste. A situação de isolamento do país se complicou ainda mais a partir de 1879, quando estourou a Guerra do Pacífico – Bolívia, Chile e Peru disputavam o controle do Porto Cobija, atual Antofagasta. Essa região pertencia originalmente à Bolívia e sempre foi cobiçada pelos outros países por causa das suas reservas de nitrato. A Bolívia saiu derrotada do conflito em 1883 e perdeu sua saída para o Oceano Pacífico, que passou a fazer parte do território do Chile. A construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré era vital para a isolada economia da Bolívia

A primeira citação ao uso dos rios Mamoré e Madeira para a exportação de produtos bolivianos rumo ao Oceano Atlântico data de 1846 e foi feita pelo engenheiro boliviano José Augustin Palácios. Exploradores que percorreram a região a partir de 1850 confirmaram essa hipótese, afirmando, porém, que seriam necessárias obras para a construção de eclusas e barragens para vencer os desníveis do rio Madeira. Um desses exploradores, Lardner Gibbon, tenente da Marinha dos Estados Unidos, sugeriu a construção de uma estrada e o uso de tropas de mulas para transportar as mercadorias entre as cidades de Guajará-Mirim e Santo Antônio. 

O primeiro estudo que recomendava a construção de uma ferrovia data de 1861, quando foi realizada uma expedição comandada pelo coronel boliviano Quentín Quevedo e pelo engenheiro brasileiro João Martins da Silva Coutinho. De acordo com esses estudos, essa ligação terrestre poderia ser feita por uma linha férrea de pouco mais de 350 km, que seguiria através de terrenos com uma suave declividade entre Guajará-Mirim, na divisa com a Bolívia, e a região da Vila de Santo Antônio, no rio Madeira.  

Em atendimento a cláusulas do Tratado de Ayacucho, assinado entre o Brasil e a Bolívia em 1867, e onde foram estabelecidas as bases para a futura demarcação da fronteira entre os dois países, o Governo brasileiro contratou os engenheiros alemães Joseph e Franz Keller para a realização de estudos mais detalhados dessa ligação. Esses engenheiros passaram todo o ano de 1868 percorrendo a região e fazendo estudos topográficos detalhados. No início de 1869, esses profissionais viajaram até o Rio de Janeiro, onde apresentaram três propostas ao Governo Imperial – a construção de um sistema de barragens e eclusas para a operação de uma hidrovia no rio Madeira, a construção de canais de navegação em planos inclinados e a construção de uma ferrovia, a alternativa mais cara para o empreendimento. 

A primeira concessão para a construção e concessão da ferrovia data de 1870, quando o Imperador brasileiro Dom Pedro II publicou um decreto em nome do engenheiro americano Coronel George Earl Church. Desde 1867, o Coronel Church vinha negociando a realização dessa obra com o Ministro Plenipotenciário da Bolívia, Quentín Azevedo. Após obter a concessão, o Coronel Church viajou para os Estados Unidos, onde levantou fundos para a criação de uma empresa de navegação a vapor, a National Bolivian Navigation Company, fundada ainda em 1870. A seguir, Church viajou para a Inglaterra, onde teve grandes dificuldades para obter financiamento para a construção da ferrovia. Em março de 1871, foi criada a Madeira and Mamoré Railway Company, Limited, uma subsidiária da National Bolivian Navigation Company

Os engenheiros ingleses responsáveis pela construção chegaram na Vila de Santo Antônio em meados de 1872. Depois de vários meses de trabalhos, esses engenheiros emitiram um laudo informando que a construção da ferrovia era inviável tecnicamente. O Coronel Church concluiu que a construtora inglesa tinha sabotado seu projeto e lutou durante cinco nos tribunais ingleses até sua derrota final numa apelação à Casa dos Lordes da Inglaterra. Atendendo aos interesses políticos do Brasil, a Princesa Isabel prorrogou o prazo para a conclusão das obras até 1884. 

Em 1877, o Coronel Church contratou uma construtora norte-americana, que retomou as obras no início de 1878. Trabalhando sob condições adversas, onde se incluem doenças tropicais, matas fechadas, inundações e ataques de índios, o que custou a vida de centenas de trabalhadores da obra, um pequeno trecho de ferrovia operando com uma única locomotiva foi inaugurado em meados de 1878. As obras prosseguiram lentamente até agosto de 1879, quando estourou a Guerra do Pacífico e a construção foi abandonada. 

Após a assinatura do Tratado de Petrópolis em 1903, o Governo brasileiro retomou os trabalhos para a construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré e abriu uma nova licitação internacional para a concessão da obra. Essa nova concessão foi vencida pelo engenheiro norte-americano Percival Farquhar. No final do ano de 1906, foi criada nos Estados Unidos a Madeira-Mamoré Railway Co; as obras de construção foram iniciadas no princípio de 1908. 

Em abril de 1910 foi inaugurado um trecho com 90 km de trilhos, ligando a cidade de Porto Velho a Jaci-Paraná. O trecho final da ferrovia foi inaugurado em abril de 1912, totalizando 366 km de extensão e interligando as cidades de Porto Velho e Guajará-Mirim. Cerca de 20 mil trabalhadores foram empregados na construção da ferrovia – 1.552 desses morreram durante as obras, principalmente vitimados pela malária. Por uma infeliz coincidência, a data de conclusão da ferrovia coincidiu com a entrada do látex produzido no Sudeste Asiático pelos seringais plantados pelos ingleses, evento que marcou o início do declínio da indústria gomífera da Amazônia. Ao longo de toda a sua operação, a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré sempre foi deficitária. A Ferrovia operou continuamente até 1972, quando foi desativada pelo Governo Federal.

Após a desativação, todo o patrimônio da Madeira-Mamoré foi sendo degradado pelo tempo e depredado sistematicamente pela população. Pedaços de trilhos da ferrovia podem ser vistos por todos os lugares formando cercas, colunas e estruturas de telhados, portões e escoras de barrancos. As antigas pontes metálicas foram reformadas e passaram a ser usadas pela rodovia que atualmente liga as cidades de Porto Velho e Guajará-Mirim. Dezenas de locomotivas a vapor e vagões podem ser vistos apodrecendo no meio da mata.

Uma única locomotiva escapou do sucateamento e um trecho com apenas 20 km de trilhos da ferrovia foi preservado. Teimosamente, esse pequeno fragmento do que foi a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré segue contando uma parte importante dessa grandiosa saga amazônica. 

A REPÚBLICA DO ACRE

Luis Gálvez

Um capítulo interessante da história da Amazônia e que não costuma ocupar espaços relevantes nos currículos escolares é a Independência do Acre em 1899. Esse movimento surgiu a partir da ocupação de uma extensa região rica em seringais no Sudoeste da Amazônia e que pertencia originalmente à Bolívia. A partir de meados do século XIX, quando começaram a surgir as mais diversas aplicações industriais para a borracha vulcanizada, o látex se transformou no verdadeiro “ouro branco da Amazônia”. Aventureiros de todos os cantos do Brasil e do mundo começaram a se embrenhar na Floresta Amazônica em busca das seringueiras (Hevea brasilinesis), as árvores produtoras do látex. Um desses aventureiros foi João Gabriel de Carvalho e Melo, fundador do primeiro seringal do Acre e sobre o qual falamos na última postagem

A saga de João Gabriel no Acre teve início em 1878, quando ele funda o seringal Anajás na foz do rio Acre. Cerca de vinte anos depois, o território já contava com cerca de 400 seringais, em sua maioria pertencentes a brasileiros e tocados por seringueiros brasileiros. O problema é que essa região pertencia à Bolívia, país que estava muito incomodado com essa invasão de seu território por estrangeiros. Detentora de uma área substancial da Floresta Amazônica e de seringueiras nativas, a Bolívia também queria auferir altos ganhos com a comercialização do valioso látex e não poderia aceitar esse verdadeiro roubo da matéria-prima do seu território. 

Com a assinatura dos Tratados Madrid, em 1770, e de Santo Ildefonso, em 1777, Portugal e Espanha repactuaram a divisão dos seus territórios na América do Sul. Os termos do antigo Tratado de Tordesilhas de 1494 não estavam sendo respeitados há muito tempo. De acordo com esse tratado, o território onde se encontra o Acre pertenceria à Bolívia. A consolidação das fronteiras do Brasil à época de sua independência em 1822 seguiu os termos desses Tratados. Em 1867, o Brasil e a Bolívia assinaram o Tratado de Ayacucho, onde foram estabelecidas as bases para a futura demarcação da fronteira entre os dois países, o que ficaria vinculado à criação de uma comissão de demarcação binacional, o que não foi feito. Os seringalistas brasileiros se aproveitaram dessa falha e continuaram se estabelecendo sistematicamente e dominando toda a região. 

Pequenas guarnições militares da Bolívia faziam investidas regulares contra os seringais dos brasileiros, mas sempre acabavam sendo repelidos pelo fogo dos seringueiros, grupo formado em sua maior parte por sertanejos nordestinos habituados à “guerra de tocaia”. Sem conseguir obter êxito na expulsão dos brasileiros de seu território, em janeiro de 1899 a Bolívia resolveu instalar um posto alfandegário em Porto Alonso, conhecido atualmente como Porto Acre, na divisa com o Estado do Amazonas. Se não era possível expulsar os seringueiros do seu território, a Bolívia passaria então a taxar o látex “exportado”. Aqui é importante lembrar que o rio Purus era, há época, a via de escoamento de toda a produção do látex do Acre na direção de Manaus. 

Inconformados com essa medida do Governo boliviano, os colonos brasileiros se revoltaram e, sob o comando do advogado José de Carvalho, expulsaram todos os bolivianos da região no dia 30 de abril de 1899. Com o apoio do Governador do Estado do Amazonas, José Cardoso Ramalho Júnior, foram mandadas tropas formadas por aventureiros brasileiros e mercenários cubanos, sob o comando do espanhol Luís Gálvez Rodriguez de Arias (vide foto), que servira como embaixador da Bolívia em Belém. As tropas de Gálvez chegaram ao Acre no início do mês de julho – no dia 14 foi proclamada a República do Acre, um Estado independente do Brasil e da Bolívia. 

Gálvez assumiu o governo provisório, sendo chamado por muitos de “Imperador do Acre”. Cerca de seis meses depois, Gálvez sofreu um “golpe de Estado”, sendo substituído no governo provisório pelo seringalista cearense Antônio de Sousa Braga. Pouco mais de dois meses depois, Gálvez reassumiu o governo provisório. Em 15 de março de 1900, uma flotilha de guerra do Brasil chegou ao Acre, onde destituiu e prendeu Gálvez, devolvendo o território do Acre para a Bolívia, um ato que desagradou toda a população brasileira do território. 

Uma nova convulsão social tomou conta do Acre em novembro de 1900, quando uma força composta por brasileiros foi organizada com o objetivo de criar novamente uma república independente. Contando mais uma vez com o discreto apoio do Governador do Amazonas, essa expedição, que ficou conhecida como a Expedição dos Poetas e também como Expedição Floriano Peixoto, foi comandada pelo jornalista Orlando Correa Ferreira. O Governo do Amazonas tinha informações que davam conta de um suposto acordo entre a Bolívia e os Estados Unidos para a exploração do látex no território do Acre, algo que prejudicaria, e muito, os seringalistas brasileiros. 

A base de operação dos revoltosos foi o vapor Solimões que operava na rota do rio Purus até Manaus. Os revoltosos tomaram um vapor boliviano, o Alonso, que foi renomeado como Rui Barbosa. Esse grupo de revoltosos, que contava com cerca de 200 homens, um canhão leve e uma metralhadora, atacou Puerto Alonso no Natal daquele ano, sendo derrotado pelas tropas bolivianas e perdendo a maior parte dos seus armamentos. Terminava sem começar a chamada “Segunda República do Acre”. 

Uma “Terceira República do Acre” chegou a ser proclamada sob o comando de Plácido de Castro, um militar gaúcho que foi contrato pelos seringalistas acreanos em 1902 para treinar e liderar uma tropa de 2 mil seringueiros. Em 6 de agosto de 1902, Plácido de Castro liderou um grupo de 32 homens, subindo o rio Acre e atacando a intendência da Bolívia na cidade de Xapuri, onde aprisionou todos os militares bolivianos. Tropas bolivianas contra-atacaram em 18 de setembro, forçando Plácido de Castro a uma retirada estratégica, quando perdeu mais da metade dos seus comandados. Voltando a se reunir com suas tropas, Plácido de Castro iniciou uma campanha contínua contra diversas cidades do território, vencendo a maior parte dos confrontos contra as forças da Bolívia. Em 27 de janeiro de 1903, foi proclamada a Terceira República do Acre, onde foi estabelecido um governo militar sob comando do General Olímpio da Silveira. 

Essa nova “República” contava com o apoio do Presidente do Brasil há época, Rodrigues Alves, e do Ministro do Exterior, o Barão do Rio Branco. A situação da ocupação desse território boliviano por brasileiros passou a ser considerada irreversível e o Governo brasileiro resolveu partir para uma negociação diplomática junto ao Governo da Bolívia. Em 21 de março de 1903, o Brasil e a Bolívia assinaram um acordo preliminar, que posteriormente foi retificado pelo Tratado de Petrópolis em 17 de novembro de 1903, a partir do qual o Acre passou a ser território brasileiro

Pelos termos do Tratado de Petrópolis, a Bolívia abriria mão de todo o território do Acre. Em troca, o Brasil pagaria uma indenização de 2 milhões de libras esterlinas, além de transferir para a Bolívia faixas fronteiriças de terras no Estado de Mato Grosso. O Brasil também assumiu o compromisso de construir uma ferrovia ligando o rio Mamoré, que marca a fronteira entre o Brasil e a Bolívia, com o trecho navegável do rio Madeira, a partir da cidade de Porto Velho, no atual Estado de Rondônia. Essa ligação, batizada como Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, possibilitaria o escoamento da produção de látex da Bolívia através dos rios da Bacia Amazônica e marcaria um outro importante capítulo da ocupação e história da Amazônia. 

Falaremos disso em nossa próxima postagem. 

OS SERINGUEIROS DA AMAZÔNIA, OU SEGUINDO O CANTO DAS SEREIAS

Seringueiros da Amazônia

A indústria gomífera, nome dado a todo o ciclo de atividades ligadas à exploração e processamento do látex, trouxe muita riqueza e prosperidade para as elites locais da Amazônia. A riqueza dessa elite equatorial foi construída com o látex, chamado “leite das árvores”, expressão usada para se referir à seiva das árvores da espécie Hevea brasiliensis, a famosa seringueira, e com o sangue de dezenas de milhares de migrantes trazidos, majoritariamente, dos sertões do Nordeste e largados à sua própria sorte nos confins da floresta. Esses trabalhadores eram recrutados muitas vezes em suas próprias cidades por algum amigo ou parente, onde recebiam promessas de um bom trabalho e de exuberantes lucros. Acompanhem um desses casos:

João Gabriel de Carvalho e Melo, um cearense natural de Uruburetama, é um exemplo do aventureiro que largou tudo para se embrenhar pelas matas da Amazônia em busca das árvores produtoras do látex. Ele mudou-se para Belém do Pará em 1847. Trabalhando em Belém, João Gabriel começou a ouvir histórias sobre as riquezas geradas pela exploração do látex nas florestas. Ele acabou entorpecido com o sonho de fortuna e passou a buscar todas as informações disponíveis sobre as seringueiras, o corte e a extração do látex, a defumação para a formação das pélas, muitas vezes chamadas de pélas de borracha, e tudo mais que fosse possível aprender.

Em 1852, João Gabriel se embrenhou na Floresta Amazônica, navegando pelos imensos rios, quando acabou atingindo o rio Purus. Este rio, em particular, o deixou impressionado dada a quantidade de seringais nativos que possuía ao longo das suas margens. João Gabriel decidiu que seu futuro estava ali. Ele voltou primeiro para Belém e depois foi para o Ceará, onde começou a agregar familiares e conhecidos que estivessem dispostos a abandonar os sertões do Semiárido Nordestino e tentar a sorte na  Amazônia. As histórias de opulência da Floresta Amazônica que esses recrutadores de mão-de-obra contavam lembravam as antigas lendas das sereias, criaturas míticas que atraíam os marinheiros para uma morte certa através do seu irresistível canto. Os primeiros conquistadores da Amazônia, inclusive, imaginavam que os peixes-boi eram essas mitológicas criaturas.

Depois de vários anos de trabalho até que conseguisse reunir os recursos financeiros para essa grande empreitada, em 6 de fevereiro de 1878, João Gabriel e sua imensa comitiva de parentes e amigos parte de Belém a bordo do vapor Anajás, e seguem até a região conhecida como Boca do Acre, no alto rio Purus, nas proximidades da foz do rio Acre. É ali que é fundado o primeiro seringal do Acre – o Anajás. João Gabriel se tornou assim, uma figura importante na história local, tendo tido uma importante participação na chamada Independência do Acre e também na fundação de diversas cidades como Lábrea, no Estado do Amazonas. O Comendador João Gabriel de Carvalho e Melo faleceu em 1894 em seu seringal – o Anajás.

A história de sucesso desse pioneiro e empreendedor da indústria de exploração do látex amazônico, assim como a de muitos outros senhores da borracha, esconde toda uma grande estrutura de exploração da mão-de-obra dos seringueiros, que estava muito próxima da escravidão. Essa “escravização” começava com o processo de contratação dos trabalhadores em seus Estados de origem. O contrato de trabalho previa um “adiantamento” de salários para o pagamento das despesas de viagem, alimentação, ferramentas, alojamento e suprimentos para os primeiros meses nas áreas de exploração do látex. O trabalhador já chegava altamente endividado nos seringais e teria de trabalhar duro para realizar os pagamentos na forma de pélas de borracha.

Uma outra armadilha do sistema se dava através dos armazéns de secos e molhados dos seringais, que pertenciam aos senhores da borracha e que vendiam as mercadorias a preços exorbitantes. Os trabalhadores tinham uma “conta”, onde eram lançados todos os valores gastos em produtos – esses gastos seriam abatidos dos ganhos que conseguisse auferir com a produção das pélas de borracha. Por mais que estendessem suas jornadas diárias de trabalho extraindo látex das árvores e contassem com a ajuda de familiares para a defumação das pélas de borracha, as contas nunca fechavam e os seringueiros viviam eternamente endividados junto aos patrões. O segredo para esse endividamento contínuo, que prendia o seringueiro ao patrão, era o subfaturamento do valor das pélas pelos seringalistas.

De acordo com relatos da época, cada família de seringueiro recebia a cada três meses: 3 sacos de farinha, 1 saco de feijão, 1 saco pequeno de sal, 1 saco de arroz, 8 latas de banha e 20 gramas de quinino (usado para tratamento da malária). Carnes só eram consumidas quando se tinha a sorte de caçar ou pescar alguma coisa. Plantar ou produzir qualquer tipo de alimento nos seringais era absolutamente proibido – essa ocupação prejudicaria a produção do látex e concorreria com os produtos vendidos nos barracões. As famílias dos seringueiros costumavam ser muito grandes, com proles entre 10 e 15 filhos e era praticamente impossível sobreviver decentemente dentro dessas condições de trabalho.

Vinte anos depois da chegada pioneira de João Gabriel de Carvalho e Melo, o Acre contaria com cerca de 400 seringais no vale do rio Juruá e pelo menos 100 no vale do rio Acre – os brasileiros haviam invadido e colonizado o longínquo e isolado território que, naquela época, pertencia à Bolívia. Essa verdadeira invasão de seringalistas e seringueiros brasileiros no território boliviano gerou inúmeros problemas diplomáticos com o país vizinho – entre outros conflitos, como a Independência do Acre, uma questão que só seria resolvida em 1903 com a assinatura do Tratado de Petrópolis, quando o Brasil pagou 2 milhões de libras esterlinas pelo território acreano, cedeu terras na fronteira do Mato Grosso para a Bolívia e assumiu a construção da Ferrovia Madeira-Mamoré

Os seringalistas vendiam a sua produção para as Casas de Aviamento de Manaus e Belém, que pagavam parte em dinheiro e parte em alimentos, ferramentas, roupas, produtos de luxo para as casas dos Coronéis – é claro que estes produtos todos tinham seus preços superfaturados. Já as Casas de Aviamento, essas vendiam as pélas de látex para as Casas Exportadoras, que vendiam toda a produção para empresas nos Estados Unidos, Europa e Japão. Essa estrutura fez a fortuna de muita gente e transformou Manaus e Belém em cidades muito prósperas. No final do século XIX, Belém era uma cidade do tamanho de Madrid, com avenidas largas, jardins, iluminação elétrica, rede telegráfica e linhas de Bonde. Manaus não ficava atrás – em 1892, a cidade já contava com redes de água e esgotos, iluminação e bondes elétricos, cafés e restaurantes sofisticados – muitos chamavam a cidade de “a Paris das Selvas”.

Essa grande infraestrutura que surgiu rapidamente e que permitia a exploração, produção e exportação de grandes volumes de látex desde os confins mais distantes da Floresta Amazônica até os grandes centros econômicos do mundo, só foi possível graças a imensa rede de rios da Bacia Amazônica. O tráfego das “modernas” embarcações a vapor pelos rios da Bacia Amazônica era tão importante há época, que o Governo Imperial se viu obrigado a alterar a legislação do país para facilitar o acesso das companhias internacionais de navegação. Com o objetivo de dinamizar ainda mais as exportações do látex da Amazônia, o Imperador Dom Pedro II assinou, em 1873, um decreto autorizando o tráfego de navios mercantes de todas as nações nos rios da Amazônia.

Nas últimas décadas do século XIX, as exportações do látex respondiam por 25% do total de exportações do país, só perdendo para o café, produto responsável por 50% de nossas receitas. Essa riqueza, é claro, estava nas mãos dos grandes seringalistas, donos de Casas de Aviamento e Exportadores. Contam-se algumas histórias de certos Coronéis da Borracha que usavam altas notas de Réis para acender seus charutos. Dizem até que estes Coronéis mandavam lavar as suas roupas nas lavanderias de Paris.

A opulência e a riqueza gerada pela exploração, processamento e exportação do látex começaram a ruir já em 1913, quando os seringais ingleses de territórios do Sudeste asiático superaram a produção brasileira. Com o desmonte brusco da indústria gomífera, centenas de milhares de seringueiros dispersos pelos quatro cantos da Amazônia foram, simplesmente, esquecidos e largados ao “Deus dará”. Montanhas de pélas de borracha, formadas com muito sangue e suor ao longo de vários meses de trabalho, passaram a valer nada e os carregamentos com as parcas rações de víveres nunca mais chegaram. Esses seringueiros e suas famílias chegaram à Floresta Amazônia com o objetivo de trabalhar alguns anos, juntar dinheiro e depois voltarem para suas terras de origem.

Mas, ao contrário do que imaginavam, a passagem foi só de ida…

O MUNDO DESCOBRE O LÁTEX DA AMAZÔNIA NO SÉCULO XIX

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Nas postagens anteriores, falamos rapidamente do início da colonização da Amazônia, um processo que tinha como objetivo principal a ocupação do território como forma de evitar novas invasões de nações estrangeiras, como foi o caso da França Equinocial entre 1612 e 1615. Além de estimular a transferência de fazendeiros de outras regiões da Colônia, o que era feito mediante a promessa de sessão de grandes extensões de terra, as autoridades coloniais realizavam a “limpeza de territórios” com o uso de tropas militares. Ordens religiosas, principalmente os Jesuítas, se encarregavam da transferência de grandes contingentes indígenas para os seus aldeamentos, onde cuidavam da educação religiosa e formação profissional, tornando os índios “úteis” ao sistema colonial. 

Em 1759, um decreto editado pelo Marquês de Pombal, Sebastião José de Carvalho e Mello (1699-1782), expulsou os Jesuítas de todos os territórios de Portugal. Essa expulsão foi o resultado de longo desgaste entre os religiosos e as autoridades da Coroa – os Jesuítas eram grandes produtores e exportadores de produtos e matérias primas, sobre os quais não havia qualquer incidência de impostos. Outra fonte de problemas eram os atritos com os fazendeiros que, devido aos trabalhos de catequese dos índios, ficavam impedidos de caçá-los e escravizá-los.  

Sem os Jesuítas, os indígenas já aculturados perderam “o rumo”; muitos acabaram capturados e escravizados pelos fazendeiros – outros tantos voltaram para as matas e passaram a viver como ribeirinhos nos rios da Bacia Amazônica. A Região Norte do Brasil, que era completamente periférica dentro do restante da Colônia, acabou praticamente esquecida por várias décadas.

Um “único” sopro de maior atividade na Região foi o breve Ciclo do Algodão nas duas últimas décadas do século XVIII no Maranhão (que tem parte do seu território na Amazônia). A Revolução Industrial “corria solta” na Inglaterra e houve uma verdadeira explosão no consumo dessa matéria prima. Por esse breve período de tempo, o Maranhão se tornou o Estado mais rico do Brasil. Passada a euforia, a Região caiu novamente no esquecimento e só voltaria à “vida” em meados do século XIX, quando um produto da Amazônia chamou a atenção do mundo – o látex

O látex começou a ser utilizado por indústrias do segmento de confecção ainda no século XVIII, quando era pulverizado sobre capas de chuva com o objetivo de criar uma camada impermeável, que funcionava perfeitamente nos dias de chuva. Em dias de extremo calor, porém, a camada impermeável se tornava grudenta e em dias muito frios ela endurecia e se tornava quebradiça. Outros produtos da época feitos à base do látex apresentavam os mesmos problemas.  

Em 1839, o inventor americano Charles Goodyear, depois de inúmeros experimentos, desenvolveu o processo da vulcanização, onde uma mistura de látex e enxofre era submetida a pressão e calor, permitindo a modelagem das peças de borracha e tornando-as resistentes ao calor e ao frio. Após a invenção deste processo, as aplicações industriais e o consumo do látex no mundo explodiram. 

A borracha passou a ser a matéria prima de uma série de produtos inovadores: correias para máquinas, sapatos, luvas, chapéus, roupas impermeáveis, flutuadores, bandas de rodagem para rodas de carroças (mais tarde substituídas por rodas com pneus), mangueiras, entre outros produtos. Nas últimas décadas do século XIX, com o uso cada vez maior da eletricidade, peças isolantes à base de borracha ganharam enorme importância no mercado mundial.  

O látex é uma seiva natural produzida por várias espécies de árvores e plantas, com destaque para a seringueira (Hevea brasiliensis), uma espécie nativa da Floresta Amazônica. Detentor de uma parte considerável dessa Floresta, o Brasil rapidamente despontou como o maior produtor mundial de látex. Entre os anos de 1870 e 1920, as exportações de látex respondiam por 25% das exportações brasileiras, só perdendo para o café.

A forte demanda da matéria prima e a escalada internacional dos preços levaram a uma busca pelos seringais localizados em áreas cada vez mais isoladas da Floresta Amazônica. Esse importante ciclo econômico, conhecido como o Primeiro Ciclo da Borracha, entrou em declínio a partir de 1913, quando os seringais plantados pelos ingleses no Sudeste Asiático iniciaram a sua produção e passaram a oferecer látex mais barato e de melhor qualidade que aquele produzido na Amazônia

Essa concentração de seringais no Sudeste Asiático sofreu um grande revés com o início da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). O Japão, que em conjunto com a Alemanha e a Itália formava as chamadas “Potencias do Eixo”, iniciou um processo de conquista e ocupação de territórios por toda a Ásia e Sudeste Asiático, incluindo-se aqui a Malásia e a Indonésia, os dois maiores produtores mundiais de látex há época.

Com a falta da matéria prima no mercado mundial, a Amazônia ganhou uma nova chance e experimentou um breve retorno aos tempos áureos dos grandes senhores da borracha. A descoberta da borracha sintética, muito mais barata e produzida em grandes quantidades a partir de uma matéria prima encontrada em diversas partes do mundo – o petróleo, e a expulsão dos japoneses por tropas aliadas dos territórios ocupados a partir de 1944, eclipsaram novamente o látex da Amazônia. 

A seringueira é uma árvore nativa da Floresta Amazônica, que nasce aleatoriamente por todos os cantos das diversas formações que compõem o bioma Amazônia. Para extrair o látex dessas plantas, é necessário se fazer uma espécie de mapeamento inicial da localização de cada árvore dentro de uma determinada região, criando-se depois um roteiro específico para que um seringueiro faça a “sangria” das árvores e a coleta do látex.

Esse látex, em estado líquido e com muita água em sua composição, precisa ser defumado, ou seja, transformado em uma massa sólida conhecida como péla, que nada mais é que o polímero natural concentrado (vide foto). Essas pélas precisam ser transportadas até o barracão do seringal, para depois serem transportadas para a comercialização final nas grandes cidades. Trata-se de uma “indústria” que necessita de muita mão-de-obra e de uma tecnologia bastante rudimentar.  

A Floresta Amazônica daqueles tempos não é muito diferente da atual – uma gigantesca extensão de terras com pouca gente. Foi preciso “importar” mão-de-obra de outras terras. A região Nordeste, tanto pela proximidade geográfica quanto pela grande população que possuía, se transformou na grande exportadora de “gentes” para os seringais. 

Há aqui uma trágica coincidência histórica: entre os anos de 1877 e 1879, justamente no início do Ciclo da Borracha, os sertões nordestinos enfrentaram uma das maiores secas de sua história – dados atuais calculam que essa seca matou mais de 500 mil pessoas. A cidade de Fortaleza, só para citar um exemplo, chegou a receber 100 mil flagelados – havia mão-de-obra de sobra a ser cooptada com falsas promessas de uma vida melhor nos “sertões verdes” da Amazônia. Começou assim uma segunda etapa do povoamento e colonização da Amazônia. 

Existem estimativas que falam que algo entre 500 e 700 mil trabalhadores foram cooptados em outras regiões do Brasil e internalizados na Floresta Amazônica para trabalhar como seringueiros. A mistura que surgiu a partir dessas populações migrantes com as populações de indígenas aculturados que viviam nas margens dos rios formou os ancestrais de grande parte das populações ribeirinhas que encontramos hoje na Bacia Amazônica. É fundamental conhecer toda a história do látex e de sua exploração para entendermos o que é verdadeiramente a Amazônia de nossos dias e todos os seus problemas. 

Vamos detalhar algumas das muitas histórias dessa saga a partir da nossa próxima postagem.