O EAIS, O MAIOR MANTO DE GELO DO PLANETA, ESTÁ AMEAÇADO PELO AQUECIMENTO GLOBAL

O EAIS – East Atarctic Ice Sheet, ou Manto de Gelo da Antártida Oriental é uma imensa massa de gelo que cobre grande parte do Continente Antártico. Segundo estimativas de especialistas, o EAIS concentra cerca de 80% de todo o gelo do planeta. Essa massa de gelo é tão grande que, em alguns pontos, ela tem uma espessura da ordem de 4 km. 

Apesar de 2/3 da superfície da Terra ser coberto por água, apenas 2,5% da água existente no planeta é doce ou potável – a maior parte da água existente é a água salgada dos oceanos. Além de rara, a maior parte da água doce do planeta se encontra congelada nas calotas polares, nas geleiras das altas montanhas ou infiltrada no solo a grandes profundidades. OU seja – a maior parte da água doce do planeta está congelada no EAIS. 

Uma das grandes abstrações dos teóricos dizia que, caso o EAIS descongelasse de um dia para o outro, o nível dos oceanos sofreria um aumento de 52 metros. Essa hipótese que era considerada remota pelos especialistas está se transformando em uma perigosa possibilidade – é claro que isso não vai acontecer do dia para a noite. 

Um estudo recente publicado pela revista científica Nature confirmou que o EAIS está sofrendo perturbações por causa do aquecimento global, confirmando observações feitas em estudos ao longo de 2020. As projeções feitas pelos especialistas estimam que o gradual derretimento desse manto de gelo poderá resultar em um aumento do nível dos oceanos entre 1,5 e 3 metros até o ano 2300. Esse aumento passará dos 5 metros até o ano 2500. 

Observem que, felizmente, falamos de um futuro bem distante para todos nós. Porém, sempre que abordamos esse tipo de problema precisamos sempre incluir na “equação” as futuras gerações. Países insulares ou com baixas altitudes como a Holanda, também conhecida como Países Baixos, simplesmente desaparecerão do mapa com um aumento do nível dos oceanos com essa ordem de grandeza. 

Relembrando a postagem anterior onde falamos das Ilhas Maldivas – a maior altitude das ilhas fica a exatos 2,3 metros acima do nível do mar – aliás, a altitude média do território é de 1,5 metros. A maior parte da população vive em áreas com altitude de 1 metro acima do nível do mar. A capital do país, Malé, onde vivem 100 mil pessoas fica a desesperadores 0,9 metros em relação ao nível do mar! 

Entre os diferentes cenários analisados no estudo, os pesquisadores avaliaram a situação do EAIS em períodos geológicos com temperaturas mais altas que nos dias atuais. Eles descobriram que essa condição climática provocou uma retração do manto de gelo de forma dramática, o que levou a um aumento do nível do mar entre 5 e 10 metros. 

Um detalhe importante do estudo é que, diferentemente de muitas conclusões pessimistas, os cientistas alertam que o futuro do grande manto de gelo da Antártida ainda não foi selado e que ainda é possível se evitar a catástrofe futura. Simulações feitas em computadores indica que em cenários com baixa emissão de gases de efeito estufa o EAIS permaneceria intacto.  

Só para relembrar, os GEE – Gases de Efeito Estufa, são os principais responsáveis pelo aquecimento global. Exemplos desses gases são o dióxido de carbono (CO2), o metano (CH4) e o óxido nitroso (N20). As principais emissões desses gases estão associadas a queima de combustíveis fósseis como os derivados de petróleo e o carvão mineral, a agricultura, as queimadas e os incêndios florestais, entre outras. 

Em 2015, 195 países assinaram o Acordo de Paris, onde a meta principal era limitar o aumento da temperatura global abaixo dos 2º C até o final deste século. Entre inúmeros outros compromissos, esses países se comprometeram a reduzir suas emissões de gases de efeito estufa, o que teria reflexos diretos na preservação do manto de gelo da Antártida, do Ártico e também em geleiras de montanhas por todo o mundo. 

Nunca é demais relembrar que o aumento das temperaturas no planeta já está provocando a perda de gigantescos volumes de gelo em glaciares em montanhas, no Ártico e, principalmente na Antártida. Os grandes volumes de água doce liberados pelo derretimento desse gelo já está provocando alterações em diversas correntes marítimas, com reflexos em mudanças nos padrões de chuva em diversos países. 

Um dos casos mais críticos, já tratado em diversas postagens aqui do blog, é o Oceano Índico. Medições sistemáticas da temperatura das águas do Oceano Índico, que vem sendo feitas há mais de 100 anos, mostram claramente que houve um aumento da temperatura superficial das águas em vários trechos. Esse aumento da temperatura das águas está se refletindo em mudanças nos padrões de chuvas em grandes áreas da África e da Ásia. 

O caso mais emblemático são os reflexos nas Chuvas da Monção, uma temporada de fortes chuvas que tradicionalmente atingem todo o Subcontinente Indiano e o Sudeste Asiático. A regularidade e a intensidade dessas chuvas estão variando nos países da região. Algumas regiões tem sofrido com chuvas bem abaixo da média, enquanto outras regiões enfrentam enchentes catastróficas. 

Outro continente que está sendo fortemente afetado pelas mudanças nos padrões climáticos do Oceano Índico é a África. Extensas regiões das faixas Austral e Leste vem enfrentando ciclos intensos de secas nas últimas décadas. Um exemplo que citamos em uma postagem recente é o do Chifre da África, que está enfrentando a mais forte seca em 40 anos. 

A perspectiva de um futuro derretimento do EAIS poderá aumentar ainda mais a já complicada situação dos padrões climáticos em várias partes do mundo. Tudo o que for possível fazer para evitarmos que isso aconteça, deverá ser feito em prol do futuro de nossos descendentes. 

A CIDADE FLUTUANTE DAS ILHAS MALDIVAS 

Publicações falando do aquecimento global se tornaram bastante comuns aqui no blog. São notícias sobre fortes ondas de calor em algumas regiões, secas em outras, derretimento de geleiras em montanhas, desaparecimento de rios, entre muitas outras informações. Destacam-se ainda as frequentes postagens sobre o aumento do nível dos oceanos. 

Entre inúmeras razões para a elevação gradual dos oceanos podemos citar o derretimento da capa de gelo do continente antártico. De acordo com um artigo publicado na revista científica norte-americana PNAS – Proceedings of the Academy os Sciences, o derretimento do gelo antártico produziu um aumento do nível do mar de 1,4 centímetro entre 1979 e 2017. 

Isso pode até não parecer muita coisa, mas estamos falando de uma lâmina de água cobrindo toda a extensão dos oceanos do mundo, o que corresponde a cerca de 363 milhões de km². As correntes de água fria da Antártida que correm para os oceanos também estão causando mudanças na direção de correntes marítimas importantes e interferindo na formação de massas de chuvas em diferentes continentes.   

Para nós brasileiros que vivemos em um grande território de dimensões continentais, os impactos de uma elevação tão pequena do nível do mar não causam transtornos tão grandes. Podemos citar casos da destruição de construções ao longo de praias em cidades como Peruíbe e Santos, no Estado de São Paulo, na Praia da Macumba na cidade do Rio de Janeiro e em Atafona, no Norte fluminense, na foz do Rio São Francisco na divisa de Alagoas e Sergipe, ou ainda de Olinda, em Pernambuco. 

Em alguns, entretanto, a elevação do nível dos oceanos poderá representar uma verdadeira tragédia social e ambiente. Entre todos os países do mundo, pequenas nações insulares são as mais ameaçadas. E as Ilhas Maldivas, no Oceano Índico, é um dos territórios em situação mais crítica. 

A Repúblicas das Maldivas, nome oficial do país, está localizada no Oceano Índico, próximo ao Sudoeste da Índia. São 1.196 pequenas ilhas, agrupadas em 26 atóis. A população total das ilhas é de 330 mil habitantes, que vivem basicamente da pesca e do turismo. 

O ponto mais alto da Ilhas Maldivas fica a exatos 2,3 metros acima do nível do mar – aliás, a altitude média do território é de 1,5 metros. A maior parte da população vive em áreas com altitude de 1 metro acima do nível do mar. A capital do país, Malé, onde vivem 100 mil pessoas fica a desesperadores 0,9 metros em relação ao nível do mar! 

As águas ao redor das Ilhas Maldivas são formadas por extensos bancos de corais multicoloridos, onde vivem as mais diversas espécies de peixes tropicais. Essas águas são consideradas como uma das melhores do mundo para o mergulho e foram fundamentais para colocar o pequeno país insular na rota do turismo internacional, principal atividade econômica das Maldivas. 

O visível avanço do mar contra as praias das Ilhas Maldivas é um dos grandes pesadelos para a população. A erosão continua de praias está provocando a redução gradual do já pequeno território das Maldivas, cuja área é de apenas 298 km². As preocupações com o eventual desaparecimento das Ilhas só aumentam – recentemente, a ilha New Moore, um pequeno pedaço de terra com 10 km² e com altitude média de 2 metros acima do nível do mar no Golfo de Bengala, foi totalmente encoberta pelas águas do Oceano Índico – a elevação do nível do mar é a causa mais provável para esta tragédia. 

Sem contar com muitas opções para resolver seus problemas, os maldives (ou maldívios), estão buscando soluções criativas – uma delas é um projeto para a construção de uma cidade flutuante. O local já foi escolhido e fica em uma lagoa paradisíaca a 15 minutos de Malé. A cidade terá cerca de 5 mil casas flutuantes e poderá abrigar uma população de aproximadamente 20 mil habitantes.  

As casas e demais edificações serão construídas sobre flutuadores, algo muito parecido com casas de ribeirinhos da Amazônia. Essas construções ficarão presas ao fundo do mar por sistemas de cabos e serão interligadas por pontes e docas também flutuantes (vide ilustração). A infraestrutura também incluirá escolas, restaurantes, lojas e igrejas. 

De acordo com informações do Governo das Maldivas, essa cidade flutuante não provocará maiores impactos ao meio ambientes. Existe inclusive planos para a construção de recifes artificias, que, além de representar um aumento dos habitats para as espécies marinhas locais, ajudarão a conter o avanço das ondas. 

A exemplo do que ocorre em cidades semelhantes, como é o caso da famosa Veneza na Itália, a circulação de moradores e turistas será feita quase que exclusivamente por embarcações. Também haverá opções para uso de bicicletas e scooters elétricas, além das boas e velhas caminhadas. 

O projeto está sendo gerenciado em uma parceria entre o Governo das Maldivas e escritórios de arquitetura da Holanda. O projeto, aliás, foi um dos finalistas do Prêmio Melhor Projeto do Futuro no MIPIM Awards 2022. A construção de todas as casas e demais construções deverão estar finalizadas em 2027. Neste mês de setembro algumas das casas já concluídas serão liberadas para a visitação. 

O preço de venda das casas ainda não foi divulgado, mas, com toda a certeza, não será dos menores do mercado internacional. Entre outros apelos de venda, o Governo local está prometendo visto de residência para os estrangeiros que comprarem casas na cidade flutuante. 

Como sempre comentamos aqui nas postagens do blog, todos nós precisaremos nos adaptar às mudanças climáticas. O que os maldives estão fazendo é justamente isso – se não dá para conter o aumento do nível do mar, o jeito é flutuar sobre ele. 

LITORAL DE SANTA CATARINA É ATINGIDO POR UM CICLONE EXTRATROPICAL

Entre a terça-feira, dia 9, e quarta-feira, dia 10, o litoral de Santa Catarina foi, mais uma vez, atingido por um ciclone extratropical. Ao menos 51 municípios do Estado foram atingidos pela chuva e pelos fortes ventos. De acordo com informações da Defesa Civil Estadual, foram registradas rajadas de ventos com velocidade de 111 km/h em Urupema, e de 108 km/h em Bom Jardim da Serra. 

Como as nossas cidades não estão preparadas para suportar chuvas mais fortes, como sempre lembramos nas postagens aqui do blog, foram registrados alagamentos em diversas cidades, inclusive com deslizamentos de encostas como o que ocorreu em Joinville, a maior cidade catarinense. Os fortes ventos também provocaram danos em telhados e construções. 

De acordo com informações preliminares da Defesa Civil, divulgadas no início da noite do dia 10, ao menos 23 pessoas ficaram desalojadas e 23 desabrigadas. O mar ficou bastante agitado com os fortes ventos – um restaurante flutuante que estava prestes a ser inaugurado em Balneário Camboriú acabou sendo arrastado pela correnteza e naufragou. 

Em Florianópolis, a capital do Estado, as fortes rajadas de vento provocaram, além de chuva e enchentes, cortes no fornecimento de energia elétrica. Uma estação meteorológica instalada nas proximidades do Aeroporto Internacional de Florianópolis – Hercílio Luz registrou rajadas de vento com velocidade de 85 km/h no início da manhã do dia 10. 

O ciclone também causou fortes impactos na fauna marinha – cerca de 600 pinguins mortos foram encontrados ao longo das praias de Santa Catarina. Os animais, da espécie Magalhães e originários do Sul do Continente, costumam frequentar as costas da Região Sul nos meses de verão, onde encontram fartura de alimentos.  

De acordo com informações de biólogos, esses eram animais mais fracos e debilitados que não conseguiram resistir à força das correntes marítimas e aos ventos do ciclone. Além dos pinguins também foram encontradas gaivotas, fragatas e tartarugas marinhas mortas. 

Cidades do litoral do Paraná como Matinhos, Guaratuba e Pontal do Paraná também sentiram os efeitos dos fortes ventos e das chuvas. Foram registrados vários destelhamentos de casas, quedas de árvores e de postes de energia elétrica, além de alagamentos ao longo da quarta-feira, dia 10. 

Em cidades da faixa Leste do Estado de São Paulo o fenômeno provocou fortes ventos e muitos estragos. Na cidade de São Paulo, os fortes ventos provocaram a queda de centenas de árvores e galhos – o Corpo de Bombeiros recebeu ao menos 196 registros desse tipo de ocorrência. 

O incidente mais grave foi registrado no Aeroporto de Congonhas, na Zona Sul de São Paulo. Fortes rajadas de vento derrubaram estandes de uma feira de aviação executiva, deixando ao menos duas pessoas feridas, além de danos superficiais em duas aeronaves que estavam em exposição. Por questões de segurança, o evento foi encerrado mais cedo. 

Na cidade do Rio de Janeiro, os ventos chegaram a atingir uma velocidade próxima dos 60 km/h no final da tarde do dia 10, o que trouxe chuvas e alguns transtornos para motoristas e pedestres. Por precaução, a Prefeitura colocou a cidade em “estado de mobilização”, o que, entre outras medidas, recomenda que os cariocas não fiquem à beira da orla ou em mirantes, que evitem a navegação e atividade de pesca, que não pedalem na orla e que não tentem resgatar vítimas de afogamento.

Apesar de não ter sido tão devastador como outros ciclones que ocorrem em todo o mundo, está chamando a atenção a frequência que esse tipo de fenômeno está ganhando no litoral do Brasil, especialmente na Região Sul. 

É importante que acompanhemos com interesse cada vez maior esse tipo de situação – se a frequência desse tipo de evento continuar aumentando, nossas cidades vão precisar de adaptações para suportar ventos e chuvas cada vez mais fortes. 

Nunca é demais lembrar que nossas cidades mal conseguem suportar as chuvas mais fortes de verão – quiçá vendavais… 

SECA NO CHIFRE DA ÁFRICA JÁ PROVOCOU O DESLOCAMENTO DE 1 MILHÃO DE PESSOAS DESDE 2021

Uma expressão que vai ocupar cada vez maiores espaços nos noticiários nos próximos anos é a dos refugiados climáticos ou ambientais. Essa nova “classe” de refugiados veio de somar a outros milhões de deslocados por guerras e por tragédias ambientais naturais.  

De acordo com estimativas da ONU – Organização das Nações Unidas, existem perto de 65,6 milhões de refugiados de guerras, conflitos internos, perseguições políticas e violações dos direitos humanos no mundo atual. Os refugiados climáticos são estimados em mais de 20 milhões de pessoas a cada ano. 

Entre as principais razões para a migração de populações por causas climáticas estão a desertificação, o aumento do nível do mar, as secas e a interrupção de fenômenos naturais como as monções, o período de fortes chuvas anuais do Subcontinente indiano e Sudeste Asiático. 

Um exemplo é uma notícia divulgada poucos dias atrás pela ONU – Organização das Nações Unidas, e pelo NRC – Conselho Norueguês para os Refugiados, na sigla em inglês. A forte seca que está assolando a Somália, país localizado no chamado Chifre da África, já provocou o deslocamento de 1 milhão de pessoas desde 2021. 

Somente em 2022, mais de 755 mil pessoas foram forçadas a abandonar suas terras e vilas no país em busca das condições mínimas para a sobrevivência. Segundo a ONU, a região do Chifre da África vem recebendo chuvas muito abaixo da média desde o final de 2020, o que levou quase metade da população do país ou cerca de 7,1 milhões de pessoas a passar fome. Desse total, mais de 213 mil enfrentam uma situação crítica. 

O Chifre da África, também conhecido como Nordeste Africano e Península Somali é uma região com cerca de 1,88 milhão de km2 no nordeste do continente africano, onde se incluem territórios da Somália, Etiópia, Eritréia e Djibuti. Essa é uma região de transição entre o clima árido do Deserto do Saara e das savanas, que também inclui uma faixa no norte do Quénia. 

Desde o início da década de 1980, a região vem enfrentando sucessivas secas – a crise atual é a maior dos últimos 40 anos. Segundo informações do PMA – Programa Mundial de Alimentos, e do UNICEF – Fundos das Nações Unidas para a Infância, mais de 13 milhões de pessoas estão tendo dificuldade de acesso aos alimentos na Somália, na Etiópia e no Quênia. 

Mudanças nos padrões climáticos do Oceano Índico, ligadas diretamente ao aquecimento global, são apontadas como uma das principais responsáveis pela redução dos volumes de chuvas no Leste e no Sul da África. Além de castigar a região do Chifre da África, a seca também está afetando de seca em países como Angola, Lesoto, Madagascar, Malauí, Namíbia, Moçambique, Zâmbia, Zimbábue e África do Sul.  

Nos últimos cinco anos, as chuvas foram regulares em apenas um. Para piorar a situação, as temperaturas na África Austral aumentaram o dobro da média mundial. Com a falta de chuvas e com o aumento da temperatura, a produção agrícola, que na maioria dos casos é agricultura de subsistência, entrou em colapso em muitas regiões, colocando a sobrevivência de milhões de pessoas em risco. Sem outras alternativas, essas populações passam a migrar em busca de melhores condições de vida em outras regiões. 

Na Somália, que passa por uma das situações mais críticas nesse momento, a ONU alerta que o número de pessoas em situação de extrema insegurança alimentar deverá aumentar de 5 milhões de pessoas para mais de 7 milhões dentro de poucos meses. A situação está sendo bastante agravada pelo aumento dos preços dos alimentados desencadeado após o conflito entre a Rússia e a Ucrânia

A FAO – Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, alerta que a “epidemia de fome” poderá se instalar em oito das regiões da Somália até setembro caso as perdas na agricultura e a redução na produção pecuária continuem aumentando. Também existe o temor de maiores aumentos nos preços das principais commodities agrícolas. 

Essa é uma triste realidade para a vida de dezenas de milhões de pessoas que, infelizmente, só tenderá a crescer ao longo das próximas décadas. Um dos principais efeitos das mudanças climáticas é a alteração nos padrões das chuvas – muitas regiões do planeta passarão a enfrentar secas cada vez mais intensas enquanto outras regiões enfrentarão chuvas cada vez mais fortes. 

A água das chuvas é essencial para a agricultura e produção pecuária, ou seja, as mudanças climáticas serão responsáveis por um aumento cada vez maior da fome no mundo, em especial nos países que atualmente já vivem numa situação de miserabilidade. 

No curto e no médio prazo, ou enquanto mudanças climáticas não afetarem significativamente as coisas aqui em nosso país, o Brasil terá a missão de suprir grande parte das necessidades alimentícias de parte da população. Alguns falam que nossos alimentos já são consumidos por 1 bilhão de pessoas em todo o mundo, número que deverá crescer ainda mais ao longo dos próximos anos. 

Isso só faz aumentar a nossa responsabilidade com a preservação ambiental de forma a garantir que o aumento em nossa produção agrícola e pecuária não dependa da destruição dos recursos naturais. 

MAIS UMA DO AQUECIMENTO GLOBAL: 99% DAS TARTARUGAS MARINHAS NASCEM FÊMEAS 

Em 2018, pesquisadores da NOAA – Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos, na sigla em inglês, publicaram um preocupante estudo sobre tartarugas marinhas da ilha Ingram, no Norte da Austrália. Os pesquisadores suspeitavam que as mudanças climáticas poderiam estar interferindo no sexo das tartaruguinhas que estavam nascendo no local. 

O sexo de uma tartaruga marinha depende da temperatura da areia da praia onde o ovo foi incubado. Esses animais passam a maior parte de suas vidas dentro da água, porém, quando chega a hora de procriar, as tartarugas-marinhas fazem viagens incríveis até a mesma praia em que nasceram. As fêmeas saem da água e buscam uma área fora do alcance das águas, onde cavam um buraco para depositar seus ovos. 

Os ovos que ficam mais próximos da superfície, onde é mais quente, tendem a gerar animais fêmeas. Já os ovos que ficam mais embaixo, onde é mais frio, tendem a gerar animais machos. Esse mesmo mecanismo é visto na reprodução de jacarés, crocodilos, iguanas e em algumas espécies de peixes. 

Partindo da premissa que o aquecimento global está elevando as temperaturas da atmosfera e das águas dos oceanos, os pesquisadores imaginavam que um número maior de tartarugas marinhas fêmeas deveria nascer na ilha Ingram. Como é complicado identificar o sexo de uma tartaruga recém nascida, os pesquisadores coletaram o sangue e amostras de DNA dos filhotes.  

Para espanto dos pesquisadores, o número de fêmeas que nasceram naquele ano foi muito, muito maior que o número de machos. Para ser mais preciso, a proporção foi de 116 tartarugas fêmeas para 1 tartaruga macho nascida. Entre os questionamentos levantados há época destaca-se uma grande preocupação com o futuro da espécie – com um número extremamente reduzido de machos, a geração de descendentes poderia estar ameaçada. 

Passados quatro anos desde a publicação desse estudo, pesquisadores do Turtle Hospital Zirkelbach da Flórida, nos Estados Unidos, identificaram uma verdadeira explosão no nascimento de tartarugas marinhas fêmeas no Estado. 

Estudando ovos e filhotes de tartarugas marinhas em áreas de praias reservadas para a reprodução das diferentes espécies ao longo dos últimos quatro anos, os pesquisadores só encontraram filhotes fêmeas. Não por acaso, a Flórida vem enfrentando os verões mais quentes de sua história nos últimos anos. 

A origem da reprodução sexuada é um dos maiores mistérios da biologia evolutiva. Existem inúmeras teorias diferentes, mas nenhuma delas pode ser comprovada na prática até hoje. O que se pode afirmar com certeza é que esse mecanismo vem funcionando bem a centenas de milhões de anos e a maioria das espécies se reproduz sexualmente.  

O que está sendo observado com as tartarugas marinhas é algo simplesmente dramático e poderá levar ao rápido declínio das populações dentro de poucas décadas. Assim como acontece com suas parentes terrestres, as espécies marinhas tem uma vida longa, que pode passar dos 100 anos, o que garantirá a possibilidade de parcerias sexuais para reprodução por alguns bons anos. Mas o que acontecerá no futuro? 

Existem atualmente 7 espécies de tartarugas marinhas, 5 delas com ocorrência no litoral do Brasil. São elas a tartaruga-cabeçuda ou mestiça, a tartaruga-verde ou aruanã, a tartaruga-de-pente ou legítima, a tartaruga-de-couro ou gigante e a tartaruga-oliva. Todas as espécies estão ameaçadas de extinção. 

A poluição dos oceanos, especialmente por resíduos plásticos, é uma das maiores ameaças às tartarugas marinhas. Sacos plásticos – especialmente as famosas sacolinhas de supermercado, são hoje uma das maiores causas de morte desses animais – a tartaruga confunde o plástico com as águas vivas, uma de suas presas favoritas, e o que seria um petisco se transforma na causa da sua morte. 

Outra causa comum de morte de tartarugas marinhas são as redes de pesca. Os animais se enroscam nas redes e morrem afogados. Estimativas falam da morte de cerca de 40 mil animais por anos em redes de pesca. Também é importante citar que em muitas regiões do mundo é comum o consumo da carne e dos ovos de tartarugas marinhas. 

A ocupação e urbanização cada vez maior dos terrenos ao longo das praias também é uma grave ameaça às espécies. Conforme já comentamos, as tartarugas marinhas nadam de volta para a mesma praia onde nasceram para colocar seus ovos. Qualquer mudança nas características ambientais dessa praia poderá afetar a postura e a incubação dos ovos, ou até mesmo ameaçar a sobrevivência da fêmea. 

É comum que áreas costeiras sofram mudanças em sua estrutura para atender melhor as populações que vivam em seu entorno. Entre outros “melhoramentos” é comum a construção de calçadões e muretas ao longo das praias, o que muitas vezes acaba destruindo os melhores locais para a postura dos ovos pelas tartarugas. 

Outro problema sério para os animais é a iluminação pública instalada ao longo das praias. Quando os filhotes de tartaruga eclodem dos seus ovos, eles instintivamente seguem o brilho do mar. Quando a jornada dos filhotes ocorre a noite, o brilho da lua pode ser confundido com a iluminação artificial das lâmpadas elétricas das ruas e casas. A luz atrai as pequenas tartaruguinhas, que acabam por seguir na direção errada e acabam morrendo atropeladas ou predadas por animais. 

Como se nota, a situação desses magníficos animais, que conseguiram sobreviver aos mais diferentes desafios ao longo de dezenas de milhões de anos, não anda nada fácil. Esses novos problemas criados pelo aquecimento global só complicam mais as coisas para as tartarugas marinhas. 

AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS E O AUMENTO NO NÚMERO DE RAIOS EM TODO O MUNDO 

Na última quinta-feira, dia 4 de agosto, um raio atingiu o Lafayette Park, uma famosa área verde em frente à Casa Branca, residência oficial do Presidente dos Estados Unidos. A forte descarga elétrica atingiu um grupo de pessoas que buscava abrigo sob a copa de árvores devido a uma forte chuva que começou a cair.  

Sete pessoas foram atingidas pela descarga elétrica – quatro sofreram ferimentos graves e outras três acabaram morrendo. A imagem que ilustra esta postagem foi feita por uma câmera fotográfica meteorológica do canal Fox 5 no exato momento da queda do raio no local. 

No dia seguinte, 5 de agosto, um outro raio atingiu tanques de depósito de petróleo em Matanzas, cidade localizada no Nordeste da ilha de Cuba. De acordo com as últimas informações, ao menos uma pessoa morreu e 117 ficaram feridas – 17 bombeiros que lutavam contra as fortes chamas foram declarados como desaparecidos. 

Um outro dado – cerca de 93 pessoas e outras 20 ficaram feridas em apenas dois dias no final de junho no Norte da Índia por causa de raios. A maioria das vítimas eram trabalhadores rurais dos Estados indianos de Bihar, Jharkhaland, Uttar Pradesh e Madhya Pradesh. Essas regiões foram atingidas por fortíssimas chuvas na ocasião. 

Esse apanhado rápido de notícias bem recentes nos alerta para um fato inquestionável – a incidência ou queda de raios (como se diz “no popular”) de raios está aumentando em todo o mundo e as mudanças climáticas podem ser uma das principais responsáveis. Aqui é importante afirmar que ainda não um consenso sobre isso entre os cientistas. 

Análises estatísticas sobre a incidência de raios nos Estados Unidos sugerem que as mudanças climáticas podem estar causando um aumento na ocorrência desses fenômenos atmosféricos. No dia do acidente em Washington, por exemplo, a temperatura na cidade atingiu a marca de 34° C, de acordo com o serviço nacional de meteorologia dos Estados Unidos. De acordo com o órgão, essa temperatura é 3° C acima da média histórica. 

A experiência mostra que, quanto mais alta é a temperatura, maior é a retenção de umidade na atmosfera. Essa condição favorece a formação de correntes ascendentes de ar, o que leva a formação dos fortes temporais de verão com fortes raios. Foi essa mistura que levou a todas as tragédias citadas. 

O Brasil, para quem não sabe, é o país campeão absoluto em raios do mundo com uma média anual de 70 milhões de raios. De acordo com estudos de cientistas do Grupo de Eletricidade Atmosférica do INPE – Instituo Nacional de Pesquisas Espaciais, a média anual de descargas elétricas no país deverá atingir a cifra de 100 milhões até o final desse século. 

Para efeito de comparação, o segundo colocado é o Congo, com média anual de 43,2 milhões de raios. Na sequência vem os Estados Unidos, com 35 milhões de raios por ano, a Austrália com 31,2 milhões, a China com 28 milhões e a Índia com 26,9 milhões de raios.  

As projeções dos cientistas indicam que a Amazônia será a região brasileira com o maior aumento da incidência de raios, aumento que deverá atingir a marca dos 50%. A Amazônia já é líder nacional em descargas atmosféricas devido à grande incidência de tempestades em toda a região.  

Um exemplo da grande incidência de raios na região é uma área da Floresta Amazônica localizada às margens do rio Negro e a cerca de 100 km da cidade de Manaus. De acordo com a análise de imagens de satélite, essa área de 25 km2 é atingida por raios ao longo de 250 dias a cada ano. Para as Regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, as projeções indicam um aumento da incidência de raios entre 20% e 40%. Já para a Região Nordeste, que é a mais seca do país e a menos sujeita 

A queda de raios é responsável por cerca de 70% dos desligamentos das linhas de transmissão de energia elétrica e por aproximadamente 40% dos desligamentos nas redes de distribuição de energia elétrica nas cidades brasileiras. Além disso, as descargas elétricas provocam danos em um grande número de aparelhos eletroeletrônicos e em eletrodomésticos.  

Os raios se formam quando a potência do campo elétrico de uma nuvem excede a capacidade de isolamento do ar em relação à terra. A descarga elétrica que se forma – o raio, pode percorrer uma distância de 5 km. O raio é denominado descendente quando a corrente elétrica flui da nuvem para o solo e ascendente quando o fluxo vai do solo em direção à nuvem. A intensidade típica de um raio é de 20 mil ampères, valor equivalente a mil vezes o consumo de um chuveiro elétrico. 

Acidentes com raios também produzem um grande número de vítimas a cada ano. Segundo dados do INPE, o Brasil ocupa a sétima posição mundial em mortes por raios: foram registradas 2.194 vítimas fatais desde o ano 2000, o que dá uma média de 110 casos por ano.  

Cerca de 300 pessoas atingidas por raios conseguem sobreviver a cada ano no país, porém com graves sequelas. Além de queimaduras, as vítimas podem apresentar traumas físicos e neurológicos. De acordo com os especialistas, entre 80% e 90% dos acidentes com raios poderiam ser evitados com simples medidas de segurança

Além do Brasil, Estados Unidos e Índia também estão sujeitos a um aumento no número de raios. De acordo com um estudo publicado em 2014, pela prestigiada Revista Science, os Estados Unidos poderão ter um aumento de 50% no número de raios até o final desse século. Com o aquecimento global, para cada 1° C de aumento de temperatura no país poderá ocorrer um aumento de 12% na incidência de raios. 

No Alasca, maior Estado norte-americano, os dados mostram que houve um aumento de 17% nas descargas elétricas desde a década de 1980. Outro exemplo é a Califórnia – no mês de agosto do ano 2000, foram registrados cerca de 14 mil raios. Muitos dos grandes incêndios florestais registrados no Estado nos últimos anos foram provocados por raios. 

Pois é: além de todos os outros problemas criados pelas mudanças climáticas que já estamos enfrentando, vamos precisar ficar cada vez mais atentos aos sinais de chuva e de raios no horizonte… 

PRODUTOS QUÍMICOS ESTÃO CONTAMINANDO AS ÁGUAS DAS CHUVAS EM TODO O MUNDO

O nosso planeta, a Terra, é uma gigantesca “máquina” movida a energia solar. Uma forma simples de enxergarmos isso é observando o ciclo da água. O calor do sol provoca a evaporação da água dos oceanos, produzindo a água doce e potável que sustenta todas as formas de vida do planeta. 

Para que todos tenham uma ideia da ordem de grandeza desse fenômeno – essa gigantesca massa de vapores de água tem um volume total calculado em 383.000 km³ a cada ano. Esse vapor é espalhado pelos ventos por toda a superfície do planeta e uma parte considerável, cerca de 30%, é precipitada sobre os solos dos continentes e ilhas na forma de chuva, neve e granizo. Todas as reservas de água potável do mundo surgem daí. 

As gotas de chuva ou os flocos de neve que eventualmente estejam caindo sobre a sua casa no exato momento em você está lendo esta postagem surgiram por conta do calor do sol em algum ponto da superfície da Terra a milhares de quilômetros de sua casa. Esse magnífico mecanismo funciona dessa mesma maneira há milhões de anos ininterruptamente. 

Desde os tempos antigos, quando começaram a surgir as grandes forjas para a produção de metais, esse mecanismo de dispersão de grandes massas de vapor ao redor do planeta começou a ser contaminado com poluentes. Um exemplo disso são as grandes manchas de fuligem que foram encontradas por glaciologistas em seus estudos nas geleiras do Ártico. Segundo as avaliações, essa fuligem tem mais de 2 mil anos e veio de grandes forjas do antigo Império Romano. 

Após o início da Revolução Industrial em meados do século XVIII, o lançamento de poluentes na atmosfera não parou mais de crescer e sua dispersão foi crescendo cada vez mais. Estudos recentes indicam que alguns tipos de poluentes químicos como o polifluoralquil e perfluoralquil estão presentes, literalmente, em todos os lugares do nosso planeta. 

Essas substâncias sintéticas são conhecidas pela sigla PFAS, em inglês, e são usadas na fabricação de produtos inocentes como panelas com revestimento antiaderente, roupas impermeáveis, embalagens de produtos, tintas, papéis e também em espumas usadas no combate a incêndios.  

Os especialistas apelidam essas substâncias de “produtos químicos eternos” por causa de sua persistência no meio ambiente. No total existem cerca de 4.500 compostos desse tipo que são formados a partir do flúor e que estão presentes em quase todas as residências do planeta. 

A contaminação do ar com esses compostos começa nas indústrias que utilizam essas substâncias nas suas linhas de produção. Em muitos casos os produtos são aplicados na forma de spray como tintas e/ou impermeabilizantes, o que deixa um grande número de resíduo em suspensão no ar. Os compostos também podem ser lançados na atmosfera durante a queima de resíduos de produtos descartados. 

Outra forma de contaminação se dá através da água – resíduos de produtos que utilizam esses compostos podem estar sendo carreados por rios e córregos até chegar aos oceanos – o vapor gerado pelo calor do sol pode estar carregando pequenas partículas desses compostos químicos para as nuvens, seguindo assim para os mais diferentes cantos do mundo. 

Uma vez suspensas na atmosfera, as partículas desses compostos são levadas a grandes distâncias pelas correntes de ventos e acabam sendo precipitadas de volta a superfície junto com as gotas das chuvas ou com os flocos de neve. Amostras de PFAS vem sendo encontradas nos confins mais remotos do planeta como a Antártida. 

Os diferentes tipos de precipitações, conforme já tratamos em postagens aqui do blog, formam as diferentes fontes de água doce do planeta e é aqui que mora o perigo – toda essa água já vem contaminada com esses compostos químicos. Ainda não existem estudos conclusivos, mas os cientistas acreditam que essas substâncias podem representar grandes riscos à saúde humana

Diferentemente de outras substâncias consideradas perigosas – cito como exemplo o arsênico, não existem legislações nos países que estabeleçam os limites máximos para a presença de PFAS na água tratada que é servida para as populações. Medições feitas em diferentes países mostram que a quantidade dessas substâncias na água está aumentando. Outros estudos também mostram que a contaminação dos solos com esses compostos também está crescendo. 

Muitos especialistas e cientistas de diferentes institutos de pesquisas por todo o mundo recomendam que se criem mecanismos para limitar a produção e o uso desses compostos químicos até que se concluam os estudos sobre os riscos que eles representam para a saúde humana. O argumento usado é simples – já não existe praticamente nenhum lugar em todo o planeta que esteja livre de resíduos dos PFAS. 

Um exemplo a ser seguido é o do CFC – Clorofluorcarbono, um composto químico que foi usado por várias décadas como gás refrigerante para geladeiras e sistemas de ar condicionado, além de propelente em aerossóis de produtos de beleza, desodorantes e perfumes. Os cientistas descobriram que o CFC estava destruindo a camada de ozônio do planeta e seu uso foi proibido. Rapidamente as indústrias descobriram outros compostos químicos que produziam o mesmo efeito sem causar danos ao meio ambiente. 

É de se imaginar que esforços semelhantes possam ser feitos pelas indústrias para se encontrar alternativas ao PFAS que sejam inertes ao meio ambiente. Por via das dúvidas, é bom que todos fiquem de olho nas pesquisas sobre os possíveis problemas causados por essas substâncias – podemos estar sendo envenenados dia após dia por esses compostos em cada copo de água que bebemos. 

DESTROÇOS DE AVIÃO QUE CAIU NOS ALPES SUÍÇOS EM 1968 SÃO ENCONTRADOS, OU FALANDO DO AQUECIMENTO GLOBAL 

Em 30 de junho de 1968, um pequeno avião modelo Piper Cherokee se chocou contra uma montanha nas proximidades da geleira Aletsch, no Alpes suíços. A bordo viajavam três pessoas, todas da cidade de Zurich. Equipes de resgate conseguiram encontrar os corpos poucos dias depois, mas os destroços do avião não foram encontrados. 

Na última quinta-feira, dia 4 de junho, a polícia suíça emitiu um comunicado informando que os destroços do avião foram encontrados por um guia de montanha. O comunicado também informou que, assim que possível, começarão os trabalhos de recuperação dos destroços e, depois de mais de 50 anos, as causas do acidente poderão ser finalmente determinadas. 

O lado curioso dessa notícia – esses destroços só apareceram agora por causa do aquecimento global e da perda de massa pela geleira alpina, um fenômeno que está se repetindo em geleiras de montanhas por todo o mundo. A perda de todo esse grande volume de gelo representa uma grande ameaça inúmeros rios que surgem a partir do derretimento das neves dessas geleiras. 

Os Alpes são a maior cadeia de montanhas da Europa Ocidental. Além da Suíça, país que tem sua imagem associada diretamente aos Alpes, essas montanhas também abrangem terras da França, Principado de Mônaco, Itália, Alemanha, Áustria, Liechtenstein, Eslovênia e Hungria. Essa posição geográfica transforma as montanhas alpinas em uma verdadeira “caixa d’água” do continente.   

Um exemplo de rio ameaçado é o Reno, uma das mais importantes vias navegáveis da Europa. Com quase 1,3 mil quilômetros de extensão, desde as suas nascentes nos Alpes Suíços até sua foz no Mar do Norte nas proximidades de Rotterdam, o rio Reno é uma rota vital para a economia da Suíça, Áustria, Alemanha, Liechtenstein, França e Holanda.    

As águas que formam as duas principais nascentes do Reno, os rios Hinterrhein e Vordebrhein, vem do derretimento de geleiras nos Alpes suíços. Nos últimos 25 anos, essas geleiras já perderam mais de 1/4 de suas massas em consequência do aquecimento global. Caso o ritmo do derretimento dessas geleiras se mantenha, em menos de um século não restará um único cubo de gelo nas montanhas e o rio Reno perderá uma parte considerável dos seus caudais.   

Além das geleiras que formam as nascentes do rio Reno, os Alpes abrigam outras geleiras formadoras de outros importantes afluentes de rios do continente como o Ródano, o Danúbio e o Pó. Em toda a extensão dos Alpes, geleiras estão perdendo grandes massas de gelo, o que está trazendo enormes preocupações para centenas de milhões de pessoas.  

Ao longo da última década, os efeitos do aquecimento global fizeram com que as geleiras no topo das montanhas dos alpes Suíços perdessem aproximadamente 1/5 de sua massa de gelo. Somente no ano de 2018, os glaciares alpinos do país perderam 2,5% do seu volume, resultado da combinação de uma baixa precipitação de neve e de altas temperaturas.   

Um exemplo do drama das geleiras suíças pode ser observado no cume da Montanha Weissfluhjoch, que se encontra a 2.400 metros de altitude. Nesse local está instalado o Instituto Suíço para o Estudo da Neve e Avalanches. Ao longo do mesmo ano de 2018, não houve nenhuma nevasca com precipitação superior a 1 cm. De acordo com os registros da instituição, essa foi a primeira vez que não ocorreram fortes nevascas na montanha desde o início dos registros há mais de 80 anos.   

Para quem está acostumado com um clima tropical como o do Brasil, esse tipo de informação talvez não signifique nada muito diferente de dias menos frios no inverno suíço. As geleiras das montanhas alpinas, entretanto, são importantes fontes de água para as planícies baixas do resto do país e muitas regiões da Europa. O derretimento gradual dos glaciares nas montanhas alimenta toda uma rede de pequenos córregos e riachos, que por sua vez são afluentes de grandes rios.    

Outro importante rio europeu que está sofrendo a “olhos vistos” por causa da perda de gelo nos Alpes é o rio Pó, o maior e mais importante da Itália. O rio está literalmente secando e colocando em risco toda a região que abriga o mais importante celeiro agrícola do país. O rio Pó nasce a partir da junção das águas de inúmeros pequenos rios que surgem do derretimento de geleiras nos Alpes italianos junto à fronteira da França e percorre cerca de 652 km no sentido Leste até desaguar no Mar Adriático ao Sul da famosa cidade de Veneza. 

As águas dos rios que formam a bacia hidrográfica do rio Pó também são fundamentais para o abastecimento das populações de centenas de cidades. Inúmeras localidades já decretaram o racionamento e proibiram o uso em atividades não essenciais. Em várias cidades do Piemonte o abastecimento está sendo feito através de caminhões pipa, algo que lembra muito a rotina de cidades do nosso Semiárido Nordestino.  

As geleiras dos Alpes não estão sozinhas nessa triste e dramática sina – o mesmo problema está afetando glaciares nos Andes da América do Sul, nas Montanhas Himalaias na Ásia, nas Montanhas Rochosas da América do Norte, entre muitas outras. 

Apesar do derretimento do gelo colocar a mostra inúmeros artefatos do passado, como os destroços do avião acidentado, construções e peças arqueológicas, e até múmias congeladas como Ötzi (pesquise nesse link), as ameaças para inúmeros rios são verdadeiramente preocupantes. 

GOVERNO DE GOIÁS DECRETA EMERGÊNCIA AMBIENTAL DE FORMA PREVENTIVA 

Uma postagem curta: 

O Governo de Goiás decretou situação de emergência ambiental em todo o Estado por 120 dias. Essa é uma medida preventiva e o decreto, de número 10.126, foi publicado no último dia 3 de agosto. O objetivo da decisão é preparar todos os órgãos que compõem o CEGIF – Comitê Estadual de Gestão de Incêndios Florestais, para a temporada das queimadas. 

O CEGIF é formado pela SEMAD – Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, CBMGO – Corpo de Bombeiros Militar do Estado de Goiás, Polícia Militar, Polícia Civil, Polícia Técnico-Científica, Agência Goiana de Assistência Técnica, EMATER – Extensão Rural e Pesquisa Agropecuária, GOINFRA – Agência Goiana de Infraestrutura e Transportes, AGRODEFESA -Agência Goiana de Defesa Agropecuária, além das secretarias de Estado da Saúde, Educação e Comunicação. 

Uma das principais características do Cerrado é o seu clima, que é formado por apenas duas estações bem definidas – o período das chuvas, que vai de outubro a abril, e o período da seca, que vai de maio a setembro, que período que hoje está o seu auge. 

Todos os anos, conforme já comentamos em diversas postagens aqui do blog, o Cerrado é tomado por grandes incêndios florestais e esse decreto de emergência ambiental é uma excelente medida preventiva. Aliás, os incêndios anuais no bioma vêm ocorrendo há, pelo menos, 25 milhões de anos. Foi justamente a frequência dessas queimadas que forçou as espécies vegetais e animais do bioma a evoluírem. Essa adaptação foi tão grande que a maioria das sementes de árvores do Cerrado dependem do fogo para germinar.   

O Cerrado, bioma predominante no Estado de Goiás, ocupa uma área de mais de 2 milhões de km2, sendo o segundo maior bioma do Brasil. Além de Goiás, o Cerrado se estende por Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Bahia, Maranhão, Piauí, Rondônia, Paraná, São Paulo e Distrito Federal, além dos encraves florestais (ou manchas de Cerrado) no Amapá, Roraima, Amazonas, e também pequenos trechos na Bolívia e no Paraguai. 

A vegetação do Cerrado pode ser dividida em três grupos principais (outros autores dividem o bioma de forma diferente):   

Florestas: onde a vegetação é dividida em Mata Ciliar, Mata de Galeria, Mata Seca e Cerradão (que é uma savana florestada);   

Savanas: onde se encontra a formação Cerrado, os Parques de Cerrado, os Palmeirais e as Veredas;  

Campos: grandes extensões cobertas por Campos Limpos, Campos Sujos e os Campos Rupestres.  

Esses diferentes sistemas florestais abrigam uma grande biodiversidade de espécies animais: já foram catalogadas mais de 1.500 espécies entre mamíferos, aves, peixes, répteis e anfíbios, além de insetos e moluscos. As espécies mais carismáticas são o lobo-guará, o tamanduá-bandeira, o tatu-bola, o cervo-do-pantanal, o cachorro-vinagre, a onça-pintada e a lontra.  

Essas formações florestais do Cerrado não apresentam nada que pareça tão excepcional assim. O bioma apresenta árvores de médio porte com no máximo 15 metros de altura (em áreas úmidas, na beira de rios, essa altura poderá chegar a 25 metros), muitos campos sujos repletos de grandes formigueiros e campos limpos, cobertos por uma vegetação alta de gramíneas. 

A grande importância do bioma Cerrado está justamente em uma parte da vegetação que você não vê: as raízes ou sistemas radiculares da vegetação. Grosso modo falando, nós podemos comparar uma árvore do Cerrado com um iceberg, aquelas grandes montanhas de gelo que flutuam nos oceanos e que, de vez em quando, causam danos nos navios – a maior parte do gelo do iceberg está embaixo d’água. 

As árvores do bioma, que normalmente se apresentam raquíticas, com troncos retorcidos e folhas pequenas, na verdade se mostram como plantas gigantescas quando se passa a observar o tamanho de suas raízes, que em muitos casos chegam a atingir dezenas de metros de profundidade. Esses grandes sistemas de raízes são fundamentais para a recarga dos grandes aquíferos da região.

Nas últimas décadas, o Cerrado se transformou numa das mais importantes frentes de avanço da agropecuária do Brasil. Segundo alguns especialistas, cerca de metade da vegetação original do bioma já foi tomada por pastagens e plantações. É fundamental preservar o que restou da vegetação original e as espécies da fauna da melhor maneira possível. 

Se as queimadas e os grandes incêndios florestais são inevitáveis, melhor que se aprenda a conviver com eles da melhor maneira possível e, quanto mais se estiver preparado para isso, melhor! 

A POSSE DO NOVO GOVERNO E OS DESAFIOS PARA CONTER OS GRANDES DESMATAMENTOS NA AMAZÔNIA COLOMBIANA 

No próximo domingo, dia 7 de agosto, o Presidente eleito da Colômbia – Gustavo Petro, prestará o juramento de posse. Durante os seus discursos de campanha, o então candidato assumiu uma série de compromissos com o meio ambiente, indo desde a suspensão da exploração de petróleo em áreas sensíveis até a expansão do uso de energias renováveis no país. 

Uma das missões mais delicadas que aguardam o agora Presidente do país é a contenção dos desmatamentos no trecho local da Floresta Amazônica. De acordo com informações da ONU – Organização das Nações Unidas, a Amazônia colombiana perdeu uma área de mais de 7 mil km² entre 2018 e 2021. Entre as maiores ameaças ao bioma destacam-se o avanço da pecuária e da agricultura, com destaque aqui para o plantio de coca por grupos narcotraficantes. 

Conforme já comentamos em inúmeras postagens aqui do blog, o Brasil é, sistematicamente, acusado de destruir, desmatar e queimar grandes trechos da Floresta Amazônica. Descontando-se muitos exageros e questões de ordem ideológica, o bioma sofre mesmo muitas agressões, especialmente na época da seca, o chamado verão amazônico, quando surgem grandes queimadas em áreas periféricas da grande floresta equatorial. 

Um “detalhe” que costuma escapar nessas notícias é o fato de 40% da Floresta Amazônica ficar inserida dentro do território de países vizinhos. Além da Colômbia, entram na lista Bolívia, Equador, Peru, Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana Francesa. Em cada um desses países, em maior ou menor escala, existem inúmeros problemas ambientais.   

O trecho colombiano da Floresta Amazônica ocupa uma área total de mais de 480 mil km², o que corresponde a cerca de 42% do território do país vizinho. Considerando que o bioma Amazônico ocupa uma área com aproximadamente 5,5 milhões de km² (existem estimativas que falam de até 7 milhões de km², cifra que inclui áreas de transição entre biomas), a Colômbia abriga cerca de 9% da Floresta Amazônica.   

Na Colômbia, guardadas as devidas proporções, os problemas ambientais são até mais graves do que os que ocorrem no Brasil. Além da expansão das frentes agrícolas convencionais, da exploração madeireira e da criação de pastagens para o gado, o país vem sofrendo já há várias décadas com o domínio de extensas áreas do seu território por grupos revolucionários armados, como é o caso das FARC – Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia. Esses grupos associaram seus objetivos revolucionários com o narcotráfico. 

Nos últimos anos, sem nos prendermos a muitos detalhes, o Governo central da Colômbia e vários desses grupos armados chegaram a um acordo de paz, onde se imaginava estabelecer um clima de normalidade em todo o país – o novo Presidente eleito do país, inclusive, é um ex-gerrilheiro, o que mostra que muita coisa mudou na Colômbia. 

Infelizmente, nem tudo está sendo um “mar de rosas” no país – inúmeros guerrilheiros “desempregados” passaram a organizar seus próprios grupos de narcotráfico e passaram a controlar pequenos territórios por toda a Amazônia colombiana. Esses grupos organizam desmatamentos e nessas áreas implantam cultivos de coca, planta nativa da Cordilheira dos Andes e da qual se extrai a valiosa cocaína.  

O Ministério Público da Colômbia afirma que esses grupos se concentram na região Sul do país e, desde 2016, eles vêm praticando um desmatamento bastante acelerado em extensas áreas da Floresta Amazônica. Segundo informações do IDEAM – Instituto de Hidrología, Meteorología y Estudios Ambientales, da Colômbia, os desmatamentos na Amazônia colombiana vêm crescendo de forma descontrolada nos últimos anos. 

As áreas desmatadas são usadas para a introdução de cultivos de coca, para pecuária extensiva e também para a construção de unidades para o refino e processamento das folhas de coca para obtenção da cocaína. De acordo com informações coletados por jornalistas estrangeiros, muitos latifundiários se valem da associação com os narcotraficantes e estão pagando os camponeses para derrubar trechos da floresta para ampliar suas fazendas.  

A coca (Erythroxylum coca) é uma planta arbustiva originária de terrenos elevados da Cordilheira dos Andes na Bolívia e no Peru. As folhas da coca possuem substancias com propriedades analgésicas que aplacam a fome e a fadiga. Os indígenas da região conhecem as propriedades da planta desde a antiguidade e tem o hábito de mascar suas folhas.  

Até o início da década de 1990, a Colômbia respondia por menos de 15% da produção mundial de folhas de coca. A partir dos primeiros anos da década de 2000, a produção cresceu muito, com o país chegando a concentrar 80% de toda a produção de cocaína do mundo.  

De acordo com estimativas do UNIDOC, Escritório das Nações Unidas contra as Drogas e o Crime, a produção de coca na Colômbia emprega mais de 60 mil famílias no país. A produção de cocaína pura é estimada em mais de 1.200 toneladas/ano.  

Os cultivos estão concentrados nos departamentos de Norte de Santander, na região Nordeste; Nariño, Putumayo e Cauca, na região Sudoeste; e Antioquia, no Noroeste. A UNIDOC estima que 48% das áreas de cultivo de coca no país esteja concentrada em áreas protegidas dentro da Floresta Amazônica, especialmente em parques nacionais e reservas indígenas. 

Este breve resumos mostra um pouco dos desafios ambientais que o novo Governo da Colômbia terá pela frente. Resta saber se os discursos feitos durante a campanha eleitoral serão mesmo levados a sério ou, como bem conhecemos aqui em nosso próprio país, foram apenas promessas vazias para se conseguir ganhar a disputa eleitoral.