MAIS UMA CRISE NO SISTEMA DE ABASTECIMENTO DE ÁGUA DA REGIÃO METROPOLITANA DO RIO DE JANEIRO

De acordo com o pensamento filosófico de muita gente, o tempo é uma linha contínua, onde os acontecimentos se sucedem e não voltam mais a se repetir. Para outros, esse contínuo de acontecimentos se apresenta na forma de uma curva e, de tempos em tempos, alguns eventos voltam se repetir. A questão do abastecimento de água na Região Metropolitana do Rio de Janeiro parece pertencer a essa segunda linha de pensamento filosófico – estamos assistindo, mais uma vez, problemas com a qualidade da água “tratada” que é fornecida à população. 

Vamos “recontar” a história: 

Desde o último dia 19 de janeiro, moradores de 50 bairros da cidade do Rio de Janeiro e de outros 7 municípios da Baixada Fluminense têm reclamado da qualidade da água que está chegando nas torneiras de suas casas. A água “tratada” fornecida pela CEDAE – Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro, apresenta um aspecto turvo, com gosto de terra e um cheiro ruim (vide foto).  

Há exatamente um ano atrás, os mesmos bairros e os mesmos moradores passaram por um problema semelhante. Estudos feitos pelos técnicos da CEDAE há época atribuíram o problema à geosmina, um composto orgânico formado por carbono, hidrogênio e oxigênio, que é liberado por colônias de cianobactérias presentes na água bruta. O principal manancial de abastecimento da Região Metropolitana do Rio de Janeiro é o rio Guandu, um corpo d’água que recebe quantidades enormes de esgotos sanitários, despejos industriais e muito lixo ao longo de seu curso. 

Sem confirmar se o problema é novamente a presença de geosmina nas águas, a CEDAE aumentou o volume de carvão ativado aplicado na água, produto que consegue reter as impurezas da água bruta, melhorando o resultado final do processo de tratamento. 

A ETA – Estação de Tratamento de Água, do Guandu é considerada a maior unidade do tipo em operação no mundo e possui uma capacidade de produção de 43 mil litros de água tratada por segundo, o que é suficiente para abastecer uma população de até 9 milhões de pessoas. A Unidade responde por mais de 85% da água consumida pela população da Cidade do Rio de Janeiro, além de atender cerca de 70% do abastecimento de cidades da Região da Baixada Fluminense

Conforme já comentamos em diversas postagens anteriores, a região onde se encontra a cidade do Rio de Janeiro e municípios vizinhos carece de grandes rios e, desde os primeiros tempos da fundação das cidades, as populações sofrem com problemas cíclicos de falta de água potável. 

O principal manancial local de abastecimento de água é o rio Guandu, um curso d’água que desde as primeiras décadas do século XX passou a receber águas transpostas a partir da bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul. Essas águas são utilizadas para a geração de energia em várias usinas hidrelétricas instaladas no interior do Estado do Rio de Janeiro e são “reaproveitadas” para o abastecimento das populações da Região Metropolitana. 

Os fabulosos sistemas de engenharia que foram usados para a transposição das águas entre as bacias hidrográficas dos rios Paraíba do Sul e Guandu, entretanto, nada podem fazer em relação à qualidade das águas. O rio Paraíba do Sul é considerado o 5° rio mais poluído do Brasil e enfrenta problemas ligados à lançamentos de esgotos domésticos e industriais em suas águas, extração de areia em sua calha, desmatamentos e projetos de mineração em áreas de nascentes, depósitos de rejeitos industriais e de mineração, despejos de lixo, entre muitos outros. 

Essa água com qualidade já comprometida é desviada e bombeada por uma série de dispositivos hidráulicos na direção das usinas hidrelétricas do Sistema Light e, depois, são despejadas na direção da calha do rio Guandu. Nos municípios que formam a bacia hidrográfica do rio Guandu, o tratamento que a água recebe não é muito diferente e novos volumes de esgotos de todos os tipos, lixo e resíduos sólidos chegam nas águas do rio. 

A matéria orgânica dos esgotos atua como um fertilizante nas águas, estimulando o crescimento de algas de todos os tipos, que por sua vez liberam compostos orgânicos como a geosmina nas águas. Esse processo ocorre de forma contínua durante todo o ano, mas, nos dias quentes do verão do Rio de Janeiro, há um aumento na proliferação de algas nas águas – está criado o enredo para mais uma crise no abastecimento de cariocas e fluminenses. 

Para tratar e tornar essa água potável, a ETA Guandu gasta cerca de 210 toneladas de produtos químicos a cada dia. São cerca de 140 toneladas de Sulfato de Alumínio, 20 toneladas de Cloreto Férrico, 15 toneladas de Cloro, 25 toneladas de Cal Virgem, 10 toneladas de Ácido Fluossilícico (o famoso flúor), além de volumes cada vez maiores de carvão ativado e outros produtos químicos. Ao que tudo indica, esse verdadeiro coquetel de produtos químicos não está sendo suficientemente poderoso para tratar as águas cada vez mais poluídas do rio Guandu. 

A repetição dos mesmos problemas ligados à qualidade da água fornecida à população da Região Metropolitana do Rio de Janeiro esconde um problema muito maior – a população é refém do rio Guandu e não existem fontes alternativas com volumes de água suficientemente grandes para garantir o abastecimento em caso de emergência

Uma questão hipotética que eu já levantei em postagens anteriores – imaginem um acidente com uma barragem de rejeitos de mineração na bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul como os que ocorreram no rio Doce em 2015 ou no rio Paraopebas em 2019, ambos os casos ocorridos em Minas Gerais. De onde é que sairia a água para abastecer a população caso isso venha a ocorrer? 

Isso talvez soe como paranoia para muitos dos leitores, porém, acidentes semelhantes já ocorreram no rio Paraíba do Sul, felizmente a jusante (correnteza abaixo) dos pontos onde as águas do rio são transpostas na direção do rio Guandu. Cito um exemplo: em 2003, a barragem de uma indústria de celulose em Cataguases, Minas Gerais, rompeu e vazaram cerca de 1,4 bilhão de litros de lixívia ou licor negro, um rejeito altamente tóxico gerado no processo de produção da celulose. 

O vazamento atingiu primeiro o córrego do Cágado, atingindo na sequência os rios Pomba e Paraíba do Sul, provocando fortes danos ao meio ambiente e causando muitos prejuízos para as cidades e populações que vivem às margens desses rios. A contaminação química da água foi tão grande que as autoridades ambientais proibiram a captação das águas do Rio Paraíba do Sul para abastecimento, deixando 600 mil pessoas sem água nas suas torneiras em cidades do Leste do Estado de Minas Gerais e Norte do Rio de Janeiro. 

Existem dezenas de barragens de rejeitos minerais instaladas dentro da bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul, algumas em estado bastante crítico – todos devem ter sempre na lembrança o tamanho do estrago que o rompimento de uma dessas barragens pode fazer nas águas de um rio. 

Essa preocupação pode até parecer um grande exagero da minha parte, mas vou usar como exemplo a tragédia da falta de oxigênio hospitalar que está se abatendo sobre a cidade de Manaus nesse momento – as autoridades do município, do Estado e do Governo Federal sabiam que isso poderia acontecer e não tomaram providências antes. Precisou o caos se instalar e muita gente começar a morrer nos hospitais para os responsáveis correrem atrás de soluções para o problema. 

Falaremos mais sobre a questão do abastecimento de água na Região Metropolitana do Rio de Janeiro nas próximas postagens. 

AMAZÔNIA SUSTENTÁVEL: OS MITOS E AS ENCANTARIAS DAS MARGENS DOS RIOS DA BACIA AMAZÔNICA

A Amazônia é um tema recorrente aqui nas páginas do blog desde que começamos a fazer publicações em 2016. Os motivos para isso não são difíceis de explicar: a região ocupa cerca de 40% do território brasileiro e detém aproximadamente 20% de toda a água doce superficial do planeta. 

Nesse início de 2021, reservamos as primeiras postagens da temporada para falar um pouco sobre as opções para o desenvolvimento sustentável da Amazônia. E não é que surgiu a crise da falta de oxigênio nos hospitais de Manaus por causa da epidemia da Covid-19, colocando mais uma vez a Região Amazônica nas manchetes dos jornais e sites de notícias de todo o mundo. Para variar, essas manchetes exploraram o lado negativo da Amazônia e, como sempre, deram um jeito de ligar a tragédia humanitária à suposta destruição da Floresta. 

Segundo os dados divulgados pelos Governos da Amazônia e de Manaus, o consumo de oxigênio hospitalar superou em várias vezes a oferta do produto fabricado localmente, levando ao desabastecimento dos hospitais, o que colocou a vida de muitos pacientes em risco. Pelas dificuldades logísticas no acesso a Manaus, tanques de oxigênio passaram a ser transportados por aviões cargueiros civis e militares.  

Ontem foi divulgada a notícia do deslocamento de um comboio de carretas carregando mais de 100 mil m³ de oxigênio pela BR-319, rodovia que liga Porto Velho a Manaus. Devido às péssimas condições da rodovia, que tem grande parte de seu pavimento em terra, esse comboio está sendo escoltado por equipes de manutenção e por tratores, numa verdadeira operação de guerra. 

Deixando essa questão trágica um pouco de lado, gostaria de encerrar essa série de publicações falando de uma particularidade muito importante da Região Amazônica: os mitos e as encantarias populares, que estão presentes em praticamente tudo o que se faz por lá e que precisam ser levadas em consideração em qualquer projeto ou atividade que se queira desenvolver nos domínios da Floresta Amazônica. 

Como exemplo, vou começar falando de um produto tipicamente amazônico, que conquistou apreciadores em todo o mundo: o guaraná (vide foto). Para nós, trata-se de um refrigerante gasoso e adocicado preparado a partir do pó da semente do guaranazeiro (Paullinia cupana), uma planta arbustiva da Amazônia, sendo encontrado no Brasil, Peru, Colômbia e Venezuela. A produção do guaraná é uma típica atividade da agricultura familiar e é uma importante fonte de renda para uma parcela importante da população ribeirinha da Amazônia. 

Os antigos indígenas da Amazônia descobriram as propriedades estimulantes do guaraná há milhares de anos e, desde então, vem usando a semente e o seu pó em tratamentos médicos. A planta possui altos níveis de cafeína e tem efeitos rápidos no combate à fadiga e ao cansaço, propriedades que os pajés consideravam mágicas. 

Entre nós “brancos” (uso aspas por que essa é uma definição sociocultural e não étnica), o guaraná começou a ganhar fama na década de 1920, quando uma empresa de bebidas lançou o famoso Guaraná Antarctica. Com o sucesso da bebida, outros fabricantes começaram a lançar bebidas similares com outras marcas. Atualmente, a centenária bebida se encontra entre as 15 marcas de refrigerantes mais vendidas em todo o mundo. 

Esse é o lado da história que encontramos nas principais fontes de pesquisa. Agora vejam o lado amazônico do fruto e da bebida. Essa é uma das muitas lendas indígenas sobre a origem do guaraná: 

“As tribos de Munducurucânia eram as mais prósperas dos índios. Venciam todas as guerras, as pescas eram ótimas, os peixes, os melhores e a doença era rara. Tudo isso por causa de um curumim (menino) que, há alguns anos, nascera naquela tribo. 

Ele era o mais protegido de todos. Nas pescas, era acompanhado por muitos – os pescadores desviavam dos rios as piranhas, jacarés ou qualquer outro perigo. Mas, certo dia, toda a segurança foi embora: o Gênio do Mal apareceu em forma de cascavel e feriu o garoto. A tribo entrou em lamentação e em desespero. 

Tupã, o Deus dos índios, atendeu a todo aquele lamento e disse: 

– Tirem os olhos do curumim e plantem-no na terra firme, reguem-no com lágrimas durante 4 luas e ali nascerá a “planta da vida”, ela dará força aos jovens e revigorará os velhos. 

Os pajés (feiticeiros) não duvidaram, arrancaram e plantaram os olhos do curumim e regaram com lágrimas durante quatro luas. 

Nasceu ali uma nova planta, travessa como as crianças, com hastes escuras e sulcadas como os músculos dos guerreiros da tribo. E quando ela frutificou, seus frutos de negro azeviche, envoltos de um arilo branco com duas cápsulas de cor vermelho-vivo. Diziam os índios: 

– É a multiplicação dos olhos do príncipe! 

E o fruto trouxe progresso da tribo. Ajudou os velhos e deu mais força aos guerreiros.” 

O povo brasileiro, segundo as descrições do antropólogo Darcy Ribeiro, foi formado a partir da mistura de três matrizes étnicas: a dos brancos europeus, a dos negros africanos e a dos indígenas. Essa mistura se deu tanto na formação étnica da população quanto na formação da cultura brasileira. Nas regiões Sul e em parte do Sudeste, por exemplo, há uma predominância da matriz branca. Nas antigas áreas de produção de cana de açúcar e da mineração do ouro, a matriz africana se manifesta com mais força. Nas áreas interioranas do país e, principalmente, na Região Amazônica, os elementos culturais e étnicos da matriz indígena se sobressaem sobre os demais. 

Dentro do universo místico derivado dessa forte influência dos indígenas amazônicos na formação das populações da Região Norte, a curva de um rio pode não ser apenas um acidente geográfico, mas o resultado da luta de um antigo guerreiro com uma criatura das águas. Uma formação rochosa não é apenas o resquício de um antigo derramamento vulcânico, mas sim a moradia de entidades mágicas. Uma árvore é um ser sagrado

Por menos importante que isso possa parecer para você que vive em outras regiões do país e do mundo, esses elementos míticos são fundamentais para essas populações. E sempre que uma obra ou qualquer outro empreendimento venha a ser realizado em terras amazônicas, todos esses elementos intangíveis precisam ser incluídos nos estudos de impacto ambiental, algo que normalmente não acontece

Vou citar um exemplo: o rio Tocantins nasce em terras do Cerrado em Goiás e tem sua foz na baía de Guajará, bem próximo da cidade de Belém, no Pará. A montante da Usina Hidrelétrica de Tucuruí, nas proximidades da cidade de Marabá, o rio Tocantins apresenta um trecho muito pedregoso com 43 km de extensão, onde a navegação é extremamente perigosa. Os locais chamam esse trecho de Pedral do Lourenço

Como é típico na Amazônia, as histórias locais contam que Lourenço era um antigo morador da região e que tinha por hábito ir até as pedras do rio para pescar todo final de tarde. Certo dia, sabe-se lá por qual motivo, Lourenço escorregou, caiu no rio e se afogou na forte correnteza. Desde então, o lugar passou a ser chamado de Pedral do Lourenço. 

Ninguém da região tem certeza se existiu mesmo um Lourenço e que tenha morado por ali ou se essa história é derivada de alguma lenda indígena local, que foi simplesmente adaptada para ser recontada para os “brancos”. Todos ali conhecem essa história e sabem apontar exatamente de qual pedra o dito Lourenço caiu. 

Pois bem – existe um projeto do Governo Federal para o derrocamento (obras para a remoção das pedras) e construção de um canal de navegação através do Pedral do Lourenço, criando assim uma via de navegação fluvial segura nesse trecho do rio Tocantins. Essa obra é considerada prioritária para o Governo Federal para viabilizar a Hidrovia Tocantins/Araguaia e ainda está enfrentando alguns problemas para a liberação da licença ambiental. 

Aí eu faço a pergunta – no processo de licenciamento da obra, vocês acham que os “especialistas em meio ambiente” conversaram com os moradores locais sobre a lenda do Lourenço? Classificaram as ditas pedras como patrimônio imaterial da cultura local, poupando esse trecho de qualquer obra de demolição? Eu, sinceramente, não tenho certeza disso. 

O desenvolvimento sustentável da Amazônia é essencial para todos nós brasileiros, principalmente para os mais de 20 milhões de habitantes da Região Amazônica. Conforme apresentamos rapidamente em algumas postagens, existem várias alternativas econômicas para explorar adequadamente os recursos naturais da região, gerando trabalho e renda para a população e preservando o meio ambiente. Tudo o que puder ser feito nesse sentido, precisa ser feito. 

Agora, quem deve decidir sobre o que deve e pode ser feito por lá somos nós brasileiros, principalmente os nossos Amazônidas. Sendo bastante irônico, os Macrons e as Merkels da vida não podem colocar as suas colheres na nossa tigela de açaí. E se tentarem, quem deem com os búfalos n’água (brincando aqui com a expressão popular “dar com os burros n’água) e que levem um bom couro (onde eu vivo, isso significa levar uma bela surra)… 

AMAZÔNIA SUSTENTÁVEL: AS GRANDES POSSIBILIDADES PARA A EXPLORAÇÃO DO TURISMO ECOLÓGICO NA AMAZÔNIA

Uma das atividades econômicas mais prejudicadas nesse último ano pela epidemia da Covid-19 em todo o mundo foi o turismo. Tentando minimizar os riscos de contaminação das populações, Governos passaram a forçar seus cidadãos a “ficar em casa” pelo maior tempo possível. Viagens foram desaconselhadas, o que praticamente levou à interrupção das atividades de empresas de transporte terrestre, aéreo e marítimo. Países também passaram a fechar suas fronteiras para estrangeiros, buscando assim evitar a entrada de pessoas contaminadas com a doença. 

Hotéis em importantes destinos turísticos em todos os cantos do mundo ficaram praticamente às moscas, o que também levou à bancarrota restaurantes, lojas, empresas de turismo e prestadores de serviços locais, entre muitos outros. Milhões de trabalhadores dessas empresas perderam seus empregos e têm um futuro imediato bastante incerto. Enquanto essa epidemia não for controlada, as atividades turísticas não retornarão ao seu ritmo normal. 

Nas últimas semanas, diversos países iniciaram as suas campanhas de vacinação contra a doença. Aqui no Brasil, a ANVISA – Agência Nacional de Vigilância Sanitária, liberou no último dia 17 de janeiro a aplicação de duas vacinas emergenciais e cidadãos de todo o país já estão sendo imunizados. Esse será um processo lento, pois ainda não há disponibilidade de vacinas para todos, mas precisamos acreditar que, mais dia menos dia, essa crise vai passar. 

Mesmo em meio a um cenário tão complicado, precisamos falar da importância do turismo, principalmente as atividades chamadas de turismo ecológico e de aventura, para a região da Floresta Amazônica. Por definição, pessoas que fazem turismo buscam belos cenários, prazer, aventura, emoção, adrenalina, conhecimento, entre outros “sentimentos” mais intangíveis. As viagens se apresentam como uma espécie de “válvula de escape” para a rotina de suas vidas. 

Com cerca 5,5 milhões de km² de área com florestas, grandes rios, indígenas, animais exóticos, culinária diferenciada e muita história, a Amazônia é um prato cheio para os aventureiros de todas as idades. E em tempos quando muitos falam que a “Amazônia está sendo transformada em cinzas”, pode ser uma ótima oportunidade comercial receber o maior número possível de visitantes estrangeiros – quanto mais gente ver in loco que isso não é necessariamente verdadeiro, melhor.

De acordo com dados da Amazonastur – Empresa Estadual de Turismo do Amazonas, o Estado recebeu um total de 600 mil turistas no ano de 2018. Faltam dados mais precisos, mas as estimativas indicam que pouco mais de 1/3 desses visitantes, ou algo na casa dos 200 mil visitantes, eram estrangeiros. No total, o Brasil recebeu 6,6 milhões de turistas estrangeiros em 2018. Esse número de visitantes é pequeno demais para um país tão grande e com biomas e paisagens tão diversificadas como o Brasil.

Para efeito de comparação, a cidade de Paris, capital da França, recebeu sozinha 89 milhões de visitantes no mesmo período. A Espanha recebeu 82,8 milhões de turistas, a Itália 63 milhões, México 43 milhões e os Estados Unidos receberam 77 milhões de visitantes estrangeiros. Apesar dos números mostrarem como a nossa indústria turística já vinha mal mesmo antes da pandemia, precisamos enxergar o fabuloso potencial de crescimento, principalmente na região da Amazônia. 

Eu confesso que não entendo muita coisa da área de turismo, mas, pelo volume de más notícias sobre a Amazônia brasileira que tenho visto circulando por jornais e sites de notícias de todo o mundo, entendo que muitos potenciais turistas acabam sendo induzidos a evitar viagens para o nosso país. Acredito que também não estamos fazendo uma divulgação adequada de nossas riquezas naturais. 

Um exemplo: há alguns anos atrás, conversando com um jovem casal de parisienses, descobri que eles tinham acabado de voltar de sua lua de mel na Amazônia, não da brasileira, mas da equatoriana. Os jovens foram atraídos ao país pelas belezas das Ilhas Galápagos, arquipélago que pertence ao Equador, e que ganhou fama mundial após a visita do naturalista Charles Darwin na década de 1830. O estudo da fauna de Galápagos foi fundamental para a formulação da teoria da evolução das espécies proposta por Darwin. A visita a Floresta Amazônica equatoriana foi uma espécie de ‘efeito colateral” da viagem desses jovens.  

Um outro país vizinho que tem atraído muitos visitantes estrangeiros é o Peru. Um dos principais cartões de visita do país é Machu Picchu, a “cidade perdida dos incas”. Essa cidade ganhou notoriedade em todo o mundo após o lançamento de “O segredo dos incas”, filme de 1954, estrelado por Charlton Heston. De acordo com depoimentos de Steven Spielberg, o grande diretor de cinema norte-americano, foi esse filme quem o inspirou a criar o personagem Indiana Jones, o arqueólogo aventureiro da série de quatro filmes (há notícias do lançamento de um 5° filme da franquia). 

Enquanto esses países contam com essas informações e imagens positivas circulando pelo mundo, as notícias sobre a nossa Amazônia são sempre negativas: derrubada de matas, queimadas, assassinato de defensores da floresta como Chico Mendes e Dorothy Stang, chacinas de populações indígenas, avanço de plantações de soja e de rebanhos animais em áreas desmatadas da floresta, entre muitas outras. Nesses últimos dias, as notícias de destaque nos meios de comunicação internacionais mostravam o drama dos manauaras devido à falta de oxigênio nos hospitais. É o que podemos chamar de “concorrência desleal”. 

A péssima imagem internacional do turismo no Brasil teve ainda uma grande ajuda de nossos governantes. Durante décadas a fio, os cartazes e as propagandas oficiais de divulgação do turismo no país mostravam mulheres corpulentas vestidas com trajes, digamos, “sumários”, onde o objetivo era vender a ideia de “país do carnaval’. Infelizmente, esse tipo de comunicação acabou associando o país ao turismo sexual. Em diversas viagens de férias por praias da Região Nordeste, eu encontrei com grupos de estrangeiros, principalmente europeus, que vieram passar uma temporada por essas nossas bandas na companhia de garotas “nativas”. 

Completando a complicada equação, temos um Presidente que, apesar do extremo patriotismo e das melhores intenções, costuma ser bastante destemperado em suas falas. Líderes estrangeiros oportunistas como Emmanuel Macron e Angela Merkel costumam se aproveitar de muitos dos deslizes do Presidente Jair Bolsonaro, usando suas declarações para incendiar as questões ligadas aos desmatamentos na Amazônia, produção e exportação de grãos e carnes, direitos das populações indígenas, entre outras. 

As possibilidades econômicas das atividades de turismo ecológico e de aventura na Amazônia brasileira são ilimitadas, porém, não é muito difícil de se perceber que ainda teremos de enfrentar uma série de obstáculos até a consolidação do setor. Além da necessidade de grandes investimentos em educação e formação de mão de obra, com profissionais fluentes em línguas como inglês e espanhol, precisamos antes melhorar a imagem de nosso país no exterior. 

É necessário mostrar imagens mais positivas da Floresta Amazônica como o encanto de turistas nadando com os botos-cor-de-rosa do rio Negro, dos rios e igarapés de águas límpidas, das enormes extensões de matas intocadas (que representam perto de 85% da cobertura original), de pescadores “brigando” com os grandes peixes amazônicos, das comidas e culturas regionais, entre muitas outras. 

Tudo isso começa com esforços cada vez maiores na prevenção e combate aos desmatamentos clandestinos, queimadas, contrabando de madeiras, ouro e pedras preciosas extraídas ilegalmente da floresta, na proteção e defesa dos povos indígenas, na implementação de atividades econômicas que prezem pela sustentabilidade ambiental, entre muitas outras iniciativas. 

Quando enfim conseguirmos atrair grupos cada vez maiores de turistas estrangeiros para a nossa Amazônia, ganharemos ótimos “porta-vozes” para falar bem de nossa terra para seus amigos e vizinhos em suas terras natais. Aí sim as coisas vão mudar para patamares muitos melhores para todos nós. 

AMAZÔNIA SUSTENTÁVEL: AINDA FALANDO DA ZONA FRANCA DE MANAUS

Na postagem anterior fizemos um breve relato da história da criação da Zona Franca de Manaus e do seu grande sucesso para a economia e para a sustentabilidade ambiental no Estado do Amazonas. Esse sucesso econômico, entretanto, não foi seguido pelo desenvolvimento social da população. Manaus e região sofrem com o crescimento desordenado da mancha urbana, falta de infraestruturas de saneamento básico, de transportes, saúde e educação – problemas típicos das cidades grandes brasileiras. 

Com a grande oferta de trabalho nas empresas em Manaus, um grande número de trabalhadores rurais passou a migrar para a cidade grande, deixando para trás a vida de “homem do campo”. Com essa mudança, grandes áreas da Floresta Amazônica deixaram de ser derrubadas e queimadas para a abertura de novos espaços para agricultura e para pecuária. O Polo Industrial de Manaus conseguiu gerar desenvolvimento econômico sem a necessidade de destruir a Floresta Amazônica. Se olharmos os números dos desmatamentos no Amazonas, o maior Estado brasileiro, veremos que são bem menores do que os de Estados vizinhos. 

Dentro da área urbana da capital do Amazonas, os problemas sociais e ambientais são enormes. Manaus conta atualmente com uma população de 2 milhões de habitantes, grande parte deles vivendo em condições precárias. Em termos de saneamento básico, Manaus ocupa a 5° pior posição entre as grandes cidades brasileiras. Pouco mais de 10% dos esgotos gerados na cidade são coletados e, desse total, apenas 24% recebe o tratamento adequado. Os inúmeros canais e igarapés que cruzam a cidade são os receptores de todos esses esgotos

Em relação ao abastecimento de água, os números são bem melhores – 88% da população é atendida por redes de água tratada. Entretanto, os números indicam uma perda de faturamento da empresa local de saneamento da ordem de 70% – são vazamentos nas tubulações das redes e o roubo de água através de ligações clandestinas, os famosos “gatos”. 

A cidade também enfrenta enormes problemas na área de coleta e destinação dos resíduos sólidos urbanos. São mais de 72 mil toneladas geradas a cada mês e as áreas de descarte estão ficando saturadas. Existem também grandes problemas na coleta nos domicílios e grande parte do lixo gerado pela população acaba sendo despejado nos igarapés e causa grandes impactos ambientais. No quesito habitação, a situação também é dramática: perto de 350 mil famílias manauaras moram em palafitas, ocupações e loteamentos clandestinos.

Conceitos como o da Zona Franca de Manaus, devidamente ajustados e integrados ao mundo contemporâneo, podem ser uma das alternativas para gerar uma colonização racional do território da Amazônia. A ocupação da mão de obra e geração de renda permite que se alcance um desenvolvimento sustentável. Porém, como fica claro nos números apresentados, é fundamental que se busque o equilíbrio entre o desenvolvimento econômico, a justiça social e a preservação ambiental. 

Entre os inúmeros problemas enfrentados pela cidade de Manaus destaca-se o isolamento em relação ao restante do país, mal que afeta outras regiões da Amazônia como nos casos dos Estados de Roraima e Amapá. Citando um exemplo, todos devem se recordar do “apagão” sofrido pelo Amapá há poucas semanas atrás e das grandes dificuldades para o transporte de geradores elétricos e de transformadores para lá. 

No caso específico de Manaus, um dos gargalos para uma melhor integração ao restante do país, e que ficou bem claro nesses últimos dias com a falta de oxigênio hospitalar para o tratamento da Covid-19, é a falta de uma ligação terrestre por meio de uma rodovia.  

Essa ligação inclusive já existe – a BR 319, uma rodovia parcialmente pavimentada que liga Porto Velho até Manaus. Concluída no início da década de 1970, essa rodovia era totalmente pavimentada. Entretanto, grande parte do trecho da pista ficava encoberto pelas águas do rio Madeira durante o período das cheias e o revestimento asfáltico acabou sendo quase que totalmente destruído. Sem o asfalto, a rodovia fica praticamente intransitável em grande parte do ano (vide foto) e passou a ser chamada pela população local de “caminho das onças“. Uma viagem entre Manaus e Porto Velho pode durar de um dia a uma semana, isso quando é possível atravessar o percurso total de quase 900 km. O trecho mais problemático da rodovia é conhecido como “trecho do meio”, com cerca de 500 km.. 

Quando eu morei na região entre 2009 e 2010, ouvi histórias um pouco diferentes. Segundo contam os locais, foram os donos de empresas de navegação fluvial os responsáveis pela destruição do asfalto da rodovia. Essa ligação terrestre barateou muito os custos para o transporte de mercadorias por caminhão entre as duas cidades, causando enormes prejuízos para os donos de embarcações que faziam esse mesmo trajeto. Segundo esses relatos, foram usadas retroescavadeiras para arrancar o revestimento de asfalto de grandes trechos da rodovia. 

O Governo Federal está trabalhando para reconstruir essa ligação, agora elevando o nível da pista para fugir dos alagamentos anuais. Segundo está sendo divulgado, essa reconstrução da rodovia prevê a instalação de túneis e passagens aéreas para a circulação de fauna, além da criação de diversas áreas de proteção ambiental ao longo do trajeto. Se essa ligação já estivesse pronta, dezenas de caminhões poderiam estar transportando cilindros de oxigênio até Manaus nesse momento e salvando muitas vidas. 

Apesar de parecer um contrassenso ambiental, o asfaltamento dessa rodovia, e de outras que foram construídas há muito tempo atrás, com todas as garantias necessárias para a proteção ambiental das matas nas áreas lindeiras, é fundamental para as populações pobres de Manaus e de outras cidades da Amazônia. Alimentos, remédios, roupas, produtos de limpeza e higiene pessoal, além de outros itens básicos produzidos em outras regiões, que só conseguem chegar nas cidades por via aérea ou fluvial, poderão ser transportados por caminhões a preços mais baixos. 

Muita gente não sabe, mas a Amazônia brasileira abriga uma população de mais de 20 milhões de habitantes. Grande parte dessas pessoas vivem isoladas em pequenas comunidades perdidas nas margens de rios e igarapés, sem acesso aos serviços mais básicos de saúde, educação e saneamento básico. Em casos de emergência, doentes precisam ser transportados até cidades grandes como Manaus em busca de atendimento – essas viagens normalmente são feitas em pequenos barcos e duram vários dias. Acessos terrestres como a BR-319 podem encurtar, e muito, esse tempo de viagem. 

As empresas da Zona Franca de Manaus também serão beneficiadas com o asfaltamento dessas rodovias, passando a contar com mais uma opção de transporte para peças e componentes e também para o escoamento da sua produção. Quando mais forte a produção industrial no Polo Industrial, menor será a pressão por atividades agropecuárias nas áreas florestais no interior do Estado do Amazonas. 

As narrativas sobre a defesa e a proteção da Floresta Amazônica normalmente não levam em consideração essas populações, cujos ancestrais foram as populações tradicionais da floresta e os imigrantes que começaram a ser assentados na região ainda nos tempos do Ciclo da Borracha. Falar em desenvolvimento sustentável da região requer, obrigatoriamente, incluir essas populações na equação. E o exemplo do que pode ser alcançado com polos industriais como o de Manaus pode ser um ótimo caminho a ser seguido por outras cidades da Amazônia. 

A indústria, quem diria, pode ser uma forte aliada na preservação da Floresta Amazônica! 

AMAZÔNIA SUSTENTÁVEL: A CRIAÇÃO DA ZONA FRANCA DE MANAUS

Nesses últimos dias, desgraçadamente, a cidade de Manaus não sai dos noticiários. O agravamento da contaminação pela Covid-19 provocou a superlotação dos hospitais da cidade e, muito pior, desencadeou uma crise de escassez de oxigênio medicinal nos hospitais. Sem ligações terrestres adequadas com o restante do país, as cargas de oxigênio estão sendo transportadas por via aérea e fluvial. 

Para quem não conhece, Manaus é uma verdadeira ilha urbana cercada por florestas por todos os lados. A própria região onde fica a cidade é uma grande ilha – a Ilhas das Guianas, que é cercada pelos rios Negro, Amazonas e Orinoco, Canal do Cassiquiare, além das águas do Mar do Caribe e do Oceano Atlântico. E como ocorre em toda ilha, existem problemas de comunicação com “terras”vizinhas.

Manaus surgiu a partir da construção de uma fortificação portuguesa erguida por volta de 1669. A cidade só ganharia projeção nacional e mundial a partir do Ciclo da Borracha, período entre meados do século XIX e início da década de 1910, quando a Amazônia foi o principal centro produtor de látex do mundo e a cidade foi um dos polos de exportação. A riqueza e a prosperidade criada pelo látex levaram Manaus a ser chamada de a “Paris dos Trópicos”. 

Depois de décadas de ostracismo após o fim do Ciclo da Borracha, a cidade ganharia novamente uma projeção nacional em 1957, quando um decreto do Presidente Juscelino Kubitschek criou a Zona Franca de Manaus. A ideia da criação de um porto livre em Manaus data da década de 1870, quando a cidade se tornou um dos principais centros da indústria gomífera da Amazônia.  

Formalmente, foi o deputado federal Francisco Pereira da Silva que, em 1951, propôs a criação do porto livre. A proposta do deputado foi aprovada e transformada em lei, mas, como é típico aqui em nosso país, a “lei não pegou”. Em 1953, o Governo do Presidente Getúlio Vargas criou a SPVEA – Superintendência de Valorização Econômica da Amazônia, uma outra ideia que também não avançou. O Governo Vargas, que já vinha enfrentando uma profunda crise política, acabou abruptamente com o suicídio do Presidente em 1954. 

A criação da Zona Franca de Manaus permitiu a implantação de um espaço portuário de “armazenamento ou depósito e retirada de mercadorias de qualquer natureza, com armazéns e cais flutuantes na margem do rio Negro”, uma ideia muito próxima do conceito proposto pelo deputado Francisco Pereira da Silva em 1951. O Presidente Juscelino Kubitschek tinha um forte cunho desenvolvimentista e de integração nacional. Um dos destaques do seu Governo foi a criação do Plano de Rodovias que, entre outras obras, culminou com a construção da BR-364, rodovia que permitiu a ligação terrestre entre Cuiabá, no Estado de Mato Grosso, e os Territórios do Guaporé (atual Rondônia), e Acre, além de regiões do Sul do Estado da Amazônia.  

A Zona Franca de Manaus viria a dar um verdadeiro “salto” em importância em 1967, época dos chamados Governos Militares (1964-1985). Essa é uma época de forte nacionalismo, quando o mundo vivia um dos períodos mais tensos da chamada Guerra Fria, um conflito ideológico entre o bloco capitalista, comandado pelos Estados Unidos, e o bloco comunista, que tinha a liderança da URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Aqui na América Latina, as tensões ideológicas entre esses dois blocos resultaram no estabelecimento de inúmeros regimes de exceção, comandados por juntas militares e com apoio direto ou indireto dos Estados Unidos.  

Uma ideia que se desenrolava há muitos anos e que enchia de temores os militares brasileiros era hipótese de uma Internacionalização da Amazônia, Foi justamente após a ascensão dos militares ao poder que passaremos a assistir à criação de uma série de medidas para a integração e ocupação da Amazônia brasileira, onde destacamos a construção de grandes rodovias como a Transamazônica, a Belém-Brasília e a Cuiabá-Santarém, projetos de mineração como Carajás, entre outros. Um dos slogans governamentais desse período era “Amazônia: uma terra sem homens, para homens sem-terra” .  

Foi dentro desse contexto de defesa da Amazônia contra uma eventual ocupação estrangeira que o Presidente Castello Branco criou a SUFRAMA – Superintendência da Zona Franca de Manaus, que oficializou e ampliou a Zona Franca. A SUFRAMA passou a conceder uma série de incentivos fiscais para as empresas que se instalassem na Zona Franca – esses incentivos se estenderiam por 30 anos. A área da Zona Franca era, inicialmente, de 10 mil m², englobando Manaus e municípios vizinhos. Posteriormente, a área de abrangência foi ampliada para a Amazônia Ocidental, englobando os Estados do Amazonas, Rondônia, Acre e Roraima.  

As indústrias eletroeletrônicas estrangeiras foram as primeiras a perceber as vantagens para a instalação de unidades na Zona Franca de Manaus, se valendo primeiro dos incentivos fiscais para a importação de produtos prontos desde suas matrizes e, depois, importando componentes para a montagem in loco. Para se ter uma ideia do sucesso da Zona Franca de Manaus, apenas em 1967, foram criadas 1.339 novas empresas na região. Eu lembro claramente de uma época no início da década de 1970, quando as pessoas de classe média e média alta viajavam até Manaus para comprar produtos eletroeletrônicos como aparelhos de som, televisores, gravadores e máquinas fotográficas com “ótimos preços”.  

A Zona Franca também criou uma verdadeira “indústria de sacoleiros” por todo o país. Muita agente viajava até Manaus para comprar esses produtos, revendendo depois com um bom lucro em outras cidades do país. Em 1976, a SUFRAMA estabeleceu uma cota máxima de produtos que poderiam ser comprados e conseguiu controlar melhor essa revenda de produtos.  

Na década de 1980, o Governo Federal implementou algumas mudanças na Zona Franca de Manaus. A primeira delas foi uma alteração no prazo de validade da área, que primeiro foi estendido até 2007 e depois para 2013. Outra mudança se aplicaria na agregação de conteúdo tecnológico nacional nos produtos. Até aquele momento, as empresas multinacionais se limitavam a importar componentes desde seus países de origem e a realizar apenas a montagem dos produtos em Manaus, se aproveitando assim dos incentivos fiscais e do baixíssimo custo da mão de obra local. Essa baixa massa de salários não ajudava a fortalecer a economia local e beneficiava apenas as grandes empresas.  

Um exemplo: no final da década de 1980, eu trabalhava numa multinacional eletroeletrônica. Essa empresa estava estudando o lançamento de uma nova linha de produtos que seria montada na fábrica de Manaus. Esses produtos usavam uma tecnologia nova há época chamada SMD – Surface Mounting Device, onde os componentes eletrônicos eram montados nas placas de circuito impresso por um sistema robótico. Engenheiros da matriz na Europa fizeram uma visita de vistoria na fábrica de Manaus e chegaram a uma conclusão – a mão de obra em Manaus era tão barata que não valia a pena importar o robô de montagem de componentes. A empresa lucraria muito mais fazendo a montagem dos componentes manualmente.  

Com as mudanças realizadas pela SUFRAMA, as empresas instaladas no Polo Industrial de Manaus se viram forçadas a fazer investimentos em pesquisa e desenvolvimento. Esse conteúdo tecnológico nacional se transformou num caminho para agregar valor nacional aos produtos e melhorar os salários da mão de obra nessas empresas, que além dos simples operários da montagem, passaram a contratar engenheiros e pesquisadores de diversas áreas. Essa mudança provocaria uma elevação de patamar significativa no Parque Industrial de Manaus ao longo dos anos seguintes.  

Atualmente, o Polo Industrial de Manaus abriga cerca de 600 empresas e emprega mais de 500 mil trabalhadores diretos e indiretos. A maior parte da produção local, que vai de telefones celulares a motocicletas, é consumida no mercado brasileiro e cerca de 5% é exportada para América Latina, Estados Unidos e Europa. Em 2014, o prazo de validade da Zona Franca de Manaus foi estendido até 2073.  

Continuamos na próxima postagem.

AMAZÔNIA SUSTENTÁVEL: O COURO VEGETAL FEITO A PARTIR DO LÁTEX

O látex é uma seiva natural produzida por várias espécies de árvores e plantas, com destaque para a seringueira (Hevea brasiliensis), uma espécie nativa da Floresta Amazônica. Detentor de uma parte considerável dessa Floresta, o Brasil rapidamente despontou como o maior produtor mundial de látex

O uso do látex começou no século XVIII por indústrias do segmento de confecção, quando era pulverizado sobre capas de chuva com o objetivo de criar uma camada impermeável, que funcionava perfeitamente nos dias de chuva. Em dias de extremo calor, porém, a camada impermeável se tornava grudenta e em dias muito frios ela endurecia e se tornava quebradiça. Outros produtos há época feitos à base do látex apresentavam os mesmos problemas.  

Em 1839, o inventor norte-americano Charles Goodyear, depois de inúmeros experimentos, desenvolveu o processo da vulcanização, onde uma mistura de látex e enxofre era submetida a pressão e calor, permitindo a modelagem das peças de borracha e tornando-as resistentes ao calor e ao frio. Após a invenção deste processo, as aplicações industriais e o consumo do látex no mundo explodiram.  

A borracha passou a ser a matéria prima de uma série de produtos inovadores: correias para máquinas, sapatos, luvas, chapéus, roupas impermeáveis, flutuadores, bandas de rodagem para rodas de carroças (mais tarde substituídas por rodas com pneus), mangueiras, entre outros produtos. Nas últimas décadas do século XIX, com o uso cada vez maior da eletricidade, peças isolantes à base de borracha ganharam enorme importância no mercado mundial.  Também merece um grande destaque a nascente produção de automóveis em série.

Entre 1850 e 1920, a produção do látex foi a grande riqueza da Floresta Amazônica, o que fez a fortuna de uns poucos seringalistas e exportadores da matéria prima, e lançou milhares de seringueiros anônimos à mais completa e absoluta miséria nos confins mais distantes da Amazônia. Foi então que, a partir de 1913, seringais ingleses plantados no Sudeste Asiático com sementes de seringueira roubadas na Amazônia passaram a produzir látex em maior quantidade e com custos mais baixos que os da grande floresta sul-americana.  

Após a Primeira Guerra Mundial, as indústrias petroquímicas conseguiram desenvolver a borracha sintética a partir do petróleo – a grande saga do látex natural praticamente terminaria aqui. Houve uma efêmera tentativa de reativar a produção durante a Segunda Guerra Mundial com os lendários Soldados da Borracha, mas tanto o projeto quanto os soldados foram rapidamente abandonados. A produção do látex amazônico em grande escala perdeu completamente a sua relevância. Siga os links indicados no texto para conhecer os detalhes dessa história. 

A exploração do látex, apesar de todo o drama social que foi gerado pelo sistema de extração daquela época, é sustentável do ponto de vista ambiental. As seringueiras nativas são localizadas no meio da mata, onde é feito o corte do caule para a “sangria” do látex em pequenas quantidades (vide foto abaixo), algo que não costuma criar maiores problemas para as árvores. Já para os seringueiros, a atividade é um dos ícones máximos da exploração da mão de obra. 

Uma aplicação para o látex que vem crescendo muito nas últimas décadas é seu uso para a produção do chamado couro vegetal”. Existem referências à produção desse material na Amazônia desde 1834. Uma peça de tecido de algodão montada numa moldura é colocada sobre a saída de fumaça de um forno a lenha e passa a receber o despejo de pequenas quantidades de látex, numa forma de trabalho muito parecida com a confecção das pélas de borracha pelos seringueiros (vide foto).  

O látex gruda no tecido e vai coagulando, produzindo um efeito emborrachado, com uma aparência muito similar ao couro animal. Essa forma artesanal de produção resulta em peças com texturas e cores diferentes, que vão do castanho claro ao marrom café e que dão ao produto um charme e uma exclusividade toda especial. 

Há cerca de uns quinze anos atrás eu comprei, com alguma desconfiança, um sofá revestido com esse couro vegetal e depois acabei ficando surpreso com a qualidade do material. Produzido artesanalmente por seringueiros e indígenas da Amazônia, especialmente no Estado do Acre, o produto começou a chamar a atenção de grandes empresas, que cada vez mais têm feito investimentos na melhoria dos processos de produção dessa materia prima.

Uma iniciativa das mais interessantes é o Projeto Couro Vegetal da Amazônia, que reúne seringueiros, indígenas caxinauá, uma ONG – Organização Não Governamental, e empresários do setor. O grupo vem trabalhando desde 1991 no desenvolvimento do artesanato tradicional dos seringueiros da Amazônia no Estado do Acre. 

Com apoio das empresas, a produção das peças de couro alcançou um melhor padrão de qualidade, especialmente no tingimento. As peças são usadas na confecção de artigos de vestuário, calçados, bolsas e mochilas, tapeçaria, encadernações e em revestimentos decorativos. Com essa produção, os seringueiros e os indígenas passaram a ter um rendimento bem maior do que o que teriam com a simples extração e venda do látex. 

A partir da Floresta Amazônica, o couro vegetal começou a ganhar o mundo. Primeiro foram empresas de confecção de grandes cidades brasileiras como Rio de Janeiro e São Paulo. Em 1998, a iniciativa conseguiu fechar um contrato de 10 anos para o fornecimento de peças de couro vegetal para a tradicional grife francesa Hermès Sellier, uma empresa fundada em 1837. 

O produto artesanal da Amazônia tem um forte apelo ecológico junto aos consumidores “endinheirados”, que enxergam na iniciativa uma forma de contribuir para o desenvolvimento sustentável da Amazônia, deixando assim suas consciências mais “leves” para poder gastar o equivalente a milhares de Reais em sapatos, bolsas, e peças de vestuário da grife.. 

Existem cerca de 30 mil comunidades extrativistas em toda a Amazônia, a grande maioria formada por grupos de famílias que vivem espalhadas ao longo dos rios, onde se incluem populações ribeirinhas, muitos descendentes dos antigos seringueiros, e povos tradicionais de origem indígena.  Essas populações vivem da caça, da pesca, da produção agrícola de subsistência e da extração de produtos florestais como o látex e a castanha-do-pará. Os índices de desenvolvimento social dessas comunidades estão entre os mais baixos do Brasil. 

A produção do couro vegetal é uma ótima alternativa de trabalho e renda para essas comunidades – o produto possui um preço de venda, no mínimo, quatro vezes maior do que o látex. A produção pode ser feita na casa dos seringueiros ou nas aldeias indígenas, sem necessitar de qualquer infraestrutura adicional as já existentes. A extração do látex é totalmente sustentável e, de acordo com a legislação ambiental, essa pode ser feita em Unidades de Conservação classificadas como reservas extrativistas. Além do Acre, já existem outras iniciativas de produção de couro vegetal nos Estados do Amazonas e do Pará. 

Existem diversos problemas para a consolidação da atividade, principalmente a necessidade de criação de um sistema adequado para o escoamento da produção, onde os produtores possam receber um preço justo pelo seu produto. Lembro aqui que, com a decadência da indústria gomífera (ou do látex) na década de 1920, muitos seringueiros passaram a caçar animais da fauna nativa da Amazônia para o aproveitamento do couro e das peles, que eram vendidas a preços de “banana” para intermediários. 

Com as cautelas necessárias, a produção de couro vegetal de látex em grande escala poderá ser mais uma ótima opção para a geração de trabalho e renda para a população mais pobre da Amazônia, garantindo a conservação da floresta e um desenvolvimento sustentável sem sobressaltos para a região.

AMAZÔNIA SUSTENTÁVEL: AS DELICIOSAS CASTANHAS-DO-PARÁ

Um produto amazônico dos mais conhecidos no Brasil e no mundo é a castanha-do-pará, que no exterior é designada simplesmente como Brazil nut ou castanha do Brasil. O país produz cerca de 40 mil toneladas de castanhas por ano, sendo que mais de 90% dessa produção é exportada com casca e desidratada, o que é conhecido como castanha dry. Os nossos principais mercados são Europa, Estados Unidos, México, Japão, Argentina e países árabes como Tunísia e Arábia Saudita. 

Ironicamente, o maior produtor e exportador mundial das “castanhas do Brasil” é a Bolívia, país vizinho que tem parte importante do seu território coberto pela Floresta Amazônica. Os bolivianos chamam as castanhas de almendras, nuez amazónica e nuez boliviana. O Estado do Amazonas é o maior produtor brasileiro de castanhas, respondendo por cerca de 37% da produção, sendo seguido pelo Acre e pelo Pará.

A castanheira (Bertholletia excelsa) é uma das maiores árvores da Floresta Amazônica, com uma altura média superior aos 30 metros e com diâmetro de tronco entre 1 e 2 metros. Há notícias de exemplares da árvore com mais de 50 metros de altura e com diâmetro de tronco de 5 metros. O fruto da castanheira é uma espécie de coco ou ouriço, com casca muito dura e onde se encontram de 8 a 24 sementes, que são as castanhas. A castanheira é uma das árvores mais longevas da Floresta Amazônica – pesquisadores já identificaram espécimes com idade de mais de 800 anos. 

A árvore é nativa da Floresta Amazônia, sendo encontrada em todos os países amazônicos: Brasil, Bolívia, Equador, Peru, Colômbia, Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana Francesa. Atualmente, as maiores concentrações de castanheiras estão na Bolívia e no Suriname. No Brasil, os desmatamentos em grandes trechos da Floresta Amazônica provocaram o rareamento da espécie. 

Além da Bolívia, países como o Peru e o Equador também têm uma produção significativa de castanhas-do-pará. Na lista de países produtores também se incluem a Costa do Marfim, no Oeste da África, e a Indonésia, no Sudeste Asiático. Apesar da boa adaptação das castanheiras ao clima e solos desses países, a produção é bem menor devido à existência de poucas espéceis de insetos polinizadores adaptados às características peculiares da flor da castanheira.

Essas flores são amarelas e possuem uma espécie de capuz, que só um inseto suficientemente forte consegue levantar. O interior dessas flores também apresenta uma complexa estrutura em espiral, o que requer um inseto com uma língua comprida para fazer a polinização. Entre os insetos que aliam estas duas características estão as abelhas dos gêneros Bombus, Centris, Epichans, Eulaema e Xylocopa.  

Muitas espécies de abelhas, como é o caso das abelhas-das-orquídeas, são atraídas para as castanheiras pelo forte cheiro exalado por algumas espécies de orquídeas que vivem no seu caule – essas abelhas também acabam polinizando as flores das árvores. Todos esses insetos precisam de um ambiente florestal bem conservado para sobreviver e sem a sua polinização as castanheiras não produzem sementes. O extrativismo racional da castanha-do-pará, além de sua grande importância como atividade econômica para as populações tradicionais, é fundamental para a preservação da Floresta Amazônica e de todas essas espécies de insetos.

Após a polinização das suas flores, as castanheiras irão precisar entre 12 e 15 meses para desenvolver os ouriços e amadurecer as suas sementes. Quando os ouriços maduros caem no solo da floresta, entram em cena pequenos roedores como as cutias (existem diversas espécies) e esquilos como o caxinguelê (Sciurus aestuans). Esses animais roem a casca dos ouriços para se alimentar das castanhas, atuando assim como dispersores das sementes, que gerarão novas árvores. Quando matas são devastadas, as castanheiras sobreviventes perdem os seus “pequenos sócios” que fazem esse importante trabalho de renovação das árvores. 

A castanha-do-pará é um alimento rico em proteínas vegetais e gorduras, sendo considera por muitos como uma espécie de “carne vegetal”. Entre 12 e 17% de sua composição é formada por proteínas e outros 69% são gorduras, A semente também é rica em vitaminas e sais minerais como o selênio, um elemento associado à prevenção de doenças como o câncer.  

De acordo com estudos na área de tecnologia de alimentos da EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, do Acre, o selênio tem atuação nos chamados radicais livres, atuando na prevenção do envelhecimento precoce. Pesquisadores da USP – Universidade de São Paulo também trabalham com a castanha-do-pará, usando alguns elementos presentes nas sementes para o desenvolvimento de antibióticos. 

Além da produção das castanhas para consumo in natura, as sementes também podem ser processadas e transformadas em farinha, um ingrediente usado na produção de leite, sorvetes, doces e salgados. As castanhas também podem ser prensadas para a extração de um óleo de excelente qualidade e que é utilizado como matéria prima de produtos farmacêuticos e cosméticos como xampus e sabonetes. Esse óleo também tem aplicações na culinária amazônica substituindo o azeite de oliva

A EMBRAPA vem trabalhando em projetos para aumentar a produção e também para estimular o consumo interno da castanha-do-pará e dos seus derivados no mercado brasileiro. As castanhas ainda são consideradas produtos de luxo e caros, sendo consumidas apenas em ocasiões especiais como as festas de fim de ano. No caso do óleo de castanha, questão é mais complexa – o produto estraga rapidamente caso não seja guardado em uma embalagem opaca e bem vedada, um problema que ainda exigirá muitos estudos para ser solucionado. 

A colheita dos ouriços da castanha-do-pará é feita no período da seca, o chamado verão amazônico. Os ouriços maduros costumam cair das árvores nos meses de janeiro e fevereiro. Devido à casca dura dos ouriços, as sementes podem levar até 15 meses para começar a germinar. Os extrativistas entram nas matas carregando um grande cesto feito de fibras naturais preso às costas e usam um bastão com pontas múltiplas para “agarrar’ os ouriços (vide foto). 

Nas cooperativas, os ouriços são abertos a golpe de fação ou de machadinha. Conforme a demanda, as castanhas com casca serão embaladas e preparadas para a venda ou serão descascadas para a produção da farinha e do óleo. Os ganhos obtidos pelas cooperativas são divididos proporcionalmente entre os associados em função dos volumes individuais de produção. 

De acordo com informações de pesquisadores do Museu Paraense Emílio de Goeldi, as castanheiras amazônicas se adaptam facilmente a climas diferenciados, resistindo bem a períodos de frio, calor, seca e umidade. Um exemplo disso foi o início da produção de castanhas-do-pará no Estado de Minas Gerais em 2019, num experimento realizado pela Universidade de Lavras. O plantio das castanheiras no campo experimental da universidade começou em 1996. 

Ainda segundo as informações do Museu Paraense Emílio de Goeldi, as castanheiras têm um crescimento rápido e podem ser uma ótima alternativa para a recuperação de áreas degradadas pela mineração, pela agricultura e também pela pecuária. Atuando como espécie pioneira, as castanheiras fornecem uma sombra que permite o crescimento de outras espécies de árvores de desenvolvimento mais lento, criando assim condições para a recuperação de grandes áreas florestais. As árvores também geram grandes volumes de folhas mortas e galhos, que caindo sobre o solo gerarão nutrientes para outras plantas. 

Áreas desmatadas e degradadas não faltam na Amazônia – existem estimativas que falam de 20 milhões de hectares de terras nessa situação. Essa é mais uma ótima alternativa para uma produção cada vez mais sustentável na Amazônia

AMAZÔNIA SUSTENTÁVEL: OS BÚFALOS ”QUASE NATIVOS” DA FLORESTA AMAZÔNICA

Búfalos e bois pertencem a uma mesma subfamília de animais – a dos bovinos ou bovinae, nome científico em latim, onde se incluem cerca de 24 espécies agrupadas em 9 gêneros. Apesar das grandes semelhanças entre as diferentes espécies de bovinos, os especialistas ainda não têm certeza sobre as razões evolutivas que levaram a uma diversificação tão grande da “família”. 

Uma das diferenças mais marcantes entre bois e búfalos está ligada ao ambiente onde os animais costumam viver. Enquanto bois preferem solos secos, os búfalos se sentem à vontade em terrenos úmidos e brejosos, onde se valem dos seus cascos largos e espalmados, que permitem que caminhem com mais facilidade e sem afundar na lama. 

Um dos casos mais interessantes da convivência dessas duas espécies de animais é a Índia, país que possui enormes rebanhos de bovinos e de bubalinos. Por razões que não fazem muito sentido para nós estrangeiros, os indianos hinduístas consideram bois, vacas e touros animais sagrados. Já os pobres búfalos são animais usados no transporte de cargas e em outros serviços pesados. Também são os búfalos os provedores de carne para algumas populações e, especialmente, para exportação pelo país.  

A Índia é, ironicamente, a maior exportadora de carne vermelha do mundo, predominantemente carne de búfalos. Essas exportações, inclusive, superam a de países como o Brasil e a Austrália, grandes produtores de carne. Os frigoríficos ficam localizados nos Estados do Sul do país, onde a imensa maioria da população segue outras religiões. 

Os búfalos (Bubalus bubalis) são originários da Ásia e ainda hoje podem ser encontrados em estado selvagem em áreas pantanosas da Índia, Nepal, Butão e países do Sudeste Asiático como Tailândia, Indonésia, Malásia e Myanmar. Também existem búfalos selvagens na Austrália, onde a espécie foi introduzida no século XIX. O animal pode superar o peso de 1,2 tonelada e atingir um comprimento de 3 metros. 

Registros históricos falam da domesticação dos búfalos há mais de 5 mil anos atrás, quando ele se tornou uma importante fonte de carne, leite e couro. Os búfalos também se prestam a trabalhos como animal de carga, de montaria, de tração para arados agrícolas entre outras funções. 

O sabor e a aparência da carne dos búfalos são quase idênticos à dos bovinos, porém, possui 40% menos colesterol, 12 vezes menos gordura, 55% menos calorias, 11% mais proteínas e 10% mais minerais. Esses são apelos muito fortes para aqueles consumidores que buscam uma vida mais saudável a partir de uma boa alimentação. 

Ao longo da história, os búfalos foram levados da Ásia para a África, Austrália, Europa e, bem mais recentemente, para as Américas. De acordo com a tradição popular da Amazônia, principalmente da ilha do Marajó no Pará, os búfalos chegaram na região depois do naufrágio de uma embarcação de transporte de animais que havia acabado de zarpar da Guiana Francesa. Os animais teriam nadado na direção das praias das ilhas do Arquipélago de Marajó e acabaram “colonizando” todo o seu território. 

De acordo com a EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, a história real é um pouco destoante dessa “lenda”. Os animais foram na verdade importados por um criador local de nome Vicente Chermont de Miranda. O primeiro lote de de animais da raça Mediterrânea foi trazido diretamente da Itália em 1895.  

Com mais de 40 mil km², a Ilha do Marajó é a principal do arquipélago e tem o tamanho do Estado do Rio de Janeiro, sendo considera a maior ilha fluviomarítima do mundo. Formada ao longo das eras pelo acúmulo de sedimentos carreados pelas águas do rio Amazonas, a Ilha do Marajó apresenta uma espécie de mosaico com todos os subsistemas florestais do bioma amazônico com áreas de várzeas, campos, matas, manguezais, restingas, entre outros. Esses ambientes são quase idênticos aos encontrados nas florestas do Sul e Sudeste da Ásia, o que fez os búfalos se sentirem praticamente em sua terra natal. 

Existem cerca de 600 mil búfalos vivendo na Ilha do Marajó, o que supera em número a população de marajoaras, estimada em 533 mil habitantes. A criação dos animais é uma das principais atividades econômica da ilha. Apesar do grande rebanho de animais, os impactos ambientais provocados pelos búfalos na Ilha do Marajó foram muito pequenos nesses quase 130 anos da introdução da espécie na região. 

Ao contrário dos rebanhos bovinos, que necessitam de pastagens e espaços abertos, os bubalinos vivem perfeitamente nos ambientes naturais das várzeas e dos campos amazônicos. Por ser uma espécie adaptada a ambientes aquáticos, os búfalos não sentem os impactos do período das cheias como os bovinos, que precisam ser transferidos para terras mais altas e secas a exemplo do que acontece na região do Pantanal Mato-grossense

Além da Ilha do Marajó, a Amazônia possui grandes áreas de várzeas inundáveis com grande potencial para a exploração pecuária de búfalos. Um exemplo são grandes trechos do Médio e Baixo rio Amazonas, onde ocorre uma diferença de mais de 5 metros no nível das águas entre a época mais seca do ano, que vai de novembro a dezembro, e a mais chuvosa, que vai de maio a junho. Quando as águas baixam, os solos são cobertos por uma abundante vegetação de plantas forrageiras de alto valor nutritivo. 

Entre as plantas forrageiras que abundam nessas áreas alagáveis, a EMBRAPA destaca as gramíneas dos gêneros Echinochloa, Hymenachne, Leersia, Luziola, Paspalum, Oryza, Panicum, Eriochla e Paratheria. Além de nutritivas, essas plantas são consideradas “anfíbias” por sobreviverem flutuando ou mesmo submersas sob as águas na época das cheias, o que garante que os búfalos tenham uma boa disponibilidade de alimentos durante todo o ano. Os animais também buscam seus alimentos nas áreas de campos naturais, ambiente que também é encontrado em toda a Amazônia. 

Dos cerca de 58 milhões de hectares desmatados na região da Floresta Amazônica em décadas recentes, perto de 15 milhões de hectares tinham como finalidade a criação de grandes fazendas para a criação de gado. Uma das áreas mais afetadas por esses desmatamentos foram as faixas Leste e Sudeste do Pará. Muitos desses empreendimentos não conseguiram prosperar devido à baixa fertilidade dos solos da Amazônia, um problema que afeta cerca de 92% dos solos da região. 

Estudos indicam que existem cerca de 20 milhões de hectares de terras abandonadas ou degradadas em toda a Amazônia justamente por causa dos problemas de baixa fertilidade dos solos. Sem conseguir produzir forração em quantidade suficiente para a alimentação do gado ou para a produção agrícola, essas áreas foram simplesmente abandonadas e largadas à própria sorte. Lembro aqui que a partir da década de 1960, os sucessivos Governos distribuíram terras na Amazônia com o objetivo de estimular a migração e ocupação da região. Eram tempos em que governantes e militares temiam ideias de internacionalização da Amazônia.

Pelas suas características de grande adaptação aos diferentes biomas da Amazônia e onde não existe a necessidade da derrubada de matas para a formação de pastagens, a bubalina cultura é uma excelente opção de atividade econômica sustentável para a região. Falta é claro melhorar as condições de infraestrutura para o transporte dos animais até os frigoríficos e centros consumidores, o que pode ser feito através da fabulosa rede de vias hidroviária, desenvolver bons mecanimos para a divulgação e venda da produção, entre outros problemas operacionais. 

A EMBRAPA possui excelentes trabalhos com novas técnicas para a criação de búfalos em sistemas de rotação de pastagens, o que aumenta grandemente a produtividade e a lucratividade da atividade. Também existe a possibilidade da criação dos búfalos em consórcio com a psicultura, o que garante um retorno financeiro ainda maior e sem causar maiores impactos ambientais. 

Existem inúmeras atividades econômicas que podem ser desenvolvidas em toda a Amazônia com impactos ambientais extremamente baixos e ecologicamente sustentáveis – a criação de búfalos é uma delas. 

AMAZÔNIA SUSTENTÁVEL: A CRIAÇÃO DE PIRARUCUS EM CATIVEIRO E OS BÚFALOS DA AMAZÔNIA

Na última postagem falamos do pirarucu (Arapaima gigas), o maior peixe de escamas do Brasil e um dos maiores do mundo. Pirarucus adultos podem chegar a um comprimento de até 3,5 metros e a um peso de 250 kg, porém, devido à superexploração da pesca da espécie, animais desse porte são cada vez mais raros nos rios da Bacia Amazônica. 

O pirarucu é chamado de “bacalhau da Amazônia”. A origem dessa denominação tem suas raízes nos tempos do Brasil Colônia, quando as fazendas dos sacerdotes Jesuítas da Amazônia preparavam e salgavam os pirarucus, que acabavam sendo exportados para Portugal e lá eram vendidos como se fosse um autêntico bacalhau português. Esse tipo de engodo também era feito com ervas nativas e temperos da Floresta Amazônica e de outros biomas brasileiros, que eram processados e vendidos na Europa como “legítimas especiarias do oriente”. O próprio pau-brasil (Paubrasilia echinata, chamada antigamente de Caesalpina echinata), que foi explorado até praticamente o seu esgotamento na Mata Atlântica, é um “genérico” da espécie nativa do Sul e Sudeste da Ásia, o pau-brasil-da-Índia (Caesalpina sappam).

Os mais de mil rios que formam a gigantesca Bacia Amazônica concentram, segundo algumas estimativas, perto de 20% de toda a água doce do planeta e, é claro, abrigam uma fabulosa fauna aquática – mais de 2.100 espécies de peixes amazônicos já foram catalogadas pelos pesquisadores e há a certeza que ainda existem muitas espécies mais a serem descobertas. Esse ambiente de matas e águas da Floresta Amazônica apresenta todas as condições para a criação de peixes de alto valor comercial em cativeiro e em grandes quantidades. O pirarucu é uma das espécies que já vêm sendo criadas em cativeiro e com muito sucesso. 

O pirarucu é onívoro e come qualquer coisa que apareça na sua frente: peixes, crustáceos, vermes, insetos, anfíbios, cobras, filhotes de tartaruga, entre outras presas. O peixe também é um grande apreciador de frutas e castanhas que eventualmente apareçam boiando nas águas. Na época das chuvas – o famoso “inverno amazônico”, quando os grandes rios transbordam e avançam quilômetros floresta adentro, os pirarucus dão verdadeiros saltos acrobáticos para pegar frutas e castanhas que estejam acima das águas. 

Quando ainda está nas fases de alevino ou é jovem, o pirarucu se alimenta basicamente de plâncton, plantas e animais microscópicos nas comunidades bentônicas do leito dos rios ou que vivem livres nas águas, passando depois a comer pequenos peixes. É aqui que pode entrar na “equação” um outro animal tipicamente amazônico – o búfalo. 

Segundo algumas lendas correntes entre as populações ribeirinhas, especialmente da Ilha do Marajó, os búfalos chegaram à região devido ao naufrágio de um navio de transporte de animais que havia recém zarpado da Guiana Francesa. Para a EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, o responsável pela introdução dos animais na Amazônia brasileira tem nome e sobrenome: Vicente Chermont de Miranda, um criador que importou animais da raça Mediterrânea da Itália. Os primeiros búfalos desembarcaram na Ilha do Marajó em 1895. 

O búfalo doméstico (Bubalus bubalis) é originário das florestas tropicais do Sul e Sudeste da Ásia, onde as condições ambientais são muito parecidas com aquelas encontradas na Floresta Amazônica. De lá, a espécie foi introduzida na África, na Europa e depois nas Américas. Em uma outra postagem vamos falar especificamente sobre os búfalos da Amazônia. 

Na Ilha do Marajó e em outras localidades da Amazônia, os búfalos passaram a se sentir praticamente dentro do seu ambiente natural, encontrando fartura de alimentos e excelentes condições de vida. Segundo dados do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o rebanho de bubalinos no Brasil tem cerca de 1,6 milhão de cabeças, sendo que o Estado do Pará detém perto de 1 milhão de animais. Existem fontes que falam de um rebanho bem maior, na casa dos 3 milhões de cabeças. A maior parte desses rebanhos estão concentrado nas várzeas, campos naturais e em pastagens cultivadas em terra firme da ilha de Marajó e também no Baixo e Médio Amazonas,

De acordo com estudos aa EMBRAPA, a criação consorciada de búfalos e de pirarucus pode ser bastante interessante do ponto de vista econômico. Os dejetos dos búfalos lançados nas águas dos rios atuam como fertilizante para micro algas, alimento consumido por pequenos crustáceos, vermes, insetos e plâncton. Essas criaturas formam a base da cadeia alimentar dos rios, alimentando pequenos peixes, que por sua vez serão predados pelos pirarucus. Ou seja – os criadores não terão despesas com a alimentação dos pirarucus, bastando introduzir espécies de peixes sem valor comercial nos tanques de criação. 

Diferente de seus primos bovinos, que exigem pastos de boa qualidade em áreas secas durante todo o ano, os búfalos vivem “confortavelmente” nas áreas de várzea, consumindo a vegetação que encontra nesses locais. Há época da cheia dos rios, o ideal é que existam áreas mais altas com algum tipo de pastagem para que os animais mantenham o ritmo de engorda – algumas espécies de búfalo podem atingir o peso de 1,2 tonelada. 

Os bubalinos produzem carne e leite de ótima qualidade, consumidos principalmente na Região Norte do país. Porém, quando criados dentro das técnicas tradicionais em sistemas extensivos, ganham peso em um tempo bem maior que os bovinos. Um búfalo demora até 3 anos para atingir o peso ideal para o abate, que fica entre os 300 e os 350 kg – em bovinos esse peso é alcançado em apenas 2 anos. Os criadores amazônicos também sofrem com a falta de infraestrutura de transportes, o que encarece a produção e reduz as margens de lucro. 

Os pesquisadores da EMBRAPA já desenvolveram estudos para a produção intensiva de búfalos com sistemas de pastagens rotacionadas, conseguindo que os animais atinjam um peso de até 500 kg em apenas 18 meses, um feito que torna a criação de bubalinos até 4,5 vezes mais rentável que a criação de bovinos. Combinar essas técnicas modernas de manejo dos búfalos consorciada com a criação de pirarucus ou outras espécies de peixes amazônicos produziria enormes ganhos econômicos para os criadores e garantiria a sustentabilidade ambiental da produção. 

Além dos pirarucus, existe toda uma infinidade de espécies de peixes de alto valor comercial que são encontradas facilmente nos mercados da Região Amazônica e que, com toda a certeza, poderiam agradar o paladar de consumidores de todo o Brasil e do mundo. Muitas dessas espécies já são criadas em cativeiro. Vejam alguns poucos exemplos: 

Matrinxã (Brycon cephalus): Pode atingir até 80 cm de comprimento e um peso de 5 kg. Existem estudos para o seu uso como uma alternativa às sardinhas. É parente muito próximo das espécies piraputanga, pirapitinga, piracanjuba e piabanha;

Tambaqui (Colossoma macropomum): Peixe com uma carne saborosa e muito apreciado na culinária amazônica, que pode atingir até 40 kg de peso;  

Tucunaré (Cichla sp): Uma espécie que se reproduz facilmente em cativeiro e que atinge um peso entre 4 e 6 kg;  

Curimbatá ou curimatã (Prochilodus sp): É outra espécie que possui uma carne muito saborosa e que se adapta facilmente à produção em cativeiro. Encontrado também em outras bacias hidrográficas do Brasil; 

Piraíba, piratinga ou pirananbu (Brachyplatystoma filamentosum): Espécie que pode atingir até 2,5 metros de comprimento e peso de até 300 kg. Os espécimes mais jovens são chamados popularmente de “filhotes”. Na foto abaixo, eu apareço ao lado de um desses “filhotes” no Mercado Ver-o-Peso em Belém do Pará; 

Pirarara (Phractocephalus hemioliopterus): Espécie que pode atingir até 1,5 metro de comprimento e 60 kg de peso. Como os pirarucus, essa espécie é onívora e come qualquer coisa que cruzar o seu caminho. 

A piscicultura comercial em grande escala pode ser mais uma excelente alternativa econômica para o desenvolvimento sustentável da Amazônia. Como exemplo, gostaria de citar o caso da criação de salmões em cativeiro no Sul do Chile. Apesar dessa produção apresentar uma série de problemas ambientais devido principalmente a altíssima densidade de peixes nos tanques ou cercados de criação, as exportações de salmão já ocupam a terceira posição na pauta de exportações do Chile, só ficando atrás do cobre e das frutas. 

Precisamos estimular cada vez mais as pesquisas nessa área, buscando sempre o equilíbrio entre o meio ambiente, a economia e o desenvolvimento social das populações da nossa Amazônia

AMAZÔNIA SUSTENTÁVEL: PIRARUCU, O BACALHAU “GENÉRICO” DA BACIA AMAZÔNICA

A Amazônia é um mundo de matas e águas! 

A Floresta Amazônica tem uma área total de 5,4 milhões de km², ocupando terras na Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela, Suriname, Guiana e Guiana Francesa – mais de 60% da Floresta fica dentro do território brasileiro. A Bacia Amazônica ocupa uma área total de mais de 7 milhões de km², contando com mais de mil rios. Alguns desses rios, como o Madeira e o Negro, entram na lista dos 10 maiores rios do mundo. 

Especialistas calculam que 1/3 de todas as espécies vivas do planeta, animais e vegetais, vivam nesse imenso bioma. Se falando apenas em peixes, já se conhecem mais de 2.100 espécies na bacia hidrográfica e a descoberta de novas espécies é só uma questão de tempo. Entre esses peixes gostaria de destacar uma espécie em particular – o pirarucu, o maior peixe de escamas dos rios brasileiros e um dos maiores do mundo. 

O pirarucu (Arapaima gigas), também conhecido como arapaima ou peixe pirosca, pode atingir até 3,5 metros de comprimento e um peso de até 250 kg. O animal é um grande predador onívoro dos rios da Bacia Amazônica, se alimentando de peixes, caramujos, crustáceos, anfíbios, cágados e cobras, entre outros, de uma enorme lista de presas. Quando jovem, o pirarucu se alimenta basicamente de plâncton, plantas e animais microscópicos que vivem livres nas águas dos rios, passando depois a comer pequenos peixes e crustáceos. O peixe pode viver até 18 anos. 

Entre as muitas histórias que envolvem o pirarucu, uma das mais interessantes vem dos tempos do Brasil Colônia, quando os “piedosos” sacerdotes Jesuítas possuíam inúmeras fazendas na Região Amazônica e, entre muitos outros produtos, preparavam o pirarucu salgado. Até aí, nada de mais – em tempos quando não existiam equipamentos para a refrigeração dos alimentos, a salga era uma das melhores técnicas para a conservação de carnes e peixes. A questão é que os religiosos vendiam o pirarucu salgado nos mercados de Portugal como se fosse bacalhau. 

Relembrando rapidamente a história, a Amazônia fazia parte dos territórios da Coroa de Espanha segundo o Tratado de Tordesilhas, assinado em 1494. Os conquistadores espanhóis organizaram duas grandes expedições ao Grande Amazonas saindo do Peru com o objetivo de encontrar a lendária El Dorado, a cidade de ouro. A primeira dessas expedições teve início em 1541, sob o comando de Francisco de Orellana; a segunda data de 1559, sob o comando de Pedro de Úrsua. As duas expedições foram verdadeiros desastres e os espanhóis acabaram por desistir da Amazônia. Siga os links indicados no texto para ler os detalhes dessas sagas. 

Essa verdadeira “terra de ninguém” passou a ser invadida por franceses, holandeses, ingleses e alemães, entre outros povos, que buscavam conquistar o seu quinhão nas Américas. Após a unificação das Coroas de Portugal e Espanha a partir de 1580, os portugueses receberam um pedido dos espanhóis para que “cuidassem” da sua Amazônia. Tropas coloniais portuguesas começaram esse trabalho em 1615, expulsando os franceses que haviam se instalado no Maranhão e no Pará. Em 1616 foi fundado o Forte Presépio, embrião da cidade de Belém do Pará. No início da década de 1630, toda a região da foz do rio Amazonas, porta de entrada para o grande território Amazõnico, estava sob controle dos portugueses. 

Os primeiros sacerdotes Jesuítas chegaram na Amazônia junto com esses contingentes militares, com a missão de fazer o contato e a catequização dos indígenas. A estratégia usada pelos religiosos para a “conversão” dos indígenas em “vassalos úteis ao Reino e em bons cristãos” envolvia complexas mudanças no seu comportamento social, algo que as experiências realizadas em outras regiões do Brasil comprovaram ser impossíveis sem uma mudança para outros territórios. Os indígenas de tribos consideradas “mais dóceis” eram transferidos para aldeias conhecidas como Reduções Jesuíticas. Essas transferências ficaram conhecidas na história do país como descimentos.  

Nas aldeias, o trabalho dos religiosos começava com a eliminação do comportamento nômade dos indígenas, tradicionalmente habituados a mudanças frequentes em busca de novas áreas para a caça e a pesca, além de novas terras para a prática da sua agricultura de subsistência. Num segundo momento, os índios passavam a receber treinamento técnico e profissional para a realização de ofícios manuais úteis ao sistema colonial como carpintaria, construção civil, tecelagem, agricultura, entre outras funções. Por fim e não menos importante, o ensino religioso e a transformação dos antigos “selvagens pagãos” em bons cristãos, criando uma estrutura familiar baseada em novos valores éticos e religiosos. 

Com o passar do tempo, essas missões religiosas dos Jesuítas acabaram sendo transformadas em meros centros comerciais, dos quais a Companhia de Jesus (S. A. – grifo meu) auferia o melhor dos lucros e sobre os quais exercia grande domínio e soberania. As grandes fazendas, que foi no que se transformaram as missões, passaram a ser grandes produtoras de gêneros exportáveis de toda a ordem como açúcar, frutas, peixe salgado, tartarugas, madeiras e móveis.  

Os religiosos também descobriram uma infinidade de plantas amazônicas com características similares às das famosas “especiarias do Oriente”. Essas plantas, conhecidas como “drogas do sertão”, eram processadas e vendidas na Europa como “especiarias genéricas” legítimas. 

O saboroso pirarucu, é claro, não poderia ficar de fora dessa falcatrua. Grandes flotilhas de canoas com hábeis índios pescadores vasculhavam os rios da Amazônia em busca dos grandes peixes. Os pirarucus capturados eram então levados para as fazendas, onde eram limpos, cortados e salgados de forma a parecerem ao máximo com os bacalhaus vendidos nas cidades portuguesas. As peças de “bacalhau” eram embaladas em caixa de madeira e exportadas diretamente da Amazônia para Portugal.  

Existe ainda um pequeno detalhe nessa história – os jesuítas eram totalmente isentos do pagamento de impostos ou de qualquer taxa para a exportação dos seus produtos. Essas isenções fiscais dos religiosos passaram a criar atritos crescentes com os demais colonizadores. Em 1759, o Marquês de Pombal – Sebastião José de Carvalho e Mello, que era uma espécie de primeiro ministro de Portugal, determinou a expulsão dos Jesuítas de todos os territórios portugueses

Mesmo com o fim das fazendas dos Jesuítas, a captura dos pirarucus e a produção do “bacalhau” continuou aumentando, tornando o produto cada vez mais popular junto à crescente população da Amazônia. A superexploração do pirarucu tornou a espécie vulnerável e em risco de extinção em vários rios da Bacia Amazônica. Pirarucus de grande porte são cada vez mais raros na natureza. 

Felizmente, a criação de pirarucus em cativeiro na Amazônia vem crescendo, uma iniciativa que poderá ajudar a espécie a sair da lista de animais em risco. Com o aumento dessa produção, a antiga pesca predatória será gradativamente abandonada e a produção dos peixes poderá se tornar uma atividade sustentável, com grande potencial para a geração de trabalho e renda à população local. É possível que, dentro em breve, poderemos estar exportando o “legítimo bacalhau sustentável da Amazônia” para Portugal e outros países, desta vez, porém, sem qualquer tipo de enganação.

Na próxima postagem vamos falar da criação de pirarucus e de outras espécies de peixes amazônicos em cativeiro, e também das grandes oportunidades para a psicultura nos rios da bacia Amazônica.