OS PROBLEMAS AMBIENTAIS CRIADOS PELA EXPLORAÇÃO DO LÍTIO

Até algumas décadas atrás, nos tempos de nossos país e avós, a disponibilidade de aparelhos elétricos e eletrônicos nas casas era bem menor do que a que temos hoje. Aliás, boa parte das famílias brasileiras sequer dispunha de acesso à rede elétrica. Quem podia se dar a esse luxo dispunha em casa de alguns “bicos de luz”, um ferro elétrico e um rádio, entre outros raros eletrodomésticos. 

Eu lembro bem das férias de fim de ano no sítio dos meus avós em Lutécia, cidadezinha minúscula aqui do interior de São Paulo. Isso foi lá pelos idos da década de 1970. A iluminação noturna era feita com candeeiros a querosene e velas, banhos quentes só esquentando água no fogão a lenha e a única opção de lazer era um grande rádio alimentado a pilhas. Se ouvia a programação por uma ou duas horas ao dia, isso para não se gastar muito dinheiro comprando pilhas. 

Essa realidade mudou drasticamente em nossos dias. A maior parte da população do país já está conectada à rede elétrica nacional e o número de eletrodomésticos e de equipamentos eletrônicos aumentou exponencialmente. Destaco aqui os chamados eletro portáteis como celulares, laptops e tablets, aparelhos que são alimentados por baterias e que são recarregados através da rede elétricas das casas. 

A modernidade e a busca pela sustentabilidade ambiental também passaram a criar grandes espaços para veículos elétricos como uma alternativa aos veículos com motores a combustão interna. Falo aqui de carros, ônibus, caminhões, motocicletas e até de bicicletas elétricas. 

Além de ter resultado num grande aumento do consumo por energia elétrica per capita, essa grande profusão de aparelhos e equipamentos eletroeletrônicos também levou a uma gigantesca demanda por pilhas e baterias, o que, por sua vez, fez aumentar drasticamente o consumo de metais especiais como é o caso do lítio. 

O lítio é o metal mais leve que existe na natureza, possuindo uma densidade de cerca de 0,5 grama por centímetro cúbico. Graças a essa característica e a sua boa condutividade elétrica, o lítio passou a ser uma excelente opção para a fabricação de baterias.  

Para efeito de comparação: o chumbo, metal pesado muito utilizado na fabricação de baterias de automóveis, tem uma densidade de 11 gramas por centímetro cúbico. Além de ter um peso muito menor, uma bateria de lítio pode armazenar três vezes mais energia do que uma bateria fabricada com chumbo. 

Um exemplo prático: um carro da marca Tesla, um dos maiores fabricantes mundiais de veículos elétricos, utiliza um conjunto de baterias de lítio com cerca de 200 kg de peso. Se o mesmo veículo tivesse de usar baterias fabricadas com placas de chumbo, esse peso certamente passaria para algo entre 1,5 e 2 toneladas, algo que tornaria o veículo pesado demais e inviável tecnicamente. 

A produção de baterias de lítio ganhou força no início da década de 1990 e a demanda mundial anual pelo metal é da ordem de 450 mil toneladas. Segundo projeções da IEA – Agência Internacional de Energia, na sigla em inglês, o consumo de lítio deverá aumentar em mais de 40 vezes até o ano de 2040. 

As maiores reservas conhecidas do metal ficam na Bolívia, Chile e Argentina, numa região que ficou conhecida como o “triângulo do lítio”. Esse lítio é encontrado em uma salmoura rica em minerais que fica cerca de dez metros de profundidade sob os lagos salgados e salinas de altitude – os conhecidos “salares”. 

A extração é feita a partir de poços abertos na crosta de sal, de onde a salmoura é bombeada e depositada em tanques de decantação e de secagem natural, um processo que leva entre 15 e 18 meses. Ao final da secagem, os tanques apresentam uma lama salgada rica em manganês, potássio, bórax e sais de lítio. 

Essa produção é cheia de problemas, a começar pelo alto consumo de água – são necessários cerca de 2 milhões de litros de água para produzir uma tonelada de lítio. Nos salares do Deserto de Atacama no Norte do Chile, citando um exemplo, onde a precipitação anual é de apenas 15 milímetros, essa mineração consome 65% da água disponível na região. 

Outro grave problema é a poluição criada pelo uso de produtos químicos tóxicos para a separação do lítio de outros minerais. Um desses produtos é o ácido clorídrico, que além de poluir o ar pode contaminar as fontes de abastecimento de água. Também existe a geração de enormes volumes de rejeitos minerais.

O maior produtor mundial de lítio é a Austrália, onde o metal é encontrado impregnado em rochas chamadas pegmatitos. Esse tipo de rocha é similar ao granito, sendo formada basicamente por quartzo, feldspato alcalino, plagioclásio e minerais raros. As rochas são moídas e depois tratadas com produtos químicos para separar o lítio dos outros minerais. As reservas de lítio existentes aqui no Brasil são deste tipo. 

A China é, de longe, a maior consumidora mundial de lítio. Transformado em “fábrica do mundo” nas últimas décadas, o país produz a maior parte das pilhas e baterias que são usadas em equipamentos eletrônicos e veículos de todo o mundo. Cada uma dessas pilhas ou baterias fabricada deixou um enorme rastro de rejeitos minerais, resíduos químicos e de danos ambientais pelo caminho, além de muitos problemas sociais. 

Aqui temos uma profunda contradição: fontes geradores de energias renováveis como a eólica e a fotovoltaica dependem muito do uso de baterias para o armazenamento da eletricidade. Essas fontes, conforme já tratamos em postagens anteriores, são intermitentes: a força dos ventos varia muito ao longo de um dia e também ao longo das diferentes estações do ano. A luz solar só está disponível durante o dia. 

Muito da sustentabilidade ambiental que defendemos e da modernidade e comodidade criada pelos nossos aparelhos eletro portáteis depende da mineração suja e poluente do lítio usado na fabricação das baterias. Ou seja – é uma conta que não fecha dentro de contabilidade ambiental. 

TIGRE E EUFRATES: A AGONIA DE DOIS RIOS NO BERÇO DA CIVILIZAÇÃO

Dentro da nossa tradição religiosa judaico-cristã, Deus fez um “paraíso na terra” logo depois de criar o homem e a mulher. Esse lugar foi chamado de Jardim do Éden, onde o Criador proveria moradia e todas as necessidades materiais para a nascente humanidade. 

A descrição dos livros sagrados dessas religiões – a bíblia cristã por exemplo, deixa muito clara a localização desse paraíso: uma terra entre as águas dos rios Tigre e Eufrates, dentro do atual território do Iraque. Nos séculos seguintes, essa região passou a ser conhecida no Ocidente com o nome de Mesopotâmia, palavra composta de origem grega que significa, literalmente, “terra entre rios“.  

Segundo inúmeras evidências arqueológicas, essa região foi ocupada por volta do 7° milênio a.C. pelos primeiros agrupamentos humanos civilizados. As linhas de pesquisa apontam que a agricultura em larga escala começou a ser desenvolvida nas terras férteis do Sul a partir do 5° milênio a.C., inclusive com o uso de sistemas de irrigação.  

Com a fartura de águas oferecidas pelos rios Tigre e Eufrates, a Mesopotâmia rapidamente se transformou num dos celeiros do mundo antigo, recebendo, em conjunto com o Vale do rio Nilo, o nome de Crescente Fértil.  

Sucessivas civilizações floresceram nessas terras: sumérios, acadianos, caldeus, babilônicos e assírios. Grandes impérios como o dos medos, dos persas e os antigos gregos, entre outros, não pouparam esforços para conquistar a região. A Mesopotâmia sempre foi uma região rica, disputada e instável. 

Nos dias atuais, a outrora rica Mesopotâmia é apenas uma sombra do que foi no passado. Depois de décadas de uma ditadura sanguinária e de uma sucessão de conflitos, primeiro com potências estrangeiras e atualmente entre diferentes grupos em busca do poder, o atual Iraque é o mais completo símbolo da decadência. Na vizinha Síria, a população está convivendo há mais de dez anos com uma sangrenta guerra civil.

Uma das maiores expressões dessa decadência pode ser vista na degradação dos históricos rios Tigre e Eufrates, que compõem uma única bacia hidrográfica e que apresentam águas cada vez mais poluídas e com caudais cada vez mais reduzidos. Além de sofrer com os efeitos do forte calor e de uma grave seca regional, esses rios tem suas águas cada vez mais disputadas pelos países que formam a sua grande bacia hidrográfica: Turquia, Síria e Iraque. 

Com aproximadamente 1.900 km de extensão, o rio Tigre tem suas nascentes na região dos Montes Tauro, na Turquia, país que está se aproveitando da guerra civil na Síria e da instabilidade política do Iraque para explorar ao máximo as suas águas. 

Além de autorizar a construção de cerca de 150 pequenas barragens e açudes em pequenos afluentes do rio e de ter planos para a construção de outras 1.700 outras estruturas para o armazenamento das águas, a Turquia inaugurou no final de 2021, a polêmica barragem Ilisu (vide foto). Além de ser o maior reservatório de água do rio Tigre, a hidrelétrica instalada na estrutura deverá responder por cerca de 4% de toda a energia elétrica gerada no país. 

A grandiosa obra forçou o deslocamento de cerca de 100 mil pessoas, principalmente de etnia curda, que viviam em cerca de 200 aldeias e pequenas cidades. O investimento consumiu o equivalente a 750 milhões de Euros e provocou o alagamento de um trecho de 136 km do rio Tigre e a formação de um lago com 313 km2. A hidrelétrica possui uma capacidade de geração de 1,2 GW. 

A situação do rio Eufrates não é muito diferente – a Turquia construiu mais de 20 represas na calha do rio dentro do seu território sem maiores consultas ou preocupações com as necessidades hídricas dos seus vizinhos. O rio Eufrates, que tem um comprimento total de 2.800 km, tem suas nascentes dentro de áreas montanhosas do Leste turco e corre por mais de 1.200 dentro do território do país. 

Como consequência direta desse grande aproveitamento das águas no trecho turco da bacia hidrográfica, apenas 1/3 dos caudais dos rios Tigre e Eufrates estão chegando ao território da Síria e do Iraque quando comparada às vazões históricas. Um exemplo prático dos problemas – o trecho outrora caudaloso do rio Tigre na altura da cidade de Bagdá, capital do Iraque, agora pode ser facilmente atravessado a pé com, no máximo, água até a cintura. 

A baixa vazão também está comprometendo todo o trecho final da bacia hidrográfica. Os rios Tigre e Eufrates se encontram na altura da cidade de Al Qurna, no Sul do Iraque, formando o canal de Xatalárabe, rio que corre por cerca de 200 km até encontrar sua foz no Golfo Pérsico. Com a redução drástica dos caudais, grande parte do trecho final do rio está sendo salinizado por causa da invasão das águas do oceano. 

A disponibilidade de água é agravada pelos grandes desperdícios nos usos na agricultura. Os produtores locais se valem de antigas técnicas de irrigação por alagamento, um dos métodos que mais desperdiçam água devido aos grandes volumes evaporados por causa do forte calor. 

A região onde fica localizada a bacia hidrográfica dos rios Tigre e Eufrates possui um clima temperado de deserto, com temperaturas máximas e mínimas extremas. No pico do inverno os termômetros podem chegar próximo a -20° C nas áreas montanhosas e no verão chegam facilmente aos 50° C nos trechos dos desertos, o que nos dá uma ideia das perdas de água por evaporação. 

Dentro dos climas desértico e semiárido que predominam na região, as águas dos rios Tigre e Eufrates são, de longe, as mais importantes fontes para o abastecimento de populações, dessedentação de rebanhos e insumo para a produção agrícola. O desequilíbrio no uso por parte da Turquia, a poluição das águas, especialmente no Iraque, e a salinização no baixo curso da bacia hidrográfica ameaçam a sobrevivência de mais de 40 milhões de pessoas. 

Todos esses problemas ainda estão sendo agravados pelo aquecimento global. Conforme já tratamos em postagem anterior, estudos feitos pelo Instituto Max Planck de Química e do Centro de Pesquisa do Clima e Atmosfera do Instituto Chipre sugerem que o Oriente Médio, região onde está inserida a bacia hidrográfica dos rios Tigre e Eufrates, e o Mediterrâneo Oriental poderão sofrer um aumento de temperaturas de 5° C ou mais até o final do século.   

Ou seja – nas próximas décadas assistiremos uma redução gradativa dos volumes de chuvas e de precipitação de neve nas cadeias montanhosas de toda a região da bacia hidrográfica, o que resultará em caudais ainda menores nas calhas dos rios e disputas cada vez mais ferrenhas pelos direitos de uso da água, inclusive com o uso de forças militares.  

E a histórica e ancestral Mesopotâmia, um dos mais antigos berços da civilização humana, poderá ficar inabitável num futuro muito próximo. Quanta ironia!

ESTUDO MOSTRA AS MUDANÇAS NO CARREAMENTO DE SEDIMENTOS PELOS RIOS AO LONGO DE 40 ANOS 

Sedimentos são partículas sólidas que através de um processo físico ou químico desprendem-se das rochas. Essas partículas podem ficar acumuladas no solo ou podem ser transportadas a longas distâncias pelos ventos e, especialmente pelas águas. Dependendo do diâmetro, essas partículas são chamadas de argila, silte e areia. 

Pelas suas características dinâmicas, os rios são importantes produtores de sedimentos, que são formados por processos de erosão das rochas, e são também ótimos carreadores desses sedimentos. Os rios também recebem grandes volumes de sedimentos que são carreados pelas águas das chuvas que caem dentro de sua bacia hidrográfica.  

Além de partículas minerais, as águas das chuvas também arrastam grandes volumes de matéria orgânica, nutrientes que alimentam plantas e outras espécies da fauna aquática e que formam também a base da cadeia alimentar dos rios. Nos períodos das cheias, tanto os sedimentos minerais quanto a matéria orgânica são espalhados ao longo das margens dos rios e áreas de várzea, criando importantes áreas de terras altamente férteis. Um grande exemplo são as áreas deltaicas como são os casos do delta do rio Ganges, que se estende entre a Índia e Bangladesh, e o delta do rio Mekong no Vietnã.

Um ótimo exemplo histórico que mostra a importância das cheias dos rios e do carreamento de sedimentos férteis é o rio Nilo, berço da civilização egípcia. Com uma extensão de mais de 6.600 km, o Nilo disputa com o Amazonas o título de rio mais longo do mundo – no quesito volume total de água, o rio Amazonas é campeão incontestável. 

As nascentes do rio Nilo ficam dentro de áreas cobertas por floresta tropical no Centro-Oeste da África, região servida por uma temporada de abundantes chuvas. Grande parte da bacia hidrográfica do rio Nilo, entretanto, é formada pelos grandes desertos do Sudão e do Egito. 

A temporada das chuvas na região das nascentes do rio Nilo cria todos os anos um importante período de cheia no rio, com impactos em toda a bacia hidrográfica. Essas cheias carreiam grandes volumes de sedimentos minerais e nutrientes orgânicos. Quando as águas retrocedem, as margens do rio ficam cobertas com uma grossa camada de solo nutritivo, o que foi a chave do sucesso da agricultura no antigo Egito durante milhares de anos. 

Essa verdadeira dádiva da natureza perdurou até meados da década de 1960, época em que o Governo do Egito iniciou as obras da Represa de Assuã, estrutura destinado ao controle das cheias do rio e também para a geração de energia numa usina hidrelétrica. Com a interrupção do fluxo natural do rio Nilo, o volume de sedimentos diminui drasticamente – a atual agricultura do país se tornou altamente dependente do uso de fertilizantes químicos desde então. 

O caso extremo do rio Nilo não é, nem de longe, um caso isolado. Um estudo feito pela Universidade Dartmouth dos Estados Unidos e publicado pela revista Science mostrou que as ações humanas estão causando alterações sem precedentes no transporte de sedimentos dos rios. 

Abrangendo o período entre 1984 e 2020, o estudo utilizou imagens de satélites da NASA – Administração Nacional de Aeronáutica e Espaço dos Estados Unidos, e também dados do fluxo de 414 grandes rios do mundo. Essa análise permitiu uma avaliação completa dos volumes de sedimentos carreados pelos rios na direção dos oceanos. 

Entre as principais conclusões desse grande estudo destacam-se os grandes impactos que foram criados pela construção de barragens, especialmente em países do Hemisfério Norte. A exemplo do que ocorreu no rio Nilo devido a construção da Represa de Assuã, essas construções reduziram substancialmente o volume de sedimentos carreados pelas águas – essa redução foi de 49% em relação às condições pré-barragens

Em países subdesenvolvidos ou em vias de desenvolvimento, especialmente no Hemisfério Sul, o volume de sedimentos transportados pelos rios aumentou cerca de 36%. A grande perda de áreas florestais por desmatamentos ou queimadas e o uso inadequado dos solos pela agricultura destacam-se como principais fontes do problema. A erosão de solos é um dos maiores males criados pela agricultura. 

De acordo com dados da CNUCD – Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação, calcula-se que as perdas mundiais de solo fértil, especialmente por erosão, são da ordem de 24 bilhões de toneladas a cada ano. Essa perda corresponde a uma área equivalente a 12 milhões de hectares ou três vezes a área da Suíça. Todo esse volume de sedimentos acaba dentro da calha dos rios

Tanto a redução do volume de sedimentos quanto o seu excesso são prejudicais ao meio ambiente. A falta de sedimentos, conforme comentamos no início do texto, prejudica a fauna e a flora aquática, além de prejudicar ou, até mesmo, inviabilizar a produção agrícola nas margens e nas várzeas. 

O excesso de sedimentos provoca o assoreamento dos canais, problema que provoca inundações, interrupção da navegação fluvial, dificuldades para a captação de água por sistemas de abastecimento de populações e/ou de irrigação, prejuízos a flora e a fauna aquática, entre inúmeros outros problemas. 

É importante ressaltar que todos esses problemas nos rios não têm nenhuma relação com as tão faladas mudanças climáticas globais e de seus impactos ao meio ambiente. Falamos aqui da má gestão dos recursos naturais e de erros no planejamento e execução de grandes obras de barragens de represas e de usinas hidrelétricas. 

As mudanças climáticas poderão sim amplificar esses problemas, seja pela redução do volume de chuvas em algumas regiões ou pelo aumento das mesmas em outros lugares.  

Ou seja – o que já está ruim poderá ficar ainda pior… 

TUFÃO NANMADOL ATINGE O SUDOESTE DO JAPÃO

O olho do tufão Nanmadol atingiu a ilha de Kyoshu, a maior do extremo Sul do arquipélago do Japão, no início da manhã deste domingo, dia 18 de setembro. De acordo com as informações já transmitidas pela imprensa foram registrada chuvas torrenciais e ventos com velocidade acima de 240 km/h. 

Cerca de 20 mil pessoas foram transferidas para abrigos e mais de 7 milhões de habitantes da região receberam orientação para buscar locais mais seguros. Ao menos 340 mil residências estão sem o fornecimento de energia elétrica e outros serviços. Os serviços de emergência já contabilizaram 60 feridos. 

A JMA – Agência Meteorológica do Japão, na sigla em inglês, já vinha emitindo sucessivos alertas de chuvas fortes, ventos recordes e riscos de enchentes há vários dias. Nanmadol é o 14 tufão da atual temporada e está sendo considerado um dos mais fortes. A tempestade deverá atingir a região de Tóquio na terça-feira, dia 20 de setembro. 

O Japão convive há vários séculos com os tufões e possui uma das melhores infraestruturas de emergência para lidar com esse tipo de evento climático. Mesmo assim, as autoridades estão temerosas quanto a intensidade do Nanmadol, cujas chuvas poderão atingir áreas consideradas seguras do país. 

Os meteorologistas esperam chuvas da ordem de 400 mm para o Sul da ilha Kyoshu e de cerca de 300 mm para a região central de Tokai apenas nas primeiras 24 horas. Essas condições meteorológicas são inéditas no país e preocupam os especialistas. 

Todas as atividades não essenciais em indústrias, no comércio e em prestadores de serviços foram suspensas na região. Também foram interrompidos os serviços de transporte nos trens regionais e nas rotas marítimas, além do cancelamento de cerca de 500 voos. 

Tufões são ciclones tropicais que se desenvolvem entre as latitudes 180° e 100° no Hemisfério Norte, região conhecida Bacia do Noroeste do Pacífico. Essa região concentra perto de 1/3 de todos os ciclones tropicais do planeta e é considerada a mais ativa da Terra

Assim como acontece com os furacões, nome que é usado para designar esses eventos climáticos no Oceano Atlântico e em outras regiões do globo, os tufões resultam da combinação de altas temperaturas na superfície do mar, da instabilidade atmosférica, da alta umidade nos níveis mais baixos e intermediários da atmosfera e do efeito Coriolis (criado pela rotação do planeta), entre muitos outros. 

A região do Noroeste do Oceano Pacífico é pródiga em oferecer essas condições meteorológicas e por isso é frequentemente assolada por ciclones tropicais numerosos e intensos. Esses ciclones costumam ser dirigidos para as direções Oeste e Noroeste, atingindo com mais intensidade o Sul da China, Taiwan, Japão e Filipinas. 

Registros históricos de mais de mil anos mostram que o Sul da China foi a região mais impactada pelos tufões mais mortíferos já registrados. Esses mesmos registros mostram que a ilha de Taiwan recebeu o tufão mais chuvoso já registrado na história. 

Diferentemente do que acontece com os furacões que atingem o Oceano Atlântico e que são batizados com nomes de pessoas em ordem alfabética, os tufões do Oceano Pacífico recebem majoritariamente nomes de animais, de flores e de símbolos astrológicos. Esses nomes são sugeridos em listas pelos diferentes países afetados pelas tempestades na região. 

Apesar da convivência milenar com esses fenômenos naturais, o que moldou desde as culturas até a arquitetura de muitos povos da região, existe uma preocupação generalizada quanto a um aumento da frequência e da intensidade dos tufões por causa do aquecimento global. 

Estudos publicados pela revista científica Science correlacionaram o aumento da intensidade dos tufões nas últimas quatro décadas com o aumento das temperaturas do planeta, ou seja, quanto mais altas as temperaturas maiores e mais frequentes são os tufões. 

Estudos realizados por cientistas da Universidade da Califórnia, citando um exemplo, analisaram a intensidade de uma série de tufões a partir de 1951 e comparam com os dados com a elevação das temperaturas da superfície do Oceano Pacífico. 

Entre as décadas de 1950 e de1970, tanto as temperaturas das águas quanto a intensidade dos tufões se mantiveram constantes. Em anos mais recentes, quanto o aumento das temperaturas em todo o planeta por causa das mudanças climáticas ficaram mais evidentes, passou a se observar também um aumento da intensidade dos tufões. 

De acordo com os dados apurados, a intensidade dos tufões sofreu um aumento de 30% desde 1971 – as projeções indicam que poderá haver um aumento dessa intensidade de mais 15% até o final deste século. Dada a magnitude e ao rastro de destruição deixados desses eventos, esses são números preocupantes. 

Além de afetar atividades econômicas como a pesca, a agricultura, a indústria e os transportes – especialmente os importantes serviços de transporte marítimo, os tufões são uma ameaça real para as populações. Além das fortíssimas rajadas de ventos, que causam desabamentos de construções e quedas de árvores, os tufões provocam tempestades torrenciais onde existem riscos de grandes inundações e deslizamentos de encostas. 

Um exemplo da fúria destas tempestades foi o rastro deixado pelo Tufão Rai nas Filipinas no final de 2021. Foram mais de 370 mortos, 500 feridos e cerca de 60 pessoas desaparecidas. Milhares de casas foram destruídas e centenas de cidades e vilas ficaram isoladas devido a alagamentos em estradas e desmoronamentos de encostas. Em 2013, o país foi devastado pelo super tufão Haiyan, a maior tragédia já registrada nas Filipinas e que deixou um saldo de 7,3 mil mortos. 

Ao longo das próximas horas vamos receber maiores informações sobre os estragos causados pelo Nanmadol no Japão, sempre torcendo sempre por boas notícias ou, no mínimo, por notícias menos trágicas.

CHARLES III, O REI ECOLOGISTA

Os cidadãos britânicos e a grande maioria das pessoas “civilizadas” do mundo (faço a ressalva por que muitos socialistas estão comemorando o fato) estão em luto devido a morte da rainha Elizabeth II do Reino Unido, ocorrida no último dia 8 de setembro. Seu reinado de 70 anos foi o mais longo de toda a história da monarquia britânica. 

Com a morte da monarca assume o trono seu filho primogênito, o polêmico e pouco carismático Charles Philip Arthur George, agora oficialmente conhecido como Rei Charles III. Antes de ascender ao trono do Reino Unido, Charles dividia a opinião dos seus súditos – pesquisa feita em 2019 indicou que 46% dos britânicos preferia sua abdicação ao trono em favor do príncipe Willian. 

Problemas políticos e de relacionamentos a parte, gostaria de enfocar num aspecto interessante de Charles III – há mais de 50 anos, o agora rei é um ferrenho ecologista e defensor de causas ligadas ao meio ambiente. Aliás, entre muitos outros cargos honoríficos, ele é presidente da organização ambientalista WWF-UK desde 2011, cargo que foi ocupado por seu pai, príncipe Philip, entre 1981 e 1996. 

Um exemplo das preocupações ambientais do monarca – há mais de 50 anos que ele vem utilizando um carro da tradicional marca inglesa Aston Martin, cujo motor foi modificado para usar um biocombustível elaborado a partir de excedentes de vinho branco e soro de leite da fabricação de queijo. Esse biocombustível é aditivado com 15% de gasolina sem chumbo. 

O primeiro evento público onde o então Príncipe de Gales discursou sobre suas preocupações ambientais foi em 1970, quando fez um “alerta para todos os aspectos do meio ambiente“. A partir de então, seu envolvimento em causas ambientais só fez crescer. 

A imagem de monarca envolvido em questões ambientais foi reforçada ao longo dos anos com a participação do Príncipe de Gales em inúmeros eventos plantando árvores, flores ou ainda exibindo vegetais e frutas orgânicas produzidas em uma das suas muitas propriedades. Charles também fez visitas a muitas áreas de grande importância ecológica como os manguezais das Ilhas São Vicente e Granadinas, no Caribe. 

Na COP26 – Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças no Clima, que foi realizada em novembro de 2021, em Glasgow na Escócia, o Príncipe de Gales fez o discurso de abertura dos trabalhos. Ele pediu aos líderes globais um aumento dos esforços no combate o aquecimento global, afirmando que “o tempo literalmente acabou”. 

Agora, que os tempos do “eterno” Príncipe de Gales ficaram para trás e passamos ao reinado do Rei Charles III, vamos ver quais serão as medidas efetivas que serão tomadas pelo monarca na área ambiental. Aqui é preciso ressaltar que, dentro de estrutura de Governo Monarquista Parlamentarista da Grã Bretanha, os poderes do soberano são bastante limitados. 

Mesmo sem contar com o poder da caneta do Primeiro-ministro britânico, o Rei Charles tem poder moral para fazer muita coisa. Para começar, seria bem interessante que seus esforços começassem pela agricultura do Reino Unido, que atualmente está cheia de problemas. Pode até não aparentar a princípio, mas o soberano tem uma forte ligação com essa área. 

Como herdeiro da Coroa do Reino Unido, Charles é herdeiro do Ducado da Cornualha (soa melhor em inglês – Cornwall), uma enorme extensão de terras que engloba grande parte do Sul e do Sudoeste da Inglaterra. Esse Condado foi criado em 1337 para gerar rendas para o herdeiro real. Todas as propriedades urbanas e rurais dessa região são obrigadas a pagar um imposto anual ao nobre, uma tradição medieval ainda em uso no Reino Unido. 

De acordo com diversas reportagens publicadas nos últimos dias, o Rei Charles recebeu cerca de 21,6 milhões de libras esterlinas geradas por esses impostos no ano de 2021. Convertido em Real, falamos aqui de R$ 117 milhões, sendo que a maior parte desses recursos veio de fazendas e propriedades na área rural. 

Entre outros inúmeros problemas, a agricultura do Reino Unido é famosa por utilizar fartamente a mão de obra de imigrantes estrangeiros (algumas fontes afirmam que 98% desses trabalhadores são estrangeiros), onde parte considerável está em situação ilegal, trabalhando em condições deploráveis e em troca de baixíssimos salários. Essa questão nunca chamou muito a atenção dos britânicos, que em sua imensa maioria vivem nas áreas urbanas.  

Porém, com a chegada do Brexit, a saída do Reino Unido da União Europeia em 2020, a questão começou a se tornar extremamente problemática. Muitos dos estrangeiros que trabalhavam na agricultura dos países que formam o Reino Unido vinham de países do Leste Europeu e se valiam das políticas de livre circulação e de trabalho do bloco. 

Com a saída do Reino Unido da União Europeia todas as facilidades trabalhistas para esses estrangeiros foram encerradas. A situação piorou logo depois com o início da pandemia da Covid-19 e introdução de uma série de medidas que coibiam a circulação de pessoas. Trabalhadores em situação irregular foram obrigados a sair do Reino Unido e a voltar para os seus países de origem. 

Durante os primeiros meses da pandemia, faltaram braços para colher frutas, legumes e verduras nas fazendas locais. A situação foi agravada pela falta de mais de 120 mil motoristas de caminhões em todo o Reino Unido, classe também formada em grande parte por imigrantes (legais e ilegais) de países do Leste Europeu. 

Mesmo não tendo responsabilidade legal direta por toda essa série de problemas de mão de obra na agricultura, o agora Rei Charles III sempre foi bastante beneficiado com a arrecadação dos impostos dos produtores rurais – moralmente, ele tem “alguma culpa no cartório”, como costumamos falar aqui no meu bairro. 

As atividades agrícolas também são grandes emissoras de gases de efeito estufa, que são os maiores responsáveis pelo aquecimento global. Muitos países europeus, inclusive, estão tomando uma série de medidas para reduzir essas emissões. Será que o Reino Unido, agora sob “nova direção”, vai seguir o exemplo de países como a Holanda e forçar seus agricultores a reduzir drasticamente as suas emissões? 

Como sempre comentamos nas postagens aqui do blog, é muito fácil para os Governantes e líderes de muitos países da Europa falar das queimadas e da destruição da Floresta Amazônica, jogando a maior parte da responsabilidade do aquecimento global em nossas costas. Já as pesadas emissões feitas por lá desde meados do século XVIII, início da Revolução Industrial, isso sempre é deixado de lado. 

Desejamos vida longa ao novo Rei e esperamos que as suas antigas manifestações espetaculosas e preocupações ambientais agora se transformem em políticas de Estado do Reino Unido. A dupla moral de muitos líderes mundiais já passou dos limites.

MEDIDA APROVADA NO PARLAMENTO EUROPEU RESTRINGE A COMPRA DE COMMODITIES PRODUZIDAS EM ÁREAS DESMATADAS

Para espanto de ninguém com um mínimo de conhecimento dos problemas ambientais, o Parlamento Europeu acaba de aprovar medidas que restringem a importação de commodities agropecuárias provenientes de regiões desmatadas. Entre outros itens, essa lista inclui grãos como a soja e o milho, proteína animal, óleos vegetais e madeiras. 

Para muitos ambientalistas, artistas e famosos, essa medida tem como endereço certo o Brasil, país que vem sendo acusado, com algum fundo de verdade, de devastar trechos da Floresta Amazônica como forma de ampliar as áreas de produção agrícola e as pastagens para a criação de gado. 

Essa medida foi aprovada no último dia 13 de setembro e afeta todas as importações de produtos que tenham relação com áreas de desmatamento. A partir de agora, os importadores precisão comprovar o local de origem de produtos como a carne bovina, a soja e o óleo de palma

É interessante se observar que a resolução dá uma verdadeira “colher de chá” para os produtores rurais – as áreas de produção não podem ter passado por processos de desmatamento após dezembro de 2021. Muitas áreas de produção que ficam dentro do bioma Amazônico e em outras áreas florestais sensíveis pelo mundo a fora acabarão sendo beneficiadas por essa verdadeira anistia. 

A destruição de florestas tropicais – destaque para a Floresta Amazônica, com fins de ampliação de áreas agrícolas e pecuárias, além da exploração da madeira e atividades de mineração, vem sendo alvo da fúria de parlamentares europeus já há muitos anos. É por isso que a aprovação dessa medida não surpreendeu quase ninguém. 

Na visão da Comissão Europeia essa medida é positiva sob dois aspectos. Em primeiro lugar por que ela reduz os impactos dos consumidores europeus em termos de emissão de gases de efeito estufa. De acordo com estudos da União Europeia, os consumidores europeus são responsáveis, direta e indiretamente, por 10% do desmatamento global. Esse impacto é gerado pelas importações de commodities e produtos de países que desmatam

Em segundo lugar, essa medida ajuda e valoriza os países que protegem as suas florestas, incentivando-os a aumentar cada vez mais seus esforços para a preservação do meio ambiente. Ou seja – a medida visa garantir a sustentabilidade da agricultura e da pecuária no longo prazo. 

Conforme já tratamos em inúmeras postagens anteriores, o Brasil vem sendo acusado sistematicamente de sustentar o crescimento vertiginoso de sua produção agrícola e pecuária pelo desmatamento da Floresta Amazônica. Para grande parte dos consumidores europeus, que não conhecem quase nada da geografia de nosso país, a Amazônia é o bioma predominante em nosso território. 

Essa desinformação é usada com bastante competência pelas associações de produtores rurais de muitos países do bloco europeu, com destaque para a França e a Irlanda, com o objetivo de barrar as importações de produtos agropecuários brasileiros muito mais baratos e de ótima qualidade. 

A agropecuária desses países é fortemente subsidiada tanto por recursos financeiros dos países quanto oriundos da Comissão Europeia. Essa estrutura acaba prejudicando a busca por uma maior eficiência e produtividade por parte dos produtores rurais. 

Um exemplo que sempre me chamou a atenção são os baixíssimos preços dos vinhos em países como a França e a Itália. Em qualquer mercado ou adega nesses países pode-se comprar excelentes vinhos por menos de 10 Euros. Qualquer um que conheça toda a cadeia de produção do vinho sabe que esses valores (onde também se incluem os impostos, os custos de transporte e a margem de lucro dos revendedores) são irreais. 

Outro exemplo que podemos citar é o caso da Irlanda, maior produtor e exportador de carne bovina da Europa. Costuma-se dizer que existem mais bois do que gente no país, onde vivem menos de 5 milhões de pessoas e mais de 7 milhões de bovinos. Como é que a pecuária local poderá fazer frente a um país do tamanho do Brasil, que possui um rebanho com mais de 215 milhões de cabeças e um clima muito mais favorável? 

A resposta não é muito difícil de se encontrar – os produtores de carne do país contam com pesados subsídios governamentais e também com um forte lobby no Parlamento Europeu. Entre outras lutas, os produtores rurais da Irlanda e da França são os que se opõem de forma mais ferrenha a assinatura de um acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia. 

Essa medida, coincidência ou não, chega em um momento de forte escassez de alimentos em todo o mundo. Conforme temos tratado em diversas postagens aqui do blog, importantes produtores agropecuários estão sofrendo bastante com adversidades climáticas. Destaco aqui os países do Hemisfério Norte, em especial os Estados Unidos, a China e países da Europa. Também é preciso citar os impactos do conflito entre a Rússia e a Ucrânia.

Fortes ondas de calor e seca estão ameaçando a produção de importantes commodities como a soja e o milho. Parte desses grãos é usado na produção de ração para animais, o que implica numa redução da oferta de proteínas animais. Em meio a essa escassez, o Brasil vem se destacando cada vez mais como um importante celeiro agrícola e produtor de proteínas animais. 

A situação está chegando a tal ponto que a União Europeia resolveu acelerar as tratativas do acordo comercial com o Mercosul, bloco que inclui Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, todos importantes produtores agropecuários. O avanço dessas negociações estava travado há vários anos por pressão de alguns países como a França e a Irlanda. 

Com a adoção de medidas que impeçam a entrada de commodities agropecuárias originárias de áreas de desmatamento, os parlamentares europeus resolvem os problemas de escassez de produtos ao mesmo tempo em que dão uma satisfação adequada aos seus eleitores/consumidores – a Europa não vai mais aceitar a “importação de desmatamentos”. 

Apesar de muitos produtores brasileiros já estarem reclamando dessa medida, ela será bastante benéfica para quem trabalho sério e respeita a legislação ambiental aqui do Brasil. Só para lembrar – o nosso Código Florestal estabelece a preservação de matas nativas da ordem de 20%, 50% e 80% nas propriedades rurais localizadas, respectivamente, nos biomas Mata Atlântica, Cerrado e Amazônia

Quem estiver seguindo a legislação em vigor, que é uma das mais restritivas do mundo, não terá maiores problemas para exportar a sua produção para a Europa. 

CHUVAS FORTES ATINGEM O SUL DA CALIFÓRNIA

Em uma raríssima ocorrência meteorológica, a tempestade tropical Kay trouxe muito vento e fortes chuvas para o Sul do Estado norte-americano da Califórnia, região que vem convivendo com uma forte seca há mais de duas décadas. As chuvas também atingiram a região Oeste do Arizona, Estado vizinho. 

A tempestade tropical Kay se formou sobre o Mar do Caribe no início do mês de setembro, evoluindo depois para um furacão da classe 2. De acordo com informações do Servico Nacional de Meteorologia do México, Kay provocou chuvas torrenciais nas regiões de Nayarit, Jalisco, Colima, Michoacán, Puebla e Oaxaca. Após enfraquecer para um furacão classe 1, Kay se deslocou para a região da Baja Califórnia, na costa Oeste do México, onde passou a ser classificada como uma tempestade tropical. 

Mesmo enfraquecida, a tempestade Kay ainda provocou fortes ventos e influenciou a formação de fortes chuvas numa faixa mais ao norte. As únicas vezes em que uma tempestade tropical provocou efeitos semelhantes na região foram em 1939, quando uma tempestade atingiu Long Beach, e em 1976, quando a tempestade tropical Kathleen, trouxe chuvas recordes de 400 mm para a Califórnia. 

O serviço local de meteorologia chegou a registrar ventos com rajadas de até 170 km/h em terrenos mais altos do sul da Califórnia, como foi o caso de Cuyamaca Peak a leste da cidade de San Diego. Esses ventos derrubaram muitas árvores, postes e linhas de transmissão de energia elétrica. 

As autoridades estaduais temiam a formação de fortes enxurradas de água e lama, o que felizmente foi bastante limitado. Depois de anos sucessivos de seca e ainda com a ocorrência de inúmeros incêndios florestais, os solos de grande parte da região estão muito ressecados, característica que dificuldade a absorção de água e favorece a formação de caudais superficiais. 

Apesar de todos os transtornos que sempre provocam, as fortes chuvas dos últimos dias ajudaram a conter vários incêndios florestais que estão ocorrendo no Sul da Califórnia. Um desses casos foi o do Fairview, um incêndio que já consumiu cerca de 14 mil hectares de matas. De acordo com os bombeiros, as chuvas e a grande umidade ajudaram a conter 43% do incêndio. 

Em um comunicado à imprensa, o Cal Fire – Departamento de Florestas e Proteção contra Incêndios da Califórnia, afirmou que “a atividade do fogo foi bastante reduzida devido à umidade da tempestade tropical Kay”. Aqui vale lembrar que o Estado da Califórnia vem enfrentando sucessivas ondas de incêndios florestais nos últimos anos. 

De acordo com balanço feito pelas autoridades do Estado no início do verão, 93% do território da Califórnia enfrenta uma condição de seca severa, situação que favorece muito a formação de grandes incêndios florestais. Em 2021, os incêndios destruíram mais de 1 milhão de hectares de florestas na Califórnia, uma área equivalente à do Estado de Connecticut. 

A mesma situação se repete em todo o Meio-Oeste dos Estados Unidos, especialmente no Arkansas, Colorado e Novo México, Estado onde a situação é particularmente grave – metade dos 33 condados já sofrearam com incêndios florestais desde o início do verão. 

Além dos riscos às florestas, essa seca está afetando fortemente o abastecimento de cidades e a produção agrícola em muitas regiões do país. Importantes rios como o Colorado estão apresentando baixos e preocupantes níveis. 

Conforme já tratamos em postagens anteriores, as águas o rio Colorado são vitais para Estados como Utah, Arizona, Nevada e Califórnia. Cerca de 40 milhões de pessoas em sete Estados norte-americanos são abastecidas com águas captadas no rio Colorado e transportadas através de canais e sistemas de transposição. Essas águas também são usadas para a irrigação de 2 milhões de hectares de plantações. 

Importantes cidades da Região Sudoeste dos Estados Unidos são abastecidas com as águas do rio Colorado. Exemplos são Los Angeles, Las Vegas, San Bernardino, San Diego, Phoenix e Tucson. É importante citar que, à exceção de Las Vegas, todas essas cidades ficam bem longe do leiro do rio Colorado. 

Um exemplo da importância das águas do rio Colorado para a agricultura é o Imperial Valley, uma extensa área de produção no Sul da Califórnia. Essa região é considerada a maior produtora de culturas de inverno dos Estados Unidos e também a maior consumidora de água da Califórnia. 

Mudanças climáticas regionais estão ameaçando o rio Colorado. Essas mudanças incluem desde a redução do volume de chuvas na região da bacia hidrográfica até a redução da precipitação de neve das Montanhas Rochosas, formação que abriga importantes nascentes de rios tributários do Colorado. Essas mesmas mudanças climáticas estão afetando fortemente a Califórnia. 

Existe um receio entre meteorologistas e cientistas que essas mudanças climáticas venham a tornar frequentes a ocorrência de tempestades tropicais na Califórnia ou até mesmo levar a formação de furacões como o que acontece atualmente na região do Mar do Caribe. 

As mudanças climáticas vão nos trazer muitas mudanças e surpresas nos próximos anos. Quem viver, verá…

PARIS: UMA CIDADE A LUZ DE VELAS? 

O título da postagem, só para esclarecer, é uma brincadeira com uma das referências mais conhecidas da capital da França – a “Cidade Luz”. 

De acordo com o historiador francês Jacques Le Goff, Paris se transformou na maior cidade da Europa por volta do ano 1.300, quando atingiu a marca dos 200 mil habitantes. Desde então, a cidade passou a atrair, entre muitos outros migrantes, artistas, filósofos, escritores, pensadores, e cientistas das mais diferentes áreas. 

Essa concentração de artistas e de intelectuais transformou a cidade numa fonte de novas ideias e de ideais. A Revolução Francesa no final do século XVIII, com seus ideais de igualdade, liberdade e fraternidade, pode ser citada como um exemplo da importância de Paris. Um movimento intelectual que surgiu a seguir foi o Iluminismo, o que levou Paris a ser chamada de “La Villle-Lumière” ou a “Cidade Luz”. 

A partir da década de 1880, com o início da instalação de sistemas de iluminação pública com lâmpadas elétricas em toda Paris, essa ideia foi ainda mais reforçada. Monumentos, museus, prédios públicos, pontes e igrejas da cidade passaram a receber sistemas de iluminação cada vez mais sofisticados, o que acabou dando uma nova dimensão à beleza da cidade. 

A Torre Eiffel, um dos maiores ícones de Paris, foi inaugurada nessa época, mais especificamente em 31 de março de 1889. O monumento, cujo projeto foi criado pelo engenheiro Gustave Eiffel, serviria como porta de entrada para a Exposição Universal de 1889, evento que comemorou o centenário da Revolução Francesa. 

A polêmica estrutura, que a princípio seria temporária, acabou ganhando uma enorme importância após a popularização do rádio – a imponente torre, com mais de 300 metros de altura, se mostraria excepcional para a instalação das antenas de rádio da cidade. Com o início da Primeira Guerra Mundial em 1914, as transmissões de sinais de rádio a partir da Torre Eiffel se tornaram estratégicas para os militares. 

De símbolo de mal gosto para as elites parisienses do final do século XIX a condição de um dos monumentos mais conhecidos do mundo, a Torre Eiffel é atualmente um dos locais mais visitados da França. A Torre conta hoje com um sistema de iluminação com cerca de 20 mil lâmpadas, que revelam todo o seu esplendor nas noites da cidade. 

A crise energética que ameaça a França e a maioria dos países da Europa Ocidental acaba de chegar na Torre Eiffel – o Governo anunciou uma série de medidas para a economia de energia elétrica. Uma dessas medidas reduzirá o tempo de iluminação diária da Torre Eiffel em mais de uma hora

A partir de hoje, o sistema de iluminação passará a ser desligado por volta das 23h45 ao invés de 1 hora da madrugada. De acordo com informações do próprio Governo francês, o sistema de iluminação representa apenas 4% do consumo total de energia elétrica da Torre Eiffel, porém, essa medida tem um caráter simbólico, lembrando que é dever de todos economiza energia elétrica. 

Conforme já tratamos em postagens anteriores, toda a Europa Ocidental está sofrendo com os impactos da redução do fornecimento de gás natural pela Rússia. A estratégia dos russos, que não deixa de ser uma grande chantagem, é forçar os países europeus a retirar e/ou minimizar toda uma série de embargos econômicos impostos a Rússia por causa da invasão da Ucrânia. 

Nas últimas décadas, com o avanço dos chamados partidos verdes por todo o continente europeu, foram criadas inúmeras políticas de incentivo ao uso do gás natural em alternativa ao poluente carvão mineral. Entre esses usos destacam-se aplicações em indústrias e a geração de energia elétrica. Enquanto o gás russo era abundante e barato, essas políticas funcionaram muito bem, obrigado… 

Com a gradual redução dos volumes de gás natural para os países europeus, o fantasma da falta de energia, que muitos não viviam desde o final da Segunda Guerra Mundial, começou a assombrar muita gente. Um exemplo desse colapso é o que vive a Alemanha atualmente – metade do gás usado no país vinha da Rússia. 

Além dos problemas com o fornecimento de gás, grande parte da Europa também está convivendo com uma seca devastadora. Importantes rios estão com níveis muito baixos, um problema que afeta tanto o abastecimento de populações quanto a navegação fluvial e a geração de energia em usinas hidrelétricas. 

No caso da França, a seca está criando dificuldades para o funcionamento pleno do seu parque de centrais nucleares, que são responsáveis por cerca de 70% de toda a energia elétrica consumida no país. Essas usinas utilizam água para o resfriamento dos seus equipamentos – com os baixos níveis de muitos rios, a descarga dessa água quente é limitada sob risco de afetar a flora e a fauna aquática. 

O drama que já está sendo vivido por muito europeus poderá ficar ainda maior com a chegada do inverno, época em que existe um aumento das necessidades energéticas por causa do uso de sistemas de aquecimento residencial ou de calefação. Aqui entram a energia elétrica, o gás natural, a lenha e também o carvão mineral. 

O Governo da França vem conclamando o povo francês para “momentos de sacrifício” já há várias semanas. Essa decisão sobre a redução do período de iluminação da Torre Eiffel deve ser vista como mais uma “ferramenta didática” deste processo. 

Desgraçadamente, não existem melhores alternativas para os parisienses no curto prazo e muitos outros monumentos também poderão ficar às escuras por algum tempo. Por via das dúvidas, será bom fazer algum estoque de velas para os casos de emergência… 

O DESAPARECIMENTO GRADUAL DO LAGO NEUSIEDL, NA FRONTEIRA ENTRE A ÁUSTRIA E A HUNGRIA, ESTÁ PREOCUPANDO MUITA GENTE 

O Lago Neusiedl sempre foi considerado como uma espécie de praia para muitos austríacos e húngaros. Vivendo em países sem fachada oceânica, os povos desses países precisam se valer de lagos e rios para “curtir uma praia”. Com o forte calor e com a seca extrema que está assolando a grande parte da Europa nos últimos meses, esse importante lago está secando aceleradamente

Com cerca de 315 km2 de área máxima de espelho d`água, sendo 240 km2 dentro do território da Áustria e 75 km2 na Hungria, o Lago Neusiedl foi elevado à categoria de Patrimônio Mundial pela UNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, o que também inclui o Parque Nacional Fertő-Hanság, no lado húngaro do lago, e o Parque Neusiedl, no lado austríaco. 

Esse conjunto natural forma uma importante zona de descanso e alimentação para numerosas espécies de aves migratórias em rotas da Europa para a África. Muitas dessas espécies de aves estão em perigo de extinção. Essa característica transformou o Lago Neusiedl e arredores num importante centro turístico, especialmente para os observadores de aves. 

Do ponto de vista geográfico, o Lago Neusiedl é o ponto final de uma bacia hidrográfica endorreica, ou seja, que não corre na direção do mar. Nesse tipo de bacia hidrográfica, a água de rios e córregos se acumula em uma depressão no terreno e se perde através da evaporação. O nível do corpo d`água é mantido constante devido ao aporte sistemático de caudais. 

Com o forte calor e com a falta de chuvas em toda a região da bacia hidrográfica, o lago vem perdendo volumes substanciais de água sem que haja reposição, o que explica o desaparecimento visível do lago. Outra característica do lago que ajuda a explicar a forte evaporação é a sua pouca profundidade. 

A profundidade média do lago é de apenas 1 metro, com profundidades máximas da ordem de 1,8 metro. Esse tipo de configuração facilita o aquecimento e a evaporação da água. A maior parte da área onde se encontrava o espelho d`água está tomada por uma grossa camada de lama (vide foto) – a depender da continuidade do calor e da seca, essa lama vai secar e começar a rachar dentro de poucas semanas. 

De acordo com informações históricas, esse lago já secou em diferentes momentos ao longo dos últimos séculos pelas mesmas razões climáticas. A última vez que ele havia secado completamente foi no início do século XX. Com a volta das chuvas ou, na pior das hipóteses, com o derretimento da neve após o inverno, a tendência é que o Lago Neusiedl volte a encher. 

O desaparecimento de lagos, desgraçadamente, está virando uma notícia frequente nos meios de comunicação. O uso abusivo de água em sistemas de irrigação agrícola é uma das principais causas desse tipo de problema. Exemplos que já mostramos em diferentes postagens aqui do blog são o Mar de Aral, na Ásia Central, o Mar Morto no Oriente Médio, o Lago Chade no Centro-Norte da África. Esses três lagos, não por coincidência, são do tipo endorreico.  

O caso mais famoso é o do Mar de Aral que fica entre o Cazaquistão e o Uzbequistão. Até o início do século XX, o Mar de Aral era o quarto maior lago do mundo, com uma área total de 68 mil km². Essa área corresponde a 165 vezes a tamanho da Baía da Guanabara

A destruição do Mar de Aral está diretamente associada a super exploração das águas dos rios Amu Daria e Syr Daria pelas repúblicas da Ásia Central da antiga URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Os planejadores do governo central em Moscou queriam transformar a região num celeiro agrícola da URSS. 

Para atingir essa meta foram construídos milhares de quilômetros de canais de transporte de água e de irrigação, que passaram a desviar a maior parte dos caudais que antes seguiam na direção do Mar de Aral. Sem receber novos aportes de água, o lago quase desapareceu e hoje se limita a 10% da sua área original. 

Os casos do Mar Morto e do Lago Chade são idênticos. Localizados em regiões semiáridas e desérticas com baixa disponibilidade de água, esses lagos passaram a sustentar um sem número de projetos de agricultura irrigada. Com a redução dos aportes de água e com as perdas por evaporação, o resultado não poderia ser outro: a área dos respectivos espelhos d`água diminuem ano após ano. 

Uma outra “categoria” de lagos em processo de encolhimento/desaparecimento está ligado ao desaparecimento de geleiras em altas montanhas devido ao aquecimento global. O caso mais notório é o do Lago Titicaca, localizado na divisa entre o Peru e a Bolívia. 

O Lago Titicaca é considerado o maior da América do Sul, ocupando uma área de aproximadamente 8,5 mil km2 e fica localizado numa região árida do altiplano a cerca de 3.800 metros acima do nível do mar. O lago é alimentado por dezenas de rios com nascentes formadas a partir do derretimento de geleiras na Cordilheira dos Andes. 

Na margem nordeste do Lago, em território boliviano, fica a Cordilheira Real, onde se localizam algumas das montanhas mais altas dos Andes.  No lado peruano, são cerca de 20 rios tributários, com nascentes em 91 glaciares nos Andes do Peru. Todas essas geleiras estão ameaçadas pelo aquecimento global. 

De acordo com moradores da região, a margem do lago já retrocedeu mais de 50 metros em alguns pontos e o nível baixou 1 metro nos últimos anos. Especialistas locais afirmam que, de acordo com medições sistemáticas, o problema é bem mais sério que isto e que o nível do Lago Titicaca vem diminuindo sistematicamente desde 1986. 

A queda no nível do Lago Titicaca foi uma das principais causas do desaparecimento do Lago Poopó, um lago menor localizado ao Sul e que era alimentado pelo escoamento do excesso de águas. Esse lago tinha cerca de 2.500 km2 de área e secou completamente em 2017. 

A situação do Lago Deusiedl ainda não chegou ao nível da devastação dos outros lagos citados, mas é sempre bom ficar com as “barbas de molho”. Em tempos de aquecimento global, a perda de qualquer corpo d`água precisa ser profundamente lamentada. 

BRASIL BATE NOVO RECORDE NA PRODUÇÃO DE GRÃOS 

A CONAB – Companhia Nacional de Abastecimento, divulgou o relatório final da safra 2021/2022. Os agricultores brasileiros deverão colher um total de 271,2 milhões de toneladas de grãos, um crescimento de 5,6% em relação à safra anterior ou 14,5 milhões de toneladas a mais

Essa é uma excelente notícia em um momento de incertezas da produção agrícola mundial. Grandes produtores do Hemisfério Norte como os Estados Unidos, a China e países da União Europeia estão enfrentando riscos de quebra de produção de muitas culturas por causa do forte calor e da seca. 

De acordo com o relatório detalhado da CONAB, a área total plantada foi estimada em 74,3 milhões de hectares, o que corresponde a um crescimento de 6% ou 4,2 milhões de hectares em relação ao período 2020/2021. 

As culturas que apresentaram os maiores crescimentos em área plantada foram a soja, com crescimento de 6% ou 4,2 milhões de hectares; o milho, com 8,2% de crescimento ou 1,64 milhão de hectares; o trigo, com crescimento de 10,6% ou 290 mil hectares, e o algodão, que teve um crescimento de 16,8% ou 229,8 mil hectares. 

O milho foi o grande destaque da safra 2021/2022 – as estimativas da CONAB projetam uma produção total de 113,3 milhões de toneladas, um crescimento de 30,1% em relação a última safra. Esse resultado é surpreendente uma vez que a primeira safra do milho na Região Sul foi fortemente prejudicada pela seca no final de 2021. 

A seca também prejudicou a produção da soja, que sofreu uma redução de 9,9% no volume total de produção e ficou em 125 milhões de toneladas. O fenômeno climático La Niña provocou uma drástica redução do volume de chuvas nos Estados da Região Sul, São Paulo e Mato Grosso do Sul no final de 2021, levando a uma redução da produtividade do grão. 

Outra cultura de extrema importância na mesa dos brasileiros que sofreu fortes impactos com a seca foi o arroz, que tem uma das suas principais áreas de produção no Sul do país. A área plantada sofreu uma redução de 3,6% e a produção foi 8,4% menor, atingindo a marca de 781 mil toneladas. 

Falar de arroz nos leva, obrigatoriamente a falar do nosso bom e velho feijão. A cultura também sofreu com a seca em algumas regiões, porém, houve um aumento da produtividade em outras. A safra deverá atingir a marca de 2,99 milhões de toneladas, com um crescimento de 3,6% apesar da redução da área plantada de 2,4%. 

A produção do trigo, uma das poucas culturas de grãos em que o Brasil não tem autossuficiência, também foi recorde – a CONAB estima uma produção de 9,36 mil toneladas, o que corresponde a um crescimento de 22% em relação à safra anterior. 

O consumo de trigo no Brasil corresponde a aproximadamente 13 milhões de toneladas anuais, o que significa que, mesmo com um excepcional aumento da produção, ainda dependemos das importações de trigo. 

Lembro aqui que a EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias, desenvolveu variedades de trigo especialmente adaptadas às condições do Cerrado e, dentro de poucos anos, nosso país deixará de ser importador e passará a ser exportador de trigo. 

Merece destaque também a produção do algodão que atingiu a marca de 2,5 milhões de toneladas de fibra têxtil e de 6,2 milhões de toneladas de caroços de algodão, importante fonte de óleo. Apesar da seca em várias regiões do país ter prejudicado a fase inicial da cultura, o tempo seco foi extremamente benéfico para a colheita do algodão, tendo contribuído fortemente para o aumento de 8,3% na produção. 

Além desses grãos mais famosos e de presença mais frequente em nosso dia a dia, o Brasil também produz uma infinidade de culturas bem menos famosas. Nessa lista se incluem o gergelim, o girassol, a mamona, o sorgo, a aveia, a canola, o centeio e a cevada, entre outras, que tornam o Brasil um verdadeiro celeiro mundial. 

É sempre importante comentar que até bem poucas décadas atrás – falo aqui dos anos de 1970, nosso país dependia da importação de alimentos, inclusive grãos fundamentais para a dieta da população como o arroz e o feijão.  

Em menos de 50 anos passamos da condição de importador de alimentos para a quarta posição mundial dos maiores produtores mundiais de grãos. No caso da soja, o Brasil já é o maior produtor mundial, uma posição que foi conquistada a partir do domínio da ciência e da tecnologia agrícola. 

Ainda na década de 1970, a EMBRAPA desenvolveu diversas variedades de grãos – destaque para a soja, especialmente adaptados aos solos ácidos e pouco férteis do Cerrado Brasileiro. Combinando técnicas para a correção dos solos do Cerrado – destaque aqui para a calagem, essas novas variedades de grãos permitiram que o país desse um verdadeiro salto na produção agrícola. 

O Cerrado ocupa uma área de mais de 2 milhões de km2, o que corresponde a quase ¼ do território brasileiro. Suas terras sempre foram desprezadas e pouco valorizadas por causa da baixa fertilidade. Até meados do século XX, essas terras apresentavam uma densidade populacional baixíssima, uma condição que passou a mudar pouco a pouco ao longo das últimas décadas. 

De terra desvalorizada a celeiro agrícola do país, o Cerrado assumiu papel de destaque no Brasil. Essa importância precisa ser seguida cada vez mais de responsabilidade ambiental, combinando desenvolvimento econômico com preservação ambiental. É sempre importante destacar que as principais bacias hidrográficas brasileiras têm suas nascentes no Cerrado Brasileiro

Esses mesmos cuidados ambientais também devem envolver os biomas Mata Atlântica, Caatinga e Pampas Sulinos, explorados e devastados pela agricultura e pecuário ao longo de nossa história. Muito de sua riqueza natural já foi perdida e todos os esforços para a sua recuperação devem ser priorizados. 

Cerrado, Mata Atlântica, Caatinga e Pampas Sulinos ainda possuem um amplo potencial para expansão da nossa agricultura e pecuária, o que nos permite “poupar” a Amazônia e o Pantanal Mato-grossense para as futuras gerações.  

Em todos esses biomas existem grandes áreas que já foram desmatadas e que estão sendo subutilizadas e/ou estão abandonadas. Segundo muitos especialistas, nosso país tem potencial para dobrar a sua produção agrícola usando essas terras sem precisar destruir e desmatar novas áreas de florestas. Isso seria excelente para nós brasileiros e para o resto do mundo.