A CHEGADA DO FURACÃO IDA AO SUL DOS ESTADOS UNIDOS

No final de agosto de 2005, a charmosa cidade de Nova Orleans, no Sul dos Estados Unidos, foi atingida em cheio pelo furacão Katrina, uma tempestade tropical categoria 3 na escala de furacões de SaffirSimpson. Ventos com velocidade de mais de 280 km/h atingiram a costa sul dos Estados Unidos, em especial a região metropolitana de Nova Orleans. 

O Katrina provocou um grande alagamento, fazendo submergir 80% da cidade – 200 mil casas foram inundadas. Além de todo um rastro de destruição, com prejuízos calculados em cerca de US$ 81 bilhões (algumas fontes falam de prejuízos até duas vezes maiores) em diversas regiões dos Estados Unidos e também nas Bahamas, o furacão matou 1836 pessoas e existem 135 ainda consideradas desaparecidas. Até os dias atuais, enormes cicatrizes nas paisagens locais são testemunhos vivos da passagem do Katrina

Entre os inúmeros traumas deixados pelo Katrina, a demora na chegada de ajuda por parte do Governo central dos Estados Unidos foi um dos maiores. Entre as muitas acusações feitas ao então Presidente George W. Bush se destacaram as demonstrações de racismo (Nova Orleans tem grande parte de sua população formada por negros) e da falta de preocupação com as populações pobres do Sul dos Estados Unidos. 

Muitas dessas antigas lembranças foram avivadas na tarde de ontem, dia 29, quando o furacão Ida atingiu a costa do Estado da Luisiana com ventos de até 240 km/h. A tempestade, que estava classificada na categoria 4, foi rebaixada poucas horas depois para a categoria 1. Cerca de 1 milhão de habitantes de Região Metropolitana de Nova Orleans ficaram sem o fornecimento de energia elétrica, problema que atingiu também 70 mil pessoas no Estado vizinho do Mississipi. 

Até o início da madrugada desta segunda-feira, dia 30, as informações divulgadas davam conta que o Ida seguia continente a dentro com ventos da ordem de 150 km/h, além de provocar fortes chuvas. As notícias também confirmam o registro de uma morte – um morador de Prairieville, distrito a Noroeste de Nova Orleans foi atingido pela queda de uma árvore. Apesar dessa tragédia, a situação é infinitamente melhor do que a vivida 16 anos atrás com o furacão Katrina

Os prejuízos criados pelo furacão Ida começaram bem antes dele tocar o solo da Luisiana. Cerca de 95% das operações de extração e transporte de petróleo nas costas do Estado foram interrompidas preventivamente. O Golfo do México é um grande produtor de petróleo e gás, com inúmeras plataformas petrolíferas offshore em operação. Terminais de desembarque de petróleo em terra também foram fechados preventivamente. 

Os norte-americanos tem uma longa tradição em preparações antecipadas para desastres naturais e também contam com boas estruturas de serviços públicos voltados a situações de emergência. Os serviços de meteorologia gozam de grande credibilidade junto a população, que costuma seguir as orientações, inclusive os pedidos de evacuação. 

Qualquer um que andar hoje por cidades da região que está sendo afetada pelo furacão Ida vai encontrar casas e prédios com janelas reforçadas por placas de madeira e moradores com bons estoques de água, alimentos e remédios, entre outros itens essenciais. A depender da intensidade do fenômeno, os moradores poderão ficar vários dias presos em suas casas ou nos abrigos de emergência. 

No fatídico ano de 2005, muitos desses cuidados foram tomados pelos moradores de Nova Orleans. O que ninguém imaginava há época foi a sucessão de problemas nas barragens do rio Mississipi. Essas barragens foram construídas pelo Exército dos Estados Unidos décadas antes e tinham como objetivo a proteção das partes baixas da cidade de uma brusca elevação do nível do rio Mississipi, algo que infelizmente acabou não acontecendo. Também existem relatos de falhas nas operações das comportas dessas barragens durante a passagem do Katrina

No total, a área atingida pelo furacão Katrina foi superior a 230 mil km². Censos demográficos feitos posteriormente mostraram que o Estado da Luisiana perdeu mais de 200 mil habitantes, que migraram para outras regiões do país após a catástrofe. Essa é considera a maior diáspora ou migração forçada da história dos Estados Unidos. 

A tragédia deixou muitas lições e provocou muitas mudanças na infraestrutura dos serviços de emergência nos Estados Unidos. Os sistemas de barragens, que haviam funcionado bem por muito tempo, se mostraram inadequados diante de uma catástrofe tão forte como foi o Katrina e passaram por grandes reformulações, inclusive dos procedimentos operacionais. 

A ocorrência de grandes furacões (com ventos acima de 178 km/h) no Oceano Atlântico Norte vem aumentando gradativamente nos últimos anos. Até o ano de 2015, era registrados, em média, 3 desses fenômenos a cada ano. Até o ano 2000, a incidência era de 2 desses fenômenos a cada ano. Desde 2017, o número de furacões na região dobrou, passando para 6 eventos por ano

De acordo com vários estudos climáticos, onde se incluem simulações em computador, esse aumento no número de furacões nessa região se deve a um aumento na temperatura das águas do Oceano Atlântico numa faixa entre o Sul do Estado norte-americano da Flórida, o Norte da América do Sul e a costa da África. Por trás desse aumento das temperaturas do mar estão as mudanças climáticas globais

E a situação ainda vai piorar bastante. De acordo com projeções da NOAA – Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos, na sigla em inglês, o número de grandes furacões no Oceano Atlântico Norte deverá chegar a uma média de 8 ocorrências a cada ano até 2100

O aumento gradual das temperaturas está mudando os padrões climáticos em todo o mundo. As recentes ondas de calor que estão assolando partes da Europa e da América do Norte, e que estão causando grandes incêndios florestais são um exemplo disso. Aqui no Brasil também temos alguns exemplos dessas mudanças no clima. 

Partes das Regiões Centro-Oeste e Sudeste estão passando pela maior seca dos últimos 90 anos. Grandes reservatórios de usinas hidrelétricas estão com baixos níveis e há ameaças para a geração de energia elétrica no país. Outro exemplo dado pelo nosso clima recentemente foi a fortíssima onda de frio que se abateu sobre grande parte das regiões mais meridionais do país há poucas semanas atrás. 

Por hora, vamos torcer para que o Ida perca rapidamente a sua energia e que cause o mínimo possível de danos para as populações que vivem ao longo do seu caminho. Porém, vamos precisar nos adaptar cada vez mais as surpresas que o clima nos trará nos próximos anos. 

E AS QUEIMADAS NO BRASIL?

Nas últimas postagens fizemos uma rápida “excursão” pela Europa, Sibéria e pela América do Norte, onde mostramos os graves problemas ambientais decorrentes de fortes ondas de calor e dos inevitáveis incêndios florestais. Ao contrário do que muita gente imagina, grandes queimadas e incêndios florestais não ocorrem apenas na Amazônia – existem outros biomas pelo mundo a fora que também estão sendo muito ameaçados por esses eventos. 

Para não sermos acusados de parcialidade, vamos fazer um rápido apanhado com as principais notícias sobre a quantas andam as queimadas aqui no Brasil. Aqui é preciso informar aos leitores que a temporada da seca ou do verão nas regiões do Cerrado e da Amazônia se estende entre os meses de maio e setembro. É nessa época em que ocorrem as grandes queimadas nessas regiões.  

O fogo é uma das forças da natureza e sua fúria e energia vêm, há milhões de anos, ajudando a modelar as paisagens naturais de nosso planeta. Originalmente, os incêndios florestais eram provocados por erupções vulcânicas, que lançavam pedras incandescentes a quilômetros de distância em áreas cobertas por matas, onde o fogo poderia se iniciar e destruir grandes volumes de vegetação.  

Esses incêndios também poderiam ter sua origem nos raios que atingiam árvores secas ou ainda pelos raios solares, que teriam o poder de iniciar o fogo incidindo sobre folhas secas. A participação dos seres humanos nos incêndios florestais é, falando em termos históricos/geológicos, bem recente – nossos ancestrais dominaram o fogo há “apenas” 500 mil anos. 

De acordo com dados do INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, referentes ao período compreendido entre os meses de janeiro e junho de 2021, foram identificados um total de 59.048 km² de áreas devastadas por incêndios nos seis biomas brasileiros

Em uma ordem decrescente, o Cerrado foi o bioma mais afetado pelas queimadas – foram 34.478 km² destruídos. Na segunda posição vem a Amazônia, com 8.333 km² de queimadas; a Mata Atlântica com 7.746 km²; a Caatinga com 5.378 km²; o Pantanal Mato-Grossense com 2.095 km² e os Pampas com 1,018 km² de área devastada pelo fogo. 

Antes de prosseguirmos, é importante fazer uma reflexão rápida sobre esses números: se considerarmos que o Brasil tem uma área total de 8,5 milhões de km², essa área destruída pelo fogo, apesar de ser muito grande, é relativamente pequena quando se analisa em termos percentuais.  

Feitas as devidas contas, a área devastada pelo fogo corresponde a 0,7% do território brasileiro. Isso, é claro, não é nenhum motivo de comemoração – porém, se comparada percentualmente com as áreas devastadas por incêndios florestais na Itália e na Grécia nas últimas semanas, nossa situação é bem mais confortável. 

Os números mostram que o Cerrado foi o bioma que teve a maior participação em áreas queimadas, algo que não é nenhuma novidade. O Cerrado vem sofrendo com grandes queimadas há, pelo menos, 25 milhões de anos. Aliás, foi justamente a frequência dessas queimadas que forçou as espécies vegetais e animais do bioma a evoluírem. Essa adaptação foi tão grande que a maioria das sementes de árvores do Cerrado dependem do fogo para germinar

Em relação às áreas queimadas na região da Amazônia, gostaria de apresentar um outro número mostrado nos dados dos INPE. Entre 1° de janeiro e 23 de junho de 2021, foram identificados 33.668 focos de incêndio no bioma Amazônia. Fazendo um cálculo rápido, concluímos que o tamanho médio de cada um desses focos é de 0,25 km². Esse grande número de focos de incêndio e as áreas relativamente pequenas que foram queimadas parecem indicar que a grande maioria desses eventos foi resultado da ação de pequenos agricultores da região

Na Amazônia, assim como acontece em outras regiões brasileiras, é muito usual a coivara, uma técnica agrícola herdada dos nossos indígenas. A coivara consiste na derrubada inicial da vegetação arbustiva e arbórea, que é deixada para secar ao sol por algum tempo. Depois de seca, essa vegetação é queimada, onde se faz ao mesmo tempo a limpeza do terreno e uma adubação elementar a partir das cinzas das madeiras queimadas.   

Um dos grandes problemas das coivaras é falta de controle do fogo, que facilmente pode escapar para áreas de matas ou campos vizinhos, aumentando assim a área total queimada. Um detalhe importante e que não costuma aparecer nos dados do INPE é que essas queimadas das coivaras se repetem várias vezes (3 a 4 vezes) nos mesmos terrenos. Após esses ciclos, devido ao esgotamento da fertilidade do solo, essa área é abandonada e é feita a abertura de um novo campo agrícola nas proximidades. Essas áreas abandonadas podem se recuperar ao longo do tempo.

As queimadas na Amazônia exigem um outro esclarecimento: o bioma é formado por um verdadeiro mosaico de subsistemas florestais onde se incluem florestas de terra firme, florestas de várzea, florestas de igapó, manguezais, campos de várzea, campos de terra firme, restingas, vegetação serrana, entre muitos outros. Somente alguns desses subsistemas florestais, como é o caso dos campos amazônicos, ficam totalmente secos no verão e podem ser queimados. 

Existem também muitas áreas onde existe uma vegetação de transição, que mistura espécies do Cerrado e da Amazônia, onde os solos tem características mais próximas daquelas encontradas no Cerrado e são mais propícios à pratica da agricultura. De acordo com dados da Universidade Federal do Pará, 92% dos solos da Região Amazônica apresentam uma baixa fertilidade natural, enquanto que apenas 8% são de elevada fertilidade

Nos demais biomas brasileiros, as queimadas são decorrentes de todo um leque de problemas, que vão desde de práticas agrícolas a vandalismos. Um problema que gostaria de salientar são os incêndios iniciados em lixões e áreas clandestinas de descarte de resíduos, que acabam se propagando para matas e fragmentos florestais próximos, causando uma série de problemas ambientais. 

A visão de uma grande área destruída por um incêndio florestal é muito triste, especialmente quando encontramos restos de animais mortos pelas chamas. Entretanto, nem sempre isso pode ser considerado o fim do mundo – áreas de Cerrado, citando um exemplo, se recuperam muito rapidamente após um grande incêndio. É preciso sempre avaliar corretamente os dados e focar os esforços de combate desses incêndios para as áreas realmente prioritárias. 

Como foi citado, incêndios vem fazendo parte das paisagens de nosso planeta há milhões de anos. O que precisamos evitar a qualquer preço é que esses eventos dominem as paisagens, algo que está acontecendo hoje em muitas regiões de nosso mundo. 

O CANADÁ E SEUS GRANDES INCÊNDIOS FLORESTAIS

Na última postagem falamos dos incêndios florestais que estão consumindo grandes áreas de florestas nos Estados Unidos. De acordo com informações do National Interagency Fire Center do último dia 19, eram 104 grandes incêndios florestais ativos, especialmente na região Oeste do país, mobilizando mais de 25 mil bombeiros. 

O Canadá, o grande vizinho do Norte dos Estados Unidos, também enfrentou uma temporada de incêndios devastadores neste ano, porém, as coisas por lá já estão bem mais controladas. A Colúmbia Britânica, província mais Ocidental do país, chegou a ter 300 focos de incêndios florestais no mês de julho. Segundo as informações disponíveis, mais de 3 mil km² de florestas foram queimadas, uma área três vezes maior que a média dos últimos anos

O Oeste canadense sofre dos mesmos males vividos pelo Oeste dos Estados Unidos – mudanças climáticas estão alterando as precipitações de chuva e de neve. Com menos umidade, a vegetação fica mais seca e altamente inflamável. Com a ação dos ventos, qualquer foco de fogo, com origem natural ou decorrente de ação humana, rapidamente se alastra e se transforma em um grande incêndio florestal.  

No final do mês de junho, o Oeste do Canadá enfrentou uma fortíssima onda de calor, o que aumentou, e muito, o surgimento de focos de fogo. Um exemplo que citamos em uma postagem há época foi o caso da pequena cidade de Lytton, localizada na Colúmbia Britânica, que registrou no dia 27 de junho, a incrível temperatura de 46,6° C.  

Três dias depois de bater esse recorde, Lytton foi devastada por um forte incêndio que avançou desde uma área de floresta e que formou chamas com até 4 metros de altura na cidade. Os pouco mais de 250 moradores tiveram apenas 15 minutos para evacuar a cidade após o alerta emitido pela prefeitura. A imagem abaixo mostra o que sobrou da área central da cidade.

O Norte do Canadá também vem sofrendo com um fenômeno que está sendo chamado de “incendios zumbis” pelos cientistas. São grandes áreas da vegetação de taiga e da tundra que aparecem queimadas de uma hora para outra. Esse “fenômeno” não é novo e já vem sendo observado há várias décadas. Porém, a frequência passou a aumentar muito nos últimos anos. 

Conforme já comentamos em postagens anteriores, o Ártico vem passando por um processo acelerado de aumento das suas temperaturas. Nos meses de verão, temperaturas próximas aos 40° C, muito comuns aqui em nosso país, estão se tornando perigosamente frequentes em muitas regiões ao redor do Ártico. 

Uma das definições geográficas para delimitar o Ártico é a linha das árvores árticas, uma faixa que marca a divisão entre as árvores da taiga, ou floresta boreal, e a tundra ártica. Uma das características dessa região é o permafrost, onde a água dos solos fica permanentemente congelada e os torna extremamente duros. Esse tipo de solo se estende para regiões vizinhas ao redor Ártico.

Com o aumento das temperaturas em todo o Ártico, esses solos estão descongelando gradativamente e perdendo a sua resistência. As árvores da taiga, espécies que sofreram um processo evolutivo para se adaptar as condições físicas dessa região, possuem um sistema de raízes muito pequeno e caem aos milhares ao longo do verão. São essas grandes massas de madeira que acabam queimando naturalmente nos “incêndios zumbis”. No caso da tundra, as altas temperaturas secam a vegetação rasteira, que fica propensa aos incêndios.

Estudos científicos indicam que a incidência desses incêndios nas áreas da taiga são as maiores dos últimos 3 mil anos, época em que as florestas boreais se formaram. É possível que sejam os maiores incêndios nessa região nos últimos 10 mil anos. No início da década de 2000, esses incêndios aumentaram 50%; entre os anos 2010 e 2020, esse aumento foi ainda maior. 

O aquecimento do Ártico também está propiciando o aumento de pragas florestais no Norte do Canadá e também no Alasca, território que pertence aos Estados Unidos. Na Colúmbia Britânica, a maior ameaça é o besouro-do-pinheiro-da-montanha (Dendroctonus ponderosae). Em outras áreas do bioma as ameaças atendem por nomes como mosquito-do-lariço, lagarta-dos-pinheiros (Choristoneura fumiferana), entre muitos outras. O ataque dessas pragas pode levar as árvores a uma morte precoce, aumentando o risco de incêndios naturais. 

Além dos grandes impactos ao meio ambiente, o aumento gradativo dos incêndios florestais representa um sério problema para a economia do Canadá. O país é um dos maiores produtores mundiais de papel e celulose e também o maior exportador de madeiras do mundo. O clima do país sempre foi um fator impeditivo para o crescimento da agricultura e a exploração madeireira sempre teve uma importância fundamental na história do país. 

O Canadá é um dos países com a maior cobertura florestal do mundo. Cerca de metade do território do país é coberto por florestas, onde se encontram mais de 140 mil espécies vegetais, animais e microrganismos. São aproximadamente 180 espécies de árvores nativas. Esse imenso patrimônio natural nos dá uma ideia dos grandes riscos ambientais que estão sendo criados pelas mudanças climáticas. 

O Governo e as empresas do ramo florestal do Canadá se esforçam para manter a sustentabilidade dessas atividades. Em 2010, as 19 maiores empresas do setor e 6 organizações ambientais assinaram o Acordo da Floresta Boreal do Canadá visando o uso racional e sustentável dos recursos florestais do país. Esse Acordo obriga as empresas a reflorestar as áreas exploradas com mudas de espécies nativas, o que garante a regeneração total das florestas em até 80 anos. 

Apesar desses aparentes bons resultados, muitos especialistas e ambientalistas ainda tem sérias dúvidas sobre a recuperação completa dessas áreas reflorestadas. O aumento das temperaturas provocados pelas mudanças climáticas e o aumento dos grandes incêndios florestais no país trazem ainda mais incertezas para o futuro dessas florestas e de toda a sua fauna. 

Uma das grandes preocupações desses ambientalistas são os grandes volumes de carbono “estocados” nos solos e nas árvores das florestas boreais canadenses. Mesmo com a exploração racional e altamente controlada dos recursos florestais, esses solos vão ficar expostos por vários anos até o crescimento das árvores, espaço de tempo onde grande parte desse carbono deixará de ser estocado nas árvores e nos solos. 

Além dos enormes riscos para a saúde e segurança das populações que vivem no entorno nessas regiões florestais e também para a fauna silvestre, esses incêndios também podem atingir em cheio os bolsos dos canadenses. Isso é ou não um bom motivo para ficar mais preocupado com os efeitos das mudanças climáticas? 

DIXIE E CALDOR: OS GRANDES INCÊNDIOS FLORESTAIS DA CALIFÓRNIA

Mudanças climáticas em andamento na região Oeste dos Estados Unidos estão deixando o clima regional cada vez mais quente e seco, uma situação que tem levado a uma incidência cada vez maior de incêndios florestais.  

A Califórnia é uma das regiões mais afetadas pelo problema – desde dezembro de 2017, o Estado assistiu aos 8 piores incêndios florestais da sua história. Neste momento, bombeiros da Califórnia estão lutando para debelar dezenas de focos de fogo, onde se destacam dois grandes incêndios florestais – o Dixie e o Caldor

Dixie, que está sendo considerado o segundo pior incêndio da história do Estado, começou nas matas secas das montanhas de Sierra Nevada, uma região do Nordeste californiano a cerca de 260 km de Sacramento, a Capital do Estado. Com a baixa umidade do ar e com os fortes ventos da Região, as chamas se espalharam rapidamente.  

Até o dia 20 de agosto, o Dixie já havia queimado cerca de 260 mil hectares de matas, uma área equivalente à da cidade de Los Angeles. Pelo menos 1.200 casas e outras estruturas foram consumidas pelo fogo – outras 16 mil construções estão classificadas como ameaçadas. Perto de 12 mil pessoas foram obrigadas a abandonar suas casas por questões de segurança

Um exemplo da violência do incêndio: no início deste mês, o Dixie devastou a pequena cidade de Greenville apenas poucas horas depois das autoridades pedirem que os moradores abandonassem suas casas. Ventos com velocidade de até 50 km/h empurraram as chamas na direção do centro da cidade, que acabou sendo completamente consumido pelo fogo (vide foto). 

O incêndio Caldor começou há cerca de 10 dias atrás na Floresta Nacional de El Dorado, na divisa dos Estados da Califórnia e de Nevada. No último dia 18, seu tamanho passou de 2.630 hectares para 21.403 hectares em apenas 24 horas, o que forçou cerca de 16 mil pessoas a abandonar suas casas. De acordo com as últimas informações divulgadas, o Caldor já queimou 47 mil hectares. 

Segundo informações do Cal Fire – Departamento Florestal e de Incêndios da Califórnia, a área destruída pelos incêndios aumentou mais de 250% desde 2020, ano que até então foi considerado como o pior em incêndios florestais da história do Estado. De acordo com as autoridades locais, a causa desses incêndios é uma seca prolongada e persistente na Califórnia, que tem deixado a vegetação muito seca e vulnerável ao fogo. 

A Região Oeste dos Estados Unidos, especialmente os Estados da Califórnia, Nevada, Arizona, Utah e Colorado, vem enfrentando uma grave seca com chuvas abaixo da média há vários anos. Uma imagem que simboliza essa falta de chuvas são os baixos níveis do Lago Mead, no Estado de Nevada, o maior reservatório do país. Já são 22 anos seguidos com chuvas abaixo da média e o Lago está atualmente com apenas 35% de sua capacidade. 

Além da falta de chuvas, grandes áreas das regiões Oeste e Noroeste dos Estados Unidos também foram atingidas por fortes ondas de calor no início do verão. Em uma postagem publicada no final de junho, falamos das altas temperaturas registradas em várias cidades. Em Salem Portland, no Estado do Oregon, a temperatura rompeu a barreira dos 44° C. Em Seattle, capital do Estado de Washington, os termômetros chegaram muito próximo dos 40° C. Em várias regiões da Califórnia já haviam sido registradas há época temperaturas de inacreditáveis 54° C. 

Todos esses sinais já eram uma espécie de anúncio da violência dos incêndios que viriam a tomar conta de grandes áreas florestais do país neste ano. De acordo com informações do National Interagency Fire Center do último dia 19, 104 grandes incêndios florestais estavam ativos, especialmente na região Oeste do país. Mais de 25 mil bombeiros estão trabalhando para controlar as chamas e o avanço desses incêndios florestais, um avanço que está sendo muito facilitado pelo tempo quente e pela vegetação seca nessa região

O setor agrícola da Califórnia vem sendo seriamente afetado tanto pela seca quanto pelos incêndios florestais. Um exemplo disso é o mundialmente famoso Napa Valley, uma das mais importantes regiões produtoras de vinho do mundo. Essa região possui mais de 800 vinícolas e responde por 90% de todos os vinhos produzidos nos Estados Unidos. Em 2020, várias vinícolas foram afetadas pelos incêndios florestais, sendo que uma dessas propriedades teve um dos seus depósitos destruído pelas chamas. 

Mesmo quando não são atingidos diretamente pelas chamas, os parreirais são afetados pela fumaça dos incêndios, que altera a cor das cascas das uvas. A cor dos vinhos tintos, um dos fatores mais determinantes para a avaliação da qualidade de um produto, pode ser alterada pelos resíduos de fuligem acumulados na casca das uvas. No caso das uvas brancas, a fuligem e as manchas que se formam na casca das uvas inviabiliza a produção dos vinhos brancos. 

Além de vinhos, a Califórnia é uma importante região de produção de leite e carne bovina; de amêndoas, nozes e pistaches; de tomates, hortaliças e frutas cítricas. Cerca de 13% de toda a produção agropecuária dos Estados Unidos está concentrada na Califórnia. Nos últimos anos, os produtores locais foram forçados a reduzir seu consumo de água em 20%, em média, devido à escassez cada vez maior do insumo. 

E as notícias para as populações dessas regiões não são das mais animadoras. Segundo os meteorologistas, a última vez que a região Oeste dos Estados Unidos enfrentou uma escassez de água tão grande foi há 1.200 anos atrás. Mudanças climáticas em andamento na região poderão reduzir ainda mais as precipitações (aqui se incluem as chuvas e as neves), aumentando ainda mais os problemas de seca na região. 

Além dos inevitáveis problemas climáticos, existem graves problemas na gestão das políticas de prevenção e combate aos incêndios florestais – nesse ponto, a administração do Partido Democrata na Califórnia é bastante criticada. Segundo essas críticas, Estados vizinhos como o Oregon, Washington e Nevada, que estão sujeitos aos mesmos problemas de seca e riscos, têm tido mais sucesso na prevenção e no combate aos incêndios florestais do que a Califórnia. 

Brigas político/partidárias a parte, a situação ambiental na região Oeste dos Estados Unidos e, em particular, na Califórnia, está ficando cada vez mais complicada devido ao aquecimento global e mudanças no comportamento das populações, produtores rurais e das classes dirigentes precisam acontecer o mais rápido possível. 

Todos precisarão se adaptar a novos e complicados tempos. 

MAIS DE 4 MILHÕES DE HECTARES DE FLORESTAS JÁ FORAM DESTRUÍDOS POR INCENDIOS FLORESTAIS NA RÚSSIA EM 2021

De acordo com dados do MAAP – Projeto de Monitorização da Amazônia Andina, na sigla em inglês, divulgados no mês de abril deste ano, a Floresta Amazônica perdeu 2,3 milhões de hectares de vegetação em 2020, cerca de 17% a mais que em 2019. Esse projeto é uma iniciativa da Amazon Conservation, uma organização não governamental que monitora a situação da floresta na Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana Francesa, Guiana, Suriname e Venezuela.  

Em sucessivas postagens aqui no blog tratamos dessa lamentável destruição da cobertura florestal da maior e melhor conservada floresta tropical do mundo e também falamos de alternativas para o desenvolvimento sustentável da região. Entretanto, sempre afirmamos que a Amazônia não está sozinha nesse “processo” de destruição – outros importantes sistemas florestais em todo o mundo estão sofrendo agressões ainda maiores, porém sem a mesma repercussão que é dada a Amazônia. 

Um dos casos mais preocupantes é o da taiga, especialmente no território da Rússia. A taiga, também chamada de Floresta Boreal ou Floresta de Coníferas, é a maior floresta do planeta Terra, ocupando uma área total de 15 milhões de km². Isso é praticamente 3 vezes o tamanho da Floresta Amazônica

A taiga circunda toda uma faixa de terras do planeta no Hemisfério Norte entre os paralelos 40 e 70 graus. A floresta engloba terras na Escócia, Noruega, Suécia, Finlândia, Rússia, Cazaquistão, Coreia e Norte do Japão. A taiga prossegue do outro lado do Estreito de Bering no Alasca, região que pertence aos Estados Unidos, no Canadá e chega até na Groenlândia, ilha autônoma que pertence à Dinamarca e que possui alguns bosques pequenos dessa vegetação. As principais espécies dessa floresta são pinheiros, piceas, bétulas e lariços.   

Vamos aos fatos: de acordo com informações divulgadas pela agencia federal de vigilância de florestas da Rússia no último dia 10 de agosto, os incêndios florestais já destruíram cerca de 4 milhões de hectares de vegetação no país em 2021. As maiores extensões de áreas queimadas ficam na República de Sakha, no Extremo Leste da Rússia. Observem que estamos falando de uma área devastada por incêndios florestais 75% maior do que tudo o que foi destruído na Floresta Amazônica em 2020. 

Diferentemente do que acontece com a suposta devastação ou “queima” da Floresta Amazônica, líderes mundiais, ambientalistas, artistas e outras celebridades internacionais não estão se descabelando em protestos pela devastação da taiga. Citando como exemplo o Presidente da França, Emmanuel Macron, que em 2019 chegou a ameaçar o Brasil com ataques nucleares em defesa da Amazônia, dessa vez sequer ousou elevar o tom de voz com Vladimir Putin, o todo poderoso líder russo. 

Na região de Sakha, as chamas já consumiram 3,9 milhões de hectares em 2021 – entretanto, os trabalhos de combate aos incêndios se estenderam a apenas 1,44 milhões de hectares. Essa aparente incoerência dos russos se deve a questões legais – de acordo com a legislação local, quando não existem riscos a moradores e também a infraestruturas econômicas, ou ainda quando os custos de combate ao fogo superam os prejuízos econômicos, essas atividades podem ser suspensas. Ou seja, é mais barato para a Rússia deixar as florestas arderem descontroladamente (e o aquecimento global que se dane). 

A situação das florestas na Rússia é tão crítica que imagens de um satélite da NASA – Administração de Aeronáutica e Espaço dos Estados Unidos, na sigla em inglês, captaram fumaça das queimadas no Polo Norte no dia 7 de agosto. Essa foi a primeira vez na história que um evento desse tipo foi registrado. 

De acordo com especialistas em meteorologia e ambientalistas do país, grande parte da responsabilidade pela ocorrência desses incêndios pode ser creditada ao aquecimento global. Conforme comentamos em postagens anteriores, as temperaturas no Ártico russo vêm aumentando muito ao longo dos últimos anos. Um exemplo foi o que aconteceu na cidade de Verkhoyansk, na Sibéria, em junho de 2020 – os termômetros chegaram a marcar uma temperatura de 38º C. 

Com temperaturas mais altas, os solos de permafrost (um neologismo para solos permanentemente congelados em inglês) estão passando por um processo de derretimento da água congelada, um elemento que tornava esses solos extremamente duros. As raízes das árvores da taiga, que ao longo de seu processo evolutivo desenvolveram sistemas de raízes curtas, perdem a estabilidade e milhares de árvores caem todos os anos. Os troncos dessas árvores mortas formam um poderoso combustível a ser queimado nos grandes incêndios florestais.  

Um lado pouco comentado do aumento das temperaturas em grande parte do território russo é a iminente ampliação das terras agricultáveis no país. Durante séculos, o clima extremo e os solos duros do permafrost funcionaram como inibidores aos avanços das frentes agrícolas rumo ao Norte. Um exemplo desse provável avanço foi a colheita de 1,1 milhão de toneladas de soja numa área Central da Rússia em 2019. Pesquisadores de dois institutos de agronomia do país desenvolveram uma variedade do grão adaptada as condições climáticas e aos solos onde o permafrost descongelou. 

É provável que uma parte desses incêndios florestais na Rússia tenha origem em ações criminosas, onde os responsáveis já estejam planejando reivindicar no futuro novas áreas para a formação de campos agrícolas, algo muito parecido com o que alguns agricultores da região Amazônica costumam fazer aqui em nossas terras. 

Existe muita gente pelo mundo a fora que está de olho em nossa Amazônia, mas que sempre “olham para o outro lado” quando outras florestas como a taiga ardem em violentos incêndios florestais.

OS GRANDES RISCOS CRIADOS PELOS INCÊNDIOS FLORESTAIS EM PORTUGAL

Todos os anos, quando chega a temporada da seca nas regiões da Amazônia e do Cerrado, a grande maioria dos brasileiros costuma assistir pelos telejornais cenas de grandes incêndios nas matas, com enormes labaredas de fogo e grossas nuvens de fumaça cobrindo o horizonte. Isso acontece por que essas regiões ficam distantes milhares de quilômetros das principais cidades do Brasil. 

Essa “confortável” distância entre a maior parte de nossa população e as grandes queimadas mudou em 2019, ano em que uma combinação de fatores climáticos trouxe a fumaça das queimadas para grandes centros urbanos da Região Sudeste. No dia 19 de setembro daquele ano, a cidade de São Paulo assistiu ao escurecimento do céu no meio da tarde e a uma chuva com águas escuras com um tom de chá mate – tudo culpa da fumaça vinda desde grandes queimadas no Pantanal Mato-grossense, de trechos da Amazônia brasileira e boliviana, e também do Paraguai. 

Em um país pequeno como Portugal, a proximidade entre as cidades e as áreas florestais é enorme e qualquer incêndio afeta e ameaça grandes contingentes populacionais. Só para relembrar: nosso país irmão tem uma área total pouco maior que 92 mil km² e conta com uma população com cerca de 10 milhões de habitantes. 

Um exemplo desses grandes riscos foi o que aconteceu no último mês de junho na região Pedrógão Grande, quando um raio deu início a um grande incêndio florestal (vide foto) – ao menos 57 pessoas que circulavam por uma rodovia através da floresta morreram vitimadas pelas chamas e/ou pela fumaça e outras 60 ficaram feridas. 

Outro exemplo que podemos citar foi o grande incêndio que atingiu ao menos 9 mil hectares de matas na região do Algarve e que começou no dia 16 deste mês. Foram atingidas áreas nos municípios de Castro Marim, Vila Real de Santo Antônio e Tavira. Preventivamente, mais de 80 moradores de 12 aldeias da região tiveram de ser removidos de suas casas. Mais de 630 bombeiros e 208 viaturas foram empregados no combate às chamas. 

A autoestrada A22, que liga o Algarve à província espanhola de Huelva também foi fechada para evitar incidentes como os ocorridos no incêndio florestal de Pedrógrão Grande. A rodovia nacional N-125 também acabou sendo fechada. Devido ao clima quente e ao ar seco naquela, semana, as Autoridades portuguesas decretaram alerta de alto risco de incêndio florestal em 14 dos 18 distritos do país. 

Portugal possui uma das maiores áreas florestais da Europa em termos percentuais relativos ao seu território – cerca de 38% da superfície continental do país é coberta por florestas. Cerca de 85% dessas florestas ficam em áreas particulares e apenas 3% estão localizadas em áreas do Governo Federal. As áreas restantes ficam em terrenos baldios ou pertencem aos municípios. 

Perto de metade das áreas florestais de Portugal são dominadas por apenas duas espécies: o pinheiro-bravo (Pinus pinaster), uma espécie nativa do país e que responde por 30% da vegetação, e pelo eucalipto branco (Eucalyptus globulus), uma espécie exótica introduzida em terras lusitanas no início do século XX, que ocupa cerca de 20% das áreas florestais. 

Uma outra espécie florestal importante de Portugal é o sobreiro (Quercus suber), que ocupa cerca de 21,3% das florestas do país. O sobreiro é uma espécie de carvalho a partir do qual se extrai a cortiça usada na produção de rolhas para vinhos, espumantes e outras bebidas. Portugal é o maior produtor mundial de cortiça, respondendo por 50% da produção. O setor emprega mais de 12 mil trabalhadores no país e gera um faturamento de US$ 7.6 bilhões. 

A extração da casca do sobreiro, a matéria prima da cortiça, possui uma rigorosa legislação no país. Após a retirada da casca, a árvore deve passar por um período de regeneração de 9 anos, ou seja, um tempo adequado para a árvore formar uma nova casca. Caso uma dessas árvores seja atingida pelas chamas de um incêndio florestal, é até possível que a planta possa sobreviver, porém, serão necessários muitos anos para recuperar a produção da cortiça.  

No total, atividades florestais empregam mais de 160 mil pessoas em Portugal, o que corresponde a aproximadamente 3,3% da população economicamente ativa. Esse rápido resumo demonstra a importância econômica e social da preservação da cobertura florestal no país, além de explicitar o tamanho dos riscos representados pelos grandes incêndios. A questão ambiental, que também é importantíssima, não entrou nessa conta. 

forte onda de calor vinda do Deserto do Saara e que causou a quebra de recordes de temperatura em diversas regiões do Sul da Europa e no Norte da África também se refletiu em altas temperaturas na Península Ibérica. Em Portugal, os termômetros bateram na casa dos 36º C em Lisboa e em 43º C em Évora. As Autoridades do país temem que essa onda de calor gere um grande aumento nos focos de incêndios. 

Em 2017, os incêndios florestais devastaram mais de 50 mil hectares de florestas no país e provocaram a morte de, pelo menos, 117 pessoas. Em 2018, as perdas foram de aproximadamente 38 mil hectares e de cerca de 41 mil hectares em 2019. Em 2020 foram registrados 9.690 incêndios em áreas rurais do país, com uma perda total de 67 mil hectares de matas. 

De acordo com especialistas, a localização geográfica e a influência dos fortes ventos vindos do Oceano Atlântico favorecem o surgimento de grandes incêndios florestais em Portugal. Também entram na equação o aumento das temperaturas no país e em toda a Europa, as secas prolongadas e também a falta de estratégias eficazes para a mitigação dos incêndios florestais por parte das Autoridades locais. 

Uma crítica importante feita por muitos especialistas em meio ambiente e por ambientalistas faz referência ao grande aumento das plantações de eucalipto no país, impulsionadas pelo forte crescimento das indústrias de papel e celulose. Segundo esses profissionais, essas florestas comerciais de eucaliptos são altamente inflamáveis. 

Apesar das Autoridades locais afirmarem que houve uma importante redução no número total de incêndios e na área devastada por esses eventos desde de 2016, os portugueses ainda terão muitos problemas e também novos temores a cada verão. Devido ao aquecimento global, as fortes ondas de calor no país tendem a se tornar recorrentes e, com isso, mais áreas de florestas estarão à mercê da ocorrência de grandes e desastrosos incêndios florestais. 

Como estamos sempre repetindo aqui em nossas postagens, as mudanças climáticas estão criando novos e complicados tempos na Europa e em todo o mundo. 

MUITO PRAZER! SOU “LÚCIFER”, O ANTICICLONE

Grandes partes do Sul da Europa e do Norte da África estão sofrendo com uma forte onda de calor (veja o mapa que ilustra essa postagem) e com intensos incêndios florestais. Parte considerável dessa onda de calor vem do Saara, o maior deserto do mundo e “vizinho” muito próximo da Europa. Conforme comentamos na última postagem, o Saara cresceu cerca de 10% nos últimos 100 anos, especialmente rumo ao Sul na região conhecida como Sahel

Estudos indicam que esse crescimento do Saara se deve em grande parte a fatores naturais, um processo que vem se desenrolando há cerca de 20 mil anos. Porém, os pesquisadores afirmam que cerca de 1/3 das mudanças climáticas no Saara se devem a fatores antrópicos, ou seja, são decorrentes das mudanças climáticas globais provocadas pelas atividades de nós seres humanos. 

Além das grandes massas de ar quente que foram geradas no Deserto do Saara, a onda de calor atual que vem castigando a Europa e o Norte da África foi amplificada pela formação de um anticiclone nas proximidades do Sul da Itália.  

Os italianos batizaram, informalmente, o fenômeno atmosférico de Lúcifer por causa do “calor infernal” que ele trouxe. Esse anticiclone se formou no início desse mês de agosto e, durante os vários dias em que esteve ativo, ajudou a aumentar a onda de calor ao redor do Mar Mediterrâneo. 

As diferenças na pressão e na temperatura do ar geram diferentes camadas na atmosfera terrestre. Essas camadas, inclusive, têm sentidos diferentes na circulação dos ventos. Ciclones e anticiclones são fenômenos atmosféricos que criam uma ligação vertical entre essas diferentes camadas de ar e que acabam gerando diferentes fenômenos climáticos. Para facilitar o entendimento, imaginem a chaminé de uma lareira ou de um fogão a lenha. 

No caso de um ciclone, também chamado de depressão atmosférica ou centro de baixas pressões, essa chaminé vai forçar o ar para cima (sentido ascendente), levando umidade para as camadas mais altas da atmosfera e gerando a formação de nuvens e a precipitação de chuvas e tempestades, conforme o caso.  

Já no caso de um anticiclone ou centro de alta pressão, o efeito é exatamente o contrário – a “chaminé” vai sugar o ar de camadas mais altas da atmosfera e forçá-lo para baixo (sentido descendente). Foi justamente isso que o “diabólico” Lúcifer fez – grandes massas de ar quente vindas do Saara e que estavam em camadas mais altas da atmosfera foram canalizadas pelo anticiclone para baixas altitudes e espalhadas ao redor do Mar Mediterrâneo. 

E as consequências foram dramáticas. Em Kaiouan, na Tunísia, os termômetros marcaram temperaturas de até 50,3º C, as mais altas já registradas na região em toda a sua história. Em Túnis, a capital do país, a temperatura chegou aos 48,9º C, também uma marca recorde. 

Na vizinha Argélia, a forte onda de calor desencadeou uma série de incêndios em florestas e pequenas cidades a Leste da capital Argel, cobrindo inclusive uma região montanhosa vizinha com uma grossa nuvem de fumaça. Ao menos 69 pessoas morreram vitimadas pelas chamas e/ou pela fumaça. Na região argelina de Bejaia, as temperaturas chegaram aos 48,4º C. 

Em território europeu a situação não foi menos complicada. Na região Central da Sicília, ilha do Sudoeste da Itália, a temperatura chegou a inacreditáveis 47,8º C na semana passada. Autoridades de 15 províncias italianas, do Norte ao Sul do país, relataram baixa umidade e sensação térmica acima dos 40º C. Em cidades como Bolonha, Bolzano, Brescia, Perugia, Turim, Ancona, Campossado, Florença e Pescara foram emitidos alertas de emergência. 

Incêndios florestais passaram a ser relatados em diversas partes da Itália. Na Sicília e na Calábria, duas das regiões em situação mais crítica, os bombeiros locais chegaram a realizar 500 operações de combate a focos de incêndios florestais apenas entre os dias 11 e 12 de agosto. 

Como resultado da intensa onda de calor, os incêndios florestais no país batem recorde histórico. De acordo com dados do EFFIS – Sistema Europeu de Informações sobre Incêndios Florestais, na sigla em inglês, já foram destruídos mais de 140 mil hectares de áreas verdes na Itália em 2021. Para efeito de comparação, essas perdas foram de 14 mil hectares em 2018, 37 mil hectares em 2019 e de 53 mil hectares em 2020

Uma cena dramática na região de Pescara, no Sul da Itália, exemplifica a violência desses incêndios. Turistas e moradores foram surpreendidos com uma densa nuvem de fumaça que chegou até nas praias. Centenas de moradores e turistas tiveram de ser evacuadas pelos serviços locais de emergência, sendo que ao menos 30 pessoas necessitaram de assistência médica por causa da intoxicação por fumaça. 

Em Oristano, na região Oeste da Sardenha, uma área com cerca de 200 hectares de floresta foi destruída em poucas horas por um grande incêndio. Ao menos 800 moradores da região tiveram de ser evacuados pelos serviços de emergência. Uma estatística impressionante: os bombeiros italianos já receberam mais de 37 mil chamadas comunicando a ocorrência de incêndios florestais desde o último dia 15 de junho. Foram contabilizadas 1.500 chamadas somente no dia 1º de agosto. 

Na Grécia, uma das regiões em situação mais crítica é a Ilha de Eubeia (ou Evia), onde os incêndios já atingiram cerca de metade do território de 3,6 mil km². A ilha, que tem grande parte do seu território coberto por florestas de pinheiros, sofre com uma combinação de baixa umidade do ar e temperaturas que beiram os 45º C. 

No último dia 14, um comunicado do Governo local informava que a frente das chamas se espalhava por uma faixa de 30 km, o que tornava o combate ao fogo bastante difícil. Ao menos 260 bombeiros locais, com apoio de outros 200 bombeiros da Ucrânia e da Romênia combatiam as chamas. Cerca de 100 viaturas e 7 aviões e helicópteros davam apoio a essas equipes. 

A Turquia, país que tem seu território dividido entre a Europa e a Ásia, também vem enfrentando grandes incêndios florestais, considerados os piores de sua história. Até o início do mês de agosto, mais de 170 focos de incêndios em 39 das 81 províncias do país já haviam sido relatados. Pelo menos 8 pessoas morreram. As chamas destruíram centenas de quilômetros quadrados de florestas, plantações e dezenas de imóveis. 

O anticiclone Lúcifer perdeu força e se desfez. O seu rastro de calor, entretanto, segue avançando, especialmente na direção de Portugal e Espanha, países que já sofrem muito com o calor e com incêndios em suas matas. 

Ondas de forte calor sempre foram comuns na Europa nessa época do ano; porém, sua duração era de apenas poucos dias. Neste ano, o calor vem persistindo desde meados do mês de junho e não está dando sinais de que vai recuar tão cedo. São novos e complicados tempos que estão chegando… 

A EXPANSÃO DO DESERTO DO SAARA E SUA INFLUÊNCIA NA FORTE ONDA DE CALOR NA EUROPA

Regiões do Sul da Europa estão enfrentando uma forte onda de calor nesses últimos meses e uma das consequências mais visíveis do fenômeno são os fortes incêndios florestais que estão destruindo grandes extensões de matas na Itália, na Grécia e na Turquia, entre outras regiões. 

Uma parte considerável do avanço dessa forte onda de calor se deve a mudanças climáticas no Saara, o maior deserto do mundo e “vizinho” próximo da Europa. Estudos recentes feitos por pesquisadores da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, concluíram que o Saara cresceu cerca de 7 mil km² a cada ano entre 1920 e 2013. Com isso, o Saara ficou cerca de 10% maior em apenas um século. 

Essa expansão é mais visível rumo ao Sul, onde as areias do Saara avançam cada vez mais sobre o Sahel, uma extensa faixa de clima semiárido que atravessa toda a África no sentido Leste-Oeste. Segundo os pesquisadores, essas mudanças foram influenciadas por “variações naturais do clima, como alterações na temperatura superficial do Atlântico e na circulação de ventos quentes, explicariam parte (dois terços) da redução das chuvas e do avanço do Saara. O terço restante pode ser consequência das alterações no clima causadas por influência humana”

Segundo os pesquisadores, as mudanças climáticas em andamento no Deserto do Saara podem resultar numa amplificação da circulação de ventos quentes rumo ao Norte, o que seria a causa da forte onda de calor na Europa. Isso também seria um indicativo de uma provável expansão do deserto rumo ao Norte. 

Essas mudanças climáticas no Saara não são novas – elas vêm ocorrendo há cerca de 20 mil anos e começaram após o último período de Glaciação ou Era do Gelo, como é mais conhecida popularmente. Naqueles tempos, o Norte da África apresentava um clima mais úmido e com temperaturas mais baixas que as atuais, contanto com diversos rios permanentes. Alguns especialistas acreditam que o famoso Rio Nilo, que hoje atravessa o Egito, o Sudão e outros países, correndo de Sul a Norte e deságua no Mar Mediterrâneo, antigamente atravessava todo o Norte da África e tinha a sua foz no Oceano Atlântico.  

Grande parte do território que hoje se encontra soterrado por dezenas de metros de dunas de areia seca era coberto por densas florestas – as partes “mais secas” eram cobertas por vegetação de savana, muito parecida com o nosso Cerrado. Todos os animais africanos que você costuma ver nos documentários como elefantes, girafas, zebras, antílopes, rinocerontes, hipopótamos, macacos e aves de todos os tipos se espalhavam por todo esse território.  

Pinturas rupestres deixadas pelos antigos habitantes da região em pedras espalhadas por todo o deserto do Saara mostram cenas onde aparecem todos esses animais. Se você pudesse viajar no tempo e desembarcasse no meio desse território, nada lhe lembraria a imagem atual do Saara. 

Esse clima e vegetação permaneceram inalterados até um período entre 8 e 10 mil anos atrás, quando o nosso planeta sofreu uma leve alteração no seu eixo de rotação, o que foi suficiente para alterar a incidência solar no Norte da África e provocar uma alteração climática nos regimes de umidade e temperatura. Alguns cientistas afirmam que essa mudança ocorreu há menos tempo – cerca de 5 mil anos atrás, mas com as mesmas consequências – as florestas retrocederam lentamente até desaparecer e as áreas de savana se ampliaram.  

É aqui que entra em cena uma tese interessante, resultado de uma série de pesquisas publicadas nos últimos anos, para a qual devemos prestar atenção: o processo de desertificação do Norte da África que levou ao surgimento do Saara foi acelerado por ações humanas – evidências arqueológicas indicam que o avanço da criação e pastoreio de animais a partir de 10 mil anos atrás foi acompanhado de um processo de substituição de trechos de matas por pastagens (qualquer semelhança com a queima de árvores da nossa Caatinga Nordestina para a formação de campos não é mera coincidência).  

Sem a proteção dessas matas e com o avanço das mudanças climáticas naturais, além da redução das chuvas, essas regiões tiveram um processo mais rápido de desertificação. Na região do Sahel, onde o Saara avança com maior velocidade, houve um processo semelhante de devastação da vegetação por ações humanas. O resto é história e geografia. 

Uma evidencia histórica das mudanças climáticas no Saara pode ser visto no Lago Chade, aquele que já foi o maior lago do Norte da África. Há cerca de 2 mil anos atrás, uma expedição de legionários romanos que mapeava a região encontrou um lago gigantesco, descrito com um tamanho equivalente ao Alemanha ou cerca de 350 mil km². Daqueles tempos para cá, o Lago não parou de diminuir de tamanho, um fenômeno que se acelerou muito nas últimas décadas

Entre 1966 e 1973, a superfície ocupada pelo Lago Chade passou de 22 mil km² para 15,4 mil km². Em 1982, a superfície total do Lago estava reduzida a 2.276 km². Em 1994, imagens de satélite mostravam o Lago com 1.756 km², uma área que vem se mantendo nos últimos anos. Grande parte dessa redução da área ocupada pelo Chade em décadas recentes se deve a super exploração das águas por atividades agrícolas e pastoris nas áreas de entorno do lago. 

Para que todos tenham uma ideia do tamanho da influência do Deserto do Saara no clima mundial – estudos da NASA – Administração Nacional de Aeronáutica e Espaço dos Estados Unidos, na sigla em inglês, indicam que cerca de 180 mil toneladas de poeira do Saara são carregadas pelos ventos que cruzam o Oceano Atlântico todos os anos. Cerca de 28 milhões de toneladas desse pó caem sobre a Floresta Amazônica. Esse pó saariano é rico em fósforo, um importante nutriente para as plantas, ou seja, o Deserto do Saara fertiliza a nossa Amazônia! 

Fica fácil perceber quão grande é a influência do clima do Saara na Europa – o Sul da Espanha, citando um exemplo, está a cerca de 50 km do trecho marroquino do Deserto. Com as mudanças climáticas e com o aumento das temperaturas no planeta, essa influência deverá crescer ainda mais e poderá alterar completamente o clima de grande parte do continente europeu dentro de poucas décadas.  

As ondas de calor e os grandes incêndios florestais que assistimos hoje são apenas os primeiros capítulos dessas mudanças climáticas na Europa… 

INCÊNDIOS FLORESTAIS NA ITÁLIA BATEM RECORDE EM 2021

De acordo com informações do EFFIS– Sistema Europeu de Informações sobre Incêndios Florestais, na sigla em inglês, os incêndios na Itália do início do ano até agora já destruíram mais de 140 mil hectares de áreas verdes. Em todo o ano de 2018, foram perdidos 14 mil hectares; em 2019, mais de 37 mil hectares. No ano de 2020 as perdas foram de 53 mil hectares

A se manter essa tendência, o ano de 2021 irá bater o recorde de incêndios florestais no país, estabelecido no ano de 2017, quando foram destruídos cerca de 141 mil hectares de áreas verdes. Essa área equivale a soma dos territórios de Veneza, Genova, Turim, L`Aquila e Nápoles. 

As regiões mais atingidas pelas chamas são a Sicília, a Calábria e a Sardenha. Em uma postagem anterior comentamos que foi registrada a inacreditável temperatura de 47,8º na Sicília na semana passada. Com altas temperaturas e baixa umidade do ar, basta uma pequena fagulha para se iniciar um incêndio de grandes proporções. De acordo com o EFFIS, a Itália está sendo o país europeu mais afetado por incêndios neste ano. 

Segundo a Associação Legambiente, uma organização ambientalista italiana, os incêndios florestais no país mataram cerca de 20 milhões de animais apenas nos dois últimos meses. São veados, esquilos, ouriços, tartarugas, lagartos e pássaros, entre outras espécies, que ficaram cercados pelas chamas ou que foram intoxicados pela densa fumaça

Essa estimativa de animais mortos é calculada em função da área total queimada, concentrada especialmente nas regiões do Sul da Itália. Cerca de 55% dos incêndios florestais do país estão concentrados na Campania, Apúlia, Calábria, Sardenha e Sicília.  

Meados do mês de agosto na Itália é sempre marcado por altas temperaturas. Os italianos chamam esse período de “Ferragosto”. Normalmente, esse pico de altas temperaturas costuma durar poucos dias. Esse ano, entretanto, as altas temperaturas vem se apresentando desde junho, atingindo as regiões mais meridionais da península italiana.  

De acordo com os meteorologistas, “essa frente de alta pressão viaja do Saara ao Mar Mediterrâneo e chega à Itália trazendo umidade”. Segundo as previsões, essa onda de calor deverá atingir toda a Itália, se deslocando inclusive para as regiões mais ao Norte. 

Um exemplo da violência dos incêndios florestais na Itália esse ano foi visto no início deste mês na cidade de Pescara, no Sul do país. Uma espessa nuvem de fumaça se abateu sobre a praia, assustando centenas de turistas (vide foto). Moradores da região e turistas tiveram de ser evacuados pelos serviços de emergência, sendo que 30 pessoas foram hospitalizadas por conta de intoxicação por fumaça. 

Outro caso dramático foi o que ocorreu na região de Oristano, no Oeste da Sardenha. Cerca de 200 hectares de florestas foram destruídos em poucas horas pelas chamas. Cerca de 800 moradores da região tiveram de ser evacuados pelos serviços de emergência locais.  

No dia 13, um grande foco de incêndio passou a ser combatido pelos bombeiros na região de Tivoli, que fica a cerca 40 km de Roma. Desde o último dia 15 de junho, os bombeiros italianos já receberam mais de 37 mil chamadas comunicando a ocorrência de incêndios. No dia 1º de agosto foram contabilizadas 1.500 chamadas. De acordo com a Coldiretti, uma das maiores associações de agricultores do país, pelo menos 60% desses incêndios tem origem criminosas

Dois incendiários foram presos no dia 2 de agosto em Troina, uma cidade localizada na região central da Sicília. Nessa região estão sendo construídas usinas de geração eólica e as autoridades locais suspeitam que as empresas responsáveis pelo empreendimento podem estar por trás dos incêndios. A lógica que está sendo seguida pelos policiais é simples – com as matas queimadas, o preço das terras tende a cair, algo que facilitaria a compra de terras para a expansão das usinas. 

O Governo italiano promulgou uma lei no ano 2000 que proíbe a mudança do uso de áreas atingidas por incêndios florestais durante os 15 anos seguintes ao incêndio, justamente para evitar o uso dessa estratégia por grandes fazendeiros e empresários. Porém, cabe as autoridades de cada região aplicar ou não essa legislação. 

Além das condições climáticas propiciarem a rápida propagação de incêndios florestais e das ações criminosas, os bombeiros italianos também estão sofrendo com a falta de recursos financeiros, com a falta de pessoal e com inúmeros problemas burocráticos. Para completar o quadro de problemas, uma lei promulgada em 2016, fundiu o CFS – Corpo Florestal do Estado, com os carabinieri, a polícia militar italiana. Bombeiros acostumados a trabalhar apenas com incêndios em áreas urbanas passaram a trabalhar também em áreas florestais e vice-versa. 

O grande aumento das áreas de bosques e matas na Itália nos últimos 30 anos, o que seria uma ótima notícia para o meio ambiente, também está se voltando contra os bombeiros. A Itália aumentou suas áreas verdes em cerca de 25%, passando de 9 milhões para 11,4 milhões de hectares, uma cobertura vegetal correspondente a mais de 38% do seu território.  

Esse aumento na cobertura florestal da Itália não se deve a qualquer política pública ou programas de reflorestamento. A principal razão é o declínio das atividades agrícolas no país e a migração da população rural – especialmente os jovens, para as áreas urbanas. Sem a pressão da agricultura, as florestas começaram a recuperar suas áreas perdidas para os campos agrícolas. 

O que seria uma grande notícia a ser comemorada em tempos de aquecimento global e mudanças climáticas, acabou se transformando em um grande problema para o país. Com a falta de uma infraestrutura adequada para o combate aos incêndios florestais, esse aumento nas áreas verdes do país passou a representar mais combustível para as chamas e mais problemas para a população. 

Cadê os defensores da Floresta Amazônica, que não estão vendo uma barbaridade dessas acontecer em seu “próprio quintal”? 

OS GRANDES INCÊNDIOS QUE ESTÃO DEVASTANDO A ILHA DE EUBEIA NA GRÉCIA

Com uma área total de mais de 3,6 mil km², a Ilha de Eubeia (ou Evia) é a segunda maior da Grécia, ficando atrás apenas da famosa Ilha de Creta. A ilha tem o formato de um cavalo-marinho, com cerca de 150 km de comprimento e uma largura entre 6 e 50 km. A população da ilha é de cerca de 200 mil habitantes. 

Eubeia é atravessada por uma cadeia de montanhas e tem toda a sua faixa Norte recoberta de pinheiros, uma raridade na Grécia, país que devastou a maior parte de suas florestas ainda na Antiguidade Clássica. A base da economia da ilha é a mineração, principalmente da magnesita, do linhito, ferro e níquel. Outra produção importante da Ilha Eubeia é o mármore. 

Nas últimas semanas, a discreta Eubeia passou a ocupar grandes espaços nos noticiários internacionais devido aos violentos incêndios florestais que tomaram conta da ilha. A combinação de baixa umidade do ar com temperaturas que beiram os 45º C transformaram a ilha em um verdadeiro inferno de calor e chamas. Algumas fontes afirmam que metade da ilha já foi devastada pelos incêndios. 

De acordo com informações do Governo local, a frente dos incêndios cobria uma faixa de 30 km de largura no último dia 14, uma situação que tornava o combate às chamas bastante difícil. Cerca de 260 bombeiros gregos apoiados por 200 bombeiros da Ucrânia e da Romênia atuavam no combate às chamas, apoiados por cerca de 100 viaturas e 7 aviões e helicópteros. 

Entre 2 e 3 mil moradores da ilha e turistas precisaram ser evacuados às pressas por embarcações e balsas, sendo transportados para a área continental da Grécia. As autoridades locais estimam que mais de 40 mil pessoas estão sendo afetadas diretamente pela tragédia e serão necessários vários anos para reverter todos os danos ambientais desencadeados pelo incêndio. 

De acordo com informações do Governo da Grécia do último dia 14, haviam 55 focos de incêndios florestais no país, sendo que 5 deles eram de grandes proporções. Dados do EFFIS – Sistema Europeu de Informações sobre Incêndios Florestais, na sigla em inglês, indicam que mais de 56 mil hectares de florestas gregas foram devastados por incêndios apenas nesse mês de agosto – algumas agências de notícias falam de 100 mil hectares já destruídos pelos incêndios desde julho.  

A média apurada entre os anos de 2008 e 2020 para o mesmo período foi de 1.700 hectares de florestas queimadas, o que nos dá uma ideia da gravidade da situação atual. A fortíssima onda de calor que se abateu sobre a Grécia neste ano é a maior dos últimos 30 anos e, de acordo com a maioria dos analistas e cientistas, ela é uma amostra das grandes mudanças climáticas decorrentes do aquecimento global

Um exemplo da fúria das chamas foi sentido pelos moradores do vilarejo de Pefki – a população foi obrigada a abandonar suas casas e a se refugiou numa praia, dormindo em espreguiçadeiras e em carros. Impotentes, esses moradores assistiram as chamas consumirem as matas, inclusive plantações de oliveiras com árvores com idade de 2 mil anos, um patrimônio natural insubstituível.   

Além da Ilha de Eubeia, as regiões de Arcádia, Messênia, Mani e Peloponeso também vem sofrendo muito com os incêndios florestais. E muito pior – incêndios já foram registrado na região de Asprópyrgos, uma área industrial localizada a cerca de 33 km de Atenas, a capital do país. Com cerca de 4 milhões de habitantes, Atenas já vem convivendo há várias semanas com uma densa nuvem de fumaça dos incêndios (vide foto), uma situação que tem grande potencial para ficar mais grave. 

Agosto é o mês das férias de verão na Europa e centenas de milhares de turistas costumam viajar para a Grécia e suas famosas ilhas no Mar Egeu nessa época. Em tempos em que a pandemia da Covid-19 está arrefecendo no continente, os gregos imaginavam recuperar parte das grandes perdas econômicas do último ano nessa temporada de férias.  

A Grécia tem uma área total com pouco mais de 130 mil km² e uma população de 11 milhões de habitantes. A combalida economia do país é fortemente dependente do setor de serviços, que responde por cerca de 80% do PIB – Produto Interno Bruto, do país. O setor do turismo sozinho responde por 20% das receitas da economia grega. Com a pandemia da Covid-19 e com as restrições para a circulação de pessoas, a economia da Grécia foi uma das mais prejudicadas de toda a Europa. 

A atual temporada de férias seria uma espécie de “salvação da lavoura” para os gregos, que a cada dia veem suas esperanças de melhores dias desaparecerem na forma da fumaça dos grandes incêndios florestais. A Grécia é dona de um passado glorioso, quando foi berço de toda a cultura do Ocidente, porém, tem um futuro cada vez mais incerto.

Esses tristes eventos parecem ser apenas o começo de novos tempos, quando as mudanças climáticas estão remodelando e transformando o mundo que conhecíamos até agora. Só o tempo nos dirá o que o futuro nos trará…