O COMPLEXO ENERGÉTICO DA REPRESA BILLINGS / USINA HIDRELÉTRICA DE CUBATÃO

Usina Henry Borden

Na última postagem, falamos da construção da Usina de Parnahyba, na grafia da época, inaugurada em 1901 e que foi uma das primeiras unidades de geração hidrelétrica da Região Metropolitana de São Paulo. Além de todos os impactos que a chegada da eletricidade provocou na vida e na economia da cidade, houve também uma importante mudança na geografia da Pauliceia – para regularizar as vazões do rio Tietê e garantir a operação da Usina de Parnahyba nos meses de seca, foi necessária a construção de uma grande represa na região de Santo Amaro. Essa represa, concluída em 1908 e que depois passou a ser chamada de Guarapiranga, foi transformada em uma importante área de lazer dos paulistanos e levaria a uma expansão da mancha urbana da cidade rumo ao Sul, na direção da represa. 

Uma outra grande obra construída para fins de geração de energia elétrica e que causou uma grande mudança na geografia da Região Metropolitana de São Paulo foi o complexo energético da Represa Billings / Usina Hidrelétrica de Cubatão. Vamos conhecer um pouco dessa história: 

A Usina de Parnahyba foi o primeiro projeto implantado pela Light and Power Company, a empresa canadense que se tornou concessionária de energia elétrica na cidade de São Paulo e Região em 1899. Na sua  inauguração em 1901, Parnahyba produzia 2 MW de energia elétrica – pouco mais de 10 anos depois, essa potência já tinha sido aumentada para 12,8 MW, atendendo a uma demanda cada vez maior da população e das indústrias por energia elétrica. Gradativamente, a Light passou a construir novas pequenas usinas hidrelétricas, aumentando a sua capacidade de geração de energia.

Na década de 1920, os engenheiros da Light desenvolveram o projeto de uma usina hidrelétrica revolucionária para os padrões da época. Essa usina seria construída em Cubatão, município da Baixada Santista, e utilizaria o desnível de mais de 750 metros da Serra do Mar para potencializar a força das águas lançadas a partir de uma represa construída no Planalto de Piratininga. Esse projeto foi apresentado para as autoridades do Governo Federal e em 1922, um decreto Presidencial autorizou a construção da Represa do Alto da Serra, que depois passou a ser chamada de Billings, da Usina Hidrelétrica de Cubatão, do sistema de tubulações para a descida da água até Cubatão (vide foto), além da implantação de um sistema para a transposição de águas da bacia hidrográfica do rio Tietê para a Represa Billings

As obras foram iniciadas em 1925 e é interessante ressaltar que, como era normal na época, todo esse complexo de obras não teve nenhum estudo de impacto ambiental, que aliás foram muitos. Um dos maiores símbolos da cidade de São Paulo, a famosa garôa paulistana, começou logo após a construção da Represa Guarapiranga e aumentou muito após a conclusão da Represa Billings

Um argumento interessante que foi usado para justificar a construção desse complexo energético foi o auxílio no controle das cheias anuais do rio Tietê, responsáveis por enchentes e alagamentos catastróficos nas partes baixas de São Paulo. No projeto criado pela Light, essas águas excedentes do período das chuvas seriam bombeadas através do canal do rio Pinheiros na direção da Represa Billings, ajudando a reforçar os estoques de água. Para realizar esse bombeamento, duas estações elevatórias seriam construídas no rio Pinheiros, sendo uma na região da Vila Olímpia e a outra no bairro da Pedreira. Para viabilizar essa parte do projeto, o sinuoso canal do rio Pinheiros foi completamente retificado, com trabalhadores escavando a terra com pás e picaretas e grandes volumes de terra sendo carregados por carroças puxadas por burros. 

Além de preparar o rio Pinheiros para a futura função de transposição das águas para a represa Billings, estas obras transformariam antigas várzeas alagáveis da região em “terras secas”. Um dos exemplos é uma região do bairro de Pinheiros, que anos depois foi loteada pela Companhia City, uma subsidiária da Light and Power Company, especializada no desenvolvimento imobiliário e, por acaso, a mesma empresa responsável pela construção do Complexo Billings. A região foi transformada no elegante e sofisticado bairro do Alto de Pinheiros, ainda hoje uma referência em alto padrão imobiliário na cidade de São Paulo. Além do planejamento impecável, com ruas elegantes, praças e todo equipamento urbano necessário, o bairro receberia as linhas de bonde operadas pela empresa Light, um diferencial em tanto numa cidade que sempre teve, e continua tendo, problemas de transporte. Como dizia a minha mãe: “esses estrangeiros sabiam como ganhar muito dinheiro! ” 

A represa Billings foi formada a partir do represamento dos rios Grande, Pequeno, Capivari, Pedra Branca, Taquacetuba, Alvarengas, Bororé, Cocaia e outros rios menores, perfazendo cerca de 560 km² de área de drenagem, com uma vazão somada total de 16,5 m³/s. O espelho d’água da Represa ocuparia uma área inundada de aproximadamente 172 km² e teria capacidade para armazenar 1,2 bilhões de metros cúbicos de água. Mesmo nos dias atuais, quando se segue pelas Rodovias Anchieta e Imigrantes ou pelo Trecho Sul do Rodoanel, a visão do grande reservatório ainda é impressionante. O Complexo Billings foi concluído em 1937; o sistema de transposição das águas do rio Tietê para a represa Billings só passou a operar integralmente a partir de 1950. 

A Usina Hidrelétrica de Cubatão, que depois teve seu nome mudado para Usina Hidrelétrica Henry Borden, teve seu primeiro grupo gerador inaugurado em 1926. A capacidade geradora da Usina foi sendo ampliada até 1950, quando o 14° grupo gerador entrou em funcionamento, atingindo uma capacidade total instalada de 889 MW. Os grupos geradores da Usina Henry Borden eram acionados por turbinas Pelton, que eram movidas pelos fortíssimos jatos de água que desciam do alto da Serra do Mar. 

O fantástico complexo Represa Billings / Usina Henry Borden foi fundamental para o desenvolvimento da Região Metropolitana de São Paulo. A farta disponibilidade de energia elétrica na região foi um dos critérios usados na escolha da Região do ABC Paulista (sigla para os municípios de Santo André, São Bernardo e São Caetano) como sede das primeiras indústrias automobilísticas do Brasil na década de 1950. 

Infelizmente, o grande crescimento populacional da Região Metropolitana de São Paulo acabou decretando o “fim” da geração no complexo Billings – toda a poluição das águas do rio Tietê acabava sendo transferida para a represa Billings através do sistema de bombeamento do rio Pinheiros. A Constituição Paulista de 1992 proibiu essa transferência de águas, exceto em situações de emergência nos casos de chuva forte. Desde então, a geração na Usina Hidrelétrica Henry Borden foi reduzida em 75% e a produção atual está na casa de 200 MW. 

Apesar de não receber mais águas do poluído rio Tietê, a Represa Billings continua sofrendo com a poluição – perto de 1 milhão de pessoas vivem nas áreas de mananciais ao redor do reservatório e a maior parte dos seus esgotos acabam sendo lançados nas águas da Represa. Ironicamente, mais de 1,5 milhão de pessoas dependem das águas da Represa Billings para o seu abastecimento diário – uma barragem foi construída em um dos braços da Represa, evitando assim o contato com as águas poluídas do resto do reservatório.

3 Comments

  1. […] O potencial hidrelétrico da bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul é um destaque a parte. A Usina Hidrelétrica Ilha dos Pombos foi a primeira a ser construída no rio Paraíba do Sul em Carmo, no interior do Estado do Rio de Janeiro. Inaugurada em 1924, a usina utilizou um projeto técnico bastante inovador para a época, ampliando a capacidade do sistema gerador da Light em 187 MW. Uma curiosidade desta obra – a execução do projeto foi coordenada pelo engenheiro norte-americano Asa Billings, o mesmo que anos depois chefiou as obras do complexo da Represa Billings (que recebeu o nome em homenagem ao seu construtor) e Usina Hidrelétrica de Cubatão.  […]

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