OS GRAVES RISCOS DE SALINIZAÇÃO DA REGIÃO DO DELTA DO RIO MEKONG NO VIETNÃ

As formações conhecidas como delta são encontradas normalmente na foz de rios de planície, onde as águas se dividem em vários braços ou canais antes do encontro com as águas de um lago, rio ou oceano. Devido à baixa declividade dos terrenos, as regiões dos deltas favorecem o acúmulo de sedimentos carreados pelos rios, o que leva a formação de ilhas.  

As áreas deltaicas são, desde tempos imemoriais, importantes centros habitacionais. Um grande exemplo é o delta do rio Nilo no Egito, um dos berços de nossa civilização. A grande disponibilidade de águas, terras férteis e alimentos (peixes, crustáceos e outros animais) sempre funcionaram como um atrativo para as antigas populações nômades, que graças a este conjunto de características, se transformaram em sedentárias. 

O Mekong é o maior e mais importante rio do Sudeste Asiático e sempre ocupou uma posição de destaque nas comunicações e transportes entre os antigos reinos do Sião (atual Tailândia), Laos, Camboja, China, Malásia, Indonésia e outras nações da região. Seu delta ocupa uma área com aproximadamente 40 mil km², equivalente a duas vezes o território do Estado de Sergipe, com aproximadamente 4 mil ilhas e 3.200 km de canais.  

Localizado inteiramente dentro do território do Vietnã, o delta do Mekong abriga uma população de 17 milhões de pessoas, que dependem das suas águas para abastecimento, alimentação, trabalho e transportes. As terras do delta são tomadas por plantações de arroz – o Vietnã é o terceiro maior produtor mundial do grão, o alimento mais importante do Extremo Oriente e produto de exportação fundamental para a economia do país

Há uma surpreendente ligação entre o delta do Mekong e os Lusíadas, o grande poema épico que narra a saga dos navegadores portugueses pelo mundo. O navio em que o poeta Luís Vaz de Camões viajava naufragou na região por volta de 1565, quando fazia uma viagem de Macau para Goa. Reza uma lenda, bastante contestada pelos historiadores, que foi durante esse naufrágio que Camões teve de tomar uma difícil decisão – salvar o manuscrito dos Lusíadas, obra que estava escrevendo há vários anos, ou salvar Dinamene, sua jovem amante chinesa. Camões teria escolhido salvar seus manuscritos e passou meses vivendo como um náufrago no delta, até conseguir ser resgatado.  

Essa importantíssima região natural e econômica do Vietnã está sendo ameaçada em duas frentes: por um lado, grandes obras de barragens de usinas hidrelétricas estão em construção por toda a calha do rio Mekong, reduzindo cada vez os caudais de águas doces que chegam até a região do delta. Por outro lado, o nível das águas do oceano está subindo e avançando cada vez mais na direção do interior. O resultado é um avanço da salinização de terras e águas, um processo que poderá inviabilizar completamente a agricultura em um período de poucos anos. 

O rio Mekong nasce nas Montanhas Himalaias do Tibete, região controlada pela China, e ao longo de seu curso de mais de 4.300 km atravessa outros cinco países – a fronteira entre Mianmar e Laos, grande parte da fronteira entre o Laos e a Tailândia, Camboja e por fim o Vietnã. Cerca de 100 milhões de pessoas, pertencentes a quase uma centena de grupos étnicos diferentes, vivem ao longo das margens do rio Mekong e dependem, direta ou indiretamente, de suas águas. 

A China, que já construiu três hidrelétricas no alto rio Mekong, está construindo mais uma unidade geradora – esse conjunto de represas já causou uma redução substancial nos caudais do rio. O Laos pretende construir oito unidades, o Camboja duas, além de duas hidrelétricas previstas na fronteira entre a Tailândia e o Laos. Essa sucessão de barragens de usinas hidrelétricas, construídas em blocos independentes por diferentes países, não estão considerando que o rio Mekong é um meio ambiente único e ameaçado em diferentes frentes.   

O barramento sucessivo de um rio causa todo um conjunto de impactos na dinâmica das populações animais e vegetais. Essas mudanças vão desde a alteração da velocidade das correntezas, transformando ambientes lóticos (de águas com forte correnteza) em lênticos (de águas paradas), algo que afeta plantas e animais, até a criação de obstáculos para espécies de peixes migratórios, que na época da reprodução buscam águas tranquilas correnteza acima.  

Um exemplo de graves alterações ambientais provocadas pela construção de sucessivas usinas hidrelétricas é o nosso rio São Francisco, onde estamos assistindo à extinção de diversas espécies de peixes, entre elas o icônico surubim. O rio Mekong tem aproximadamente 1.200 espécies de peixes e produz, anualmente, mais de 2 milhões de toneladas de pescados, alimento essencial para as populações. Essa produção pesqueira, fatalmente, irá declinar ao longo do tempo.   

A criação de sucessivas represas ao longo do rio também terá forte repercussão nos ciclos de cheias anuais, reduzindo fortemente as enchentes e o transporte de sedimentos formadores das camadas de solos férteis. A construção da represa de Assuã no Egito, na década de 1960, produziu um efeito semelhante e alterou os ciclos de cheias do rio Nilo. Sem essa fertilização natural das margens, as populações rurais passaram a depender do uso de fertilizantes químicos, um custo extra que reduziu, e muito, os lucros dos produtores; algo semelhante poderá acontecer nas terras marginais do rio Mekong, prejudicando dezenas de milhares de pequenos e pobres produtores rurais.  

Por fim, a redução da vazão do rio Mekong irá comprometer todo o equilíbrio da região do delta – sem a força e o volume dos atuais caudais de águas doces, haverá a tendência do avanço das águas salgadas do Mar da China para o interior dos canais do delta, alterando completamente as condições ambientais e inviabilizando a produção agrícola na região.  

Algo semelhante está acontecendo na foz do rio São Francisco, onde o nível de salinização está cada vez mais alto e diversas vilas e cidades têm cada vez mais dificuldade para o abastecimento de suas populações e irrigação de plantações. Por uma grande e trágica coincidência, a região da foz do rio São Francisco é uma grande produtora de arroz, cultura que está em franco declínio. 

Com o gradual aumento do nível dos oceanos, processo que deverá se intensificar muito até o final desse século, as águas salgadas encontrarão ainda mais facilidade para invadir os canais do delta do rio Mekong, completando assim os estragos que estão sendo feitos pelas intervenções humanas na calha do rio. 

Todo o trabalho que a natureza levou milhões de anos para concluir e que vem sustentando e abrigando populações humanas há milhares de anos, está sendo destruído em poucas décadas. O arroz não se adapta a águas salobras e sua cultura poderá ficar totalmente inviabilizada no delta do rio Mekong. Sem contar com sua mais importante cultura agrícola, o que será da enorme população que vive nessa grande região? 

Além da perda de sua principal fonte de trabalho e renda, essas populações também correm o sério risco de perder as suas fontes de abastecimento de água devido a salinização. Ou seja, será cada vez mais difícil viver e produzir no delta do rio Mekong, o que forçará milhões de moradores a mudar para outras regiões – são os refugiados do clima, uma população que não para de crescer em todo o mundo. 

O drama que vem assolando o delta do rio Mekong é muito semelhante ao que está acontecendo em uma extensa região entre a Índia e Bangladesh, onde encontramos o delta do rio Ganges, a maior formação do tipo do mundo. Falaremos disso na próxima postagem. 

VOCÊ JÁ OUVIU FALAR DE KIRIBATI?

Kiribati é um arquipélago localizado próximo da linha do Equador no centro do Oceano Pacífico. É composto por 33 ilhas e possui uma área total de 811 km², o que corresponde a duas vezes o tamanho de Curitiba. Apenas 20 das ilhas são habitadas, abrigando uma população de mais de 110 mil habitantes. 

Devido ao aumento do nível dos oceanos, todas as ilhas do arquipélago poderão desaparecer dentro de, no máximo,15 anos. Aliás, várias das ilhas já vem sofrendo com o avanço do mar e foram abandonadas pelas populações. Essa migração forçada está provocando problemas de superpopulação em algumas ilhas e cidades. 

O maior exemplo desse problema é Tarawa do Sul, a capital de Kiribati. Logo após a Segunda Guerra Mundial, a cidade tinha pouco mais de 1.600 habitantes. Atualmente, são mais de 50 mil pessoas ou metade de toda a população do arquipélago, o que torna a cidade uma das mais densamente povoadas do mundo. 

As ilhas que formam o arquipélago de Kiribati são na sua maioria atóis, formações que surgiram a partir de recifes de coral. Esse tipo de relevo é caracterizado por baixas altitudes em relação ao nível do mar – normalmente, essas altitudes variam entre 1 e 3 metros, por isso a extrema fragilidade das ilhas diante do aumento do nível das águas do oceano. 

Um dos maiores problemas ambientais vividos pela população de Kiribati são as ameaças as fontes de abastecimento de água. Pelas características dos solos das ilhas, as principais fontes de água são lagoas que acumulam as águas das chuvas, além de alguns poucos aquíferos. Com o avanço cada vez mais intenso das ondas contra as ilhas, existem riscos iminentes de salinização da água dessas lagoas. A população também constrói reservatórios para acumular a água das chuvas (tipo cisternas), porém, essas construções são em número insuficiente para atender a demanda. 

Além das enormes dificuldades ambientais, Kiribati sofre com a falta de recursos financeiros. As únicas fontes de divisas externas do arquipélago são as exportações de coco e óleo de coco, além de pescados, sendo que essa última atividade está sendo cada vez mais comprometida pela destruição dos corais da região devido ao aquecimento das águas do Oceano Pacífico. O país conta ainda com a ajuda externa enviada por alguns países ricos. O PIB – Produto Interno Bruto, de Kiribati é de apenas US$ 165 milhões. 

Uma fonte importante de recursos externos para o país e que cresceu muito nos últimos anos são as remessas de dinheiro feitas por cidadãos que migraram para outros países em busca de melhores oportunidades de vida. Muitos desses imigrantes podem ser classificados como “refugiados do clima”, uma população errante que vem crescendo em várias partes do mundo. 

Estudos indicam que o povoamento das Ilhas Kiribati se deu entre 4 e 5 mil anos atrás, feito por populações vindas da Ásia e que falavam a mesma língua usada pela população atualmente, o gilbertês. O primeiro contato com europeus ocorreu no século XVI, quando provavelmente embarcações da Espanha chegaram até as ilhas. Depois, as ilhas se tornaram ponto de parada para navios de diversas nações, de pescadores e traficantes de escravos.  

Sob o pretexto de restaurar a ordem no lugar, os ingleses acabaram assumindo o controle no final do século XIX, transformando as ilhas em um protetorado britânico em 1892 e depois em uma colônia em 1916. As Ilhas Kiribati só alcançariam a independência em 1979. 

Um momento marcante da história de Kiribati foi a sangrenta disputa pela posse das ilhas durante a Segunda Guerra Mundial. Forças do Japão assumiram o controle de uma das ilhas do arquipélago – Betio, em 1943, uma posição que era considerada estratégica para o avanço da guerra no Oceano Pacífico Central. Forças navais dos Estados Unidos realizaram uma violenta ofensiva contra as posições japonesas, que foram completamente destruídas. Esse confronto entrou para a história como a Batalha de Tarawa.  

Um outro capítulo negro da história das Ilhas Kiribati foi a realização de uma sequência de testes com armas nucleares pelos pelos Estados Unidos e Inglaterra ao longo do ano de 1962. Foram 31 testes no total em ilhas do Oceano Pacífico, sendo que 24 explosões ocorreram em uma das ilhas do arquipélago de Kiribati

Nos últimos anos, todas as preocupações do povo de Kiribati se concentram na elevação do nível do oceano e no risco do desaparecimento das ilhas. Há notícias que falam da compra de uma área de 20 km² nas Ilhas Fiji por parte do Governo local em 2014. Esse território será usado para assentar a população evacuada das ilhas no momento em que o avanço das águas inviabilizar a vida nas Ilhas Kiribati

O aumento do nível dos oceanos também está ameaçando a sobrevivência de outras ilhas e terras baixas em todo o mundo no curto prazo. Entre as ilhas podemos citar as Maldivas e as Seicheles, no Oceano Índico, e as Ilhas Salomão, Marshall e Tuvalu, no Oceano Pacífico. Entre as terras baixas destacam-se o Delta do rio Mekong, no Vietnã, e o Delta do rio Ganges entre a Índia e Bangladesh. 

Conforme comentamos na postagem anterior, os estudos indicam que o nível dos oceanos subiu 1,4 centímetro entre 1979 e 2017, principalmente devido ao derretimento da capa de gelo no Ártico, onde se incluem partes do Canadá, da Groenlândia, do Alasca (Estado norte-americano) e Rússia, além da Antártida. Conforme for o aumento das temperaturas do planeta até o final deste século, o aumento do nível dos oceanos poderá ficar entre 8 e 15 cm. 

A pergunta que pode surgir na mente de muitos dos leitores: como um aumento tão pequeno no nível dos oceanos já pode estar ameaçando a sobrevivência de ilhas como as do arquipélago de Kiribati? Simples – além da alta no nível das águas, entram em ação a força das marés, dos ventos e das correntes marítimas. Ondas mais altas e mais fortes, por exemplo, podem varrer facilmente um território com baixíssimas altitudes como o das iIhas Kiribati ou Maldivas

Enquanto escrevo essa postagem, algum ponto de terra ao redor do mundo pode estar desaparecendo sob as águas dos oceanos sem que tenhamos consciência disso. Esse foi o caso bem recente de 5 pequenas ilhotas pertencentes as ilhas Salomão, no Oceano Pacífico, que sumiram do mapa há pouco mais de 5 anos. E isso só foi percebido por que alguns pesquisadores estavam estudando 30 ilhas ameaçadas pelo aquecimento global. 

Os pesquisadores estavam analisando imagens aéreas e de satélites captadas entre 1947 e 2014, quando perceberam o desaparecimento das ilhas. O desaparecimento foi depois confirmado em entrevistas com moradores locais, que deram detalhes do “ocorrido”. As ilhas que foram encobertas pelas águas foram Kale, Rapita, Rehana, Kakatina e Zollies, que tinham áreas entre 10 mil e 50 mil metros quadrados. 

Outro caso bem semelhante aconteceu com a ilha japonesa Esanbe Hanakita Kojima, que ficava a Nordeste do arquipélago do Japão e ocupava menos de 2 km². A ilha simplesmente desapareceu, o que só foi percebido em 2018, quando um escritor tentou visitar a ilha. O vilão seria o aumento do nível do oceano na região. 

Nossa realidade daqui para frente, infelizmente, será a de fazer uma lista dos lugares paradisíacos que pretendemos visitar antes que o aquecimento global e o aumento do nível dos oceanos os destruam, começando talvez pelas Ilhas Maldivas e Seicheles

AS PREOCUPAÇÕES MUNDIAIS COM O DERRETIMENTO DE GRANDES MASSAS DE GELO NA ANTÁRTIDA

Um dos maiores problemas ambientais do nosso tempo é o aumento das temperaturas em todo o planeta. Entre outros males, esse aumento das temperaturas está provocando o derretimento de grandes massas de gelo no Ártico, na Antártida (ou Antártica, que muitos especialistas afirmam ser a melhor grafia) e em geleiras localizadas em altas montanhas. A consequência direta de tudo isso é um aumento gradual do nível dos oceanos – foram 1,4 centímetro de aumento entre 1979 e 2017. Isso pode parecer pouco, mas já pode estar causando muitos estragos pelo mundo afora. 

Nos últimos 40 anos, a velocidade do derretimento do manto de gelo da Antártida aumentou em cerca de 6 vezes. Somente nos últimos 20 anos, a Antártida perdeu cerca de três trilhões de toneladas de gelo. Além da incidência direta do calor do sol, esse derretimento também vem sendo provocado pelas águas mais quentes dos oceanos, que derretem e desestabilizam as bordas das plataformas de gelo flutuante. 

Um tema que passou a ocupar a agenda de muitos líderes mundiais nos últimos anos é o combate ao aquecimento global. Entre os objetivos do Acordo de Paris, um grande tratado ambiental assinado por 195 países em 2015, destacam-se as metas para a redução das emissões dos gases de efeito estufa, apontados como uma das principais causas do aumento das temperaturas em todo o mundo

Uma das premissas do Acordo é limitar em 2° C o aquecimento do planeta até o final do século XXI. As dificuldades para implementar muitas das medidas acordadas, entretanto, estão sinalizando para um aumento das temperaturas globais em, pelo menos, 3° C. 

A prestigiada revista científica Nature publicou uma interessante pesquisa onde se comparou as consequências ambientais para os diferentes aumentos das temperaturas globais previstos. Caso se consiga limitar o aumento da temperatura em apenas 2° C, a Antártida continuará perdendo sua cobertura de gelo, porém, em uma velocidade constante durante todo o século XXI. 

Caso o limite de 2° C seja ultrapassado, poderá haver uma aceleração abrupta no derretimento e perda de gelo por volta do ano de 2060, o que poderá dobrar o aumento esperado do nível do mar até o ano de 2100. A região onde haveria um maior aumento na perda de gelo é a Antártida Ocidental. 

O atual derretimento do gelo antártico resulta em um aumento do nível dos oceanos de cerca de meio milímetro a cada ano. Caso se consiga limitar o aumento das temperaturas globais entre 1,5 e 2° C, o estudo indica que o aumento do nível dos oceanos poderá a chegar a 2 milímetros por ano – isso significará que, até o ano de 2100, os oceanos terão aumentado de 80 a 90 milímetros.  

No caso do cenário de um aumento de 3° C das temperaturas globais, importantes plataformas de gelo e geleiras da Antártida poderão colapsar. As simulações sugerem que por volta do ano de 2060, o derretimento do gelo atingirá um “ponto sem retorno”, onde as perdas de gelo e o aumento do nível dos oceanos se voltará contra o manto de gelo e os penhascos marítimos, aumentando cada vez mais a perda de gelo.  

Se confirmando esse cenário, o aumento do nível dos oceanos até o ano de 2100 chegará a cerca de 150 milímetros. A partir de então, o derretimento do gelo da Antártida poderá representar um aumento de 5 milímetros por ano no nível dos oceanos. Mantido esse cenário, o nível dos oceanos poderá aumentar cerca de 1,5 metro até o ano 2300, um cenário nada animador para as futuras gerações. 

A notícia desanimadora desse estudo é que, qualquer que seja o limite no aumento das temperaturas globais, o gelo da Antártida vai continuar derretendo e provocando um aumento contínuo no nível dos oceanos. O que está em jogo são as consequências que toda a humanidade arcará até o ano 2100: um oceano entre 80 e 90 milímetros mais alto, ou, na hipótese de um aumento maior das temperaturas, de um oceano até 150 milímetros mais alto. 

Para mostrar o quão preocupante são as questões do derretimento da capa de gelo da Antártida e do aumento do nível dos oceanos, gostaria de mostrar os impactos que estão sendo previstos para um dos países mais pobres do mundo – Bangladesh. O país, que já fez parte do território da Índia, tem cerca de 148 mil km² e conta com uma população de 163 milhões de habitantes. 

Cerca de 90% das terras de Bangladesh tem uma altitude máxima de 10 metros em relação ao nível do mar. Para piorar, o território bangladês recebe todas as águas do trecho final de duas grandes bacias hidrográficas – dos rios Ganges e Brahmaputra. Durante o período das Chuvas da Monção, metade do território de Bangladesh já fica inundado. Com um aumento do nível das águas do Golfo de Bengala, haverá uma tendência de crescimento das terras inundáveis.  

De acordo com estudos realizados pela Diretoria de Gestão de Mudança Climática e Risco de Desastres do Banco Asiático de Desenvolvimento, um eventual “aumento do nível do mar poderia inundar periodicamente 14% da superfície de Dhaka, e as zonas mais próximas a Sundarbans terão pior sorte”. Os estudos também mostram que uma área de 47 mil km² próxima da costa do país ficará sujeita aos impactos de fortes tempestades, ciclones e aumento da salinidade. Nessa região vive cerca de 40 milhões de pessoas ou o equivalente a 25% de toda a população de Bangladesh.  

Em termos econômicos, as mudanças no padrão climático serão simplesmente catastróficas. A produção do arroz, o produto mais importante da agricultura local, sofreria perdas ente 17% e 28%. A agricultura responde por 20% do PIB – Produto Interno Bruto, de Bangladesh e ocupa 48% da mão de obra. Outros dois importantes setores da economia do país, a indústria do desmonte naval e a têxtil, também serão fortemente impactadas.  

Dhaka, a maior e mais importante cidade de Bangladesh, sedia milhares de pequenas oficinas de corte e costura e já sofre imensamente com o drama das enchentes – basta uma chuva de meia hora para inundar toda a cidade. Já os estaleiros espalhados ao longo da costa, esses ficariam com suas operações completamente inviabilizadas.  

Os modelos matemáticos criados pelos especialistas do Banco Asiático de Desenvolvimento indicam que um aumento na temperatura global de 2° C poderá levar Bangladesh a perder 8,8% do PIB até o ano de 2100. Até o ano de 2030, estão sendo estimados gastos anuais da ordem de US$ 89 milhões apenas para adaptar o país a resistir aos primeiros impactos ambientais. A partir do ano de 2050, esses investimentos precisarão ser quadruplicados e serão necessários investimentos anuais de US$ 369 milhões em obras para o combate dos efeitos das mudanças climáticas. Em um país onde a renda per capita é pouco superior a US$ 400.00, isso é muito dinheiro. 

Bangladesh é apenas um exemplo – existem dezenas e mais dezenas de países em todo o mundo com características físicas de seu território exatamente iguais, onde os impactos da elevação do nível dos oceanos seriam igualmente catastróficos. Lamentavelmente, a maioria desses países é quase tão pobre quanto Bangladesh. 

Nós brasileiros também precisamos nos preocupar com esse problema – a maior parte de nossa população vive em áreas litorâneas ou bem próximas a costa, que serão impactadas diretamente pelo aumento do nível do Oceano Atlântico. Conforme comentamos na postagem anterior, muitas cidades do nosso litoral já sofrem com o avanço gradual do mar. 

Apesar de muita gente, inclusive alguns cientistas, ainda duvidarem do aquecimento global, o cenário está ficando cada vez mais complicado, em especial na Antártida. 

OS DANOS CAUSADOS PELO AVANÇO DO MAR CONTRA O CALÇADÃO DE PERUÍBE, OU FALANDO DO AUMENTO DO NÍVEL DOS OCEANOS

Ontem à tarde, caminhando pela orla da cidade de Peruíbe, no litoral Sul do Estado de São Paulo, pude conferir o estrago que o avanço contínuo das ondas está causando à mureta da praia, à calçada e ao pavimento da via litorânea. No início do último mês de fevereiro, uma grande parte da orla da cidade já havia sofrido grandes estragos por causa de fortes chuvas e do mar agitado – muito do que foi reconstruído há época voltou a ser destruído agora. 

Grandes trechos da antiga mureta da praia, que havia sido construída com blocos de concreto, foram substituídos por paredes de pedra empilhada. Apesar de mais flexíveis, essas novas estruturas continuam sofrendo com a alta das marés, com o bater constante das ondas e muitos blocos já foram derrubados. Um detalhe que chama a atenção – até alguns anos atrás existiam faixas de vegetação de restinga junto a essa mureta – a faixa de areia está completamente nua agora.

Trechos do gramado plantado ao lado da ciclovia e da passarela de pedestres mostram sinais de erosão – a água do mar tem atingido a grama e está provocando afundamentos, sinal que a água está se infiltrando por baixo da terra. Coqueiros plantados em boa parte desse trecho gramado, ou estão caídos ou tortos.

Na Avenida Governador Mário Covas, a via litorânea da cidade, existem duas grandes crateras – uma que está bloqueando apenas uma das faixas e outra que interditou completamente a passagem de veículos. No ano passado, o local onde se encontra uma dessas crateras passou por uma grande obra para a reforma da canalização de um córrego que desagua na praia – foi justamente através do canal do córrego que as ondas do mar entraram e destruíram quase que completamente a canalização. 

Esse tipo de “paisagem” está se tornando frequente em praias por todo o Brasil e também em muitas regiões do mundo. Aqui no blog já falamos, entre outros, de casos semelhantes como da Ponta da Praia, na cidade de Santos, da Praia da Macumba (vide foto), no Recreio dos Bandeirantes na Zona Oeste do Rio de Janeiro, e ainda dos estragos em praias da cidade de Florianópolis, em Santa Catarina. Em todas essas localidades, o mar está avançando contra as praias e causando enormes estragos aos calçamentos e também provocando grandes transtornos para os moradores e frequentadores. 

Provavelmente, as grandes vilãs dessas e de muitas outras tragédias ambientais que estamos assistindo nos últimos anos são as mudanças climáticas globais, ligadas diretamente ao aumento contínuo das temperaturas do planeta. A incerteza da frase é proposital – ainda existem muitas dúvidas científicas sobre a real participação das atividades humanas nesses eventos e quais são as causas naturais que podem também estar por trás dessas mudanças. Para que todos entendam o que isso quer dizer, vou citar o exemplo de um evento natural de mudança climática que provocou grandes estragos séculos atrás: 

Entre os séculos XIII e XVII, a Europa enfrentou um período de forte resfriamento e que entrou para a história como a Pequena Idade do Gelo. Entre outras consequências, a queda nas temperaturas da região forçou os vikings a abandonar todo o Sul da Groenlândia, onde suas colônias conseguiam praticar agricultura e criar gado. A Islândia perdeu metade da sua população e a Finlândia cerca de 1/3. Em 1607, o famoso rio Tâmisa da Inglaterra congelou pela primeira vez na história. 

Na região dos Alpes, as geleiras avançaram na direção de vilas e pequenas cidades, matando milhares de pessoas. Na Holanda, os famosos canais de navegação passaram a ficar frequentemente congelados. No inverno de 1780, toda a costa fluvial da cidade de Nova York ficou congelada e passou a ser possível ir andando da ilha de Manhattan até a ilha de Staten Island. Todo o comércio e transportes marítimos na região ficaram bloqueados por vários meses. 

O frio intenso na Europa nesse período criou uma forte demanda por peles de animais, que eram usadas na confecção de casacos e chapéus. Um caso interessante da história do Brasil e que podemos associar diretamente a esse mercado de peles é a descrição da carga da nau La Pèlerine, um navio de contrabandistas franceses que foi capturado por forças portuguesas em 1532 em Pernambuco. Além de grande quantidade de toras de pau brasil, a carga da nau incluía cerca de 3 mil peles de animais, especialmente de onças

Um outro caso interessante é o da Rússia do Czar Ivan, o Terrível (1530-1584). De olho nos altos ganhos do mercado de peles há época, o Czar do então paupérrimo país passou a incentivar a caça de animais selvagens por toda região Central da Rússia e, em especial na Sibéria, que naquela época era uma espécie de terra de ninguém. Além dos altos ganhos financeiros obtidos com a venda das peles, os russos consolidaram a posse de extensas áreas do Norte da Ásia. 

A partir de 1770, ano em que ocorreram algumas das temperaturas mais baixas do período, o frio começou a diminuir e as coisas foram voltando ao normal. No ano de 1850 houve uma nova queda acentuada nas temperaturas no inverno, mas acabou sendo um caso isolado. 

A Revolução Industrial, período que marcou o início da queima de fabulosos volumes de carvão mineral e que é considerado por muitos como o marco inicial das mudanças climáticas que estamos vivendo atualmente, só teve seu início no final da Pequena Era do Gelo. Portanto, não há como argumentar que essa grande mudança climática foi provocada por ações humanas. Uma hipótese que é considerada como a causadora desse evento é o Mínimo de Maunder

Entre 1645 e 1714, os antigos astrônomos observaram uma brusca redução nas manchas e também nas tempestades solares, o que pode indicar que houve uma redução na radiação solar que chegou até a superfície da Terra no período, causando assim a queda das temperaturas. Um dos astrônomos envolvidos nos estudos dessas antigas observações foi Edward W. Maunder (1851-1928), que acabou dando seu nome para o fenômeno. 

Em nossos dias, o problema está sendo justamente o oposto do que ocorreu na Pequena Era do Gelo – as temperaturas no planeta estão aumentando, o que tem levado ao derretimento de grandes volumes da capa de gelo do Ártico e da Antártida, além de provocar o desaparecimento de grandes geleiras em montanhas. Também são notáveis o aumento do nível dos oceanos e as mudanças nos padrões da chuva em muitas regiões, além de muitos outros problemas climáticos sérios. 

Para que todos tenham uma ideia da situação que nós estamos vivendo – estudos recentes indicam que o degelo na Antártida está atualmente com uma velocidade seis vezes maior do que era registrado há 40 anos atrás. O mesmo artigo, publicado na revista científica norte-americana PNAS – Proceedings of the Academy of Sciences, afirma que o derretimento do gelo antártico produziu um aumento do nível do mar de 1,4 centímetro entre 1979 e 2017

Isso pode até não parecer muita coisa, mas estamos falando de uma lâmina de água cobrindo toda a extensão dos oceanos do mundo, o que corresponde a cerca de 363 milhões de km². As correntes de água fria da Antártida que correm para os oceanos também estão causando mudanças na direção de correntes marítimas importantes e interferindo na formação de massas de chuvas em diferentes continentes.  

É justamente esse pequeno aumento do nível dos oceanos que pode estar por trás do forte avanço do mar contra as praias de Peruíbe, Santos, Rio de Janeiro, Florianópolis, entre muitas outras. 

A forte seca que está atingindo grandes áreas do Brasil Central e ameaçando a geração de energia elétrica, muito provavelmente tem parte de suas origens em mudanças climáticas que estão ocorrendo nos oceanos. A outra responsável pelo problema já é bem conhecida – trata-se de La Niña, um fenômeno climático global que, de tempos em tempos, dá suas caras aqui no Brasil e causa muitos problemas. 

Falando de forma figurada, as mudanças climáticas globais ‘têm rabo de gato, focinho de gato, deixam pegadas iguais às dos gatos e, muitas testemunhas, até juram ter ouvido um miado parecido com o de um gato‘. Porém, falta que a ciência apresente um teste de DNA feito em um pelo desse gato e que comprove realmente se tratar de um gato, ou melhor, de mudanças climáticas globais. Nas ciências as coisas funcionam assim – não dá para “ficar achando” – é preciso provar! 

O lado bom, se é que existe um lado bom em tudo isso, é que cada vez mais cientistas estão passando a acreditar que as ações antrópicas (ou seja, causadas pelos seres humanos) são as grandes responsáveis por tudo isso e estão influenciando Governos a agirem e a dar um basta em grande parte das causas das mudanças climáticas globais. 

Nas próximas postagens vamos falar mais sobre o derretimento da capa de gelo da Antártida e suas “prováveis” consequências para o aumento do nível dos oceanos. 

BRASILEIROS: “UM POVO QUE VEIO DA SELVA”

Na postagem anterior falamos da importação de energia elétrica pelo Brasil e destacamos que os principais “vendedores” são a Argentina e o Uruguai. O Paraguai também vende energia elétrica para o nosso país, porém, falamos aqui da geração excedente da Usina Hidrelétrica de Itaipu

Logo após publicar a postagem, dei uma olhada nos noticiários na internet e fiquei surpreso ao ver a polêmica criada pelo Presidente da Argentina, Alberto Fernández, que fez um verdadeiro “tango do porteño louco” ao falar sobre a origem do povo argentino em um discurso feito de improviso durante a visita do Primeiro-ministro da Espanha – Pedro Sánches, a Buenos Aires. 

De acordo com Fernández, “os mexicanos saíram dos índios, os brasileiros saíram da selva e os argentinos chegaram de barcos vindos da Europa”. Ao que tudo indica, o líder argentino pensava estar repetindo uma frase de Octavio Paz, escritor mexicano e Prêmio Nobel de Literatura, que afirmou que “os mexicanos descendem dos astecas, os peruanos dos incas e os argentinos dos barcos”. A fala, desgraçadamente, acabou soando como racista e xenofóbica.

O “discurso” de Fernández pegou muito mal e teve repercussões muito negativas em todo o mundo. Muitos políticos brasileiros fizeram publicações nas redes sociais condenando a fala do Presidente da Argentina. O presidente Jair Bolsonaro, surpreendentemente, se limitou a publicar uma foto em que aparece rodeado por indígenas da Amazônia com a chamada “Selva”, o grito de guerra dos soldados que servem na região. 

Para os que não conhecem a figura, Alberto Fernández é famoso por suas gafes e falas “non sense”. O personagem lembra muito a nossa ex-Presidente Dilma Roussef, também esquerdista, que falava em “estocar vento”, saudava a mandioca e dizia coisas como “atrás de uma criança sempre vem um cachorro” ou “a gente primeiro estabelece uma meta e depois dobra a meta”. 

Como falamos de meio ambiente e recursos hídricos aqui no blog, resolvi aproveitar o gancho criado pelo Presidente argentino para falar da falta de prioridade de nossos governantes. Como todos têm acompanhado nas nossas postagens mais recentes, estamos passando por uma severa crise hídrica em uma extensa área do Brasil Central, crise essa que impacta diretamente na geração de energia em importantes usinas hidrelétricas. 

A bacia hidrográfica do alto rio Paraná é a mais impactada pela severa seca, que afeta diretamente os Estados de Goiás, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, São Paulo e Paraná. Esse problema não está limitado apenas ao território brasileiro – o Paraná é o rio mais importante da Argentina e o país vizinho está sofrendo com os baixos níveis das águas. A hidrovia do rio Paraná é um dos principais canais para o escoamento da produção agrícola do país e os baixos níveis das águas estão inviabilizando a navegação em muitos trechos. 

Além da forte redução dos caudais que vem do trecho alto da bacia hidrográfica no Brasil Central, o baixo curso do rio Paraná também está sofrendo com a redução dos volumes de água vindos do rio Paraguai, o maior tributário desse trecho. As cabeceiras dos rios formadores do Paraguai, tanto no Brasil quanto na Bolívia, também estão recebendo chuvas bem abaixo da média, o que se reflete em baixos volumes de água na calha do rio. 

É aqui que chego ao cerne da questão – com tantos problemas envolvendo as importantes bacias hidrográficas dos rios Paraná e Paraguai, será que não seria mais útil aos nossos Digníssimos Senhores Presidentes deixar de perder tempo falando bobagens e partir para a discussão de questões sérias na área da preservação ambiental

A crise hídrica que nossos países estão vivendo tem sim um profundo peso de chuvas abaixo da média em extensas regiões do Brasil, da Bolívia, do Paraguai e da própria Argentina. Porém, não há como esquecer que parte dos problemas estão sendo criados pelo avanço da agricultura e da pecuária em áreas do Cerrado, dos Pampas e do Pantanal Mato-grossense, além de áreas do Gran Chaco, uma grande extensão de terrenos alagadiços entre a Bolívia, a Argentina e o Paraguai. 

Aqui é importante lembrar que os biomas não respeitam as fronteiras entre países. O Cerrado, por exemplo, avança na direção do Paraguai e de um pequeno trecho da Bolívia. Os Pampas cobrem uma grande parte do Rio Grande do Sul e avançam pelo Uruguai e pela Argentina. As agressões ambientais que esses ecossistemas sofrem e também as consequências são “multinacionais” 

A vegetação nativa desses diferentes ecossistemas tem extrema importância no auxílio da infiltração da água das chuvas nos solos e recarga dos depósitos subterrâneos de água e aquíferos, fontes que alimentam os rios nos períodos de seca. Um exemplo que sempre cito aqui nas postagens é a vegetação nativa do Cerrado, caracterizada pela presença de raízes muito profundas.  

Quando essa vegetação é substituída por campos de soja, de milho ou pastagens para animais, plantas que tem sistemas de raízes muito pequenos, as quantidades de água das chuvas que conseguem infiltrar nos solos caem drasticamente. E, como consequência direta, resultam em uma redução brutal nos volumes de água nas nascentes dos rios. 

Um grande exemplo da importância da conservação ambiental é a região do Cerrado brasileiro, que é chamada por muitos especialistas de “Berço das Águas”, e que possui grandes e importantes aquíferos: o Bambuí e o Urucuia, além de abrigar uma parte importante do aquífero Guarani.   

O aquífero Bambuí se divide entre áreas do Cerrado e do Semiárido, tendo seu trecho mais importante na região Norte de Minas Gerais.  Sua área natural de recarga, porém, abrange uma superfície total de mais de 180 mil km² nos Estados de Minas Gerais, Bahia, Goiás e Tocantins, atendendo um total de 270 municípios, especialmente na região conhecida como Polígono das Secas. 

O aquífero Urucuia está localizado integralmente na região do Cerrado e se estende por toda a região Oeste do Estado da Bahia, que concentra entre 75 e 80% da área total, além de trechos nos Estados do Tocantins, Goiás, Piauí, Maranhão e Noroeste de Minas Gerais, ocupando uma área total de 120 mil km². 

O imenso aquífero Guarani ocupa uma área total de 1,2 milhão de km², se estendendo por áreas das regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil, avançando por regiões do Paraguai, Argentina e Uruguai. É considerado o segundo maior aquífero conhecido do mundo, ficando atrás apenas do sistema de aquíferos Alter do Chão da Região Amazônica. Alguns cálculos indicam que o Guarani possui uma reserva total de águas que seria suficiente para abastecer toda a população brasileira por até 2.500 anos. 

Esses aquíferos alimentam as nascentes de águas de importantes rios que formam grandes bacias hidrográficas brasileiras: Parnaíba, São Francisco, Tocantins/Araguaia, Atlântico Leste e Atlântico Nordeste. Também entram na lista as bacias hidrográficas dos rios Paraná e Paraguai, cujas águas avançam na direção de países vizinhos como a Argentina e o Paraguai. 

Independente da origem de nossos povos, vivemos todos em um espaço geográfico único na América do Sul, com biomas e bacias hidrográficas interligadas, e com uma série de problemas ambientais comuns. 

É melhor esquecer as picuinhas “bairristas” e começar a conversar seriamente sobre como resolver os nossos grandes problemas ambientais comuns. 

Obs: A expressão “tango do porteño louco” usada no texto faz referência à expressão popular brasileira “samba do criolo doido” que é usada para se referir a coisas sem sentido, a textos mirabolantes e sem nexo.

A IMPORTAÇÃO DE ENERGIA ELÉTRICA PELO BRASIL, OU “O GATO SUBIU NO TELHADO”

É muito comum encontrarmos produtos importados em lojas de eletroeletrônicos, em supermercados, em concessionárias de carros e motos, entre outros estabelecimentos comerciais. Falar de importação de energia elétrica pode parecer um tanto estranho para a maioria dos leitores, mas saibam que isso já virou “rotina” aqui no Brasil. 

Um exemplo fácil e que não necessitou de grandes esforços para encontrarmos os dados foi o ano de 2001, que entrou para a história como o ano do “apagão do sistema elétrico brasileiro” – o Brasil importou 3.917 GW/h da Argentina e do Uruguai, que nos ajudou muito a superar a brusca redução na capacidade de geração de energia elétrica no país por causa dos baixos níveis dos reservatórios das usinas hidrelétricas naquele ano

Outro ano em que houve uma boa importação de energia elétrica foi 2018, também por causa da redução dos estoques de água nos reservatórios – foram importados 1.131 GW/h. Esse volume importado correspondeu a apenas 0,24% da energia elétrica consumida no Brasil naquele ano, mas em momentos de crise, qualquer ajuda é sempre bem-vinda. Essa energia elétrica importada se junta à produção emergencial das usinas termelétricas brasileiras para o abastecimento da população em casos de crise no sistema de geração do país. 

Essa importação segue os procedimentos descritos no Manual de Procedimentos da Operação – Importação e Exportação de Energia do ONS – Operador Nacional do Sistema Elétrico. As operações de compra e venda de energia elétrica são viabilizadas pela CCEE – Câmara de Comercialização de Energia Elétrica, uma associação civil integrada pelos agentes das categorias de Geração e de Distribuição de Energia Elétrica. 

Os principais “vendedores” de energia elétrica para o Brasil são a Argentina e o Uruguai. Na Argentina, o ONS tem um relacionamento operacional com o Centro de Controle de Operação da CANMESA (COC) e no Uruguai com o DCU – Despacho Nacional de Cargas do Sistema Uruguaio. Essas operações seguem regulamentos internacionais. 

A transmissão da energia elétrica a partir das usinas hidrelétricas dos países vizinhos é feita por redes de transmissão até quatro estações conversoras na região de fronteira e depois são lançadas no SIN – Sistema Interligado Nacional. 

Cargas elétricas vindas da Argentina: 

  • Estação Conversora Garabi I, em Garruchos / RS, com potência nominal de 1.100 MW 
  • Estação Conversora Garabi II, em Garruchos / RS, com potência nominal de 1.100 
  • Estação Conversora Uruguaiana, em Uruguaiana / RS, com potência nominal de 50 MW 

Carga elétrica vinda do Uruguai: 

  • Estação Conversora Rivera, em Rivera / Uruguai, com potência nominal de 70 MW 

Aqui é importante citar que até o ano de 2019, parte da energia elétrica consumida no Estado de Roraima era gerada pela Usina Hidrelétrica de Guri, na Venezuela. Esse contrato de fornecimento venceu e, devido a todos os problemas políticos e econômicos vividos pelo país vizinho, não foi renovado. A demanda energética de Roraima é da ordem de 215 MW e, até 2019, era suprida em cerca de 60% por energia importada da Venezuela e os 40% restantes eram gerados localmente por usinas termelétricas a diesel.  

Atualmente, toda a energia elétrica consumida em Roraima está sendo gerada em usinas termelétricas. Conforme comentamos em uma postagem anterior, a solução para a questão da energia elétrica é a construção do Linhão de Tucuruí, uma rede de transmissão de energia elétrica entre as cidades de Manaus, no Amazonas, e Boa Vista, a capital de Roraima. O entrave para a realização da obra é a Terra Indígena Waimari Atroari, que precisa ser atravessada pelo Linhão e os órgãos responsáveis envolvidos no processo – IBAMA, FUNAI, ELETRONORTE e STF, entre outros, não conseguem chegar a um acordo

Também não podemos esquecer da energia elétrica produzida pelo lado paraguaio da Usina Hidrelétrica de Itaipu. O empreendimento é binacional, dividido em partes iguais pelo Brasil e pelo Paraguai. O Brasil compra o excedente da produção de energia elétrica produzido pelo Paraguai e lança essa energia no SIN – Sistema Interligado Nacional. 

Só para lembrar, Itaipu é uma das mais importantes usinas hidrelétricas do país e responde por mais de 10% de toda a energia elétrica consumida no Brasil. Sem querer bancar o chato, preciso jogar um pouco de “água fria nessa fervura” – o sistema de transmissão da energia elétrica de Itaipu, que conduz a eletricidade para os grandes centros consumidores, está no limite da sua vida útil e está passando por um processo de modernização. 

Esse sistema vem operando há mais de 36 anos e Itaipu está investindo cerca de R$ 1 bilhão para trocar equipamentos na sub estação de Foz do Iguaçu, no Paraná, e em Ibiúna, em São Paulo, entre outros serviços. A previsão para a conclusão de todos os trabalhos é de 5 anos – ou seja, não estamos livres de alguma pane nesse complexo sistema de transmissão de energia nesse meio tempo. 

Em 2001, ano do famoso “apagão do sistema elétrico brasileiro”, os reservatórios das usinas hidrelétricas da Região Sul do Brasil estavam bem cheios e havia a possibilidade de uma oferta extra de energia elétrica para outras regiões. Essa possibilidade nem chegou a ser cogitada por que não haviam linhas de transmissão para o transporte dessa energia desde o Sul até outras regiões do Brasil. 

Vejam que além da presença de bons volumes de água nos reservatórios das usinas hidrelétricas é fundamental que existam linhas de transmissão para o transporte dessa energia até os consumidores. O Estado de Roraima está sofrendo pela falta de uma dessas linhas de transmissão e, no caso do linhão de Itaipu, há riscos por causa da obsolescência de muitos equipamentos. Esses riscos podem até ser pequenos, mas precisam ser considerados. 

Apesar de todas as declarações das autoridades do setor elétrico brasileiro estarem afirmando “categoricamente” que não existe risco de um novo apagão agora em 2021, quiçá em 2022, confesso que estou bastante preocupado e não consigo “sentir firmeza”, como dizemos no meu bairro, nessas declarações. 

Sempre que alguém toca no assunto lembro da história do “gato que subiu no telhado”, um artifício que algumas pessoas usaram para contar que o gato de uma vizinha tinha morrido. Começaram falando que o gato subiu no telhado, escorregou, conseguiu se segurar, mas depois acabou caindo de uma grande altura e morreu. A tragédia foi narrada aos poucos “aos poucos” para não assustar a velhinha. 

Sempre que eu vejo alguma dessas “otoridades” jurando que não vai ter racionamento de energia elétrica aqui no Brasil, não sei por que, mas eu lembro dessa história do gato no telhado. 

Torçamos então para que ele tenha mais equilíbrio e sorte que o gato da vizinha… 

A GERAÇÃO EMERGENCIAL DE ENERGIA EM CENTRAIS TERMELÉTRICAS NO BRASIL

No fatídico ano de 2001, devido a uma combinação de chuvas abaixo da média, falta de investimentos em sistemas de geração e distribuição de energia elétrica, além de muita incompetência por parte dos nossos governantes, o Brasil viveu um período de racionamento forçado de energia elétrica, que entrou para a história como o “apagão”. 

Passada a crise inicial, foi decidido que seria feita a contratação do fornecimento de energia elétrica gerada a partir de centrais termelétricas, unidades que seriam construídas e mantidas em stand by (espera), só sendo acionadas em novos momentos de crise na geração de energia elétrica. Desde então, em vários momentos em que houve uma redução maior dos volumes de água nos reservatórios das usinas hidrelétricas, a geração de energia a partir das termelétricas passou a ser bastante utilizada aqui no Brasil em carater emergencial. 

Quando as usinas termelétricas entram em operação é acionada a chamada “bandeira vermelha” nas contas de energia elétrica – os consumidores são alertados que haverá um acréscimo no valor das suas contas, uma vez que a geração termelétrica é mais cara que a geração feita por usinas hidrelétricas.  

Esse ano, conforme estamos tratando na atual sequência de postagens, a falta de chuvas em extensas áreas das regiões Centro-Oeste e Sudeste deixou reservatórios de importantes unidades geradoras de energia elétrica com baixos níveis e a “bandeira vermelha” já foi acionada – preparem os bolsos porque as contas vão ficar “mais salgadas”. 

De acordo com dados de outubro de 2020 da ANEEL – Agência Nacional de Energia Elétrica, o Brasil possui um total de 8.989 usinas geradoras de energia elétrica, com uma potência outorgada de 175.044.716,46 kW e uma potência fiscalizada de 173.214.363,64 kW. Essa geração inclui centrais hidrelétricas, que respondem por cerca de 60% da geração, além de centrais termelétricas, eólicas, fotovoltaicas e nucleares

As centrais termelétricas totalizam 3.168 unidades em todo o país, com uma potência outorgada de 51.797.907,79 kW e potência fiscalizada de 43,003.675,89 kW. Desse total, 41 empreendimentos ainda se encontram na fase de projeto e outros 67 estão em construção. Cerca de 65% dessas centrais termelétricas são movidas a partir da queima de combustíveis fósseis e 35% por queima de biomassa

Os combustíveis fósseis usados são gás natural, óleo diesel e outros derivados de petróleo, o altamente poluente carvão mineral, gases dos altos fornos de usinas siderúrgicas e de refinarias de petróleo, além de outras fontes de calor. Comparada à geração de energia por fontes hidrelétricas, qualquer uma dessas fontes de energia é muito mais danosa ao meio ambiente. 

Na geração termelétrica a partir da biomassa, o grande destaque é o bagaço da cana-de-açúcar, um subproduto da produção do açúcar e do etanol. As fontes agroindustriais e florestais fornecem também a casca de arroz, o capim elefante, o licor negro (subproduto da produção de papel e celulose), além de resíduos de florestas como lenha e carvão vegetal. Também podem ser utilizados como fonte de energia biocombustíveis líquidos de origem vegetal como óleos e etanol. 

Uma fonte energética importante e que pode ter o seu uso bastante ampliado é o biogás resultante do processo de decomposição de matéria orgânica em aterros sanitários (vide foto), em estações de tratamento de esgotos e também em fazendas que se dedicam a criação de animais como porcos – o esterco desses animais produz grandes volumes de biogás

A geração por fontes hidrelétricas é considerada uma das formas mais renováveis para a produção de energia elétrica. A água das chuvas é o resultado de processos naturais criados pela energia solar e pelos ventos (que também tem sua origem na energia solar). Essa água corre através dos rios e se acumula nas barragens das usinas hidrelétricas, onde o fluxo da água sob pressão aciona as turbinas geradoras. 

Aqui precisamos destacar alguns problemas – essa geração “sustentável” de energia nas usinas hidrelétricas exclui os graves impactos ambientais que são produzidos pelo alagamento de grandes áreas após o fechamento das comportas das barragens. Populações ribeirinhas precisam ser deslocadas, áreas de produção agrícola são perdidas e remanescentes florestais precisam ser derrubados antes do alagamento das terras (se a vegetação não é removida, ela apodrece sob as águas e se transforma numa grande emissora de gases de efeito estufa). 

Outro problema sério da geração hidrelétrica é a imprevisibilidade do clima, que de um ano para o outro pode mudar e gerar grandes secas em extensas regiões. Desde o ano passado, grandes áreas do território brasileiro já vinham sofrendo com chuvas abaixo da média. O problema foi amplificado a partir do final de 2020 devido a incidência do fenômeno climático La Niña, que afetou grandes áreas das Regiões Centro-Oeste e Sudeste, justamente onde se encontram importantes usinas hidrelétricas do país. 

Para fugir dos “humores” do clima e da poluição gerada por fontes termelétricas, muitos países passaram a optar pela energia nuclear. Essa forma de geração, inclusive, passou a ser considerada altamente sustentável do ponto de vista ambiental nas últimas décadas. Nesse tipo de instalação, a energia térmica tem como origem a fissão nuclear de elementos radioativos como o urânio, um processo que gera muito calor. Esse calor é usado para ferver grandes volumes de água e o vapor resultante é direcionado para uma turbina a vapor ligada a um gerador elétrico. 

Na França, citando um exemplo, 86% de toda a energia elétrica produzida vem de centrais nucleares. São no total 19 usinas, onde 56 reatores nucleares estão em operação. O governo local considera esse tipo de instalação segura e muito menos impactante ao meio ambiente do que as usinas hidrelétricas e termelétricas. O maior problema desse tipo de instalação são os resíduos criados pela fissão dos elementos radioativos, que muitas vezes é chamado de “lixo nuclear”, e que necessitam de condições de armazenamento muito especiais. 

Existem atualmente cerca de 450 reatores em operação em usinas nucleares em 31 países do mundo. Apesar das insistentes manifestações e notícias sobre a segurança das operações nesse tipo de usina geradora, é difícil esquecer de grandes acidentes nucleares como os que ocorreram em Chernobyl, na Ucrânia em 1986, e em Fukushima, no Japão em 2011. 

No Brasil existem apenas duas centrais nucleares em operação – Angra I e II, além de uma terceira unidade em construção – Angra III. A contribuição das usinas nucleares brasileiras na matriz energética é de aproximadamente 3%, um valor que não ajuda muito em tempos de falta de água nos reservatórios das usinas hidrelétricas. Dependemos quase que exclusivamente das usinas termelétricas nesses momentos de crise, além da providencial contribuição das centrais eólicas e fotovoltaicas já em operação no país. 

Desde o início desse mês de junho, após o comunicado de emergência hídrica pelo SNM – Sistema Nacional de Meteorologia, as unidades de geração de energia termelétrica disponíveis passaram a ser ligadas com o objetivo de economizar ao máximo a água dos reservatórios. De acordo com autoridades do setor elétrico, o país não corre o risco de passar por um novo “apagão”, mas, como diziam os antigos, “caldo de galinha e cautela não fazem mal a ninguém”. 

Até que as chuvas voltem no final do ano (o que é a esperança de todos) e os reservatórios das usinas hidrelétricas voltem a encher, é importante que todos fiquem de olho no valor de suas contas de energia elétrica. E sempre que possível, evitem gastar energia elétrica à toa. 

AINDA FALANDO DO SISTEMA REPRESA BILLINGS / USINA HIDRELÉTRICA HENRY BORDEN

Na última postagem fizemos uma rápida apresentação do sistema de geração de energia elétrica Represa Billings / Usina Hidrelétrica Henry Borden. Esse sistema começou a ser construído na década de 1920 e foi fundamental para o processo de industrialização da Região Metropolitana de São Paulo. 

O projeto desse sistema considerou o aproveitamento do enorme desnível da Serra do Mar entre a região da Baixada Santista e o Planalto de Piratininga – são mais de 720 metros. As águas da Represa Billings, localizada no alto da Serra do Mar, são canalizadas através de um sistema de tubulações para a Usina Henry Borden em Cubatão, município no litoral de São Paulo, onde chegam com uma enorme energia e movem as turbinas da hidrelétrica. São 16 grupos geradores, com uma potência total instalada de 890 MW

Para alimentar a Represa Billings, o projeto previu o aproveitamento das águas de diversos rios da região, conhecida como Alto da Serra, como o rio Grande, principal formador do rio Pinheiros, Pequeno, Alvarengas, Bororé, entre muitos outros. Outro manancial importante era o rio Tietê, que tinha suas águas transpostas na direção da Represa Billings através de duas estações de bombeamento ou de traição, instaladas no canal do rio Pinheiros. 

Um dos argumentos usados pelos projetistas foi que esse sistema de transposição entre bacias hidrográficas ajudaria a amenizar os graves problemas criados pelas enchentes do rio Tietê, que há muito já criavam problemas para a população da cidade de São Paulo. Conforme já tratamos em inúmeras postagens aqui do blog, a cidade de São Paulo cresceu ocupando as várzeas e as margens dos seus rios – as grandes enchentes são uma resposta da natureza a todas essas agressões históricas. 

Esse sistema de bombeamento das águas do rio Tietê para a Represa Billings funcionou até o início da década de 1990. A intensa poluição das águas do rio Tietê, que foi transformado em uma vala de esgotos a céu aberto ao longo do crescimento das cidades da Região metropolitana, era transferida para a Represa Billings. Foi a nova Constituição Paulista de 1992 que proibiu essa transferência de águas, exceto em situações de emergência nos casos de chuva forte.  

Nas áreas de entorno da Represa Billings a situação dos mananciais também nunca foi das melhores. A conhecida Região do ABC Paulista, sigla dos municípios de Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano, foi escolhida para sediar as fábricas da nascente indústria automobilística do Brasil. Além da energia elétrica gerada pela Usina Hidrelétrica Henry Borden, a Região do ABC tinha uma ligação fácil com o Porto de Santos através da Via Anchieta e de ferrovias, além da proximidade com grandes centros urbanos como a cidade de São Paulo. 

Uma das consequências diretas da abertura das indústrias automobilísticas na Região do ABC foi a atração de grandes contingentes de migrantes de outras regiões brasileiras, principalmente nordestinos, que buscavam melhores condições de vida. Além de empregos, esses migrantes precisam de moradias a “preços populares” e grandes terrenos próximos das margens da Represa Billings passaram a ser loteados

Aqui é preciso fazermos um parêntese importante – após a construção da Represa Billings a partir da década de 1920, as bucólicas e tranquilas paisagens das margens do reservatório foram transformados em sítios e chácaras de fim de semana para as famílias mais abastadas da Região Metropolitana de São Paulo, algo muito semelhante ao que aconteceu nas áreas de entorno da Represa Guarapiranga. Foram justamente esses grandes terrenos que foram transformados em loteamentos a partir do final da década de 1950 e começo dos anos 1960. 

Um grande exemplo de ocupação que surgiu às margens da Represa Billings é Eldorado, um dos maiores bairros do município de Diadema. Com uma população atual da ordem de 42 mil habitantes, o bairro é uma sucessão de construções improvisadas e com pouca infraestrutura urbana. A maior parte dos esgotos gerados no bairro correm diretamente para a Represa Billings. Estão sendo feitos grandes esforços para mudar essa situação, mas ainda falta muito. 

O movimento de ocupação ganhou muita força na década de 1970 e já no final da década de 1980, a população que vivia nas áreas de entorno da Represa Billings superou a marca de 1 milhão de habitantes, a grande maioria vivendo em casas sem abastecimento de água potável e sem coleta de esgotos (vide foto). Os despejos de esgotos de toda essa população tinham como destino final as águas da Represa Billings

Além de receber despejos de esgotos, domésticos e industriais, as águas da Billings também passaram a receber grandes volumes de resíduos sólidos. A mesma falta de cuidados com o destino final dos esgotos da população também se entendeu aos resíduos sólidos. Lixões e aterros improvisados passaram a surgir por todos os cantos – em períodos de chuvas fortes, partes desses resíduos acabavam sendo carreados na direção das águas da Represa.  

As águas das chuvas também provocam a percolação (na geologia se refere a passagem de água pelo solo e rochas permeáveis fluindo para reservatórios subterrâneos) de grandes quantidades de chorume, efluentes líquidos resultantes da decomposição de resíduos orgânicos desses lixões, que correm na direção do lençol freático e das águas da Represa. Mesmo sem receber mais as águas poluídas do rio Tietê, a Represa Billings continuava com suas águas altamente contaminadas.  

Aqui há um detalhe importante, que ilustra claramente como tratamos mal nossas fontes de água – cerca de 1,5 milhão de habitantes dos municípios do ABC Paulista já eram e ainda são abastecidos com as águas da Represa Billings e foi necessária a construção de uma barragem em um dos braços do reservatório para evitar a contaminação dessas águas com a poluição crescente. Essa barragem foi construída no início da década de 1980 e forma o Sistema Rio Grande

A intensa poluição que tomou contas das águas da Represa Billings forçou a redução da geração de energia elétrica na Usina Henry Borden em 75%, ficando limitada a 200 MW. O volume de energia elétrica que deixou de ser gerado na Usina corresponde a 50% da produção da Usina Hidrelétrica de Furnas. É importante se explicar por que isso aconteceu. 

Após passar pelas turbinas da Hidrelétrica Henry Borden, as águas vindas da Represa Billings são despejadas no rio Cubatão, que até poucas décadas atrás era um dos rios mais poluídos do Brasil. O município de Cubatão sediava um grande polo com indústrias altamente poluidoras do meio ambiente, sobretudo dos ramos químico e petroquímico. Por causa da intensa poluição, Cubatão ganhou a alcunha nada agradável de “Vale da Morte”. 

Em 1984, foi criado o Programa de Controle da Poluição de Cubatão e também a Comissão Especial da Serra do Mar, que faria a articulação entre os setores público, industrial e privado. Um dos principais objetivos dessas ações foi a reversão da poluição ambiental de Cubatão, que ficou a cargo da CETESB – Companhia Ambiental de São Paulo, com a participação das indústrias e da população local de Cubatão.  

Esse exitoso conjunto de ações mudou radicalmente os rumos de Cubatão, transformando o município em uma referência mundial no combate à poluição do ar, das águas e dos solos. E foi dentro desse contexto de combate à poluição que as águas poluídas vindas da Represa Billings passaram a ser um grande problema, daí a redução da produção de energia elétrica na Usina Henry Borden

Em tempos em que os reservatórios de grandes usinas hidrelétricas por todo o Brasil estão com baixos níveis e há riscos para a geração de energia elétrica, não poder usar integralmente todo o potencial de geração da energia da hidrelétrica Henry Borden por causa da poluição das águas da Represa Billings é uma grande ironia e um grande problema para todos nós.

A SAGA DO SISTEMA REPRESA BILLINGS / USINA HIDRELÉTRICA HENRY BORDEN, OU OS DESCAMINHOS DAS ÁGUAS E DA ENERGIA ELÉTRICA

Uma das obras de engenharia mais geniais que eu conheço é o sistema de geração elétrica Represa Billings / Usina Hidrelétrica Henry Borden. Construído a partir dos primeiros anos da década de 1920, esse sistema se valeu do enorme desnível da Serra do Mar entre o Planalto de Piratininga e a Baixada Santista – cerca de 720 metros, para gerar a energia elétrica que impulsionou a industrialização da Região Metropolitana de São Paulo. 

Infelizmente, graças ao nosso total desprezo pelas águas e falta de obras básicas para a coleta e o tratamento dos esgotos da população, além da falta de planejamento urbano, a quase centenária Represa Billings sofre atualmente com a intensa poluição de suas águas e ocupação desordenada de suas margens.  

Muito pior – a geração de energia na Usina Hidrelétrica Henry Borden está limitada a apenas 200 MW (ela tem uma capacidade instalada total de quase 900 MW), para evitar que as águas poluídas da Billings causem mais estragos nos rios da Baixada Santista. Em tempos em que os reservatórios de muitas usinas hidrelétricas brasileiras estão vazios, não poder usar essa capacidade instalada é um “crime”. Vamos entender a história. 

O primeiro grande sistema de geração de energia elétrica da Região Metropolitana de São Paulo foi a Usina de Parnahyba, projeto implantado pela Light and Power Company, a empresa canadense que se tornou concessionária de energia elétrica na cidade de São Paulo e Região em 1899. Na sua ianuguração em 1901, Parnahyba produzia 2 mW de energia elétrica. 

Cerca de 10 anos depois, essa potência já tinha sido aumentada para 12,8 MW, atendendo a uma demanda por energia elétrica cada vez maior da população e das indústrias paulistanas. Gradativamente, a Light passou a construir novas pequenas usinas hidrelétricas, aumentando gradativamente a sua capacidade de geração de energia. 

Na década de 1920, os engenheiros da Light desenvolveram o projeto de uma usina hidrelétrica grande e revolucionária para os padrões da época. Essa usina seria construída em Cubatão, município da Baixada Santista, e utilizaria o forte desnível da Serra do Mar para potencializar a força das águas lançadas a partir de uma represa construída no Planalto de Piratininga. 

Esse projeto foi apresentado para as autoridades do Governo Federal e em 1922, um decreto Presidencial autorizou o início das obras. O projeto incluía a construção da Represa do Alto da Serra – que depois passou a ser chamada de Billings, da Usina Hidrelétrica de Cubatão, do sistema de tubulações para a descida da água através da Serra do Mar (vide foto), além da implantação de um sistema para a transposição de águas da bacia hidrográfica do rio Tietê para a Represa Billings.  

As obras foram iniciadas em 1925 e é interessante ressaltar que, como era normal há época, todo esse complexo de obras não teve nenhum estudo de impacto ambiental, que aliás foram muitos. Um exemplo de impacto criado pelas obras foi a famosa garoa paulistana, uma chuva finíssima que caía todas as tardes na cidade – o fenômeno desapareceu no início da década de 1980. Segundo relatos de parentes e antigos moradores, esse fenômeno climático se tornou diário logo após a construção da Represa Guarapiranga e aumentou muito após a conclusão da Represa Billings.  

Um argumento interessante que foi usado para justificar a construção desse complexo energético foi o auxílio no controle das cheias anuais do rio Tietê, responsáveis por problemas catastróficos nas partes baixas de São Paulo. No projeto criado pela Light, essas águas excedentes do período das chuvas seriam bombeadas através do canal do rio Pinheiros na direção da Represa Billings, ajudando a reforçar os estoques de água.  

Para realizar esse bombeamento, duas estações elevatórias (também chamadas de usinas de traição) foram construídas no rio Pinheiros, sendo uma na região da Vila Olímpia e a outra no bairro da Pedreira. Para viabilizar essa parte do projeto, o sinuoso canal do rio Pinheiros foi completamente retificado, com trabalhadores escavando a terra com pás e picaretas e grandes volumes de terra sendo carregados por carroças puxadas por burros.  

Além de preparar o rio Pinheiros para a futura função de transposição das águas para a represa Billings, essas obras transformariam antigas várzeas alagáveis da região em “terras secas”. Um dos exemplos é uma região do bairro de Pinheiros, que anos depois foi loteada pela Companhia City, uma subsidiária da Light and Power Company. A região foi transformada no elegante e sofisticado bairro do Alto de Pinheiros, ainda hoje uma referência em alto padrão imobiliário na cidade de São Paulo.  

Além do planejamento impecável, com ruas elegantes, praças e todo equipamento urbano necessário, o bairro receberia as linhas de bondes elétricos operados pela empresa Light, um diferencial em tanto numa cidade que sempre teve, e continua tendo, problemas de transporte. Como dizia a minha mãe: “esses estrangeiros sabiam como ganhar muito dinheiro! ”  

A represa Billings foi formada a partir do represamento dos rios Grande (o principal formador do rio Pinheiros), Pequeno, Capivari, Pedra Branca, Taquacetuba, Alvarengas, Bororé e Cocaia, entre outros rios menores, perfazendo cerca de 560 km² de área de drenagem, com uma vazão somada total de 16,5 m³/s. O espelho d’água da Represa ocuparia uma área inundada de aproximadamente 172 km² e teria capacidade para armazenar 1,2 bilhões de metros cúbicos de água.  

Nos dias atuais, quando se segue pelas Rodovias Anchieta e Imigrantes ou pelo Trecho Sul do Rodoanel, a visão e a beleza do grande reservatório da Billings ainda são impressionantes. As obras da represa foram totalmente concluídas em 1937. O sistema de transposição das águas do rio Tietê para a represa Billings só passou a operar integralmente a partir de 1950.  

A Usina Hidrelétrica de Cubatão, que depois teve seu nome mudado para Usina Hidrelétrica Henry Borden, teve seu primeiro grupo gerador inaugurado em 1926. A capacidade geradora da Usina foi sendo ampliada até 1950, quando o 14° grupo gerador entrou em funcionamento, atingindo uma capacidade total instalada de 889 MW. Os grupos geradores da Usina Henry Borden são acionados por turbinas Pelton, que são movidas pelos fortíssimos fluxos de água que descem do alto da Serra do Mar.  

O fantástico complexo Represa Billings / Usina Henry Borden foi fundamental para o desenvolvimento da Região Metropolitana de São Paulo. A farta disponibilidade de energia elétrica na região foi um dos critérios usados para a escolha da Região do ABC Paulista (sigla para os municípios de Santo André, São Bernardo e São Caetano) como sede das primeiras indústrias automobilísticas do Brasil na década de 1950.  

Toda essa energia elétrica disponibilizada, desgraçadamente, acabou se transformando numa espécie de “maldição”, que se voltou depois contra o próprio Sistema. A energia elétrica estimulou o desenvolvimento de industrias, comércios e serviços, o que levou a um crescimento urbano desordenado das cidades da região. 

As densas matas que protegiam as margens da Represa Billings foram derrubadas para a criação de bairro populares. onde milhares de migrantes que chegavam ao ABC Paulista em busca de empregos e de uma vida melhor construiriam as suas moradias. Já as águas dos rios formadores da Represa, essas foram transformadas em canais para a eliminação dos esgotos gerados por toda essa gente. 

Na próxima postagem falaremos mais sobre a triste sina da Represa Billings e dos problemas que levaram a atual subutilização da Usina Hidrelétrica Henry Borden

ÍNDIOS NORTE-AMERICANOS MILIONÁRIOS X ÍNDIOS BRASILEIROS PAUPÉRRIMOS

Na última postagem falamos sobre os problemas, tanto técnicos quanto legais, que envolvem a construção de usinas hidrelétricas na região da Bacia Amazônica. Essa região, como todos devem saber, é o paraíso das águas – pesquisadores afirmam que 20% de toda a água doce superficial do mundo é encontrada na Bacia Amazônica. Aproveitar esse verdadeiro “mundo de águas” para gerar energia elétrica “limpa’”, infelizmente, não é tão simples como pode parecer. 

Hoje gostaria de falar um pouco mais sobre isso e tocar numa questão extremamente delicada – a questão das terras indígenas. Vou começar citando dois “causos verídicos verdadeiros” que acompanhei: 

Entre os anos de 2009 e 2010, fui enviado pela empresa em que trabalhava para atuar nas obras do sistema de esgotos sanitários da cidade de Porto Velho em Rondônia. Há mesma época, as obras das usinas hidrelétricas do rio Madeira – Santo Antônio e Jirau, seguiam a todo vapor e consegui acompanhar várias fases dos trabalhos. Uma ocorrência nas obras de Jirau me chamou muito a atenção. 

Enquanto se realizavam os trabalhos de desflorestamento da faixa de terras que seria inundada pelo lago da hidrelétrica (essa usina opera a “fio d’água”, mas, mesmo assim, o represamento provoca uma elevação do nível do rio), os trabalhadores encontraram uma grande rocha e, em cima desta, havia uma pedra lascada que tinha um formato semelhante ao de um machado pré-histórico.  

Imaginando se tratar de um artefato milenar deixado ali por antigas populações indígenas, o técnico em meio ambiente que acompanhava os trabalhos deu ordem para a paralização total das atividades. Um arqueólogo e um historiador da equipe que preparou o relatório de impacto ao meio ambiente foram imediatamente convocados para realizar uma perícia no “artefato”. Depois de quase três semanas de trabalhos parados, os especialistas emitiram um laudo informando se tratar de uma simples pedra, que provavelmente foi arrastada para o local por alguma antiga enchente do rio Madeira. 

Bem por acaso, o dono da empreiteira que prestava os serviços de remoção da vegetação ali naquele trecho era meu vizinho de apartamento e me relatou o tamanho do prejuízo daquele ocorrido. Apesar dos trabalhos terem ficado paralisados por semanas, ele teve de manter o pagamento dos funcionários em dia, além de bancar todos os demais custos do canteiro de obras. Soube depois que, ao longo de três anos de prestação de serviços naquela obra, a pequena empreiteira desse vizinho acumulou um prejuízo de mais de R$ 3 milhões por causa dessa e de outras paralisações dos trabalhos por problemas bem semelhantes. 

Um outro caso ligado à minha obra – a equipe que fez os estudos de impacto ambiental no terreno onde seria construída uma das estações de tratamento de esgotos do projeto de Porto Velho encontrou algumas “peças em cerâmica” no meio da mata de capoeira. Imediatamente imaginaram se tratar de cerâmica ancestral de antigas populações indígenas. Um arqueólogo foi chamado para avaliar o “achado” e, cerca de quinze dias depois, emitiu um laudo afirmando se tratar de cerâmicas modernas do tipo usado em rituais de religiões afro-brasileiras. Salvo engano da minha memória, o custo desse laudo foi de R$ 19 mil há época. 

Cerca de um ano depois, durante um happy hour com amigos num boteco da cidade, conheci uma pessoa que trabalhou na empresa que fez o licenciamento da obra. Entre um copo de cerveja e outro acabei ouvindo a verdadeira história: o arqueólogo era muito amigo de uma das pessoas da equipe e estava muito endividado naquele momento. A equipe sabia de antemão que as peças cerâmicas que foram encontradas eram na verdade parte de um “despacho”, mas, para ajudar o amigo, acabaram endossando a necessidade da “opinião de um especialista”. 

Antes de qualquer coisa, quero deixar claro que não tenho nada contra as populações indígenas e que acho fundamental que sua história, tradições, territórios e produção histórica/cultural sejam preservados. Minha crítica é contra a “indústria do licenciamento ambiental” que, entre outras coisas, usa questões ligadas aos indígenas e suas terras para “engordar” seus ganhos em projetos de licenciamento ambiental de obras

Dito isso, gostaria de mostrar um caso onde questões ligadas a grupos indígenas estão criando sérias dificuldades para a realização de uma obra importante – falo aqui do Linhão de Tucuruí, uma obra fundamental para o abastecimento de energia elétrica da população do Estado de Roraima, no extremo Norte do país.  

Roraima tem uma área de 223 mil km² e uma população com aproximadamente 500 mil habitantes. O Estado não está ligado ao SIN – Sistema interligado Nacional, e depende de geração de energia em centrais termelétricas movidas a óleo diesel. Existe uma linha de transmissão de energia que vem da Usina Hidrelétrica de Guri, no Sul da Venezuela, mas, devido aos problemas políticos e econômicos vividos pelo país vizinho, esse suprimento de energia deixou de ser confiável. 

Pois bem – há várias décadas, o Governo Federal vem tentando construir o chamado Linhão de Tucuruí, uma linha de transmissão de energia elétrica que vai permitir a transmissão da energia gerada na Usina Hidrelétrica de Tucuruí para Roraima. Essa energia já chega até a cidade de Manaus, capital do Estado vizinho do Amazonas. 

O empecilho para a realização da obra é a Terra Indígena dos Waimari Atroari, que fica no meio do caminho. O Linhão precisa passar por dentro do território indígena e não se consegue chegar a um acordo para a liberação do licenciamento ambiental. Essa terra indígena, inclusive, já é atravessada por uma rodovia federal e a linha de transmissão seria construída exatamente ao lado da estrada, com impactos ambientais mínimos. 

Para fazer um contraponto a essa grande dificuldade para licenciar essa obra tão simples, vou citar o caso de outro grupo indígena – os seminoles do Estado norte-americano da Flórida. Em 1987, esse grupo indígena conseguiu autorização da justiça dos Estados Unidos para explorar jogos de azar em suas terras. Os índios operam desde então dois cassinos em seu território na Florida e faturam centenas de milhões de dólares por ano, dinheiro que é dividido entre os 3,3 mil índios do grupo. A foto que ilustra a postagem é de um dos cassinos da tribo, uma franquia do famoso Hard Rock Café e que foi comprada em 2006 pela bagatela de US$ 95 milhões.

No total, existem atualmente mais de 350 cassinos de propriedade de grupos indígenas em 28 Estados norte-americanos. Esses estabelecimentos faturam juntos mais de US$ 20 bilhões por ano e garantem uma excepcional renda e um alto padrão de vida para as suas comunidades. Ou seja – ser um indígena nos Estados Unidos é um excelente negócio para qualquer um. Esses bons ganhos, é claro, não pagam o sofrimento e as mortes de milhões de indígenas ao longo do conturbado processo de colonização do país. 

Voltando ao caso dos índios Waimari Atroari aqui do Brasil – será que não seria possível criar um mecanismo legal que permitisse que esses índios recebessem royalties sobre o valor de comercialização da energia elétrica que circulasse através do Linhão que será construído em suas terras?  

Eu imagino que os volumes de dinheiro envolvidos nessa negociação ficariam muito aquém dos ganhos conseguidos pelos índios seminoles da Flórida com seus cassinos, mas, acredito que seria um valor muito bem-vindo e que poderia ser investido pelos índios com toda a autonomia no que eles bem entendessem – saúde, educação, habitações, lanchas, jet skis, ou qualquer outra coisa. 

E olhem que esse não é um caso isolado – existem dezenas de obras de infraestrutura em todo o Brasil que estão paradas por questões semelhantes. São rodovias, ferrovias, hidrelétricas, gasodutos e oleodutos, entre outras obras fundamentais para o desenvolvimento do país. 

Mas não – o que vemos é toda uma legislação que insiste proteger ao máximo os grupos indígenas brasileiros, colocando essas populações “dentro de uma redoma” e completamente isolados do mundo exterior. Será que alguém perguntou para esses indígenas se eles querem eletricidade, água quente no chuveiro, internet e telefonia celular? Será que esses pequenos confortos que a vida moderna proporciona a nós “brancos” (uso a palavra aqui no sentido cultural e não étnico) não agradariam também aos nossos irmãos indígenas? 

Moral dessa história: enquanto os índios norte-americanos ficam milionários, seus parentes brasileiros ainda estão presos ao passado, no pior sentido dessa expressão…