REGIÕES DO OESTE DO CANADÁ E DO NOROESTE DOS ESTADOS UNIDOS ESTÃO ENFRENTANDO TEMPERATURAS RECORDES, OU “LYTTON 46 GRAUS”

Em 1955, o cineasta Nelson Pereira dos Santos lançou o filme “Rio, 40 graus”, uma produção com o formato de documentário que mostrava um dia na vida de cinco jovens de uma favela do Rio de Janeiro. O enredo se desenrola num domingo de sol escaldante na cidade. 

O filme foi censurado há época por propagar “uma grande mentira”. De acordo com o relato do chefe da censura, “a média da temperatura do Rio nunca passou dos 39,6 °C“. Em 1992, a cantora Fernanda Abreu lançou uma música com esse mesmo nome. Um dos versos mais lembrados da música afirma que a cidade é “um purgatório da beleza e do caos”. 

Pois bem: esqueçam tudo isso! A pequena cidade de Lytton, localizada na Colúmbia Britânica no Oeste do Canadá, registrou nesse último domingo, dia 27 de junho, a incrível temperatura de 46,6° C e deixou o lendário calor carioca no “chinelo“. De acordo com os órgãos meteorológicos locais, essa é a temperatura mais alta já registrada no “frio” Canadá e uma prova incontestável de que as mudanças climáticas chegaram para ficar. 

Segundo as informações divulgadas por vários sites de notícias, a violenta onda de calor provocou diversas quedas no fornecimento de energia elétrica por toda a Colúmbia Britânica, um sinal claro da grande demanda por sistemas de ventilação e de refrigeração de ar. As aulas foram suspensas preventivamente por toda essa semana. As autoridades locais emitiram alertas para os possíveis incêndios florestais e também para os hospitais, que devem registrar altas expressivas nas internações, especialmente de idosos. 

As regiões Oeste e Noroeste dos Estados Unidos também estão sendo atingidas em cheio pela forte onda de calor. As cidades de Salem e Portland no Estado do Oregon registraram temperaturas superiores a 44° C no último domingo. Em Seattle, capital do Estado de Washington, os termômetros chegaram muito próximo dos 40° C. Algumas semanas atrás, regiões da Califórnia já haviam registrados temperaturas de inacreditáveis 54° C. 

Os boletins meteorológicos emitidos nos Estados Unidos têm utilizado com frequência cada vez maior expressões do tipo “calor sem precedentes”, “calor anormal” e “calor perigoso”. De acordo com esses boletins, essa onda de calor está sendo provocada por um fenômeno meteorológico chamado “cúpula de calor”, onde as altas pressões da atmosfera retêm o ar quente sobre uma região

De acordo com informações da  Environment Canada, o instituto meteorológico do país, a temperatura mais alta até então registrada havia sido de 45° C em 1937. Nos Estados Unidos, o NWS – National Weather Service, informou que não registrava temperaturas tão altas nos Estados do Oregon e de Washington desde a década de 1940. Segundo o órgão, esse dia “provavelmente ficará na história como o mais quente” já registrado na região. 

Registros de altas temperaturas em regiões de clima temperado estão se tornando perigosamente frequentes. Há pouco mais de um ano publicamos uma postagem aqui no blog falando do recorde de temperatura na cidade de Verkhoyansk, na Sibéria. Localizada numa região famosa pelas baixas temperaturas e pelos campos de trabalho forçado (gulags) dos tempos da extinta URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, a cidade siberiana registrou 38° C no dia 20 de junho de 2020

Um detalhe que chama a atenção nesse evento climático foi sua ocorrência na primeira semana do verão no Hemisfério Norte e que nos deixa com a seguinte dúvida: quais serão as outras surpresas que a estação mais quente do ano está reservando? Aqui no Brasil, onde acabamos de entrar no período do inverno do Hemisfério Sul, temperaturas abaixo dos 0° C e algumas ocorrências de queda de neve já são encontradas por toda a região Sul. 

Em um artigo preparado por especialistas em climatologia e que foi publicado pelo jornal Washington Post foi descrito que “a intensidade dessa ‘cúpula de calor’ é tão grande e tão rara estatisticamente que não acontece mais do que uma vez em poucos milhares de anos, em média”. O que os especialistas não disseram é que, se em tempos de fortes mudanças climáticas em todo o mundo, esse tipo de fenômeno não poderá se tornar frequente. 

As mudanças climáticas estão se manifestando em todo o mundo e com uma intensidade cada vez maior. Recentemente, publicamos várias postagens falando sobre o derretimento do manto de gelo da Antártida e do Ártico, e também de suas consequências para os oceanos de todo o mundo. 

Essas mudanças também estão se desenvolvendo em áreas continentais, onde os maiores sintomas são vistos na forma de secas e alterações nos padrões das chuvas e de precipitação de neves. As regiões Central e Oeste dos Estados Unidos se enquadram nesse último conjunto de problemas, que estão se refletindo na redução dos caudais do importante rio Colorado

Para esse ano de 2021, as previsões climáticas para o Meio-Oeste e para o Sudoeste norte-americano são preocupantes e terão reflexos diretos na produção agrícola. Houve queda de um volume de neve muito acima da média em regiões do Centro e do Nordeste do país, um problema que atrasou o início do plantio e que poderá gerar riscos para a colheita no final do ano. O Texas, um Estado onde os invernos são mais amenos que a média geral do país, este ano sofreu com fortes nevascas e com colapsos no fornecimento de gás e de energia elétrica.  

O problema mais preocupante, porém, é a seca. Estão previstas chuvas abaixo da média em muitas regiões e, como todos sabem, uma boa disponibilidade de água é fundamental para o desenvolvimento dos grãos. Muitas regiões, inclusive, assistiram o plantio das culturas sob estresse hídrico, ou seja, com volumes de água abaixo dos padrões históricos. 

A região do Meio-Oeste americano é conhecida como Corn Belt – o cinturão do milho. Essa região inclui, entre outros, Estados como IllinoisIowa NebraskaAs estatísticas indicam que nada menos de 40% da produção mundial de milho sai dessa região. Além do milho, essa região também é uma grande produtora de soja. Na gíria popular dos Estados Unidos, os trabalhadores rurais dessa região são chamados maldosamente de red neck, ou pescoços vermelhos, uma referência às queimaduras provocadas pelo forte sol nos meses de verão. 

Em tempos confusos quando a pandemia da Covid-19 está prejudicando a produção agrícola em grande parte do mundo, uma quebra da safra agrícola dos Estados Unidos por causa das mudanças climáticas é extremamente preocupante. No curto prazo, países como o Brasil e a Austrália, que são grandes produtores de grãos, poderão até se beneficiar com o aumento dos preços das commodities agrícolas. Porém, os mesmos problemas criados pelo clima já estão batendo na nossa porta – não custa lembrar a forte seca que assola atualmente uma grande área do Brasil Central. 

Fortes ondas de calor e de frio, chuvas torrenciais em algumas regiões e secas devastadoras em outras, aumento do nível dos oceanos com alterações nas correntes marinhas, furações e tufões cada vez mais fortes e imprevisíveis – esse é um rápido “menu” do que um futuro bem próximo reserva a todos nós habitantes desse planetinha azul conhecido pelo nome de Terra. 

UM RIO AGONIZANTE CHAMADO COLORADO

Colorado, em espanhol, significa “avermelhado”, provavelmente em referência à cor das paredes rochosas que envolvem boa parte do rio. Em 1540, os exploradores espanhóis liderados por Garcia López Cárdenas descobriram o Gran Cañon (Grand Canyon) e o rio, sem que nenhum nome lhe fosse dado. No mesmo ano, Hernando de Alarcón, avistou a foz do rio enquanto explorava o Golfo da Califórnia (também chamado de Mar de Cortez), dando-lhe o nome de “El Rio de Buena Guia”

O rio Colorado nasce nas Montanhas Rochosas, no norte do Estado do Colorado. As principais cabeceiras do rio ficam nas encostas de La Poudre Pass, uma montanha com cerca de 3.100 metros de altitude. Nessa mesma região, o pequeno rio recebe as contribuições de outros rios como o La Poudre Pass Creek e o Cache La Proude

A bacia hidrográfica do rio se estende por cerca de 630 mil km² na região mais árida dos Estados Unidos. No total, a sua área engloba, além do Colorado, os Estados do Wyoming, Utah, Nevada, Arizona, Novo México e Califórnia. O trecho final dos 2.300 km do rio fica dentro do México e tem menos de 100 km (vide foto). Sua foz fica localizada no Golfo da Califórnia. 

Até a década de 1950, a foz do rio Colorado formava um delta com inúmeros canais, onde as terras férteis eram cobertas por uma densa vegetação. Essa região formava o habitat da vaquita (Phocoena sinus), um pequeno golfinho aparentado com as toninhas e endêmico dessa região do Golfo da Califórnia. As vaquitas costumavam nadar nos antigos canais do delta e nas águas salobras próximas da costa. Esse comportamento é muito parecido com o dos seus primos distantes do Sudeste Asiático, os golfinhos-do Irrawaddy.  

Com o consumo cada vez maior das águas do rio Colorado para fins de irrigação e abastecimento de cidades dentro do território dos Estados Unidos nas últimas décadas, a região do delta do rio praticamente secou, colocando as vaquitas na condição de cetáceo mais ameaçado do mundo. Além da destruição do delta do rio Colorado, um grande número de animais morreu ao ser capturado pelas redes de pesca das populações locais. De acordo com as mais recentes estimativas, a população de vaquitas remanescentes é inferior a 12 animais. 

A mesma seca que assola o delta do rio Colorado há vários anos agora vem se estendendo por toda a calha principal e também por muitos dos afluentes do rio. Estudos meteorológicos oficiais indicam que a região da bacia hidrográfica está no centro do mais forte conjunto de mudanças climáticas já observadas nos Estados Unidos. Segundo estudos do Instituto de Oceanografia da Universidade de San Diego, na Califórnia, o Rio Colorado poderá perder entre 60% e 90% das suas águas até a metade deste século por causa do aquecimento global

Além de sofrer com a redução progressiva dos aportes de água em toda a sua bacia hidrográfica, originados tanto a partir das chuvas quanto do degelo de primavera, o rio Colorado também sofre com a superexploração de suas águas. Mais de 40 milhões de pessoas em sete Estados americanos são abastecidas com as águas do rio, que também são utilizadas em grandes sistemas de irrigação agrícola. Um dos maiores consumidores das águas do rio Colorado é o Imperial Valley no Sul da Califórnia. 

Essa região chamou a atenção das primeiras caravanas de pioneiros que se dirigiam para a Califórnia a partir de meados do século XIX. Haviam muitos agricultores experientes nesses grupos, que perceberam rapidamente a fertilidade dos solos do Imperial Valley – só faltava água ao lugar. Em um passado geológico mais distante, parte das águas das grandes enchentes do rio Colorado avançavam por essa região e cobriram os solos com sedimentos férteis – essa água evaporava em poucas semanas devido ao calor intenso do Deserto de Sonora. 

Nos últimos anos do século XIX, o Governo norte-americano decidiu pela construção de um grande canal para transportar as águas do rio Colorado na direção do Imperial Valley. A obra usou grande parte do antigo leito seco do rio Álamo e foi concluída em 1901. Esse canal tinha cerca de 23 km de extensão e possuía uma estação de bombeamento para vencer um desnível de 38 metros do terreno. Em 1942, o antigo canal foi substituído por um outro ainda maior – o All-American

Com a chegada das águas, o antigo deserto foi transformado em milhares de hectares de terras cultiváveis, criando uma das regiões agrícolas mais produtivas dos Estados Unidos. Devido ao forte calor do deserto, os invernos são bastante amenos na região, o que torna possível até duas safras por ano, uma verdadeira raridade em um país de clima temperado. 

As terras do Imperial Valley foram tomadas com 2.300 quilômetros de canais de irrigação e outros 1.800 quilômetros de tubulações, que passaram a consumir um volume de água correspondente a 83% da cota de água do Rio Colorado a que tem direito o Estado da Califórnia. Em 1922, foi assinado o Pacto do rio Colorado ou Colorado Compact, um acordo entre sete Estados do Sudoeste dos Estados Unidos, estabelecendo os direitos de utilização compartilhada das águas do rio. A partir desse pacto, a Califórnia passou a ter direito a 58,70% das águas da parte baixa da bacia hidrográfica do rio Colorado

Com fartura de água, terras férteis e muito sol, a região acabou transformada na principal fornecedora de frutas e de vegetais de inverno dos Estados Unidos. A região também é grande produtora de alfafa, uma ração muito valorizada pelos criadores de gado norte-americanos. 

A alfafa é uma leguminosa de folhagem perene, altamente nutritiva, que apresenta excelentes qualidades para alimentação animal, com destaque para os altos níveis de proteína, cálcio e fósforo, muito superiores às de outras fontes como a cana-de-açúcar, o milho e o capim. Em países de clima temperado, com invernos rigorosos e verões muito secos como os Estados Unidos, a alfafa é um alimento fundamental para os rebanhos, substituindo as pastagens cobertas por neve ou secas. 

O cultivo da alfafa é um grande consumidor de água, representando um consumo até quatro vezes maior de água que outras culturas. O problema é amplificado pelo sistema de irrigação por alagamento, a técnica de irrigação mais usada no Imperial Valley. Os canais são dotados de comportas, que são abertas quando há necessidade de irrigar as plantas. Grandes volumes de água se espalham sobre o solo e apenas uma parte dessa água é usada pelas plantas. 

Além das grandes perdas para a evaporação, parte das águas escorriam para um trecho baixo da região, local onde se formou o Lago Salton, um corpo d’água que já chegou a ocupar uma área com quase 900 km² e chegou a ser uma grande atração turística do Sul da Califórnia. 

Com as sucessivas secas enfrentadas pela Califórnia nos últimos anos, o volume de água usada pelos agricultores do Imperial Valley foi reduzido (não sem antes passar por uma grande batalha judicial). Com uma menor disponibilidade de água, os volumes percolados na direção do Lago Salton foram reduzidos e o espelho d’água passou a ficar menor ano após ano.  

Uma grossa camada de sal e de resíduos de fertilizantes e defensivos agrícolas que ficava no fundo do Lago passou a ficar exposta aos fortes ventos do Deserto, que passou a espalhar o pó tóxico por todo o Imperial Valley. A região foi transformada na campeã norte-americana em casos de asma e de alergias respiratórias, um problema semelhante ao de outras regiões agrícolas que viram seus lagos secarem

A “cultura do desperdício de água” que surgiu no Imperial Valley também floresceu em outras terras irrigadas com as águas do rio Colorado. Aliás, perto de 90% das águas do rio eram usadas pela agricultura, um volume muito superior à média mundial que se situa na casa dos 70%

Somando-se mudanças climáticas com a superexploração e o desperdício da água, chegamos à situação crítica em que se encontra o rio Colorado e o Lago Mead atualmente. 

A GRANDE SECA NO LAGO MEAD, O MAIOR RESERVATÓRIO DOS ESTADOS UNIDOS

Uma forte seca está assolando uma extensa região do Brasil Central, o que resultou em baixos níveis nos reservatórios de importantes usinas hidrelétricas, principalmente no trecho alto da bacia hidrográfica do rio Paraná. Tratamos disso em postagens anteriores, enfocando principalmente nos riscos para a geração de energia elétrica. 

Problemas semelhantes estão ocorrendo na Região Oeste dos Estados Unidos, especialmente nos Estados da Califórnia, Nevada e Arizona. Uma imagem que simboliza a falta de chuvas na região são os baixos níveis do Lago Mead, o maior reservatório do país – a foto que ilustra essa postagem mostra a situação do Lago: as faixas mais claras nos paredões mostram o quanto as águas já baixaram. Já são 22 anos seguidos com chuvas abaixo da média e o Lago está atualmente com apenas 35% de sua capacidade. 

O Lago Mead surgiu com a construção da Represa Hoover na década de 1930. Além de permitir a instalação de uma central de geração de energia elétrica, que atualmente abastece cerca de 1,3 milhão de pessoas, principalmente na cidade de Las Vegas, a construção dessa represa “domou” o selvagem rio Colorado. 

Atravessando uma grande região com terras áridas e semiáridas, o rio Colorado alternava períodos de fortes secas com temporadas de violentas e devastadoras enchentes. Com o represamento do Rio Colorado, surgiu o Lago Mead, uma fonte de água que foi fundamental para a implantação de um extenso programa de sistemas de irrigação na região do Sudoeste norte-americano.  

A Represa também possibilitou uma estabilização da vazão do Rio Colorado a jusante, beneficiando inúmeras cidades e projetos de irrigação como o Imperial Valley, que passaram a contar com volumes constantes de água ao longo de todo o ano, ficando livres das secas e enchentes. Não menos importante, o Lago foi transformado no principal manancial de abastecimento da cidade de Las Vegas, a “capital do jogo” dos Estados Unidos. 

Las Vegas surgiu a partir de uma antiga parada usada pelas caravanas de pioneiros que seguiam na direção da Califórnia ainda no século XIX e cresceu muito após a construção da Represa Hoover. Sua Região Metropolitana abriga atualmente 2 milhões de habitantes e recebe 40 milhões de turistas a cada ano. A cidade é totalmente dependente da Represa, que responde por 90% da água consumida (e esbanjada) pelos habitantes. Dois túneis de abastecimento e de transporte de água foram construídos ao longo dos anos, captando água em profundidades diferentes: 33 e 48 metros, em uma lâmina d’água que já atingiu uma profundidade máxima superior aos 100 metros.   

O Rio Colorado é um dos mais longos rios da América do Norte, com nascentes nas Montanhas Rochosas no Estado norte-americano do Colorado e, ao longo dos seus 2.320 quilômetros, banha os Estados de Utah, Arizona, Nevada e Califórnia, entrando a seguir no México, onde encontra a sua foz no Golfo da Califórnia. O rio é responsável pelo abastecimento de 40 milhões de pessoas em sete Estados americanos e quase 90% do total das suas águas são desviadas para fins de irrigação em 2 milhões de hectares, o que torna sua bacia hidrográfica uma das mais aproveitadas do mundo.

Várias cidades importantes dos Estados Unidos como Los Angeles, San Bernardino, San Diego, Phoenix e Tucson utilizam sistemas de abastecimento e transposição que captam e transportam as águas do Rio Colorado a longas distâncias. A grande seca que está assolando o Lago Mead também se reflete em problemas para outras dezenas de pequenas e médias cidades e agricultores em toda a Região Sudoeste do país. 

Como todos devem lembrar das imagens de velhos filmes de Faroeste (ou For West), quando grandes caravanas de pioneiros atravessavam as grandes pradarias sob risco de ataque dos índios, ou até mesmo dos livros de história, o Governo norte-americano fez grandes esforços a partir de meados do século XIX para o povoamento das regiões Central e Oeste dos Estados Unidos. Entre 1846 e 1848, os norte-americanos se envolveram numa disputa sangrenta com o México pela posse de territórios no Oeste, como foi o caso da Califórnia. Vencida a disputa pelos yankees, foi necessário estimular o povoamento dessas regiões. 

Esses esforços foram ampliados após o final da Guerra Civil Americana (1861-1865), quando os Estados do Sul foram derrotados pelas forças da União. Além de buscar alternativas de vida para famílias que perderam suas posses no conflito, havia a necessidade de garantir trabalho e moradia para centenas de milhares de escravos recém-libertados. Essas políticas foram chamadas de “Marcha para o Oeste”. Cerca de 2 milhões de pioneiros tomaram o caminho para o Oeste norte-americano entre 1862 e 1890 e outros 7 milhões conseguiram comprar terras no Meio Oeste do país a preços baixíssimos

Com o aumento da população e o crescimento das necessidades energéticas do Sudoeste a partir das primeiras décadas do século XX, o Governo dos Estados Unidos criou em 1922 um comitê especial com a missão de gerenciar o uso das águas do Rio Colorado – em 1944, o Governo do México foi convidado a participar deste comitê. O aproveitamento em grande escala das águas do Rio Colorado foi iniciado na década de 1930, quando foi construída a famosa Represa Hoover e sua usina hidrelétrica nas proximidades da cidade de Las Vegas, formando-se o Lago Mead.  

Além de regularizar os caudais do rio Colorado e gerar energia elétrica, essa Represa passou a permitir a navegação por um extenso trecho do rio, além de tornar possível a construção de numerosos canais de irrigação. O auge dessas obras se deu há época da Grande Depressão Econômica da década de 1930. Foram os tempos do New Deal, um conjunto de políticas públicas para empregar e ocupar os desempregados, que representavam um quarto da população economicamente ativa do país.  

Desde então, foram construídos inúmeros sistemas e canais de irrigação em toda a bacia hidrográfica do Rio Colorado – a exploração dos recursos hídricos se tornou tão intensa que o volume de água que chegava até a foz do rio no Golfo da Califórnia chegou muito próximo de zero. Aqui é preciso destacar que se criou uma “cultura” de uso abusivo das águas do rio Colorado, práticas que trataremos em outra postagem. 

Nos últimos anos, a natureza começou a cobrar o seu preço e mandou a fatura na forma de uma fortíssima seca em toda a bacia hidrográfica do Rio Colorado, que se estende do Estado americano do Wyoming até o México. De acordo com dados meteorológicos oficiais, a região está no centro do mais forte conjunto de mudanças climáticas já observadas nos Estados Unidos. Projeções do Instituto de Oceanografia da Universidade de San Diego, na Califórnia, estimam que o Rio Colorado poderá perder entre 60% e 90% das suas águas até a metade deste século por causa do aquecimento global

A última vez que o Lago Mead esteve próximo do seu nível máximo foi no ano 2000, quando o volume de água armazenada chegou aos 95%. De lá para cá, os níveis máximos do reservatório têm batido recordes cada vez mais negativos. A usina hidrelétrica da Represa Hoover há muitos anos vem trabalhando com uma redução de 25% no volume máximo de energia produzida

Para que todos tenham uma ideia mais precisa do que está acontecendo nos Estados Unidos, seria algo mais ou menos parecido com uma seca devastadora na bacia hidrográfica do nosso rio São Francisco

Continuaremos na próxima postagem. 

ONU ALERTA: MUDANÇAS CLIMÁTICAS FARÃO MILHÕES DE VÍTIMAS

A versão preliminar de um relatório do IPCC – Painel Intergovernamental sobre as Mudanças Climáticas, na sigla em inglês, um órgão de caráter consultivo da ONU – Organização das Nações Unidas, para assuntos relacionados ao clima, indica que o conjunto de mudanças climáticas que o planeta vem enfrentando afetará bastante a vida na Terra já nos próximos 30 anos. Essas afirmações vêm de encontro aos temas que estamos publicando aqui no blog nos últimos dias. 

O texto vai além – essas mudanças climáticas continuarão ocorrendo mesmo que consigamos diminuir as emissões dos gases de efeito estufa. O relatório afirma que um aumento da temperatura global da ordem de 1,5° C, que é o valor limite que está sendo almejado por muitos dos países mais desenvolvidos, já “poderia causar progressivamente consequências graves durante séculos”. 

Esse aumento de “apenas” 1,5° C poderá afetar cerca de 350 milhões de pessoas nas áreas urbanas, que sofrerão com a seca e a escassez de água nos mananciais de abastecimento. Caso esse aumento da temperatura chegue a 2° C, o número de pessoas afetadas subirá para 420 milhões. Além da falta de água, essas populações também estarão expostas a ondas de calor extremo e possivelmente letais. 

Esse promete ser o estudo mais abrangente já feito sobre o tema, com cerca de 4 mil páginas e que deverá ser publicado em fevereiro de 2022. Além dos problemas relacionados à escassez de água, o relatório também abordará os riscos de extinção de espécies, a disseminação de doenças, o calor extremo, o colapso de ecossistemas, entre muitas outras questões. 

As prováveis conclusões desse estudo contradizem alguns conceitos defendidos até poucos anos atrás por muitos especialistas. Era comum se afirmar que limitar o aquecimento global a apenas 2° C em relação aos níveis anteriores à Revolução Industrial seria o suficiente para garantir o futuro da humanidade. Essa premissa, inclusive, foi adotada pelo Acordo de Paris, assinado em 2015 por quase 200 países. 

As antigas projeções indicavam que as grandes mudanças climáticas e ambientais começariam a partir do ano 2100 – no cenário traçado por esse novo estudo, as consequências das mudanças climáticas já serão fortemente sentidas em poucos anos. Dentro de uma década, é provável que cerca de 130 milhões de pessoas sejam levadas à pobreza extrema e dezenas de milhões de pessoas passem a enfrentar a fome até 2050. 

Em 2050, cidades costeiras e localizadas em regiões com altitudes muito próximas do nível do mar poderão enfrentar os gravíssimos efeitos da elevação do nível dos oceanos e de tempestades cada vez mais frequentes. Esse é inclusive um tema que tratamos há pouco tempo aqui no blog

O estudo também aponta o dedo para o consumo de carne vermelha, o que muitos especialistas afirmam ser um dos causadores do efeito estufa. Segundo o texto, a substituição do consumo da carne vermelha por frutas e verduras poderá reduzir as emissões de gases de efeito estufa em 70% e salvar a vida de cerca de 11 milhões de pessoas

Pessoalmente, eu não confio muito nessa última afirmação – os processos intestinais dos animais, sejam eles vacas, porcos, galinhas, patos, ovelhas, cavalos e seres humanos, entre outros, sempre vai gerar gases. Se existe algum problema ambiental com o consumo de carne, será com todos os tipos de carne – inclusive a vermelha. Outro detalhe – até onde eu saiba, as emissões de gases de efeito estufa geradas pela criação de animais correspondem a menos de 20% das emissões totais: a conta não fecha. 

Com relação ao consumo de mais frutas, vegetais e verduras – excelente! Eu consumo pouquíssima carne em minha dieta e acredito que um consumo maior de alimentos de origem vegetal faz muito bem à saúde. Porém, é sempre preciso lembrar que a agricultura é uma das atividades humanas que mais se volta contra as florestas. Conforme já tratamos em postagens anteriores, plantas precisam de solos férteis, luz solar, água, fertilizantes e de gases como o nitrogênio e o gás carbônico.  

A “invenção” da agricultura se deu entre 12 e 10 mil anos atrás em regiões praticamente sem florestas – a Mesopotâmia, na Ásia Central; os vales dos rios Indus e Ganges, no Subcontinente Indiano, e também em vales de grandes rios da China e do Sudeste Asiático. Quando a agricultura chegou nas regiões cobertas por florestas no Norte da Ásia e na Europa, começaram os grandes desmatamentos. Aqui no Brasil a coisa não foi muito diferente. 

Uma das primeiras atividades econômicas praticadas aqui em nossas terras foi o cultivo em larga escala da cana para a produção do valioso açúcar. Em pouco mais de três séculos, essa atividade destruiu, literalmente, todo o trecho nordestino da Mata Atlântica. A partir do século XIX, o grande vilão de nossas florestas foi o café. Ao longo do século XX e começo desse século XXI vem sendo a produção de grãos, com destaque para a soja e o milho, a grande destruidora de nossas matas. 

A agricultura e, em parte, a pecuária, contribuíram, e muito, para a destruição da maior parte da Mata Atlântica, de cerca de metade dos biomas Caatinga e Cerrado, além de grande parte dos Pampas Sulinos. Existem muitos que entendem que é chegada a hora de seguir com esse mesmo modelo de substituição de florestas por campos de cultivo e pastagens na região da Amazônia – o mundo inteiro não quer que isso aconteça! 

Acho que situação ambiental de nosso mundo é muito grave sim e, conforme já falamos em outras postagens, os danos criados pelas mudanças climáticas são irreversíveis. Porém, sou da opinião que precisamos buscar soluções mais inteligentes para os problemas. 

Citando um exemplo: a Nova Zelândia possui um rebanho com mais de 35 milhões de ovelhas e 8 milhões de bois e vacas. A criação desses animais representa parte importante da economia do país. Preocupados com as emissões de gases de efeito estufa pelos animais, pesquisadores locais estão trabalhando para encontrar formas de minimizar o problema, seja buscando rações especiais que gerem menos gases nos intestinos dos animais ou ainda aprimorando geneticamente as raças até chegar a animais que, naturalmente, produzam menos gases em seus processos digestivos. 

Indo além – é preciso mudar a matriz energética mundial, buscando fontes de produção de energia cada vez mais limpas e renováveis. Proibir a queima do carvão mineral é outra grande meta. Incluamos na lista o fim do uso de combustíveis fósseis derivados de petróleo, além do uso dos seus derivados como os plásticos. Também é importante proibir a queima de lenha (o que também vai salvar florestas). Se nada disso der resultado, aí sim deveríamos começar a pensar na redução do consumo de carne. 

Como educador ambiental, falo diariamente aqui no blog sobre os imensos problemas ambientais que o mundo vive, em especial aqueles ligados aos recursos hídricos. Como muitos de vocês, também tenho grandes preocupações com o futuro da minha família e dos meus amigos. Previsões catastróficas para um futuro próximo podem até ser importantes, mas acho que é tempo de criarmos soluções para os problemas que já existem e também para os que virão. 

Nossa espécie – Homo sapiens, vem vivendo e sobrevivendo nesse planeta há cerca de 300 mil anos. Já enfrentamos fome, sede, frio, calor, enchentes, erupções vulcânicas, maremotos, terremotos, epidemias de todos os tipos e guerras, entre muitas outras tragédias. Atualmente, estamos enfrentando a pandemia da Covid-19 e, ao que tudo indica, vamos sobreviver mais uma vez. Não custa lembrar que nossa denominação significa “homem sábio”. 

Se fomos “expertos” o suficiente para chegar até aqui, é fundamental que usemos a nossa inteligência para buscar alternativas para os grandes problemas ambientais que nós mesmos criamos. Se temos a capacidade de prever com antecedência, podemos também nos antecipar na busca de caminhos alternativos e de soluções técnicas mais adequadas para cada tipo de problema. 

E que venha esse relatório e tantos outros com seus alertas… 

OS IMPACTOS DAS MUDANÇAS CLIMÁTICAS NAS CORRENTES MARÍTIMAS

As correntes marítimas são fundamentais para a regulação da temperatura da água dos oceanos, para a salinidade dessas águas, na distribuição de nutrientes que sustentam toda a cadeia alimentar na sua área de influência, na regulação do clima global, entre outras importantes funções. Falamos rapidamente sobre isso na postagem anterior

Uma das grandes preocupações entre os especialistas é o tamanho do impacto do aquecimento global e das mudanças climáticas sobre as correntes marítimas. Existem muitos estudos em andamento, com inúmeras perguntas sem uma resposta adequada. Já existem fortes evidências sobre alterações em algumas dessas correntes – o Oceano Índico é um desses casos. 

Um estudo de pesquisadores da Universidade de Washington e que foi publicado em 2018, indicou que houve uma desaceleração na AMOC – Circulação Meridional do Atlântico, na sigla em inglês, também conhecida como Corrente do Golfo, uma corrente marítima que leva água quente dos trópicos na direção do Polo Norte.  

Segundo os pesquisadores, o evento está ligado ao excesso de água doce resultante do degelo do manto do Ártico, especialmente na Groenlândia, e que está sendo despejada no Oceano Atlântico. As evidências paleoclimáticas sugerem que isso pode estar por trás de eventos abruptos de frio extremo no Hemisfério Norte. Qualquer semelhança com o enredo do filme “O dia depois de amanhã” não é mera coincidência. 

Os dados analisados compreenderam o período entre 1975 e 1998, e indicam que o evento deve durar cerca de duas décadas. Também há fortes indicações de que esse é um evento climático normal e cíclico, e que uma tragédia climática global como a mostrada no filme está muito longe de ocorrer. 

Corrente do Golfo se forma na altura da Flórida, no Sul dos Estados Unidos, a partir da junção das águas quentes de outras correntes vindas do Mar do Caribe. A corrente segue primeiro na direção das Ilhas Britânicas. Depois ela se divide e segue nas direções da Islândia, da Escandinávia e do Polo Norte.  

Essa corrente marítima é de extrema importância para a regulação do clima da Europa Ocidental, com destaque aqui para as Ilhas Britânicas. Sem a Corrente do Golfo, citando um exemplo, os invernos nessas ilhas seriam muito mais rigorosos. A largura dessa corrente é de aproximadamente 90 km e sua velocidade é de 2 metros/segundo, o que resulta na movimentação de 20 milhões de m³ de água por segundo. 

Um outro estudo publicado em 2020, trouxe uma conclusão diferente – as correntes marítimas estão acelerando. De acordo com os pesquisadores, os ventos que circulam sobre os oceanos estão aumentando a sua velocidade a uma taxa de 1,9% a cada década. Parte da energia dos ventos é transferida para as águas da superfície, que depois influenciam a velocidade das águas mais profundas.  

Desde a década de 1990, se observaram aumentos na velocidade cinética em cerca de 76% das águas dos oceanos a 2 mil metros de profundidade. De acordo com as conclusões desse estudo, as velocidades das correntes oceânicas aumentaram cerca de 5% desde o início da década de 1990. 

A diferença nas conclusões dos dois estudos mostra o quanto precisamos entender sobre os impactos das mudanças climáticas sobre os oceanos e suas correntes. Como todos devem saber, os oceanos cobrem cerca de 2/3 da superfície do planeta e, devido ao seu tamanho, eles são fundamentais para o armazenamento e distribuição do calor gerado pelo Sol em todo o mundo. As correntes marítimas locais e globais transportam esse calor pelas diferentes partes do mundo, sendo fundamentais para a regulação do clima em todo o planeta. 

Entre muitas perguntas sem respostas, já existe pelo menos uma certeza – se as temperaturas globais continuarem aumentando, a velocidade dos ventos também aumentará e, como consequência, resultará em maiores aumentos na velocidade das correntes marítimas. Trata-se de um grande quebra-cabeças ainda a ser montado. Entender corretamente esse mecanismo é vital para se determinar quais serão suas consequências no clima e nas temperaturas em diversas regiões, além é claro da compreensão dos impactos para a vida marinha. 

Outra importante corrente marítima que está seriamente ameaçada pelo aquecimento global é a Corrente de Humbolt, que se forma no Sul do Oceano Pacífico próximo ao Oceano Antártico e segue ao longo da costa Oeste da América do Sul. A FAO – Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, é um dos organismos internacionais que tem demonstrado as maiores preocupações com essa possibilidade. 

De acordo com dados da FAO, as águas frias e ricas em nutrientes da Corrente de Humbolt produziram, em média, 9,35 milhões de toneladas de peixes, moluscos e crustáceos no período entre 2005 e 2015. O Chile, o Peru e também o Equador foram os grandes beneficiados com toda essa produção. Entretanto, há um, porém aqui: o organismo identificou uma tendência de redução no volume de pescados. As causas são os planos de manejo dos países, a superexploração em algumas áreas e também as mudanças climáticas

Segundo as projeções da FAO, o aumento das temperaturas do planeta poderá desencadear uma redução do volume de nutrientes que são carregados pela Corrente de Humbolt, o que implicará diretamente numa redução dos estoques de fitoplâncton e de zooplâncton, micro-organismos que formam a base da cadeia alimentar dos oceanos. Essa redução é estimada em 33% nas áreas Norte e Central da Corrente, e em 14% na área Sul

Reduções dessa magnitude nos estoques de alimentos, é claro, terão como consequência uma redução na produção pesqueira (vide foto). Para uma parte importante das populações desses países, as proteínas dos pescados são fundamentais para a dieta alimentar, em especial para as faixas mais pobres. Também haverá impactos econômicos para os países uma vez que parte do que é pescado é exportado.  

Mudanças na Corrente de Humbolt também poderão resultar em graves consequências para o clima global. Os fenômenos climáticos El Niño e La Niña são decorrentes de variações na temperatura das águas superficiais de uma extensa área no Centro do Oceano Pacífico – essas temperaturas são influenciadas em parte pelas águas da Corrente de Humbolt

Correntes marítimas são complexas – algumas estão localizadas na superfície, outras em profundidades abaixo dos 300 metros. Elas podem se mover tanto horizontalmente quanto verticalmente, podendo ter abrangência local ou global. Muita coisa ainda precisa ser descoberta e avaliada para que se possa entender de verdade o que está acontecendo e o que poderá acontecer. 

Como diz um velho ditado – só quem viver, verá… 

FALANDO UM POUCO SOBRE AS CORRENTES MARÍTIMAS

Localizada a pouco mais de 150 km ao Leste da cidade do Rio de Janeiro, a região de Cabo Frio surpreende pela beleza. Em um belíssimo trecho de litoral de menos de 40 km, você encontra Arraial do Cabo, Cabo Frio (vide foto), a Lagoa de Araruama, a Praia do Peró (meu cantinho favorito na região) e a sofisticada Armação de Búzios mais ao Norte, entre muitos outros lugares legais.  

As águas do mar costumam ser cristalinas e cheias de vida. Os entendidos afirmam que esse é um dos três melhores trechos do litoral do Brasil para a prática do mergulho. As reclamações que eu tenho do lugar são duas: nos feriados prolongados a região fica lotada demais e as águas do mar são muito geladas para o “meu gosto”. Foram justamente essas águas frias que motivaram a escolha do nome do lugar – Cabo Frio.

Em relação à primeira reclamação, não há muito o que fazer. Já a segunda, essa tem uma explicação científica que muito interessa ao blog: esse trecho do litoral brasileiro é propício para o afloramento de águas frias de uma grande massa conhecida como Água Central do AtlânticoEsse fenômeno é conhecido como ressurgência

A origem desse processo oceanográfico de afloramento da massa de águas frias é a Corrente das Malvinas, que em muitos manuais estrangeiros será apresentada como Corrente das Ilhas Falklands, que se estende desde o Oceano Antártico até a região Sudeste do Brasil. Entre os meses de setembro e março, o regime de ventos alísios da Região Nordeste afasta a Corrente do Brasil, uma grande massa de águas quentes e pobres em nutrientes para longe da costa brasileira, o que permite que as águas frias e ricas em nutrientes aflorem junto ao litoral. 

As correntes marítimas de águas frias são extremamente ricas em nutrientes e costumam circular em regiões afóticas (onde a profundidade impede a penetração de luz solar), locais onde existe pouca vida marinha para consumir esses nutrientes. Quando essas águas fluem para locais com baixa profundidade ocorre uma intensa proliferação de fitoplanctonsmicroorganismos aquáticos microscópicos que têm capacidade fotossintética e que vivem dispersos flutuando na coluna de água. Esses micro-organismos formam a base da cadeia alimentar dos oceanos. 

Os consumidores primários dos fitoplântons são micro-organismos microscópicos conhecidos como zooplâncton, que por sua vez são alimentos consumidos por pequenos peixes, crustáceos e vermes, que alimentarão peixes cada vez maiores sucessivamente. A pesca comercial é uma das atividades econômicas mais importantes da região de Cabo Frio. 

Um outro exemplo de corrente marítima importante aqui na América do Sul é a Corrente de Humbolt, que é formada nas proximidades do Oceano Antártico e segue pelo Oceano Pacífico na direção Norte, percorrendo toda a costa do Chile até chegar na faixa central da costa do Peru. Essa corrente é superficial e deixa todo esse trecho da costa com águas geladas. Rica em nutrientes, a corrente de Humbolt torna essas águas uma das mais piscosas do mundo. 

Outra corrente marítima importante que podemos citar aqui é a Corrente de Benguela. Essa corrente se forma ao Sul do Oceano Atlântico em paralelo à Corrente das Malvinas e segue em direção ao Sudoeste da África, mais precisamente no entorno da região de Benguela, em Angola. A partir desse ponto as águas são desviadas para o Noroeste, acompanhando o sistema de ventos conhecido como Giro Oceânico do Atlântico Sul, que também é conhecido como Anticiclone do Atlântico Sul e Anticiclone de Santa Helena. As águas dessa corrente chegam até o litoral do Nordeste Brasileiro. 

Uma curiosidade: em 1984, o navegador brasileiro Amyr Klink realizou a travessia do Oceano Atlântico em um barco a remo, percorrendo cerca de 7 mil km desde a Namíbia até chegar no litoral da Bahia. A estratégia usada por Amyr foi a de seguir a Corrente de Benguela. Há época eu trabalhava na empresa que fez a instalação dos equipamentos eletrônicos e do sistema de radiocomunicação do Paratii (nome do barco) e fiquei impressionado com a coragem do navegador em enfrentar essa travessia com aquele “barquinho feito de chapas de madeira compensada”. Graças a Deus e a Corrente de Benguela, tudo acabou dando certo. 

Além dessas correntes marítimas citadas, todos os oceanos e mares do nosso planeta são atravessados por outras inúmeras correntes marítimas. As correntes marítimas podem ser definidas como fluxos de água com características comuns: águas quentes, águas frias, salinidade, presença de nutrientes, etc. Existe uma relação direta entre as correntes marítimas, o clima e a distribuição de calor na superfície dos mares e oceanos, o que torna essas grandes massas de água em um importante fator climático

Em função do movimento de rotação do planeta e do Efeito Coriolisuma força inercial que atua sobre um corpo cujo sistema de referência encontra-se em rotação, as correntes marítimas têm diferentes sentidos de circulação nos dois hemisférios: no Hemisfério Norte as correntes marítimas tendem a circular no sentido horário – já no Hemisfério Sul, o sentido de rotação tende a ser anti-horário, a exemplo do que ocorre com a Corrente de Benguela

O sentido de rotação ou a direção que uma determinada corrente marítima segue organiza toda a vida das espécies marinhas que habitam dentro de sua área de influência. Exemplos são as rotas de migração e o ciclo de vida das espécies que são regidos pelos fluxos de alimentos carreados pelas correntes marítimas. As atividades pesqueiras seguem essas espécies ao longo do ano. 

Outros fatores determinantes para a formação das correntes marítimas são os deslocamentos dos ventos e das massas de ar, a pressão atmosférica, as diferentes temperaturas das águas, a salinidade, a configuração do relevo no fundo do oceano e até mesmo o formado dos continentes e das ilhas oceânicas. Todo esse conjunto de fatores, que modelaram as correntes oceânicas existentes em nosso planeta, foram se consolidando e se estabilizando ao longo das eras e acompanhando a formação da Terra – falamos aqui de alguns bilhões de anos. 

Uma das grandes preocupações que derivam do aquecimento global e do aumento das temperaturas planetárias é o quanto essas mudanças ambientais poderão influir na dinâmica das correntes marítimas. Um exemplo real dessas preocupações é o que está acontecendo no Oceano Índico. 

De todos os oceanos do planeta, o Índico é o que vem apresentando um aquecimento mais acelerado de suas águas. Esse aquecimento está provocando mudanças climáticas nas correntes marítimas, nos ventos e na formação das massas de chuva. Na África, essas mudanças se refletem em chuvas irregulares na faixa Leste e Sul do continente, o que vem provocando chuvas abaixo da média na África do Sul e secas em várias regiões. No Subcontinente Indiano e em todo o Sudeste Asiático essas alterações vêm afetando o ciclo das Chuvas da Monção, com alterações nos períodos e nos volumes das chuvas, além de provocar uma rápida elevação no nível do mar em algumas regiões. 

Além de todo um conjunto de mudanças climáticas no planeta, eventuais mudanças nos padrões das correntes marítimas poderão prejudicar ainda mais os estoques pesqueiros dos oceanos, que já sofrem intensamente com a sobrepesca. Centenas de milhões de pessoas, especialmente das camadas mais pobres das populações, dependem da proteína dos pescados para complementar sua dieta alimentar. A perda dessa importante fonte de alimentos poderá amplificar os efeitos da fome e da subnutrição em muitas regiões do mundo. 

As mudanças climáticas já estão em andamento e são irreversíveis – muitos líderes mundiais e alguns países estão se empenhando para reduzir ao máximo o aumento da temperatura planetária e assim conseguir minimizar os efeitos dessas mudanças no clima mundial. Resta saber quais serão seus impactos nas correntes marítimas. 

Torçamos sempre pelo menor dos males… 

O DEGELO NO ÁRTICO

Na postagem anterior falamos do reconhecimento do Oceano Antártico por parte da National Geografic Society. Até agora, os mares que circundam o continente gelado eram considerados como partes dos Oceanos Atlântico, Índico e Pacífico. Essa mudança conceitual será bastante útil nos processos educacionais. Falamos também de alguns dos problemas enfrentados pela Antártica (ou Antártida), especialmente do derretimento da capa ou manto de gelo por causa do aquecimento global

Já que falamos desses problemas na Antártica, nada mais justo que falarmos de problemas semelhantes que estão acontecendo no Ártico. 

Diferente da Antártica, que é um único grande bloco de terra (estudos recentes indicam que, na realidade, são três grandes ilhas) e gelo, o Ártico envolve partes de diferentes países: grande parte da Groenlândia, Norte do Canadá e do Estado norte-americano do Alasca, parte da Islândia, porção Norte da Noruega, além de uma extensa faixa do Norte da Rússia. 

A palavra Ártico tem sua origem no grego árktikósque significa “relativo a urso”. Já adianto que nada tem a ver com os ursos-polares, mas é uma referência as constelações da Ursa Maior e da Ursa Menor, sendo que nesta última encontramos a Estrela Polar ou Polaris

Quanto à delimitação geográfica, existem critérios diferentes. Um deles é a chamada linha das árvores, área onde ocorre a transição entre a vegetação arbórea e a rasteira, típica da tundra. Outro critério usado é a separação feita pela linha do Círculo Polar Ártico. Esses dois critérios não coincidem na prática e pode haver divergências de até 100 km. 

O derretimento e a perda da cobertura de gelo do Ártico é, de longe, o problema mais visível e está diretamente ligado ao aquecimento global, sendo mais evidente na massa de gelo flutuante ou banquisa do Oceano Ártico, que diminui ano após ano. Um exemplo do aumento das temperaturas na região foi o ocorrido na cidade de Verkhoyansk na Rússia em junho de 2020 – os termômetros dessa cidade na Sibéria atingiram a inédita marca de 38° C. Altas temperaturas como essa vêm sendo registradas em diferentes locais do Ártico

Com níveis de temperaturas tão altos, grandes volumes de gelo derretem durante todo o verão, formando rios caudalosos que correm na direção do Oceano Ártico. Quando o inverno chega, os volumes de gelo nunca voltam aos volumes que existiam anteriormente. 

Além da perda massiva de gelo, esse processo de aquecimento local expõe turfeiras ricas em carbono e que estavam aprisionadas sob o gelo há milhares de anos. Essas turfeiras liberam gases como o metano (CH4) na atmosfera, um gás de efeito estufa que é pelo menos 25 vezes mais prejudicial ao meio ambiente que o dióxido de carbono (CO2). 

Um exemplo dramático do derretimento do manto de gelo no Ártico é a Groenlândia, ilha autônoma pertencente á Dinamarca. Segundo um estudo publicado na prestigiada revista científica Nature no final de 2020, as três maiores geleiras do país: Jacobshavn Isbrae, Kangerlussuq e Helheim, estão apresentando um rápido derretimento.  

De acordo com as estimativas dos pesquisadores, a Jacobshavn Isbrae perdeu 1,5 trilhão de toneladas de gelo entre 1888 e 2012. Nas geleiras Kangerlussuq e Helheim essa perda de massa, entre os anos de 1900 e 2012, foi estimada em 1,3 trilhão e 3,1 bilhão de toneladas, respectivamente. Entretanto, nem é preciso ser um especialista no assunto para observar o que está acontecendo – existem enormes crateras cheias de água por toda a ilha, um sinal claro do derretimento do manto de gelo. Esse problema se repete por todo o Ártico. 

Outro problema muito evidente no Ártico é o derretimento do gelo dos solos de permafrost – algumas projeções indicam que cerca de 5% dos solos de permafrost já enfrentam esse problema. Conforme já tratamos em uma postagem anteriorpermafrost é uma abreviação de “permanent frost” ou “solos permanentemente congelados”. O termo foi proposto pela primeira vez pelo geólogo e paleontólogo norte-americano Siemon William Muller em 1943. 

Os solos do tipo permafrost ocorrem nas regiões Polares e em áreas próximas, além de terrenos elevados em áreas montanhosas. São formados por sedimentos, rochas e detritos minerais permeados por água congelada. Cerca de ¼ dos solos do nosso planeta se enquadram nessa categoria, o que nos dá uma ideia dos impactos ambientais que poderão ser desencadeados pelo aquecimento global.  

No Hemisfério Norte, os solos do tipo permafrost são encontrados em quase todo o Alasca, em grande parte do Canadá e na Groenlândia. Na Europa são encontrados no Norte dos países escandinavos – Noruega, Suécia e Finlândia, no Norte da Rússia europeia e em altitudes elevadas dos Alpes. Na Ásia, esses solos ocorrem em uma extensa faixa do Norte da Rússia e também são encontrados no Nordeste da China. No Hemisfério Sul, o permafrost só é encontrado em trechos de grande altitude da Cordilheira dos Andes e na Antártida. 

O fenômeno do derretimento do permafrost começou a ganhar notoriedade há alguns anos atrás, quando construções no Alasca e no Norte do Canadá primeiro começaram a se inclinar e, depois, ruíram. Foi então que os moradores dessas regiões começaram a observar que os solos duros do passado, que eram extremamente difíceis de serem escavados para a construção das fundações dos imóveis, haviam se transformado solos lamacentos e instáveis. O problema também afeta as áreas florestais – as raízes das árvores perdem a sustentação e começam a inclinar até cair ao chão. 

Em algumas regiões, os Governos locais estão vendo o aumento das temperaturas e o derretimento do permafrost no Ártico como uma grande oportunidade para a expansão das áreas agrícolas. Na Rússia, citando um exemplo, o Instituto de Pesquisas Pustovoit de Culturas Oleaginosas e o Instituto de Pesquisa Agrícola Chuvashia criaram variedades de sementes de soja que crescem em ambientes frios e que podem ser plantadas em solos onde o permafrost derreteu. Em 2019, os russos colheram cerca de 1,1 milhão de toneladas de soja em campos experimentais na área central do país. 

A redução da banquisa de gelo flutuante no Ártico também é vista como uma grande oportunidade para a navegação marítima. Chineses e russos pretendem passar a usar rotas através do Oceano Ártico para levar cargas de portos no Oceano Pacífico para a Europa num futuro não muito distante. Essa nova rota de navegação marítima evitaria o uso do complicado e caro Canal de Suez, no Egito. 

Enquanto alguns conseguem enxergar vantagens no aquecimento global e no aumento das temperaturas no Ártico, espécies locais tem um futuro incerto. Um ícone desses nossos tempos são os ursos-polares, uma espécie que evoluiu e se adaptou para uma vida nas duras condições do Extremo Norte. De acordo com a IUCN – União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais, na sigla em inglês, a espécie está classificada como “vulnerável”, com oito das dezenove subpopulações em declínio. 

Um urso-polar (Ursus maritimus) adulto mede entre 2,4 e 3 metros de comprimento e pesa entre 350 e 700 kg, números que o colocam na posição de maior carnívoro terrestre do mundo. Há registros da captura de animais com até 1 tonelada. A espécie é uma excelente nadadora, habilidade usada para a captura de sua presa favorita – as focas. Durante os meses de verão, os ursos-polares vageiam pelas grandes placas da banquisa de gelo flutuante em busca das focas. 

É aqui que o aquecimento global está se voltando contra os ursos-polares – com o derretimento da banquisa de gelo flutuante, o território de caça dos animais está ficando cada vez menor. Muitos animais tem sofrido com a fome e não conseguem resistir aos rigores do Ártico. 

Nesses novos e cada vez mais quentes tempos em que vivemos, as mudanças climáticas estão, literalmente, redesenhando os ambientes do Ártico e da Antártica, o que é, para dizer o mínimo, uma gigantesca tragédia ambiental. 

APRESENTANDO O “OCEANO ANTÁRTICO”

No último dia 8 de junho, a National Geografic Society declarou que o planeta Terra agora possui 5 oceanos: o Atlântico, o Pacífico, o Índico, o Ártico e o Antártico. Ainda não existe um consenso geral entre os cientistas, mas o reconhecimento da National Geografic é um grande ponto a favor do Oceano Antártico.  

Em 1921, a OHI – Organização Hidrográfica Internacional, já havia reconhecido que as águas que circundam o Continente Antártico formavam um corpo distinto dos outros oceanos, porém, em 1951, a Organização mudou de ideia. Apesar dessa mudança de posição, muitos pesquisadores, cientistas e organizações continuaram a chamar as águas geladas do Sul do planeta de Oceano Antártico. 

A escolha da data do anúncio tem um grande conteúdo simbólico – dia 8 de junho é o Dia Mundial dos Oceanos. O reconhecimento do Oceano Antártico ocorre em um momento delicado da história humana, quando oceanos e mares de todo o mundo estão sofrendo os efeitos do aquecimento global e estão com seus níveis subindo gradativamente. O Oceano Antártico é, justamente, o corpo d’água que mais sofre com o derretimento da capa de gelo do Polo Sul

O novo Oceano forma um círculo ao redor do Continente Antártico na altura da latitude 60 graus Sul. É nessa região que se encontra a ACC – Corrente Circumpolar Antártica, na sigla em inglês. Essa corrente marítima surgiu há cerca de 34 milhões de anos, quando a Antártida se separou da América do Sul, formando uma barreira que concentra águas mais frias e menos salgadas que as dos oceanos vizinhos. 

A ACC “puxa” as águas mais quentes dos Oceanos Atlântico, Índico e Pacífico e as redistribui na forma de grandes correntes de águas frias ao redor do mundo, criando assim um gigantesco mecanismo de circulação de nutrientes marinhos. As águas geladas ao redor do Continente Antártico favorecem o armazenamento de carbono nas profundezas do oceano, o que atrai milhares de espécies marinhas para essas águas férteis. 

Um grande exemplo da fertilidade das águas do Oceano Antártico é o krill, uma espécie de camarão minúsculo que vive em grandes comunidades, com densidades entre 10 mil e 30 mil indivíduos por metro cúbico de água. O krill se alimenta de fitoplanctons, plantas microscópicas que se nutrem do carbono presente na água e crescem absorvendo a luz solar. O krill é uma espécie-chave no ecossistema da Antártida, servindo de alimento desde peixes e aves até as grandes baleias que migram para se alimentar na região. 

palavra krill é de origem nórdica e significa algo como “peixinho”. Ela designa diversas espécies de crustáceos marinhos da ordem Euphausicea, uma ordem formada por 85 espécies encontradas em todos os oceanos do mundo. No Oceano Antártico existem 7 espécies – a mais comum é a Euphausia superba, chamada genericamente de krill antártico. 

Durante os meses do verão Antártico, quando a incidência solar é maior e ocorre uma proliferação do fitoplâncton, são formados grandes cardumes de krill, que muitas vezes podem superar o tamanho de 6 km e mudam a cor da água. Animais como as baleias jubarte, que migram para a região nesse período, se fartam com grandes volumes de krill. Ao animal basta abrir a boca e nadar através desses grandes cardumes. Outros grandes apreciadores do krill são as diversas espécies de pinguins que vivem no Continente Antártico. 

Até agora, as águas que circundam o Continente Antártico eram consideradas como meras extensões dos Oceanos Atlântico, Índico e Pacífico. Do ponto de vista prático, a simples mudança de nome e a agregação dessas águas em um único oceano fará muito pouco diferença. A principal mudança esperada pelos idealizadores dessa mudança na definição do Oceano Antártico é educacional. A ecologia, a geografia e a história da Antártica são fascinantes e a formação das novas gerações com esses conhecimentos poderá ser uma peça chave para a conservação da região num futuro que promete ser altamente complicado. 

Falando em história, existem muitas lendas sobre os primeiros viajantes que chegaram ao continente gelado. Entre os povos Aush da Terra do Fogo, no Extremo Sul do Continente Americano, existem lendas antigas sobre o “país do gelo”, uma referência que permite especular que, em algum momento, um grupo desse povo visitou ao menos a Península Antártica, que fica distante cerca de 1 mil km ao Sul da Terra do Fogo. 

Outra referência interessante vem dos maoris, povo nativo da Nova Zelândia. Segundo a tradição oral, um dos chefes desse povo – Ui-Te-Rangiora teria chegado ao Continente Antártico por volta do ano 650 de nossa era. Como nenhum desses povos possui escrita, fica muito difícil separar os acontecimentos reais da mitologia. 

Na Europa, a primeira referência a Terra Australis Incognita, ou Terra Austral Desconhecida, foi feita pelo filósofo grego Aristóteles em meados do século IV a.C. Ele acreditava que era necessária a existência de uma grande massa de terras ao Sul do planeta para contrabalancear o peso da Europa, da África e da Ásia. Essa ideia permaneceu viva na mente dos europeus por vários séculos.  

Entre 1772 e 1775, o capitão James Cook foi o primeiro a tentar chegar à desconhecida Antártida, mas não conseguiu. Segundo as anotações do capitão inglês, seus navios passaram a apenas 120 km do Continente em um determinado momento da jornada. 

No ano de 1819, a Rússia organizou uma expedição com o objetivo de descobrir a Antártida. No comando da expedição estava Fabiam von Bellinshausen (1778-1852), um oficial naval alemão a serviço do império Russo. No dia 27 de janeiro de 1820, a expedição avistou pela primeira vez o gelo de uma plataforma da Antártida. A região foi batizada como Terra da Rainha Maud.  

Apenas três dias depois, uma expedição da Marinha Real Britânica sob o comando de Edward Bransfield (1778-1852), chegou à Península Antártica. Em 17 de novembro do mesmo ano, o explorador e baleeiro norte-americano Nathaniel Palmer (1799-1877) também chegou ao Continente Antártico, tendo sido consagrado na história como codescobridor. 

Outro capítulo empolgante da história da Antártida foi a corrida para chegar até o Polo Sul. O norueguês Roald Amundsen chegou ao Polo em 14 de dezembro de 1911. A expedição rival comandada pelo inglês Robert Falcon Scott chegou ao local cerca de um mês depois. O grupo enfrentou enormes dificuldades durante o retorno e todos os membros da expedição morreram. 

A minha história favorita sobre a conquista da Antártica é a Expedição Transantártica Imperial comandada por Ernest Schakleton e que tentou ser a primeira a atravessar o continente por terra entre 1914 e 1917. O navio da expedição, o Endurance, naufragou no Mar de Vedel em novembro de 1915, destroçado pela força do gelo oceânico. A expedição se transformou em uma luta desesperada pela sobrevivência. O resgate de toda a tripulação, que ficou presa na Ilha Elefante, só ocorreria em agosto de 1916. 

Observem a quantidade de informações interessantes que apresentamos sobre a geografia, a biologia, o oceano e a história do Continente Antártico no espaço limitado dessa postagem. É justamente essa a ideia a ser usada para a divulgação de informações sobre o Oceano Antártico para os estudantes – cativar e formar os alunos através de histórias e informações cativantes sobre o Oceano e o Continente Antártico. 

Então, que seja muito bem-vindo o Oceano Antártico! 

AS AMEAÇAS AO DELTA DO RIO GANGES, O CELEIRO AGRÍCOLA DA ÍNDIA E DE BANGLADESH

O Ganges é o mais sagrado, o mais poluído e o mais importante rio da Índia e de parte de Bangladesh. Cerca de 400 milhões de pessoas nos dois países dependem das suas águas sagradas para abastecimento, usos indústriais, irrigação de campos agrícolas, diluição de esgotos, entre outros usos da água. 

As principais nascentes do rio Ganges ficam nas Montanhas Himalaias. A mais sagrada fica numa gruta sob uma geleira e é conhecida pelo nome de Gaumukh, palavra que vem do sânscrito e significa “boca da vaca”. De acordo com a mitologia, é nessa gruta que a deusa Ganga assume uma forma física que é representada pelas águas do rio. Os populares a chamam de Ganga Ma, a Mãe Ganga, que é aquela que provê o sustento para todos os seus filhos. 

Das Montanhas Himalaias, as águas do rio Ganges vão percorrer cerca de 2.500 km por todo o Norte da Índia até atingir a sua foz no Golfo de Bengala, na divisa com Bangladesh. No trecho final do rio, a partir do Estado indiano de Bengala Ocidental, o Ganges de abre em dezenas de canais, formando o maior delta do mundo. Às águas do rio Ganges se juntam as águas do rio Brahmaputra

O Delta do Ganges possui uma largura de 350 km, ocupando terras de Bengala Ocidental e de Bangladesh. Graças à excepcional fertilidade dos solos da região, classificada como uma das melhores do mundo para a prática da agricultura, a região passou a ser conhecida como Delta Verde.   

A região abriga o maior manguezal do mundo, conhecido localmente como Sundarbans, palavra que na língua bengali, falada tanto em Bengala Ocidental quanto em Bangladesh, significa “floresta belíssima”. O Sundarbans ocupa uma área total de quase 17 mil km² e é considerado um patrimônio natural pela UNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura. A floresta abriga espécies ameaçadas como o tigre-de-Bengala e duas espécies de crocodilo – Crocodylus porososCrocodylus palustris, entre outras espécies.

No período das chuvas, com o forte aumento do nível dos rios, as águas rompem os limites das margens e as fortes enchentes cobrem os solos com uma grossa camada de sedimentos e nutrientes, além de elementos químicos como fósforo e enxofre (vide foto). Esse “mecanismo” natural vem garantindo, há milhares de anos, excepcionais safras agrícolas na região.   

O arroz é uma das culturas mais tradicionais, sendo semeado entre os meses de junho e setembro, acompanhando o recuo das águas das enchentes. Também são essenciais as plantações de rajma, os feijões vermelhos, trigo, cevada, lentilha, milho, batatas, frutas, verduras e flores, além de uma infinidade de ervas, fungos e especiarias essenciais para a culinária local. Ao redor dessas plantações são criados milhões de animais como vacas, búfalos, ovelhas, cabras, cavalos, porcos, galinhas, frangos e outras aves.   

Concluídas as apresentações, precisamos falar dos enormes problemas ambientais da região – o maior deles é a elevação do nível das águas do Golfo de Bengala e os riscos cada vez maiores da intrusão de água salgada nos canais do Delta do Ganges. Essa salinização ameaça tanto a produção agrícola quanto as fontes de abastecimento de água utilizadas pelas populações. 

De acordo com dados da Escola de Estudos Oceanográficos da Universidade de Jadavpur em Calcutá, toda a região do Delta do Ganges vem apresentando um aumento sistemático do nível do mar há várias décadas – nos últimos 10 anos, houve uma aceleração visível na velocidade deste aumento do nível das águas, o que resultou no desaparecimento da ilha New Moore

A pequena ilha de 10 km² era disputada entre a Índia e Bangladesh há muitos anos, sendo chamada de New Moore pelo Governo indiano – os habitantes locais, os bengaleses, chamavam a ilha de Talpati. A ilha, que nunca foi habitada e era visitada apenas por pescadores, foi formada a partir do acumulo de sedimentos carreados pelo rio Hariabhanga e tinha uma elevação máxima de 2 metros acima do nível do mar. Em 2018, a ilha foi completamente encoberta pelas águas do mar. 

A elevação gradual das águas do Golfo de Bengala é acompanhada por uma série de problemas de poluição das águas, especialmente dos caudais do rio Ganges, e também pela redução dos volumes de água que chegam ao Delta. A diminuição dos volumes de água doce facilita ainda mais a intrusão de águas do mar. 

Alguns cálculos indicam que as águas do rio Ganges recebem perto de 1 trilhão de litros de esgoto não tratado a cada dia. Na cidade de Varanasi, um dos mais importantes centros de peregrinação do hinduísmo, o nível de coliformes fecais, uma bactéria encontrada no intestino de animais como cavalos, vacas e seres humanos e que é um dos mais importantes parâmetros para se avaliar a qualidade da água, chega ser até 3 mil vezes maior que os limites máximos aceitáveis

O Ganges também é o destino final de resíduos de todos os tipos, inclusive cinzas humanas dos crematórios cerimoniais espalhados pelas margens do rio. Outro grave problema são os barramentos das águas – são mais de 300 represas de sistemas de irrigação e de usinas hidrelétricas na calha do rio Ganges. Quando se consideram todos os rios que formam a bacia hidrográfica do rio Ganges, o número de represas chega bem próximo de 1.000 instalações

Além de criar imensos impactos para a fauna aquática, especialmente para os peixes migratórios e outras espécies aquáticas, todos esses represamentos levam a uma redução substancial dos caudais que chegam até a região do Delta. A isso se soma uma irregularidade cada vez maior das chuvas da Monção

Os problemas do rio Brahmaputra não são menores. O rio nasce nas Montanhas Himalaias no Tibet, região controlada pela China desde a década de 1950. Com grande parte de seu território formado por solos áridos e semiáridos, o Governo chinês tem feito grandes obras para a transposição de águas de rios das Himalaias na direção do Norte da China. Existem notícias sobre planos dos chineses para também desviar águas do rio Brahmaputra, uma perspectiva que deixa tanto a Índia quanto Bangladesh apreensivos. 

Apesar de não sofrer com a mesma intensidade da poluição do rio Ganges, o Brahmaputra sofre com os males do intenso desmatamento na sua bacia hidrográfica. Mais de 70% das florestas que cobriam as áreas do baixo curso de sua bacia hidrográfica já desapareceram e os remanescentes florestais continuam a ser destruídos a uma velocidade impressionante. Somente 4% dessas florestas se encontram dentro de reservas florestais e áreas protegidas.   

Durante o período das cheias, os solos expostos nessas áreas desmatadas sofrem um forte processo de erosão e as águas do rio Brahmaputra ficam saturadas de sedimentos. Esses sedimentos, formados em grande parte por areia inerte, são depositados na forma de uma grossa camada sobre os solos agrícolas de uma extensa área de Bangladesh, o que mais prejudica a fertilidade dos solos do que ajuda. A presença da areia também torna os solos mais permeáveis, fazendo com que a água infiltre rapidamente e deixando a camada superior muito seca, uma condição nada ideal para a produção agrícola. 

Os problemas do Meghna, outro grande rio que despeja as suas águas na região do Delta do Ganges, são praticamente os mesmos do rio Brahmaputra, porém, é um rio que sofre mais com a poluição das águas. O rio Meghna atravessa regiões densamente povoadas de Bangladesh, especialmente as cercanias da capita Dhaka, de onde recebe uma enorme carga de esgotos e resíduos sólidos

Redução de caudais dos rios, poluição das águas, desmatamentos e aumento do nível das águas do Golfo de Bengala. Esse é um quadro resumido da situação crítica do Delta do Ganges, que só em Bangladesh ameaça cerca de 20 milhões de pessoas. 

OS GRAVES RISCOS DE SALINIZAÇÃO DA REGIÃO DO DELTA DO RIO MEKONG NO VIETNÃ

As formações conhecidas como delta são encontradas normalmente na foz de rios de planície, onde as águas se dividem em vários braços ou canais antes do encontro com as águas de um lago, rio ou oceano. Devido à baixa declividade dos terrenos, as regiões dos deltas favorecem o acúmulo de sedimentos carreados pelos rios, o que leva a formação de ilhas.  

As áreas deltaicas são, desde tempos imemoriais, importantes centros habitacionais. Um grande exemplo é o delta do rio Nilo no Egito, um dos berços de nossa civilização. A grande disponibilidade de águas, terras férteis e alimentos (peixes, crustáceos e outros animais) sempre funcionaram como um atrativo para as antigas populações nômades, que graças a este conjunto de características, se transformaram em sedentárias. 

O Mekong é o maior e mais importante rio do Sudeste Asiático e sempre ocupou uma posição de destaque nas comunicações e transportes entre os antigos reinos do Sião (atual Tailândia), Laos, Camboja, China, Malásia, Indonésia e outras nações da região. Seu delta ocupa uma área com aproximadamente 40 mil km², equivalente a duas vezes o território do Estado de Sergipe, com aproximadamente 4 mil ilhas e 3.200 km de canais.  

Localizado inteiramente dentro do território do Vietnã, o delta do Mekong abriga uma população de 17 milhões de pessoas, que dependem das suas águas para abastecimento, alimentação, trabalho e transportes. As terras do delta são tomadas por plantações de arroz – o Vietnã é o terceiro maior produtor mundial do grão, o alimento mais importante do Extremo Oriente e produto de exportação fundamental para a economia do país

Há uma surpreendente ligação entre o delta do Mekong e os Lusíadas, o grande poema épico que narra a saga dos navegadores portugueses pelo mundo. O navio em que o poeta Luís Vaz de Camões viajava naufragou na região por volta de 1565, quando fazia uma viagem de Macau para Goa. Reza uma lenda, bastante contestada pelos historiadores, que foi durante esse naufrágio que Camões teve de tomar uma difícil decisão – salvar o manuscrito dos Lusíadas, obra que estava escrevendo há vários anos, ou salvar Dinamene, sua jovem amante chinesa. Camões teria escolhido salvar seus manuscritos e passou meses vivendo como um náufrago no delta, até conseguir ser resgatado.  

Essa importantíssima região natural e econômica do Vietnã está sendo ameaçada em duas frentes: por um lado, grandes obras de barragens de usinas hidrelétricas estão em construção por toda a calha do rio Mekong, reduzindo cada vez os caudais de águas doces que chegam até a região do delta. Por outro lado, o nível das águas do oceano está subindo e avançando cada vez mais na direção do interior. O resultado é um avanço da salinização de terras e águas, um processo que poderá inviabilizar completamente a agricultura em um período de poucos anos. 

O rio Mekong nasce nas Montanhas Himalaias do Tibete, região controlada pela China, e ao longo de seu curso de mais de 4.300 km atravessa outros cinco países – a fronteira entre Mianmar e Laos, grande parte da fronteira entre o Laos e a Tailândia, Camboja e por fim o Vietnã. Cerca de 100 milhões de pessoas, pertencentes a quase uma centena de grupos étnicos diferentes, vivem ao longo das margens do rio Mekong e dependem, direta ou indiretamente, de suas águas. 

A China, que já construiu três hidrelétricas no alto rio Mekong, está construindo mais uma unidade geradora – esse conjunto de represas já causou uma redução substancial nos caudais do rio. O Laos pretende construir oito unidades, o Camboja duas, além de duas hidrelétricas previstas na fronteira entre a Tailândia e o Laos. Essa sucessão de barragens de usinas hidrelétricas, construídas em blocos independentes por diferentes países, não estão considerando que o rio Mekong é um meio ambiente único e ameaçado em diferentes frentes.   

O barramento sucessivo de um rio causa todo um conjunto de impactos na dinâmica das populações animais e vegetais. Essas mudanças vão desde a alteração da velocidade das correntezas, transformando ambientes lóticos (de águas com forte correnteza) em lênticos (de águas paradas), algo que afeta plantas e animais, até a criação de obstáculos para espécies de peixes migratórios, que na época da reprodução buscam águas tranquilas correnteza acima.  

Um exemplo de graves alterações ambientais provocadas pela construção de sucessivas usinas hidrelétricas é o nosso rio São Francisco, onde estamos assistindo à extinção de diversas espécies de peixes, entre elas o icônico surubim. O rio Mekong tem aproximadamente 1.200 espécies de peixes e produz, anualmente, mais de 2 milhões de toneladas de pescados, alimento essencial para as populações. Essa produção pesqueira, fatalmente, irá declinar ao longo do tempo.   

A criação de sucessivas represas ao longo do rio também terá forte repercussão nos ciclos de cheias anuais, reduzindo fortemente as enchentes e o transporte de sedimentos formadores das camadas de solos férteis. A construção da represa de Assuã no Egito, na década de 1960, produziu um efeito semelhante e alterou os ciclos de cheias do rio Nilo. Sem essa fertilização natural das margens, as populações rurais passaram a depender do uso de fertilizantes químicos, um custo extra que reduziu, e muito, os lucros dos produtores; algo semelhante poderá acontecer nas terras marginais do rio Mekong, prejudicando dezenas de milhares de pequenos e pobres produtores rurais.  

Por fim, a redução da vazão do rio Mekong irá comprometer todo o equilíbrio da região do delta – sem a força e o volume dos atuais caudais de águas doces, haverá a tendência do avanço das águas salgadas do Mar da China para o interior dos canais do delta, alterando completamente as condições ambientais e inviabilizando a produção agrícola na região.  

Algo semelhante está acontecendo na foz do rio São Francisco, onde o nível de salinização está cada vez mais alto e diversas vilas e cidades têm cada vez mais dificuldade para o abastecimento de suas populações e irrigação de plantações. Por uma grande e trágica coincidência, a região da foz do rio São Francisco é uma grande produtora de arroz, cultura que está em franco declínio. 

Com o gradual aumento do nível dos oceanos, processo que deverá se intensificar muito até o final desse século, as águas salgadas encontrarão ainda mais facilidade para invadir os canais do delta do rio Mekong, completando assim os estragos que estão sendo feitos pelas intervenções humanas na calha do rio. 

Todo o trabalho que a natureza levou milhões de anos para concluir e que vem sustentando e abrigando populações humanas há milhares de anos, está sendo destruído em poucas décadas. O arroz não se adapta a águas salobras e sua cultura poderá ficar totalmente inviabilizada no delta do rio Mekong. Sem contar com sua mais importante cultura agrícola, o que será da enorme população que vive nessa grande região? 

Além da perda de sua principal fonte de trabalho e renda, essas populações também correm o sério risco de perder as suas fontes de abastecimento de água devido a salinização. Ou seja, será cada vez mais difícil viver e produzir no delta do rio Mekong, o que forçará milhões de moradores a mudar para outras regiões – são os refugiados do clima, uma população que não para de crescer em todo o mundo. 

O drama que vem assolando o delta do rio Mekong é muito semelhante ao que está acontecendo em uma extensa região entre a Índia e Bangladesh, onde encontramos o delta do rio Ganges, a maior formação do tipo do mundo. Falaremos disso na próxima postagem.