MEIO FIO E SARJETA, OU O BÊ-Á-BÁ DA DRENAGEM URBANA

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Os sistemas de drenagem de águas pluviais vêm fazendo parte da paisagem urbana das cidades há milhares de anos. Valendo-se da intuição e da observação sistemática, nossos antepassados perceberam que em certos períodos do ano as chuvas se intensificavam e que eram necessários cuidados especiais para o seu escoamento na direção dos rios. Vários dispositivos urbanos foram criados ao longo dos séculos para drenar as águas das chuvas (e também do degelo em países de clima temperado) – sarjetas ou calhas estão entre dispositivos mais antigos.

Anos atrás, durante a realização de obras de redes coletoras de esgotos na cidade de Porto Velho, em Rondônia, enfrentei uma crise sem precedentes na minha carreira com os moradores de uma pequena rua no bairro Aponiã. A Rua Bidu Sayão tem aproximadamente 200 metros de extensão, interligando duas grandes avenidas do bairro, leito de terra (pelo menos há época), sem meio fio e sarjeta – uma típica rua de periferia urbana. De acordo com os protestos dos moradores, que fizeram muito barulho na imprensa local, após as obras realizadas, a rua passou a enfrentar problemas com enchentes. Depois de muitas idas e vindas, nossos técnicos constataram através de medições topográficas que a parte central da rua ficava num nível 25 centímetros abaixo do nível das avenidas nos extremos, ou seja, não havia como a água das chuvas escorrer para um ponto mais baixo – a movimentação de terra feita pelas nossas obras nada tinham a ver com o problema.

Por essa rápida descrição, é muito fácil perceber a importância do projeto e construção de sistemas de drenagem de águas pluviais bem dimensionados nas áreas urbanizadas das cidades e nas áreas impactadas por obras de infraestrutura como rodovias, ferrovias, pontes, aeroportos e túneis. Em áreas rurais com vocação agrícola, as técnicas de produção devem incorporar o cultivo respeitando as curvas de nível no terreno, uso de barreiras de contenção, a preservação de faixas de matas ciliares nas beiras de rios e córregos entre outras técnicas de conservação do solo e redução de processos de erosão provocados pelas águas pluviais. E todo sistema de drenagem de águas pluviais começa pelo básico – o corte de ruas e avenidas ainda na fase do loteamento de um lote ou gleba deve considerar o nível do solo, criando desde o início um caminho para as águas da chuva fluírem naturalmente; o meio fio (conhecido em São Paulo como guia) e a sarjeta, instaladas na sequência, simplesmente vão dar um corpo “sólido” para os caminhos de drenagem das águas de chuva. No exemplo citado da Rua Bidu Sayão, nome que homenageia a grande cantora lírica brasileira, os brilhantes projetistas não respeitaram os princípios básicos da agrimensura, ciência criada pelos antigos egipcios para a demarcação das propriedades rurais após as cheias anuais do famoso Rio Nilo.

Nos meios urbanos, os sistemas de drenagem de águas pluviais são responsabilidade das prefeituras das cidades. Eles começam com um bom projeto de urbanização, onde o traçado das ruas, avenidas e demais logradouros considera as condições ideais para o rápido escoamento das águas de chuva, que correm por ação da força da gravidade. Essa preocupação deve começar, como já dissemos, nas operações de terraplanagem e corte das vias, que devem ser executadas de maneira que o leito da via ficará num nível abaixo do nível das calçadas, que por sua vez ficará num nível abaixo do nível dos terrenos; os imóveis devem ser construídos num nível mais alto que o nível dos terrenos. As ruas receberão as guias e sarjetas que, na forma de uma calha, terão a função de escoar as águas pluviais na direção das tubulações da drenagem pluvial.

Ressalte-se que a rede de drenagem de águas pluviais é uma rede de tubulações subterrâneas independente da rede de esgotos. Essa rede de tubulações deve receber apenas as águas pluviais captadas pelos bueiros, bocas-de-lobo, grelhas e outros dispositivos e deve encaminhar o fluxo de águas na direção de valas de drenagem, córregos, rios ou outros receptores como piscinões, lagos e represas (por exemplo, as represas que armazenam a água para uso no abastecimento das cidades).

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