OS CICLONES QUE TÊM ATINGIDO A REGIÃO SUL DO BRASIL

ciclone-bomba

Um assunto que vem dominando os telejornais há vários meses é a unipresente epidemia da Covid-19, doença viral que já ceifou a vida de centenas de milhares de pessoas em todo o mundo e que, literalmente, destruiu a economia de muitos países. Esse é um tema bastante preocupante e que vem exigindo uma série de esforços individuais e coletivos para a sua superação. 

Dentro desse quadro delicado de acontecimentos, passamos a ouvir notícias nos últimos dias sobre ciclones na região Sul do Brasil, eventos climáticos que têm causado destruição e dor em muitas cidades em Santa Catarina, Paraná e no Rio Grande do Sul. Vamos tentar explicar o que está acontecendo. 

A Terra, essa grande massa de rochas e águas em que todos nós vivemos, se comporta como uma verdadeira “máquina planetária”, lidando com quantidades gigantescas de energia. Com seus movimentos de rotação e translação ao redor do Sol, a superfície do planeta (tanto as partes secas quanto os oceanos) acumula diferentes quantidades de calor. Parte importante dessa energia vai para o núcleo quente do planeta, formado por uma massa derretida de ferro e níquel.  

Outra parte significativa dessa energia se distribui entre a superfície das terras e dos mares, além da atmosfera. É justamente as diferenças entre as quantidades de energia (ou de calor) entre esses todos esses elementos que formam as correntes marinhas e de ar. Essas diferentes correntes formam a base dos fenômenos climáticos mais corriqueiros de nossas vidas como os ventos e as chuvas, assim como os eventos climáticos extremos como furações, tufões, tempestades, tornados e ciclones, entre outros. 

Um ciclone é formado a partir de uma grande perturbação na atmosfera terrestre. A depender da região do planeta onde ocorre esta perturbação, o evento receberá os nomes de Ciclone Tropical, que ocorre numa faixa ao longo da linha do Equador, ou Ciclone Extratropical, que ocorrem numa faixa de latitudes entre 30° e 40° nos Hemisférios Norte e Sul. O ciclone que atingiu a região Sul do Brasil se formou a partir da associação de frentes frias que vem do Sul do continente com uma queda repentina da pressão atmosférica.  

Explicando de uma forma bastante simplificada, a diferença de pressão (e, consequentemente, de temperatura) entre uma área central, conhecida como “olho do ciclone”, e as áreas ao redor forma o que é conhecido como força de gradiente de pressão, o que pode resultar em ventos com velocidade de até 300 km/h. Explicando de um jeito bem simples – esses fortes ventos são formados pelo deslocamento em alta velocidade do ar entre as áreas de alta pressão na direção das áreas de baixa pressão. 

Entre os dias 30 de junho e 1º de julho, parte da região Sul do Brasil foi atingida por um forte ciclone extratropical, chamado de ciclone-bomba em função da extrema velocidade em que se desenrolou a sua formação. De acordo com dados da rede de estações meteorológicas da EPAGRI – Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina, a velocidade do vento no Sul do Estado atingiu a marca de 168 km/h. Em Urupema, na Serra Catarinense, os ventos atingiram 126 km/h; em Itajaí chegaram a 121 km/h. Outras 50 estações meteorológicas no interior do Estado registraram velocidades entre 89 e 117 km/h

A área de incidência desse ciclone se estendeu entre o Paraná e o Rio Grande do Sul, causando enormes estragos, inclusive em Curitiba. No total foram mais de 200 cidades atingidas, deixando um saldo de 13 mortos e um prejuízo material de centenas de milhões de reais. De acordo com informações divulgadas pelas concessionárias de energia elétrica da Região Sul, esse ciclone provocou a maior destruição de redes de transmissão de energia elétrica da história.

Os efeitos desse ciclone-bomba foram sentidos em todo o interior dos Estados da Região Sul e também no litoral do Estado de São Paulo. Um novo ciclone, com intensidade menor, atingiu os Estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul no dia 8 de julho, provocando muita chuva e alagamentos. 

Os Estados da Região Sul do Brasil, além de São Paulo, Mato Grosso do Sul e a região do Triângulo Mineiro, e também as regiões contíguas nos países vizinhos, formam um extenso corredor onde há grande probabilidade de formação de fortes vendavais. Essa região, aliás, é considerada como o segundo maior “Corredor de Tornados” do mundo, só ficando atrás do Meio-Oeste dos Estados Unidos e dos seus famosos twisters.  

Massas de ar frio vindas da Patagônia, no sul do Continente, e massas de ar quente vindas da Amazônia e do Oceano Atlântico, costumam se encontrar na região. O encontro de duas dessas massas de ar, com diferentes temperaturas e com a rotação dos ventos em sentidos opostos pode gerar, como resultante, uma terceira massa de ar com uma grande concentração de energia – essa é a origem dos fortes vendavais. 

Os vendavais compreendem ventos com velocidades entre 50 e 102 km/h, o que corresponde a valores entre 7 e 10 na Escala de Beaufort (esses valores são aproximados porque essa Escala usa a unidade Milhas para a velocidade). Nessas faixas da Escala, os ventos vão de moderados a muito fortes. Esses ventos são gerados pelo deslocamento violento de uma massa de ar e normalmente estão associados aos sistemas formadores de tempestades.

Ventos com velocidade entre 103 e 119 km/h são chamados de ciclones extratropicais e, quando a velocidade dos ventos supera a casa dos 120 km/h, eles passam a ser chamados de ciclones tropicais ou furacões.  

Essa escala de velocidade de ventos foi criada originalmente em 1810 pelo hidrógrafo irlandês Sir Francis Beaufort, a partir de observações feitas no mar pelos navios da Marinha Inglesa. Os valores da Escala correspondem ao número de rotações de um anemômetro, um equipamento que mede a velocidade do vento. Essa Escala foi aprimorada e, no final de década de 1830, foi padronizada para uso em todos os navios da Marinha Real Inglesa. Ao longo da década de 1850, ela se tornou popular e passou a ter outros usos não militares.  

Com o avanço da tecnologia e com a disponibilidade de imagens de satélite cada vez mais precisas, os meteorologistas têm conseguido estimar com maior probabilidade as áreas onde podem ocorrer fortes tempestades e vendavais. Com a devida antecedência, essas informações podem ser repassadas para as populações através de noticiários de TV e de internet, ajudando assim a minimizar os impactos e a salvar vidas. 

As famosas e tão propaladas Mudanças Climáticas Globais, conjunto de mudanças no clima do planeta que estão sendo produzidas, entre outras causas, pela destruição maciça de florestas e pela poluição atmosférica, podem estar por trás do aumento da frequência e da incidência de fortes ciclones na Região Sul. Aqui é importante lembrar que ainda não há certeza científica absoluta sobre isso.

Em 2004, a mesma região foi atingida pelo Catarina, o primeiro furacão já registrado no Brasil. Esse furacão destruiu cerca de 1.500 casas e danificou outras 40 mil. A produção agrícola foi uma das atividades mais prejudicadas há época – a tempestade destruiu 85% da produção de bananas e 40% das plantações de arroz em mais de 14 municípios da região. O Catarina deixou um saldo de 11 mortos, 518 feridos e prejuízos calculados em mais de R$ 1,2 bilhão

Apesar do aparente aumento da frequência e da intensidade desses fenômenos, a Região ainda não conta com um eficiente sistema de alerta antecipado da chegada de novos ciclones e tempestades fortes, como acontece em países como os Estados Unidos. Se as Mudanças Climáticas, ao que tudo indica, vieram para ficar, precisamos também ficar preparados para as suas consequências. 

A julgar pelo que temos assistido, os ciclones passarão a fazer parte de “nossas paisagens” e de nossas vida daqui para a frente. 

O MÉXICO E SEUS 10% DE REMANESCENTES FLORESTAIS

Desmatamentos no México

Aproveitando o embalo dessa série de postagens sobre os imensos problemas ambientais e sociais da América Central continental e das ilhas do Mar do Caribe, precisamos falar do México, grande país caribenho localizado na América do Norte. 

O México divide com El Salvador e Haiti a nada honrosa posição de países com maior devastação florestal do mundo. Calcula-se que resta apenas 10% da cobertura florestal original no país. Considerando que nós brasileiros já conseguimos destruir cerca de 92% da Mata Atlântica, o feito dos mexicanos parece coisa de “amador”. Porém, existe uma diferença brutal no prazo em que os dois países “realizaram esse feito”. 

A destruição em larga escala da Mata Atlântica começou na década de 1530, época em que começou a colonização efetiva do Brasil. Se você se lembrar das aulas de história, vai recordar das famosas Capitanias Hereditárias e do Ciclo do Açúcar, principalmente na Região Nordeste. De lá para cá, já se foram quase 500 anos e se desenrolaram diversos ciclos econômicos para atingirmos essa trágica marca de destruição da floresta.

Já no México, as florestas conseguiram chegar ao século XX razoavelmente bem conservadas – a destruição da cobertura florestal acelerou brutalmente a partir da década de 1930. Somente entre os anos de 1980 e 2000, o México perdeu quase 10 milhões de hectares de florestas, um valor equivalente a 19,44% da área total de suas florestas em 1980. Entre os anos de 2001 e 2017, foram perdidos ao menos 3,2 milhões de hectares, o que correspondeu a 6% das florestas remanescentes. Ou seja – os mexicanos têm sido muito mais efetivos que nós brasileiras quando o assunto é desflorestamento de “velocidade”. 

O México, ou oficialmente, os Estados Unidos do México, tem uma área superficial de 1,97 milhão de km² e conta com uma população de 125 milhões de habitantes. Geopoliticamente, o país faz parte da América do Norte, porém, devido à colonização espanhola e ao uso majoritário da língua castelhana, o país tem grande afinidade com as Américas Central e do Sul, sendo englobado na chamada América Latina, onde ocupa a segunda posição em tamanho da economia, só ficando atrás do Brasil. 

Até onde já foi possível confirmar cientificamente, as primeiras populações humanas chegaram ao território mexicano há cerca de 21 mil anos atrás. Resquícios arqueológicos indicam que os povos indígenas locais iniciaram a prática da agricultura há cerca de 9 mil anos com a domesticação do milho, até hoje o principal alimento do país e de grande parte dos países latino americanos. 

Um ponto de destaque da história do México foi o surgimento de grandes civilizações indígenas a partir do segundo milênio antes de Cristo, povos esses que rivalizavam cultural e cientificamente com outras grandes civilizações da Ásia, África e Europa no período. Há época da chegada dos primeiros espanhóis ao Novo Mundo em 1492, as civilizações americanas já tinham quase 4 mil anos de história (vide foto).  

Entre esses povos destacam-se os olmecas, toltecas, teotihuacanos, maias, zapotecas, mixtecas e, em especial, os astecas. Estimativas históricas sugerem que a população do México antes da conquista pela Espanha estava entre 6 e 25 milhões de habitantes. 

Diferentemente da ideologia naturalista que vigorou durante muito tempo, esses indígenas mexicanos e centro americanos não viviam em “perfeita harmonia” com a natureza, sobrevivendo da pesca, da caça e coleta de frutas nas matas. Muito ao contrário – esses povos eram experts em derrubar e queimar áreas florestais para a abertura de grandes campos agrícolas para o plantio de milho e outros alimentos. Aqui há uma questão lógica envolvida – não se consegue alimentar populações com milhões de indivíduos pescando e caçando com arco e flecha. 

Existe ainda um outro complicador – essas civilizações não possuíam o arado e ferramentas metálicas para trabalhar a terra. Praticando uma agricultura neolítica, esses povos se valiam de ferramentas de madeira e de pedra para preparar a terra e produzir alimentos, o que pressupõe uma baixa produtividade. Há época da chegada dos primeiros espanhóis na Península de Iucatã (ou Yucatán em castelhano), grandes cidades dessas civilizações pré-colombianas foram encontradas desertas e engolidas pelas florestas, que voltaram a crescer com vigor. 

Após a conquista do Império Asteca por Hernán Cortês e a morte do Imperador Montezuma no início do século XVI, a varíola e outras doenças trazidas pelos conquistadores espanhóis devastaram grande parte das populações indígenas do México. Os sobreviventes sofreram um intenso processo de aculturação e a conversão forçada ao cristianismo. O México só voltaria a ter uma grande população no século XX. Lamentavelmente, foi essa tragédia humana que ajudou muito na preservação da biodiversidade do país até décadas bem recentes. 

A parte Sul do México, de clima predominantemente tropical, era coberta por uma densa floresta com características bastante similares à Floresta Amazônica. Conforme comentamos em postagem anterior, após a formação do Istmo do Panamá, uma ponte de terra que uniu as grandes massas de terras das Américas do Norte e do Sul, formou-se um corredor biológico através do qual houve uma grande migração de espécies – animais e vegetais, nos dois sentidos.  

Espécies de plantas e animais sul-americanos passaram a colonizar as terras da América Central, chegando até o Sul do México, onde muitas evoluíram e prosperaram como novas espécies. Essa densa floresta tropical cobria aproximadamente 15% do território mexicano. Em terras mais altas e em cadeias montanhosas, a vegetação predominante era de origem norte-americana, com abundância de bosques de coníferas. Esse tipo de vegetação cobria cerca de 20% do território do país. Grande parte do território mexicano é formado por solos e climas árido e semiárido. 

A biodiversidade que se formou no país é uma das mais impressionantes do mundo – de acordo com as estimativas científicas, cerca de 34% da fauna que habita as florestas mexicanas são endêmicas. Existem cerca de 1.500 espécies de mamíferos, mais de 1.000 espécies de pássaros, além de centenas de espécies de répteis, anfíbios e peixes, entre outras. O país abriga mais de 30 mil espécies de plantas, onde o grande destaque são os cactos – metade das espécies conhecidas no mundo estão no México

No ano de 1900, a população do México era de apenas 13,9 milhões de habitantes. Após o tumultuado período da Revolução Mexicana, que se estendeu entre os anos de 1910 e 1920, com cerca de 900 mil mortos nos conflitos, o país entrou em um forte período de prosperidade econômica entre os anos de 1930 e 1980. A taxa de fertilidade chegou próxima de 6 filhos por mulher, houve uma grande redução na mortalidade infantil e também um aumento da expectativa de vida da população

Como consequência direta desse grande crescimento populacional, onde o número de mexicanos aumentou quase 10 vezes, o país passou a assistir uma forte pressão sobre as áreas florestais. Essa pressão foi exercida pela agricultura, que precisava de quantidades cada vez maiores de campos para a produção de alimentos para a população e para a produção de commodities agrícolas para exportação como o milho e a soja, além da mineração e a coleta e processamento de madeira para a indústria, construção civil e exportação. Também não foram desprezíveis os desmatamentos para a ampliação de cidades, construção de obras de infraestrutura e de saneamento básico, entre outras

Sem a devida gestão das autoridades do país, bastaram poucas décadas para a quase completa destruição da cobertura florestal do México e o aparecimento de todo o “pacote de problemas” associados – redução de caudais e destruição de rios e outros corpos d’água, secas em algumas regiões e enchentes descontroladas em outras, erosão e perda de solos agrícolas, entre muitos outros. 

Há pouco mais de 10 anos, consciente da situação caótica em que se encontravam as florestas do país, o Governo do México passou a desenvolver inúmeros programas de recomposição de áreas florestais e de estímulo ao plantio de florestas comerciais. Centenas de milhões de mudas de árvores já foram plantadas e muitos milhões mais estão sendo planejadas. Essas importantes medidas chegaram um tanto atrasadas – calcula-se que perto de 12% da biodiversidade do país ou já foi perdida ou está em vias de desaparecer

Como eu sempre costumo afirmar nas minhas postagens, é fundamental lutar pela preservação da Floresta Amazônica, a maior florestal tropical do mundo. Entretanto, existem outras importantes florestas tropicais em todo o mundo, tão importantes e fundamentais como a Amazônica, que estão sucumbindo diante dos olhos do mundo e sem provocar a mesma paixão provocada pela grande floresta sul-americana. As florestas do México são um exemplo dessa passividade. 

OS ANIMAIS AMEAÇADOS NA REGIÃO DO MAR DO CARIBE, OU VOCÊ CONHECE O SOLENODONTE?

Solenodonte

De acordo com algumas teorias científicas, um grande meteoro atingiu a Península de Iucatã (ou Yucatán em castelhano), no México, há cerca de 65,5 milhões de anos atrás. Esse evento desencadeou uma série de alterações climáticas globais que resultaram na extinção dos dinossauros e na morte de, pelo menos, 75% das espécies vivas do planeta, tanto animais como vegetais. Curiosamente, uma pequena espécie de mamífero que vivia a poucas centenas de quilômetros de Iucatã conseguiu sobreviver à hecatombe planetária e chegou até os nossos dias. Falo aqui do solenodonte, um animal aparentado com as toupeiras e os musaranhos. 

Conhecidos popularmente como almiqui, esses animais só são encontrados nas ilhas de Cuba e de São Domingo no Mar do Caribe. O solenodonte-de-Cuba (Solenodon cubano) e o solenodonte-do-Haiti (Solenodon paradoxus) são muito parecidos e ambos estão em risco iminente de extinção. A espécie cubana (vide foto), inclusive, chegou a ser declarada extinta em 1970. Anos depois, felizmente, alguns animais foram encontrados em um fragmento de mata isolado no extremo Oeste de Cuba.  

Os almiqui podem atingir um comprimento de corpo de até 32 cm, além de contar com uma cauda com aproximadamente 20 cm. A espécie tem hábitos noturnos, sendo um dos poucos mamíferos venenosos existentes no planeta. A espécie, que conviveu com os dinossauros e sobreviveu a uma das maiores extinções em massa de espécies da história, hoje está perigosamente ameaçada pelos intensos desmatamentos e a fragmentação das matas onde tem seus habitats. 

Ainda falando em Cuba, um dos animais locais mais ameaçados é o crocodilo-cubano (Crocodylus rhombifer), uma espécie de réptil nativa da ilha. O animal só é encontrado atualmente na região do Pântano de Zapata, na Ilha de Cuba, e na Ilha da Juventude. A espécie habitou outras ilhas da região no passado e fósseis desse crocodilo já foram encontrados nas ilhas Caymans e Bahamas. 

O crocodilo-cubano é uma espécie de pequeno a médio porte, que pode atingir até 2,3 metros de comprimento e um peso médio de até 80 kg. Existem relatos antigos (e talvez bem exagerados) de espécimes capturados que tinham até 3,5 metros de comprimento e 215 kg de peso. Além da intensa destruição dos seus habitats, a espécie sofre com a caça predatória – a carne do animal é vendida no mercado negro cubano com preços entre US$ 5.00 e US$ 7.00 por kg. 

Uma espécie marinha que já foi abundante em todo o Mar do Caribe e que praticamente desapareceu dessas águas é o manatee ou peixe-boi-marinho (Trichetus manatus). No passado, os peixes-boi-marinhos eram encontrados desde o litoral do Estado da Georgia, na costa Leste dos Estados Unidos, até o litoral do Estado do Rio de Janeiro aqui no Brasil. No Mar do Caribe, a espécie era encontrada numa extensa faixa que atravessa as Bahamas, as Grandes e as Pequenas Antilhas. Essa espécie é “prima” do peixe-boi-da-Amazônia.

Assim como aconteceu no litoral do Brasil, esses animais foram intensamente caçados ao longo de séculos para aproveitamento da sua carne, que segundo os relatos tem o mesmo sabor da carne bovina, e do seu grosso couro. Os peixes-boi-marinhos desapareceram da maioria das ilhas caribenhas há mais de um século. O litoral e as regiões pantanosas do Sul do Estado americano da Flórida estão entre os últimos refúgios dos manatees

Atualmente, uma das maiores ameaças a esses animais são os choques com embarcações, principalmente barcos de pesca, lanchas turísticas e motos aquáticas. A ilha de Gadalupe, um território da França no Caribe, é um exemplo da luta pela preservação da espécie. As autoridades ambientais locais estão se empenhando para a reintrodução da espécie, inclusive com apoio do Brasil.  

Nosso país “emprestou” alguns peixes-boi-marinhos que viviam em tanques do CMA – Centro de Mamíferos Aquáticos, de Itamaracá, em Pernambuco. Os animais foram levados para o Parque Nacional de Guadalupe, onde estão sendo desenvolvidos projetos de reprodução da espécie em cativeiro. Os franceses pretendem soltar os eventuais filhotes nas águas e manguezais ao redor da ilha, de onde desapareceram há cerca de 100 anos. 

A geografia única do Caribe levou à evolução de espécies dentro de um processo conhecido na biologia como endemismo – espécies animais e vegetais originárias das áreas continentais ficaram isoladas nas diferentes ilhas por milhões de anos, levando ao surgimento de uma infinidade de espécies únicas e exclusivas de cada ilha. Um exemplo da riqueza biológica e dos riscos vividos pelas espécies pode ser observado na pequena ilha de Barbados. 

Entre as espécies mais representativas da fauna da ilha está o macaco-verde (Cercopithecus aethiops sabaeus), uma espécie de origem africana (vide foto abaixo), que foi introduzida e se adaptou perfeitamente à ecologia da ilha. Também encontramos o veado-mateiro e a cutia, espécies tipicas da América do Sul que, em algum momento de baixa do nível do oceano em um passado distante, conseguiram migrar para a ilha através de “pontes de terra”. Outra espécie é o jacaré caiman, originário das Américas Central e do Sul, que tem populações isoladas em diversas ilhas caribenhas.

Macaco-verde de Barbados

O Governo local criou uma reserva ecológica para tentar salvar essas espécies – a Barbados Wildlife Reserve. Para muitas espécies locais, como o guaxinim-de-Barbados (Procyon gloveralleni), a extinção chegou muito antes dessa consciência de preservação. 

Um exemplo notável da pressão ambiental sofrida por espécies do Mar do Caribe foi a que se abateu sobre as focas-monge-das-Caraíbas (Monachus tropicalis), um animal extinto há mais de 80 anos. Populações dessas focas eram encontradas em áreas litorâneas continentais do Mar do Caribe desde a Península de Iucatã, no México, até o sul da Flórida, nos Estados Unidos, além das Grandes e Pequenas Antilhas, entre outras ilhas da região. 

Foca-monge-das-Caraíbas

O primeiro relato sobre as focas-monge se deve a Cristóvão Colombo, que em 1493 fez anotações sobre a espécie em seu diário de bordo, descrevendo-a com o nome de “lobo-do-mar”. Colombo enfatizou o tamanho dessa foca, que podia chegar aos 2,4 metros de comprimento e mais de 130 kg de peso, imaginando as suas múltiplas “utilidades” para as populações humanas. As focas-monge foram impiedosamente caçadas ao longo dos séculos devido à sua valiosa pele, considerada excelente para a fabricação de botas, gordura e também pela sua carne.  

Na costa dos Estados Unidos, os pescadores acusavam essas focas de dizimar os cardumes de peixes e, sempre que avistavam um espécime atiravam para matar. A espécie, que era endêmica e abundante em todo o Mar do Caribe, não suportou toda essa pressão – o último exemplar vivo da foca-monge-das-Caraíbas foi avistado em 1932

Além desses exemplos citados, cada uma das diferentes ilhas do Mar do Caribe possui centenas de espécies de animais, insetos, peixes, moluscos, crustáceos, árvores e plantas endêmicas, todas altamente ameaçadas de extinção por causa da devastação da cobertura florestal e de corpos d’água, poluição, super exploração turística de praias e recifes de coral, desastres naturais, entre outras ameaças. 

Cada uma dessas espécies foi um triunfo da evolução e resultado de processos que se desenrolaram ao longo de milhões de anos de isolamento. O desaparecimento de qualquer uma delas é uma perda irreparável para toda a humanidade e pode significar também o desaparecimento de outras espécies – animais e vegetais, interdependentes. 

Um simples e pequeno beija-flor que desaparece de uma ilha, por exemplo, pode significar o fim de alguma espécie de árvore que tem suas flores polinizadas pela ave, além de ameaçar diversas outras espécies – animais e vegetais, que dependam e/ou vivam nessa árvore. Cada uma das ilhas caribenhas possui diversas espécies de beija-flores endêmicos, o que nos dá uma ideia dos riscos ambientais envolvidos. Multiplique esses riscos em razão das inúmeras espécies endêmicas em cada uma das ilhas.

A situação em todo o Caribe é muito grave, mas para muita gente, onde se incluem ecologistas e Governos, é só a “devastação” da Floresta Amazônica que importa.

PS: Hoje é dia do 4ª Aniversário do Blog.

AS PEQUENAS ANTILHAS E SEUS GRANDES PROBLEMAS AMBIENTAIS

Montserrat

Nas últimas postagens falamos dos problemas sociais e ambientais que estão assolando as Grandes Antilhas, as maiores ilhas do Mar do Caribe. São elas Cuba, a maior ilha caribenha, São Domingo, dividida entre a República Dominicana e o Haiti, a Jamaica e também Porto Rico, ilha que recentemente foi elevada à condição de 51º Estado Norte-americano. 

Além dessas ilhas principais, o Mar do Caribe é polvilhado por outras ilhas menores como as Bahamas, as Caymans, as Ilhas Turks Caicos, além de um longo arco de ilhas menores chamadas popularmente de Pequenas Antilhas. Esse arco de ilhas se limita ao Norte com a Ilha de Porto Rico e se estende rumo ao Sul na direção da costa da Venezuela. Essas ilhas são divididas em dois grupos principais – as Ilhas de Barlavento e as Ilhas de Sotavento, além das Ilhas de Barbados, Trinidad e Tobago e Ilhas do Norte da Venezuela – Aruba, Curaçao e Bonaire, pertencentes aos Países Baixos, além do Arquipélago Venezuelano. 

Para a maioria das pessoas, as ilhas caribenhas são uma espécie de “paraíso centro-americano do turismo”, com maravilhosas praias de areias brancas, águas transparentes que vão do verde-esmeralda ao azul-turquesa, recifes de corais cheios de vida e uma infinidade de passatempos e esportes para se curtir em merecidas férias. Entretanto, a realidade da vida no Mar das Caraíbas está muito distante dessas imagens estereotipadas.  

O Mar do Caribe e suas ilhas estão entre as regiões mais ameaçadas do mundo – cerca de 90% dos ecossistemas locais já foram destruídos/comprometidos por ações humanas. Completando o quadro trágico, a região está entre as mais afetadas pelas mudanças climáticas, onde se incluem longos períodos de secas, além de uma incidência cada vez mais frequente de furacões e tempestades tropicais

As ilhas caribenhas foram sendo “descobertas” em sequência a partir da chegada da expedição de Cristóvão Colombo em 1492 ao Novo Mundo. Ao longo várias novas expedições, Colombo e outros exploradores espanhóis foram descobrindo as demais ilhas caribenhas e reivindicando a sua posse em nome da Coroa da Espanha.  

Aqui é importante lembrar que a posse dessas ilhas foi corroborada em 1494 pelo Tratado de Tordesilhas, assinado entre os Reinos de Portugal e Espanha com a intermediação do Vaticano. Esse tratado estabeleceu um meridiano imaginário que dividiu o Novo Mundo entre Portugal e Espanha – a cidade de Belém do Pará fica bem próxima da posição aproximada desse meridiano. Todas as descobertas no Mar do Caribe pertenciam por direito à Espanha. 

A história colocou um ingrediente novo na equação que mudou os destinos de muitas dessas ilhas – a Reforma Protestante iniciada em 1517 na Alemanha por Martinho Lutero. As teses levantadas por Lutero passaram a questionar a autoridade até então absoluta da Igreja Católica, tanto religiosa quanto política.  

A consolidação de grandes grupos protestantes em países como Inglaterra, França, Holanda, Alemanha e Dinamarca teve reflexos nas ilhas caribenhas. Esses protestantes não estavam obrigados a seguir as orientações do Papa e, dentro das possibilidades, passaram a disputar os territórios espanhóis nas Américas e no Caribe. 

Pouco a pouco, muitas das ilhas caribenhas foram sendo conquistadas por grupos/empresas desses países “protestantes” e, atendendo aos grandes interesses comerciais da época, essas ilhas foram transformadas em grandes plantações de cana de açúcar, tabaco, cacau e especiarias, além de fornecer madeira e outros materiais. Esse uso das terras para fins agrícolas, é claro, resultou em grande devastação das florestas nativas dessas ilhas. 

A grande demanda por mão de obra para os trabalhos nessas ilhas transformou o Mar das Caraíbas num efervescente mercado para a venda de escravos africanos. A mão de obra dos indígenas dos diferentes grupos que habitavam as ilhas sucumbiu em poucas décadas, atingida por doenças trazidas pelos europeus e para as quais esses nativos não tinham imunidade. Poderosos grupos empresariais europeus passaram a se dedicar à lucrativa atividade de tráfico de escravos, que floresceu entre os séculos XVI e início do século XIX.  

A partir do século XIX, a escravidão foi sendo abolida em todas as ilhas e teve início uma série de movimentos pró-independência, que resultaram no nascimento de várias nações livres. Outras ilhas continuaram como possessões de países da Europa e também dos Estados Unidos. Apesar das diferenças históricas e políticas, todas essas ilhas mantém um alto grau de dependência da agricultura e enfrentam problemas semelhantes. 

Para não nos estendermos muito na análise dos problemas de todas as ilhas, vamos mostrar apenas algumas das ilhas. Comecemos pela Ilha de Guadalupe, um departamento ultramarino da França. A agricultura sempre foi a base da economia de Guadalupe, especialmente a produção e a exportação de açúcar e bananas. Há vários anos, porém, os rendimentos com essas exportações não têm sido suficientes para sustentar os 400 mil habitantes da ilha.  

A produção local de alimentos, por exemplo, não consegue atender as necessidades da população e a ilha precisa importar cerca de 10 mil toneladas de alimentos a cada ano. A salvação da “lavoura”, no sentido literal, vem sendo o turismo, atividade que ganha cada vez maior importância na economia local. 

A Dominica é outra ilha que sempre dependeu muito da produção agrícola, especialmente da produção e exportação de bananas. Nas últimas décadas, o Governo local passou a estimular uma diversificação das culturas agrícolas e a Dominica passou a produzir café, babosa, patchouli, flores e frutas como manga, goiaba e mamão. Desde 2006, o crescimento econômico da ilha tem sido fortemente influenciado pelo turismo e setor de serviços. 

Barbuda é outro exemplo de ilha caribenha que passou a depender economicamente do turismo. A economia da ilha sempre foi baseada na agricultura, principalmente de culturas como a cana de açúcar, algodão e frutas como mamão, goiaba, laranja, abacaxi e limão. Com o crescimento da população, os rendimentos gerados por essas culturas passaram a ser insuficientes para manter a balança de pagamentos e as receitas com o turismo e os setores de serviços passaram a ganhar importância. 

Como um último exemplo, vou citar a pequena ilha de Montserrat, que durante vários séculos foi uma grande produtora de açúcar. A partir de 1869, se valendo de uma crise vivida naquele momento pela indústria do açúcar, uma grande empresa passou a comprar terras na ilha e passou a plantar limoeiros e a produzir suco de limão, o que se tornou uma fonte de renda importante para a ilha.  

Em 1995, Montserrat foi surpreendida com o surgimento de um grande problema: o vulcão Soufrière Hills despertou de um longo período de inatividade e entrou em erupção (vide foto). Derramamentos de lava atingiram cidades e campos agrícolas como mostrado na figura abaixo, criando paisagens surreais. O evento forçou a evacuação de cidades e áreas agrícolas – toda a população acabou concentrada na parte Norte da ilha, o que corresponde a 40% do território. Todo o restante da ilha é considerado uma área de exclusão e não pode ser usado, principalmente para fins agrícolas, por razões de segurança. 

Montserrat derramamento de lava

As mudanças climáticas globais estão sendo sentidas nas ilhas do Mar do Caribe através de mudanças nos padrões das chuvas. Graças ao clima tropical de toda a região, o Caribe sempre foi marcado por duas temporadas bastante definidas – uma forte temporada de chuvas, bastante parecida com o nosso inverno amazônico, e uma temporada de seca. A produção agrícola nas diferentes ilhas sempre foi sincronizada com esses períodos. Nos últimos anos, entretanto, fortes secas têm atingido as ilhas e prejudicado a produção agrícola. 

Outro problema que vem crescendo nos últimos anos é a incidência cada vez mais frequente de furacões e fortes tempestades tropicais, que causam danos materiais graves na infraestrutura das ilhas. Além de danos em residências, fazendas e empresas de todos os tipos, esses eventos climáticos extremos causam danos em hotéis e resorts, aeroportos e campos de pouso, marinas e outras estruturas usadas pelo turismo. Os ventos e as fortes ondas também danificam praias e recifes de coral, além de destruir remanescentes florestais. A soma de todos esses problemas afeta fortemente as principais fontes de renda das ilhas e causa enormes prejuízos para a economia locais. 

Muito longe dos paraísos turísticos mostrados nos anúncios das agências de turismo, o Caribe e suas ilhas estão sofrendo com inúmeros problemas ambientais e sociais, que só aumentarão nos próximos anos. 

 

POBRE PORTO RICO

Furacão Maria 2017

A Ilha de Porto Rico, chamada inicialmente de San Juan Bautista pelos espanhóis, foi “descoberta” em novembro de 1493 por Cristóvão Colombo na sua segunda expedição às Américas. Como aconteceu com outras ilhas caribenhas, Porto Rico era densamente povoada por indígenas taínos, que chamavam sua ilha de Borikén. O gentílico popular “boricua”, usado para indicar as pessoas nascidas em Porto Rico, é derivado desse nome indígena. 

Porto Rico é a menor das Grandes Antilhas – a ilha possui apenas 9.100 km², o que equivale a menos da metade da superfície do Estado de Sergipe. A população é estimada em 3,5 milhões de pessoas. Desde 1898, quando foi assinado o Tratado de Paris que encerrou a chamada Guerra Hispano-Americana, Porto Rico passou a ser um Estado Livre associado aos Estados Unidos da América e, bem recentemente, foi elevado à condição de Estado norte-americano. 

O primeiro assentamento espanhol em Porto Rico foi fundado em 1508 por Juan Ponce de Leon, que foi nomeado o primeiro Governador da Ilha. Ponce de Leon entraria para a história por causa de sua busca obsessiva pela lendária Fonte da Juventude, uma saga que já foi tema de muitos livros e filmes como “Piratas do Caribe”.

A história colonial de Porto Rico não é muito diferente das outras ilhas do Mar do Caribe. Após a chegada dos primeiros colonizadores, a ilha acabou transformada em um grande canavial. Os indígenas taínos, que foram usados como mão de obra nos primeiros anos da colonização, morreram em grande quantidade devido a doenças trazidas pelos europeus e já em 1520, escravos africanos começaram a chegar na ilha para assumir os trabalhos na agricultura. 

Também como aconteceu com outras colônias espanholas nas ilhas caribenhas, Porto Rico foi relegada a um segundo plano diante das imensas riquezas geradas pela expropriação dos grandes tesouros dos Impérios Asteca e Inca no continente. Foi somente a partir do ano de 1700, com a ascensão da dinastia Bourbon ao trono da Espanha, que Porto Rico passou a receber maior atenção e maiores investimentos da Metrópole. Estradas começaram a ser construídas por toda a ilha, interligando as diversas cidades que surgiram ao longo da costa, favorecendo cada vez mais o escoamento e o comércio de produtos agrícolas. 

A partir do final do século XVIII, com o início de diversos conflitos emancipacionistas por todas as ilhas do Mar do Caribe, a Espanha passou a se preocupar com a manutenção da posse da Ilha de Porto Rico, que àquela altura já era um importante centro comercial na região. Em 1809, a Espanha reconheceu Porto Rico como uma de suas províncias ultramarinas e seus habitantes passaram a ter direto a eleger, por meio de voto, um representante para o Parlamento Espanhol.  

O Governo espanhol também estimulou a imigração de seus cidadãos para a Porto Rico, como forma de melhorar seus vínculos com a ilha – até o final do século XIX, perto de 450 mil imigrantes, a maioria espanhóis, desembarcaram na ilha. A Espanha também aumentou os seus fluxos comerciais com a ilha, tentando assim manter a posse de uma de suas últimas colônias nas Américas. 

Em julho de 1898, como uma consequência da Guerra Hispano-americana, os Estados Unidos invadiram Porto Rico e por lá ficaram. Após a assinatura do Tratado de Paris, a Espanha cedeu Porto Rico, Guam e as Filipinas para os Estados Unidos, além de conceder autonomia para Cuba, que se tornou um país independente. A partir de 1917, os porto-riquenhos passaram a ser considerados cidadãos norte-americanos. Em 2017, após um referendo popular, Porto Rico passou a ser o 51ª Estado norte-americano. 

Assim como aconteceu com a grande maioria das ilhas do Mar do Caribe, Porto Rico derrubou a maior parte de sua cobertura florestal com vistas a abertura de campos agrícolas. Como consequência direta dessa prática multissecular, grande parte da ilha sofre há vários anos com longos períodos de seca, um problema que também está ligado as mudanças climáticas e aos efeitos devastadores de sucessivos fenômenos do El Niño e La Niña. Mas nada disso, porém, se compara a uma sequência assustadora de fortes furacões que tem atingido a ilha como uma frequência e intensidade assustadoras. 

Relembrando apenas os furacões que atingiram a ilha em anos recentes: em 2016, o Furacão Matthew passou perto de Porto Rico e assustou muita gente. Em 7 de setembro de 2017, Porto Rico foi atingido pelo Furacão Irma e, poucos dias depois, pelo Furacão Maria no dia 20. O Maria foi a pior tempestade a atingir a ilha em 100 anos, gerando ventos com velocidade acima de 250 km por hora e provocando chuvas torrenciais e alagamentos generalizados. Esse furacão deixou um saldo oficial de 2.975 mortos e dezenas de bilhões de dólares em prejuízos materiais (vide foto).

Essas duas tempestades em sequência destruíram grande parte da infraestrutura de Porto Rico. Em setembro de 2019, a população de Porto Rico se preparou para a chegada do Furacão Dorian, que felizmente perdeu força e não causou maiores prejuízos. O aumento da incidência e da intensidade dos furacões no Mar do Caribe estão ligados às mudanças climáticas globais

Além de destruir casas e edifícios, esses sucessivos furacões têm causado grandes impactos nos remanescentes florestais de Porto Rico. As fortes ondas geradas pelos ventos avançam contra o litoral, destruindo a faixa de areia das praias e danificando a vegetação de áreas de mangue. No interior da ilha, as áreas florestais sofrem com a força intensa dos ventos e muitas árvores acabam sendo derrubadas. 

Imagens de satélite feitas pela NASA – Agência Espacial Norte-americana na sigla em inglês, logo após a passagem do Furacão Maria, mostraram a ilha de Porto Rico praticamente toda devastada e parecida com uma região que sofreu um pesado bombardeio aéreo numa guerra. Calcula-se que cerca de 30 mil pessoas ainda não conseguiram reconstruir suas casas até hoje

Um exemplo claro da devastação deixada pelos furacões pode ser visto na ilhota de Palominito, localizada nas proximidades da famosa Ilha de Palomino. Até cerca de 25 anos atrás, a ilhota era coberta por vegetação e possuía uma grande população de animais. Nos últimos anos, Palominito passou a ser varrida pelas ondas e fica submersa ao longo de grande parte do ano. Foi em Palominito que o pirata Jack Sparrou acabou abandonado num dos filmes da franquia “Piratas do Caribe”.

Um levantamento recente feito em 60% do litoral de Porto Rico constatou que ao menos 1/5 das praias do país estão sofrendo com a forte erosão marinha, criada por ressacas cada vez mais fortes e frequentes entre os meses de novembro e março, além dos estragos deixados pelos furacões. Esse problema afeta diretamente a indústria do turismo, uma das mais importantes atividades econômicas da ilha. Aliás, faz muito tempo que a economia de Porto Rico não anda “bem das pernas”. 

Apesar de ser o mais novo Estado do país mais rico do mundo, os Estados Unidos, a economia de Porto Rico vai de mal a pior. A economia da ilha está em recessão desde 2005, com uma dívida total de mais de US$ 120 bilhões. Para piorar a situação, o Estado vem enfrentando um decréscimo populacional já há vários anos

Em 1950, a população de Porto Rico era de 2,2 milhões de habitantes e continuou crescendo até 2001, quando atingiu um pico de 3,8 milhões de habitantes. Além da redução da taxa de fertilidade, que tem reflexos diretos na população local, cerca de 90 mil porto-riquenhos migram para a área continental dos Estados Unidos a cada ano. A destruição causada pelas sucessivas tragédias climáticas tem desaminado os porto-riquenhos, que cada vez mais optam por recomeçar a vida em Estados com grandes populações “latinas” como a Flórida e o Texas. 

Com o êxodo de parte cada vez mais expressiva da sua população, principalmente jovens, Porto Rico perde parte importante da sua força de trabalho, o que afeta profundamente o crescimento econômico. E a situação que já não é das melhores, tenderá a piorar cada vez mais ao longo dos próximos anos. 

Devastação ambiental, decréscimo populacional e uma longa e perturbadora recessão econômica – essa é a triste sina do cada vez mais pobre Porto Rico. 

A CRESCENTE ESCASSEZ DE ÁGUA EM CUBA

Falta de água em Havana

Na nossa última postagem falamos de alguns dos principais problemas ambientais da Ilha de Cuba, onde destacamos a destruição de remanescentes florestais para a retirada de madeira e também da caça predatória de animais silvestres para abastecer o mercado negro de carnes do país. Esses dois problemas estão acabando com a biodiversidade de Cuba.

Se existe uma única palavra que pode definir Cuba como nenhuma outra ela seria “escassez“. Falta de tudo na Ilha: madeira, carnes, sabão, eletricidade, peças de reposição e combustível para carros, caminhões e motos; alimentos, entre muitas coisas mais. Os cubanos, assim como nós brasileiros, criaram “jeitinhos para tudo” e vão tocando a vida da melhor maneira possível. 

Um elemento essencial cuja escassez não para de aumentar na Ilha é a água. No início desse ano, citando apenas um exemplo, cerca de 1 milhão de habitantes de Havana ficaram até um mês sem receber uma única gota de água em suas torneiras e dependendo de caminhões pipa. Uma das regiões mais afetadas foi a Cidade Velha, mais conhecida como La Habana Vieja

De acordo com informações da chamada “Imprensa Cubana Livre”, dirigida por refugiados cubanos de Miami – Estados Unidos, cerca de 70% das tubulações da rede de água dessa região da cidade está deteriorada. A infraestrutura de La Habana Vieja e de outras regiões tradicionais da capital do país são anteriores à Revolução Cubana, encerrada em 1959. Tubulações de ferro fundido costumam ter uma vida útil na casa dos 50 anos, o que nos dá uma ideia da quantidade de água que é perdida em inúmeros vazamentos

Os problemas relacionados aos recursos hídricos em Cuba, entretanto, são bem mais complexos. Conforme comentamos em postagem anterior, perto de 70% da cobertura vegetal nativa da ilha desapareceu após cinco séculos de produção de cana de açúcar e tabaco. A presença de cobertura vegetal, como sabemos, é essencial para a infiltração da água das chuvas nos solos e recarga dos lençóis subterrâneos e aquíferos, reservas de água que alimentam as nascentes de rios, riachos e córregos.  

Sem esse processo, os corpos d’água só apresentarão bons volumes de água durante o período das chuvas – ao menor sinal de seca, a água simplesmente desaparece. Em ilhas como Cuba, onde os territórios são pequenos e as bacias hidrográficas costumam ser pouco extensas, a velocidade em que a redução dos caudais se processa é muito grande, o que agrava ainda mais o problema. 

As ilhas do Mar do Caribe estão entre as áreas com maior escassez de água do mundo. De acordo com dados da FAO – Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, dos 36 países do mundo com maior escassez de água na atualidade, 7 estão no Caribe e Cuba, maior país insular e que possui a maior população entre todas as ilhas está no topo dessa lista

Como acontece na maioria dos países do mundo, a maior parte das águas superficiais disponíveis em Cuba são usadas pela agricultura. De acordo com dados de 2008, 65% da água disponível no país era usada em sistemas de irrigação – na maioria dos países esse volume está próximo de 80%. Agora, um dado interessante para ajudar a entender o tamanho do problema da escassez de água em Cuba – de um total de 6,2 milhões de hectares de área agrícola do país, menos de 500 mil hectares são irrigados. 

Segundo informações do Panorama de Uso da Terra de 2015, um informe do Governo Cubano, a maioria dos sistemas de irrigação em operação na Ilha são obsoletos e desperdiçam grandes volumes de água. Os planos do Governo local eram de duplicar a área irrigada até 2020, o que sem a troca dos sistemas de irrigação atuais por outros sistemas mais modernos como o micro gotejamento, é virtualmente impossível por falta de água

Plantações irrigadas costumam apresentar uma produtividade média até 30% maior que os cultivos tradicionais. Esse incremento na produção seria muito bem-vindo em um país que gasta mais de US$ 2 bilhões ao ano com a importação de alimentos básicos e que vem apresentando gravíssimos problemas de desequilíbrio em sua balança comercial desde o colapso da URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, em 1991 e que era a grande parceira comercial de Cuba. 

O país também depende da produção e exportação de produtos de origem agrícola, onde os maiores destaques são o açúcar, o rum e os famosos charutos “habanos puros”. Nessa situação, há uma tentação natural das autoridades em “forçar a mão” para disponibilizar a maior parte dos recursos hídricos para a agricultura, reduzindo proporcionalmente os volumes disponibilizados para a população. Esse desequilíbrio, aparentemente, chegou ao seu limite e a população tem feito grandes protestos diante da sistemática falta de água em suas torneiras (vide foto). 

Uma solução usada tradicionalmente em países com baixa disponibilidade de recursos hídricos superficiais é a perfuração de poços para a captação de águas em lençóis subterrâneos profundos. Em Cuba, essa solução não é eficaz – a ilha é extremamente alongada e estreita, não existindo praticamente nenhum ponto do território distante mais de 50 km do mar. A perfuração maciça de poços vai aumentar consideravelmente os riscos de salinização das reservas de água ainda existentes. Conforme comentamos na última postagem, cerca de 1 milhão de hectares de terras agrícolas do país já sofrem com processos de salinização

Além, da destruição da cobertura vegetal do país e do grande desperdício de água na agricultura, Cuba e outras ilhas do Mar do Caribe vêm sofrendo fortemente com as mudanças climáticas e com alterações nos tradicionais padrões de chuva. Com clima tropical, as Ilhas caribenhas sempre conviveram com duas estações climáticas bem definidas – uma forte temporada de chuvas, equivalente ao inverno da nossa Amazônia, e um verão quente e seco.  

Fenômenos naturais com o El Niño e La Niña tem afetado esse ciclo natural e provocado fortes secas. Outro sério problema enfrentado na região é o aumento da intensidade e da frequência dos furacões, o que tem causado enormes estragos nas ilhas. Um exemplo recente foi o Furacão Matthew, que em 2016 causou enormes estragos no Haiti, Jamaica, Cuba, República Dominicana e Bahamas, além dos Estados Unidos. Outro foi o Furação George, que em 1998 atravessou o Caribe e causou grande destruição na República Dominicana, Haiti, Porto Rico, Antígua e Barbuda, São Cristóvão e Névis, Cuba e Estados Unidos. 

Existem várias soluções técnicas para amenizar o problema de escassez de água em Cuba – desgraçadamente, todas irão demandar pesados investimentos. Essas soluções incluem a troca das redes de distribuição de água nas grandes cidades, o que diminuiria grandemente as perdas. Outra solução é adoção de sistemas para o reúso de água – em Israel, onde a disponibilidade de água ainda é menor do que em Cuba, as águas servidas são usadas em sistemas de irrigação altamente eficientes. A construção de usinas de dessalinização da água do mar, como é feito por exemplo em Curaçao, é um outro caminho para aumentar a oferta de água no país. 

Infelizmente, enquanto os “companheiros revolucionários” ainda derem as cartas em Cuba, nenhuma dessas ideias poderá sair do papel. Sem dinheiro, sem água e com burocratas socialistas mandando no país, a situação em Cuba ainda vai piorar muito antes que qualquer sinal de melhora surja no horizonte. 

CUBA: TERRA DA “REVOLUCIÓN”, DOS ”HABANOS PUROS” E DO “JEITINHO”

Havana

Uma expedição espanhola comandada por Cristóvão Colombo chegou na Ilha de Cuba em 1492, logo após ter descoberto a Ilha de São Domingo, batizada de Hispaniola. Colombo batizou a ilha com o nome de Juana, como uma homenagem à filha dos Reis Católicos da Espanha, Fernando de Aragão e Isabel de Castela. Inicialmente, Colombo imaginou que a ilha fosse uma península do continente americano – foi somente em 1509, que o explorador Sebastián de Ocampo conseguir circunavegar todo o território e comprovar se tratar de uma ilha. 

Logo após desembarcar em terra, Colombo organizou e dividiu seus homens em grupos para explorar a ilha. Dois desses homens, Rodrigo de Jerez e Luís de Torres, ficaram vários dias fora e, quando retornaram, fizeram um relato dos mais curiosos a Colombo – os índios taínos “tinham tochas nas mãos e ervas das quais inalavam fumaça, ervas secas dentro de uma folha, igualmente seca… acesas na ponta, eram chupadas ou aspiradas, o que lhes entorpece a pele e é quase intoxicante, e dizem que dessa forma jamais sentem fadiga“. Acidentalmente, esses dois espanhóis descobriram o produto que faria a ilha famosa em todo o mundo – os charutos cubanos. 

Com o avanço das conquistas nas Américas Central e do Sul, os espanhóis descobriram que o plantio do fumo (Nicotiana tabacum) e o hábito de fumar faziam parte da cultura de diversas tribos indígenas americanas. Levado para a Europa, o fumo conquistou apreciadores no Velho Continente, o que criou uma forte demanda por esse novo produto das Américas. A região de Pinar del Rio, em Cuba, foi rapidamente identificada como a que possuía as melhores terras, além das condições de clima e ecológicas para a produção das melhores folhas de fumo. Os mundialmente famosos “habanos puros” tem suas folhas produzidas exclusivamente nessa região. 

Como aconteceu na maioria das ilhas do Mar do Caribe, a Ilha de Cuba também seria transformada em uma grande produtora de açúcar. As primeiras mudas de cana de açúcar desembarcaram na ilha em 1511, mas Cuba só se tornaria uma grande produtora de açúcar apenas no século XVIII, dividindo espaços com as plantações de fumo. 

Apesar da história da chegada da cana e da produção do açúcar lembrar muito o que aconteceu na Ilha de São Domingo e na Jamaica, em Cuba a situação foi um pouco diferenciada. Nessas duas ilhas, onde os recursos naturais são mais limitados, os engenhos de processamento do açúcar utilizavam a queima do bagaço da cana como combustível para as caldeiras de refino do melaço. Relembrando o que já comentamos em uma postagem anterior, era necessária a queima de até 20 kg de lenha ou outro combustível para a produção de um único quilograma de açúcar

Em Cuba, a maior ilha do Mar do Caribe, a aparente disponibilidade inesgotável de recursos florestais deixou os engenhos locais muito parecidos com os engenhos da região Nordeste do Brasil – essas instalações utilizavam lenha colhida nas florestas para gerar a energia dos processos de produção do açúcar. Essa característica criou duas frentes de desmatamentos: a primeira, derrubando florestas a ferro e a fogo para a abertura de campos para o cultivo da cana, e outra derrubando matas para a obtenção de lenha. 

À semelhança dos grandes engenhos do Nordeste brasileiro, os produtores cubanos abandonavam as suas terras ao primeiro sinal de esgotamento dos solos e partiam para a derrubada de novos trechos de matas, liberando “terras virgens” para a criação de novos campos agrícolas. Essa prática, que foi responsável pela destruição do trecho nordestino da Mata Atlântica aqui no Brasil, também colaborou muito para a devastação das florestas cubanas. Segundo os últimos levantamentos divulgados pelo Governo local, restam apenas 28,6% das matas nativas originais de Cuba

O Arquipélago de Cuba é formado por mais de 1.500 pequenas ilhas e ilhotas, sendo que a Ilha principal tem uma área total aproximada de 105 mil km², pouca coisa maior que o Estado de Pernambuco. O território da Ilha de Cuba possui um formato alongado, com cerca de 1.200 km de comprimento e com uma largura média de 130 km. A população do país é de 11,2 milhões de habitantes. 

Como aconteceu em grande parte das ilhas do Mar do Caribe, Cuba passou a sofrer grande influência dos Estados Unidos, principalmente depois da independência da Espanha em 1898. Os cubanos se envolveram em três conflitos armados contra o domínio espanhol a partir de 1868, só logrando êxito na terceira tentativa, onde contaram com apoio dos Estados Unidos.  

O Tratado de Paris, assinado em 1898, encerrou a guerra de independência, mais conhecida como Guerra Hispano-Americana, quando a Espanha abriu mão de Cuba, Porto Rico e das Filipinas. Os norte-americanos permaneceriam formalmente em Cuba até 1902, mas o seu intervencionismo se estenderia até 1909, quando o país efetivamente deixou o país, não sem antes garantir a posse da polêmica base naval de Guantánamo no Sul da Ilha. Indiretamente, porém, o norte-americanos manteriam uma forte influência econômica sobre Cuba, o que só terminou no final da Revolução Cubana em 1959. 

O uso inconsequente dos solos e a destruição intensa da cobertura florestal na Ilha de Cuba desencadearam dois dos maiores problemas ambientais da ilha na atualidade – a erosão e a alta acidez dos solos. Processos erosivos afetam perto de 2,5 milhões de hectares da ilha, especialmente nas regiões onde a produção de cana é mais intensa.  

Outros 3,4 milhões de hectares de solos têm apresentado altos níveis de acidez, onde a principal causa é falta de rotação das culturas agrícolas, que se limitam a cana de açúcar e ao fumo. Completando o quadro, mais de 1 milhão de hectares de solos sofrem com a salinização. Juntos, esses problemas afetam mais de 60% do território de Cuba. 

Um outro problema grave, que já foi reconhecido até pelo Governo comunista da ilha, é a acelerada perda de biodiversidade. Entre as causas principais estão a destruição de áreas florestais e a perda de habitats. Existe, porém, outros problemas que são bem típicos de Cuba: a caça de animais silvestres e a pesca excessiva, atividades ilegais que surgiram como forma de compensar as deficiências do sistema de “cadernetas de racionamento” criado pelo regime socialista cubano. 

Eu estive em Cuba há alguns anos atrás e, numa das minhas andanças longe das vistas dos “agentes de turismo oficiais”, eu fui de moto até uma cidadezinha mais afastada. Num açougue dessa comunidade, verifiquei que só havia uma única bandeja com pescoços e cabeças de frango – todas as demais bandejas da gondola estavam vazias. Tentei conversar com alguns dos desconfiados moradores, que não sei por que cargas d’água achavam que eu era canadense, que sem querer confirmar, mas confirmando, disseram que aquilo era normal por lá. 

Pois bem – existe um poderoso mercado negro para venda de carnes em Cuba. Espécies silvestres como tartarugas cabeçudas, tartarugas verdes e tartarugas de pente, crocodilos e manatees (peixe-boi marinho), entre outras espécies ameaçadas de extinção, além de peixes e crustáceos marinhos, são caçados e/ou pescados clandestinamente, e tem suas carnes vendidas “por fora do sistema”.  

O quilo da carne de tartaruga ou de crocodilo, citando um exemplo, é vendido nesse mercado negro por valores entre US$ 5.00 e US$ 7.00, o que é muito caro para os padrões cubanos. Mesmo assim, as pessoas fazem um grande esforço econômico para comer uma proteína de qualidade de vez em quando. Numa visita a um restaurante fino de Havana, eu passei por uma situação curiosa que ilustra como funciona esse mercado negro. 

Ao parar nesse restaurante para almoçar, descobri que só serviam carne de frango. Como eu sou alérgico a essa carne, eu falei com o maitre e, pagando módicos US$ 15.00, consegui pedir um belo e suculento filé “bovino” (usei aspas por que só tenho certeza de se tratar de uma carne vermelha). Para infelicidade geral dos cubanos pobres, é assim que as coisas funcionam por lá. 

Outra fonte de problemas é a demanda reprimida por madeiras na ilha, onde há falta do material para a fabricação de móveis elementares como cadeiras, mesas e sofás, para a construção civil e até mesmo para a fabricação de caixões para se enterrar os mortos. Os remanescentes florestais de Cuba são sistematicamente invadidos por madeireiros clandestinos, que derrubam as melhores árvores e levam os troncos para serrarias ilegais por toda a ilha. 

Para se ter uma ideia do tamanho do problema: o Corpo de Guardas Florestais de Cuba aplicou quase 20 mil multas por derrubada ilegal de árvores em 2014, totalizando quase US$ 125 mil, além de apreender mais de 2,2 mil m³ de madeira. A exemplo do que ocorre aqui no Brasil, sabemos que isso é uma fração mínima dos ilícitos cometidos por lá. 

Enquanto os líderes políticos locais só se preocupam com os rumos da “Revolución”, se desenrola uma perda acelerada de espécies animais e vegetais, degradação e perda de solos agrícolas, destruição de fontes de água e de habitats (principalmente costeiros e marinhos) por toda a ilha. 

Esse é o “jeitinho” cubano de tocar a vida. Então, ¡Viva Cuba!   

JAMAICA: TERRA DO AÇÚCAR, DO RUM E DA ”GANJA”

Cannabis na Jamaica

A Jamaica é uma das mais famosas ilhas do Mar do Caribe. Nas últimas décadas ganhou uma enorme projeção mundial graças a um dos seus mais contagiantes ritmos – o reggae, e ao Movimento Rastafári. Entretanto, até um passado recente, o pequeno país era famoso por outro produto típico, “um pouco mais forte” que o ritmo musical – o rum. Destilado a partir do melaço fermentado da cana de açúcar, o rum é uma bebida de forte teor alcoólico, entre 40 e 55° GL. A bebida começou a ser produzida em todo o Caribe a partir do século XVII, época em que os jamaicanos e os haitianos concorriam em busca do título de melhor rum do Caribe. 

O rum da Jamaica é considerado um dos mais fortes e encorpados. A bebida foi popularizada em países da Europa e nos Estados Unidos pelos marinheiros, piratas e corsários, que durante muito tempo fervilhavam no Mar do Caribe em busca dos galeões espanhóis carregados de ouro e prata. Conta-se que esses homens sempre tomavam alguns bons goles de rum antes de atacar algum navio desavisado. 

Com pouco mais de 10 mil km², a Jamaica é a terceira maior ilha das chamadas “Grandes Antilhas” e abriga uma população de aproximadamente 3 milhões de pessoas. A ilha fica localizada ao Sul da Ilha de Cuba e a cerca de 200 km a Oeste da Ilha de Santo Domingo, onde encontramos o Haiti e a República Dominicana. Apesar de muito próximas, cada uma dessas ilhas teve uma história diferente, o que criou problemas parecidos em alguns casos e muito diferentes em outros. 

A Jamaica foi “descoberta” em 1494 por uma expedição liderada por Cristóvão Colombo, já na sua segunda viagem às Américas. Os espanhóis encontraram uma grande população de indígenas tainos e aruaques vivendo em cerca de 200 aldeias por toda a ilha. Em 1509, foi construído o primeiro assentamento europeu na ilha – Sevilha, que acabou sendo abandonado em 1524. Em 1534 foi fundada acidade de San Jago de la Vega, (atual Saint Catherine), elevada à posição de capital da colônia.

Os espanhóis organizaram diversas expedições para exploração da ilha, mas nunca demonstraram um maior interesse na colonização. Nessa época, seus conquistadores estavam expropriando grandes tesouros em ouro e prata no México e no Peru, e todos os olhares estavam fixos na área continental. Em 1655, os britânicos tomaram à força o último forte ainda controlado pelos espanhóis na ilha e assumiram o controle da Jamaica. 

Como aconteceu com a maioria das ilhas do Mar do Caribe, os britânicos transformaram a Jamaica num imenso canavial, com direito a toda a devastação florestal requerida pela atividade. Ao longo de dois séculos, a ilha foi uma grande produtora de açúcar e também a colônia que mais dependia da mão de obra de escravos africanos do Novo Mundo. Na década de 1820, a colônia chegou a produzir anualmente mais de 77 mil toneladas de açúcar

A partir de 1807, quando o tráfico de escravos foi proibido, os ingleses passaram a “importar” chineses e indianos para complementar o quadro de trabalhadores da colônia. Com a abolição da escravidão na Jamaica em 1838, milhares de trabalhadores indianos, mão de obra considerada extremamente barata pelos britânicos, passaram a ser deslocados para a ilha a fim de substituir os antigos escravos nas plantações de cana e produção do açúcar.  

Esses indianos trouxeram as primeiras mudas da Cannabis (vide foto), a conhecida maconha, e popularizaram o hábito de fumar a erva entre os nativos. A “ganja”, nome local da maconha, passaria a fazer parte da vida e da cultura popular dos jamaicanos, participando inclusive de diversos rituais de religiões locais como o conhecido Movimento Rastafári

Ao longo de todo o século XX, a produção agrícola da Jamaica passou a ser diversificada, deixando de ser totalmente dependente da cana e do açúcar. O país passou a produzir e exportar bananas, café, cacau, frutas cítricas, cocos e especiarias. A partir do final da década de 1950, a Jamaica começou a ganhar cada vez mais autonomia em relação ao Reino Unido, conseguindo a sua independência em 1962. Mesmo independente, a ex-colônia mantém uma boa relação com sua antiga metrópole – mais de 85% do açúcar produzido na Jamaica é exportado para a Inglaterra. 

Nas últimas décadas, a produção agrícola vem diminuindo gradativamente a sua participação no PIB – Produto Interno Bruto, da Jamaica, respondendo atualmente por menos de 7%. O setor de serviços, ao contrário, cresceu muito e já responde por mais da metade da economia jamaicana. As áreas ligadas ao turismo são as grandes geradoras de receitas, recebendo mais de 1,3 milhões de turistas a cada ano. 

Outro setor que cresceu muito nos últimos anos foi a mineração, especialmente da bauxita, matéria prima para a produção do alumínio. A mineração, beneficiamento e produção desse metal representa um dos maiores problemas ambientais da Jamaica na atualidade, comprometendo solos, águas e também a qualidade do ar. Esse setor da economia jamaicana é dominado por empresas multinacionais da China.

Conforme já comentamos em uma série anterior de postagens, a mineração é uma das atividades que mais degradam o meio ambiente em todo o mundo. Os problemas começam com a abertura das áreas de cavas, onde florestas e remanescentes florestais são removidos. A escavação dos solos, o transporte e o estocagem temporária dos minérios causam inúmeros problemas nas fontes de água. Outro grave problema são os rejeitos minerais – para a produção de 1 tonelada de alumínio são geradas até 4 toneladas de rejeitos inservíveis

Os depósitos de rejeitos minerais são fontes inesgotáveis de problemas. Expostos às fortes temporadas de chuvas da região do Caribe, esses resíduos absorvem grandes quantidades de águas pluviais, água essa que lixivia (arrasta) partículas de metais pesados como chumbo, arsênico, ferro, estanho e cromo, entre muitos outros, carregando esses elementos para as fontes de água. Acidentes com depósitos de resíduos da mineração, como aconteceu em Mariana e em Brumadinho aqui no Brasil, também são um grande risco. 

Uma das mais problemáticas mineradoras em operação na Jamaica é a empresa estatal chinesa JISCO – Jiuquan Iron and Steel Company. Essa empresa recebeu no último ano, por parte do órgão ambiental da Jamaica, 16 multas judiciais por descumprimento das normas ambientais do país. As principais queixas estão relacionadas à poluição do ar gerada pela unidade de processamento de alumínio e por degradação de corpos d’água com resíduos minerais na área de entorno de um depósito com mais de 250 hectares

Quando a empresa iniciou a produção em sua unidade de processamento de alumínio em 2016, foram anunciados investimentos de mais de US$ 3 bilhões em toda a Jamaica, inclusive com a promessa de construção de uma segunda unidade industrial até 2019 (o que acabou não se concretizando). Esse tipo de anúncio em um país pequeno e pobre “soa como música” para os ouvidos dos políticos. Sedentos por eventuais “compensações financeiras” (entenda-se aqui pagamentos de propinas), esses políticos costumam fazer vista grossa a “eventuais pecados” ambientais que venham a ser cometidos. 

Como sempre costuma acontecer nessas situações, a empresa alega que “não poupa esforços para o monitoramento e controle ambiental de todos os seus processos industriais”. Outra desculpa repetida frequentemente é que a unidade industrial atual está sobrecarregada com a produção. Como parte de seus esforços de relações públicas, a JISCO desenvolve programas de educação para jovens e apoia financeiramente diversas escolas do país. 

Assim como aconteceu na Ilha de São Domingos, a indústria açucareira jamaicana foi responsável pela devastação da maior parte das florestas nativas do país – os maiores fragmentos florestais remanescentes se concentram nas áreas montanhosas da ilha. Os principais atrativos turísticos da Jamaica, assim como em outras ilhas caribenhas, ficam no litoral, o que ajuda a esconder dos turistas a maioria dos problemas ambientais do interior. 

Aos símbolos mais representativos da Jamaica – o reaggae, o açúcar, o rum e a “ganja“, podemos acrescentar os problemas ambientais causados pela mineração. Que coisa mais triste.

AINDA FALANDO DOS PROBLEMAS AMBIENTAIS E SOCIAIS DO HAITI

Haiti

Nas últimas postagens falamos bastante da Ilha de São Domingos, onde se encontra de um lado a República Dominicana, país que possui a economia mais dinâmica do Caribe, e do outro o Haiti, o país mais pobre e desmatado das Américas. A ilha foi o berço da colonização das Américas, tendo assistido ao nascimento da primeira cidade com ocupação permanente – Santo Domingo, além da construção da primeira catedral católica e da fundação da primeira universidade do continente. 

Quando a expedição de Cristóvão Colombo desembarcou na ilha em 1492, encontrou um bioma único, coberto por densa floresta tropical e com farta disponibilidade de fontes de água. A ilha abrigava uma grande população indígena, estimada em até 250 mil indivíduos. Esses indígenas chamavam a ilha de Quiqueya. A colonização, espanhola de um lado e francesa do outro, exterminou a população indígena e devastou a cobertura vegetal da ilha: 70% das florestas da República Dominicana e 98% do Haiti desapareceram. Sucessivas ditaduras e governos militares completaram o quadro da tragédia, tendo sido muito mais devastador no lado haitiano

Para mostrar de uma forma mais detalhada e didática o que tudo isso significou para o Haiti, vamos analisar os problemas ligados à produção de alimentos, uma das necessidades mais fundamentais de qualquer país. 

Devido à incapacidade de produção, cerca de 80% dos alimentos consumidos pelos haitianos precisam ser importados, o que inclui produtos básicos como o arroz, a carne de frango e os ovos. No caso de derivados de leite, essa importação supera a marca de 65%. Dados de 1981 indicam que as importações de alimentos no país há 40 anos atrás eram da ordem de 19%, o que indica o elevado grau de deterioração da economia do Haiti após o terremoto de 2010. 

As importações de arroz são um exemplo do problema: o país precisa importar 400 mil toneladas de arroz a cada ano para atender o consumo da população, a um custo de US$ 240 milhões. Isso pode não parecer muita coisa para um país com o tamanho da economia do Brasil, mas esse valor sozinho corresponde a 1,5% do PIB – Produto Interno Bruto, do Haiti. 

É aqui que entramos no cerne do problema – as dificuldades para a prática da agricultura no país. A topografia local, por si só, já apresenta enormes dificuldades: 75% da superfície do Haiti é formada por terrenos montanhosos e com forte declividade, características que limitam grandemente a produção da maioria das culturas agrícolas, especialmente grãos como o arroz. Relembrando o que comentamos em postagem anterior, a palavra Haiti na antiga língua dos índios arahuacas significa “terra de montanhas”,  

O arroz, que é o cereal mais consumido pelos haitianos, depende de terrenos planos e com grande disponibilidade de água. No Extremo Oriente, onde também é o principal alimento, parte do arroz é produzido em regiões com topografia acidentada em países como a China, o Vietnã, o Japão e a Coreia. Porém, os agricultores de lá realizam complexas obras de engenharia para a formação de terraços em degraus, trabalhos que exigem grande organização social e apoio mútuo entre os agricultores, algo que não encontramos no Haiti. 

Outra dificuldade para os haitianos é a dramática redução dos solos férteis no país. Praticamente toda a cobertura florestal do país já foi destruída, expondo os solos a uma forte erosão pelas águas das chuvas e carreamento da camada fértil na direção dos corpos d’água. A forte declividade dos terrenos intensifica ainda mais os processos erosivos, reduzindo cada vez mais a disponibilidade de solos e, consequentemente, de fontes de água. 

Nas escassas áreas planas dos vales, onde se esperaria encontrar condições mais adequadas para a prática agrícola, existe um outro problema – os lotes das famílias são muito pequenos e cercados, o que impede o uso de máquinas agrícolas básicas como tratores puxando arados. Isso limita os trabalhos na terra ao uso de ferramentas manuais como enxadas, ancinhos e a arados com tração animal, o que exige grandes esforços físicos e resulta em uma baixíssima produtividade (vide foto). 

De acordo com informações do CNSA – Conselho Nacional de Segurança Alimentar, do Haiti, o tamanho médio dos lotes agrícolas se situa numa faixa entre 0,62 e 1,46 hectares (lembrando que 1 hectare equivale a uma área com 10 mil m²), quando o ideal seriam lotes mínimos com aproximadamente 3 hectares. Assim como acontece em outras regiões do mundo, a produção de alimentos dessas pequenas áreas vai atender apenas as necessidades de subsistência das próprias famílias, sem gerar excedentes para a venda. 

Sem conseguir produzir alimentos em quantidade suficiente para atender as suas necessidades e sem dinheiro para conseguir pagar os altos custos dos alimentos importados, cerca de 4,5 milhões de haitianos, o que chega bem próximo de metade da população do país, sofre com a “insegurança alimentar”, o que, em linguagem bem popular, significa que essas pessoas passam fome frequentemente. Segundo dados de 2009 da CNSA, 55% da população do Haiti vive em pobreza extrema

Os problemas ambientais, infelizmente, não param por aí. A derrubada maciça da cobertura vegetal do país destrói os solos e leva a um processo de degradação ambiental conhecido como desertificação. Conforme já comentamos em postagem anterior, o solo fértil é o resultado de milhares de anos de degradação de rochas e formação de sedimentos finos. Esses sedimentos se misturam a matéria orgânica resultante da decomposição de plantas e de restos de animais mortos, além de água e ar. 

Quando o solo fica sem a proteção da vegetação, as águas das chuvas arrastam essa camada de solo fértil milenar e expõe terrenos rochosos ou cobertos por sedimentos inertes onde as plantas não crescem. A radiação solar resseca esses terrenos desnudos, diminuindo a sua capacidade de absorver e reter água, formado um solo com características de deserto. A Península de San Nicolás no Norte do país e sobre a qual já falamos, está sofrendo fortemente com a desertificação. 

A incapacidade dos solos em absorver água leva a outro problema gravíssimo – as águas das chuvas não recarregam os lençóis freáticos e aquíferos subterrâneos, destruindo assim as nascentes das fontes de água. Nos períodos do verão, os rios e córregos apresentam grandes volumes – as águas pluviais escorrem rapidamente sobre os solos e correm diretamente para a calha dos rios. Esse grande volume de águas pluviais provoca enchentes em áreas baixas, destroi as margens dos rios, além de arrastar grandes quantidades de sedimentos para a calha dos rios, intensificando o assoreamento dos canais. Na época da seca, a maioria dos rios apresenta apenas um filete de água ou um leito completamente seco. 

Além de essencial à vida humana, a água é fundamental para a dessedentação dos rebanhos animais e irrigação de culturas agrícolas. O caos ambiental que tomou conta do Haiti há várias décadas está destruindo, literalmente, todos os processos ecológicos ligados à produção de alimentos. Sem água e sem comida, como se faz para sustentar mais de 11 milhões de pessoas? 

A tão propalada sustentabilidade é um tripé onde se equilibram o desenvolvimento econômico, a equidade social e a preservação ambiental. No Haiti, como é possível verificar através desse rápido resumo, se está muito longe de tudo isso. Resolver todos esses problemas é uma tarefa hercúlea, ainda mais em um país marcado pela instabilidade política, corrupção sistêmica e embates violentos entre as diferentes facções que lutam pelo controle do poder. 

Enquanto não se consegue achar um caminho para a recuperação do Haiti, milhões de pessoas vão continuar sofrendo com a falta de água, de alimentos e das mínimas condições de vida, dependendo cada vez mais da ajuda internacional. 

HAITI: O PAÍS MAIS POBRE E DESMATADO DAS AMÉRICAS

Terremoto do Haiti 2010

Começo contando uma das minhas histórias favoritas:

Uma das maiores criações dos povos caribenhos foi o rum, uma bebida forte destilada do melaço da cana fermentado. A bebida começou a ser produzida em todo o Caribe a partir do século XVII, quando era considerada um remédio “capaz de exorcizar todos os demônios do corpo”. O rum tem um teor alcoólico entre 40 e 55° GL e ganhou uma enorme popularidade entre os antigos marinheiros, que recebiam parte do seu soldo em garrafas da bebida. 

Uma das melhores marcas de rum há época da colonização do Caribe era produzida na então próspera colônia francesa do Haiti – Aux Cayes (No Cais). Naqueles memoráveis tempos, o Haiti era conhecido como “a pérola do Caribe”. Entre os maiores apreciadores da bebida haitiana se encontravam os marinheiros ingleses, que com o seu sotaque a chamavam “Oh Key”. Segundo alguns linguistas, essa é considerada uma das possíveis origens da palavra inglesa OK, uma das expressões mais usadas em todo o mundo. Esses bons e prósperos tempos do Haiti, infelizmente, são coisas de um passado já bem distante. 

Ocupando uma área com pouco mais de 27 mil km² e com uma população próxima aos 11 milhões de habitantes, o Haiti ou Repiblik Ayiti, em créole haitiano, é o país mais pobre das Américas e também o mais desmatado: mais de 98% das matas nativas locais já foram derrubadas. Além da destruição histórica das matas para a abertura de campos agricultáveis para o plantio da cana, grande parte desse desflorestamento se deveu ao uso de lenha como combustível e de madeira para a construção civil. 

Conforme já comentamos em postagem anterior, o nascimento oficial da Colônia Francesa do Haiti teve início em 1697, quando diversas nações assinaram o Tratado de Ryswick, pondo fim a uma série de disputas territoriais na Europa e em outras partes do mundo. Como parte do acordo, a Espanha cedeu a faixa Oeste da Ilha Hispaniola para a França, que desde 1695 já enviava seus cidadãos como imigrantes para a região. 

Ao longo do século  XVIII, o Haiti se consolidou como a mais próspera colônia da França nas Américas. Junto com o famoso rum, outro importante produto da colônia era o açúcar, uma mercadoria de luxo e extremamente valorizada há época. Além de possuir um grande mercado cativo na França, os engenhos do Haiti eram bastante eficientes e as correntes marítimas e o regime de ventos do Oceano Atlântico Norte favoreciam as viagens das embarcações entre a Europa e o Caribe, e vice-versa.  

A soma de todos esses fatores tornava o produto haitiano bem mais competitivo que o açúcar português produzido no Brasil. Outras colônias da Espanha, da Inglaterra e da Holanda no Caribe também conseguiam produzir grandes volumes de açúcar em condições competitivas, uma situação que produziu uma imensa crise na indústria açucareira do Brasil há época.  

Essa situação só não foi mais crítica devido a uma coincidência histórica – a partir da descoberta das minas de ouro na região das Geraes nos últimos anos do século XVII (1693), a atenção dos portugueses gradativamente foi se voltando para a mineração, com a produção do açúcar sendo abandonada. O auge da mineração do ouro no Brasil se deu ao longo do século XVIII. 

Os rumos do Haiti começaram a mudar nos últimos anos do século XVIII, quando uma revolta dos escravos levou a abolição da escravidão do país em 1794. Depois de dez anos de lutas, os haitianos conseguiram a independência da França em 1804. Essa “aparente” vitória do povo do Haiti acabaria se transformando no começo da decadência da próspera ex-colônia – a França e os Estados Unidos, países até então fortemente escravagistas, criaram um forte bloqueio comercial ao país. 

Foi somente em 1825, já durante a presidência de Jean Pierre Boyer, que o Haiti conseguiu assinar um acordo com a França, pondo fim ao bloqueio comercial. Pelos termos do acordo, o Haiti deveria pagar uma indenização de 150 milhões de francos à antiga Metrópole, valor que acabou sendo reduzido a 90 milhões de francos. Esse acordo não foi espontâneo – o país estava cercado por uma poderosa frota naval da França e não teve outra alternativa. O pagamento dessa indenização exauriu a já combalida economia do país

A decadência econômica foi seguida pelo caos político – ao longo da segunda metade do século XIX, o Haiti teve um total de 20 governantes, sendo que 16 deles acabaram depostos ou assassinados. Essa instabilidade política continuou nos primeiros anos do século XX. Em 1915, sob o velho pretexto de proteger seus interesses no país, os Estados Unidos ocuparam o Haiti, onde permaneceriam até 1934

Mesmo após a saída dos norte-americanos do país, as forças políticas do Haiti não conseguiram atingir a tão esperada estabilidade. Foi então que, em 1957, o médico François Duvalier, mais conhecido como Papa Doc, foi eleito Presidente com apoio dos Estados Unidos. Aproveitando-se do clima conturbado da Guerra Fria vivida entre norte-americanos e russos, Papa Doc impantou uma ditadura sanguinária, que se estenderia até 1986, quando o país já era governado por seu filho Jean-Claude Duvalier, o Baby Doc

Os Duvaliers exploravam todo o misticismo do vudu, uma religião de origem africana popular no Haiti, para subjugar a população. A parte mais visível dessa face do terror eram os tontons macoutes, ou os bichos-papões em creóle, os policiais da guarda pessoal do Presidente. Esses “policiais” eliminavam opositores, prendiam e torturavam jornalistas, padres, professores e quem mais ousasse se opor ao regime. Essa longa ditadura ajudou a consolidar o Haiti na posição de país mais pobre e miserável das Américas. 

O reestabelecimento da democracia após a queda da ditadura dos Duvaliers não foi suficiente para colocar o Haiti dentro das mínimas condições de governabilidade e de desenvolvimento econômico. O exemplo mais dramático da incapacidade do Governo foi demonstrado após o forte terremoto que assolou o país em 2010. Epicentro do cismo, a capital do país, Porto Príncipe, teve cerca de 80% de suas construções destruídas ou seriamente danificadas. As estimativas falam de um total entre 220 mil e 300 mil mortos, 300 mil feridos e perto 1,5 milhão de desabrigados. Mesmo contando com ajuda internacional, o país até hoje não superou a tragédia (vide foto). 

Entre 2004 e 2017, tropas do Exército do Brasil participaram de uma missão de paz internacional da ONU – Organização das Nações Unidas, para restaurar a ordem e ajudar a estabilizar a situação política do Haiti. Além de conter a violência entre os diferentes grupos políticos, os efetivos militares dessa missão de paz foram fundamentais para o socorro e atendimento da população após o terremoto de 2010.

Com um histórico dos mais complicados dos pontos de vista social e econômico, a situação do meio ambiente no Haiti é simplesmente caótica. Restam menos de 2% da cobertura vegetal original do país, o que comprometeu a maioria dos rios e corpos d’água e tem afetado profundamente o abastecimento das populações. Solos perderam a fertilidade e o país precisa importar a maior parte dos laimentos consumidos pela população. A imensa maioria dos haitianos depende da coleta de lenha para cozinhar, o que vem impedindo qualquer recuperação da vegetação – as novas árvores mal atingem um metro de altura e já são cortadas para uso como lenha. 

Nas áreas urbanas, os problemas se multiplicam – à carência de água potável se somam esgotos correndo a céu aberto, falta de coleta de lixo, habitações precárias e falta dos mais elementares serviços públicos como saúde, educação e segurança pública. A situação da população só não é mais crítica devido à criação de postos de trabalho temporários na vizinha República Dominicana há época do corte da cana de açúcar.  

Centenas de milhares de haitianos migram nesse período para o país vizinho, onde se submetem a longas e pesadas jornadas de trabalho no corte e transporte da cana de açúcar, recebendo em troca salários miseráveis. Ao final da colheita da cana, esses trabalhadores voltam para o Haiti (os dominicanos discriminam fortemente os haitianos), onde conseguirão se manter precariamente até a chegada da próxima safra de cana. 

Um resumo da situação ambiental do Haiti pode ser visto na Península de San Nicolás, no Norte do país. A destruição da cobertura vegetal criou o maior “deserto” de todas as ilhas do Caribe, que não para de crescer. Se nada for feito para frear ou reverter essa situação, o Haiti, palavra que na antiga língua dos índios arahuacas significa “terra de montanhas”, em breve poderá ser chamado de terra dos desertos