OS GIGANTESCOS PROBLEMAS AMBIENTAIS DA AUSTRÁLIA

Dingo australiano

Para falarmos dos problemas ambientais que a Austrália vive nos dias atuais, precisamos voltar no tempo para entender a história geológica do continente e conhecer as razões que levaram ao seu isolamento e surgimento de uma flora e fauna únicas. 

Até cerca de 165 milhões de anos atrás, a América do Sul, a África, a Antártica, a Ilha de Madagascar, a Índia (o famoso subcontinente indiano), a Austrália, a Nova Zelândia, a Nova Caledônia e algumas outras ilhas, formavam um único supercontinente conhecido pelo nome de Gondwana. Foi então que teve início uma série de eventos geológicos de grande magnitude, que levaram a fragmentação dessa grande massa continental e a uma lenta e gradual separação desses blocos de terra, formando à configuração de continentes que conhecemos atualmente. 

Um dos grandes testemunhos desse período de intensa atividade vulcânica aqui no Brasil é o chamado Derrame de Trapp. Entre 137 e 127 milhões de anos atrás, centenas de vulcões entraram em erupção contínua, derramando cerca de 650 mil km³ de lava vulcânica, o que cobriu cerca de 1,2 milhões de km² de solos na região da Bacia Hidrográfica do rio Paraná. Esses derrames de lava também ocorreram na Namíbia e em Angola, na África, territórios que até aquele momento estavam unidos com a atual América do Sul. As famosas “terras roxas”, solos de altíssima fertilidade encontrados nessa região, se formaram a partir da degradação desses derrames vulcânicos. 

A separação dos grandes blocos continentais, que é explicado pela Teoria da Deriva Continental ou Tectônica de Placas proposta por Alfred Wegener em 1912, empurrou gradativamente a Austrália rumo ao Leste, mantendo suas plantas e animais completamente isolados do resto do mundo. Esse isolamento favoreceu a evolução e a especialização dos seres vivos locais para uma vida adaptada ao meio, surgindo assim linhagens e espécies com características únicas, não encontradas em qualquer outro lugar do mundo. Exemplos dessa especialização são os mamíferos marsupiais australianos como os coalas e os cangurus, ou ainda os monotremados, ordem de mamíferos que botam ovos e são representados pelos ornitorrincos e pelas equidnas. 

A primeira grande “invasão” estrangeira no continente Australiano ocorreu há aproximadamente 65 mil anos, quando os primeiros Homo sapiens surgidos no continente africano atingiram as terras austrais, finalizando um processo migratório de dezenas de milhares de quilômetros e de milhares de anos através de toda a Ásia. Muitos estudiosos acreditam que esses primeiros grupos de humanos “invasores” chegaram na Austrália acompanhados de cachorros, que com o tempo passaram a viver em estado selvagem e se transformariam nos ancestrais diretos dos dingos (Canis dingo), os cães selvagens australianos (vide foto). Outras fontes afirmam que esses cães chegaram na Austrália há “apenas” 4 mil anos.  

Os dingos se transformariam nos maiores predadores terrestres da Austrália, alterando completamente a cadeia alimentar entre as espécies nativas do continente e impactando diretamente nas populações de espécies locais, levando muitas a extinção. Um desses animais pode ter sido o tilacino (Thylacinus cynocephalus), mais conhecido como tigre-da-Tasmânia ou lobo-da-Tasmania, o grande predador australiano antes da chegada dos dingos. Os tilacinos, que na verdade eram marsupiais que evoluíram até ficar parecidos com um lobo, foram perdendo espaço na área continental da Austrália, ficando restritos a Ilha da Tasmânia. Perseguidos pelos criadores de ovelhas, que os acusavam de caçar seus animais, os tilacinos da Tasmania foram completamente extintos em meados do século XX. 

A grande invasão moderna da Austrália, porém, teve início a partir do ano de 1770, quando o HMS Endeavour, um navio de pesquisas da Marinha Real Britânica sob o comando de James Cook, atingiu a costa Leste do continente. Seguindo as pegadas dos perplexos tripulantes, maravilhados com a fauna e flora exclusivas desse “novo mundo”, centenas de ratos que se escondiam nos porões do Endeavour também começaram a fazer seu próprio desembarque. 

As principais espécies de ratos “domesticados” pela humanidade – o rato cinza (Rattus rattus), o rato preto (Rattus norvegicus) e o camundongo (Mus musculus), vem acompanhando nossos passos há milhares de anos. Esses animais aprenderam a viver próximos de acampamentos e cidades, onde sabiam que poderiam encontrar alimentos com muita facilidade. Com o início da Era das Navegações a partir do século XIV, ratos clandestinos em navios foram espalhados pelos quatro cantos do mundo. 

Ratos são animais inteligentes, onívoros e facilmente adaptáveis a novos ambientes. Logo após sua chegada ao continente australiano, os ratos descobriram inúmeras espécies de aves indefesas e seus ninhos construídos sobre os solos – filhotes de aves e ovos passaram a constituir a dieta principal dos ratos, enquanto avançavam pelo novo território e passavam a ocupar os grandes nichos ecológicos da “grande ilha”. 

A segunda grande frente invasora dos tempos modernos em terras da Austrália teve início com a chegada das primeiras levas de imigrantes, onde muitos eram presidiários transferidos para as distantes terras do Pacífico Sul. Eram aqueles os difíceis anos do início do século XIX, época em que as grandes cidades do Reino Unido sofriam com a superpopulação. Os novos territórios deste lado do mundo – Austrália, Nova Zelândia, Nova Caledônia e Nova Guiné, entre outros, se apresentavam com uma grande oportunidade para a “desova” desses excedentes populacionais e uso dessa mão de obra barata (para não dizer quase gratuíta”), na formação de colonias produtoras de gêneros exportáveis.

Na bagagem desses colonizadores vieram cavalos, bovinos, carneiros, porcos, galinhas, patos, coelhos, gatos, cachorros, entre outros animais domésticos criados pelos europeus desde os tempos imemoriais. Para se sentirem menos melancólicos nessas terras distantes, muitos colonos de origem nobre se preocuparam em trazer raposas selvagens entre seus itens pessoais, o que lhes permitiria realizar as tradicionais “caçadas” inglesas junto com os novos amigos da Austrália. 

Além de dezenas de espécies de animais domésticos de origem europeia, os ingleses também se “preocuparam” em introduzir algumas espécies de origem asiática e africana, onde são destaques algumas espécies de búfalos, uma fonte alternativa para a produção de carne em regiões pantanosas da Austrália, e os dromedários, uma opção para o transporte de tropas militares através das terras desérticas do centro do continente. 

Além de dezenas de espécies animais, os colonizadores ingleses também introduziram uma infinidade de espécies vegetais nessas “novas terras”, indo das insubstituíveis batatas “inglesas” às árvores frutíferas das mais diferentes espécies, árvores produtoras de madeira de lei como o icônico carvalho inglês e outras simplestemente decorativas para seus famosos jardins. Também se preocuparam em trazer espécies vegetais de grande valor comercial para exportação como o algodão, o tabaco e a cana-de-açúcar. Essas novas espécies passaram a ocupar grandes extensões de terras, especialmente em áreas do Leste, Sul e Sudeste do continente. Grandes áreas “inúteis” de florestas de eucalipto nativas da Austrália passaram a ser derrubadas e queimadas, abrindo espaços para a produção de gêneros de grande valor comercial. 

Toda essa somatória de alterações na flora e fauna da Austrália não tardariam a gerar graves consequências e desequilíbrios no meio ambiente. Trataremos disso na próxima postagem.

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE OS INCÊNDIOS FLORESTAIS NA AUSTRÁLIA

Incêndio-Austrália

A Austrália, chamada por muitos de ilha-continente, é pouca coisa menor do que o Brasil – o país ocupa uma área de 7,7 milhões de km², exatamente 10% a menos do que o nosso território. Apesar da localização do país ocupar praticamente as mesmas latitudes das regiões Central e Sul do Brasil, o clima australiano é bem diferente do nosso – aliás, podemos afirmar que é praticamente o inverso. No Brasil, o clima Semiárido é encontrado em uma área relativamente pequena do interior da região Nordeste e no Norte do Estado de Minas Gerais – a maior parte do país tem clima Equatorial e Tropical; na região Sul, o clima é Subtropical.  

Na Austrália, a maior parte do território tem climas Semiárido e Desértico – uma estreita faixa ao longo das costas do Sul e uma grande área no Sudeste do país tem um clima Mediterrâneo, que nada mais é do que um clima temperado. Pequenas faixas ao Sudoeste e Leste do continente tem um clima Subtropical e uma faixa no extremo Norte apresenta características Tropicais (clima quente com uma forte temporada de chuvas de Monção). De todos os continentes habitados, o australiano é considerado o mais seco do mundo – é justamente esse clima seco que tem favorecido a incidência dos grandes incêndios florestais que desde setembro vem assolando o país. 

Outra forma de avaliar as diferenças drásticas nos climas dos dois países pode ser observado na disponibilidade de água: o Brasil possui 12% das reservas de água doce do mundo (lembrando que a maior parte dessa água se encontra na Bacia Amazônica), com chuvas regulares na maior parte do território. A Austrália, ao contrário, dispõe de cerca de 1% das reservas mundiais de água doce. Grande parte do território australiano sofre com a falta de chuvas, que além de irregulares, caem em volumes muito pequenos. Como se não bastassem todos esses problemas, o país enfrentou uma fortíssima estiagem generalizada entre os anos 2000 e 2009

Essa combinação de clima extremamente seco, pouca disponibilidade de água e de altas temperaturas nesse verão, com máximas superando a marca dos 40° C, transfomaram a Austrália num verdadeiro “inferno” na Terra nesses últimos meses. Incêndios florestais vêm devastando grandes extensões de matas, especialmente no Sul, Sudeste e Leste do continente. O fogo destruiu centenas de casas e já matou cerca de 27 pessoas. Para os animais domésticos e selvagens, a situação é quase apocalíptica – segundo cálculos de especialistas, perto de 500 milhões de animais já morreram vítimas do fogo, da fumaça e da destruição dos seus habitats

Uma das notícias mais surpreendentes, que comentamos na última postagem, fala dos ataques de gatos “selvagens contra animais debilitados nas áreas incendiadas. Várias regiões da Austrália sofrem com a superpopulação de gatos, que trocaram a vida doméstica pelas florestas – esses gatos atacam e matam pássaros, pequenos mamíferos, répteis e anfíbios. Desde 2015, o Governo estuda planos para eliminar, pelo menos, 2 milhões desses gatos selvagens, que se transformaram em uma verdadeira praga ambiental no país. 

Após uma longa sequência de más notícias, informações vindas do país dão conta que as chuvas de verão finalmente começaram a chegar em faixas do Leste e Sul do continente, ajudando a controlar e até mesmo a extinguir alguns focos de incêndios. Em regiões onde as águas ainda não chegaram, milhares de militares e voluntários continuam trabalhando arduamente no combate ao fogo. Curiosamente, a maioria das vozes de ambientalistas, artistas, políticos e famosos que se levantaram na defesa da Amazônia brasileira, que meses atrás também sofreu com inúmeros focos de incêndios, desta vez ficaram calados e nada tem falado sobre a tragédia da Austrália. 

Os números já apurados pelas autoridades ambientais do país sobre as consequências desses incêndios para o meio ambiente são assustadoras – cerca de 327 espécies de plantas e animais protegidos pela legislação foram fortemente afetados pela tragédia. Alguns habitats chegaram a ter impressionantes 80% de suas áreas destruídas pelas chamas

A Austrália é o continente mais isolado do mundo e sua vida animal e vegetal passou por intensas mudanças evolutivas, assumindo características únicas. Desde o século II da era cristã circulavam lendas por toda a Europa falando de uma terra misteriosa na parte Sul do planeta – terra australis incognita, ou, terra desconhecida do Sul. Legiões romanas estacionadas em regiões longínquas da Ásia, muito provavelmente, ouviram relatos sobre essa terra distante de povos locais, que por sua vez, haviam ouvido esses relatos de outros povos.  

As terras austrais do continente só veriam o desembarque de navegadores europeus, portugueses e holandeses, no início do século XVII – esses primeiros exploradores rapidamente descobriram as dificuldades de se encontrar água nessa terra recém descoberta e focaram suas atenções em outras terras mais verdejantes do Sudeste Asiático. Oficialmente, a Austrália foi descoberta e reclamada em nome da Coroa Inglesa pelo capitão James Cook em 1770. Os ingleses ficaram fascinados com os animais absolutamente únicos que encontraram nessas terras, especialmente os cangurus, os ornitorrincos e as équidnas. 

Essa fauna e flora únicas da Austrália, que desde o século XVIII vêm sofrendo fortes impactos com a colonização do país e com a introdução de espécies exóticas, desde vez está sofrendo com a destruição em larga escala de habitas pelas chamas. Levantamentos preliminares do Ministério do Meio Ambiente do país colocou em situação de extrema vulnerabilidade 272 espécies de plantas, 16 mamíferos, 14 sapos e 9 aves, além de 4 espécies de peixes, 4 insetos e uma aranha. Todas essas formas de vida são autóctones do Outback australiano e não são encontradas em qualquer outra parte do mundo

Até o momento, os incêndios destruíram cerca de 100 mil km², uma área pouco maior que a do Estado de Pernambuco. Somente no Estado de Nova Gales do Sul, a região mais habitada do país e onde se encontram cidades importantes como Sydney e Camberra, as chamas destruíram cerca de 50 mil km², uma área cerca de cinco vezes maior do que a que foi queimada na Amazônia em 2019. Além dos imensos prejuízos à vida animal e vegetal, as cinzas dos incêndios atingiram diversos reservatórios de água da região, o que prejudicou muito o já complicado abastecimento de água em diversas cidades. 

As gravíssimas consequências desses incêndios florestais, que vão ficar mais claras apenas a médio e longo prazo, vêm se somar a uma verdadeira infinidade de problemas ambientais já vividos pelo país. Apesar de não aparecer com muita ênfase nos noticiários internacionais, a Austrália é um dos países em pior situação de degradação ambiental no mundo. O país sofre imensamente com espécies invasoras, com o avanço dos desmatamentos para a criação de campos agricultáveis, com a mineração em larga escala e, mais recentemente, com os graves problemas criados pelas mudanças climáticas e pelo aquecimento global. 

Falaremos disso na nossa próxima postagem. 

TEM “GATO NA TUBA”, OU UM SURPREENDENTE PROBLEMA AMBIENTAL MUNDIAL

Gato na tuba

A histeria criada nos meios de comunicação mundo a fora em meses recentes, quando os incêndios florestais ameaçavam “transformar a Amazônia em cinzas”, voltaram a levantar as discussões sobre os grandes impactos ambientais da criação de bois e vacas para a produção de carne e leite para consumo humano. Muitos grupos ambientalistas e de defesa dos animais passaram a veicular “notícias” dos mais diferentes tipos, dando conta que esses incêndios visavam a criação de pastagens para a criação de gado na região Amazônica, o que, em parte, não deixa de ser uma verdade. 

Esse tipo de notícia veio se somar ao crescimento do consumo de carne bovina em muitos países como a China, a África do Sul e até mesmo na “vegetariana” Índia. O desenvolvimento econômico nesses e em muitos outros países têm permitido que parcelas maiores das suas populações tenham acesso a uma alimentação mais diversificada, onde se inclui um consumo maior de carne bovina. 

Se qualquer um de vocês fizer uma rápida pesquisa na internet, com certeza encontrará dezenas de “artigos científicos” falando dos grandes impactos da criação de bois e vacas ao meio ambiente – da destruição de florestas para a abertura de novas pastagens, como foram os casos de notícias associadas aos incêndios na Amazônia, o consumo excessivo de água pelos animais e a liberação de grandes volumes de gases de efeito estufa. Isso tem sim um fundo de verdade e já tratamos do tema em diversas postagens aqui no blog, falando principalmente das boiadas na Caatinga Nordestina e nos Pampas Gaúchos

Agora, uma informação que vai surpreender muita gente – os animais que causam os maiores impactos ao meio ambiente não são os bovinos, que têm rebanhos estimados em 2 bilhões de animais em todo o mundo. O grande vilão invasor do mundo animal e causador de gravíssimos problemas à fauna silvestre são os fofos e simpáticos gatos domésticos, que costumamos chamar carinhosamente de bichanos

Os gatos ocupam o segundo lugar entre os bichos de estimação mais populares entre os humanos (em alguns países já estão na primeira posição) e, em virtude da urbanização cada vez maior, eles vêm ocupando cada vez mais o espaço dos cachorros. A domesticação dos gatos começou há cerca de 10 mil anos, mesmo período em que teve início a agricultura e a formação das primeiras cidades. As estimativas falam de mais de 600 milhões de gatos domésticos em todo o mundo nos dias atuais. 

Na semana passada foram divulgadas notícias preocupantes falando dos grandes impactos ambientais criados pelos gatos na Austrália – como os incêndios florestais estão começando a ser debelados, inclusive com a chegada das chuvas em algumas regiões do país, milhares de animais que conseguiram sobreviver ao fogo e à falta de água agora estão sendo perseguidos e mortos por gatos “selvagens”. Esses gatos, que abandonaram seus ambientes domésticos e passaram a viver nas matas, estão atacando e matando animais debilitados que sobreviveram à destruição de seus habitats. São aves, pequenos mamíferos, répteis e anfíbios. 

Assim como diversas outras espécies animais, os gatos não são nativos da Austrália. Juntamente com ovelhas, vacas, cavalos, lebres, cachorros e uma infinidade de outras espécies, os gatos chegaram ao continente australiano na “bagagem” dos primeiros colonizadores. E como aconteceu em outras partes do mundo, muitos desses gatos abandonaram o ambiente doméstico e passaram a se aventurar nas florestas australianas. Encontrando fartura de alimentos, esses gatos se reproduziram sem controle e se transformaram em uma verdadeira praga ambiental. 

Especialistas afirmam que esses animais ocupam apenas 0,2% do território do país, mas já são contados aos milhões. Desde de 2015, a Austrália trabalha com uma meta para eliminar, pelo menos, 2 milhões de gatos “selvagens”. Os pesquisadores observaram que bandos de gatos chegam a percorrer até 30 quilômetros em busca de áreas recém destruídas pelo fogo e onde podem “caçar” centenas de animais debilitados. Além gatos, a Austrália sofre com diversas outras espécies invasoras como os dromedários, as lebres, os sapos-cururu, entre muitas outras.  

Um grupo de cientistas australianos acompanhou um grupo de 13 desses gatos por um período de 50 dias em uma área recém queimada no Sudeste do país. Em 101 eventos de caça observados, esses gatos tiveram uma taxa de sucesso média de mais de 32% – nas áreas abertas das savanas, esses gatos obtiveram as melhores taxa de êxito, onde conseguiram abater as vítimas em 70% dos ataques. Os gatos abateram uma média de 7,2 vítimas a cada 24 horas. Em 25% dos casos documentados, os gatos sequer comeram as presas abatidas.

Em diversas partes do mundo, os bichanos também representam um enorme problema ambiental.  Nos Estados Unidos existem estudos que afirmam que os gatos matam cerca de 3,7 bilhões de aves e 20,7 bilhões de mamíferos a cada ano, sem que se inclua na conta as mortes de répteis e anfíbios. Um estudo feito na Ilha Marion, na África do Sul, na década de 1970, indicou que os gatos matavam cerca de 455 mil aves marinhas a cada ano. Um estudo semelhante, feito na ilha francesa de Kerguelen na mesma época, mostrou que 1,2 milhão de aves marinhas eram mortas a cada ano por gatos

Ambientes insulares, aliás, são os que mais sofrem com os impactos criados por espécies invasoras. Aqui no Brasil um exemplo é Fernando de Noronha, um verdadeiro paraíso tropical pertencente ao Estado de Pernambuco. A população humana no Arquipélago oscila entre 4.500 e 6.000 mil habitantes – já a população de felinos é calculada em mais de 1.300 animais, uma das maiores densidades demográficas de gatos por quilômetro quadrado do mundo. A maior parte desses gatos vive em estado selvagem nas matas das principais ilhas. 

Essa verdadeira “multidão de gatos” se junta a um grupo de outras espécies invasoras – a garça-vaqueira (Bulbucus ibis), o lagarto teiú (Salvator merianae), lagartixas (Hemidactylus mabouia), o sapo-boi (Rhinella jimmi), pererecas (Scinaxsp.), ratos (Rattus rattus e Rattus norvegicus) e camundongos (Mus musculus). Juntos, esses animais exóticos estão ameçando a sobrevivência de inúmeras espécies nativas do Arquipélago

Um dos petiscos prediletos dos gatos noronhenses é a mabuia (Trachelepys atlantica), um pequeno lagarto endêmico de Fernando de Noronha. Também fazem parte do cardápio dos gatos algumas espécies de aves: o sebito (Vireo gracilirostris) e a cocoruta (Elaenia ridleyana), duas espécies endêmicas do Arquipélago. O rabo-de-junco-de-bico-laranja (Phaeton lepturus), o atobá-de-pés-vermelhos (Sula sula) e a noivinha (Gygis alba), espécies de aves marinhas também encontradas em outras ilhas do Oceano Atlântico Sul, entram na lista de presas. Os gatos atacam os ninhos e se esbaldam com os ovos e filhotes.

Diferente de operações de desratização, onde venenos letais são usados para matar os odiados ratos, ações de “desgatização” (essa palavra é um provável neologismo) são polêmicas e complicadas – seres humanos gostam da convivência com os simpáticos gatos e não aceitam facilmente a “eliminação” desses animais em grandes quantidades como “ferramenta” de controle ambiental. Já os rebeldes gatos, que não tem a fidelidade dos cães e que nunca perderam totalmente o seu espírito selvagem, vão continuar abandonado suas casas e redescobrindo os prazeres da vida no meio da natureza. E mesmo quando continuam contando com casa e comida, muitos desses gatos resolvem se aventurar numa mata próxima e, eventualmente, voltam para casa carregando algum animal caçado em parques e outras áreas verdes das cidades (vide foto). 

Ao contrário de muitas espécies animais que correm sérios riscos de extinção, as populações de gatos não param de crescer e, muito pior: dizem que os “gatos têm 7 vidas”… 

UM ”ICEBERG” QUE ATENDE PELO NOME DE CEDAE

CEDAE

Icebergs são gigantescas montanhas de gelo flutuante que representam um enorme risco para os navios (o Titanic que o diga). Normalmente se consegue ver apenas a ponta do iceberg acima da superfície da água, mas o verdadeiro risco está submerso: 80% da massa de gelo fica abaixo da superfície do mar. Se você assistiu ao filme Titanic, que conta a história do famoso transatlântico que afundou em 1912, vai lembrar que foi o impacto contra o gelo submerso que rasgou a estrutura de aço da embarcação, resultando no naufrágio do navio e na morte de 1.514 pessoas (número oficial).  

Comecei a postagem de hoje citando o iceberg como uma analogia ao que está com a CEDAE – Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro. Conforme mostramos em diversas postagens, as torneiras de muitos cariocas e fluminenses (estimativas falam de mais de 1,5 milhão de pessoas) têm recebido uma água turva e malcheirosa. Ao longo das postagens, mostramos os diversos problemas que acometem o rio Guandu, o principal manancial de abastecimento da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, que sofre com os males de uma poluição crônica já há várias décadas. Os problemas no abastecimento local de água, infelizmente, parecem ser muito mais profundos e, como um grande iceberg, estão escondidos sob a “superfície” das águas. 

Há cerca de duas semanas, relembrando um pouco a cronologia dos fatos, moradores de diversas localidades da Região Metropolitana passaram a reclamar da baixa qualidade das águas que chegavam às suas torneiras. As amostras de água apresentadas em diversas reportagens iam de um tom cor de chá fraco até casos com água barrenta. Representantes da CEDAE, em resposta aos questionamentos feitos por jornalistas, afirmavam que o excesso de poluição no rio Guandu estava prejudicando o tratamento da água na ETA – Estação de Tratamento de Água, homônima, mas insistiam que a água estava potável e que poderia ser consumida sem medo. 

As reclamações e as reportagens mostrando os problemas entraram numa espiral crescente. Na noite da última terça-feira, dia 14 de janeiro, o presidente da CEDAE, Hélio Cabral, anunciou a exoneração do chefe da ETA do Guandu, Júlio Cesar Antunes, uma medida que indicaria uma mudança nos procedimentos operacionais rumo à solução do problema. Também foi anunciado o início do uso de carvão ativado como elemento de filtragem extra para a água, medida que tende a eliminar os problemas criados pela presença de algas na água bruta. Mudanças são sempre bem-vindas e torçamos pelos bons resultados. 

O aparente “jogo de cena” político, entretanto, talvez não seja suficientemente profundo para resolver os problemas internos que a CEDAE vem vivendo neste último ano. O Estado do Rio de Janeiro, com imagino ser do conhecimento de todos, vem sofrendo há muitos anos de todos os males derivados de desmandos na administração pública, corrupção, perda de arrecadação fiscal, entre muitos outros. Dois ex-governadores do Estado, Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão, estão presos e outros dois, Anthony Garotinho e Rosinha Matheus, só estão livres graças a uma série de habeas corpus. As acusações contra eles são inúmeras: desvio de dinheiro público, prevaricação, concorrências fraudulentas, superfaturamento de obras, entre muitas outras. 

A CEDAE, uma empresa de economia mista que tem como principal acionista o Governo do Estado do Rio de Janeiro, é claro que não ficaria imune a tantos problemas. Com a chegada ao poder do Governador Wilson Witzel, um ex-juiz federal “linha dura”, em janeiro de 2019, uma série de mudanças e “limpezas” na máquina pública que foram prometidas durante a campanha passaram a ser colocadas em prática. 

O novo presidente da Estatal, Hélio Cabral, começou a mostrar serviço já nos primeiros meses de trabalho, quando demitiu 54 funcionários que ocupavam cargos de alto nível na empresa. Entre os demitidos estavam engenheiros, analistas de qualidade da água, contadores e administradores, além de um economista, um arquiteto e um geólogo. A grande maioria desses funcionários trabalhava na empresa há mais de 25 anos. A nova direção da CEDAE alegou que esses funcionários ganhavam altos salários, entre R$ 35 mil e R$ 80 mil, e ocupavam cargos apenas por indicação política. Com a saída desses funcionários, a empresa economizaria até R$ 100 milhões por ano. 

De acordo com reportagem do jornal Extra, a nova administração da CEDAE adotou uma série de medidas administrativas entre janeiro e agosto, visando maior eficiência e redução de custos:

Na área de gestão de pessoas, como redução de 37,1% dos cargos em comissão, que já resultaram na economia do equivalente a 12% nas despesas com pessoal. As despesas administrativas também foram reduzidas, com a diminuição de 25% dos gastos com transporte administrativo; de 20,9% da despesa com combustíveis; e de 44,2% do número de telefones móveis e mini-modems corporativos.” 

A empresa também criou um PDV – Programa de Demissão Voluntária, voltado para os funcionários com interesse em deixar a empresa mediante o recebimento de uma boa indenização trabalhista. O quadro de funcionários da CEDAE apresentava cerca de 5.200 empregados em novembro de 2019 e a empresa trabalhava com a expectativa de desligar cerca de 800 funcionários ou 15% da força de trabalho.

Em duas ocasiões ao longo da minha carreira profissional passei por processos vigorosos de reestruturação de empresas, onde vi muitos colegas de trabalho serem demitidos sumariamente e “sem dó” ou então induzidas a aceitar uma “demissão” voluntária – quem consegue sobreviver à degola fica traumatizado e são necessários meses até que as rotinas se restabeleçam e as coisas voltem à normalidade (se é que é possível voltar a ela). Aparentemente, muitos dos problemas que a CEDAE vem apresentando nessas duas últimas semanas estão ligados a esse clima interno de mudanças. Sendo até um pouco leviano, chego a pensar que a súbita perda de qualidade da água fornecida pela empresa aos consumidores foi fruto de descuidos propositais de funcionários – falo da boa e velha sabotagem. Por hora, porém, não há como comprovar isso.

Digo isso por que a empresa foi eleita no ranking ‘Melhores e Maiores” da Revista Exame como a “Melhor Empresa de Infraestrutura do País em 2019”, repetindo o feito de 2018 – em 2017, a empresa ficou em quarto lugar. O levantamento incluiu análises do crescimento de vendas líquidas, lucro líquido, patrimônio líquido, margens das vendas, rentabilidade e riqueza gerada por empregado, entre outros dados. Ou as informações fornecidas pela empresa à Revista Exame foram fraudulentas, como foram diversos dos Governos fluminenses anteriores, ou então os problemas estão mesmo sendo criados por funcionários – uma empresa “campeã” não desanda de uma hora para outra. 

Como estudioso dos problemas de saneamento básico e do meio ambiente, e também pelas ligações históricas da minha família com a cidade do Rio de Janeiro, faço votos para que se chegue a uma solução dessa verdadeira “novela” no menor tempo possível. Com a sensação térmica na Região Metropolitana do Rio de Janeiro superando a casa dos 50° C em alguns dias desse verão, é no mínimo desumano privar a população local do acesso a água de boa qualidade. 

A ÁGUA NOSSA DE CADA DIA, OU AINDA FALANDO DO RIO GUANDU

Fontes de água

Quem está acompanhando as últimas postagens aqui do blog já percebeu as dificuldades e os problemas para o abastecimento de água das populações da Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Assim como acontece em outras grandes regiões metropolitanas como São Paulo, Nova York e Los Angeles, os mananciais de água ficam a centenas de quilômetros de distância e são necessárias grandes obras de engenharia para transportar essa água até os consumidores finais. 

No caso do Rio de Janeiro, a principal fonte de água é o sofrido rio Guandu, um manancial com nascentes na Região Serrana do Estado, que por sua vez recebe grandes volumes de água transpostos da Bacia Hidrográfica do rio Paraíba do Sul. Conforme apresentamos em postagens anteriores, esses sistemas de transposição de águas entre as bacias hidrográficas foram construídos ao longo de grande parte do século XX com o objetivo de reforçar a geração de energia elétrica no Estado do Rio de Janeiro – a água que “sobra” nesses processos é lançada na direção do rio Guandu e usada para o abastecimento de aproximadamente 9 milhões de pessoas

Falamos muito também dos problemas de poluição das águas que já começam ao longo da calha do rio Paraíba do Sul e depois se acentuam na bacia hidrográfica do rio Guandu. Para conseguir tratar e potabilizar essas águas poluídas, a CEDAE – Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Estado do Rio de Janeiro, precisa fazer uma verdadeira “alquimia”. Prestem atenção nesta lista de produtos químicos: 

140 toneladas de sulfato de alumínio, 20 toneladas de cloreto férrico, 25 toneladas de cal virgem, 15 toneladas de cloro, 10 toneladas de ácido fluo silícico (o famoso flúor), entre outros produtos.” 

Em muitas pequenas e média cidades brasileiras, essa é a compra de insumos para vários meses de operação de suas ETAs – Estações de Tratamento de Água. No caso da ETA do Guandu, esse é o consumo diário da unidade para conseguir tratar todo o volume de água potável ali produzido. 

Considerada a maior estação de tratamento de água em produção contínua do mundo pelo Guinness Book, o livro dos recordes, em 2007, a ETA do Guandu produz uma média de 43 mil litros de água potável a cada segundo. Com essa produção toda, já seria de se esperar um grande consumo de produtos químicos nas suas operações. A intensa poluição das águas do rio Guandu, entretanto, é quem ajuda a turbinar esses números. 

Entre o final de maio e o início de junho de 2018, acho que muitos de você devem se lembrar, os caminhoneiros realizaram uma grande greve em todo o Brasil em protesto contra o aumento do preço do óleo diesel. Esse movimento prejudicou fortemente a economia do país e muitos produtos começaram a faltar no mercado, inclusive os produtos químicos consumidos pela ETA do Guandu. Se essa greve tivesse se estendido por um tempo maior, a população da Região Metropolitana do Rio de Janeiro teria ficado com as torneiras secas, o que só demonstra como o tratamento e a importância dessas unidades são críticas para a nossa sociedade. 

Além do uso intensivo de produtos químicos, bombear essa quantidade tamanha de água requer o uso de muita energia elétrica – são dezenas de grupos de motobombas elétricas, onde são consumidos cerca de 45 mil MWh. Para que vocês tenham ideia do que é isso, tal quantidade de energia elétrica é suficiente para abastecer uma cidade com perto de 500 mil habitantes. 

Os processos de tratamento da água bruta, nome que se dá a água retirada dos mananciais, começam com processos mecânicos, onde o objetivo é a retirada de lixo flutuante, resíduos sólidos e sedimentos como a areia.  No caso de águas poluídas como as do rio Guandu, esses processos são bem intensos. Vejam: 

Peneiramento/Gradeamento: Elimina as sujeiras maiores (folhas, galhos e lixo) através da filtragem por grades e telas; 

Sedimentação ou Decantação: A água bruta é armazenada em tanques, onde pedaços de impurezas que não foram retirados com o peneiramento são depositados no fundo dos tanques pela ação da gravidade; 

Aeração: Ar comprimido é injetado nos tanques com o intuito de retirar substâncias responsáveis pelo mau cheiro da água como o ácido sulfídrico (substância liberada pela decomposição de esgotos) e substâncias voláteis. 

Concluído essa fase de tratamento inicial, a água precisa passar por uma série de processos químicos para a remoção das impurezas e destruição de bactérias e outros microrganismos nocivos à saúde humana. É aqui onde todo o volume de produtos químicos relacionados começam a ser utilizados: 

Oxidação: O primeiro passo é oxidar os metais presentes na água, principalmente o ferro e o manganês, que normalmente se apresentam dissolvidos na água bruta. Para isso, injeta-se cloro ou produto similar, pois tornam os metais insolúveis na água, permitindo, assim, a sua remoção nas outras etapas de tratamento; 

Coagulação: A remoção das partículas de sujeira se inicia no tanque de mistura rápida com a dosagem de sulfato de alumínio ou cloreto férrico. Estes coagulantes têm o poder de aglomerar a sujeira, formando flocos. Para potencializar o processo adiciona-se cal virgem; 

Floculação: Na floculação, a água já coagulada movimenta-se de tal forma dentro dos tanques que os flocos se misturam, ganhando peso, volume e consistência; 

Decantação: Na decantação, os flocos formados anteriormente separam-se da água, sedimentando-se, no fundo dos tanques; 

Filtragem: A água ainda contém impurezas que não foram sedimentadas no processo de decantação. Por isso, ela precisa passar por filtros constituídos por camadas de areia ou areia e antracito (variedade de carvão mineral compacto e duro) suportadas por cascalho de diversos tamanhos que retêm a sujeira ainda restante; 

Desinfecção: A água já está limpa quando chega a esta etapa. Mas ela recebe ainda mais uma substância: o cloro. Este produto é um poderoso bactericida que elimina os microrganismos nocivos à saúde ainda presentes na água, garantindo também a sua qualidade nas redes de distribuição e nas caixas de água dos consumidores. 

Fluoretação: Finalizando o tratamento, a água recebe uma dosagem de composto de flúor (ácido fluo silícico), em atendimento a portaria do Ministério da Saúde. O flúor reduz a incidência de cáries nos dentes, especialmente no período da sua formação, que vai da gestação até a idade de 15 anos. 

Quando os níveis de poluição de um manancial ultrapassam o que podemos chamar de “níveis máximos da escala”, como vem acontecendo no rio Guandu nesse verão, esses processos de tratamento convencionais não conseguem deixar a água cristalina e sem cheiro – são necessários alguns processos de tratamento extras. Os esgotos domésticos presentes na água são ricos em matéria orgânica, que dissolvida na água provoca a eutrofização, o fenômeno do crescimento excessivo de plantas aquáticas através de uma super fertilização. Quando há um excesso de micro algas na água, os processos de tratamento não conseguem ser 100% eficientes e resíduos dessas plantas aquáticas aparecem na água distribuída para a população, alterando a cor e o cheiro do líquido. 

É aqui que chegamos a um ponto fundamental da discussão: ou se aumentam e se melhoram os processos de tratamento da água nas ETAs, o que vai garantir uma purificação adequada da água, ou se faz o que já deveria estar sendo feito há muito tempo – passar a cuidar com muita atenção e carinho das fontes de água, evitando o lançamento de esgotos e lixo nos rios, lagos e represas. 

Na minha modesta opinião, essa última alternativa é a melhor, mais barata e, sem qualquer dúvida, a mais saudável para todos. Salvem o rio Guandu! 

 

PS: A CEDAE exonerou o chefe da ETA – Estação de Tratamento de Água, do Guandu, Júlio César Antunes, na noite da terça-feira, dia 14, em função dos muitos problemas que a unidade vem apresentando há mais de 10 dias

AS “CONTRIBUIÇÕES” FLUMINENSES PARA A DEGRADAÇÃO DAS ÁGUAS DO RIO GUANDU, OU A CULPA NÃO É SÓ DO RIO PARAÍBA DO SUL

Distrito Areeiro de Serpédica-Itaguaí

Na postagem anterior, nós afirmamos que parte dos problemas ligados à má qualidade da água distribuída para uma parcela significativa da população da Região Metropolitana do Rio de Janeiro tem origem na poluição do rio Paraíba do Sul, manancial responsável por mais de 60% das águas transpostas para o rio Guandu. Lançamentos de grandes volumes de esgotos domésticos e industriais sem tratamento, destruição de matas ciliares e extração de areia, estão na origem desse problema. Entretanto, essa é apenas uma parte da tragédia ambiental. 

Dentro da sua própria bacia hidrográfica, o tratamento dispensado ao precioso líquido no rio Guandu não é dos melhores – esse rio, principal manancial de abastecimento do Estado, figura como o 15° rio mais poluído do país, fazendo companhia a verdadeiros ícones da degradação ambiental como os rios Tietê, Iguaçu, Ipojuca e das Velhas, entre outros, os ocupantes das primeiras posições dessa lamentável lista de corpos d’água poluídos. 

A transposição de águas da Bacia Hidrográfica do Rio Paraíba do Sul em direção da Bacia Hidrográfica do rio Guandu teve início em 1903, quando a concessionária dos serviços de geração e de distribuição de energia elétrica no Estado do Rio de Janeiro, a Light and Power Company, iniciou a construção do Complexo de Lajes. Uma das primeiras intervenções hidráulicas desse complexo passou a desviar parte dos caudais do rio Piraí, um afluente do rio Paraíba do Sul, na direção da Reservatório de Lajes. Em intervenções posteriores, a Light construiu a Barragem de Santa Cecília no rio Paraíba do Sul, o que passou a permitir a transposição de cerca de metade dos caudais desse rio para reforçar a alimentação dos reservatórios de suas usinas hidrelétricas. 

Graças a todo um conjunto de obras para o aumento da disponibilidade de água nos sistemas geradores de energia elétrica da Light no Estado do Rio de Janeiro, a vazão na Bacia Hidrográfica do rio Guandu aumentou de históricos 25 m³ por segundo para até 160 m³ por segundo. Esse providencial “efeito colateral” da geração de energia elétrica literalmente salvou grande parte da população fluminense e carioca de séculos de carência de fontes de abastecimento de água, conforme apresentamos em postagens anteriores. 

Infelizmente, como é uma espécie de regra aqui no Brasil, essas “águas sagradas” não receberam o cuidado e a atenção merecido. O crescimento desordenado de cidades localizadas dentro da Bacia Hidrográfica do rio Guandu teve como consequência o aumento dos volumes de esgotos e de resíduos sólidos lançados nas águas. Resíduos de fertilizantes e de defensivos agrícolas usados em grandes quantidades em áreas agrícolas também passaram a ser carreados pelas chuvas em direção da calha dos rios formadores da bacia hidrográfica. 

A poluição de origem industrial também cresceu fortemente ao longo de todo o século XX, contribuindo fortemente para a degradação das águas de toda a Bacia hidrográfica do rio Guandu. Um verdadeiro ícone dessa poluição dentro do Estado do Rio de Janeiro é a CSN – Companhia Siderúrgica Nacional, localizada na cidade de Volta Redonda. Durante décadas, a CSN despejou, direta e indiretamente, centenas de toneladas de poluentes nas águas do rio Paraíba do Sul – grande parte desses poluentes acabavam sendo transferidos para a Bacia Hidrográfica do rio Guandu através dos sistemas de transposição de águas da Light

Um dos grandes focos de problemas ambientais no rio Guandu é o Distrito Areeiro de Seropédica-Itaguaí, um dos maiores do Brasil e que está inserido dentro da bacia hidrográfica do manancial. Até a década de 1960, a economia dessa região tinha como base a agricultura, com destaque especial para a produção de laranjas. Com o crescimento das atividades de mineração, a agricultura foi perdendo relevância e a produção mineral passou a responder pela maior parte das receitas dos municípios da região. Esse crescimento descontrolado da mineração passou a criar uma série de problemas ambientais, sentidos especialmente nos recursos hídricos (vide foto). 

Seropédica e Itaguaí são dois municípios da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, distantes cerca de 60 km do centro da capital do Estado. Até 1995, eles formavam um único município – Itaguaí; o distrito de Seropédica foi então desmembrado, passando a constituir um município independente. Entre esses dois municípios encontramos o Distrito Areeiro de Seropédica-Itaguaí, que ocupa uma área com aproximadamente 50 km², onde operam cerca de 100 empresas mineradoras, que fornecem quase 90% da areia e da brita usada pela construção civil da Região Metropolitana do Rio de Janeiro.  

Além dos inúmeros problemas ambientais criados pelas cavas de extração de areia nas águas da Bacia Hidrográfica do rio Guandu, as atividades mineradoras também causam problemas no Aquífero Piranema. Esse aquífero ocupa uma área de aproximadamente 180 km² (algumas fontes chegam a falar de 500 km²) entre os municípios de Itaguaí, Queimados, Japeri e Seropédica. O Aquífero Piranema tem capacidade de fornecer até 1,6 m³ de água por segundo e tem como principal área de ocorrência o Distrito Areeiro. De acordo com estudos geológicos, o Aquífero Piranema é uma reserva estratégica de água e tem potencial para atender o abastecimento de água de toda a Região Metropolitana do Rio de Janeiro por um mês.   

As cavas de extração de areia ficam inundadas com as águas do Aquífero Piranema e assim ficam expostas ao contato com diversos poluentes, entre eles os combustíveis que vazam das bombas de sucção instaladas nas dragas e também pelos diversos rejeitos de mineração. Esses poluentes provocam uma deterioração na qualidade das águas, que são sentidas por moradores de diversos bairros vizinhos, que dependem exclusivamente da água retirada de poços para o abastecimento de suas casas.  

Para completar o quadro de falta de cuidado com os recursos hídricos regionais, foi construído um grande aterro sanitário no município de Seropédica, ocupando terrenos acima do Aquífero. O aterro recebeu a ingrata missão de substituir o famoso lixão do Jardim Gramacho, fechado em 2011. Atualmente, esse aterro sanitário recebe 10 milhões de toneladas diárias de resíduos sólidos gerados pelas cidades de Seropédica, Itaguaí e Rio de Janeiro. 

A somatória de tanta falta de cuidados com os recursos hídricos no Estado se reflete na péssima qualidade da água bruta que chega na ETA – Estação de Tratamento de Água, do Guandu, localizada em Nova Iguaçu. Essa unidade produz até 43 mil m³ de água tratada por segundo e abastece cerca de 80% da população da Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Dezenas de toneladas de produtos químicos precisam ser utilizados diariamente nos processos de tratamento da água captada no rio Guandu, que antes precisa passar por processos de gradeamento e pré-filtragem para a remoção de grandes quantidades de lixo flutuante, resíduos sólidos e muita areia. 

Com os dias de forte calor do verão e também com muita chuva, a qualidade das águas do rio Guandu pioram ainda mais e os sistemas de tratamento não conseguem deixar a água incolor e sem cheiro. É por isso que muitos moradores da Região Metropolitana do Rio de Janeiro estão se queixando, e com razão, da péssima qualidade da água que chega nas suas torneiras. 

A TRANSPOSIÇÃO DAS ÁGUAS DO RIO PARAÍBA DO SUL PARA O RIO GUANDU, OU A GÊNESE DE UM GRANDE PROBLEMA AMBIENTAL

Rio Paraíba do Sul

Na última postagem falamos rapidamente dos problemas com a qualidade da água fornecida aos consumidores da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, que está chegando nas torneiras com uma cor escura e com um cheiro estranho. Esse tipo de problema normalmente é causado pela presença de algas e cianobactérias em fontes de abastecimento de água contaminadas por esgotos.  

Com a chegada dos meses de verão e de fortes períodos de chuvas, há uma tendência de aumento na quantidade de lixo e detritos carreados para a calha dos rios e represas. O forte calor também atua com um “combustível” para o crescimento de algas e multiplicação de bactérias – os sistemas de tratamento e produção de água não conseguem eliminar completamente esses contaminantes. O resultado é uma água tecnicamente potável, porém com um aspecto e cheiro ruim. 

No caso da cidade do Rio de Janeiro e de alguns municípios da Baixada Fluminense, a origem do problema está na intensa poluição do rio Guandu, o principal manancial de abastecimento de água da Região Metropolitana. O rio Guandu fornece aproximadamente 85% da água consumida pela população da cidade do Rio de Janeiro e  por cerca de 70% do consumo das populações da Região da Baixada Fluminense, especialmente nos municípios de Nova Iguaçu, Duque de Caxias, São João de Meriti, Belford Roxo, Nilópolis, Itaguaí, Queimados e Mesquita. Porém, conforme já apresentamos, esse rio está com suas águas altamente poluídas

Entre outros problemas, o rio Guandu sofre com a baixa qualidade das águas do rio Paraíba do Sul, seu principal “fornecedor” de águas. Ao longo de várias décadas, a Light, empresa canadense de geração e distribuição de energia elétrica, realizou diversas obras hidráulicas para transposição das águas da bacia hidrográfica do Rio Paraíba do Sul em direção da bacia hidrográfica do rio Guandu. Essas águas passaram a ser usadas na geração de energia elétrica em diversas hidrelétricas da empresa no interior do Estado do Rio de Janeiro. Depois de utilizadas, essas águas correm na direção do rio Guandu e garantem o abastecimento de grande parte das populações da Região Metropolitana do Estado. 

O rio Paraíba do Sul é um curso d’água bastante discreto, sendo formado pela junção das águas de pequenos rios com nascentes nas montanhas da Serra do Mar, no Estado de São Paulo. Em tempos geológicos distantes, ele era um dos muitos afluentes formadores do  famoso rio Tietê. Graças ao afundamento de um grande bloco de rochas por forças tectônicas, o que resultou na atual configuração física do Vale do Paraíba, o rio  mudou o seu curso para o Norte e depois para o Leste, passando a correr na direção do Rio de Janeiro, onde se tornou o mais importante curso d’água do Estado. No seu caminho em direção ao Oceano Atlântico, o rio delimita grande parte da divisa entre os Estados do Rio de Janeiro e Minas Gerais. 

Apesar de não ser um rio grande e caudaloso como seus congêneres da gigantesca Bacia Amazônica, o Paraíba do Sul sempre cumpriu o seu papel como fonte de abastecimento de água de populações, para irrigação, indústrias e também para a geração de energia elétrica. Estimativas oficiais afirmam que o rio responde pelo abastecimento de 14 milhões de pessoas nos Estados de São Paulo, Minas Gerais e, principalmente, Rio de Janeiro – são 12 milhões de pessoas no Estado, onde 8 milhões moram na Região Metropolitana do Rio de Janeiro

Mesmo com essa importância ímpar, o rio Paraíba do Sul vem sendo maltratado há várias décadas com o lançamento de grandes volumes de esgotos sem tratamento, além de receber despejos de muito lixo e resíduos sólidos de todos os tipos, resíduos de fertilizantes e de agrotóxicos, além de sofrer com a degradação de margens e destruição de matas ciliares por atividades de mineração – principalmente de areia para a construção civil. O rio Paraíba do Sul é classificado como o 5° rio mais poluído do Brasil.

De acordo com a Ana – Agência Nacional de Águas, de um total estimado de 365 milhões de m³/ano de efluentes domésticos lançados na bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul, apenas 54,5 milhões de m³/ano ou apenas 15% do total de efluentes recebem um tratamento adequado. Quando este dado é analisado a partir das informações de cada Estado, percebe-se uma enorme discrepância nos índices de tratamento: enquanto os municípios da área paulista da bacia hidrográfica tratam, em média, 54,3% dos efluentes domésticos, no Estado de Minas Gerais o valor cai para 7,2% e no Rio de Janeiro são 5,7%.  

Esta distorção também pode ser vista quando se compara a diferença entre os níveis de tratamento de esgotos domésticos entre municípios de uma mesma região: enquanto São José dos Campos, uma das mais importantes cidades do Vale do Paraíba, trata 89% de seus esgotos domésticos, na cidade de Cruzeiro, distante apenas 128 quilômetros a jusante (correnteza baixo), o índice de tratamento cai a 0%, o que mostra que a preocupação com o saneamento básico não é uma unanimidade nem nacional nem regional. 

Outra fonte importante de poluição nas águas do rio Paraíba do Sul são as indústrias. A região atravessada pelo rio está entre as mais industrializadas do país, destacando-se o Vale do Paraíba, no Estado de São Paulo, e a cidade de Volta Redonda, no Estado do Rio de Janeiro, onde está localizada a CSN – Companhia Siderúrgica Nacional, a maior usuária individual de águas do rio, com um consumo de 10 m³/s, equivalente a toda a demanda industrial no trecho paulista do rio. Entre outros problemas, essa intensa poluição das águas tem colocado diversas espécies de peixes em risco de extinção, como é o caso da piabanha.

Fundada em 1946, a CSN foi, durante décadas, uma das maiores poluidoras das águas do Paraíba do Sul. Felizmente, com os avanços da legislação ambiental e das ações de fiscalização nos últimos anos, houve uma grande evolução no controle dos despejos de poluentes pela empresa. Mesmo assim, estudos realizados na região têm encontrado contaminações no solo e nas águas subterrâneas com substâncias tóxicas e cancerígenas como bifenilas policloradas (PCBs), cromo, naftaleno, chumbo, benzeno, dioxinas, furanos e xilenos, resíduos que foram descartados clandestinamente pela empresa  em aterros ilegais antes do ano 2000 e que até os dias atuais contaminam as águas do rio Paraíba do Sul

Também precisamos falar rapidamente dos problemas criados pela extração de areia na calha e margens do rio. Durante várias décadas, os areais do Vale do Paraíba foram a principal fonte desse insumo para a indústria da construção civil das Regiões Metropolitanas de São Paulo e de Campinas. Sem maiores preocupações com a fiscalização das autoridades estaduais, os areeiros devastaram imensas áreas de matas ciliares para atingir os valiosos depósitos de areia e deixaram no seu lugar gigantescas crateras, que foram abandonadas após o esgotamento do recurso. Sem qualquer compromisso com a recuperação dessas áreas, esses areeiros simplesmente partiam em busca de “terras virgens” para a instalação de novas cavas. Só bem recentemente, após o endurecimento da legislação ambiental no país, é que a atividade passou a ter um controle maior.

Cavas de areia no rio Paraíba do Sul

De acordo com estudos da AGEVAP – Associação Pró-Gestão da Bacia Hidrográfica do rio Paraíba do Sul, somente para atender as determinações do Código Florestal e garantir a recuperação mínima da cobertura vegetal na região (vide foto no alto), será necessário o plantio de 583 mil hectares de matas, algo equivalente a 147 vezes a área da Floresta da Tijuca. Os custos estimados para essa iniciativa superam a casa de RS 1 bilhão. Também se fazem necessários pesados investimentos em sistemas de coleta e tratamento de esgotos, de coleta e destinação de resíduos sólidos, no tratamento de efluentes industriais, entre outras iniciativas, visando a recuperação dos caudais e da qualidade das águas do rio Paraíba do Sul.

Enquanto nada disso é feito, as águas sofridas e poluídas do rio Paraíba do Sul continuam sendo responsáveis por mais de 60% dos caudais transferidos para a bacia hidrográfica do rio Guandu e pelo abastecimento de milhões de cariocas e fluminenses. Continuaremos no assunto na próxima postagem.