A GRANDE CHEIA NO RIO TOCANTINS E AS MAIORES INUNDAÇÕES DOS ÚLTIMOS 20 ANOS

O rio Tocantins tem aproximadamente 2.400 km de extensão, sendo considerado o segundo maior rio totalmente brasileiro, perdendo apenas para o nosso bom e velho rio São Francisco. Ele nasce na Serra Dourada, no Estado de Goiás, e segue rumo ao Norte, atravessando o Tocantins, Maranhão e Pará, onde tem a sua foz nas proximidades da Ilha do Marajó. 

Em conjunto com o rio Araguaia forma uma bacia hidrográfica que se estende por uma área total de 960 mil km², algo que corresponde a 11% do território brasileiro. É uma das maiores bacias hidrográficas totalmente localizadas dentro do território brasileiro. 

Grande parte da bacia hidrográfica dos rios Tocantins/Araguaia fica dentro do Cerrado brasileiro, um dos biomas que mais perdeu vegetação nativa nos últimos 50 anos. Essa devastação no Cerrado tem tudo a ver com o desenvolvimento de sementes de grãos adaptados ao clima e aos solos ácidos do bioma na década de 1970, com grande destaque para a soja

Transformado na principal área de produção de grãos do país, o Cerrado passou a enfrentar uma série de problemas ambientais, onde destaco os impactos dos desmatamentos nos processos de recarga dos grandes aquíferos da região do Brasil Central. Sem essa recarga, importantes rios da região como o Araguaia e o Tocantins tiveram substanciais reduções em seus caudais. 

Relembrando, o Cerrado é chamado por muitos especialistas de “berço das águas do Brasil”. A região concentra alguns dos maiores aquíferos do país como o Guarani, o Bambuí e o Urucuia. As nascentes de água dessa extensa região formam 7 grandes bacias hidrográficas: Paraná, Paraguai, Parnaíba, São Francisco, Tocantins/Araguaia, Atlântico Leste e Atlântico Nordeste Ocidental. Rios com nascentes na região também são tributários da Bacia Amazônica. 

Nas temporadas de seca no Cerrado, esses rios vinham apresentando volumes cada vez menores de água, além de mostrar calhas extremamente assoreadas e entulhadas de sedimentos de todos os tipos. Já citamos, inclusive, alguns casos de rios da região que se transformaram em intermitentes – ficam completamente secos no verão, auge da seca. 

A forte temporada de chuvas que tem atingido uma extensa faixa de terras entre as Regiões Sudeste, Centro-Oeste e parte do Nordeste nessas últimas semanas, tem se refletido em toda a bacia hidrográfica Tocantins/Araguaia, que há muito tempo não via tanta água. 

Um dos sintomas dessa abundância de água, que é bastante positiva para o país, é o alto nível da barragem da Usina Hidrelétrica de Tucuruí, uma das mais importantes do país. De acordo com informações do ONS – Operador Nacional do Sistema Elétrico, do dia 17 de janeiro, o reservatório se encontra em 95,65% de sua capacidade. 

O lado negativo desse grande volume de águas nos rios da bacia hidrográfica são os inevitáveis transbordamentos, como o que está ocorrendo na importante cidade de Marabá, no Pará. A cidade está enfrentando a maior inundação dos últimos 20 anos. O rio Itacaiúnas, que é afluente do rio Tocantins e corta a cidade, está mais de 13 metros acima do seu nível normal. 

De acordo com informações da Defesa Civil local, já são mais de 2 mil famílias atingidas e outras centenas estão isoladas pelas enchentes. Muitas dessas famílias estão vivendo no segundo piso ou até mesmo na laje de suas casas, sendo que muitas delas estão resistindo em abandonar seus imóveis. 

Uma das cidades mais fortemente atingida pela cheia do rio Tocantins é São Miguel do Tocantins, localizada na região conhecida como Bico do Papagaio, onde os Estados do Tocantins, do Maranhão e do Pará fazem divisa. Não muito distante, já no Maranhão, a cidade de Imperatriz também está sendo fortemente impactada. 

Essa cheia atípica do rio Tocantins, que se acentuou fortemente a partir do início do ano, está causando problemas em quatro Estados: Goiás, Tocantins, Maranhão e Pará. O nível da água do rio superou as chamadas cotas de atenção, o que colocou as autoridades locais e populações em alerta constante. 

No final do mês de dezembro esse aumento na vazão do rio já era bastante perceptível. Um exemplo foi o que ocorreu na Usina Hidrelétrica Luís Eduardo Magalhães, localizada em Tupiratins em Goiás. Com o perceptível aumento da vazão de água na barragem, a Prefeitura local já emitiu um comunicado de alerta para a população. 

A Usina Hidrelétrica de Tucuruí, inclusive, teve de abrir cinco de suas comportas no dia 3 de janeiro, para controlar o grande volume de água que está chegando no reservatório. De acordo com a Eletronorte – Centrais Elétricas do Norte do Brasil, estatal responsável pela operação da hidrelétrica, essas operações de abertura das comportas são normais durante a estação chuvosa. Porém, a empresa destacou que a manobra foi antecipada devido “à quantidade de chuva atípica para esta época do ano nas cabeceiras dos rios Tocantins e Araguaia”. 

O ponto preocupante dessa situação é que as fortes chuvas continuando caindo em muitas regiões e parte dessas águas vai continuar correndo na direção das calhas dos rios da bacia hidrográfica Tocantins/Araguaia, seguindo rumo ao Norte, em direção da Baía do Marajó. Isso vai continuar provocando transtornos para as populações de centenas de cidades e vila ribeirinhas. 

As abençoadas e aguardadas chuvas de verão na Região Centro-Sul do país, que colocaram fim a uma das maiores secas dos últimos 90 anos, tem esse seu “lado negro”, que causa muita destruição e tragédias na vida de muita gente. 

Como eu sempre costumo comentar, a água é um dos elementos mais importantes de nosso mundo e uma das mais poderosas forças da natureza. A convivência é muitas vezes difícil, mas ela é imprescindível nas nossas vidas… 

COM AS CHUVAS, AUMENTAM AS PREOCUPAÇÕES COM DOENÇAS COMO A DENGUE, A CHIKUNGUNYA E A ZIKA 

Nas últimas semanas, os noticiários e as redes sociais tiveram dois temas de maior relevância e compartilhamentos: as fortes chuvas que assolaram o Sul da Bahia e depois grande parte do Estado de Minas Gerais, e a variante Ômicron da Covid-19, onde aqui incluo também o debate sobre a vacinação das crianças. 

Em meio a tantos problemas, existe uma questão importante que acabou ficando meio de lado nas discussões: os vírus arbóreos transmissores de doenças como a Dengue, a Zika e a febre Chikungunya

O elo em comum entre essas doenças é um velho conhecido aqui do blog: o mosquito Aedes aegypti, o principal transmissor dos vírus arbóreos causadores dessas doenças. Apesar de ter ficado bastante ofuscado pelo Corona Vírus nesses últimos dois anos, o mosquito e as suas doenças seguem causando grandes problemas para as populações. Nessa época de chuvas, quando os mosquitos aumentam fortemente a sua reprodução, precisamos todos nos cuidar. 

Vou começar falando de São Paulo, a minha cidade. Mesmo sem ter ocupado quase nenhum espaço nos noticiários, os casos de Dengue na cidade mais do que triplicaram ao longo de 2021. A Secretaria Municipal de Saúde divulgou um balanço em meados de novembro passado, onde constam 7.203 casos confirmados de Dengue na cidade até aquele momento ante um total de 2.026 casos registrados em todo o ano de 2020. 

Aqui é importante ressaltar que em 2020 houve uma redução expressiva do número de casos quando se compara com o ano de 2019, quando a cidade registrou 16.966 casos confirmados da doença com três mortes. É bastante provável que essa queda no número de casos esteja diretamente associada às políticas de restrição à circulação de pessoas em 2020 por causa da epidemia da Covid-19. 

Uma outra hipótese, bastante plausível, é que houve uma subnotificação dos casos. Com medo do Corona vírus, muita gente fez questão de se manter o mais longe possível de postos de saúde e hospitais, preferindo tratar a doença com remédios caseiros ou outros tratamentos paliativos. 

Esse brusco aumento nos casos de Dengue em 2021, seguindo essas linhas de raciocínio, decorreria de um relaxamento nas medidas de combate aos criadouros do mosquito Aedes aegypti ou ainda da volta da população às unidades médicas em busca de tratamento. A preocupação dos especialistas é o número de casos continuar aumentando ao longo desse novo ano. 

Outro exemplo preocupante de aumento de casos de doenças por vírus arbóreos é o Ceará, Estado que nas últimas décadas tem sido um dos campeões brasileiros “nessas modalidades”. De acordo com dados da Secretaria Estadual de Saúde, os casos confirmados de Dengue em 2021, foram 31.185 com 19 mortes ante os 20.550 casos confirmados em 2020. 

Além da Dengue, o Ceará registrou 4.756 casos confirmados de febre Chikungunya e 175 casos de Zika. Nenhuma morte por essas doenças foi registrada no Estado. As autoridades médicas do Ceará atribuem esse menor número de casos confirmados em 2020 à subnotificação por causa da epidemia da Covid-19. 

Com uma temporada de chuvas bem acima da média em muitas regiões brasileiras, é de se esperar que assistiremos um aumento expressivo no número de casos dessas doenças ao longo dos próximos meses. Aqui há um ponto importante a ser considerado: todas essas doenças, em maior ou menor grau, criam dificuldades respiratórias, o que poderá agravar casos de Covid-19. 

O mosquito Aedes aegypti é um importante vetor de transmissão de doenças virais, especialmente os chamados arbovírus, há mais de 100 anos aqui no Brasil. De origem africana, esse mosquito chegou às Américas de carona em embarcações mercantis, principalmente nos famigerados navios negreiros, e se disseminou em áreas de clima tropical e subtropical do Norte da Argentina até o Sul dos Estados Unidos. 

Como todo bom mosquito, o Aedes aegypti precisa de um meio aquático para a sua reprodução. E não falamos aqui de grandes corpos d`água como rios, lagoas e represas. Basta uma pequena reserva de água em resíduos plásticos, latas, casca de ovos ou uma caixa d`água destampada para que surja um verdadeiro criadouro desses insetos. 

Um dado interessante do mecanismo de reprodução desse mosquito é a resistência dos seus ovos. Quando a fêmea do Aedes aegypti identifica um local apenas com potencial para acumular água, ela faz a postura dos ovos, que podem sobreviver até dois anos aguardando o momento certo para eclodir. Quando esse recipiente enche de água – logo após uma chuva por exemplo, os ovos são reanimados em apenas 15 minutos. 

A primeira fase da vida de um mosquito é na forma de uma larva, evoluindo para uma pupa em apenas 5 dias e bastando apenas 2 dias para se transformar num mosquito adulto e com vida independente da água para sobreviver (vide foto). Em média, um ovo precisa de um espaço de tempo entre 7 e 10 dias para gerar um mosquito já voando. 

Em um país com climas predominantemente equatorial e tropical como o Brasil, mosquitos como o Aedes aegypti se reproduzem praticamente durante todo o ano. Porém, são nos períodos de chuva quando essa reprodução aumenta exponencialmente. E graças ao nosso tradicional descuido com a gestão resíduos sólidos, nossas cidades se transformam em grandes “maternidades” de mosquitos nessas épocas do ano (as temporadas de chuvas não são iguais em todo o Brasil). 

É um tanto desagradável ficar repetindo as mesmas informações ano após ano, mas é importante alertar a todos sobre os cuidados com os resíduos espalhados nos quintais e casas, onde existe qualquer possibilidade para a reprodução dos mosquitos – especialmente o Aedes aegypti

Façam todos uma boa inspeção em suas casas e, particularmente, em terrenos baldios próximos. Encontrando resíduos e recipientes com água parada, trate imediatamente de esvaziá-los e descartá-los corretamente. Esse simples cuidado protegerá tanto a sua família quanto os seus vizinhos. 

Manter-se sempre alerta contra o Corona vírus é importante, especialmente quando uma nova variante com alto poder de contaminação está circulando por todo o mundo. Mas o bom e velho cuidado com as nossas já “tradicionais” arboviroses também é fundamental para que todos tenhamos uma vida saudável! 

AS FORTES CHUVAS DESSE VERÃO E O NÍVEL DOS RESERVATÓRIOS 

O primeiro mês do verão 2021/2022 foi marcado por chuvas acima da média em muitas regiões brasileiras, a começar pelo que foi visto no Sul da Bahia e no Norte de Minas Gerais. Nessas últimas semanas, as chuvas se concentraram ao longo de uma extensa região desde o Estado do Rio de Janeiro e do Vale do rio Paraíba em São Paulo, até regiões do Brasil Central em Goiás e Tocantins. Minas Gerais foi o Estado mais castigado por essas fortes chuvas. 

De acordo com um balanço preliminar divulgado pela Defesa Civil de Minas Gerais no dia 13 de janeiro, o saldo desse período de fortes chuvas no Estado até o momento é de 3.992 desabrigados, 24.610 desalojados e 24 vítimas fatais. São 341 municípios em situação de emergência. A intensidade e a extensão das chuvas diminuíram bastante, mas os estragos e os problemas ainda vão se fazer presentes por muitas semanas, quiçá meses (vide foto). 

Em outra postagem falaremos melhor sobre isso, mas, apesar dos volumes de chuva terem caído acima dos valores médios dos últimos anos, o que em parte explica o tamanho da destruição causada, não podemos nos esquecer dos grandes desmatamentos que essas regiões sofreram ao longo dos últimos séculos.  

Solos desnudos e/ou cobertos por uma vegetação mais rala – como pastagens e plantações, absorvem quantidades pequenas das águas das chuvas. Essa água então forma uma lâmina que corre pela superfície, atingindo o leito dos rios com grande força e velocidade. Sem conseguir acomodar esse grande volume de água, os rios transbordam e inundam cidades e vilas. 

Apesar de todos esses graves problemas, precisamos “dar graças aos céus” por essas abençoadas chuvas. Conforme comentamos em muitas postagens anteriores, a Região Central do país passava pela maior seca dos últimos 90 anos até poucas semanas atrás. Reservatórios de grandes e importantes usinas hidrelétricas estavam com baixos níveis, um problema que ameaçava parte importante do abastecimento de energia elétrica do Brasil. 

De acordo com dados do ONS – Operador Nacional do Sistema Elétrico, os reservatórios das usinas hidrelétricas das Regiões Sudeste e Centro-Oeste, que são responsáveis por cerca de 70% da geração de energia elétrica do país, atingiram seu pior nível em setembro de 2021, quando se registrou apenas 16% da capacidade hídrica total

Com a chegada do período das chuvas nessas regiões, o volume de água armazenada nos reservatórios já chegou a 35% da capacidade na primeira quinzena de janeiro de 2022. Esse é o melhor índice registrado desde agosto de 2020, quando os volumes armazenados de água correspondiam a 42% da capacidade total. 

Um exemplo da abundância de águas nessa temporada pode ser visto na Represa de Três Marias, na Região Central de Minas Gerais. De acordo com dados do ONS do dia 15 de janeiro, o reservatório está com 91% de sua capacidade total. Apesar dos bons números, a situação não é de todo confortável. Os volumes de água que estão chegando na represa são muito altos e a empresa responsável pela operação, a CEMIG – Companhia Energética de Minas Gerais, estuda abrir as comportas para aliviar a represa. Essa ação foi suspensa temporariamente. 

Os grandes volumes de água que o rio São Francisco está recebendo em áreas da sua bacia hidrográfica dentro do Estado de Minas Gerais e também em Goiás e no Tocantins, já estão sendo sentidos nas barragens de Sobradinho e de Luís Gonzaga (antiga Itaparica), no Norte da Bahia. Segundo dados do ONS de 15 de janeiro, essas barragens estão com níveis de 63,49% e 55,51%, respectivamente. 

Outros bons exemplos de reservatórios de água que vem sendo muito beneficiados com as fortes chuvas na região central do Brasil são os das Usinas Hidrelétricas de Tucuruí, no Pará, e de Serra Mesa, em Tocantins. Ambas as hidrelétricas estão instaladas na calha do rio Tocantins. De acordo com o ONS, o reservatório de Tucuruí está com 95,95% da sua capacidade. É importante destacar que a Usina Hidrelétrica de Tucuruí tem uma potência total instalada de 8,37 mil MW e é uma das mais importantes geradoras do Brasil. 

Em Serra Mesa, o reservatório está com 41,27% de sua capacidade máxima. Esse reservatório possui um espelho d’água que pode atingir a marca de 1.784 km², o que o coloca como o maior depósito artificial de água doce da América Latina. Possui uma capacidade nominal para armazenar 54,4 bilhões de m³ de água, porém, ao longo dos últimos anos, o nível do reservatório vem apresentando muito altos e baixos, ficando muito longe de atingir seu nível máximo. 

As boas chuvas, infelizmente, ainda não estão mostrando melhores resultados na vazão da bacia hidrográfica do alto rio Paraná. Uma das mais importantes usinas hidrelétricas da região, Ilha Solteira, aparece com o nível do seu reservatório com 0,00% nos dados do ONS. Isso significa que o nível do rio Paraná está numa cota abaixo dos 323 metros em relação ao nível do mar. 

A temporada de chuvas na Região Centro-Sul do Brasil deverá se estender até o mês de abril, o que nos dá esperanças de que dias bem melhores ainda virão para muitos dos reservatórios que ainda estão apresentando níveis muito baixos e/ou críticos. 

As previsões climáticas divulgadas pelo INMET – Instituto Nacional de Meteorologia, em novembro de 2021, indicavam chuvas abaixo da média em muitas regiões brasileiras nos meses de dezembro e janeiro. Entre essas regiões se incluíam a Bahia, Minas Gerais, Goiás e Tocantins. Essas previsões, felizmente, não se confirmaram e grande parte desses Estados estão convivendo com chuvas bem acima da média histórica. 

Para o mês de fevereiro, os modelos climáticos do INMET estão prevendo chuvas irregulares em praticamente toda a Região Central e também na Região Sul. Em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul as chuvas previstas deverão ficar abaixo da média histórica. 

Vamos torcer por alguma margem de erro nessas previsões, esperando que as chuvas fiquem ou dentro ou acima da média histórica. Lembro aqui que estamos vivendo sob a influência do fenômeno climático La Niña, palavra que vem do espanhol e significa a menina””. 

Essa menina peralta, juntamente com seu irmão El Niño (“o menino”), costumam pregar peças nos meteorologistas, alterando bastante as condições climáticas em grande parte do mundo. 

Vamos esperar para ver o que o clima nos reserva para os próximos meses. 

CHUVAS EM MINAS GERAIS DIMINUEM, MAS OS PROBLEMAS PROSSEGUEM 

Uma imagem marcante desta quinta-feira, dia 13 de janeiro, foi o deslizamento de uma das encostas do Morro do Enforcado em Ouro Preto, uma das mais famosas cidades históricas de Minas Gerais. Saturados de água, os solos se desprenderam e correram na direção de dois casarões centenários, que foram completamente destruídos. Felizmente, as perdas foram apenas materiais. 

Depois de cair de forma intermitente entre os dias 5 e 12 de janeiro, as chuvas começam a diminuir em grande parte de Minas Gerais e em outros Estados. Entretanto, rios continuam com altos níveis, solos estão encharcados e muitas estruturas como rodovias, pontes e barragens ainda apresentam riscos de colapso. Centenas de milhares de pessoas continuam com suas casas inundadas, sendo que parte desse grupo simplesmente não tem mais uma casa para chamar de sua. 

Governos de todos os níveis não tem poupado esforços em seus trabalhos de atendimentos aos desalojados e nas obras emergenciais para a recuperação de trechos de estradas, encabeçamento de pontes e até mesmo recuperação completa de obras de arte (nome dados a pontes, viadutos e outras estruturas do tipo). Serão muitos meses – em alguns casos anos, para recuperar tudo o que foi destruído por essa intensa temporada de chuvas. 

Entre as muitas preocupações dessa fase de “rescaldo” da tragédia, existem algumas barragens que, mesmo seriamente danificadas pelos grandes volumes de água, ainda estão resistindo. Um exemplo é a Barragem do Carioca, no rio Pará. 

Localizada entre as cidades de Pará de Minas e Conceição do Pará, essa barragem reúne as águas dos rios Pará e São João, dois dos corpos d`água mais importantes da região e que receberam imensos volumes de água nos últimos dias.  

Diante do risco iminente de rompimento – existem diversos vídeos nas redes sociais mostrando grandes volumes de água escapando por cima da barragem (vide foto), as autoridades ordenaram a evacuação de mais de 2.600 pessoas que viviam em áreas próximas das margens nos municípios de Pará de Minas, Pitangui, Onça de Pitangui e Conceição do Pará. 

Com a redução do nível das águas, as autoridades estão considerando que a situação está sob controle, apesar de ainda existirem riscos. O transbordamento da represa provocou uma grande erosão num dos aterros laterais, além de uma fratura no duto principal da estrutura. Serão necessárias obras para a recuperação desses danos assim que as condições meteorológicas permitirem. 

Segundo um boletim divulgado pela Defesa Civil de Minas Gerais no dia 13 de janeiro, o saldo desse período de fortes chuvas no Estado até o momento é de 3.992 desabrigados, 24.610 desalojados e 24 vítimas fatais. São 341 municípios em situação de emergência

Na Região Metropolitana de Belo Horizonte, o município de Nova Lima foi um dos mais afetados. O município fica na área da bacia hidrográfica do rio das Velhas, cujo nível chegou a subir 7 metros no pico das chuvas na região. Cerca de 600 casas foram atingidas pelas enchentes e mais de 4 mil moradores foram desalojados. 

Outro município da Região Metropolitana seriamente impactado pelas chuvas foi Betim, onde mais de 36 mil moradores foram impactados. As áreas mais afetadas ficam próximas ao Córrego Bandeirinhas, que transbordou devido ao excesso de águas. As informações da Defesa Civil mostram que a cidade possui 279 desabrigados e 9.251 desalojados. 

O aumento expressivo do nível do rio Betim também resultou em transbordamentos, que atingiram principalmente as regiões Central e Norte da cidade, em especial os bairros Vila das Flores e Nossa Senhora de Fátima. A Represa de Vargem das Flores também transbordou devido ao alto volume de chuvas, afetando bairro localizados a jusante da barragem. 

Outra região que foi fortemente castigada pelas chuvas foi vale do rio Paraopeba, onde a cidade de Brumadinho foi uma das mais impactadas. Grande parte da cidade foi afetada pela forte elevação do nível do rio. Encostas de morros de morros deslizaram, estradas de acesso foram inundadas e ou danificadas pelas águas. A Defesa Civil municipal informou em seu último boletim que existem 887 pessoas desalojadas e 305 desabrigadas na cidade. 

Outra fonte de grandes preocupações são as barragens de rejeitos de mineração, estruturas que existem em grande quantidade em todo o todo o Estado de Minas Gerais. O Governo do Estado e o Ministério Público Estadual notificaram as empresas responsáveis pela operação de 31 barragens de rejeitos de mineração a prestarem informações sobre as condições de segurança dessas estruturas

Como todos devem se lembrar, ocorreram dois grandes acidentes com estruturas desse tipo nos últimos anos – em 2015, ocorreu o rompimento de uma barragem em Mariana, o que causou um enorme estrago em praticamente toda a calha do rio Doce. Em 2019 foi a vez da Barragem do Córrego do Feijão, em Brumadinho, causando a destruição de uma extensa área da cidade de Brumadinho e do rio Paraopeba. 

Barragens de contenção de rejeitos minerais exigem um acompanhamento constante das suas condições de segurança. Um dos itens mais preocupante é o excesso de água – o colapso da barragem do Córrego do Feijão, segundo alguns estudos bem recentes, entrou em colapso devido ao excesso de água e à liquefação dos rejeitos minerais. 

Ainda serão necessárias várias semanas até que se consiga reorganizar razoavelmente a vida da maioria dessas cidades e localidades atingidas pelas fortes chuvas. Vamos torcer para que as condições climáticas deem uma trégua nesses próximos dias, permitindo que as águas dos rios baixem e que os solos consigam secar.  

Enquanto isso, as autoridades e populações precisam ficar atentas – o pior já pode ter passado, mas ainda existem muitos riscos sérios: o desmoronamento do morro em Ouro Preto é um exemplo disso

UMA PODEROSA ONDA DE CALOR ESTÁ VINDO DA ARGENTINA EM DIREÇÃO AO SUL DO BRASIL, OU “PATAGÔNIA 40 GRAUS” 

Partes das Regiões Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste estão enfrentando um volume de chuvas bem acima da média nessas últimas semanas. Essas fortes chuvas castigaram inicialmente o Sul da Bahia e o Norte de Minas Gerais já no início do mês de dezembro, deixando um enorme rastro de destruição, milhares de desabrigados e, desgraçadamente, muitas vítimas fatais.  

Nos últimos dias, as pancadas de chuva se espalharam por outras regiões de Minas Gerais, além de atingir partes dos Estados de Tocantins, Piauí, Rio de Janeiro e a faixa Leste de São Paulo, entre muitas outras regiões. Minas Gerais está sendo o mais fortemente atingido – nas últimas 24 horas cerca de 10 mil pessoas foram desalojadas de suas casas pelas enchentes e 5 pessoas morreram. 

Um sintoma do grande volume de águas nos rios do Estado veio com a notícia divulgada ontem, informando que a CEMIG – Companhia Energética de Minas Gerais, iria abrir as comportas da represa de Três Marias, na região central de Minas Gerais, com o objetivo de reduzir o volume acumulado de água, que está crescendo com enorme velocidade.  

Essa ação poderia provocar maiores inundações no médio e baixo rio São Francisco, que já está sofrendo com o alto nível das águas. A CEMIG, muito provavelmente devido a intensas pressões de autoridades dos vários níveis de Governos, voltou atrás e soltou um comunicado informando que estava adiando temporariamente essa ação. 

Enquanto as atenções de todos no país estão voltadas para a questão das chuvas e de todos os dramas associados, um outro evento climático potencialmente problemático já está causando enormes problemas na Argentina e dentro de poucas horas atingirá também o Uruguai, o Paraguai e a Região Sul do Brasil. Falo aqui de uma fortíssima massa de ar quente e seco que poderá criar temperaturas próximas dos 50° C em várias regiões. 

Na última segunda-feira, dia 10 de janeiro, a cidade de San Antonio Oeste, na Patagônia argentina registrou a temperatura recorde de 42,8º C, uma amostra do tamanho dos estragos que ainda virão. Quem prestou atenção ao título da postagem, deve ter notado que fiz um trocadilho com a música de Fernanda Abreu – “Rio 40 Graus”, e que é uma alusão a um filme brasileiro homônimo de 1955. Tempos atrás usei esse mesmo trocadilho para falar de temperaturas extremamente altas na Sibéria russa

Desde terça-feira, dia 11 de janeiro, a cidade de Buenos Aires vem enfrentando temperaturas próximas aos 40° C, as maiores já registradas na cidade desde 1995. De acordo com informações do SMN – Serviço Meteorológico Nacional, a cidade enfrentou um dos quatro dias mais quentes desde 1906, ano em que esses registros começaram a ser feitos. 

Essa excepcional onda de calor provocou um grande aumento no consumo de energia elétrica devido ao uso intensivo de ventiladores e de equipamentos de ar condicionado, o que acabou provocando um blackout ou apagão em grande parte da cidade. Cerca de 11 bairros e 700 mil porteños ficaram às escuras por várias horas. 

De acordo com as projeções dos meteorologistas, a tendência é que essa onda de calor cresça nos próximos dias. Segundo a NOAA – Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, na sigla em inglês, as regiões mais quentes da Argentina poderão registrar temperaturas entre 45° e 47° C. Felizmente, a NOAA é famosa por exagerar em suas projeções. 

No Uruguai, país que já está sentindo os efeitos dessa massa de ar quente e seco, as temperaturas devem ficar entre 41º e 43º C. Aqui as maiores preocupações são as queimadas, que já consumiram cerca de 37 mil hectares nas regiões de Paysandú e Rio Negro nos últimos meses e que poderão se alastrar por outras regiões do país. 

A onda de calor também atingirá o Paraguai e o Sul do Brasil, onde o Rio Grande do Sul deverá ser o Estado mais fortemente atingido. De acordo com projeções do INMET – Instituto Nacional de Meteorologia, a região Oeste do Estado deverá apresentar temperaturas máximas entre 10º e 15º C mais altas que a média para essa época do ano. O INMET já emitiu um aviso de perigo de calor extremo para 216 municípios gaúchos. 

Os modelos matemáticos criados pelo INMET indicam que a cidade de Uruguaiana, por exemplo, poderá enfrentar temperaturas entre 41º e 42º C nos próximos dias. Na Serra Gaúcha, uma das regiões mais frias do Estado, as temperaturas poderão atingir a marca de 37º C em Caxias do Sul e próximas de 40º C em Bento Gonçalves, a mesma temperatura projetada para Porto Alegre. 

Essa forte onda de calor poderá agravar, e muito, os problemas de estiagem que toda essa grande região já vem enfrentando há vários meses. No Sul da Argentina, citando um exemplo, o volume de chuvas acumuladas durante todo o ano de 2021 não atingiu a marca dos 200 mm. Outra região que está sofrendo muito com a seca é Santa Fé, no Centro do país. Rosário, a capital dessa Província, concentra 80% das operações portuárias da Argentina, operações estão sendo muito prejudicadas pelos baixos níveis do rio Paraná. 

No Rio Grande do Sul a prolongada estiagem já colocou 159 municípios em situação de emergência desde novembro. O Estado é um grande e tradicional produtor de grãos, frutas, leite e de produtos hortigranjeiros. Os produtores locais já estão sofrendo fortes prejuízos. 

A presença dessa grande massa de ar quente e seco na Região Sul do Brasil e em países vizinhos deverá criar um bloqueio de alta pressão atmosférica, impedindo que as fortes chuvas que estão caindo em partes das Regiões Sudeste, Centro-oeste e Nordeste se desloquem na direção da Região Sul. Ou seja, além de todos os problemas de altas temperaturas, essa massa de ar quente ainda poderá estender a duração das fortes e problemáticas chuvas que estão caindo em Minas Gerais e outras regiões. 

A provável responsável por todos esses problemas climáticos aqui em nosso Continente é La Niña, um fenômeno meteorológico que provoca uma redução da temperatura entre 2° e 3° C nas águas superficiais de uma extensa faixa do Oceano Pacífico. 

Nos anos de ocorrência de La Niña (a menina em espanhol) costuma se observar um aumento das chuvas na região Nordeste e temperaturas abaixo do normal na região Sudeste entre os meses de dezembro e fevereiro. O fenômeno também provoca um aumento do frio na costa Oeste dos Estados Unidos e no Japão, além de aumento das chuvas na costa Oeste da Ásia. Essa forte onda de calor no Sul da América do Sul é um evento inédito e inesperado.

Isso é o que chamamos de menina traquina aqui no meu bairro…  

CEMIG ANUNCIA A ABERTURA DAS COMPORTAS DA REPRESA DE TRÊS MARIAS E DEPOIS RECUA

Uma postagem um pouco mais curta hoje. 

A CEMIG – Companhia Energética de Minas Gerais, emitiu um comunicado nessa terça-feira, dia 11 de janeiro, informando que iria abrir as comportas da represa da Usina Hidrelétrica de Três Marias a partir dessa quarta-feira. No meio da tarde, a empresa emitiu uma atualização do comunicado informando que estava adiando a abertura das comportas da represa. 

A situação da represa de Três Marias, que dia após dia tem seu nível de água armazenada aumentando rapidamente, resume o quadro de fortes chuvas que estão castigando o Estado de Minas Gerais. Cidades sofrem com as enchentes, barragens de represas correm o risco de rompimento, aterros de rejeitos de mineração estão em estado de alerta, entre inúmeros outros problemas. 

A represa de Três Marias fica no rio São Francisco, na região central de Minas Gerais. Toda a bacia hidrográfica do rio São Francisco está recebendo grandes volumes de água das chuvas. Entre os principais afluentes do rio que contribuem para a formação da represa destacam-se os rios Pará, Paraopeba e o rio das Velhas, que estão apresentando vazões muito elevadas. 

A Represa de Três Marias foi concluída em 1961 e já foi entrando para o “livro dos recordes” na época: com cerca de 2,7 km de extensão, era a represa com maior barragem do mundo construída pelo sistema de aterro. Com 76 metros de altura, a barragem formou uma represa com aproximadamente 1.100 km² e capacidade para armazenar cerca de 21 bilhões de m³ de água.  

O projeto da represa de Três Marias previa a construção de uma Usina Hidrelétrica, com capacidade inicial de geração de 65 MW e com linhas de transmissão de 300 mil Volts para o sistema elétrico da região Central de Minas Gerais e de 138 mil Volts para a região Norte do Estado, para a região de Patos e Patrocínio e, eventualmente, interligando com a linha de transmissão de Peixotos a Araxá. A potência instalada da Hidrelétrica foi sendo ampliada, atingindo uma capacidade total de 396 MW. 

Entre as principais justificativas para a construção da represa também estava a necessidade de regularização dos caudais do rio São Francisco nos meses de seca, o que garantiria à época a continuidade dos importantes serviços de navegação, além da operação contínua das Usinas Hidrelétricas de Paulo Afonso. É aqui que fica o grande “nó” da questão. 

A liberação de um volume maior de água pelas comportas da represa poderá provocar um aumento indesejado do nível do rio São Francisco, afetando a vida de dezenas de cidades ribeirinhas e de centenas de milhares de pessoas. A CEMIG, provavelmente após muita pressão das autoridades dos diversos níveis de Governo, foi convencida a adiar, pelo tempo máximo possível, a abertura das comportas. 

Segundo informação da Companhia, a represa de Três Marias já atingiu um nível próximo de 75% de sua capacidade útil – esse nível está aumentando numa razão diária e 12 cm. Segundo as medições, o reservatório está recebendo uma vazão média de 7.300 m³ de água por segundo, com perspectiva de receber vazões superiores a 8.500 m³ nos próximos dias. 

 Segundo o planejamento da CEMIG, a barragem irá liberar nos próximos dias um volume de 850 m³ de água por segundo, o que corresponde ao volume máximo usado na geração de energia elétrica. Todo o espaço disponível no reservatório será usado para reter o máximo volume possível de água. As datas para a abertura das comportas serão informadas oportunamente em função da evolução das condições hidrometeorológicas. 

Aqui é importante esclarecer que as estruturas que formam as barragens das grandes usinas hidrelétricas são projetadas e construídas considerando-se uma enorme margem de segurança para situações desse tipo. Quando o volume de água armazenado atinge o limite de segurança as barragens começam a “sangrar”, ou seja, a água passa a escapar por cima dos paredões das estruturas de controle, independentemente da abertura das comportas. 

Vamos continuar de olho na evolução dos graves problemas criados pelas chuvas em Minas Gerais e também na situação da Represa de Três Marias, torcendo para que as coisas melhorem por lá! 

BRASIL OCUPA A 5ª POSIÇÃO MUNDIAL EM NÚMERO DE VÍTIMAS ASSOCIADAS A ACIDENTES GEOLÓGICOS/GEOTÉCNICOS 

Na última postagem falamos sobre o trágico acidente ocorrido na Represa de Furnas em Capitólio, Minas Gerais. No sábado, dia 8 de janeiro, um grande bloco de rochas do paredão de um dos canyons da represa desmoronou e atingiu várias lanchas, deixando 10 mortos e ao menos 31 pessoas feridas. 

Em meio a inúmeras reportagens com informações sobre essa tragédia, veio a público uma importante nota da Diretoria Executiva da SBG – Sociedade Brasileira de Geologia, sobre o desastre na Represa de Furnas. 

Inicialmente, a SBG se solidariza com os familiares das vítimas e expressa as suas condolências. Logo a seguir a nota afirma que, no período entre os anos de 2011 e 2021, o Brasil ocupou a 5ª posição entre todos os países do mundo em número de vítimas associadas a eventos geológicos/geotécnicos. Foram 41 milhões de pessoas afetadas em um total de 42 eventos de grande magnitude registrados.  Eu confesso que fiquei assustado com esses números!

Entre esses grandes eventos podemos citar os rompimentos das barragens de rejeitos de mineração em Mariana, em 2015, e em Brumadinho, em 2019, ambos em Minas Gerais. O acidente de Mariana, citando como exemplo, praticamente destruiu toda a calha do rio Doce, afetando a vida de mais de 3 milhões de pessoas em cidades mineiras e capixabas. 

A nota da SBG ressalta que o Estado de Minas Gerais está recebendo grandes volumes de chuva, uma situação que aumenta a possibilidade de eventos geológicos e geotécnicos, o que demanda um maior nível de atenção das autoridades municipais, estaduais e federais. Riscos naturais (natural hazards) associados a movimentos de massa são os eventos mais destrutivos e frequentes em regiões de montanhas e de maciços rochosos, como é justamente o caso de Minas Gerais. 

A região dos canyons da Represa de Furnas, segundo explicação da SBG, é dominada por afloramentos de quartzito, uma rocha que apresenta uma grande resistência a processos erosivos, mas que quando fraturada é bastante susceptível a processos naturais de intemperismo e ruptura do talude, exatamente o que aconteceu no local do acidente. 

A nota ainda afirma que as intensas chuvas que estão caindo na região podem ter potencializado a fratura do bloco de pedras, sendo determinantes para a ocorrência do acidente. Eventos geológicos desse tipo ocorrem naturalmente a milhões de anos e sempre são potencializados nos períodos de chuvas. 

O ponto alto da nota, em minha modesta opinião, é uma cobrança por uma postura mais proativa dos Governos dos diversos níveis na prevenção de eventos geológicos e geotécnicos. Todos sabemos que existe uma verdadeira tradição aqui em nosso país em “trocar o cadeado após a porta ter sido arrombada”. 

Conforme eu comentei na postagem anterior e que também foi citado na nota da Sociedade Brasileira de Geologia, esses canyons e cachoeiras da Represa de Furnas deveriam ter passado por uma vistoria anterior por peritos em geologia, onde se verificaria o nível de segurança das formações geológicas. Caso algum problema fosse identificado, a área receberia uma sinalização adequada e poderia, inclusive, ter acesso proibido. 

E a Represa de Furnas não está sozinha quando se fala na prevenção de riscos de acidentes com os turistas. Existem inúmeras atrações turísticas do mesmo tipo por todo o Brasil, onde se incluem canyons, cavernas, corredeiras, montanhas e outras formações geológicas abertas para a visitação pública e que não possuem laudos de segurança feito por especialistas da área. 

Vou citar um exemplo de memória: há pouco mais de dois meses houve o desabamento do teto de uma caverna no município de Altinópolis, cidade do interior do Estado de São Paulo, onde um grupo de bombeiros civis fazia um treinamento. O grupo era formado por 26 pessoas – o saldo foi de 9 mortos e uma pessoa ferida. 

O local onde aconteceu esse desmoronamento é conhecido como Gruta Duas Bocas e, segundo as informações divulgadas, era usado com alguma frequência em treinamentos desse tipo, além de receber a visita de muitos turistas. A pergunta que não quer calar: se o local tivesse sido vistoriado por especialistas, muito provavelmente o risco de desabamento teria sido identificado e todas essas vidas teriam sido poupadas. 

Outros acidentes evitáveis que frequentemente terminam em grandes tragédias são os desmoronamentos de encostas de morros em áreas urbanas nos períodos de fortes chuvas. A foto que ilustra essa postagem mostra um desses deslizamentos na região serrana do Estado do Rio de Janeiro em 2011. Outro exemplo impressionante foi o do Morro do Bumba, em Niterói, no ano de 2010. Foram encontrados 48 corpos nos escombros, porém, o número de mortos pode ter superado a casa dos 260. 

Essa área foi um grande lixão no passado, tendo sido aterrada e ocupada irregularmente ao longo do tempo por centenas de famílias. A ocupação foi crescendo e passou a subir a encosta do morro. Com a destruição da cobertura vegetal da encosta e com os sucessivos recortes do terreno para a construção de novas moradias, o solo perdeu sua capacidade de autossustentação e bastou uma temporada de fortes chuvas para que entrasse em colapso. 

Com um bom acompanhamento por profissionais de geotécnica de solos e um mínimo de vontade política da Prefeitura local para resolver a situação, essa grande tragédia com perda de dezenas de vidas humanas poderia ter sido evitada. 

O desfecho de mais uma tragédia que poderia ter sido evitada talvez contribua para uma mudança de postura em prefeituras, Governos estaduais e também órgãos do Governo Federal em relação à prevenção de acidentes em estruturas geológicas. Existem milhares de profissionais especializados nessas áreas em todo o país e não será necessário “reinventar a roda” para colocar um pouco de ordem e segurança nesses locais. 

Repetindo mais uma vez o velho chavão: prevenir é sempre melhor do que remediar! 

A TRAGÉDIA NO LAGO DE FURNAS, OU FALANDO DAS FORTES CHUVAS DE VERÃO 

O verão é sinônimo de calor e de muitas chuvas em grande parte do Brasil, especialmente na Região Centro-Sul. Tradicionalmente, as primeiras postagens publicadas aqui no blog no início de cada ano são recheadas de notícias sobre os problemas causados por chuvas e enchentes. 

Infelizmente, a primeira postagem publicada em 2022 não fugirá a esta regra – extensas regiões no Sul da Bahia, em Minas Gerais e no Tocantins, entre outras áreas, estão sofrendo com volumes de chuvas bem acima da média histórica. Depois de um período de forte seca e de reservatórios com baixíssimos níveis de água, essas chuvas seriam consideradas uma benção. Porém, esse excesso de águas não costuma combinar com a nossa precária infraestrutura urbana. 

Um acidente dramático que resume o poder de destruição das águas foi o que assistimos ontem na represa do Lago de Furnas, no Sul de Minas Gerais. Uma imensa coluna de pedra de um dos paredões dos canyons de Capitólio, uma importante cidade turística da região, se despendeu abruptamente e atingiu ao menos duas lanchas repletas de turistas. De acordo com as últimas informações do Corpo de Bombeiros, 10 pessoas morreram e 31 ficaram feridas. 

Uma filmagem do desmoronamento, feita por turistas que estavam no local e que circulou rapidamente pelas redes sociais e pela imprensa, mostrou como foi rápida a queda das rochas e que as lanchas não tiveram maiores chances de escapar. Vendo as imagens, lembrei imediatamente dos desmoronamentos de paredes de geleiras como a Perito Moreno na Patagônia argentina – a diferença é que as embarcações e os turistas por lá ficam bem longe dos paredões de gelo. 

Uma outra filmagem que está circulando pelas redes sociais, feita pouco tempo antes do acidente, mostra que houve um abrupto aumento do fluxo de águas nas cachoeiras do local. Esse fenômeno é conhecido como “cabeça d`água” e decorre de fortes chuvas em trechos mais altos do terreno. Ainda é cedo para tirarmos conclusões, mas esse evento pode ter contribuído para o desprendimento do bloco de rochas do paredão. 

O Lago da Usina Hidrelétrica de Furnas, chamado por muita gente de “Mar de Minas”, foi concluído em 1961, e inundou uma área total de 1.440 km2, equivalente a três vezes o tamanho da Baía da Guanabara. Esse reservatório, que é o maior corpo de água de Minas Gerais, se estende por 34 municípios e causou enormes polemicas durante a sua construção – mais de 35 mil pessoas tiveram de ser deslocadas há época por causa das obras

O primeiro grupo gerador da hidrelétrica entrou em operação em 1963. A inauguração oficial da usina ocorreu em maio de 1965, já no Governo Castelo Branco, o primeiro presidente do ciclo de Governos Militares, que dirigiu o país entre 1964 e 1985. Nessa época, a Usina Hidrelétrica de Furnas já operava com 6 grupos geradores. No início da década de 1970, foram instalados os dois últimos grupos geradores dos 8 previstos no projeto, elevando a potência total para 1.216 MW. 

Lentamente, o indesejado lago passou a “conquistar” os corações das populações e Furnas foi se transformando em uma das mais disputadas atrações turísticas do Estado de Minas Geais. Suas águas tranquilas são ideais para banhos, prática de esportes, pesca e navegação. As terras ao redor das margens sofreram uma grande valorização – muita gente dessa região interiorana passou a sonhar com a construção de uma bela casa ou de uma pousada com vistas para o reservatório e também com o lazer em atividades esportivas nos clubes náuticos que surgiram por toda a orla do reservatório.   

Diversos municípios localizados às margens do lago assistiram a uma verdadeira revolução no seu perfil socioeconômico e passaram a lucrar substancialmente com a renda gerada pelo turismo, especialmente nos segmentos de hotelaria e hospedagem, alimentação, comércio, prestação de serviços em áreas ligadas ao turismo, entre outras. Em muitos lugares, o reservatório criou condições para o desenvolvimento de projetos de piscicultura. 

As margens do Lago de Furnas se estendem por um perímetro com cerca de 3 mil km, apresentando inúmeros canyons (cuja palavra equivalente em português é canhão), grutas e cachoeiras. Foi justamente em uma dessas impressionantes formações geológicas onde o trágico acidente ocorreu. 

Vítima dos efeitos da fortíssima seca que atingiu toda a Região do Brasil Central, o Lago de Furnas atingiu um volume inferior a 15% de sua capacidade máxima no final de 2021. Essa seca, inclusive, chegou a provocar uma inédita tempestade de areia em cidades do Norte e Noroeste do Estado de São Paulo, e também na região do Triangulo Mineiro, bem próxima de Furnas, no final do mês de setembro.  

Com a chegada da temporada das chuvas de verão, o volume do Lago começou a se recuperar gradualmente, atraindo como de costume um número cada vez mais expressivo de turistas. O que ninguém esperava era a ocorrência de um deslizamento de rochas dessa magnitude, que desgraçadamente foi fatal para muita gente. 

Desde a sua formação há mais de 4 bilhões de anos, a superfície da Terra está em contínua movimentação e transformação. Apesar de não nos darmos conta, todos nós vivemos sobre grandes blocos de rochas “flutuantes” – as Placas Tectônicas, que além de se movimentarem horizontalmente, também sofrem oscilações de sua altitude em relação ao nível do mar. Esses solos sofrem processos erosivos naturais continuamente pela força das águas – das chuvas, dos rios e dos mares, dos ventos e das geleiras, além de mudanças provocadas por terremotos. 

O trágico desmoronamento dessa coluna de rochas no Lago de Furnas faz parte desses processos erosivos naturais. De acordo com o relato de autoridades locais, esse foi o primeiro desmoronamento de uma encosta já registrado na represa. Resta saber se não era possível diagnosticar os riscos desse desmoronamento através de vistorias previas, o que poderia ter restringido o acesso das lanchas àquele trecho dos canyons. Espero que as investigações policiais e as perícias encontrem essas respostas. 

Além de toda a nossa solidariedade às famílias das vítimas, precisamos cobrar ações das autoridades envolvidas no sentido de se evitar que tragédias parecidas voltem a acontecer. Todas as áreas desses paredões rochosos precisam ser periciadas por geólogos e outros profissionais especializados e sinalizadas adequadamente, inclusive com a proibição do acesso de embarcações para os casos mais críticos. 

Aquele velho e surrado ditado sempre precisa ser repetido – prevenir é melhor que remediar! 

2021, FINALMENTE, ESTÁ CHEGANDO AO FIM 

Todos vivemos mais um ano complicado. A pandemia da Covid-19 se mostrou mais resiliente do que se imaginava e até ganhou um folego extra com a chegada da variante ômicron. A economia da maior parte dos países do mundo continuou patinando e os efeitos do fechamento geral feito ao longo de 2020 já começaram a aparecer – alta na inflação, falta de produtos e matérias primas, combustíveis caros, desemprego, entre muitos outros problemas. 

Durante um bom tempo, enquanto se imaginava superado o ponto mais grave da pandemia, países começaram a flexibilizar as normas sanitárias e a vida parecia que iria voltar ao normal. Ledo engano – o avanço da doença voltou a ganhar força e os países voltaram a impor restrições à livre circulação das pessoas. Populações de muitos países, inclusive, devem passar as festas de fim de ano sob lockdown

Com a economia mundial em marcha lenta e com as restrições à livre circulação das pessoas, seria de se esperar alguma redução nas agressões ao meio ambiente. Infelizmente, não foi exatamente o que aconteceu. Em muitos países e regiões mais pobres, como foi o caso citado numa das postagens sobre a Floresta Amazônica no Peru, muitos desempregados voltaram às suas cidades de origem e passaram a derrubar e queimar matas para a prática de uma agricultura de subsistência. 

Aqui no Brasil, e em grande parte do mundo, vimos mais do mesmo – derrubada de florestas, avanço da mineração, destruição de fontes de água, grandes queimadas – não só na Floresta Amazônica, só para citar o básico. O arquivo das postagens do blog está repleto de exemplos dessas agressões ambientais.

A alta no preço dos combustíveis – especialmente do gás natural, que foi uma consequência direta da desestruturação dos sistemas produtivos por causa da pandemia da Covid-19, levou muitos países a reativarem antigas centrais de geração termelétrica a carvão para conseguirem manter a produção de energia elétrica. Conclusão – a Covid-19 provocou uma alta nas emissões de gases de efeito estufa. 

A vida, apesar de tudo, precisa continuar a seguir seu caminho e as esperanças de um futuro melhor devem ser renovadas. Que venham tempos melhores! 

Boas Festas a todos e uma grande torcida para que o Ano Novo seja “feliz”. 

PS: Vamos dar uma pausa nas postagens por alguns dias e voltaremos em breve com as “baterias recarregadas” para um novo ciclo de publicações.

OS ESTRAGOS CAUSADOS PELO TUFÃO RAI NAS FILIPINAS

A população das Filipinas ainda está se recuperando dos estragos causados pelo tufão Rai (também chamado de Odete) que atingiu o país no último dia 16 com ventos acima dos 195 km/h. Os maiores estragos foram nas ilhas de Siargao, Dinagat e Mundanao. De acordo com os levantamentos mais recentes do Governo local, foram confirmadas cerca de 375 mortes, 500 feridos e 56 pessoas estão desaparecidas. 

O tufão Rai está sendo considerado como a mais forte tempestade a atingir o país nos últimos anos. Ele foi classificado como o quinto super tufão da temporada no Oceano Pacífico em 2021, sendo considerado o mais mortal até o momento. De acordo com informações da PAGASA – Phillipine Atmospheric Geophysical anda Astonomical Services Administration, a classificação super tufão é dada a tempestades com uma velocidade superior aos 220 km/h

De acordo com a classificação meteorológica, furacões, ciclones e tufões são os mesmos fenômenos. A diferença na nomenclatura depende da região onde eles ocorrem. No Oceano Atlântico e no Norte do Oceano Pacífico essas tempestades são chamadas de furacões ou hurricane em inglês, palavra derivada do nome Hurrican, deus do mal para muitos povos do Mar do Caribe. 

No Noroeste do Oceano Pacífico essas tempestades são chamadas de tufões. No Sudeste do Oceano Pacífico e do Oceano Índico, essas mesmas tempestades recebem o nome de ciclones tropicais severos. 

A República das Filipinas é um grande país insular do Sudeste Asiático. É formada por mais de 7 mil ilhas, com um território de aproximadamente 300 mil km² e onde vive uma população de pouco mais de 100 milhões de habitantes. As ilhas ficam localizadas entre o Oceano Pacífico e o Oceano Índico, sendo devastadas frequentemente por tempestades e furacões. 

Conforme já tratamos em uma postagem anterior, as Filipinas já se encontram em um altíssimo grau de degradação ambiental – muitos cientistas chegam a afirmar que o país é uma “causa perdida” em termos ambientais. Mais de três quartos das matas nativas das ilhas já foram derrubadas por causa da exploração madeireira e também para a abertura de campos agrícolas. Alguns autores afirmam que resta algo entre 6 e 8% da vegetação nativa original

Sem a proteção das matas e sujeita a fortíssimas e frequentes tempestades, as ilhas Filipinas e sua grande população ficam sujeitas a enchentes, desmoronamentos de encostas, desabamento de casas, destruição de infraestruturas, entre outros problemas. Com o aquecimento global e com as mudanças climáticas em andamento, há uma tendência de um aumento cada vez maior na intensidade e na frequência dessas tempestades. 

Os males, infelizmente, não ficam restritos apenas aos ecossistemas terrestres – as águas marítimas do país também estão cheias de problemas. De acordo com estudos oceanográficos já concluídos, apenas 5% dos recifes de coral das Filipinas mantém entre 75 e 100% de sua cobertura viva. As razões para esta destruição maciça dos corais locais são muitas – pesca predatória com redes de arrasto, uso de dinamite e veneno na pesca, poluição, choque de embarcações contra as formações, entre outras agressões.    

Segundo declarações de autoridades das áreas mais gravemente atingidas pelo tufão Rai, o rastro de destruição lembra muito ao deixado pelo super tufão Haiyan de 2013, a maior tragédia já registrada no país e que deixou um saldo de 7,3 mil mortos. 

Equipes seguem nos trabalhos de busca e resgate de vítimas, principalmente em regiões isoladas. Também estão sendo feitos grandes esforços para a desobstrução de estradas, que foram bloqueadas com árvores caídas e por desmoronamento de encostas. Infelizmente, esse final de ano não será um dos mais felizes para muitos milhões de filipinos…