A COLONIZAÇÃO DO VALE DO RIO MUCURI, OU LEMBRANDO DE TEÓFILO OTTONI

Escrever diariamente as postagens aqui do blog é uma tarefa que não é das mais fáceis, principalmente quando entramos em temáticas novas. É preciso vasculhar a internet em busca de informações – principalmente trabalhos científicos e teses de mestrado e doutorado. Nas últimas postagens, onde temos falado dos problemas ambientais em rios da Mata Atlântica no Norte do Espírito Santo, Extremo Sul da Bahia e Nordeste de Minas Gerais, as coisas ficaram bem mais complicadas, pois, a disponibilidade de trabalhos científicos não é tão grande. 

A grande recompensa vem quando surgem as “grandes descobertas” (as vezes nem tão grandes assim) – a minha mais recente foi sobre Teófilo Ottoni. Confesso que conheço o nome dessa cidade desde a minha mais tenra infância – alguns conhecidos de nossa família vieram de lá. Mesmo assim, o lugar nunca passou de mais um nome entre tantos outros nomes, que pessoas de cidades grandes como eu ouvem diversas vezes ao dia. Não é que o “tal” de Teófilo Ottoni foi uma peça chave na colonização no rio Mucuri. Vamos conhecê-lo: 

Conforme comentamos nas postagens anteriores, uma extensa faixa de terras entre o Sul da Bahia, Norte do Espírito Santo e Nordeste e Leste de Minas Gerais permaneceu com suas densas florestas de Mata Atlântica praticamente intocadas até meados do século XIX. Esse era o território de um grande número de nações indígenas nada amigáveis aos colonizadores “brancos”, onde o grande destaque eram os temíveis e sanguinários botocudos.  

Esses índios ganharam uma péssima fama ao longo dos séculos – além de matar seus inimigos, segundo muita gente há época acreditava, os botocudos “sorviam o sangue através das feridas e desmembravam os corpos para comê-los” em rituais antropofágicos. Graças a esse medo “mítico” criado nos colonizadores, os botocudos ajudaram essa grande área da Mata Atlântica a ganhar uma importante sobrevida

No vale do rio Mucuri, que nasce no Nordeste de Minas Gerais e corre até o encontro com o Oceano Atlântico no Extremo Sul da Bahia, a até então tranquila história ambiental do bioma começaria a mudar drasticamente em 1847, ano em que foi criada a Companhia de Navegação e Comércio do Mucuri, empresa que tinha como objetivo principal a ligação da região Centro-Oeste de Minas Gerais ao “mar” através da navegação pelo rio Mucuri. Países e regiões com acesso aos oceanos e às facilidades criadas pelo comércio marítimo se desenvolvem mais forte e rapidamente. Simples assim! 

À frente desse empreendimento estava a figura de Teófilo Benedito Ottoni (1807-1869), um jornalista, comerciante, político e empresário de destaque dos tempos do Brasil Império. Ottoni nasceu em Serro, cidade localizada na Serra do Espinhaço e que naqueles tempos era chamada de Vila do Príncipe. A cidade nasceu em função do ciclo da mineração do ouro no século XVIII e, só para lembrar, as nascentes do rio Jequitinhonha ficam nesse município. 

Ainda bem jovem, o já republicano Teófilo Ottoni começou a escrever para um periódico oposicionista ao Império – A Sentinela de Serro, onde depois passou a ser o redator chefe. Em 1842, Teófilo Ottoni foi um dos líderes da Revolta Liberal em Minas Gerais. Essa Revolta, que se espalhou por diversas Províncias do país, foi organizada pelo Partido Liberal e contestava a ascensão do Partido Conservador ao poder.  

O Governo Imperial nomeou o militar Luís Alves de Lima e Silva, há época o Barão de Caxias, para reprimir a Revolta em Minas Gerais. Teófilo Ottoni e outros líderes do movimento acabaram presos e processados. Os rebeldes foram beneficiados por uma anistia geral decretada pelo Imperador Dom Pedro II. Ottoni acabou se envolvendo na política como um militante republicano, sendo eleito deputado provincial, deputado geral e senador do Império entre 1864 e 1869. 

Nosso ponto de maior interesse na vida de Teófilo Ottoni se deu entre 1850 e 1860, quando esteve à frente da sua Companhia de Navegação. O grande trunfo de Teófilo Ottoni foi o de ter conseguido uma aproximação razoavelmente pacífica com os índios da região, obtendo deles a “autorização” para construir estradas, navegar nas águas do rio Mucuri, instalar fazendas e também fundar a Freguesia de Filadélfia, embrião da cidade de Teófilo Ottoni. 

Teófilo Ottoni organizou uma expedição em 1847, que saiu da cidade de Mucuri no litoral baiano na direção dos sertões de Minas Gerais. Consta que à certa altura do percurso, os expedicionários foram recebidos aos gritos pelos índios do cacique Poton dos botocudos. A fala dos índios – “Pogirum! Pogirum! Jak-jemenuk, jak-jemenuk!”, que foi traduzida por um guia como algo como “homens brancos, já não somos matadores”, foi um claro sinal de busca de paz. 

Àquela altura, já fazia quase trinta anos que uma Carta Régia de Dom João VI havia sido publicada, declarando “estado de guerra” contra os botocudos. Depois de tantos anos de massacres, esse povo já estava complemente exaurido e sem condições de continuar a combater os colonizadores “brancos”. Além disso, os indígenas enfrentavam inúmeros confrontos com outros grupos de botocudos – o cacique Poton e seus guerreiros lutavam há muito tempo contra o grupo do cacique Giporok

Uma vez firmado esse pacto de paz (que ainda não seria pleno), a Companhia de Navegação pode começar a funcionar efetivamente. Um dos primeiros trabalhos executados foi o mapeamento do curso e a avaliação da profundidade do rio Mucuri por engenheiros contratados. Nos trechos onde o rio não era navegável, foram abertas estradas para o transporte de pessoas e mercadorias por via terrestre. A primeira embarcação a navegar pelo até então desconhecido rio Mucuri foi o vapor Peruípe em 1852. A companhia operaria outras duas embarcações e funcionaria até 1918. A rota das embarcações ligava a cidade de Mucuri até o porto fluvial de Santa Clara, próximo da cidade de Nanuque, já em Minas Gerais.

Ao longo dos anos seguintes, as densas florestas das margens do rio passaram a dar lugar a áreas de plantio, pastagens para animais, vilas e cidades. Aos primeiros expedicionários que desbravaram essas terras vieram se juntar outros personagens: soldados, populações livres, pretos escravizados, religiosos, fazendeiros, funcionários dos Governos e naturalistas estrangeiros, entre muitos outros. Depois desses brasileiros, também começaram a chegar estrangeiros de todos os cantos do mundo: alemães, belgas, franceses, suíços, austríacos, russos, holandeses e até chineses. 

O calor e a umidade intensa, os mosquitos, as doenças tropicais e as “febres”, os ataques de infinitos insetos e dos “bichos-de-pé”, a abundância de morcegos hematófagos, entre outras dificuldades da floresta tropical, pouco a pouco foram minando os antigos sonhos de Teófilo Ottoni de construir ali uma espécie de paraíso dos trópicos. Muitos dos recém chegados ao vale do rio Mucuri acabaram desistindo da empreitada e foram buscar alternativas de vida em outros locais do país. Os caminhos do rio Mucuri, entretanto, já estavam abertos e a vida seguiu. 

A exloração das abundantes madeiras nobres nas matas da região – jacarandás, jequitibás, cedros, vinháticos, ipês, perobas e pau-brasil, rapidamente se transformou na base da economia local. Dentro de poucas décadas, a cidade de Teófilo Ottoni se transformaria num dos mais importantes polos moveleiros de Minas Gerais. A exploração madeireira ao longo de todo o vale do rio Mucuri ganharia um forte impulso a partir de 1882, quando começaram as operações da Estrada de Ferro Bahia Minas e o porto de Caravelas foi transformado em um grande exportador de madeiras, especialmente de dormentes para outras ferrovias. 

Essa ligação férrea, que foi um dos grandes sonhos acalantados em vida por Teófilo Ottoni, chegaria a “sua” cidade em 1898. O tão almejado desenvolvimento econômico, infelizmente, foi limitado – os “fabulosos”, mas não infinitos, recursos florestais da região começaram a se esgotar na década de 1920. 

Continuamos na próxima postagem. 

VALE DO RIO MUCURI: O TERRITÓRIO DOS TEMIDOS ÍNDIOS BOTOCUDOS

A cerca de 60 km ao Norte da foz do rio São Mateus (ou Cricaré) encontramos a foz de um outro rio importante dessa região Leste do Brasil – o rio Mucuri. Totalmente inserido dentro do bioma Mata Atlântica, o rio Mucuri sofre atualmente com as grandes plantações de eucalipto e com a poluição gerada por grandes fábricas produtoras de papel e celulose, problemas que vem causando grandes embates com as populações tradicionais e pescadores. 

Entretanto, diferente da história ambiental dos rios Jequitinhonha e São Mateus, que têm como origem dos seus problemas os grandes desmatamentos e queimadas feitas para a criação de áreas de pastagens para o gado na região de suas nascentes entre os biomas Mata Atlântica e Caatinga, o rio Mucuri foi vítima, principalmente, da intensa exploração madeireira. Essa exploração teve início na segunda metade do século XIX, porém, sofreu um forte incremento a partir de meados do século XX. 

O rio Mucuri, ou “rio das raposas” na língua dos indígenas que habitavam a região, tem cerca de 320 km de extensão. Sua nascente principal, o rio Mucuri do Norte, fica em Ladainha, no Nordeste de Minas Gerais. O curso principal do rio recebe as águas do rio Mucuri do Sul, um afluente com nascentes em Malacacheta, também em Minas Gerais. O rio segue no sentido Leste, acompanhando a linha de divisa entre os Estados da Bahia e do Espírito Santo até desaguar no Oceano Atlântico em Mucuri, a cidade mais meridional do território baiano. 

Até meados do século XIX, as densas florestas de Mata Atlântica da bacia hidrográfica do rio Mucuri estavam praticamente intocadas. A razão disso era muito simples – a região estava “infestada” de botocudos, o temível povo indígena que dominava um extenso território entre o Sul da Bahia, o Norte do Espírito Santo e uma área entre o Nordeste e Leste de Minas Gerais.  

Devido aos intensos embates com colonizadores e forças militares ao longo dos séculos, diversas tribos de botocudos fugiram da faixa costeira e passaram a buscar refúgio nas matas ao longo das margens do rio Mucuri. E com esses temidos índios nessa região, os “brancos” procuravam ficar o mais longe possível desse rio. 

Os primeiros embates entre os índios botocudos e os colonizadores “brancos” (uso aspas aqui por que, além de brancos europeus, esse grupo incluía os pretos escravizados trazidos da África e os indígenas aculturados) remetem às tentativas de formação das Capitânias de Ilhéus e de Porto Seguro, no Sul da Bahia, em meados do século XVI. Os índios atacavam os vilarejos, igrejas e engenhos, matando colonos e incendiando as construções. Esses projetos coloniais foram abandonados pelos Donatários. 

Nasceu aqui o estigma do selvagem violento, primitivo e sanguinário, que além matar, desmembrava e comia suas vítimas em rituais antropofágicos. Essa imagem veio ao encontro de “estudos científicos” de vários filósofos europeus há época, que buscavam encontrar o limite entre os macacos e os humanos. Em fins do século XVIII, Cornelius de Pauw, um filósofo e geógrafo holandês, associou o canibalismo de indígenas americanos como os botucudos a um “fenômeno gerado pela fome e miséria de seres de natureza aviltada e degradada, mais próximos das feras que do homem.” 

Há mesma época, o antropólogo, naturalista e fisiologista alemão Johann Friedrich Blumenbach analisou o antigo crânio de um botocudo, que havia sido levado para a Europa por uma expedição científica anos antes, e afirmou se tratar de uma espécie de “elo perdido” entre os orangotangos e os seres humanos. Essas “supostas” características animalescas dos botocudos foram usadas, durante muito tempo, como uma espécie de justificativa moral para o seu extermínio pelos colonizadores “brancos”. 

Aqui é importante lembrar que o imaginário do europeu há época já estava repleto de imagens sobre os índios canibais das Américas. Cito o caso de Hans Staden, um aventureiro e mercenário alemão do século XVI, que acabou prisioneiro dos índios tupinambás por nove meses, quando presenciou diversos “banquetes” antropofágicos. Ao retornar à Alemanha, Staden publicou em 1557 um livro relatando as suas “aventuras” entre os índios – História Verdadeira e Descrição de uma Terra de Selvagens, Nus e Cruéis Comedores de Seres Humanos, Situada no Novo Mundo da América, Desconhecida antes e depois de Jesus Cristo nas Terras de Hessen até os Dois Últimos Anos, Visto que Hans Staden, de Homberg, em Hessen, a Conheceu por Experiência Própria e agora a Traz a Público com essa Impressão. Apesar do título gigantesco, a obra foi um grande sucesso de venda.

A matança dos botocudos ganharia caráter oficial em 1808, quando uma das primeiras Cartas Régias editadas por Dom João VI logo após chegar ao Brasil estabelecia o “estado de guerra” contra esses índios. O governante, que provavelmente já conhecia muitas histórias sobre o canibalismo desses índios, ouviu inúmeras queixas de moradores de localidades ao longo do rio Doce. As descrições falavam dos horrores dos ataques, “ora assassinando os Portugueses, e os índios mansos por meios de feridas, de que sorvem depois o sangue, ora dilacerando os corpos e comendo os seus tristes restos“. 

Além de autorizar explicitamente o genocídio desses índios pelas tropas militares, a Carta Régia estabelecia bonificações aos comandantes das guarnições, que receberiam soldos extras em função da quantidade de índios mortos e/ou capturados. Como uma consequência direta dessa “legislação” Imperial, surgiu a figura do bugreiro, profissional da “iniciativa privada” que recebia um pagamento para cada índio abatido. A comprovação do trabalho executado poderia ser feita, por exemplo, mediante a apresentação das sui generis orelhas (conservadas em sal) dos botocudos mortos. 

As primeiras descrições científicas do rio Mucuri por naturalistas europeus começaram a ser feitas em 1815. O primeiro deles foi Maximilian Alexander Philipp zu Wied-Neuwied, um príncipe alemão que passou dois anos no Brasil entre 1815 e 1817. Ele explorou o Vale do rio Doce em 1816 e entrou em matas próximas ao rio Mucuri. Cerca de um ano depois, foi a vez do botânico francês Auguste de Saint-Hilarie explorar as bordas das matas na região das nascentes do rio Mucuri. Nenhum desses dois naturalistas, provavelmente impactados pelas histórias do canibalismo dos botocudos, ousou entrar mais fundo nas matas dessa região. 

Mesmo sem explorar o território desses índios, Saint-Hilarie deixou extensos relatos sobre os botocudos. Eles foram descritos como “nus, desfigurados, lambuzados de tintas, cílios arrancados, o lábio inferior tal qual uma pequena mesa de três polegadas de diâmetro, orelhas horrendas”. Segundo seus relatos, sabemos que os botocudos viviam em aldeias com população entre 50 e 100 indivíduos. As diferentes tribos falavam a mesma língua, sem constituir uma unidade política. Saint-Hilarie ainda ressalta o aspecto bárbaro da linguagem dos índios: devido ao uso do adereço de madeira no lábio inferior, a fala era áspera, com muitos tons nasais e guturais, produzindo “estrondos de voz que surpreendem quando a eles não se está acostumado“. 

O médico e explorador alemão Robert Christian Barthold Avé-Lallemant, que realizou diversas expedições pelo interior do Brasil com apoio direto do Imperador Dom Pedro II, foi ainda mais longe na descrição dos botocudos. Segundo ele, esses índios eram “simples barrigas, gente cujo organismo, cuja estrutura existe apenas em função do ventre“. Por fim, Avé-Lallemant afirmou estar “chocado com a brilhante descoberta da existência de macacos de duas mãos”. 

Finalizando esse conjunto de registros “científicos” sobre os botucudos, temos o relato de Georg Wilhelm Freyreiss,  um naturalista alemão que acompanhou o Príncipe Maximilian em sua expedição através do rio Doce. Segundo Freyreiss, “o rude selvagem botocudo, habitante aborígene destas paragens, é mais formidável que todas as feras e o terror destas matas impenetráveis“. Em sua opinião, os botocudos, com seu aspecto monstruoso e repugnante, estariam “no limite do humano”. 

A história ambiental do rio Mucuri começaria a mudar em 1847, quando foi criada a Companhia de Navegação e Comércio do Mucuri. Essa empresa passaria a explorar as rotas nos trechos navegáveis do rio e construiria estradas paralelas aos trechos não navegáveis, o que viabilizaria a exploração madeireira e a colonização da região. À frente dessa empresa estava Teófilo Ottoni. 

Trataremos disso na próxima postagem. 

OS MUITOS MALES QUE RECAEM SOBRE O RIO SÃO MATEUS (OU CRICARÉ) NO NORTE DO ESPÍRITO SANTO

Pero de Magalhães Gândavo foi um intelectual de destaque há sua época. Era professor de latim e de português no Norte de Portugal e depois trabalhou como secretário na Torre do Tombo, o Arquivo Geral do Reino de Portugal. Entre cerca de 1558 e 1572 esteve no Brasil, onde trabalhou na Secretaria da Fazenda do Governo Geral da Capitânia em Salvador. 

Em 1576, já tendo retornado para Portugal, Gândavo publicou um dos primeiros relatos detalhados sobre o Brasil – A História da Província de Santa Cruz, a que vulgarmente chamamos Brasil. Esse texto, que você poderá achar facilmente na internet, é uma fonte preciosa de informações sobre os primeiros tempos da colonização do nosso país. Ali existem informações sobre os engenhos de açúcar e as plantações de cana, os primeiros colonos, os indígenas e também sobre a terra. 

Um registro importante sobre a então Capitânia do Espírito Santo informava que possuía “um engenho, tira-se dele o melhor açúcar que há em todo o Brasil“. Infelizmente, a Capitânia também tinha uma enorme área do seu território controlada pelos temíveis índios botocudos. Pero Gândavo, é claro, registrou suas impressões sobre esse povo: 

Chamam-se Aymorés, a língua deles é diferente dos outros índios, ninguém os entende, são eles tão altos e tão largos de corpo que quase parecem gigantes; são muito altos, não parecem com outros índios da Terra.” 

Os botocudos ocupavam um extenso território que englobava todo o Sul da Bahia, o Norte do Espírito Santo e uma faixa entre o Nordeste e o Leste de Minas Gerais. As Capitânias de Ilhéus e de Porto Seguro na Bahia não conseguiram prosperar devido aos furiosos ataques desses índios e foram abandonadas. No Espírito Santo, os ataques foram concentrados na Vila do Espírito Santo, um assentamento criado em 1535. Depois de anos sob ataque dos índios, os colonos mudaram para a Ilha de Santo Antônio, onde fundaram a Vila Nova do Espírito Santo, atual cidade de Vitória. O antigo assentamento passou a ser conhecido como Vila Velha. 

Entre os inúmeros embates entre colonizadores e indígenas no Espírito Santo destaca-se um grande cerco à Ilha de Santo Antônio por diversas tribos em 1557. Em socorro aos locais, o Governador Geral, Mem de Sá, enviou uma grande esquadra com forças militares sob o comando de seu filho, Fernão de Sá. Após derrotar esses indígenas, a esquadra seguiu para o Norte da Capitânia, onde o grosso das forças dos indígenas estava concentrada numa aldeia fortificada às margens do rio Cricaré, conhecido atualmente como rio São Mateus, e em meio a densa floresta da Mata Atlântica

As naus da esquadra entraram pela foz do rio e bombardearam a aldeia com seus canhões. No dia 22 de maio de 1558, após uma sangrenta batalha com pesadas baixas lusitanas e onde o próprio comandante Fernão de Sá foi morto, as forças portuguesas conseguiram vencer. Como lembrança desse grande feito, a Vila Nova do Espírito Santo passaria a ser conhecida como Vitória. Muitos outros embates com esses indígenas ainda se desenrolariam ao longo dos séculos seguintes. 

Os últimos focos de resistência dos botocudos seriam “pacificados” no final do século XIX. A densa vegetação de Mata Atlântica do Norte do Espírito Santo ainda resistiria até meados do século XX, quando foi transformada em fonte de madeira para a construção da cidade de Brasília. Já o caudaloso e imponente rio São Mateus de outrora, que permitia inclusive a entrada de grandes naus no seu baixo curso, hoje é uma pálida sombra do passado e sofre com a poluição, com o forte assoreamento e com a redução dos seus caudais. 

As nascentes do rio São Mateus ficam dentro dos domínios do Semiárido do Norte de Minas Gerais, mais precisamente no município de São Félix de Minas. De lá, o rio faz um percurso bastante sinuoso com aproximadamente 180 km até se encontrar com seu maior afluente, o rio Mariricu, já bem próximo de sua foz no Oceano Atlântico no Norte do Espírito Santo. O nome indígena do rio – cricaré, significa “preguiçoso” e ainda é muito utilizado pelas populações locais. 

Assim como aconteceu com outros rios da região do Semiárido Mineiro, como foi o caso do rio Jequitinhonha, o trecho inicial do rio São Mateus sofreu intensamente com os desmatamentos e a queima de vegetação para a formação de áreas de pastagens para a criação do gado e de campos agrícolas. Esse processo de ocupação territorial, chamado comumente de “colonização baiana”, foi bastante intenso entre as décadas de 1890 e 1930, resultando em enormes danos ambientais aos trechos locais dos biomas Caatinga e Mata Atlântica, e, consequentemente, aos corpos d’água da região. 

Os graves problemas na região das nascentes do rio São Mateus foram ampliados com o processo de devastação das áreas de Mata Atlântica no seu médio e baixo curso. Inúmeras pequenas nascentes e riachos que contribuíam para a formação dos caudais do rio foram desaparecendo junto com as matas. O golpe final veio com a substituição das florestas por áreas de pastagens e por campos agrícolas. A calha do rio São Mateus passou a sofrer intensamente com o carreamento de grandes volumes de sedimentos gerados por processos de erosão de solos agrícolas. O crescimento das cidades resultou no despejo de grandes volumes de esgotos in natura.

A situação do rio São Mateus e das populações que dependem das suas águas para o abastecimento é desesperadora, principalmente nos períodos da seca, quando os caudais diminuem dramaticamente. Com a redução da correnteza do rio, as águas do Oceano Atlântico invadem a calha do rio, transformando grande parte do seu baixo curso num rio de águas salobras. A cidade de São Mateus, que tem aproximadamente 130 mil habitantes e que capta águas do rio para o seu abastecimento, é uma das que mais sofrem com o problema

Essa intrusão de água do mar na calha de um rio, também conhecida como “língua salina”, é um problema que está afetando a região de foz de muitos rios brasileiros a exemplo do rio São Francisco. Além de comprometer a qualidade das águas dos rios, essa salinidade também pode infiltrar nos solos e atingir as reservas subterrâneas de água, um temor que assombra a população de São Mateus. 

Depois de sucessivas secas e dificuldades para o abastecimento da população, o SAAE – Serviço Autônomo de Águas e Esgotos, do município de São Mateus passou a perfurar poços artesianos para garantir a captação das águas usadas no abastecimento da população. Nesses últimos meses, o SAAE tem captado águas exclusivamente nesses poços e a população está reclamando muito da pouca quantidade e da baixa qualidade da água servida, que está muito barrenta. 

Devido à redução da vazão por causa da forte seca em suas nascentes, o nível de salinidade no baixo curso do rio São Mateus atingiu a impressionante marca de 600 ppm (partes por milhão) – o nível máximo recomendado pela OMS – Organização Mundial da Saúde, é de 250 ppm. Em muitos bairros da cidade, o abastecimento da população está sendo feito com caminhões-pipa. 

A recente campanha eleitoral que elegeu o novo prefeito da cidade foi marcada por inúmeras promessas de solução definitiva desse grave problema. Terminado o pleito, o agora prefeito reeleito terá a dura missão de transformar as promessas de campanha em uma realidade, algo que não será nada fácil. A pressão popular será enorme. 

Desgraçadamente, esse é um drama mundial que só tende a piorar ao longo dos próximos anos. Devido aos efeitos do aquecimento global e das mudanças climáticas, o nível dos oceanos tende a aumentar gradativamente. Falamos aqui de alguns poucos centímetros nas próximas décadas, mas para rios que já sofrem com o avanço das águas do mar, como é o caso do rio São Mateus, isso é muito mais problemático. 

Entre as medidas que poderão ser tomadas para ajudar a resolver parte desse problema, podemos citar o reflorestamento e a recuperação de áreas de nascentes. Essas medidas, que só terão efetividade a médio e longo prazo, permitirão que as águas das chuvas infiltrem com mais facilidade nos solos, recarregando os lençóis subterrâneos de água e os aquíferos, aumentando assim os volumes de água que brotam nas nascentes e alimentam o rio. 

Também será preciso gerir melhor os campos agrícolas e as áreas de pastagem, eliminando processos erosivos – a recuperação das matas ciliares é uma ótima alternativa. Por fim e não menos importante, os investimentos em saneamento básico e tratamento dos esgotos das cidades não poderão ficar de fora. 

Se nada disso for feito, é melhor as populações de São Mateus e de outras cidades da região irem logo se acostumando a tomar “café salgado” – o que já está mal poderá ficar ainda pior. 

SURUBIM DO RIO JEQUITINHONHA: UMA ESPÉCIE CRITICAMENTE AMEAÇADA

Ictiofauna, em ecologia e em ciências da pesca, é o conjunto de espécies de peixes, dos menores aos maiores, que existem numa determinada região biogeográfica. Falamos aqui de um trecho de um mar, de um lago ou de um rio ou trecho de rio. A análise dos dados populacionais e a distribuição dessas espécies são ótimos bioindicadores da qualidade ambiental das águas. 

O surubim do Jequitinhonha (Steindachneridion amblyurum) é uma das maiores e mais emblemáticas espécies de peixe da bacia hidrográfica do rio e uma das mais ameaçadas. A carne do peixe é muito saborosa e apreciada pelas populações ribeirinhas, qualidades que transformaram a espécie numa das mais valorizadas para os pescadores. Muitas comunidades ribeirinhas viveram por muito tempo da pesca do surubim.

Porém, está ficando cada vez mais difícil encontrar um exemplar do peixe nas águas do rio. A superexploração da espécie e a degradação das águas estão na raiz do desaparecimento do surubim do Jequitinhonha – o mesmo problema vivido pelos famosos surubins do rio São Francisco, e também de outras espécies do rio. 

A foto que ilustra essa postagem veio do Programa Peixe Vivo da CEMIG – Companhia Energética de Minas Gerais, uma das muitas iniciativas para a recuperação da ictiofauna do rio Jequitinhonha e dos seus afluentes. E um detalhe: o surubim fotografado é bem jovem e ainda vai crescer bastante.

As primeiras observações científicas registradas sobre a ictiofauna do rio Jequitinhonha e dos seus afluentes foram feitas por Johann Baptist Emanuel Pohl, mineralogista e botânico austríaco, e pelo botânico francês Augustin François César Prouvençal de Saint-Hilaire

Pohl chegou ao Brasil em 1817 junto com a Missão Austríaca ao Brasil, mas acabou se desligando do grupo e fez uma expedição de quatro anos por conta própria pelas províncias do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Goiás. Saint-Hilarie participou de diversas expedições científicas no Brasil Colônia entre 1816 e 1822. 

Entre as principais observações desses cientistas destaca-se o uso generalizado e abusivo do pãri, uma técnica de pesca usada por povos de todo o mundo e conhecida pelos indígenas de todas as Américas. Paredes de pedra são construídas em trechos do rio de modo a afunilar as águas – os peixes acabam sendo conduzidos para armadilhas feitas com madeiras ou taquaras.

Essa técnica tem o inconveniente de capturar os peixes sem qualquer critério de tamanho ou espécie, destacando-se aqui as fêmeas em período de desova e reprodução. Saint-Hilarie já previa que o uso constante do pãri seria fatal para o futuro de muitas espécies de peixes do rio Jequitinhonha: 

este gênero de armadilha (…) certamente seria proibido em um país em que fosse possível exercer alguma fiscalização.” 

José de Cortés Duarte, um escritor pernambucano que viveu por muitos anos em Minas Gerais e que nos legou diversos livros com narrativas regionais, observou em 1920 a já desastrosa situação da ictiofauna do rio Jequitinhonha: 

“Na pesca, o crime [de destruição da natureza] ainda foi maior, a imprevidência mais revoltante: matando surubins na desova, deixando mais da metade da pescaria desumana aos urubus – por falta de sal, como se desculpavam – os pescadores do Jequitinhonha conseguiram, em quarenta anos, extinguir a espécie, revelando-se mais bárbaros, imprevidentes e muito mais perniciosos aos vindouros do que os selvagens que limitam suas pescarias às próprias necessidades.” 

Passados mais de 200 anos desde as primeiras observações registradas por Pohl e Saint-Hilarie, ainda existem inúmeras dúvidas e falta de conhecimentos sobre a ictiofauna do rio Jequitinhonha, a começar pela quantidade de espécies. Existem três listas de espécies da bacia hidrográfica: a primeira, feita em 1999, encontrou 42 espécies, sendo que 14 ainda não haviam sido descritas.  

Em 2005, um outro estudo encontrou 50 espécies, sendo que 5 ainda não estavam descritas. A lista mais atualizada possui 53 espécies, sendo que 11 espécies, como o robalo e o xaréu, são marinhas e migram para o rio Jequitinhonha em algumas épocas do ano em busca de alimentos. Além do surubim do Jequinhonha, merecem destaque a piaba (Nematocharax venustus), o bagre (Rhandia jequitinhonha) e a piabanha (Brycon devillei) – todas ameaçadas de extinção.  

Com relação a essa última espécie, existem dúvidas quanto a sua relação com a piabanha do rio Paraíba do Sul (Brycon insignis) – é possível, inclusive, que seja uma população isolada da mesma espécie de peixe. Isso ilustra a quantidade de dúvidas que ainda pairam sobre a ictiofauna do rio Jequitinhonha e dos seus afluentes. 

Considerando-se o tamanho do rio Jequitinhonha, que têm mais de 1 mil km de extensão e tem uma bacia hidrográfica que abrange uma área de mais de 70 mil km², esse número total de espécies é muito baixo. Um exemplo é o vizinho rio Mucuri, que nasce no Nordeste de Minas Gerais e deságua no Sul da Bahia, que tem apenas 321 km de extensão e apresenta uma quantidade maior de espécies que o rio Jequitinhonha.  

De acordo com as projeções feitas por pesquisadores, onde são comparadas as populações de diversos rios da América do Sul, o rio Jequitinhonha deveria apresentar, pelo menos, 80 espécies endêmicas. Essa projeção levanta duas questões: ou existem 30 espécies de peixes ainda a serem descobertas no rio ou essas espécies já foram extintas por ações humanas

Os estudos sobre a ictiofauna do rio Jequitinhonha ganharam um forte impulso com a construção de barragens para duas usinas hidrelétricas na calha do rio: em 1999 foi concluída a barragem da Usina Hidrelétrica de Itapebi na Bahia e em 2002, a barragem da Usina Hidrelétrica de Irapé, também conhecida como Presidente Juscelino Kubitschek, nos municípios de Grão Mogol e Berilo, em Minas Gerais.

Esses estudos formaram parte importante dos processos de licenciamento ambiental dessas obras. Além de identificar e descrever novas espécies de peixes nativos da bacia hidrográfica, os estudos identificaram 10 espécies invasoras com origens diferentes. No médio rio Jequitinhonha, foram encontradas a pioa (Prochilodus costatus), o trairão (Hoplias lacerdae) e a tilápia (Tilapia sp.).

Além dessas espécies, também foram encontradas no baixo Jequitinhonha uma outra espécie de tilápia (Oreochromis niloticus), o barrigudinho (Poecilia reticulata) e o apaiari (Astronotus ocellatus). Em outros trechos do rio foram encontradas a carpa (Hypophthalmichthys molitrix) e o surubim “ponto e vírgula” (híbrido de Pseudoplatystoma corruscans e Pseudoplatystoma fasciatum).  

Na região da barragem da Hidrelétrica de Irapé foi registrada a pirambeba (Serrasalmus sp.) e o bagre africano (Clarias gariepinus). Em 2002, técnicos da FADETEC – Fundação de Apoio Tecnológico da Escola Agro Técnica Federal de Salinas, encontraram tucunarés (Cichla sp.) numa barragem no rio Salinas. É apenas uma questão de tempo para a fuga e disseminação dessa espécie por toda a calha do rio Jequitinhonha. 

Essas espécies exóticas podem ter chegado à bacia hidrográfica do rio Jequitinhonha a partir da fuga de tanques de criadores e dos chamados pesque-e-pague, por meio de descartes de aquaristas ou ainda podem ter sido introduzidas propositalmente por pescadores. A introdução de espécies exóticas, tanto animais quanto vegetais, pode levar espécies nativas de um bioma à extinção.

Um caso muito conhecido foi a introdução de peixes-mosquito (Gambusia affinis) em rios da Austrália para o controle de populações de mosquitos. Além de comer as pupas dos mosquitos, os peixes também comiam as ovas de peixes nativos, o que colocou inúmeras espécies em risco de extinção. Outro caso que está tendo grande repercussão atualmente é a invasão das carpas asiáticas (Cyprinus carpio) em rios dos Estados Unidos. Aqui no Brasil um grande exemplo é o mexilhão-dourado (Limnoperna fortunei), que está tomando conta das nossas bacias hidrográficas.

Além de todos os problemas criados pela falta de conhecimento e pela introdução de espécies exóticas, a ictiofauna do rio Jequitinhonha também vem sofrendo sérias ameaças pela degradação ambiental da bacia hidrográfica. São desmatamentos, uso inadequado de solos pela agricultura e carreamento de sedimentos por processos erosivos, redução dos caudais, poluição por lançamentos de esgotos e descartes de resíduos sólidos urbanos, carreamentos de resíduos de fertilizantes e pesticidas, construção de barragens, entre outros. 

Recentemente, veterinários da Universidade Federal de Minas Gerais atribuíram a ocorrência de lesões encontradas em peixes capturados no rio Jequitinhonha à má qualidade da água em diversos trechos do rio. Esse problema, que preocupa muitas comunidades ribeirinhas e pescadores profissionais, está ligado ao excesso de matéria orgânica (entenda-se aqui esgotos), a redução do oxigênio dissolvido e a amplitude térmica da água. Estressados, os peixes se ferem em pedras, madeiras e raízes submersas de vegetação, apresentando lesões e feridas por todo o corpo, além de amputação de partes das nadadeiras. 

Parafraseando um antigo ditado popular, o “rio Jequitinhonha não está para os peixes” – nem para as espécies já conhecidas, nem para aquelas ainda a serem descobertas. Sinal que a saúde do rio vai muito mal. 

A CHEGADA DAS BOIADAS E A DEGRADAÇÃO DAS ÁGUAS DO RIO JEQUITINHONHA

O rio Jequitinhonha nasce nos contrafortes da Serra do Espinhaço, conhecida por muitos como a Cordilheira Brasileira, a cerca de 320 km de Belo Horizonte na localidade de Serro. Graças ao terreno acidentado e as dificuldades de acesso, as matas da região permanecem praticamente intocadas. Nos seus primeiros dez quilômetros de curso, o Jequitinhonha é um rio de águas limpas e cristalinas. 

A situação ambiental do rio muda drasticamente ao receber as águas do seu primeiro grande afluente – o Córrego Acabassaco. Esse corpo d’água recebe toda a descarga de esgotos domésticos do povoado de Pedro Lessa e despeja esses efluentes no rio Jequitinhonha, um drama que se repetirá inúmeras vezes em todos os rios da bacia hidrográfica até o encontro das suas águas com o Oceano Atlântico em Belmonte, no Estado da Bahia. 

Pedro Lessa, que é um distrito de Serro, surgiu no século XIX como um quilombo de escravos fugitivos. Conta a tradição oral dos locais que os escravos “fugidos” se embrenhavam nas densas matas da região, onde dispunham de muitas frutas e caça para subsistir – o rio Jequitinhonha provia água limpa e fresca para todos. A derrubada de matas e o avanço da agropecuária mudou completamente as paisagens da região e essa degradação é visível na situação atual do rio. 

Conforme já tratamos em diversas postagens anteriores, a região das Geraes ganhou uma enorme importância nacional nos primeiros anos do século XVIII após as notícias da descoberta de ouro na lendária Serra do Sabarabuçu por bandeirantes paulistas. Em pouco mais de cinquenta anos, cerca de 2/3 da população da colônia abandonaria as terras do litoral açucareiro de então e se embrenharia nos sertões das Geraes para tentar a sorte nos garimpos. 

Esse sonho dourado, que fez a fortuna de poucos e a ruína de muitos, mal conseguiu chegar vivo até o final daquele século – os veios de ouro se esgotaram e a produção caiu drasticamente. Sem a riqueza desse metal e com uma grande população para sustentar, os mineiros rapidamente passaram a se dedicar à outras atividades econômicas como a agricultura e a pecuária. No Vale do Jequitinhonha, os grandes rebanhos bovinos, vindos principalmente da Bahia, começaram a chegar nos últimos anos do século XIX. O auge desse processo, conhecido como “colonização baiana”, se deu entre 1890 e 1930. 

De acordo com registros de cronistas e viajantes do início do século XX, esses rebanhos se estabeleceram em regiões de chapadas e caatingas da margem esquerda do rio Jequitinhonha, em localidades como Santo Antônio das Salinas, atual Salinas, Comercinho do Bruno, atual Comercinho, e Santa Rita, atual Medina. Segundo consta, eram essas as localidades que apresentavam as maiores áreas de campos há época. As boiadas alcançariam as matas do rio Pampã, próximo da divisa com a Bahia, do rio São Mateus, já no Espírito Santo, além do Vale do rio Mucuri, que nasce no Nordeste de Minas Gerais e deságua no Sul da Bahia. 

No extremo Lesta do Vale do Jequitinhonha, onde existiam grandes planícies cobertas por densas matas, os criadores de gado passaram a derrubar e a queimar as matas, criando pastagens artificialmente, prática que já era feita nas áreas locais de caatinga. A pecuária se consolidou em localidades como Fortaleza, atual Pedra Azul, Salto Grande, Jacinto e Palestina, atual Jordânia. Os pecuaristas introduziram o gado zebu nessa região em 1920. 

Derrubar e queimar matas para a criação de pastagens já era uma pratica comum em toda a região do Semiárido Nordestino desde o século XVII. Conforme comentamos em outras postagens, as boiadas e os criadores de gado foram expulsos do litoral açucareiro do Nordeste – os animais invadiam as plantações e comiam os brotos adocicados da cana de açúcar. Após inúmeros conflitos, um Decreto Real proibiu a criação de gado a menos de 60 km da costa. 

As regiões do Agreste e do Semiárido Nordestino não dispunham da mesma abundância vegetal da Zona da Mata, nome dado à faixa de terras cobertas pela Mata Atlântica. Contando com pequenas faixas de campos entre trechos de vegetação arbustiva e os caatingais, essa região não tinha capacidade para sustentar grandes boiadas. Foi então que os criadores iniciaram a pratica das queimadas das árvores e arbustos, aumentando artificialmente as áreas de pastagens. 

Um depoimento importante sobre essa prática nos foi legado por Euclides da Cunha (1866-1909), militar e escritor brasileiro que, em 1897, foi mandado para os sertões da Bahia como jornalista correspondente da Guerra de Canudos.  

“Ainda em meados deste século, no atestar de velhos habitantes das povoações ribeirinhas do São Francisco, os exploradores que em 1830 avançaram, a partir da margem esquerda daquele rio, carregando em vasilhas de couro indispensáveis provisões de água, tinham, na frente, alumiando-lhes a rota, abrindo-lhes a estrada e devastando a terra, o mesmo batedor sinistro, o incêndio. Durante meses seguidos viu-se no poente, entrando pelas noites dentro, o reflexo rubro das queimadas.” 

Essa prática, que pode ter contribuído muito para a amplificação dos efeitos da seca no Semiárido Nordestino, foi introduzida no Norte de Minas Gerais pelos pecuaristas “baianos” e levou a uma enorme devastação de matas nativas, causando enormes problemas ambientais em toda a bacia hidrográfica do rio Jequitinhonha. 

Antes da chegada da pecuária, as terras do Vale do Jequitinhonha eram usadas para fins agrícolas, produzindo milho, algodão, arroz, feijão, fumo, mamona, cana-de-açúcar e batatas. Segundo os relatos deixados pelo naturalista e botânico Auguste de Saint-Hilarie, que fez expedições na região nos últimos anos da década de 1810: 

 “Nessa área o milho rendia duzentos por um, a cana se desenvolvia admiravelmente bem e começava-se a plantar café. O algodão também rendia bastante: o espaço que se semeava com um alqueire de milho, rendia cento e vinte arrobas de algodão, sendo que três e meia arrobas desse algodão bruto davam uma arroba de algodão limpo (descaroçado).” 

Os caboclos locais usavam a técnica do desmate a fogo, conhecido localmente como roça de toco. A mata era derrubada e queimada, e as cinzas ajudavam na fertilização do solo. Essa fertilidade durava poucos anos, quando então eram abandonados e outras áreas eram desmatadas para novos plantios. Com a chegada das grandes boiadas, que eram muito mais lucrativas que essa agricultura itinerante, o volume e a extensão das queimadas aumentou exponencialmente. 

Quando os terrenos degradados eram finalmente abandonados, as únicas plantas que brotavam nos solos ressequidos e calcinados eram ervas daninhas e capins com nomes populares como o “melão de São Caetano”, “mata-pasto”, “amargoso”, “pião roxo” e “rabo de raposa”. Como o gado bovino não aceitava esse tipo de alimento, essas áreas ficavam literalmente imprestáveis.

Esse uso inadequado dos solos e a destruição da cobertura vegetal tiveram reflexos diretos na quantidade e na qualidade das águas da bacia hidrográfica do rio Jequitinhonha. Inúmeras nascentes dos seus rios formadores secaram e tantas outras tiveram reduções substanciais nos volumes de água. 

Os rios também passaram a sofrer com grandes volumes de sedimentos carreados pelas águas das chuvas, com a poluição e com os esgotos gerados por inúmeras cidades, entre outros problemas. Esse somatório de problemas transformou o Vale do Jequitinhonha numa das regiões mais pobres do Brasil. 

Felizmente, essa situação começou a mudar nas últimas décadas. O Vale do Jequitinhonha vem se destacando no plantio de florestas comerciais de eucalipto e na produção de carvão vegetal, um produto altamente valorizado pelas empresas siderúrgicas de Minas Gerais.

De acordo com dados do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, a produção da região em 2015 foi de 1.310.683 toneladas de carvão vegetal. Um dos destaques dessa produção é a microrregião de Salinas, onde encontramos os municípios de São João do Paraíso, Taiobeiras, Rio Pardo de Minas e Indaiabira. 

Além dos ganhos sociais e econômicos, esse reflorestamento está contribuindo para a melhoria das condições ambientais dos rios da bacia hidrográfica do Jequitinhonha. Ainda é pouco diante do grande estrago histórico feito na região, mas já é um ótimo começo. 

O “APAGÃO” DA REDE DE ABASTECIMENTO DE ÁGUA DA REGIÃO METROPOLITANA DO RIO DE JANEIRO

Há muito tempo atrás, quando mal havia completado quinze anos de idade, comecei a frequentar uma escola técnica onde me formaria anos depois como técnico em eletrônica. Lembro bem que eu e muitos dos meus colegas de sala de aula tínhamos uma enorme dificuldade para entender os principais conceitos da eletricidade, uma forma de energia invisível e que era a base do nosso curso. 

Foi então que um dos nossos professores passou a fazer analogias entre redes de canos hidráulicos e de eletricidade. A caixa d’água representava a bateria ou a fonte de força, os canos eram os fios, as torneiras eram potenciômetros e assim por diante. Foi então que, como num passe de mágica, as dúvidas desapareceram e foi bem mais fácil acompanhar as matérias. 

Comecei relembrando essa antiga história por que dois eventos diferentes, em dois Estados brasileiros e ocorridos nesses últimos dias juntou essas duas áreas: um Estado enfrentou problemas ligados à distribuição de energia elétrica e em outro a população está com o abastecimento de água comprometido.

O primeiro problema aconteceu no Amapá, onde um incêndio ainda não totalmente explicado destruiu um transformador de energia de grande porte da principal subestação de energia do Estado. Um componente de uma rede elétrica ou de um circuito eletrônico queimar não é exatamente o fim do mundo – quando um profissional dessas áreas faz o projeto, ele sempre trabalha com uma margem de segurança para evitar “acidentes”. Só que, em situações excepcionais, algo dá errado e surge o problema – é preciso então substituir o componente danificado. 

No caso do transformador do Amapá isso não foi possível – a peça reserva estava danificada já havia bastante tempo e, sem ela, não havia como religar a rede elétrica. Cerca de 800 mil amapaenses ficaram por quase duas semanas no escuro até que uma grande força de trabalho federal, que envolveu civis e militares, conseguiu resolver o problema na última quinta-feira. As responsabilidades ainda serão devidamente apuradas e esperemos que os responsáveis sejam punidos de forma exemplar.

Um problema semelhante está acontecendo nesse exato momento em, pelo menos, 17 bairros da cidade do Rio de Janeiro e em alguns municípios da Baixada Fluminense. Cerca de 1 milhão de pessoas estão com o abastecimento de água em suas residências comprometido – um dos grandes motores elétricos de uma estação de bombeamento queimou e a CEDAE – Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro, aparentemente não tem uma unidade de reserva para fazer a substituição. 

O problema ocorreu na Estação Elevatória do Lameirão, em Senador Vasconcelos na Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro. Com a queima do motor de uma das bombas, a Estação não consegue trabalhar com sua capacidade plena e falta pressão nas tubulações para fazer a água chegar em bairros mais distantes e mais altos. A CEDAE informa que tem feito manobras na rede para compensar essa perda, mas isso não está sendo suficiente para fornecer água para toda a população. 

Como sempre acontece nessas situações, a população está gastando um bom dinheiro para conseguir levar água para casa. Os preços das garrafas de água mineral disparou e há inclusive dificuldade em se encontrar o produto em muitos mercados. No bairro de Benfica, na Zona Norte da cidade, há notícias que o preço da carga de água nos caminhões-pipa saltou de R$ 250,00 para R$ 700,00

De acordo com informações divulgadas pela CEDAE, o problema só estará completamente resolvido dentro de 25 dias. Conhecendo o histórico de maus serviços da empresa, é bem possível que o problema dure muito mais tempo e que cariocas e fluminenses das regiões afetadas corram um sério risco de passar o Natal e o Ano Novo com as torneiras secas

Em tempos de pandemia da Covid-19, de desemprego, da chegada do forte verão e de todos os problemas econômicos, sociais e políticos vividos pelo Estado do Rio de Janeiro atualmente, não poderíamos esperar notícias piores. Quem sabe não seria possível mobilizar uma grande força de trabalho civil e militar como foi feito no Amapá, dando uma força para essas populações e resolvendo essa questão em um prazo menor. 

Fica aqui minha sugestão. 

O SOFRIDO E POUCO LEMBRADO RIO JEQUITINHONHA

Sempre que se ouve falar do Vale do Jequitinhonha, no Norte do Estado de Minas Gerais, a primeira lembrança que vem à mente das pessoas são as péssimas condições de vida e de pobreza de sua população. Apesar de estar inserido dentro da Região Sudeste, o Vale do Jequitinhonha tem características ambientais e sociais do Semiárido Nordestino. 

O coração do Vale é o rio Jequitinhonha, que tem suas nascentes em Serro, uma localidade na Serra do Espinhaço a cerca de 320 km de Belo Horizonte. A partir das encostas montanhosas, o rio segue por um curso de 1.090 km através do Norte de Minas Gerais e Sul da Bahia, até desaguar no Oceano Atlântico no município de Belmonte. 

A bacia hidrográfica do rio Jequitinhonha ocupa uma área de mais de 70 mil km², se espraiando entre os biomas Mata Atlântica e Caatinga. Os primeiros habitantes do Vale do Jequitinhonha foram indígenas das tribos aranãs e tocoiós, entre outros grupos do Tronco Macro-jê. O baixo curso do rio no Sul da Bahia fazia parte do território dos temíveis índios Botocudos

A primeira expedição a penetrar no Vale do então chamado rio das Almas foi comandada por Francisco Bruza Espinosa em 1553, e chegou até aos sopés da Serra do Espinhaço. Uma segunda expedição em 1573, sob o comando de Sebastião Fernandes Tourinho, fez várias prospecções nos rios da região em busca de metais e pedras preciosas.

Em 1729 foram descobertos diamantes em Diamantina e, logo depois, em Grão Mogol. Há mesma época foram feitas descobertas de ouro em Minas Novas. Assim como já havia acontecido na lendária Serra do Sabarabuçu, multidões de aventureiros foram atraídos para a região em busca do sonho da riqueza fácil do garimpo. 

Felizmente, entre essas levas de “caçadores de fortuna fácil” chegaram também alguns artistas, estudiosos e naturalistas, que deixaram registros preciosos do ambiente natural original do Vale do Jequitinhonha. Um importante testemunho foi o deixado por José Joaquim da Rocha, um famoso pintor, dourador e restaurador especializado em arte sacra há época. No seu livro Geografia Histórica da Capitania de Minas Gerais, escrito entre 1780 e 1781, registrou: 

“O Rio Jequitinhonha, que tem o seu nascimento ao norte das serras de Santo Antônio e Itambé da Vila do Príncipe, é o tesouro mais precioso destas Minas; não só o Jequitinhonha, mas todos os mais rios e ribeiros que nele se metem, desde o seu nascimento” 

Outra figura ilustre que fez registros importantes das paisagens da região foi Johann Baptist Emanuel Pohl, integrante da Missão austríaca ao Brasil entre 1817 e 1822. Especialista em mineralogia e botânica, o austríaco Pohl acabou se desligando da Missão e empreendeu uma expedição por conta própria ao longo de quatro anos pelas províncias do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Goiás. As impressões e descobertas dessa expedição foram publicadas no livro Viagem ao Interior do Brasil Empreendida nos Anos de 1817 a 1821

As descrições do Vale do Jequitinhonha deixadas por Pohl falam das extensas chapadas que dominavam o cenário da região e também das inúmeras grotas de onde brotavam pequenos cursos d’água e se formavam pequenos vales. “Nas suas margens, matas úmidas e fechadas, chamadas capões, com árvores altas, produziam sombras e temperaturas amenas.” 

Já as regiões dos morros e das chapadas eram cobertas por uma floresta de árvores anãs conhecidas como carrasqueiros, e também por vegetação arbustiva e por capinzais. No período da seca, os solos ficavam esturricados e as folhas da vegetação caíam quase que completamente. O botânico francês Augustin François César Prouvençal de Saint-Hilaire, que participou de expedições científicas no Brasil Colônia entre os anos de 1816 e 1822, atravessou o Vale do Jequitinhonha durante o período da seca em 1817 e deixou relatos semelhantes. Saint-Hilarie ressaltou que “viu poucas flores, aves e mesmo insetos, em razão da seca”. 

Os relatos desses dois cientistas também nos legaram muitas informações sobre a fauna local. Nas florestas de matas virgens perambulavam grandes manadas de veados, além de bandos de macacos, antas, capivaras, porcos-do-mato, tartarugas, lontras e aves como araras, tucanos, papagaios e mutuns. As narrativas dão destaques para as perigosas onças, pretas e pardas, e também para as serpentes como a sucuri, surucucu e cascavel. Pohl ficou impressionado com a jaritacaca, um pequeno mamífero que disparava um odor fétido ao ser atacado por algum homem ou animal. 

As paisagens bucólicas descritas por Pohl e Saint-Hilaire começaram a desaparecer já nas últimas décadas do século XIX devido ao aumento da criação de gado nessa região. Esse surto é chamado por muitos de “colonização baiana” e foi muito forte entre 1890 e 1930. A exemplo do que aconteceu na região do Semiárido Nordestino, onde grandes extensões da caatinga eram queimadas para a formação de campos para a criação do gado, matas das planícies do Vale do Jequitinhonha também passaram a ser derrubadas e queimadas para a abertura de fazendas e de pequenos sítios de produção de culturas subsistência. 

Em um relato de 1905, Leopoldo Pereira, um ex-agente executivo do município de Araçuaí, já alertava para o grande avanço do gado na região. Segundo ele, “os rebanhos bovinos então passaram a usar crescentemente os regatos para dessedentação e substituíram os porcos nos alagadiços da caatinga, bem como nas pequenas lagoas formadas a pouca distância das margens do Jequitinhonha durante as chuvas”. Num trecho mais a frente, Leopoldo Pereira faz um relato dramático da situação dos rios: 

“…que de 40 anos, e mais acentuadamente, de 20 anos a esta parte [1905], as águas do Norte de Minas têm diminuído de mais da metade. É convicção dos velhos residentes neste município que os próprios rios grandes e navegáveis, Jequitinhonha e Araçuaí, já não são volumosos como antigamente. 

…o machado do lavrador e o fogo das queimadas estão esterilizando o Norte de Minas 

As águas do rio Jequitinhonha formavam até então um importante eixo de comunicações e transportes entre o Norte de Minas Gerais e o Sul da Bahia. As populações do Vale em Minas Gerais transportavam sua produção de carne-seca e algodão na direção do litoral baiano, e de lá traziam artigos europeus e sal a preços bem melhores do que os encontrados em grandes cidades mineiras. 

Esse transporte era feito em canoas grandes, com 5 metros de comprimento, 1 metro de largura e 0,7 metro de profundidade. As melhores eram feitas com madeira de ipê, que “duravam muitos anos”. Também se utilizava a madeira da sapucaia, “que se prestavam apenas três ou quatro anos”. Essas canoas contavam com uma tripulação de três pessoas – um piloto e dois proeiros, que faziam o trabalho de remar.

Existem relatos de canoas que eram usadas exclusivamente para o transporte de passageiros. Como parete do serviço, esses passageiros tinham direito a duas refeições ao longo do dia – feijoada tradicional, arroz e peixe pescado à noite. As canoas faziam paradas nas margens para o pernoite nas praias de areia. 

Com o crescimento cada vez maior dos desmatamentos em todo o Vale do Jequitinhonha, os caudais do rio foram ficando cada vez menores, o que passou a inviabilizar a navegação em muitos trechos. E o antigo Vale, rico em biodiversidade, acabou sendo transformado em uma das regiões mais pobres do Brasil. 

Continuamos na próxima postagem. 

OS GRANDES PROBLEMAS AMBIENTAIS DO RIO ITAPEMIRIM NO ESPÍRITO SANTO

De acordo com informações do Atlas dos Ecossistemas do Espírito Santo, edição de 2008, quando a Vila do Espírito Santo, atual cidade de Vila Velha, foi fundada em 1535, cerca de 87% do território capixaba era coberto por florestas de Mata Atlântica. Este quadro se manteve praticamente inalterado até as últimas décadas do século XIX, quando o café chegou ao Espírito Santo e teve início um processo contínuo de desmatamentos.

No final da década de 1950, quando teve início a construção da cidade de Brasília, os desmatamentos ganharam um novo impulso: o Espírito Santo foi transformado no grande fornecedor de madeiras para a construção da nova Capital do Brasil. As densas florestas remanescentes da Mata Atlântica do Norte do Estado começaram a ser derrubadas e transformadas em tábuas, vigas, ripas e placas de madeira, deixando para trás terras desnudas, que passaram a ser ocupadas por pastos, plantações e por florestas comerciais de eucalipto. Nos dias atuais, as estimativas falam de uma cobertura vegetal remanescente de apenas 8%. 

Essa perda maciça de florestas teve reflexos diretos e graves na “saúde” dos rios do Espírito Santo, particularmente no rio Itapemirim, o mais importante do Sul do Estado. Drenando uma área de quase 6 mil km², o rio Itapemirim abrange um total de 17 municípios capixabas com destaque para Alegre, Atílio Vivacqua, Cachoeiro de Itapemirim, Castelo, Conceição do Castelo, Ibitirama, Jerônimo Monteiro, Marataízes, Muniz Freire e Venda Nova do Imigrante. O curso total do rio é de aproximadamente 212 km

Até meados do século XX, o rio Itapemirim apresentava uma profundidade mínima de 3 metros em seu baixo curso, o que permitia a navegação de embarcações grandes desde a sua barra até a cidade de Cachoeiro de Itapemirim. Essa navegação, que durante muito tempo foi feita com embarcações movidas a vapor, transportava mercadorias e pessoas.  

Atualmente, a profundidade média nesse trecho é de apenas 1,5 metro e a calha do rio está cheia de ilhas e bancos de areia. Isso demonstra o mal uso e os fortes processos de erosão de solos, além de indicar uma grande perda de matas nativas, o que tem reflexos diretos na redução dos caudais do rio. Florestas são fundamentais para a recarga dos aquíferos e lençóis subterrâneos que alimentam as nascentes dos rios. 

Nos períodos de chuva, as mesmas causas se mostram em um problema diferente – as fortes enchentes do rio Itapemirim, que provocam todos os tipos de transtornos nas cidades atravessadas pelo rio. Com a redução das matas nas áreas das cabeceiras dos rios formadores da bacia hidrográfica e com a maior parte das terras ocupadas por pastagens e plantações, especialmente de café, a absorção das águas das chuvas pelos solos é pequena e a maior parte dessas águas corre rapidamente para a calha do rio, que sem espaço para absorver grandes volumes em pouco tempo, transborda. 

De acordo com um estudo feito em 2017, aproximadamente 42% das terras onde se localiza a bacia hidrográfica do rio Itapemirim estão ocupadas por pastagens; 16% estão tomadas por plantações e apenas 21% ainda estão cobertas por matas nativas. Cerca de 1% desses terrenos apresentam sinais avançados de desertificação, um problema aliás que poderá crescer muito. 

Em muitos trechos da bacia hidrográfica há uma superexploração das pastagens por rebanhos de animais. São locais onde a camada dos solos é muito fina e com alto teor de areia. Nesses terrenos, onde a carga ideal seria de um animal por hectare, uma situação que permite a recomposição natural das gramíneas em uma velocidade adequada, são encontrados até 5 animais pastando em cada hectare. Essa situação cria um descompasso entre a produção e o consumo de matéria orgânica, dando início ao processo de desertificação, que ocorre quando a camada de solo fértil é substituída por sedimentos inertes. 

Uma boa parte dos problemas ambientais da bacia hidrográfica do rio Itapemirim está ligada diretamente à exploração de rochas ornamentais. O Espírito Santo é o maior produtor de rochas ornamentais do Brasil, abrigando o maior parque de empresas especializadas na extração, corte e beneficiamento dessas rochas, com perto de 2 mil unidades registradas. O Estado produz anualmente cerca de 4 milhões de toneladas de rochas, sendo campeão absoluto na produção de mármore – 75% da produção nacional. Essa importante indústria extrativista mineral é responsável por 10% do PIB –Produto Interno Bruto, do Espírito Santo. 

A bacia hidrográfica do rio Itapemirim responde por parte considerável dessa produção. Nessa região são extraídos cerca de 550 tipos diferentes de rochas, grande parte destinada ao mercado internacional. A cidade de Cachoeiro de Itapemirim concentra 70% das empresas de beneficiamento e acabamento de mármores e granitos da região. 

Os problemas associados à extração das rochas começam com a necessidade de suprimir a vegetação e a camada fértil do solo para se conseguir atingir os veios rochosos do subsolo. Além do aspecto estético, a remoção da cobertura vegetal nessas áreas causa uma série de mudanças na dinâmica de escoamento das águas superficiais, além de prejudicar a infiltração de água nos solos, o que é fundamental para a recarga de reservas subterrâneas. 

Outro grave problema ambiental criado pela atividade é o consumo e contaminação de grandes volumes de água, especialmente nas etapas de corte e polimento das chapas. A água é usada para resfriar as ferramentas – em contato com o pó das pedras, essa água forma uma espécie de lama, que sem os devidos cuidados pode escorrer na direção dos corpos d’água e causar problemas de contaminação. Nas empresas maiores e melhor estruturadas, essa água passa por sistemas de tratamento e de reaproveitamento. A atividade também gera uma quantidade enorme de rejeitos minerais, que nem sempre tem uma destinação correta. 

Somado aos problemas criados pela mineração de rochas ornamentais, pecuária e agricultura, existem ainda os grandes problemas gerados pelas cidades, que vão da falta de tratamento dos esgotos domésticos à geração de resíduos sólidos de todos os tipos. Sem uma destinação final adequada, muitos desses resíduos acabam nas ruas e em terrenos baldios, sendo carreados para as calhas dos rios e, fatalmente, acabarão chegando no rio Itapemirim. Também existem problemas de despejos de efluentes industriais nos rios da bacia hidrográfica. 

Apesar de maltratadas e poluídas, as águas do rio Itapemirim ainda são de muita serventia para agricultores e pecuaristas, que captam essas águas para uso em sistemas de irrigação de plantações e para dessedentação de animais. Essas mesmas águas também são captadas para uso no abastecimento de algumas cidades. Como já afirmei muitas vezes, nós poluímos e destruímos os rios que fornecem as preciosas águas que precisamos usar no nosso dia a dia. 

O rio Itapemirim é mais um triste exemplo de rio da Mata Atlântica que vem sendo destruído pelo avanço da “civilização” (seja lá o que isso signifique) e que está desesperadamente precisando de mais atenção das populações e autoridades. 

A DEGRADAÇÃO AMBIENTAL NA FOZ DO RIO DOCE E AS AMEAÇAS ÀS TONINHAS

O rompimento da Barragem de Fundão e o despejo de mais de 60 milhões de metros cúbicos de lama e rejeitos minerais na calha do rio Doce provocou a maior tragédia ambiental da história do Brasil, tema que tratamos em postagens anteriores. Dezenas de cidades e vilas foram privadas do acesso às águas do rio, um drama que afetou mais de 1 milhão de pessoas. Passados cinco anos, a maior parte dos problemas ainda não foi solucionada e a vida de muita gente continua sem um rumo definido. 

Na postagem de hoje vou mudar um pouco o enfoque da abordagem e tentarei mostrar o problema a partir do Oceano Atlântico. Normalmente, não me atrevo a entrar em assuntos ligados às águas salgadas – se as águas doces já formam todo um mundo a ser explorado, os oceanos são uma verdadeira galáxia. Para não sair falando besteira, prefiro me ater à minha “ignorância”. 

Na imensa maioria dos casos, as águas doces dos rios sempre correm em direção ao mar. Como exceção a essa regra temos as bacias hidrográficas endorreicas, que são sistemas hídricos fechados, sem saída para o mar e onde as águas se “perdem” por evaporação. O grande exemplo que podemos citar é o Mar Morto, uma grande depressão no Oriente Médio que recebe as águas do famoso rio Jordão. 

Como todo bom rio que corre para o mar, o rio Doce nasce nas encostas das Serras da Mantiqueira e do Espinhaço em Minas Geras e depois segue por mais de 850 km por terras mineiras e capixabas até se encontrar com as águas do Oceano Atlântico em Linhares, no litoral do Espírito Santo. Desde tempos imemoriais, essas águas doces carreiam grandes volumes de matéria orgânica e nutrientes que alimentam uma rica biodiversidade em uma área de aproximadamente 120 km² ao redor da foz do rio Doce. 

As criaturas marinhas que melhor se beneficiam desse fluxo contínuo de alimentos na região são as chamadas comunidades bêntonicas ou dos bentos marinhos. São pequenas algas, bactérias, vermes e crustáceos, muitos deles microscópicos, que vivem sobre o leito marinho ou enterradas nos sedimentos até um metro de profundidade. Para que todos tenham ideia do tamanho dessas criaturas – alguns desses seres vivem na incrível densidade de até 5 indivíduos para cada grão de areia. Apesar de muito pequenas, essas criaturas formam a base da cadeia alimentar dessa região. 

Após o rompimento da Barragem de Fundão e com o carreamento de milhões de toneladas de sedimentos na direção da foz do rio Doce, essas comunidades bêntonicas foram, literalmente, soterradas e inúmeras espécies de criaturas marinhas que habitavam esse ecossistema perderam a sua fonte básica de alimentos. As criaturas que conseguiram sobreviver a essa avalanche de sedimentos, como crustáceos e invertebrados maiores, passaram a sofrer com a contaminação por metais pesados. 

Um simpático mamífero marinho que tem uma importante comunidade vivendo na região da foz do rio Doce e que está enfrentando sérias dificuldades é a toninha (Pontoporia blainvillei). As toninhas são uma espécie de cetáceo com parentesco próximo com os golfinhos e os botos. A espécie também é conhecida como franciscana, boto-amarelo, boto-cachimbo, boto-garrafa, manico e golfinho-do-rio-da-Prata. O animal pode atingir um comprimento máximo de 1,8 metro e tem um peso entre 36 e 50 kg. 

As toninhas tem um “bico” longo e fino (vide foto), nadadeiras peitorais curtas e largas, além de uma nadadeira dorsal pequena e triangular. Diferente dos golfinhos e dos botos, que adoram dar saltos e fazer piruetas acrobáticas, as toninhas são tímidas e discretas, subindo à superfície apenas para respirar. Esses animais tem seu habitat numa faixa costeira que vai do Espírito Santo até o rio da Prata, na divisa entre o Uruguai e a Argentina. 

Diferente dos seus primos, cetáceos que habitam as águas do mar aberto, as toninhas preferem as águas costeiras com profundidades entre 30 e 50 metros, uma característica que transformou a espécie numa vítima fácil das redes de pesca. De acordo com informações do Ministério do Meio Ambiente, perto de 1.500 toninhas morrem todos os anos presas em redes de pesca no Brasil. Como a espécie tem uma taxa de reprodução muito baixa – as fêmeas têm apenas um filhote a cada um ou dois anos, ela está classificada como “criticamente em perigo”. É a espécie de cetáceo mais ameaçada do Brasil e, possivelmente, da América do Sul

As toninhas costumam viver em grupos familiares entre 2 e 5 indivíduos e, em muitos casos, vivem solitárias. Sua alimentação é constituída por peixes, crustáceos e, principalmente, camarões, o seu “prato predileto”. É justamente aqui que começam os problemas das ameaçadas populações de toninhas da foz do rio Doce.

Além da brutal redução dos estoques de alimentos criada pela acumulação de sedimentos carreados pelas águas do rio, as espécies sobreviventes apresentam altos níveis de contaminação por metais pesados. Ao se alimentarem dessas espécies menores encontradas nessa região, as toninhas passam a sofrer com a bioacumulação de metais pesados. 

Estudos realizados em corpos de toninhas encontradas mortas em redes de pesca ou em praias têm constatado a presença de elevados níveis de substâncias organocloradas, que têm origem em resíduos de pesticidas e fertilizantes carreados pelas chuvas para as calhas dos rios, além de grandes níveis de metais pesados como mercúrio, zinco, cádmio e cobre.

Isso demonstra como a espécie já é naturalmente sensível a esses poluentes. No caso do rio Doce, onde estudos já demonstraram que os níveis atuais de metais pesados nas águas estão, em alguns casos, até 200 vezes superiores aos níveis observados antes do rompimento da Barragem de Fundão, a situação das toninhas é preocupante

Além da redução dos estoques e da contaminação das suas fontes de alimentos, as toninhas também estão sofrendo com a poluição das águas por resíduos sólidos, principalmente plásticos. As análises do conteúdo estomacal de toninhas mortas têarfm encontrado volumes cada vez maiores de detritos de todos os tipos.

Com a turbidez das águas devido à presença de grandes quantidades de sedimentos em suspensão, as toninhas podem estar confundindo facilmente pedaços de plásticos com peixes e crustáceos, um problema que tem afetado outras espécies da região da foz do rio Doce, em especial as ameaçadas tartarugas-de-couro. 

Como é bem fácil de observar, os problemas criados pelo grande vazamento de rejeitos de mineração e de lama extrapolam os limites geográficos da bacia hidrográfica do rio Doce e invadem os domínios do Oceano Atlântico. O risco de desaparecimento da população de toninhas da região da foz do rio poderá aumentar ainda mais a quantidade de problemas já enfrentados pelos pescadores da região, que já ressentem de uma grande redução dos estoques pesqueiros.  

Sem a presença de um predador de topo da cadeia alimentar, poderá ocorrer a proliferação de populações de outras espécies animais, o que poderá prejudicar ainda mais as comunidades de espécies de grande valor comercial como peixes e camarões. Um exemplo clássico foi o desaparecimento das lontras marinhas da Califórnia e a a redução drástica das populações des peixes numa extensa região décadas atrás.

Os pescadores matavam as lontras a tiros, imaginando assim diminuir a concorrência e aumentando a quantidade de peixes capturados. Porém, aconteceu justamente o contrário – sem as lontras, as populações de ouriços-do-mar cresceram exponencialmente e devoraram as florestas de algas gigantes (kelps) onde os peixes se abrigavam e se reproduziam. Sem as toninhas, algo parecido poderá ocorrer na região da foz do rio Doce. 

E os prejuízos ambientais da região, que já são grandes, poderão ficar gigantescos. Salvem as toninhas!

A CRISE NO ABASTECIMENTO DE ÁGUA CRIADA PELO ROMPIMENTO DA BARRAGEM DE REJEITOS EM MARIANA

A água é um dos recursos naturais mais essenciais à vida. Seus múltiplos usos incluem o abastecimento de populações, agricultura, indústria, geração de energia elétrica, navegação, pesca e aquicultura, turismo e recreação, entre muitos outros usos. Em situações de emergência ou de escassez, porém, os usos prioritários da água passam a ser o consumo humano e a dessedentação de animais. O rompimento da Barragem do Fundão e a contaminação do rio Doce com toneladas de rejeitos de mineração em 2015 colocou todos esses conceitos à prova. 

Com aproximadamente 850 km de extensão, o rio Doce era o mais importante manancial de água do Leste de Minas Gerais e Norte do Espírito Santo até o início do mês de novembro de 2015, quando aconteceu o rompimento da barragem de rejeitos minerais em Mariana. Em menos de uma semana, um trecho da calha do rio com cerca de 600 km foi totalmente tomado pela lama e pelos rejeitos minerais, comprometendo o abastecimento de água em dezenas de cidades e vilarejos, onde vivem cerca de um milhão de pessoas. 

De acordo com diversas fontes de consulta, a bacia hidrográfica do rio Doce possui entre 300 mil e 375 mil nascentes, espalhadas por uma área total de mais de 70 mil km² dentro dos domínios do bioma Mata Atlântica. Todas essas nascentes e pequenos afluentes do rio Doce se transformaram na tábua de salvação para as populações das cidades e vilas que captavam a água para seu abastecimento diretamente na calha do rio Doce e que foram obrigadas a suspender imediatamente esse serviço. 

Nas primeiras semanas após o desastre ambiental, o abastecimento das populações passou a ser feito por centenas de caminhões-pipa contratados pela empresa Samarco, a proprietária e operadora da Barragem de Fundão, e de forma emergencial pelas Prefeituras, Governo do Estado de Minas Gerais e também pelas Forças Armadas Brasileiras. Os custos dessas operações, que também incluíram a distribuição de água mineral para a população (vide foto), passaram a ser bancados depois exclusivamente pela Samarco. 

Passada essa fase inicial de emergência absoluta, cada um dos municípios atingidos passou a procurar alternativas técnicas para a purificação da água captada na calha do rio Doce ou na busca de fontes alternativas de água. Vejam alguns exemplos: 

O município de Barra Longa foi um dos primeiros a sofrer o impacto do vazamento da Barragem de Fundão. O rio Gualaxo do Norte, que corta o município e era a principal fonte de abastecimento da população de 5.200 habitantes, foi o caminho que a onda de rejeitos seguiu até atingir o rio Doce.

Durante os primeiros meses após o acidente, o abastecimento da população foi feito através de caminhões-pipa e pela distribuição de garrafas de água mineral, até que foi possível a conclusão de adutoras emergenciais que passaram a permitir a captação de água em diversos pequenos cursos no município.  

No início de 2020, foi inaugurado um novo sistema de abastecimento de água com dois reservatórios custeados pela Fundação Renova, uma organização sem fins lucrativos criada pela Samarco Mineração com o objetivo de gerenciar e mitigar os danos ambientais e sociais criados pelo vazamento. O caso de Barra Longa é muito parecido com o de outras pequenas cidades e vilarejos nos municípios de Mariana, Naque, Periquito e Resplendor, entre outros. 

Em Resplendor, município com população de 17 mil habitantes e com forte dependência da produção rural, a captação de água passou a ser feita a partir de dois poços de 120 metros de profundidade. Esses poços trabalham de forma interligada com uma estação de bombeamento e com uma adutora que leva a água até a ETA – Estação de Tratamento de Água, do município, que foi reformada e recebeu novos equipamentos. As obras foram realizadas em conjunto pela Fundação Renova e pela COPASA – Companhia de Saneamento de Minas Gerais. 

No município de Governador Valares, o mais populoso do vale do rio Doce, perto de 300 mil habitantes ficaram cerca de uma semana com as torneiras totalmente secas e dependendo exclusivamente dos caminhões-pipa e da distribuição de água mineral. Toda a água utilizada no abastecimento da população era captada no rio Doce

Após algumas adaptações nas cinco estações de tratamento de água, o SAAEE – Serviço Autônomo de Águas e Esgotos, do município passou a usar uma substância coagulante natural produzida a partir da casca da acácia-negra, uma espécie de árvore de origem africana e cultivada no sul do Brasil. Esse polímero natural acelera o processo de decantação da água e permite a separação dos resíduos de lama e rejeitos minerais antes do tratamento. Apesar da desconfiança inicial da população, que se recusava a usar a água distribuída pela empresa, pouco a pouco o abastecimento foi normalizado. 

Uma adutora com 35 km de extensão está em fase de conclusão e passará a conduzir as águas captadas no rio Corrente Grande diretamente para as estações de tratamento da cidade. O investimento total nessas obras é de R$ 155 milhões e a cidade não vai mais precisar captar as águas do rio Doce. 

Em Galileia, município com 10 mil habitantes e que também captava toda a água usada no seu abastecimento no rio Doce, o uso do polímero da acácia-negra também foi a alternativa encontrada pelo SAAEE do município para regularizar o abastecimento. A população da cidade ficou cerca de 35 dias dependendo de caminhões-pipa e da distribuição de água mineral.  

Assim como aconteceu em Governador Valadares, a população também ficou receosa quanto a qualidade da água, mas aos poucos foi aceitando. Em 2019, a cidade inaugurou um reservatório de água com capacidade para armazenar 450 mil litros e passou a utilizar a água de fontes alternativas e de quatro poços artesianos. 

Um caso interessante foi o da cidade de Baixo Guandu, no Espírito Santo. Assim que as primeiras notícias sobre o vazamento da Barragem de Fundão foram divulgadas e ficou evidente que era apenas uma questão de dias até que o abastecimento de água fosse comprometido, a Defesa Civil local iniciou obras para a construção de um sistema emergencial de abastecimento. 

O rio Guandu, um afluente do rio Doce e que não tem qualquer relação com o rio homônimo do Rio de Janeiro, possuía uma barragem com um reservatório de água de uma antiga PCH – Pequena Central Hidrelétrica, desativada há cerca de 40 anos e que foi transformada em manancial de abstecimento da cidade. Trabalhando em mutirão com um grupo de voluntários da cidade, a Defesa Civil conseguiu construir três adutoras emergenciais em apenas 4 dias. Esse sistema passou a permitir o transporte diário de 100 mil litros de água para a estação de tratamento da cidade. Esse sistema foi substituído por adutoras definitivas ao longo dos meses seguintes. 

Uma outra frente de trabalho da Fundação Renova é o Programa de Recuperação de Nascentes, que faz parte de uma longa lista de compensações ambientais acordadas no TAC – Termo de Ajuste de Conduta, assinado pela Samarco Mineração e o Ministério Público do Meio Ambiente de Minas Gerais. Esse Programa prevê a recuperação de 5 mil nascentes de água ao longo de 10 anos. Ao redor dessas nascentes serão plantadas mudas de árvores nativas, que no final do projeto deverão totalizar aproximadamente 40 mil hectares de áreas verdes. 

A presença de vegetação nas áreas de nascentes, principalmente árvores, é fundamental para permitir a infiltração das águas das chuvas nos solos e possibilitar a recarga de lençóis subterrâneos e aquíferos, garantindo assim o volume dos caudais dessas nascentes. Essas mini florestas serão a garantia do abastecimento futuro das populações das cidades da região, que durante muito tempo ainda não poderão dispor do uso das águas do rio Doce.

Finalizando, todas essas ações fazem parte de um dos mais importantes princípios do Direito Ambiental: o poluidor/pagador – qualquer pessoa, empresa ou entidade que provocar prejuízos ao meio ambiente será obrigado a reparar todos os danos. Então, que assim seja!