BRASILEIROS: “UM POVO QUE VEIO DA SELVA”

Na postagem anterior falamos da importação de energia elétrica pelo Brasil e destacamos que os principais “vendedores” são a Argentina e o Uruguai. O Paraguai também vende energia elétrica para o nosso país, porém, falamos aqui da geração excedente da Usina Hidrelétrica de Itaipu

Logo após publicar a postagem, dei uma olhada nos noticiários na internet e fiquei surpreso ao ver a polêmica criada pelo Presidente da Argentina, Alberto Fernández, que fez um verdadeiro “tango do porteño louco” ao falar sobre a origem do povo argentino em um discurso feito de improviso durante a visita do Primeiro-ministro da Espanha – Pedro Sánches, a Buenos Aires. 

De acordo com Fernández, “os mexicanos saíram dos índios, os brasileiros saíram da selva e os argentinos chegaram de barcos vindos da Europa”. Ao que tudo indica, o líder argentino pensava estar repetindo uma frase de Octavio Paz, escritor mexicano e Prêmio Nobel de Literatura, que afirmou que “os mexicanos descendem dos astecas, os peruanos dos incas e os argentinos dos barcos”. A fala, desgraçadamente, acabou soando como racista e xenofóbica.

O “discurso” de Fernández pegou muito mal e teve repercussões muito negativas em todo o mundo. Muitos políticos brasileiros fizeram publicações nas redes sociais condenando a fala do Presidente da Argentina. O presidente Jair Bolsonaro, surpreendentemente, se limitou a publicar uma foto em que aparece rodeado por indígenas da Amazônia com a chamada “Selva”, o grito de guerra dos soldados que servem na região. 

Para os que não conhecem a figura, Alberto Fernández é famoso por suas gafes e falas “non sense”. O personagem lembra muito a nossa ex-Presidente Dilma Roussef, também esquerdista, que falava em “estocar vento”, saudava a mandioca e dizia coisas como “atrás de uma criança sempre vem um cachorro” ou “a gente primeiro estabelece uma meta e depois dobra a meta”. 

Como falamos de meio ambiente e recursos hídricos aqui no blog, resolvi aproveitar o gancho criado pelo Presidente argentino para falar da falta de prioridade de nossos governantes. Como todos têm acompanhado nas nossas postagens mais recentes, estamos passando por uma severa crise hídrica em uma extensa área do Brasil Central, crise essa que impacta diretamente na geração de energia em importantes usinas hidrelétricas. 

A bacia hidrográfica do alto rio Paraná é a mais impactada pela severa seca, que afeta diretamente os Estados de Goiás, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, São Paulo e Paraná. Esse problema não está limitado apenas ao território brasileiro – o Paraná é o rio mais importante da Argentina e o país vizinho está sofrendo com os baixos níveis das águas. A hidrovia do rio Paraná é um dos principais canais para o escoamento da produção agrícola do país e os baixos níveis das águas estão inviabilizando a navegação em muitos trechos. 

Além da forte redução dos caudais que vem do trecho alto da bacia hidrográfica no Brasil Central, o baixo curso do rio Paraná também está sofrendo com a redução dos volumes de água vindos do rio Paraguai, o maior tributário desse trecho. As cabeceiras dos rios formadores do Paraguai, tanto no Brasil quanto na Bolívia, também estão recebendo chuvas bem abaixo da média, o que se reflete em baixos volumes de água na calha do rio. 

É aqui que chego ao cerne da questão – com tantos problemas envolvendo as importantes bacias hidrográficas dos rios Paraná e Paraguai, será que não seria mais útil aos nossos Digníssimos Senhores Presidentes deixar de perder tempo falando bobagens e partir para a discussão de questões sérias na área da preservação ambiental

A crise hídrica que nossos países estão vivendo tem sim um profundo peso de chuvas abaixo da média em extensas regiões do Brasil, da Bolívia, do Paraguai e da própria Argentina. Porém, não há como esquecer que parte dos problemas estão sendo criados pelo avanço da agricultura e da pecuária em áreas do Cerrado, dos Pampas e do Pantanal Mato-grossense, além de áreas do Gran Chaco, uma grande extensão de terrenos alagadiços entre a Bolívia, a Argentina e o Paraguai. 

Aqui é importante lembrar que os biomas não respeitam as fronteiras entre países. O Cerrado, por exemplo, avança na direção do Paraguai e de um pequeno trecho da Bolívia. Os Pampas cobrem uma grande parte do Rio Grande do Sul e avançam pelo Uruguai e pela Argentina. As agressões ambientais que esses ecossistemas sofrem e também as consequências são “multinacionais” 

A vegetação nativa desses diferentes ecossistemas tem extrema importância no auxílio da infiltração da água das chuvas nos solos e recarga dos depósitos subterrâneos de água e aquíferos, fontes que alimentam os rios nos períodos de seca. Um exemplo que sempre cito aqui nas postagens é a vegetação nativa do Cerrado, caracterizada pela presença de raízes muito profundas.  

Quando essa vegetação é substituída por campos de soja, de milho ou pastagens para animais, plantas que tem sistemas de raízes muito pequenos, as quantidades de água das chuvas que conseguem infiltrar nos solos caem drasticamente. E, como consequência direta, resultam em uma redução brutal nos volumes de água nas nascentes dos rios. 

Um grande exemplo da importância da conservação ambiental é a região do Cerrado brasileiro, que é chamada por muitos especialistas de “Berço das Águas”, e que possui grandes e importantes aquíferos: o Bambuí e o Urucuia, além de abrigar uma parte importante do aquífero Guarani.   

O aquífero Bambuí se divide entre áreas do Cerrado e do Semiárido, tendo seu trecho mais importante na região Norte de Minas Gerais.  Sua área natural de recarga, porém, abrange uma superfície total de mais de 180 mil km² nos Estados de Minas Gerais, Bahia, Goiás e Tocantins, atendendo um total de 270 municípios, especialmente na região conhecida como Polígono das Secas. 

O aquífero Urucuia está localizado integralmente na região do Cerrado e se estende por toda a região Oeste do Estado da Bahia, que concentra entre 75 e 80% da área total, além de trechos nos Estados do Tocantins, Goiás, Piauí, Maranhão e Noroeste de Minas Gerais, ocupando uma área total de 120 mil km². 

O imenso aquífero Guarani ocupa uma área total de 1,2 milhão de km², se estendendo por áreas das regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil, avançando por regiões do Paraguai, Argentina e Uruguai. É considerado o segundo maior aquífero conhecido do mundo, ficando atrás apenas do sistema de aquíferos Alter do Chão da Região Amazônica. Alguns cálculos indicam que o Guarani possui uma reserva total de águas que seria suficiente para abastecer toda a população brasileira por até 2.500 anos. 

Esses aquíferos alimentam as nascentes de águas de importantes rios que formam grandes bacias hidrográficas brasileiras: Parnaíba, São Francisco, Tocantins/Araguaia, Atlântico Leste e Atlântico Nordeste. Também entram na lista as bacias hidrográficas dos rios Paraná e Paraguai, cujas águas avançam na direção de países vizinhos como a Argentina e o Paraguai. 

Independente da origem de nossos povos, vivemos todos em um espaço geográfico único na América do Sul, com biomas e bacias hidrográficas interligadas, e com uma série de problemas ambientais comuns. 

É melhor esquecer as picuinhas “bairristas” e começar a conversar seriamente sobre como resolver os nossos grandes problemas ambientais comuns. 

Obs: A expressão “tango do porteño louco” usada no texto faz referência à expressão popular brasileira “samba do criolo doido” que é usada para se referir a coisas sem sentido, a textos mirabolantes e sem nexo.

A IMPORTAÇÃO DE ENERGIA ELÉTRICA PELO BRASIL, OU “O GATO SUBIU NO TELHADO”

É muito comum encontrarmos produtos importados em lojas de eletroeletrônicos, em supermercados, em concessionárias de carros e motos, entre outros estabelecimentos comerciais. Falar de importação de energia elétrica pode parecer um tanto estranho para a maioria dos leitores, mas saibam que isso já virou “rotina” aqui no Brasil. 

Um exemplo fácil e que não necessitou de grandes esforços para encontrarmos os dados foi o ano de 2001, que entrou para a história como o ano do “apagão do sistema elétrico brasileiro” – o Brasil importou 3.917 GW/h da Argentina e do Uruguai, que nos ajudou muito a superar a brusca redução na capacidade de geração de energia elétrica no país por causa dos baixos níveis dos reservatórios das usinas hidrelétricas naquele ano

Outro ano em que houve uma boa importação de energia elétrica foi 2018, também por causa da redução dos estoques de água nos reservatórios – foram importados 1.131 GW/h. Esse volume importado correspondeu a apenas 0,24% da energia elétrica consumida no Brasil naquele ano, mas em momentos de crise, qualquer ajuda é sempre bem-vinda. Essa energia elétrica importada se junta à produção emergencial das usinas termelétricas brasileiras para o abastecimento da população em casos de crise no sistema de geração do país. 

Essa importação segue os procedimentos descritos no Manual de Procedimentos da Operação – Importação e Exportação de Energia do ONS – Operador Nacional do Sistema Elétrico. As operações de compra e venda de energia elétrica são viabilizadas pela CCEE – Câmara de Comercialização de Energia Elétrica, uma associação civil integrada pelos agentes das categorias de Geração e de Distribuição de Energia Elétrica. 

Os principais “vendedores” de energia elétrica para o Brasil são a Argentina e o Uruguai. Na Argentina, o ONS tem um relacionamento operacional com o Centro de Controle de Operação da CANMESA (COC) e no Uruguai com o DCU – Despacho Nacional de Cargas do Sistema Uruguaio. Essas operações seguem regulamentos internacionais. 

A transmissão da energia elétrica a partir das usinas hidrelétricas dos países vizinhos é feita por redes de transmissão até quatro estações conversoras na região de fronteira e depois são lançadas no SIN – Sistema Interligado Nacional. 

Cargas elétricas vindas da Argentina: 

  • Estação Conversora Garabi I, em Garruchos / RS, com potência nominal de 1.100 MW 
  • Estação Conversora Garabi II, em Garruchos / RS, com potência nominal de 1.100 
  • Estação Conversora Uruguaiana, em Uruguaiana / RS, com potência nominal de 50 MW 

Carga elétrica vinda do Uruguai: 

  • Estação Conversora Rivera, em Rivera / Uruguai, com potência nominal de 70 MW 

Aqui é importante citar que até o ano de 2019, parte da energia elétrica consumida no Estado de Roraima era gerada pela Usina Hidrelétrica de Guri, na Venezuela. Esse contrato de fornecimento venceu e, devido a todos os problemas políticos e econômicos vividos pelo país vizinho, não foi renovado. A demanda energética de Roraima é da ordem de 215 MW e, até 2019, era suprida em cerca de 60% por energia importada da Venezuela e os 40% restantes eram gerados localmente por usinas termelétricas a diesel.  

Atualmente, toda a energia elétrica consumida em Roraima está sendo gerada em usinas termelétricas. Conforme comentamos em uma postagem anterior, a solução para a questão da energia elétrica é a construção do Linhão de Tucuruí, uma rede de transmissão de energia elétrica entre as cidades de Manaus, no Amazonas, e Boa Vista, a capital de Roraima. O entrave para a realização da obra é a Terra Indígena Waimari Atroari, que precisa ser atravessada pelo Linhão e os órgãos responsáveis envolvidos no processo – IBAMA, FUNAI, ELETRONORTE e STF, entre outros, não conseguem chegar a um acordo

Também não podemos esquecer da energia elétrica produzida pelo lado paraguaio da Usina Hidrelétrica de Itaipu. O empreendimento é binacional, dividido em partes iguais pelo Brasil e pelo Paraguai. O Brasil compra o excedente da produção de energia elétrica produzido pelo Paraguai e lança essa energia no SIN – Sistema Interligado Nacional. 

Só para lembrar, Itaipu é uma das mais importantes usinas hidrelétricas do país e responde por mais de 10% de toda a energia elétrica consumida no Brasil. Sem querer bancar o chato, preciso jogar um pouco de “água fria nessa fervura” – o sistema de transmissão da energia elétrica de Itaipu, que conduz a eletricidade para os grandes centros consumidores, está no limite da sua vida útil e está passando por um processo de modernização. 

Esse sistema vem operando há mais de 36 anos e Itaipu está investindo cerca de R$ 1 bilhão para trocar equipamentos na sub estação de Foz do Iguaçu, no Paraná, e em Ibiúna, em São Paulo, entre outros serviços. A previsão para a conclusão de todos os trabalhos é de 5 anos – ou seja, não estamos livres de alguma pane nesse complexo sistema de transmissão de energia nesse meio tempo. 

Em 2001, ano do famoso “apagão do sistema elétrico brasileiro”, os reservatórios das usinas hidrelétricas da Região Sul do Brasil estavam bem cheios e havia a possibilidade de uma oferta extra de energia elétrica para outras regiões. Essa possibilidade nem chegou a ser cogitada por que não haviam linhas de transmissão para o transporte dessa energia desde o Sul até outras regiões do Brasil. 

Vejam que além da presença de bons volumes de água nos reservatórios das usinas hidrelétricas é fundamental que existam linhas de transmissão para o transporte dessa energia até os consumidores. O Estado de Roraima está sofrendo pela falta de uma dessas linhas de transmissão e, no caso do linhão de Itaipu, há riscos por causa da obsolescência de muitos equipamentos. Esses riscos podem até ser pequenos, mas precisam ser considerados. 

Apesar de todas as declarações das autoridades do setor elétrico brasileiro estarem afirmando “categoricamente” que não existe risco de um novo apagão agora em 2021, quiçá em 2022, confesso que estou bastante preocupado e não consigo “sentir firmeza”, como dizemos no meu bairro, nessas declarações. 

Sempre que alguém toca no assunto lembro da história do “gato que subiu no telhado”, um artifício que algumas pessoas usaram para contar que o gato de uma vizinha tinha morrido. Começaram falando que o gato subiu no telhado, escorregou, conseguiu se segurar, mas depois acabou caindo de uma grande altura e morreu. A tragédia foi narrada aos poucos “aos poucos” para não assustar a velhinha. 

Sempre que eu vejo alguma dessas “otoridades” jurando que não vai ter racionamento de energia elétrica aqui no Brasil, não sei por que, mas eu lembro dessa história do gato no telhado. 

Torçamos então para que ele tenha mais equilíbrio e sorte que o gato da vizinha… 

A GERAÇÃO EMERGENCIAL DE ENERGIA EM CENTRAIS TERMELÉTRICAS NO BRASIL

No fatídico ano de 2001, devido a uma combinação de chuvas abaixo da média, falta de investimentos em sistemas de geração e distribuição de energia elétrica, além de muita incompetência por parte dos nossos governantes, o Brasil viveu um período de racionamento forçado de energia elétrica, que entrou para a história como o “apagão”. 

Passada a crise inicial, foi decidido que seria feita a contratação do fornecimento de energia elétrica gerada a partir de centrais termelétricas, unidades que seriam construídas e mantidas em stand by (espera), só sendo acionadas em novos momentos de crise na geração de energia elétrica. Desde então, em vários momentos em que houve uma redução maior dos volumes de água nos reservatórios das usinas hidrelétricas, a geração de energia a partir das termelétricas passou a ser bastante utilizada aqui no Brasil em carater emergencial. 

Quando as usinas termelétricas entram em operação é acionada a chamada “bandeira vermelha” nas contas de energia elétrica – os consumidores são alertados que haverá um acréscimo no valor das suas contas, uma vez que a geração termelétrica é mais cara que a geração feita por usinas hidrelétricas.  

Esse ano, conforme estamos tratando na atual sequência de postagens, a falta de chuvas em extensas áreas das regiões Centro-Oeste e Sudeste deixou reservatórios de importantes unidades geradoras de energia elétrica com baixos níveis e a “bandeira vermelha” já foi acionada – preparem os bolsos porque as contas vão ficar “mais salgadas”. 

De acordo com dados de outubro de 2020 da ANEEL – Agência Nacional de Energia Elétrica, o Brasil possui um total de 8.989 usinas geradoras de energia elétrica, com uma potência outorgada de 175.044.716,46 kW e uma potência fiscalizada de 173.214.363,64 kW. Essa geração inclui centrais hidrelétricas, que respondem por cerca de 60% da geração, além de centrais termelétricas, eólicas, fotovoltaicas e nucleares

As centrais termelétricas totalizam 3.168 unidades em todo o país, com uma potência outorgada de 51.797.907,79 kW e potência fiscalizada de 43,003.675,89 kW. Desse total, 41 empreendimentos ainda se encontram na fase de projeto e outros 67 estão em construção. Cerca de 65% dessas centrais termelétricas são movidas a partir da queima de combustíveis fósseis e 35% por queima de biomassa

Os combustíveis fósseis usados são gás natural, óleo diesel e outros derivados de petróleo, o altamente poluente carvão mineral, gases dos altos fornos de usinas siderúrgicas e de refinarias de petróleo, além de outras fontes de calor. Comparada à geração de energia por fontes hidrelétricas, qualquer uma dessas fontes de energia é muito mais danosa ao meio ambiente. 

Na geração termelétrica a partir da biomassa, o grande destaque é o bagaço da cana-de-açúcar, um subproduto da produção do açúcar e do etanol. As fontes agroindustriais e florestais fornecem também a casca de arroz, o capim elefante, o licor negro (subproduto da produção de papel e celulose), além de resíduos de florestas como lenha e carvão vegetal. Também podem ser utilizados como fonte de energia biocombustíveis líquidos de origem vegetal como óleos e etanol. 

Uma fonte energética importante e que pode ter o seu uso bastante ampliado é o biogás resultante do processo de decomposição de matéria orgânica em aterros sanitários (vide foto), em estações de tratamento de esgotos e também em fazendas que se dedicam a criação de animais como porcos – o esterco desses animais produz grandes volumes de biogás

A geração por fontes hidrelétricas é considerada uma das formas mais renováveis para a produção de energia elétrica. A água das chuvas é o resultado de processos naturais criados pela energia solar e pelos ventos (que também tem sua origem na energia solar). Essa água corre através dos rios e se acumula nas barragens das usinas hidrelétricas, onde o fluxo da água sob pressão aciona as turbinas geradoras. 

Aqui precisamos destacar alguns problemas – essa geração “sustentável” de energia nas usinas hidrelétricas exclui os graves impactos ambientais que são produzidos pelo alagamento de grandes áreas após o fechamento das comportas das barragens. Populações ribeirinhas precisam ser deslocadas, áreas de produção agrícola são perdidas e remanescentes florestais precisam ser derrubados antes do alagamento das terras (se a vegetação não é removida, ela apodrece sob as águas e se transforma numa grande emissora de gases de efeito estufa). 

Outro problema sério da geração hidrelétrica é a imprevisibilidade do clima, que de um ano para o outro pode mudar e gerar grandes secas em extensas regiões. Desde o ano passado, grandes áreas do território brasileiro já vinham sofrendo com chuvas abaixo da média. O problema foi amplificado a partir do final de 2020 devido a incidência do fenômeno climático La Niña, que afetou grandes áreas das Regiões Centro-Oeste e Sudeste, justamente onde se encontram importantes usinas hidrelétricas do país. 

Para fugir dos “humores” do clima e da poluição gerada por fontes termelétricas, muitos países passaram a optar pela energia nuclear. Essa forma de geração, inclusive, passou a ser considerada altamente sustentável do ponto de vista ambiental nas últimas décadas. Nesse tipo de instalação, a energia térmica tem como origem a fissão nuclear de elementos radioativos como o urânio, um processo que gera muito calor. Esse calor é usado para ferver grandes volumes de água e o vapor resultante é direcionado para uma turbina a vapor ligada a um gerador elétrico. 

Na França, citando um exemplo, 86% de toda a energia elétrica produzida vem de centrais nucleares. São no total 19 usinas, onde 56 reatores nucleares estão em operação. O governo local considera esse tipo de instalação segura e muito menos impactante ao meio ambiente do que as usinas hidrelétricas e termelétricas. O maior problema desse tipo de instalação são os resíduos criados pela fissão dos elementos radioativos, que muitas vezes é chamado de “lixo nuclear”, e que necessitam de condições de armazenamento muito especiais. 

Existem atualmente cerca de 450 reatores em operação em usinas nucleares em 31 países do mundo. Apesar das insistentes manifestações e notícias sobre a segurança das operações nesse tipo de usina geradora, é difícil esquecer de grandes acidentes nucleares como os que ocorreram em Chernobyl, na Ucrânia em 1986, e em Fukushima, no Japão em 2011. 

No Brasil existem apenas duas centrais nucleares em operação – Angra I e II, além de uma terceira unidade em construção – Angra III. A contribuição das usinas nucleares brasileiras na matriz energética é de aproximadamente 3%, um valor que não ajuda muito em tempos de falta de água nos reservatórios das usinas hidrelétricas. Dependemos quase que exclusivamente das usinas termelétricas nesses momentos de crise, além da providencial contribuição das centrais eólicas e fotovoltaicas já em operação no país. 

Desde o início desse mês de junho, após o comunicado de emergência hídrica pelo SNM – Sistema Nacional de Meteorologia, as unidades de geração de energia termelétrica disponíveis passaram a ser ligadas com o objetivo de economizar ao máximo a água dos reservatórios. De acordo com autoridades do setor elétrico, o país não corre o risco de passar por um novo “apagão”, mas, como diziam os antigos, “caldo de galinha e cautela não fazem mal a ninguém”. 

Até que as chuvas voltem no final do ano (o que é a esperança de todos) e os reservatórios das usinas hidrelétricas voltem a encher, é importante que todos fiquem de olho no valor de suas contas de energia elétrica. E sempre que possível, evitem gastar energia elétrica à toa. 

AINDA FALANDO DO SISTEMA REPRESA BILLINGS / USINA HIDRELÉTRICA HENRY BORDEN

Na última postagem fizemos uma rápida apresentação do sistema de geração de energia elétrica Represa Billings / Usina Hidrelétrica Henry Borden. Esse sistema começou a ser construído na década de 1920 e foi fundamental para o processo de industrialização da Região Metropolitana de São Paulo. 

O projeto desse sistema considerou o aproveitamento do enorme desnível da Serra do Mar entre a região da Baixada Santista e o Planalto de Piratininga – são mais de 720 metros. As águas da Represa Billings, localizada no alto da Serra do Mar, são canalizadas através de um sistema de tubulações para a Usina Henry Borden em Cubatão, município no litoral de São Paulo, onde chegam com uma enorme energia e movem as turbinas da hidrelétrica. São 16 grupos geradores, com uma potência total instalada de 890 MW

Para alimentar a Represa Billings, o projeto previu o aproveitamento das águas de diversos rios da região, conhecida como Alto da Serra, como o rio Grande, principal formador do rio Pinheiros, Pequeno, Alvarengas, Bororé, entre muitos outros. Outro manancial importante era o rio Tietê, que tinha suas águas transpostas na direção da Represa Billings através de duas estações de bombeamento ou de traição, instaladas no canal do rio Pinheiros. 

Um dos argumentos usados pelos projetistas foi que esse sistema de transposição entre bacias hidrográficas ajudaria a amenizar os graves problemas criados pelas enchentes do rio Tietê, que há muito já criavam problemas para a população da cidade de São Paulo. Conforme já tratamos em inúmeras postagens aqui do blog, a cidade de São Paulo cresceu ocupando as várzeas e as margens dos seus rios – as grandes enchentes são uma resposta da natureza a todas essas agressões históricas. 

Esse sistema de bombeamento das águas do rio Tietê para a Represa Billings funcionou até o início da década de 1990. A intensa poluição das águas do rio Tietê, que foi transformado em uma vala de esgotos a céu aberto ao longo do crescimento das cidades da Região metropolitana, era transferida para a Represa Billings. Foi a nova Constituição Paulista de 1992 que proibiu essa transferência de águas, exceto em situações de emergência nos casos de chuva forte.  

Nas áreas de entorno da Represa Billings a situação dos mananciais também nunca foi das melhores. A conhecida Região do ABC Paulista, sigla dos municípios de Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano, foi escolhida para sediar as fábricas da nascente indústria automobilística do Brasil. Além da energia elétrica gerada pela Usina Hidrelétrica Henry Borden, a Região do ABC tinha uma ligação fácil com o Porto de Santos através da Via Anchieta e de ferrovias, além da proximidade com grandes centros urbanos como a cidade de São Paulo. 

Uma das consequências diretas da abertura das indústrias automobilísticas na Região do ABC foi a atração de grandes contingentes de migrantes de outras regiões brasileiras, principalmente nordestinos, que buscavam melhores condições de vida. Além de empregos, esses migrantes precisam de moradias a “preços populares” e grandes terrenos próximos das margens da Represa Billings passaram a ser loteados

Aqui é preciso fazermos um parêntese importante – após a construção da Represa Billings a partir da década de 1920, as bucólicas e tranquilas paisagens das margens do reservatório foram transformados em sítios e chácaras de fim de semana para as famílias mais abastadas da Região Metropolitana de São Paulo, algo muito semelhante ao que aconteceu nas áreas de entorno da Represa Guarapiranga. Foram justamente esses grandes terrenos que foram transformados em loteamentos a partir do final da década de 1950 e começo dos anos 1960. 

Um grande exemplo de ocupação que surgiu às margens da Represa Billings é Eldorado, um dos maiores bairros do município de Diadema. Com uma população atual da ordem de 42 mil habitantes, o bairro é uma sucessão de construções improvisadas e com pouca infraestrutura urbana. A maior parte dos esgotos gerados no bairro correm diretamente para a Represa Billings. Estão sendo feitos grandes esforços para mudar essa situação, mas ainda falta muito. 

O movimento de ocupação ganhou muita força na década de 1970 e já no final da década de 1980, a população que vivia nas áreas de entorno da Represa Billings superou a marca de 1 milhão de habitantes, a grande maioria vivendo em casas sem abastecimento de água potável e sem coleta de esgotos (vide foto). Os despejos de esgotos de toda essa população tinham como destino final as águas da Represa Billings

Além de receber despejos de esgotos, domésticos e industriais, as águas da Billings também passaram a receber grandes volumes de resíduos sólidos. A mesma falta de cuidados com o destino final dos esgotos da população também se entendeu aos resíduos sólidos. Lixões e aterros improvisados passaram a surgir por todos os cantos – em períodos de chuvas fortes, partes desses resíduos acabavam sendo carreados na direção das águas da Represa.  

As águas das chuvas também provocam a percolação (na geologia se refere a passagem de água pelo solo e rochas permeáveis fluindo para reservatórios subterrâneos) de grandes quantidades de chorume, efluentes líquidos resultantes da decomposição de resíduos orgânicos desses lixões, que correm na direção do lençol freático e das águas da Represa. Mesmo sem receber mais as águas poluídas do rio Tietê, a Represa Billings continuava com suas águas altamente contaminadas.  

Aqui há um detalhe importante, que ilustra claramente como tratamos mal nossas fontes de água – cerca de 1,5 milhão de habitantes dos municípios do ABC Paulista já eram e ainda são abastecidos com as águas da Represa Billings e foi necessária a construção de uma barragem em um dos braços do reservatório para evitar a contaminação dessas águas com a poluição crescente. Essa barragem foi construída no início da década de 1980 e forma o Sistema Rio Grande

A intensa poluição que tomou contas das águas da Represa Billings forçou a redução da geração de energia elétrica na Usina Henry Borden em 75%, ficando limitada a 200 MW. O volume de energia elétrica que deixou de ser gerado na Usina corresponde a 50% da produção da Usina Hidrelétrica de Furnas. É importante se explicar por que isso aconteceu. 

Após passar pelas turbinas da Hidrelétrica Henry Borden, as águas vindas da Represa Billings são despejadas no rio Cubatão, que até poucas décadas atrás era um dos rios mais poluídos do Brasil. O município de Cubatão sediava um grande polo com indústrias altamente poluidoras do meio ambiente, sobretudo dos ramos químico e petroquímico. Por causa da intensa poluição, Cubatão ganhou a alcunha nada agradável de “Vale da Morte”. 

Em 1984, foi criado o Programa de Controle da Poluição de Cubatão e também a Comissão Especial da Serra do Mar, que faria a articulação entre os setores público, industrial e privado. Um dos principais objetivos dessas ações foi a reversão da poluição ambiental de Cubatão, que ficou a cargo da CETESB – Companhia Ambiental de São Paulo, com a participação das indústrias e da população local de Cubatão.  

Esse exitoso conjunto de ações mudou radicalmente os rumos de Cubatão, transformando o município em uma referência mundial no combate à poluição do ar, das águas e dos solos. E foi dentro desse contexto de combate à poluição que as águas poluídas vindas da Represa Billings passaram a ser um grande problema, daí a redução da produção de energia elétrica na Usina Henry Borden

Em tempos em que os reservatórios de grandes usinas hidrelétricas por todo o Brasil estão com baixos níveis e há riscos para a geração de energia elétrica, não poder usar integralmente todo o potencial de geração da energia da hidrelétrica Henry Borden por causa da poluição das águas da Represa Billings é uma grande ironia e um grande problema para todos nós.

A SAGA DO SISTEMA REPRESA BILLINGS / USINA HIDRELÉTRICA HENRY BORDEN, OU OS DESCAMINHOS DAS ÁGUAS E DA ENERGIA ELÉTRICA

Uma das obras de engenharia mais geniais que eu conheço é o sistema de geração elétrica Represa Billings / Usina Hidrelétrica Henry Borden. Construído a partir dos primeiros anos da década de 1920, esse sistema se valeu do enorme desnível da Serra do Mar entre o Planalto de Piratininga e a Baixada Santista – cerca de 720 metros, para gerar a energia elétrica que impulsionou a industrialização da Região Metropolitana de São Paulo. 

Infelizmente, graças ao nosso total desprezo pelas águas e falta de obras básicas para a coleta e o tratamento dos esgotos da população, além da falta de planejamento urbano, a quase centenária Represa Billings sofre atualmente com a intensa poluição de suas águas e ocupação desordenada de suas margens.  

Muito pior – a geração de energia na Usina Hidrelétrica Henry Borden está limitada a apenas 200 MW (ela tem uma capacidade instalada total de quase 900 MW), para evitar que as águas poluídas da Billings causem mais estragos nos rios da Baixada Santista. Em tempos em que os reservatórios de muitas usinas hidrelétricas brasileiras estão vazios, não poder usar essa capacidade instalada é um “crime”. Vamos entender a história. 

O primeiro grande sistema de geração de energia elétrica da Região Metropolitana de São Paulo foi a Usina de Parnahyba, projeto implantado pela Light and Power Company, a empresa canadense que se tornou concessionária de energia elétrica na cidade de São Paulo e Região em 1899. Na sua ianuguração em 1901, Parnahyba produzia 2 mW de energia elétrica. 

Cerca de 10 anos depois, essa potência já tinha sido aumentada para 12,8 MW, atendendo a uma demanda por energia elétrica cada vez maior da população e das indústrias paulistanas. Gradativamente, a Light passou a construir novas pequenas usinas hidrelétricas, aumentando gradativamente a sua capacidade de geração de energia. 

Na década de 1920, os engenheiros da Light desenvolveram o projeto de uma usina hidrelétrica grande e revolucionária para os padrões da época. Essa usina seria construída em Cubatão, município da Baixada Santista, e utilizaria o forte desnível da Serra do Mar para potencializar a força das águas lançadas a partir de uma represa construída no Planalto de Piratininga. 

Esse projeto foi apresentado para as autoridades do Governo Federal e em 1922, um decreto Presidencial autorizou o início das obras. O projeto incluía a construção da Represa do Alto da Serra – que depois passou a ser chamada de Billings, da Usina Hidrelétrica de Cubatão, do sistema de tubulações para a descida da água através da Serra do Mar (vide foto), além da implantação de um sistema para a transposição de águas da bacia hidrográfica do rio Tietê para a Represa Billings.  

As obras foram iniciadas em 1925 e é interessante ressaltar que, como era normal há época, todo esse complexo de obras não teve nenhum estudo de impacto ambiental, que aliás foram muitos. Um exemplo de impacto criado pelas obras foi a famosa garoa paulistana, uma chuva finíssima que caía todas as tardes na cidade – o fenômeno desapareceu no início da década de 1980. Segundo relatos de parentes e antigos moradores, esse fenômeno climático se tornou diário logo após a construção da Represa Guarapiranga e aumentou muito após a conclusão da Represa Billings.  

Um argumento interessante que foi usado para justificar a construção desse complexo energético foi o auxílio no controle das cheias anuais do rio Tietê, responsáveis por problemas catastróficos nas partes baixas de São Paulo. No projeto criado pela Light, essas águas excedentes do período das chuvas seriam bombeadas através do canal do rio Pinheiros na direção da Represa Billings, ajudando a reforçar os estoques de água.  

Para realizar esse bombeamento, duas estações elevatórias (também chamadas de usinas de traição) foram construídas no rio Pinheiros, sendo uma na região da Vila Olímpia e a outra no bairro da Pedreira. Para viabilizar essa parte do projeto, o sinuoso canal do rio Pinheiros foi completamente retificado, com trabalhadores escavando a terra com pás e picaretas e grandes volumes de terra sendo carregados por carroças puxadas por burros.  

Além de preparar o rio Pinheiros para a futura função de transposição das águas para a represa Billings, essas obras transformariam antigas várzeas alagáveis da região em “terras secas”. Um dos exemplos é uma região do bairro de Pinheiros, que anos depois foi loteada pela Companhia City, uma subsidiária da Light and Power Company. A região foi transformada no elegante e sofisticado bairro do Alto de Pinheiros, ainda hoje uma referência em alto padrão imobiliário na cidade de São Paulo.  

Além do planejamento impecável, com ruas elegantes, praças e todo equipamento urbano necessário, o bairro receberia as linhas de bondes elétricos operados pela empresa Light, um diferencial em tanto numa cidade que sempre teve, e continua tendo, problemas de transporte. Como dizia a minha mãe: “esses estrangeiros sabiam como ganhar muito dinheiro! ”  

A represa Billings foi formada a partir do represamento dos rios Grande (o principal formador do rio Pinheiros), Pequeno, Capivari, Pedra Branca, Taquacetuba, Alvarengas, Bororé e Cocaia, entre outros rios menores, perfazendo cerca de 560 km² de área de drenagem, com uma vazão somada total de 16,5 m³/s. O espelho d’água da Represa ocuparia uma área inundada de aproximadamente 172 km² e teria capacidade para armazenar 1,2 bilhões de metros cúbicos de água.  

Nos dias atuais, quando se segue pelas Rodovias Anchieta e Imigrantes ou pelo Trecho Sul do Rodoanel, a visão e a beleza do grande reservatório da Billings ainda são impressionantes. As obras da represa foram totalmente concluídas em 1937. O sistema de transposição das águas do rio Tietê para a represa Billings só passou a operar integralmente a partir de 1950.  

A Usina Hidrelétrica de Cubatão, que depois teve seu nome mudado para Usina Hidrelétrica Henry Borden, teve seu primeiro grupo gerador inaugurado em 1926. A capacidade geradora da Usina foi sendo ampliada até 1950, quando o 14° grupo gerador entrou em funcionamento, atingindo uma capacidade total instalada de 889 MW. Os grupos geradores da Usina Henry Borden são acionados por turbinas Pelton, que são movidas pelos fortíssimos fluxos de água que descem do alto da Serra do Mar.  

O fantástico complexo Represa Billings / Usina Henry Borden foi fundamental para o desenvolvimento da Região Metropolitana de São Paulo. A farta disponibilidade de energia elétrica na região foi um dos critérios usados para a escolha da Região do ABC Paulista (sigla para os municípios de Santo André, São Bernardo e São Caetano) como sede das primeiras indústrias automobilísticas do Brasil na década de 1950.  

Toda essa energia elétrica disponibilizada, desgraçadamente, acabou se transformando numa espécie de “maldição”, que se voltou depois contra o próprio Sistema. A energia elétrica estimulou o desenvolvimento de industrias, comércios e serviços, o que levou a um crescimento urbano desordenado das cidades da região. 

As densas matas que protegiam as margens da Represa Billings foram derrubadas para a criação de bairro populares. onde milhares de migrantes que chegavam ao ABC Paulista em busca de empregos e de uma vida melhor construiriam as suas moradias. Já as águas dos rios formadores da Represa, essas foram transformadas em canais para a eliminação dos esgotos gerados por toda essa gente. 

Na próxima postagem falaremos mais sobre a triste sina da Represa Billings e dos problemas que levaram a atual subutilização da Usina Hidrelétrica Henry Borden

ÍNDIOS NORTE-AMERICANOS MILIONÁRIOS X ÍNDIOS BRASILEIROS PAUPÉRRIMOS

Na última postagem falamos sobre os problemas, tanto técnicos quanto legais, que envolvem a construção de usinas hidrelétricas na região da Bacia Amazônica. Essa região, como todos devem saber, é o paraíso das águas – pesquisadores afirmam que 20% de toda a água doce superficial do mundo é encontrada na Bacia Amazônica. Aproveitar esse verdadeiro “mundo de águas” para gerar energia elétrica “limpa’”, infelizmente, não é tão simples como pode parecer. 

Hoje gostaria de falar um pouco mais sobre isso e tocar numa questão extremamente delicada – a questão das terras indígenas. Vou começar citando dois “causos verídicos verdadeiros” que acompanhei: 

Entre os anos de 2009 e 2010, fui enviado pela empresa em que trabalhava para atuar nas obras do sistema de esgotos sanitários da cidade de Porto Velho em Rondônia. Há mesma época, as obras das usinas hidrelétricas do rio Madeira – Santo Antônio e Jirau, seguiam a todo vapor e consegui acompanhar várias fases dos trabalhos. Uma ocorrência nas obras de Jirau me chamou muito a atenção. 

Enquanto se realizavam os trabalhos de desflorestamento da faixa de terras que seria inundada pelo lago da hidrelétrica (essa usina opera a “fio d’água”, mas, mesmo assim, o represamento provoca uma elevação do nível do rio), os trabalhadores encontraram uma grande rocha e, em cima desta, havia uma pedra lascada que tinha um formato semelhante ao de um machado pré-histórico.  

Imaginando se tratar de um artefato milenar deixado ali por antigas populações indígenas, o técnico em meio ambiente que acompanhava os trabalhos deu ordem para a paralização total das atividades. Um arqueólogo e um historiador da equipe que preparou o relatório de impacto ao meio ambiente foram imediatamente convocados para realizar uma perícia no “artefato”. Depois de quase três semanas de trabalhos parados, os especialistas emitiram um laudo informando se tratar de uma simples pedra, que provavelmente foi arrastada para o local por alguma antiga enchente do rio Madeira. 

Bem por acaso, o dono da empreiteira que prestava os serviços de remoção da vegetação ali naquele trecho era meu vizinho de apartamento e me relatou o tamanho do prejuízo daquele ocorrido. Apesar dos trabalhos terem ficado paralisados por semanas, ele teve de manter o pagamento dos funcionários em dia, além de bancar todos os demais custos do canteiro de obras. Soube depois que, ao longo de três anos de prestação de serviços naquela obra, a pequena empreiteira desse vizinho acumulou um prejuízo de mais de R$ 3 milhões por causa dessa e de outras paralisações dos trabalhos por problemas bem semelhantes. 

Um outro caso ligado à minha obra – a equipe que fez os estudos de impacto ambiental no terreno onde seria construída uma das estações de tratamento de esgotos do projeto de Porto Velho encontrou algumas “peças em cerâmica” no meio da mata de capoeira. Imediatamente imaginaram se tratar de cerâmica ancestral de antigas populações indígenas. Um arqueólogo foi chamado para avaliar o “achado” e, cerca de quinze dias depois, emitiu um laudo afirmando se tratar de cerâmicas modernas do tipo usado em rituais de religiões afro-brasileiras. Salvo engano da minha memória, o custo desse laudo foi de R$ 19 mil há época. 

Cerca de um ano depois, durante um happy hour com amigos num boteco da cidade, conheci uma pessoa que trabalhou na empresa que fez o licenciamento da obra. Entre um copo de cerveja e outro acabei ouvindo a verdadeira história: o arqueólogo era muito amigo de uma das pessoas da equipe e estava muito endividado naquele momento. A equipe sabia de antemão que as peças cerâmicas que foram encontradas eram na verdade parte de um “despacho”, mas, para ajudar o amigo, acabaram endossando a necessidade da “opinião de um especialista”. 

Antes de qualquer coisa, quero deixar claro que não tenho nada contra as populações indígenas e que acho fundamental que sua história, tradições, territórios e produção histórica/cultural sejam preservados. Minha crítica é contra a “indústria do licenciamento ambiental” que, entre outras coisas, usa questões ligadas aos indígenas e suas terras para “engordar” seus ganhos em projetos de licenciamento ambiental de obras

Dito isso, gostaria de mostrar um caso onde questões ligadas a grupos indígenas estão criando sérias dificuldades para a realização de uma obra importante – falo aqui do Linhão de Tucuruí, uma obra fundamental para o abastecimento de energia elétrica da população do Estado de Roraima, no extremo Norte do país.  

Roraima tem uma área de 223 mil km² e uma população com aproximadamente 500 mil habitantes. O Estado não está ligado ao SIN – Sistema interligado Nacional, e depende de geração de energia em centrais termelétricas movidas a óleo diesel. Existe uma linha de transmissão de energia que vem da Usina Hidrelétrica de Guri, no Sul da Venezuela, mas, devido aos problemas políticos e econômicos vividos pelo país vizinho, esse suprimento de energia deixou de ser confiável. 

Pois bem – há várias décadas, o Governo Federal vem tentando construir o chamado Linhão de Tucuruí, uma linha de transmissão de energia elétrica que vai permitir a transmissão da energia gerada na Usina Hidrelétrica de Tucuruí para Roraima. Essa energia já chega até a cidade de Manaus, capital do Estado vizinho do Amazonas. 

O empecilho para a realização da obra é a Terra Indígena dos Waimari Atroari, que fica no meio do caminho. O Linhão precisa passar por dentro do território indígena e não se consegue chegar a um acordo para a liberação do licenciamento ambiental. Essa terra indígena, inclusive, já é atravessada por uma rodovia federal e a linha de transmissão seria construída exatamente ao lado da estrada, com impactos ambientais mínimos. 

Para fazer um contraponto a essa grande dificuldade para licenciar essa obra tão simples, vou citar o caso de outro grupo indígena – os seminoles do Estado norte-americano da Flórida. Em 1987, esse grupo indígena conseguiu autorização da justiça dos Estados Unidos para explorar jogos de azar em suas terras. Os índios operam desde então dois cassinos em seu território na Florida e faturam centenas de milhões de dólares por ano, dinheiro que é dividido entre os 3,3 mil índios do grupo. A foto que ilustra a postagem é de um dos cassinos da tribo, uma franquia do famoso Hard Rock Café e que foi comprada em 2006 pela bagatela de US$ 95 milhões.

No total, existem atualmente mais de 350 cassinos de propriedade de grupos indígenas em 28 Estados norte-americanos. Esses estabelecimentos faturam juntos mais de US$ 20 bilhões por ano e garantem uma excepcional renda e um alto padrão de vida para as suas comunidades. Ou seja – ser um indígena nos Estados Unidos é um excelente negócio para qualquer um. Esses bons ganhos, é claro, não pagam o sofrimento e as mortes de milhões de indígenas ao longo do conturbado processo de colonização do país. 

Voltando ao caso dos índios Waimari Atroari aqui do Brasil – será que não seria possível criar um mecanismo legal que permitisse que esses índios recebessem royalties sobre o valor de comercialização da energia elétrica que circulasse através do Linhão que será construído em suas terras?  

Eu imagino que os volumes de dinheiro envolvidos nessa negociação ficariam muito aquém dos ganhos conseguidos pelos índios seminoles da Flórida com seus cassinos, mas, acredito que seria um valor muito bem-vindo e que poderia ser investido pelos índios com toda a autonomia no que eles bem entendessem – saúde, educação, habitações, lanchas, jet skis, ou qualquer outra coisa. 

E olhem que esse não é um caso isolado – existem dezenas de obras de infraestrutura em todo o Brasil que estão paradas por questões semelhantes. São rodovias, ferrovias, hidrelétricas, gasodutos e oleodutos, entre outras obras fundamentais para o desenvolvimento do país. 

Mas não – o que vemos é toda uma legislação que insiste proteger ao máximo os grupos indígenas brasileiros, colocando essas populações “dentro de uma redoma” e completamente isolados do mundo exterior. Será que alguém perguntou para esses indígenas se eles querem eletricidade, água quente no chuveiro, internet e telefonia celular? Será que esses pequenos confortos que a vida moderna proporciona a nós “brancos” (uso a palavra aqui no sentido cultural e não étnico) não agradariam também aos nossos irmãos indígenas? 

Moral dessa história: enquanto os índios norte-americanos ficam milionários, seus parentes brasileiros ainda estão presos ao passado, no pior sentido dessa expressão… 

SE HÁ TANTA ÁGUA NA AMAZÔNIA, POR QUE NÃO SE CONSTROEM MAIS USINAS HIDRELÉTRICAS POR LÁ?

O rio Amazonas tem quase 7 mil km de extensão desde suas nascentes mais distantes no alto da Cordilheira dos Andes até sua foz em delta no Arquipélago de Marajó. Ainda existem controvérsias sobre qual é o mais extenso rio do mundo, se é o Amazonas ou o Nilo. Quando se fala em volume de água, porém, o grande rio sul-americano é imbatível. 

Essa grandiosidade não se limita a um único rio – a bacia hidrográfica do rio Amazonas possui mais de 1.100 afluentes, muitos deles com mais de 1.500 km de extensão. Um desses afluentes, o rio Madeira, tem cerca de 4.800 km e entra na lista dos 10 maiores rios do mundo. 

De acordo com algumas estimativas, a bacia Amazônica concentra cerca de 20% de toda a água doce superficial do mundo. Em tempos de fortes chuvas e de enchentes na região, conforme apresentamos na última postagem, esse verdadeiro mundo de águas está com mais água do que nunca. 

Uma pergunta que ouço com bastante frequência e que, nesses tempos de falta de água em muitos reservatórios de usinas hidrelétricas das Regiões Centro-Oeste e Sudeste, deve incomodar muita gente: por que não existem mais usinas hidrelétricas na região da Amazônia? A resposta não é tão simples, mas vamos tentar responder. 

A primeira grande usina hidrelétrica construída na Amazônia foi Tucuruí, instalada no rio Tocantins no Pará e feita “na marra” nos tempos do Regime Militar. As obras começaram em 1976 e a Usina inaugurada com muita pompa e circunstância em 1984. Aqui precisamos destacar dois pontos – antes de 1986, ano em que foi publicada a Resolução CONAMA 001, não existia a necessidade da realização de estudos sobre os impactos ambientais de obras.  

Segundo ponto – há época, quando um General com o uniforme cheio de “estrelas” abria um mapa e dizia que queria que se construísse uma usina hidrelétrica em um determinado local, ninguém em sã consciência ousava contrariar essa ordem. Lembro aqui que, entre 1964 e 1985, o Brasil viveu sob um regime militar de exceção (muitos usarão a definição “ditadura militar”). 

Esse período foi marcado por jingles publicitários como “esse é um país que vai prá frente…” ou definições como “Brasil Grande” e “milagre econômico brasileiro“. São dessa mesma época obras como Itaipu, Usinas Nucleares de Angra dos Reis, ponte Rio Niterói, Rodovia Transamazônica, entre muitas outras. 

Citando apenas um dos grandes problemas ambientais de Tucuruí – o projeto inicial previa a remoção de 85% da vegetação da área onde seria formado o lago da hidrelétrica. Por causa de inúmeras “irregularidades operacionais” (para não usar a palavra corrupção) apenas 5% da vegetação foi suprimida antes do enchimento do lago. Para falar o mínimo, alagar áreas com vegetação resulta em uma série de problemas na qualidade da água, gera emissões de gases de efeito estufa e prejudica a vida aquática. 

A construção de Tucuruí também provocou uma série de impactos sociais – milhares de famílias ribeirinhas foram removidas a força de suas propriedades e reassentadas em outros locais. Grande parte dessas populações não possuía documentos que comprovassem a posse das terras e acabaram recebendo indenizações muito baixas – muita gente não recebeu nada. 

Nos dias atuais, quando temos uma rigorosa legislação ambiental e um mundo inteiro preocupado com a preservação da Floresta Amazônica, seria muito pouco provável que a construção de uma obra tão impactante para o meio ambiente fosse aprovada. 

Uma outra obra que pode ajudar a explicar as dificuldades da construção de uma usina hidrelétrica na Amazônia é Balbina, empreendimento que apresentamos em uma postagem anterior. Instalada no rio Uatumã, no município de Presidente Figueiredo no Amazonas, essa obra foi planejada ainda nos tempos do Regime Militar e concluída em 1989. 

Um dos grandes problemas da Usina Hidrelétrica de Balbina é a sua baixíssima produção de energia elétrica – são cerca de 112 MW na temporada das chuvas, caindo para cerca de 50 MW no período da seca. Com uma barragem com altura de 51 metros, Balbina formou um espelho d’água com uma área total de 2.360 km², quase duas vezes o tamanho do município do Rio de Janeiro

Pesquisadores da UFAM – Universidade Federal do Amazonas, e do INPA – Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, tiveram a ousadia de alertar as autoridades sobre os gravíssimos danos ambientais que a construção de Balbina desencadearia em uma extensa região da Amazônia – os Generais, é claro, não se sensibilizaram nenhum pouco e a obra prosseguiu. 

O exemplo de Balbina evidencia uma característica predominante na bacia Amazônica – a baixíssima declividade dos terrenos. Porto Velho, a capital do Estado de Rondônia, ilustra bem essa situação: a cidade fica a quase 2 mil km da praia mais próxima no Oceano Atlântico no Pará ou no Amapá, porém, tem uma altitude em relação ao nível do mar de apenas 84 metros. 

As Usinas Hidrelétricas de Santo Antônio e de Jirau, construídas no rio Madeira em Rondônia e inauguradas em 2012 e 2016, respectivamente, foram concebidas para operar a “fio d’água”, ou seja, usando apenas a força da correnteza do rio Madeira para movimentar as suas turbinas. Esse conceito de projeto reduz enormemente a necessidade de grandes reservatórios e, consequentemente, minimiza muito os impactos ambientais da obra. 

O detalhe aqui é o rio Madeira, um rio caudaloso e com uma correnteza poderosa – o rio, aliás, é considerado o segundo do mundo no quesito velocidade da correnteza. Desgraçadamente, o Madeira é uma exceção quando se fala em rios amazônicos – por causa da baixa declividade dos terrenos, a maioria dos rios da região têm correntezas muito lentas. 

Além desses problemas, que já mostram claramente as dificuldades para se construir novas usinas hidrelétricas de grande porte nos rios da Amazônia, existe um outro problema grave – a ação dos grupos de interesse. Falo aqui de grandes grupos construtores, políticos, funcionários públicos e outros “grupos organizados”, que num passado não tão distante se articularam para conseguir realizar grandes obras. Um exemplo dessa verdadeira praga foi a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu no Pará. 

Sem entrarmos em maiores detalhes – siga esse link para ler uma postagem anterior sobre essa obra, o empreendimento foi cercado de irregularidades – no projeto, no licenciamento ambiental, no leilão de concessão, entre muitas outras. Belo Monte foi inaugurada em 2011, a um custo estimado de R$ 30 bilhões. O custo inicial previsto no projeto era de apenas R$ 4 bilhões, o que nos dá uma “vaga” ideia do volume de “feitos e mal feitos” no empreendimento e da montanha de dinheiro público desviado

Agora, respondendo à pergunta do título da postagem: a Bacia Amazônica tem muita água sim, mas existem inúmeras dificuldades técnicas para a construção de grandes usinas hidrelétricas nos rios da região. Essas dificuldades incluem problemas geográficos, terras indígenas, populações ribeirinhas, legislação ambiental, impactos junto à comunidade internacional, entre outros. Além das dificuldades econômicas atuais, a corrupção sistêmica que marcou a realização de algumas desssas grandes obras deixou profundas cicatrizes na sociedade e será difícil retomar grandes projetos num curto prazo. 

Em resumo – é melhor rezar para chover bastante nas regiões onde existem os grandes reservatórios das usinas hidrelétricas do restante do Brasil. É bem mais fácil isso acontecer do que assitirmos obras de grandes hidrelétricas na Amazônia nos próximos anos…

OS DIFERENTES “CLIMAS” DO BRASIL, OU FALANDO DAS ENCHENTES NA AMAZÔNIA

O Brasil é um país de dimensões continentais! 

Imagino que todos os leitores brasileiros aqui do blog já devem ter ouvido inúmeras vezes esse clichê. Para os estrangeiros, essa é uma expressão que costumamos usar em referência ao tamanho do território brasileiro – são 8,5 milhões de km² ou mais de 80% do tamanho da Europa. 

Uma forma de percebemos claramente o que significa esse tamanho todo é nos atentarmos para os diferentes “climas” de cada uma das regiões do país. Nesse momento, parte das regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul estão entrando em uma temporada extremamente seca, onde os baixos níveis dos reservatórios de usinas hidrelétricas têm causado muitas preocupações para as autoridades do setor. 

Já no extremo Sul, principalmente nos Estados de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul, o inverno já está mostrando a sua cara. Ao longo dos últimos dias muitas cidades já enfrentaram temperaturas negativas, com fortes geadas nos campos. Enquanto isso, o Ceará apresenta temperaturas bem acima dos 35° C, uma situação que não é muito diferente de outras capitais nordestinas. 

Em uma grande parte da Amazônia, as chuvas estão caindo sem dó – em Manaus, o rio Negro atingiu hoje a cota de 29,98 metros, o mais alto nível em mais de 110 anos de medições sistemáticas. Vamos falar um pouco sobre essa situação complicada na Região Norte do Brasil. 

No Amazonas, 58 dos 62 municípios do Estado estão enfrentando os problemas criados pelas fortes chuvas. De acordo com as autoridades locais, já são mais de 455 mil pessoas afetadas, algo que corresponde a 10% da população do Estado. São basicamente pessoas pobres que moram nas margens dos rios – os famosos ribeirinhos. Cheias nos rios da Amazônia são normais, porém, desde 2012 não chovia tanto na região e, segundo os dados históricos, essa é a segunda maior cheia na região desde 1902. 

Nas partes mais baixas de Manaus, locais onde funcionam as feiras e o comércio popular, já existe uma tradição de se construir “passarelas” com tábuas para permitir a circulação da “clientela” nos períodos de cheia do rio. Esse ano, mesmo com as passarelas, muita gente tem enfrentado água ao nível dos joelhos para conseguir circular. 

Os períodos das enchentes também são conhecidos nas cidades da Amazônia como a época em que o lixo e os resíduos jogados pelas populações em lagoas e igarapés “resolvem” sair para passear pelas ruas e avenidas. A Prefeitura de Manaus informa que já retirou mais de 600 toneladas desse lixo arrastado para o rio Negro. E quem conhece as péssimas condições sanitárias dos bairros pobres de Manaus sabe que muito mais lixo sairá dos terrenos baldios e canais das vilas. 

Além dos transtornos que as águas causam nas ruas e na vida das cidades, a época das cheias é um período de “vacas magras” para os ribeirinhos. Quando o nível dos rios sobe, as águas chegam a avançar dezenas de quilômetros mata a dentro. Os peixes se aproveitam dessas cheias e saem em busca de alimentos espalhados nos solos da mata agora encobertos pelas águas. Eles buscam sementes, frutos, insetos e outros “petiscos”. 

Essa migração dos peixes cria grandes dificuldades para os ribeirinhos, que só conseguem capturar uma fração dos animais que conseguem pescar nos períodos de seca. As águas também encobrem os roçados das famílias onde se planta mandioca, milho e outras culturas de subsistência. 

Por mais irônico que possa parecer, as famílias passam a encontrar dificuldades para ter acesso a água potável no período das cheias. Todos já ouviram histórias com números superlativos sobre os rios da Amazônia – maiores do mundo num quesito, campeões em volume de água em outros. A água desses rios, porém, não é usada para o consumo das famílias.  

A principal fonte de abastecimento dessas populações são os pequenos igarapés com águas cristalinas, que em épocas de seca estão por toda a parte. Na época das cheias, é preciso buscar água a grandes distâncias navegando em pequenas canoas. 

Os igarapés são afloramentos das águas subterrâneas dos lençóis freáticos e aquíferos, e são contados aos milhares em toda a Amazônia. Quando não dispõem de um igarapé nas proximidades de suas casas, as populações precisam cavar poços para garantir o seu abastecimento e aí ficam sujeitas as grandes oscilações do nível do lençol freático – logo após o período das chuvas, a água é encontrada a poucos centímetros de profundidade; conforme o período da seca avança, o nível dessas águas pode baixar dezenas de metros. 

As cheias dos rios também aumentam os riscos de contaminação com doenças como a malária e a febre amarela. Entre 2009 e 2010 eu trabalhei no Estado de Rondônia e um dos primeiros conselhos que recebi dos locais foi o de ficar longe da margem dos rios entre o pôr do sol e as oito horas da noite. Segundo me informaram, os mosquitos se concentram nas margens dos rios e esse é o período em que eles têm um nível de atividade mais intensa. O rio Negro é uma exceção a essa regra – suas águas escuras impedem a grande proliferação dos mosquitos. Com a cheia dos rios, as águas trazem os mosquitos para o quintal das casas, aumentando muito os riscos dessas doenças. 

O Amazonas, o maior e mais famoso rio da região, tem mais de 1.100 rios tributários, muitos deles com mais de 1.500 km de comprimento. Um exemplo é o rio Madeira, que tem mais de 4.800 km de extensão e que entra na lista dos maiores rios do mundo. Mais de 90% de toda a população da Amazônia, que só no Brasil conta com mais de 23 milhões de habitantes, mora na beira de um desses inúmeros rios

Pode-se afirmar, categoricamente, que a vida dessas pessoas pulsa em sincronia com as águas desses rios. Parte importante dos seus alimentos é retirado das águas dos rios, que também são as “estradas” por onde circulam pessoas e mercadorias, além de fonte de trabalho e renda para muita gente. Apesar de toda essa intimidade com as águas, cheias excessivas como a que vive a região hoje altera completamente o ritmo da vida. 

A circulação de mercadorias e alimentos é prejudicada. O acesso aos hospitais e aos serviços de saúde fica ainda mais difícil, ganhar o pão de cada dia fica praticamente inviável para muitos. A vida na “idílica” Floresta Amazônica não é exatamente o paraíso na terra que muitos ecologistas de carteirinha, especialmente estrangeiros, costumam pregar pelos quatro cantos do mundo. A vida por lá, para quem conhece, é cheia de altos e baixos.

Como eu sempre comento nas postagens aqui do blog, a preservação de toda a grande floresta equatorial é fundamental. Muito longe de ser o “pulmão do mundo” ou a campeã mundial da biodiversidade, a Floresta Amazônica é um dos maiores patrimônios de nós brasileiros. 

Entretanto, algo que eu também costumo citar com frequência, é que mais de 10% da população brasileira vive na Amazônia. Normalmente, toda essa gente costuma ser esquecida pelos grandes líderes, famosos e celebridades internacionais, preocupados com a “salvação da floresta”. E são justamente em momentos de tragédia como nessa grande cheia aqueles em que essas populações precisam ser mais lembradas e ajudadas. 

Preservar a Floresta Amazônica é importante. Entretanto, cuidar dos “amazônidas”, uma forma que eu acho muito simpática de se referir às populações locais, é fundamental! 

IRRIGAÇÃO EM TEMPOS DE EMERGÊNCIA HÍDRICA

Quando os primeiros exploradores europeus chegaram à costa brasileira no ocaso do século XV, encontraram uma densa cobertura florestal ao longo do litoral, com árvores chegando até a linha da areia das praias. Essa era a Mata Atlântica, uma floresta que há época se estendia do litoral do Rio Grande do Norte ao litoral Norte do Rio Grande do Sul.  

Com todos devem saber, perto de 90% dessa floresta foi destruída ao longo de nossa colonização. Em trechos do litoral Sul do Estado do Rio de Janeiro, de São Paulo e do Paraná, ainda existem fragmentos litorâneos da Mata Atlântica, o que nos dá uma boa ideia de como era essa floresta naqueles tempos. 

A primeira impressão que os exploradores tiveram era que toda a terra era coberta por densas florestas. Após o início da colonização efetiva do Brasil a partir da década de 1530, foram organizadas expedições para vasculhar mais ao interior do território. Na região Nordeste, esses exploradores perceberam rapidamente que a floresta tinha uma largura máxima de 80 km e que o interior nordestino tinha um clima semiárido. 

Com o passar do tempo, os Governantes da Colônia organizaram expedições melhor estruturadas para avançar mais a fundo território a dentro – essas expedições eram conhecidas como bandeiras e seus membros conhecidos como bandeirantes. Talvez você não saiba, mas, além das conhecidas bandeiras organizadas pelos paulistas, existiram várias bandeiras nordestinas. Essas bandeiras descobriram que, muito além do semiárido nordestino, existia um tipo de vegetação e um clima diferente, que parte do ano era chuvosa e na outra seca. Falamos aqui do Cerrado

Esse grande “desertão” interior do território brasileiro, que passou a ser chamado apenas de sertão, com terras ácidas e de pouca fertilidade, acabou ficando em um plano secundário até poucas décadas atrás. No começo da década de 1970, a EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias, desenvolveu sementes de grãos adaptadas aos solos e ao clima do Cerrado, mudando completamente os destinos do bioma. Graças a essas sementes e aos grandes recursos hídricos da região, o Cerrado acabou transformado no novo celeiro do Brasil, quiçá do mundo

Além dos solos característicos, o Cerrado possui um clima muito peculiar – um período quente e chuvoso em cerca de metade do ano, seguido por um período quente e muito seco a seguir. Com um manejo adequado e com uso de irrigação, o bioma garante duas safras agrícolas por ano, uma vantagem altamente competitiva quando comparada a outros países de clima temperado, onde só é possível uma safra anual. 

O alerta de emergência hídrica, decretado pelo SNM – Sistema Nacional de Meteorologia, no último dia 27 de maio e sobre o qual falamos na última postagem, pode indicar que muitos produtores rurais terão problemas de falta de água para a irrigação de suas plantações. Esse alerta indica que as chuvas ficarão abaixo da média em grandes áreas dos Estados de Mato Grosso do Sul, Goiás, Minas Gerais, São Paulo e Paraná, áreas essas que estão dentro da bacia hidrográfica do rio Paraná. 

Solos férteis, sol e água, além de gases atmosféricos como o gás carbônico, são os insumos fundamentais para a pratica da agricultura. E quando falamos em água, falamos em muita água. De acordo com dados da FAO – Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, 70% da água disponível no mundo é utilizada para irrigação de plantações. No Brasil, esse índice é ligeiramente maior – são 72%. 

Porém, isso não é tudo – a tendência é que haja um aumento de 50% no uso da água em sistemas de irrigação nos países mais desenvolvidos até o ano de 2025. Em países em desenvolvimento como o Brasil, projeta-se um aumento de até 18% no consumo no mesmo período.  

Para complicar ainda mais a situação, os chineses tem aumentado continuamente as suas importações de alimentos e vivemos uma forte pressão para o aumento da oferta de grãos. Ou seja, estamos gastando volumes cada vez maiores de água para irrigação de nossos campos, especialmente na região do Cerrado. Em tempos de poucas chuvas, isso representa um grande problema. 

De acordo com a EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias, a irrigação é um método artificial de aplicação de água na agricultura, cujo principal objetivo é viabilizar os cultivos nos locais onde a escassez de água limita a atividade agrícola. A aplicação da água pode ser feita das seguintes formas: total, suplementar, com déficit hídrico e de salvação

Irrigação total é aquela onde toda a água necessária para atender a demanda hídrica das culturas é aplicada via irrigação. Irrigação suplementar ocorre quando é necessário compensar as perdas de água das chuvas que evaporaram com o calor. Irrigação com déficit ocorre quando se planeja atender somente uma fração da demanda hídrica da cultura e irrigação de salvação quando se planeja irrigar somente num período relativamente curto ou em um estágio do cultivo. Todas essas técnicas de irrigação são o resultado de milhares de anos de experiência da humanidade com o cultivo da terra em diferentes solos e climas. 

Foram desenvolvidas diferentes técnicas de irrigação ao longo das diferentes épocas. As mais usadas atualmente são: 

Irrigação de superfície: a água é aplicada de forma concentrada, em sulcos de irrigação abertos paralelamente às fileiras das plantas. É um método que apresenta baixa eficiência no uso da água. É recomendado apenas para situações específicas de solos de textura médio-argilosa e topografia plana. Essa é a técnica mais tradicional, que vem sendo usada desde a antiguidade, normalmente utilizada por pequenos produtores. A água corre pelos sulcos usando a força da gravidade ou usando sistemas elementares de bombeamento: manual, por tração animal ou por “moinhos” de vento; 

Irrigação por aspersão: a água é aplicada por emissores chamados de aspersores, que possuem bocais, por onde a água é aspergida sob pressão, em forma de uma chuva artificial (vide foto). Os aspersores são conectados por conjuntos de tubulações a uma bomba centrífuga, responsável pela pressurização do sistema. É um método que apresenta uma eficiência de aplicação de água em torno de 70% a 80%.  

Irrigação localizada: a água é aplicada de forma localizada, próxima às fileiras das plantas. O sistema de irrigação mais utilizado é o gotejamento subsuperficial, no qual as linhas gotejadoras são enterradas a uma profundidade de 25 centímetros, entre as fileiras duplas das plantas. Apresenta elevada eficiência de aplicação de água – 90% a 95%. Como desvantagem, apresenta elevado investimento inicial com a aquisição das linhas gotejadoras, tubulações, filtros e acessórios, sendo por isso ainda pouco utilizada. 

Aqui no Brasil, a irrigação por aspersão é a mais utilizada. Além das perdas de água por evaporação, esses sistemas costumar apresentar grandes desperdícios de água por problemas em mangueiras, bombas ou simplesmente pela operação inadequada – muitos produtores fazem a irrigação em horários de excessivo calor, o que resulta em perdas ainda maiores. 

Sistemas de irrigação localizada por micro gotejamento, que são os mais eficientes e são comuns em países com agricultura altamente desenvolvida como é o caso de Israel, são extremamente caros para a realidade de muitos dos nossos produtores rurais e farão muita falta nesse momento de rios com baixos níveis e chuvas raras em muitas regiões. 

Em tempos com mudanças climáticas em andamento e com variações visíveis nos padrões de chuva em muitas regiões de nosso país, será cada vez mais importante que se façam discussões sérias sobre os usos e as perdas de água na nossa agricultura. Isso é fundamental em um país que está se transformando numa das maiores potências agrícolas do mundo. 

ALERTA DE EMERGÊNCIA HÍDRICA DECRETADO EM CINCO ESTADOS

O SNM – Sistema Nacional de Meteorologia, emitiu no último dia 27, um alerta conjunto de emergência hídrica para a área da bacia hidrográfica do rio Paraná, na região que abrange os Estados de Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso do Sul, São Paulo e Paraná. O comunicado informa que a região terá chuvas abaixo da média entre os meses de junho e setembro de 2021

Criado oficialmente no dia 3 de maio de 2021, o SNM reúne serviços do INMET – Instituto Nacional de Meteorologia, INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais e CENSIPAM – Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia, e tem como objetivo o fortalecimento das competências centrais de cada uma das instituições.  

Esses órgãos federais são vinculados MAPA – Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, MCTI – Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações e MD – Ministério da Defesa. Entre outros objetivos, o SNM tem a missão de eliminar a sobreposição de atividades e gerar uma cadeia de processos, produtos e dados interligados e complementares

Além das entidades citadas, o alerta do SNM também foi subscrito por todos os órgãos federais ligados à meteorologia, a ANA – Agência Nacional de Águas e o CEMADEN – Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais. 

O alerta do SNM informa que “a análise das chuvas entre outubro de 2019 a abril de 2021 para a bacia do rio Paraná indica que, com exceção de alguns meses quando as precipitações ficaram acima da média climatológica, durante a maior parte do período houve predomínio de déficit hídrico de precipitação, principalmente a partir de fevereiro de 2021.” 

Os dados indicam que o período entre os meses de junho, julho e agosto será caracterizado por um menor volume de chuvas na bacia hidrográfica do rio Paraná. O alerta também esclarece que os dados são consistentes com avaliações de outros centros internacionais de previsão climática. No mês de maio, citando um exemplo, os volumes acumulados de chuva foram de 27 mm na região da bacia do Alto rio Paraná – no mesmo período do ano passado, o volume acumulado havia sido de 98 mm

Conforme comentamos em postagens publicadas nas últimas semanas, os baixos níveis nos reservatórios de usinas hidrelétricas nas Regiões Sudeste e Centro-Oeste representam uma grande ameaça para a geração de energia elétrica no país. De acordo com dados do ONS – Operador Nacional do Sistema Elétrico, as chuvas abaixo da média histórica resultaram nos piores volumes de água acumulada nos reservatórios no período de setembro de 2020 a maio de 2021 em uma série de 91 registros. 

O CMSE – Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico, inclusive, realizou uma reunião em caráter extraordinário no mesmo dia 27 de maio, para avaliar as condições de suprimento energético ao SIN – Sistema Interligado Nacional. Entre outras medidas, o CMSE “decidiu implementar flexibilizações das restrições hidráulicas relativas às usinas hidrelétricas Jupiá, Porto Primavera, Ilha Solteira, Três Irmãos, Xingó, Furnas e Mascarenhas de Moraes.”  

Além de garantir a geração de energia elétrica, insumo fundamental para o país, essas medidas têm como objetivo garantir o fluxo dos caudais e a preservação do uso da água ao longo do período seco de 2021. Falamos aqui do abastecimento de populações, irrigação de plantações, navegação hidroviária, entre outros usos. 

Um claro indicador da situação crítica no alto curso da bacia hidrográfica do rio Paraná é o rio Grande que, junto com o rio Paranaíba, forma o rio Paraná. O principal reservatório dessa sub-bacia hidrográfica é Furnas, mais conhecido como o “mar de Minas”. De acordo com dados do ONS do dia 27 de maio, Furnas está com 36,87% de sua capacidade. Os reservatórios das Usinas Hidrelétricas Água Vermelha e Marimbondo estão com níveis extremamente baixos – 8,70% e 6,59%, respectivamente. 

Na sub-bacia do rio Paranaíba, a situação também não é nada animadora – a exceção da Usina Hidrelétrica de Batalha, que tem seu reservatório com 51,65% da sua capacidade máxima, todos os demais reservatórios estão com capacidades entre 11 e 28%, valores muito baixos quando se considera que o período mais seco do ano ainda está para começar. 

Os baixos caudais nos rios Grande e Paranaíba são refletidos diretamente no reservatório da Usina Hidrelétrica de Ilha Solteira, o primeiro grande aproveitamento das águas do rio Paraná. Os dados do ONS indicam que o nível do reservatório está em 47,03% da sua capacidade máxima. 

Os efeitos da seca também são visíveis no alto da bacia hidrográfica do rio Tocantins. O reservatório da Usina Hidrelétrica de Serra Mesa em Goiás está em 36,95% da sua capacidade máxima. Esse reservatório funciona como um regulador dos caudais do rio Tocantins e garante o funcionamento de várias usinas geradoras a jusante. 

Felizmente, o país ainda pode contar com o potencial de geração de grandes usinas hidrelétricas como Tucuruí, localizada no mesmo rio Tocantins, mas que está com seu reservatório praticamente cheio. Outro caso é o de Itaipu, localizada no médio curso do rio Paraná e cujo reservatório também está com um ótimo nível de armazenamento. Apesar dessas boas notícias, a situação requer muito cuidado. 

Um destaque importante que não pode ficar de fora desta breve análise é a forte produção agrícola desenvolvida na região da bacia hidrográfica do alto rio Paraná. Em qualquer lugar do mundo, a agricultura é a maior consumidora de água – em média, perto de 70% dos recursos hídricos de uma região são consumidos pelas atividades agrícolas. Os principais “gastadores de água” são os sistemas de irrigação das plantações. 

É comum encontrarmos nessas regiões fazendas que utilizam sistemas com tecnologias obsoletas, onde há um consumo exagerado de água e, portanto, um grande desperdício. São mangueiras vazando, pivôs desregulados e controle das operações feitos por funcionários mal treinados. Como resultado, há um consumo exagerado de água. De acordo com as estimativas, 2021 será um ano de safra recorde em várias culturas, o que num período de crise hídrica é um grande problema. 

Em um momento em que a pandemia da Covid-19 ainda não está totalmente controlada e em que a economia ainda sofre com restrições para a livre circulação de pessoas, a “salvação da lavoura” da economia do país está vindo, literalmente, da agropecuária. E como há muitos interesses em jogo, corre-se o risco de as autoridades fazerem vista grosso a alguns exageros dos produtores agrícolas no quesito consumo de água. 

Além de torcermos por boas chuvas no final do ano, precisamos cuidar do bom gerenciamento dos recursos hídricos nesses meses de seca, especialmente nos Estados citados no alerta do SNM. Como demostramos, a crise que estamos vivendo ameaça muito mais do que a geração de energia elétrica.