OS PROBLEMAS DE SANEAMENTO BÁSICO QUE CHEGAM ATÉ VOCÊ, MESMO VOCÊ ESTANDO BEM LONGE

Hortas do cinturão verde

Na postagem anterior falamos da aprovação pela Câmara dos Deputados do texto-base do Projeto que trata do novo marco legal do saneamento básico. Sendo aprovado, esse projeto permitirá, entre outras coisas, a exploração dos serviços de abastecimento de água e de coleta e tratamento de esgotos por um número maior de empresas do setor privado, uma iniciativa que permitirá ampliar, e muito, a prestação desses serviços aqui no Brasil. Cerca de 48% da população brasileira não tem acesso à redes coletoras de esgotos, o que nos dá uma ideia da precariedade do saneamento básico no Brasil.

Quem mora em bairros bem estruturados nas cidades, especialmento em apartamentos, talvez não sinta as dificuldades vividas pela maior parte da população em relação ao saneamento básico. Entretanto, os problemas criados pela falta de uma boa infraestrutura de saneamento básico podem chegar até a sua casa. Um bom exemplo são os mosquitos Aedes Aegypti, transmissores de doenças como a Dengue, a Zica e a Chikungunya, que sempre dão um jeitinho e conseguem chegar às melhores casas das cidades. Um outro caminho são alimentos como verduras e legumes que podem ter sido irrigados com água contaminada por esgotos.

Um estudo publicado em julho de 2017 pela respeitada revista Environmental Research Letters confirmou que, em todo o mundo, uma área equivalente à da Alemanha (aproximadamente 30 milhões de hectares) é irrigada com água contaminada pelos esgotos das cidades. De acordo com modelos matemáticos elaborados pelos autores desse estudo, cerca de 885 milhões de pessoas consomem verduras e vegetais produzidos sob essas condições, ficando expostas a uma infinidade de patógenos, como parasitas e bactérias, com significativos riscos à saúde.

A Environmental Research Letters é uma revista científica trimestral em língua inglesa, publicada exclusivamente no formato eletrônico e com acesso aberto, especializada na divulgação de pesquisas em todos os aspectos da ciência ambiental. A revista é publicada desde 2006, tendo como editor-chefe Daniel Kammen, da conceituada Universidade da Califórnia, em Berkeley. Os dados dessa pesquisa vão de encontro a estudos da OMS – Organização Mundial da Saúde, que demonstram que mais de 10% da população mundial, ou 700 milhões de pessoas, consome regularmente alimentos produzidos a partir da irrigação com águas residuais. Com o crescimento da urbanização em todo o mundo, a tendência é de um aumento cada vez maior do uso dessas águas nas lavouras.

Cinturões verdes são uma espécie de subproduto da urbanização – desde a antiguidade, se observa que sempre que uma aglomeração humana era organizada, surgia um pequeno cinturão verde ou área agrícola nas vizinhanças, com o papel de fornecer frutas e vegetais frescos para a população, além de aves, ovos, leite e outros produtos de origem animal. Outro produto dessas aglomerações é o esgoto, tradicionalmente lançado nas águas para o transporte e dispersão. Logo, a combinação de águas poluídas e irrigação é uma prática muito antiga, que só fez aumentar ao longo do tempo.

Não custa lembrar que, diariamente, 5,5 mil toneladas de esgotos não tratados são lançadas em rios e córregos de todo o Brasil – quase metade dos esgotos gerados em nossas cidades não recebe qualquer tipo de tratamento. A situação não é muito melhor em países como China, Índia, Paquistão, México, Irã, Argentina, África do Sul, entre outros países mundo afora, que despejam bilhões de litros de esgotos em suas águas todos os dias. E são, justamente, as águas usadas pelos pequenos agricultores na irrigação de suas hortas e culturas.

O problema é mais complexo do que parece ser: essas mesmas águas poluídas são usadas para o abastecimento de populações e se os sistemas de tratamento não forem eficientes, a água servida à população poderá chegar já contaminada com todo o tipo de patógenos. Ou seja, a população poderá sofrer contaminações tanto através da água que consome, quanto pelas verduras e legumes que come.

Um exemplo que posso citar foi um surto de toxoplasmose que se abate na cidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul em meados de 2018. foram confirmados mais de 900 casos, sendo que vários dos doentes eram mulheres gestantes – diversos bebês contraíram a doenças ainda no útero da mãe. Meses depois foi confirmado que a origem da doença foi a água servida à população pela rede pública de abastecimento, que estava contaminada com o protozoário Toxoplasma gondii e que foi disseminado pelos esgotos da cidade, que por falta de tratamento contamiram as fontes de água.

Um outro exemplo que demonstra os riscos da contaminação das águas foi demonstrado em um pesquisa feita pela Vigilância Sanitária da cidade de Ribeirão Preto, na Região Noroeste do Estado de São Paulo. Entre fevereiro de 2000 e setembro de 2001, foi realizado um estudo sobre a qualidade das hortaliças vendidas na cidade, onde também foi avaliado o uso de águas contaminadas na irrigação de plantações produtoras dessas hortaliças. O estudo avaliou a qualidade de 103 hortaliças e suas respectivas águas de irrigação, provenientes de 88 hortas diferentes. As amostras de água foram recolhidas em frascos de 250 ml, esterilizados e específicos para análise microbiológica.

Das hortas selecionadas para o estudo, 47 já haviam sido avaliadas em um estudo anterior e 41 nunca haviam sido avaliadas. 67 hortas passaram por testes para avaliação da presença de coliformes fecais a 45° C na água e nas hortaliças – 30 hortas ou 44,8% apresentaram níveis acima do limite tolerado;

21 hortas foram analisadas de acordo com a legislação em vigor da Autarquia – 6 hortas ou 28,5% apresentaram água de irrigação com níveis de coliformes fecais acima do limite tolerado a uma temperatura de 45° C. Relembrando: coliformes fecais são encontrados nos intestinos de animais de sangue quente como bovinos, suínos, aves e seres humanos, o que indica a contaminação das águas por fezes

A presença simultânea de parasitas foi detectada em 15 hortas ou 17% das 88 hortas avaliadas, sendo que em uma das amostras foi encontrada a Giardia spp, um parasita altamente resistente, que pode contaminar água e alimentos; 

Um detalhe preocupante dessa pesquisa é que Ribeirão Preto é uma das cidades mais ricas do interiro de São Paulo e fica numa região que é chamada, informalmente, de Califórnia Brasileira. A cidade possui índices de atendimento da população por redes de abastecimento de água e de coleta de esgotos bem acima da média brasileira. Se esses índices de contaminação de alimentos foi encontrado por lá, imagine a situação nas regiões mais pobres do país.

Além dos problemas com os alimentos contaminados, ainda é preciso lembrar dos milhões de trabalhadores rurais, que ficam em contato diário com essas águas contaminadas e expostos a todos os tipos de patógenos e outros poluentes presentes nos esgotos de uma cidade, com destaque para os metais pesados como mercúrio, zinco, cádmio e níquel. 

Um importante recado final: na dúvida sobre a origem das verduras e legumes que você consome, use sempre uma solução com hipoclorito de sódio para a higienização antes do consumo desses alimentos.

QUASE METADE DA POPULAÇÃO BRASILEIRA NÃO TEM ACESSO A REDE DE ESGOTOS, OU O NOVO MARCO LEGAL DO SANEAMENTO

Esgoto correndo a céu aberto

Uma notícia importante e que precisa ser comentada aqui no blog foi a aprovação pela Câmara dos Deputados ontem, dia 11 de dezembro, do texto-base do Projeto que estabelece o novo marco legal do saneamento básico aqui no Brasil. Essa é uma medida importante e que abre caminho, finalmente, para a universalização dos serviços de abastecimento de água e de coleta e tratamento de esgotos, duas das áreas mais importantes do saneamento básico.  

O Projeto estabelece novas regras para o setor e abre caminho para a exploração desses serviços pela iniciativa privada. Conforme já comentei em diversas postagens, Governos dos três níveis não gostam de gastar dinheiro em obras enterradas como são os sistemas de esgotos – são projetos caros, trabalhosos, demorados e que não tem muita visibilidade junto ao eleitorado. Políticos preferem gastar dinheiro em obras visíveis como os grandes prédios de hospitais e de escolas (nada de contratatar mais médicos e professores), em pontes e grandes avenidas, onde podem inclusive batizar as obras com o nome de algum amigo ou familiar. Gastar rios de dinheiro com esgotos – nem pensar! 

Com a possibilidade de abertura desses serviços para a iniciativa privada, as coisas mudam de patamar. O capital privado busca alternativas e negócios onde possa ganhar dinheiro. Se uma empresa ou grupo empresarial perceber que é possível ganhar explorando esses serviços, com certeza farão todo o possível para viabilizar os serviços e mandar uma “continha” mensal para todos os usuários. Caberá aos Governos exercer uma robusta fiscalização no acompanhamento dos serviços prestados e, principalmente, na contenção dos preços abusivos desses serviços. 

O Brasil vive uma verdadeira tragédia socioambiental quando o assunto é saneamento básico: 48% da população não tem acesso aos sistemas de esgotos sanitário – onde existe esse serviço e é feita a coleta, apenas metade do esgoto coleta acaba sendo tratado. Cerca de 35 milhões de brasileiros não tem acesso a água tratada. Em 2017, foram 289 mil internações por diarreia, uma doença ligada diretamente a falta de saneamento básico – metade dessas internações foram de crianças com até 5 anos de idade. Os serviços de coleta e disposição final de lixo e detritos, que também fazem parte do saneamento básico, também são uma tragédia. Serviços de coleta de águas pluviais, nem pensar. 

Saneamento básico pode ser definido como o conjunto de serviços que garante as condições de higiene e saúde da população ou série de medidas que tornam uma área sadia, limpa, habitável, oferecendo condições adequadas de vida para uma população ou para a agricultura. Esses serviços ou medidas são: abastecimento de água, sistemas de drenagem de águas pluviais (chuva), serviços de limpeza urbana e coleta/destinação de lixo e resíduos sólidos, além dos sistemas de coleta e de tratamento de esgotos 

Há um quinto serviço – o controle de pragas e vetores (ratos, baratas, mosquitos, pulgas entre outros), que tradicionalmente é encontrado dentro dos demais serviços; devido às características de nosso país, com nuvens de mosquitos causando doenças como dengue, zika e chikungunya nas nossas cidades, eu prefiro tratar esse tema como um serviço à parte. 

Uma cidade ou localidade que possui todos os serviços de saneamento básico em funcionamento perfeito e integrado é um lugar verdadeiramente saudável para se viver. Saneamento e saúde são muito próximos, inclusive na origem latina das palavras: salus, origem da palavra saúde, significa inteirointacto e integrosanus, origem da palavra saneamento, significa puroimaculado e perfeito. Portanto, falar de saúde sem o saneamento básico, é algo bastante difícil. 

Um detalhe da votação na Câmara dos Deputados foi o placar – foram 276 votos a favor e 124 contra – 1/3 dos Deputados foi contra o Projeto. Presos a razões puramente ideológicas, muitos Deputados “tremem” ao ouvir a palavra privatização – para eles, isso significa entregar os bens públicos para a espoliação pelo grande capital. Pouco importa se pessoas estão morrendo por causa da Dengue ou febre amarela, ou se milhares de crianças pequenas estão sendo infectadas pela diarreia. 

Ao longo da minha carreira profissional, trabalhei em diversas obras na área do saneamento básico e sei das dificuldades para realizar tais empreendimentos. Um caso que sempre costumo citar foi o projeto para a implantação da rede coletora de esgotos da cidade de Porto Velho, em Rondônia. Há época em trabalhei por lá, entre 2009 e 2010, a cidade tinha perto de 300 mil habitantes e apenas 3% da sua área atendida por redes de esgotos.

Mesmo contando com uma competente equipe técnica, com modernos equipamentos e com recursos disponibilizados pelo Governo Federal, a empresa só conseguiu implantar 32 km de rede coletora de esgotos em um ano e meio de trabalho. Brigas políticas entre a Prefeitura da cidade, dirigida por um partido de esquerda, e do Governo do Estado, de partidos de direita, inviabilizou as obras e levou ao bloqueio das verbas junto ao Governo Federal. 

Na minha modesta opinião, se os governantes não tem interesse ou capacidade para a gestão de uma área tão importante, que se deixe o capital privado investir, com todos os riscos da atividade por sua conta, cobrando preços justos e sob uma impetuosa fiscalização pelo Poder Público. O que não podemos é continuar assistindo a verdadeira tragédia que temos na área do saneamento básico de braços cruzados e esperando que um dia as coisas “melhorem” milagrosamente. 

Há ainda um longo caminho a ser seguido, mas o primeiro passo já foi dado. 

OS BAIXOS NÍVEIS DO AÇUDE CASTANHÃO E OS PROBLEMAS DO ABASTECIMENTO DE ÁGUA NA REGIÃO METROPOLITANA DE FORTALEZA

VISITA A OBRAS DA TRANSPOSIÇÃO DO SÃO FRANCISCO E DO CAC COM

A dificuldade no acesso às fontes de água para o abastecimento de populações pode ser colocada no topo da lista de problemas de muitas cidades aqui no Brasil e pelo mundo afora. Na nossa última postagem falamos dos problemas enfrentados pelas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro; também falamos das dificuldades de Nova York, a maior cidade dos Estados Unidos da América, e de Bogotá, a capital de nossa vizinha Colômbia. Motivadas por problemas diferentes, essas cidades tem em comum a necessidade de buscar a água necessária ao abastecimento de suas populações a centenas de quilômetros de distância. 

Existem também os casos de muitas cidades que, apesar de todos os esforços para a realização de grandes obras, não tem conseguido sucesso nessa empreitada. Um bom exemplo é Fortaleza e toda a sua Região Metropolitana, que vem sofrendo há muitos anos com baixos estoques de água. O Governo do Estado empreendeu tempo e recursos na construção de um grande açude no interior do Estado para o armazenamento de água, além de implantar uma grande infraestrutura para o transporte do recurso por mais de 230 km até a Região Metropolitana. Apesar de todas as boas intenções, a natureza não ajudou e este ano não há muita água armazenada – estou falando do Açude Castanhão e sua saga. 

A região Metropolitana de Fortaleza possui 15 municípios e tem uma população de mais de 4 milhões de habitantes, o que corresponde a mais da metade de toda a população urbana do Estado do Ceará. Diferente da faixa litorânea do Leste nordestino, o litoral cearense se apresenta como uma extensão do Semiárido, com uma disponibilidade limitada de água. O principal sistema de abastecimento de água da Região é o Sistema Integrado Gavião, formado pelos reservatórios Pacajus, Pacoti, Riachão e Gavião, entre outros açudes menores.  

De acordo com informações atualizadas da CAGECE – Companhia de Águas e Esgotos do Ceará, “esses reservatórios estão com um bom nível e tem um volume de água suficiente para atender a população da Região Metropolitana de Fortaleza pelos próximos 6 meses“, o que deixa muita pouca margem para situações de emergência. O Sistema Cantareira, principal manancial de abastecimento de água da Região Metropolitana de São Paulo, pode armazenar água suficiente para abastecer grande parte da população por até 3 anos e, mesmo assim, os paulistanos passaram por um enorme sufoco durante a seca que se abateu na Região entre 2014 e 2016. 

Foi justamente para garantir a segurança hídrica da população que foi construído o Açude Castanhão. Inaugurado em 2002, o Castanhão tinha como principal objetivo o de se transformar no maior e principal de abastecimento da Região Metropolitana de Fortaleza, apesar de estar localizado no interior do Estado, a aproximadamente 230 km da capital. Com capacidade para armazenar um volume total de 6,7 bilhões de m³ de água, esse açude é considerado o maior reservatório para usos múltiplos da América Latina. Esse volume corresponde a quase 40% da capacidade total de armazenamento de todos os 8 mil açudes do Ceará, incluindo na lista o famoso Açude Orós, que durante décadas foi o maior de todos. 

Apesar de toda a sua infraestrutura e de todas as expectativas criadas com a construção do Açude do Castanhão, a natureza não tem feito a sua parte nos últimos anos, com chuvas abaixo da média em alguns anos e extremamente irregulares e dispersas em outros. Como resultado dessa falta de “colaboração” da natureza, o nível do Castanhão hoje – 10/12/2019, é de apenas 3,12% da sua capacidade total. Desde o último mês de abril, a captação de água no Açude para o abastecimento da Região Metropolitana está suspensa. 

O Açude Castanhão está localizado oficialmente no município de Alto Santo, porém, o reservatório se distribui em áreas de diversos municípios. O principal rio formador do reservatório é o rio Jaguaribe, o maior rio do estado do Ceará com uma extensão total de 633 km. A bacia hidrográfica do rio Jaguaribe ocupa mais da metade do território cearense e seus caudais são bastante sensíveis aos períodos de forte estiagem, característica que já rendeu o apelido de “maior rio seco do mundo”. Além do Castanhão, o rio Jaguaribe também abriga o famoso Açude Orós e uma infinidade de outros açudes de pequeno porte. 

A instabilidade dos caudais do rio Jaguaribe tem reflexos diretos no Açude Castanhão e, consequentemente, no abastecimento de água da Região Metropolitana de Fortaleza. Entre 2012 e 2015, quando toda a região do Semiárido Nordestino enfrentou uma fortíssima estiagem, o Açude entrou no volume morto e a população foi obrigada a fazer um enorme esforço para economizar água. Já em 2016, o Castanhão foi o principal manancial de abastecimento da Região Metropolitana, fornecendo 70% da água consumida pela população. 

Em 2019, o Estado do Ceará apresentou um volume de chuvas acima da média histórica, o que infelizmente não teve reflexos no aumento do nível do Açude Castanhão. As chuvas não foram uniformes e a bacia hidrográfica do rio Jaguaribe acabou sendo bastante prejudicada. O volume do reservatório aumentou apenas 5 pontos percentuais ao longo desse ano, ficando com um volume 3% menor do que o aumento registrado em 2018. Uma das esperanças da população local é a chegada das águas da Transposição do Rio São Francisco – um dos canais do sistema, com cerca de 400 km de extensão, chegará até o Ceará e as águas transpostas reforçarão os caudais do rio Jaguaribe. 

Os baixíssimos níveis do Açude Castanhão também ameaçam uma série de pequenos municípios do interior cearense como Tabuleiro do Norte, São João do Jaguaribe, Limoeiro do Norte, Jaguaribara e Russas. A se manterem os baixos níveis no reservatório, esses municípios terão o seu abastecimento comprometido a partir do final de janeiro de 2020. Diversos outros municípios que eram atendidos pelo Açude Castanhão estão captando água em poços profundos ou estão buscando pequenos açudes que ainda tem água em seus territórios. 

O Ceará é, historicamente, um dos Estados do Nordeste que mais sofreu com os fortes períodos de estiagem. O Semiárido Nordestino é frequentemente assolado por fortes secas – há registros de grandes tragédias em 1744, 1790, 1877, 1915 e 1932, além de uma infinidade de estiagens menos intensas. Essas fortes secas costumam durar de 2 a 3 anos – as secas de 1877 e de 1932 foram excepcionalmente fortes. Na seca de 1877, conforme comentamos em uma postagem anterior, cerca de 500 mil sertanejos nordestinos que fugiram da seca foram recrutados para trabalhar nos seringais da Amazônia. A grande maioria desses trabalhadores saiu do Ceará, trocando a miséria do sertão pela semiescravidão na Floresta Amazônica

Apesar de contar com a chegada das águas da Transposição do Rio São Francisco, um projeto que já sofreu diversos adiamentos, o Governo do Estado do Ceará tenta buscar outras alternativas para aumentar a disponibilidade de água para o abastecimento de sua população. A mais ousada é um projeto para a instalação de uma grande usina de dessalinização da água do mar na Região Metropolitana. Nas pequenas cidades, os esforços se concentram na escavação de poços e na construção de cisternas nas propriedades rurais. 

Como você pode notar, abastecer grandes populações com água de boa qualidade requer esforços monumentais dos governos e empresas de saneamento básico, e ainda é preciso contar com uma boa ajuda da mãe natureza.

 

AS DIFICULDADES DOS SERVIÇOS DE ABASTECIMENTO DE ÁGUA NAS GRANDES CIDADES, OU BUSCANDO A ÁGUA EM DISTÂNCIAS CADA VEZ MAIORES

Páramos andinos

Na nossa última postagem, falamos da chegada do período das chuvas de verão na Região Centro-Sul do Brasil. Como acontece todos os anos, esse é um período marcado por enchentes, alagamentos e desmoronamento de encostas em muitas cidades, onde o crescimento não foi acompanhado por um planejamento urbano adequado e por obras de infraestrutura, especialmente na área do saneamento básico. Mesmo com todos esses problemas, essas chuvas são fundamentais para a recomposição dos níveis das represas de abastecimento de água e também nos reservatórios das usinas hidrelétricas

Uma informação transversal que surgiu no texto dava conta das dificuldades para o abastecimento das cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro, onde a água precisa ser captada a centenas de quilômetros de distâncias e transportada por complexos sistemas de bombeamento e transposição entre bacias hidrográficas. Esse tema é bem interessante e vamos falar um pouco mais sobre isso hoje. 

A cidade de são Paulo, fundada pelos padres Jesuítas em 1554, seguiu uma “fórmula” muito usada na Idade Média – o assentamento foi formado entre dois rios. De um lado, o rio Tamanduateí, que foi responsável pelo abastecimento de água da população até meados do século XIX; de outro lado, o rio Anhangabaú, escolhido para receber e dispersar o lixo e os resíduos gerados pelos moradores. A escolha do Anhangabaú para essa triste função teve uma boa ajuda dos indígenas – dentro do folclore local, esse rio era amaldiçoado e evitado desde tempos imemoriais pelos índios. 

Com o crescimento da cidade de São Paulo, cresceu também a poluição das águas do rio Tamanduateí, que apresentava uma qualidade cada vez pior. Por volta da década de 1880, a Prefeitura da cidade resolveu buscar água na então distante Serra da Cantareira, famosa pelas suas muitas fontes de água cristalina. Foi criado então o primeiro Sistema Cantareira, que foi responsável por parte importante do abastecimento da cidade até o início da década de 1970, época em que o aumento explosivo da população da Região Metropolitana exigiu a construção de um novo e muito maior sistema de abastecimento de água. 

Sem contar com importantes fontes de água disponíveis nas proximidades, foi escolhida a Região Entre Serras e Águas na divisa com o Estado de Minas Gerais, a mais de 100 km de distância do centro da cidade de são Paulo. Alguns dos principais mananciais do Sistema tem nascentes no Estado vizinho como é o caso do rio Camanducaia. As distâncias que são percorridas pelas águas do Sistema Cantareira chegam até 160 km, onde se incluem represas, canais, tuneis e estações de bombeamento. O Cantareira atende atualmente 7,5 milhões de habitantes. Numa eventual saturação do Sistema Cantareira, a Região Metropolitana de São Paulo terá de buscar águas no rio Ribeira de Iguape, a mais de 250 km de distância.

Na cidade do Rio de Janeiro e municípios vizinhos da Região Metropolitana, cerca de 80% da água usada no abastecimento vem do rio Paraíba do Sul – a margem desse rio mais próxima da capital fluminense fica a quase 200 km de distância. A escolha do sítio onde foi fundada a cidade do Rio de Janeiro se deu em função das boas condições da Baía da Guanabara para o atracamento de grandes embarcações. Apesar da localização altamente estratégica, a região não possui grandes rios e o abastecimento de água sempre foi problemático na cidade. 

A solução para os problemas de abastecimento de água no então Estado da Guanabara, antiga Capital Federal do Brasil, começou a ser resolvida com a entrada em cena da Light & Power Company, empresa que ganhou a concessão dos serviços de geração e distribuição de energia elétrica. A primeira grande obra da empresa foi a Usina Hidrelétrico de Fontes, iniciada em 1903, seguida pela Barragem de Lajes, iniciada em 1905, além de usinas hidrelétricas na calha do rio Paraíba do Sul

Em1950, buscando atender o grande aumento na demanda de energia elétrica do Rio de Janeiro, a Light iniciou a construção da Barragem de Santa Cecília no rio Paraíba do Sul. Essa estrutura fazia parte de um grande sistema de transposição das águas do rio Paraíba do Sul na direção de represas e usinas hidrelétricas da Light no interior do Estado. Graças a esse complexo sistema de transposição, cerca de 60% dos caudais do rio Paraíba do Sul passaram a ser desviados – depois de passar pelas turbinas de geração de energia elétrica, essa água era lançada na bacia hidrográfica do rio Guandu e assim seguia na direção da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, passando a ser usada no abastecimento da população local. 

Uma outra grande cidade que tem de se esforçar bastante para garantir o abastecimento de sua população é Nova York, a maior cidade dos Estados Unidos, que abriga uma população de mais de 15 milhões de habitantes em sua Região Metropolitana. A maior parte da população se concentra em 5 grandes ilhas, localizadas entre o Oceano Atlântico e a foz do rio Hudson. O sistema de abastecimento de água da cidade começou a ser construído em 1830, captando águas no rio Hudson a montante da mancha urbana. A proximidade com as águas salgadas do oceano é sempre problemática para um sistema de abastecimento de água. A intrusão de água salgada na calha do rio, que em algumas épocas do ano aumenta muito, sempre obrigou a captação a grandes distâncias da foz. 

No início da década de 1990, o sistema de abastecimento de água de Nova York atingiu um ponto de saturação, sem conseguir atender mais o crescimento da demanda. Sem contar com recursos para a construção de um novo sistema produtor, orçado na época em US$ 5 bilhões, a empresa de águas da cidade iniciou um amplo programa de economia e uso racional da água, o que garantiu alguns anos de sobrevida ao antigo sistema. Nos últimos anos, contando com dinheiro para a realização das obras, Nova York iniciou a construção de seu novo sistema de abastecimento – as represas estão localizadas a mais de 170 km do centro da cidade, o que exigiu a construção de um complexo sistema de tubulações e túneis para o transporte da água. 

Outra grande cidade que podemos incluir na lista daquelas com dificuldade para o abastecimento de sua população é Bogotá, a capital da Colômbia. Com mais de 7 milhões de habitantes e localizada a uma altitude de 2.640 metros acima do nível do mar, Bogotá sempre contou com as águas do rio Madalena para o seu abastecimento. Esse importante rio, infelizmente, está apresentando uma série de problemas e, dentro de pouco tempo, o abastecimento da população poderá entrar em colapso. As nascentes do rio Madalena dependem da água resultante do derretimento da neve e do gelo acumulado no alto da Cordilheira dos Andes. Conforme comentamos em uma outra postagem, o aquecimento global está provocando o desaparecimento de uma série de geleiras nos Andes Tropicais

Até o início da década de 1950, existiam 14 grandes geleiras nos Andes colombianos – de lá para cá, 8 dessas geleiras já desapareceram e as 6 restantes estão apresentando uma diminuição sistemática de suas massas de gelo. Prevendo o desaparecimento iminente do rio Madalena, a cidade de Bogotá está realizando uma série de obras que permitirão a captação da água dos páramos andinos (vide foto), um tipo de vegetação arbustiva que cresce a partir de altitudes acima dos 3 mil metros e se estende até a linha de formação da neve. Esse tipo de vegetação é muito similar aos banhados dos Pampas Sulinos e tem a características de funcionar como uma esponja que absorve grandes quantidades de água.  

À diferença do rio Madalena, que corta a cidade de Bogotá, esses novos sistemas de captação de água nos páramos ficam a dezenas de quilômetros de distância da mancha urbana, o que vai dificultar e encarecer bastante a captação e o transporte da água

Buscar água em fontes cada vez mais distantes está se tornando uma frequente e triste realidade para as grandes cidades do mundo. 

AS SEMPRE AGUARDADAS CHUVAS DE VERÃO

Chuvas de Verão

Com a chegada do final do ano, tem início o período das fortes chuvas na Região Centro-Sul do Brasil, temporada que, normalmente, se estenderá até o final do mês de março. Em muitas das grandes e médias cidades da Região, a temporada das chuvas também se apresenta como um período de fortes transtornos e tragédias, com enchentes, alagamentos e desmoronamentos de encostas. Essas cidades, em sua grande maioria, cresceram e se desenvolveram sem maiores preocupações com o saneamento básico: esgotos e águas pluviais sempre foram tratados com muito descaso e improviso. Com a chegada das chuvas de verão, a “fatura” desse descaso acaba chegando a todos os seus habitantes. 

Apesar de todos os problemas e tragédias que chegam junto com as chuvas, essa é uma temporada aguardada com grande expectativa: são essas chuvas que enchem os reservatórios das usinas hidrelétricas e as represas de abastecimento das áreas urbanas, garantindo a água que será usada pelas populações ao longo do próximo ano. Um exemplo dessa importância é o Sistema Cantareira, o principal manancial de abastecimento da Região Metropolitana de São Paulo. 

De acordo com informações da Sabesp, empresa responsável pelo abastecimento de água em grande parte do Estado de São Paulo, hoje o Sistema Cantareira está com apenas 38% da sua capacidade de armazenamento (09/12/2019). De acordo com os parâmetros usados pela empresa, quando o nível do Sistema está entre 30% e 40% de sua capacidade, é considerado em Estado de Atenção e a retirada de água passa a ser limitada a 27 mil litros por segundo – de acordo com informações da empresa, a retirada já está abaixo de 25 mil litros/s a fim de economizar água

O Sistema Cantareira foi construído entre as décadas de 1960 e final da década de 1970, possuindo um total de cinco reservatórios na região conhecida como Entre Serras e Águas, que fica na divisa entre o Nordeste do Estado de São Paulo e o Sul de Minas Gerais. Esse sistema foi projetado com o objetivo de substituir o Sistema Cantareira Velho, em operação desde as últimas décadas do século XIX e que não estava mais atendendo as necessidades de consumo da Região Metropolitana. O novo Sistema Cantareira é formado por um complexo conjunto de represas, canais, túneis e estações de bombeamento, responsáveis por transportar a água por distâncias de até 160 km até chegar aos consumidores na Região Metropolitana de São Paulo.  

Até recentemente, o Sistema Cantareira era responsável pelo abastecimento de mais de 9 milhões de pessoas, porém, depois da grande crise de abastecimento vivida na Região entre os anos de 2014 e 2016, o Sistema atende “apenas” 7,5 milhões de pessoas atualmente. A água fornecida pelo Sistema Cantareira abastece as Zonas Norte, Oeste, Central e parte da Zona Leste da cidade de São Paulo, além dos municípios de Franco da Rocha, Francisco Morato, Caieiras, Osasco, Barueri, São Caetano do Sul e Guarulhos. O abastecimento de água da população é complementado por um conjunto de outros mananciais que formam os Sistemas Guarapiranga, Alto Tietê, Rio Grande, entre outros menores. 

Em abril de 2018, a Sabesp inaugurou o Sistema São Lourenço, um novo manancial com capacidade para atender uma população de até 2 milhões de habitantes nos municípios de Barueri, Carapicuíba, Cotia, Itapevi, Osasco, Jandira, Santana de Parnaíba e Vargem Grande Paulista. Esse novo Sistema veio aliviar parte da extrema dependência dos paulistanos em relação ao Sistema Cantareira e ajudar a prevenir os problemas criados pela grande seca de anos anteriores. 

A seca que se abateu na região Entre Serras e Águas a partir de 2014 foi fortíssima e levou o nível do sistema Cantareira para menos de 3% de sua capacidade de armazenamento. Foi necessária a implantação de uma rigorosa redução da pressão nas redes de abastecimento de água (o Governo paulista se recusa em admitir que foi um racionamento de água), além da realização de um conjunto de obras emergenciais para a captação e o transporte de água a partir de outros sistemas produtores. Nas represas do Sistema Cantareira foram realizadas obras que permitiram a captação da água localizada no chamado Volume Morto, uma reserva que está abaixo do nível normal de captação. 

O trauma deixado por essa grande seca também incentivou a construção de um sistema que permite a transposição de águas da Represa Jaguari, localizada na bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul, para a Represa do Atibainha, uma das formadoras do Sistema Cantareira. Inaugurado em março de 2018, esse sistema de transposição entre bacias hidrográficas permite a transferência de águas nos dois sentidos. Em momentos em que o Sistema Cantareira atingir o seu nível máximo, o que não acontece desde 2012, as águas excedentes poderão ser lançadas na Represa Jaguari, reforçando os estoques de água. Em momentos em que o Sistema Cantareira estiver com baixos níveis, a água será retirada da Represa Jaguari e bombeada na direção da Represa do Atibainha   

Apesar de estar localizada dentro do Estado de São Paulo, a Represa Jaguari, e outras localizadas ao longo da bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul, faz parte do sistema de armazenamento de água que é usado para o abastecimento do Estado do Rio de Janeiro. Um volume com cerca de 60% das águas do rio Paraíba do Sul é desviado para o Estado do Rio de Janeiro através de um sofisticado sistema de transposição, onde as águas são usadas primeiro para a geração de energia elétrica e depois são lançadas na direção do rio Guandu e usadas para o abastecimento de 80% da população da Região Metropolitana do Rio de Janeiro

Os Estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais já tiveram de disputar na Justiça o direito pelo uso das águas do rio Paraíba do Sul. A questão chegou inclusive ao STF – Supremo Tribunal Federal, onde foi estabelecido um sistema para a partilha dessas águas. A inauguração do sistema de transposição Jaguari-Atibainha, apesar de estar amparado pela lei, é visto com desconfiança pelos demais Estados que formam a bacia hidrográfica. 

A água é um dos recursos naturais mais escassos e disputados da atualidade. O Brasil está entre os países do mundo com a maior disponibilidade de água doce do planeta. Porém, como deve ser do conhecimento de todos, a maior parte desses recursos estão na Região Norte do país, onde fica a Bacia Amazônica. Em Estados densamente povoados como São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, o recurso é cada vez mais escasso, sendo intensamente disputado por populações, indústrias e agricultura. 

Dentro desse quadro complicado, onde o abastecimento de milhões de pessoas está em jogo, a chegada do período das chuvas é sempre bem-vindo, apesar de todos os eventuais transtornos envolvidos. 

Então, que venham as chuvas…

OS REFUGIADOS DO CLIMA

BANGLADESH-CLIMATE

Eu acredito que a maioria dos leitores deva conhecer a história de Noé, um dos velhos patriarcas da Bíblia. Alertado pelo próprio Deus sobre um iminente dilúvio que desabaria sobre a Terra, Noé recebeu instruções detalhadas para a construção de uma grande embarcação, através da qual poderia salvar sua família, vizinhos e os animais de uma morte certa por afogamento. Chamado de louco pelos seus compatriotas, Noé não se intimidou e gastou muitos anos em sua empreitada. Segundo a narrativa, um casal de cada espécie animal veio voluntariamente se abrigar na arca – nenhum outro ser humano além de Noé e sua família buscou refúgio contra a tragédia. Chuvas torrenciais caíram durante vários dias, cobrindo toda a Terra e matando todos os “pecadores”.  

Evidências geológicas indicam que, por volta do VI milênio antes de Cristo, houve mesmo uma grande enchente em regiões da Ásia Central. Segundo uma das hipóteses dos geólogos, uma série de fortes terremotos pode ter fechado ou reduzido o Estreito de Bósforo, na Turquia, o que foi seguido de períodos de fortes chuvas na Ásia Central. Isso levou a uma forte elevação do nível do Mar Negro, que acabou invadindo grandes extensões de territórios de baixa altitude. Milhares de pessoas (talvez milhões) foram obrigadas a abandonar suas terras e fugir para terrenos mais altos. A história de Noé e de sua saga aparece em diferentes narrativas de diversos povos da região, sendo que a maioria desses relatos são bem anteriores à versão descrita pelos judeus em seu livro sagrado. 

A narrativa do dilúvio bíblico é apenas uma entre milhares de outras histórias e relatos históricos (muitos se aproximam mais do misticismo) de grandes tragédias climáticas vividas por diferentes povos, em diferentes locais e tempos ao longo da história. O rumo e os destinos de muitos povos antigos foram, literalmente, destruídos por eventos climáticos extremos como secas, enchentes e furacões. Nações inteiras acabaram por serem destruídas pela fúria do clima e grandes contingentes populacionais foram deslocados para outras regiões. 

Nas últimas décadas, as mudanças climáticas globais criaram uma nova categoria de refugiados, que passaram a ser chamados de refugiados climáticos ou ambientais. Essa nova “classe” de refugiados veio de somar a outros milhões de deslocados por guerras e por tragédias ambientais naturais. De acordo com estimativas da ONU – Organização das Nações Unidas, existem perto de 65,6 milhões de refugiados de guerras, conflitos internos, perseguições políticas e violações dos direitos humanos no mundo atual. Os refugiados climáticos são estimados em mais de 20 milhões de pessoas a cada ano. 

Entre as principais razões para a migração de populações por causas climáticas estão a desertificação, o aumento do nível do mar, as secas e a interrupção de fenômenos naturais como as monções, o período de fortes chuvas anuais do Subcontinente indiano e Sudeste Asiático. De acordo com o Relatório Mundial de Desastres de 2001, publicado pela Cruz Vermelha Internacional, os desastres ambientais estão superando as guerras como um fator do deslocamento de populações.  

O continente africano oferece diversos exemplos das tragédias que estão sendo criadas pelas mudanças do clima mundial. De acordo com informações recentes divulgadas pela ONU, perto de 45 milhões de pessoas estarão em grave situação de insegurança alimentar nos próximos seis meses por causa da forte seca que está assolando a África Austral, um tema que já tratamos em postagem anterior. Mudanças no padrão climático do Oceano Índico, com origem no aquecimento global, estão reduzindo as chuvas no Sul e no Leste da África, o que tem resultado em um forte período de seca em países como Angola, Lesoto, Madagascar, Malauí, Namíbia, Moçambique, Zâmbia, Zimbábue e África do Sul

Nos últimos cinco anos, as chuvas foram regulares em apenas um. Para piorar a situação, as temperaturas na África Austral aumentaram o dobro da média mundial. Com a falta de chuvas e com o aumento da temperatura, a produção agrícola entrou em colapso em muitas regiões, colocando a sobrevivência de milhões de pessoas em risco. Sem outras alternativas, essas populações passam a migrar em busca de melhores condições de vida em outras regiões. 

Parte dessa mesma região foi atingida em março deste ano pelo ciclone Idai, que causou forte destruição em Moçambique, Madagascar, Malauí, Zimbábue e África do Sul. Foram registradas mais de 700 mortes, especialmente em Moçambique, e centenas de milhares de pessoas ficaram desabrigadas. As estimativas oficiais afirmam que perto de 2,5 milhões de pessoas foram afetadas diretamente pela fúria do Idai

O aumento do nível do mar também está se transformando em uma outra forte razão para o deslocamento de populações. Em 2009, os habitantes das Ilhas Carteret, em Papua Nova Guiné, se transformaram nos primeiros refugiados climáticos oficiais por causa da elevação do nível do mar. Com uma altitude máxima de 1,7 metro acima do nível do mar, as terras dessas ilhas passaram a ser varridas pelas ondas, o que destruía casas e plantações. 

Sem outra alternativa, o Governo local iniciou um plano de evacuação total da população em março de 2009. Os cerca de 2.600 habitantes foram transferidos para ilhas próximas com maior altitude, como a Ilha de Bougainville localizada a cerca de 80 km de distância. Conforme comentamos na postagem anterior, as maiores vítimas das mudanças climáticas são as populações pobres dos países mais pobres. Os moradores das Ilhas Carteret nunca contaram com eletricidade ou com veículos com motores a combustão interna e, consequentemente, suas contribuições em termos de emissão de gases de efeito estufa ao longo da história foram desprezíveis. 

O aumento do nível do mar está entre as maiores ameaças climáticas dos próximos anos. Em um relatório recente do Banco Asiático de Desenvolvimento – Mudança Climática e Migração na Ásia e no Pacífico, há previsões bastante preocupantes dos impactos da elevação do nível dos oceanos na região. As estimativas falam de 37 milhões de deslocados na Índia, 22 milhões na China e 21 milhões na Indonésia até o ano de 2050. Em Bangladesh, país que tem atualmente 170 milhões habitantes, as estimativas falam de 30 milhões de refugiados climáticos até o ano de 2050

A Ilha de Bhola (vide foto), que fica na região da foz do rio Meghna na costa de Bangladesh, é um exemplo do que já está acontecendo na região. Desde a década de 1990, cerca de 500 mil pessoas dessa ilha já perderam as suas terras por causa da elevação do nível do mar e foram obrigadas a se mudar para outras regiões. 

Apesar de ser uma “criação” bastante recente da humanidade, os refugiados climáticos serão em breve um dos maiores desafios humanitários do nosso planeta, afetando populações em todo o mundo.