A CARTA DO CHEFE SEATTLE E O NASCIMENTO DO MITO DOS ÍNDIOS AMBIENTALISTAS

Chief_seattle

Um nome bastante conhecido e propagado por ambientalistas de todo mundo é o do Chefe Seattle da tribo Suquamish, nativo do Estado de Washington, no Noroeste dos Estados Unidos. A cidade de Seattle, capital deste Estado, foi batizada com o seu nome. Em 1855, o Chefe Seattle proferiu um discurso dirigido aos governantes “brancos” da cidade de Washington, capital dos Estados Unidos, em resposta a uma proposta de compra de territórios dos indígenas pelo governo americano na época. Este discurso foi transcrito posteriormente e, com o passar dos anos, foi transformado numa verdadeira bandeira pelos ambientalistas, que enxergavam nas suas palavras toda a sabedoria de um povo que vivia em perfeita harmonia e com respeito ao meio ambiente. 

Nas últimas décadas, com o avanço dos movimentos ambientalistas em todo o mundo, a Carta do Chefe Seattle foi transformada em um verdadeiro “evangelho”, lido e recitado repetidamente. Um dos maiores entusiastas do texto é o ambientalista e antigo vice-presidente Al Gore, que produziu inúmeros documentários sobre o aquecimento global e a devastação das florestas em todo o mundo. Para ele, a Carta que nos foi legada pelo Chefe Seattle é um exemplo “vivo” de que é possível viver valendo-se dos recursos ambientais fornecidos pela natureza, sem a necessidade de se devastar florestas, rios e mares, garantindo assim que as futuras gerações “herdem a Terra”. Infelizmente, e aqui peço desculpas a muitos ambientalistas, a Carta do Chefe Seattle que conhecemos hoje é na verdade uma ‘peça de ficção” baseada em fatos reais. Grande parte do mito que atribui aos indígenas americanos esse perfil de protetores da natureza veio dessa carta. Vamos entender a história: 

Com o avanço da colonização sobre os antigos territórios indígenas na direção do Oeste americano, os conflitos armados de brancos contra índios pela disputa da terra se tornaram frequentes. Os sucessivos governos da época se valeram de diferentes estratégias para garantir a ocupação dessas terras por colonos “brancos”. Operações de “limpeza” (extermínio puro e simples de populações indígenas) feitas pelo exército, contratação de “comancheiros”, caçadores que recebiam um determinado valor para cada índio morto, transferência de grupos indígenas para reservas e, em alguns casos, o governo se oferecia para comprar as terras dos indígenas, evitando conflitos com os brancos. A história do Chefe Seattle tem a ver com essa última questão. 

O governo dos Estados Unidos encaminhou uma carta ao chefe da tribo Suquamish no então Território do Noroeste, propondo a compra de suas terras. A região estava sendo ocupada rapidamente por colonos brancos e os governantes temiam represálias dos indígenas contra os invasores. O chefe da tribo Suquamish, o cacique Seattle (a foto que ilustra este post, tirada em 1880, é sua única foto conhecida), proferiu um discurso público em 1855 em resposta a essa proposta de compra das terras indígenas. Na plateia havia autoridades civis e militares, indígenas de diversas tribos da região e cidadãos comuns – entre esses encontrava-se um certo Dr. Henry Smith

Em 1887, cerca de trinta e dois anos depois, o Dr. Smith escreveu de memória o discurso do Chefe Seattle, colocando no papel a poderosa mensagem que havia ouvido no passado. É aqui que começam os problemas da Carta do Chefe Seattle – o documento original não foi escrito ou transcrito a partir de uma narrativa direta do cacique: o texto foi escrito muito posteriormente por um dos ouvintes, que se valeu apenas de sua memória. Pode-se imaginar a quantidade de distorções que a mensagem sofreu nesse processo. 

Existe, porém, um problema muito mais grave: o Chefe Seattle não falava inglês – ele fez o discurso em Lushootseed, a língua do seu povo, que foi traduzida por um interprete para o Chinook Jargon, uma língua franca comercial que misturava o inglês, o francês e diversas línguas nativas. De acordo com vários linguistas, o Chinook Jargon era uma língua que permitia a troca de informações básicas entre os falantes de línguas diferentes da região e não apresentava uma estrutura gramatical que permitisse a troca de mensagens abstratas ou complexas. O Dr. Smith ouviu o discurso traduzido nessa língua, onde grande parte da mensagem original do cacique Seattle já havia se perdido. 

Durante várias décadas, a Carta do Chefe Seattle escrita pelo Dr. Smith ficou restrita aos círculos acadêmicos. O texto só passaria a ser conhecido pelo grande público em 1972, quando foi lançado o documentário de temática ambiental “Home”. O roteirista, Ted Perry, adaptou livremente a Carta do Chefe Seattle, transformando o já problemático texto escrito em 1886 pelo Dr. Smith em uma verdadeira peça de ficção. O roteiro de Ted Perry foi adaptado posteriormente no formato de um livro infantil – Brother Eagle, Sister Sky (Irmão Águia, Irmã Estrela), livro que ocupou a quinta posição na lista dos bestsellers do New York Times. 

Um exemplo das distorções contidas no texto: o Chefe Seattle fala que encontrou uma enorme quantidade de búfalos mortos nas Pradarias. Segundo sua descrição, homens armados que viajavam num trem começaram a disparar contra os búfalos, como se estivessem brincando de tiro ao alvo. Não é impossível que fato semelhante tenha acontecido – seres humanos, não raras vezes, fazem coisas estúpidas; seres humanos armados, as vezes fazem coisas mais estúpidas ainda. O problema dessa passagem é que o Chefe Seattle sempre viveu na região Noroeste dos Estados Unidos, que além de distante da região das Pradarias tem no caminho as Grandes Montanhas Rochosas, uma grande cordilheira que corta a região Oeste dos Estados Unidos de Norte a Sul. Naqueles tempos, existiam poucos caminhos para atravessar as “Rochosas”, caminhos esses que eram bastante difíceis. Não há notícias de qualquer visita do cacique Seattle à região das Pradarias. Um outro detalhe – à época do seu famoso discurso, o Chefe Seattle já tinha quase setenta anos de idade, uma pessoa extremamente idosa para os padrões da época, e as ferrovias ainda estavam chegando ao Oeste americano naqueles tempos.

É verdade que a devastação ambiental é um dos maiores problemas da humanidade em nossos dias e, todos nós, precisamos fazer a nossa parte na defesa e proteção do que ainda resta do mundo natural. Agora, nada justifica que se utilize uma peça de ficção, o que é na verdade essa versão da Carta do Chefe Seattle que é divulgada por todos os cantos, como parte desses esforços. 

Anúncios

AINDA FALANDO DOS ÍNDIOS “INCENDIÁRIOS” DE FLORESTAS

Veado Vermelho

A Nova Inglaterra, região no Nordeste dos Estados Unidos, foi um dos mais importantes pontos de desembarque de colonos europeus nas primeiras décadas da colonização do país. O lendário navio Mayflower, que em 1620 trouxe o primeiro grupo com 120 colonos puritanos da Inglaterra para os Estados Unidos, aportou nessa região – no local, foi fundada a cidade de Plymouth, no Estado de Massachusetts. Com o aumento da população de colonos europeus, a região passou a assistir uma verdadeira “desindianização”.  

Povos indígenas que habitavam essa região Nordeste dos Estados Unidos a milhares de anos, como os iroqueses, passaram a sofrer fortes declínios populacionais (uma maneira elegante de falar que as populações começaram a morrer ou fugir) devido ao contato com os europeus e com as doenças trazidas, involuntariamente, por eles – a varíola, por exemplo, doença das mais comuns entre os europeus, era desconhecida e fatal para os indígenas, que não tinham anticorpos para combatê-la. Em vários casos documentados, essas doenças causaram a morte de 80% da população de grupos indígenas – os sobreviventes foram forçados a fugir para outras regiões. 

Em 1634, apenas catorze anos após o desembarque dos primeiros colonos nessa região, um inglês chamado Willian Wood escreveu uma carta para um dos seus parentes, onde reclamava das florestas da região, que até um passado recente eram abertas e fáceis de penetrar, agora estão tomadas por vegetação rasteira, de tal forma que tornara-se “inútil e penoso atravessá-las”. E o que mudou na região em tão pouco tempo? Sem a presença dos antigos indígenas incendiários, que todos os verões se valiam das chamas para limpar as matas e remover todo o excesso de matéria orgânica morta espalhada pelo chão, a vegetação rasteira e arbustiva rapidamente voltou a ocupar o seus “nichos” ecológicos dentro dessas matas, fechando assim uma infinidade de caminhos usados pelas populações e animais domésticos. Sem o fogo indígena, a floresta voltou ao seu estado natural.

Essa constatação das reais “relações” entre os indígenas e as florestas no continente norte-americano nada tem de discriminatória ou há no comentário qualquer tipo de repreensão. Esses indígenas eram seres humanos como nós, com necessidade de produzir alimentos em suas terras e obter proteínas de origem animal em seus campos de caça e nos rios e lagos que cortavam os seus terrítórios. E, para isso, se valiam de uma das mais antigas e poderosas ferramentas de “destruição” conhecida pelos humanos: o fogo. Minha crítica se dirige àqueles que se utilizam da cultura desses povos nativos para afirmar que o meio ambiente onde viviam era “intocado” – na realidade, bem ao contrário do que muitos afirmam, esses indígenas e seus incêndios florestais provocaram enormes mudanças nas paisagens de amplas regiões dos Estados Unidos e do Canadá, mudando em muitos casos até as populações de animais e de vegetais de certas regiões.

A região das Pradarias no Meio-Oeste americano é uma delas. Conforme foi comentado na última postagem, estudos revelam que grande parte desses campos abertos, cobertos por uma espessa camada de gramíneos, abrigavam matas e florestas num passado distante. Foram os incêndios florestais provocados propositalmente pelos indígenas (em muitos casos, os incêndios começavam de forma acidental ou fugiam ao controle). Testemunhas oculares de muitos desses incêndios falam de sua longa duração e da intensidade da destruição provocada; muitas vezes, o fogo só parava com a chegada das chuvas ou quando um corpo d’água interrompia o avanço das chamas.

Essa drástica mudança no ambiente favoreceu várias espécies animais – cito duas: o cão-da-pradaria (mamífero roedor do gênero Cynomys) e o bisão-americano ou búfalo-americano (Bison bison), este último uma importante fonte de alimentação para inúmeras nações indígenas. A ampliação artificial das áreas de pastagens proporcionou um aumento exponencial no número de bisões – com a fartura de alimentos e com a facilidade de perceber a aproximação de seus predadores naturais, especialmente os lobos, os rebanhos se multiplicaram. Há relatos antigos, dos primeiros pioneiros a atravessar a região das Pradarias, que falavam de rebanhos desses animais que se extendiam por vários quilômetros (eu imagino que não há exageros aqui – nos dias atuais, encontramos rebanhos de gnus nas Savanas da África que têm essa mesma característica). Espécies animais adaptadas para a vida em matas fechadas, ao contrário, perderam o seu habitat e muitas, provavelmente, se extinguiram (como não sabemos exatamente como eram esses ambientes antes das queimadas, não há como se saber tudo o que foi perdido).

Outra mudança ambiental importante pode ser verificada em populações de árvores. Em regiões onde as florestas eram queimadas frequentemente, espécies de árvores com maior tolerância aos incêndios se multiplicaram. Um exemplo são os pinheiros de folhas longas como o Pinus elliotti que, de tão adaptado aos incêndios, precisa do calor do fogo para abrir as suas pinhas e espalhar as suas sementes – no Cerrado brasileiro existem inúmeros tipos de árvores que têm características semelhantes. Espécies como a nogueira e o carvalho, outrora abundantes nessas regiões, desapareceram por não tolerar os incêndios florestais, levando junto os animais que se alimentavam de suas sementes e folhas: existe uma espécie de pica-pau especializado em comer bolotas de carvalho (essa ave tem uma função ecológica bastante parecida com a gralha-azul e seu hábito de comer os pinhões das araucárias no Sul do Brasil).

Outro animal que sofreu com o desaparecimento dessas espécies foram os veados de gêneros como o veado-vermelho (Cervus elaphus – vide foto), consumidores ávidos das folhas adocicadas e suculentas dessas árvores. Sem as suas fontes preferenciais de alimentos, essas espécies e muitas outras, simplesmente, desapareceram de seus habitats originais e fugiram em busca de outras matas. Lembramos aqui que, normalmente, os ambientais naturais estão divididos em diversos nichos ecológicos, onde vivem espécies animais, vegetais, insetos e fungos altamente especializados e interdependentes – a chegada de uma espécie “migrante” ou invasora vai causar enormes impactos ambientais.

Desgraçadamente, o avanço da colonização por todo o território dos Estados Unidos e do Canadá ao longo dos últimos séculos, dizimou a maior parte dos povos indígenas daquele continente. E as queimadas primitivas das florestas nativas feitas outrora pelos indígenas, pouco a pouco, foi substituída pelo machado e, depois, pela motosserra e pelos tratores dos “homens civilizados”…

OS ÍNDIOS “INCENDIÁRIOS” DE FLORESTAS NA AMÉRICA DO NORTE

Pilgrims

Quando os primeiros navegadores/exploradores europeus começaram a chegar a diferentes partes do continente americano, isso a partir da última década do século XV, lentamente começaram a perceber que aquelas terras faziam parte de um Novo Mundo, completamente desconhecido das grandes nações europeias de então. Além de apresentar uma nova geografia, o grande continente americano se mostrava cheio de novas e desconhecidas espécies animais e vegetais, além de novas gentes, muitas gentes. 

Existem diversas controvérsias sobre a real cifra de habitantes nas Américas daqueles primeiros anos. Conforme a fonte que você pesquisar, poderá encontrar números entre 90 e 112,5 milhões de habitantes. Tzvetan Todorov, filósofo e linguista búlgaro, autor do famoso livro A Conquista da América: a questão do outro, trabalha com uma cifra de 70 milhões de habitantes. No Brasil, os números também são vários – o antropólogo Darcy Ribeiro, em seu livro O Povo Brasileiro, falava que existiam perto de 1 milhão de indígenas no país à época do desembarque de Pedro Álvares Cabral; outros historiadores falam de populações originais entre 2 e 4,8 milhões de indígenas vivendo no Brasil. Qualquer que fossem as cifras reais, era muita gente. 

Ainda há muita controvérsia sobre a data da chegada desses grupos de seres humanos nas Américas – a migração de grupos de caçadores asiáticos através do Estreito de Bering, localizado entre o extremo Leste da Rússia e o Oeste do Alasca, entre 15 mil e 20 mil anos atrás, está entre as teorias mais aceitas. Isolados do resto do mundo, esses grupos humanos passaram a ocupar grandes territórios de Norte a Sul do continente e a desenvolver suas culturas, línguas e modos de vida. Infelizmente, esse longo isolamento de populações do resto do mundo acabaria sendo fatal para esses indígenas: doenças e vírus como os da varíola, da sífilis, e da gripe, entre outros, trazidos involuntariamente pelos europeus, seriam mortais para grande parte das populações americanas. Existem casos documentados que falam da morte de 80% dos membros de algumas tribos após o contato com os primeiros europeus – sem anticorpos contra as doenças mais comuns como uma gripe, os indígenas morriam rapidamente. O poeta chileno Pablo Neruda usou as seguintes palavras para descrever a tragédia: “la espada, la cruz y el hambre iban diezmando la familia salvage”.   

Nesse longo período em que reinaram sozinhos em nossos extensos territórios, os indígenas das três Américas se valeram do poder do fogo para abrir espaços dentro das grandes áreas florestais para a criação de áreas abertas para a prática da agricultura e para criação de áreas de caça; algumas vezes, os incêndios florestais foram provocados acidentalmente a partir de fogueiras de grupos de caça, largadas acesas nas matas. Vamos começar falando dos indígenas da América do Norte: 

Espanhóis, ingleses e franceses tomaram posse de diferentes regiões do continente norte-americano já no início do século XVI. A colonização efetiva das terras do Novo Mundo teve início no século XVII – um marco dessa colonização aconteceu em 1620, com a chegada do lendário navio Mayflower, que trazia a bordo os 102 primeiros peregrinos protestantes (pilgrims), fundadores daquele que, anos depois, seria os Estados Unidos da América. A pintura que ilustra esse post – The First Thanksgiving in 1621, de autoria de Jean Leon Jerome Ferris, nos dá uma visão “idealizada” dos primeiros contatos entre os colonos europeus e os indígenas americanos. Relatos deixados por esses mesmos colonos falam de grandes incêndios florestais provocados pelos indígenas. Veja esse testemunho de 1654, escrito pelo colono inglês Edward Johnson

“A queima frequente dos bosques pelos índios tornou as florestas a leste do Mississipi tão abertas e ralas de arboredos que eram como os nossos parques da Inglaterra”.  

Os indígenas das etnias Choctaw e Iroquois eram muito conhecidos por seus hábitos de cortar e queimar grandes áreas florestais, abrindo assim espaço para a criação de campos agrícolas, onde era cultivado o milho, o alimento mais importante dos indígenas norte-americanos. Sempre que os solos em uso apresentavam sinais de esgotamento, esses indígenas se mudavam para outras regiões e abriam espaços para novos campos agrícolas a base da queima da vegetação. Outra preocupação desses indígenas era a criação artificial de grandes áreas abertas com pastagens, que tinham como objetivo atrair grandes animais como veados, alces e bisões, que eram assim caçados com maior facilidade. Estudos realizados por diversas universidades dos Estados Unidos e do Canadá comprovaram que grande parte das Pradarias do Meio Oeste, extensos campos abertos cobertos por pastagens, não são de origem natural, mas sim resultado de um contínuo processo de queima de florestas. 

Outros povos nativos da América do Norte que podem ser incluídos na lista de “incendiários de florestas” são: Ojibwa, Cree, Mandam, Araphoe, Gros Ventres, Shosbone, Blackfeet, Assiniboine e várias tribos Athapaskan do Norte. Um colono americano, que foi testemunha ocular de um desses grandes incêndios florestais no Norte dos Estados Unidos no início do século XIX, deixou um dramático relato sobre os danos provocados aos rebanhos de búfalos da região: 

As pobres bestas têm todos os pelos chamuscados; mesmo o couro em muitas partes está enrugado e terrivelmente queimado, e seus olhos estão inchados e quase fechados. É realmente digno de pena vê-los cambaleantes, às vezes correndo em direção a uma enorme pedra, e outras vezes tombando colinas abaixo ou afundando em riachos ainda não completamente congelados. Em um certo lugar nós encontramos uma manada inteira morta.” 

Finalizando, vejam as conclusões de um estudo sobre esse assunto realizado pela Universidade de Visconsin, nos Estados Unidos: 

“O impacto causado pelo índio (sobre o meio ambiente) não era nem benigno nem localizado nem efêmero, nem eram os recursos utilizados em um modo notoriamente ecológico… O tamanho das populações nativas, o deflorestamento associado e a prolongada agricultura intensiva levaram a uma severa degradação da terra em algumas regiões. “ 

Observem que essas conclusões do estudo americano lembram muito algumas postagens publicadas aqui no blog, onde tratamos de queimadas e desmatamentos feitos por “gente civilizada” aqui no Brasil.

Continuaremos na próxima postagem. 

AGRICULTURA, CIVILIZAÇÃO E POPULAÇÕES INDÍGENAS

Agricultura Indígena

ÁGUA, VIDA & CIA (que agora tem um domínio próprio – ferdinandodesousa.com) é um blog onde apresentamos e discutimos diariamente problemas ambientais associados aos recursos hídricos. A água, que é um elemento essencial à vida, a cada dia está ficando mais rara, cara e poluída. Sistematicamente, um determinado tema dentro desse verdadeiro universo é escolhido e as ideias para postagens vão surgindo e sendo escritas ao longo de várias semanas. 

Água e agricultura é o tema que vem sendo desenvolvido nas últimas semanas e, nas postagens mais recentes, discutimos sobre os problemas associados à atividade na região da Caatinga nordestina. E conforme as postagens vão sendo publicadas, novas ideias e linhas de pesquisa vão aparecendo – no caso da Caatinga, avançamos um pouco na temática e falamos do avanço da pecuária no bioma. Na última postagem, onde fizemos uma espécie de resumo dos problemas de água, agricultura, pecuária e superpopulação na Caatinga, surgiu uma dúvida: os indígenas que vivem na região a milhares de anos, conforme citamos no texto, provocaram ou não impactos ambientais? E a resposta que surgiu é Sim – vamos entender isso: 

Apesar de a maioria de nós não gostar muito da ideia, os seres humanos são animais (bem inteligentes, é claro) com necessidades básicas como todos os outros – a alimentação é uma delas. Para se manter vivo, um homem adulto precisa consumir, em média, entre 2.500 e 3.000 calorias/dia em alimentos; no caso das mulheres, esse consumo médio é um pouco menor, ficando numa faixa entre 2.000 e 2.500 calorias/dia. A origem dos alimentos e/ou das matérias primas usadas na sua produção vêm, é claro, do meio ambiente

Uma pequena população, como a de uma tribo indígena isolada no meio da Caatinga, provocará um impacto ambiental relativamente pequeno ao caçar, pescar ou plantar alimentos para seu consumo; numa cidade grande como a minha – São Paulo, as necessidades calóricas de uma população de mais de 11 milhões de habitantes são gigantescas e vão provocar enormes impactos ambientais locais, regionais e até nacionais. Esses impactos começam em pequenas propriedades rurais em áreas nos extremos da cidade, onde se produzem verduras e legumes no chamado “cinturão verde”,  e vão até regiões distantes do Brasil e de países vizinhos, onde grande parte da produção de alimentos é exportada para a grande cidade do Planalto de Piratininga. 

Observem nessa exposição que os “paulistanos”, tanto os nativos quanto os que foram adotados pela grande cidade, não saem por aí queimando matas, abrindo campos agrícolas, destruindo solos e fontes de água ou assoreando as calhas dos rios. Porém, indiretamente, existem centenas de milhares de trabalhadores rurais fazendo todas essas “coisas” em nome das necessidades calóricas das pessoas que vivem na Pauliceia. Um outro exemplo dessa “delegação” dos serviços de devastação ambiental para terceiros é o que ocorre com a soja, uma das commodities mais importantes do Brasil – mercados como a China e a Alemanha pagam verdadeiras fortunas pelos nossos serviços e produtos, que terão um “fim” muito nobre: a maior parte da soja comprada por esses países é transformada em ração para alimentar porcos – ou seja, destruímos algumas das florestas mais ricas em biodiversidade do mundo, consumindo solos e poluindo águas, para garantir que chineses e alemães tenham bacon e salsicha de qualidade em suas mesas. 

Aqui chegamos a um ponto de reflexão – a prática agrícola em larga escala é uma das marcas da “civilização” humana, ou seja, ser civilizado é destruir e queimar matas, plantar e produzir grãos e outros cultivares em larga escala, gastando para isso a maior parte das reservas de água de uma determinada região. De quebra, solos, fontes de água e rios acabam destruídos. Seguindo essa linha de raciocínio, os chamados “povos das florestas”, que vivem à margem da “civilização”, são defensores e protetores incondicionais das matas – os indígenas americanos, do Alasca até a Terra do Fogo, se enquadrariam nessa categoria. Ecologistas e ambientalistas de todo o mundo se valem dessa mítica relação entre esses povos e o meio ambiente e a usam como um mantra em suas “pregações” em defesa da natureza. 

Com o devido respeito a todos esses colegas ecologistas e ao seu trabalho, a história não é exatamente essa: vários grupos de “bons selvagens” queimaram e destruíram grandes áreas florestais nas três Américas e, com isso, provocaram grandes impactos nos solos,  nas águas e nas populações de inúmeras espécies animais e vegetais. A razão para essa destruição é bem simples: algumas dessas regiões chegaram a abrigar grandes populações, com dezenas de milhares ou até centenas de milhares de indígenas e, para se sustentar tantas bocas, grandes esforços agrícolas se fizeram necessários.

Na próxima postagem vamos detalhar melhor algumas histórias desses “índios destruidores de florestas”. 

OS LIMITES AMBIENTAIS DA CAATINGA

Bioma Caatinga

Nas últimas postagens, resumimos a saga da ocupação de gados e gentes na região do Semiárido nordestino, uma história que já se desenrola há quatro séculos e que já marcou (negativamente) o bioma para sempre. A região hoje apresenta inúmeros problemas ambientais, que incluem a falta de água, a perda de solos e a desertificação, destruição de fragmentos florestais restantes e perda de biodiversidade e, um problema muito pouco comentado, a superpopulação

Estudos antropológicos e arqueológicos indicam que a ocupação humana em áreas do Semiárido é um processo contínuo, iniciado à, pelo menos, 15 mil anos. Esses grupos humanos, ancestrais de muitos dos povos indígenas que ainda resistem na região, nunca representaram uma ameaça para o bioma e viveram suas vidas se valendo dos recursos que a natureza lhes proporcionava. Os verdadeiros impactos ambientais negativos no bioma só passariam a ser sentidos a partir do século XVI, quando teve início o processo de colonização das terras brasileiras. Em pouco mais de 400 anos, esse processo de ocupação desordenada e de destruição sistemática do bioma pode ser comparado ao que ocorreu na África e na Europa, continentes que tiveram suas paisagens totalmente alteradas pela ocupação e pelas atividades humanas. Existe, porém, uma enorme diferença nesse processo de ocupação – o tempo: o que foi destruído em quatro séculos na Caatinga levou cerca de 500 mil anos na África e, pelo menos, 200 mil anos na Europa (considerando uma ocupação por espécies do gênero Homo mais próximas de nós, humanos modernos). 

Na região do Semiárido brasileiro vivem, aproximadamente, 23,5 milhões de pessoas, o que faz dessa região a mais superpopulosa entre todas as regiões semiáridas do mundo. Para efeito de comparação, a região do deserto do Saara tem 9,2 milhões de km² (quase dez vezes maior que o nosso Semiárido) e uma população de apenas 2,5 milhões de pessoas. O Saara, que se estende por todo o Norte da África, apresenta diversos tipos de paisagens, onde se incluem dunas de areia, montanhas, savanas e algumas áreas com vegetação muito parecida com a nossa Caatinga. 

Além desse imenso contingente de seres humanos, o Semiárido também abriga enormes rebanhos de animais. A caprino-ovinocultura é a principal atividade agropecuária do sertão nordestino. A produção de caprinos, animais de pequeno porte extremamente adaptáveis às condições mais adversas impostas pelo clima, se moldou perfeitamente aos sertões semiáridos nordestinos, que detém o maior rebanho dessa espécie no Brasil, com aproximadamente 9 milhões de animais, mesmo número do rebanho de ovinos da região. O rebanho bovino no Nordeste tem aproximadamente 30 milhões de cabeças, grande parte vivendo em áreas do semiárido. Ainda é preciso incluir neste cálculo um rebanho com, talvez, 700 mil cavalos e com 900 mil asnos, onde estão incluídos os bons e velhos jumentos, burros e mulas que já foram os companheiros de vida e de trabalho de muitos nordestinos. Algo entre 15% e 20% destes rebanhos vivem na região da bacia hidrográfica do Rio São Francisco. 

Por todos os cantos se encontram pequenas propriedades rurais familiares, com seus pequenos roçados de subsistência e suas criações de bois, bodes e ovelhas. Em cada uma dessas pequenas propriedades são feitas queimadas frequentes para a preparação do solo para mais um plantio; há coleta de lenha para uso nas cozinhas, muitas vezes sendo necessária a derrubada de árvores; os rebanhos pastam soltos pelos campos comendo tudo o que está disponível para se comer; para a construção e manutenção das suas casas ou para realizar seus ofícios, os sertanejos usam as matérias primas disponíveis ao seu redor. Somando-se todos os bichos e gentes espalhados por todos os recantos do semiárido, são muitas bocas para se alimentar – bocas de gentes e de bichos, dentro de um ecossistema com tantas limitações. 

Caatinga

É essa imensa pressão sobre os recursos naturais do bioma Caatinga a responsável pela crescente perda e desertificação de solos férteis, desaparecimento e redução dos caudais de fontes de água, assoreamento e entulhamento das calhas de rios importantes como o São Francisco, agravamento de fenômenos naturais como as secas da região, perda de biodiversidade e risco de extinção de inúmeras espécies vegetais e animais, entre outros problemas. Jogar a culpa de todos esses problemas única e exclusivamente sobre o clima semiárido da região, o que é feito frequentemente, é uma simplificação muito perigosa. 

O bioma Caatinga está no topo da lista dos sistemas florestais brasileiros mais ameaçados – calcula-se que perto de 50% de sua área já foi destruída pelas atividades humanas; algumas fontes, mais pessimistas, chegam a afirmar que 75% da Caatinga já foi comprometida ou alterada pelas atividades humanas. Sem nos prendermos muito a esses detalhes, é importante lembrarmos que, a essa altura de nossa história, não há como juntar todas essas populações de bichos e gentes e os mudarmos para outras regiões do país – mesmo que isso fosse possível, estaríamos apenas mudando os problemas de lugar. 

Nosso planeta e seus recursos naturais são finitos – não podemos continuar gastando e desperdiçando áreas florestais, solos e águas, imaginando que eles são infinitos, uma ideia que muita gente ainda parece ter. Precisamos, sim, aprender a conviver com os recursos naturais disponíveis, usando-os e consevando-os da melhor maneira possível – isso é o que se chama sustentabilidade.

O AVANÇO DA DESERTIFICAÇÃO NO SEMIÁRIDO BRASILEIRO

Desertificação de solos

Nessa série de postagens estamos falando dos conflitos entre a agricultura e o uso de grandes volumes de água. Cerca de 70% da água doce disponível em uma região acaba sendo consumida pela agricultura – em países com forte dependência da agricultura, esse uso pode chegar a 84%, um consumo que compromete os demais usos da água pelas populações. Falamos também da destruição de matas e da degradação dos solos, problemas que terão reflexos diretos nas fontes de água. Seguindo o embalo desses assuntos, acabamos entrando num tema mais específico, onde todos esses problemas se juntam e atingem um novo patamar – os riscos de desertificação dos solos. 

A região conhecida como Semiárido brasileiro ocupa uma área com quase 1 milhão de km² dentro de Estados da região Nordeste, além de uma faixa ao Norte do Estado de Minas Gerais. O bioma Caatinga é o maior sistema florestal que cobre toda essa imensa região, dividindo espaço com o Agreste, formação intermediária entre a Caatinga e a Zona da Mata, e o Alto Sertão, localizado entre a Caatinga e o Cerrado. A Caatinga é o ambiente mais alterado e degradado, onde os problemas estão atingindo uma proporção catastrófica em várias regiões: a desertificação. 

De acordo com a Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação, a definição deste fenômeno “é a degradação da terra nas regiões áridas, semiáridas e subúmidas secas, resultante de vários fatores, entre eles as variações climáticas e as atividades humanas.”. Em diversas regiões do mundo estão ocorrendo diversos processos de desertificação – no Brasil, a Região Nordeste é a que apresenta um maior número de áreas afetadas gravemente por processos de desertificação, onde se estima um total de 230 mil km² de áreas da Caatinga em processo extremo de desidratação (graves ou muito graves), estágios em que os solos tendem a se tornar imprestáveis para qualquer uso. No Norte do Estado de Minas Gerais, existe uma área de 69 mil km² em risco extremo de desertificação, englobando um total de 59 municípios nas regiões do Vale do Jequitinhonha e Mucuri. Para que você tenha ideia da área total destas duas regiões em risco graves ou muito graves de desertificação, ela é maior que a soma das áreas dos Estados de São Paulo (248 mil km²) e Rio de Janeiro (43,7 mil km²). Se consideradas todas as áreas do país em risco de desertificação, incluindo-se aquelas em risco inicial, baixo e intermediário, chegamos aos 900 mil km². 

O Estado de Alagoas é um dos mais afetados pelo processo, com 62% dos municípios apresentando áreas em processo de desertificação, sendo que os casos mais graves são encontrados nos municípios de Ouro Branco, Maravilha, Inhapi, Senador Rui Palmeira, Carneiros, Pariconha, Água Branca e Delmiro Gouveia. No Estado da Bahia, uma área com extensão de 300 mil km² no sertão do São Francisco tem solos que já não conseguem reter água, sinal de alerta para o risco de desertificação; os municípios ribeirinhos do Rio São Francisco de Petrolina, em Pernambuco, e de Paulo Afonso, na Bahia, têm áreas mapeadas em estado crítico de desertificação, que ameaçam, respectivamente, 290 mil e 108 mil habitantes. Estes são apenas alguns números deste gravíssimo processo de destruição dos solos. 

Além das áreas nos antigos domínios da Zona da Mata nordestina, o desmatamento afetou fortemente as áreas da Caatinga e do Agreste, onde as árvores foram queimadas sucessivamente para ampliação dos campos para a pastagem dos bois, tema que tratamos em postagens anteriores. Além dessa destruição progressiva e histórica, a vegetação restante continua sofrendo sistematicamente desmatamentos para exploração da madeira, usada como material para a construção de casas e para a fabricação de móveis, portas e janelas; como lenha (que responde por 30% da energia utilizada na Região Nordeste) e até mesmo para uso como mourões de cercas de arame farpado. Em décadas passadas, milhares de árvores da região da Caatinga foram derrubadas para a fabricação de dormentes para as ferrovias construídas na região – para que você tenha ideia do que foi a destruição causada por essas obras, calcula-se que cada quilômetro de trilhos assentados utilizou dormentes construídos com a madeira de 500 árvores. 

Além dos impactos causados pela destruição das matas a “ferro e a fogo”, como costuma se dizer, existe uma causa importante de desertificação nem sempre levada muito a sério: os rebanhos de cabras e bodes do sertão. O botânico Alberto Loefgren (1854-1918), sueco de nascimento e depois radicado no Brasil, estudando a devastação das árvores e das matas nas terras do Ceará, atribuiu um papel importante nesta degradação vegetal aos rebanhos soltos na região: 

“Outro fator não desprezível na devastação das matas, ou pelo menos para conservar a vegetação em estado de capoeira, são as cabras. Sabe-se quanto este animal é daninho para a vegetação arborescente e arbustiva e como a criação de cabras soltas no Ceará é, talvez, maior que a do gado, sendo fácil imaginar-se o dano que causa à vegetação alta”. 

Além da retirada de lenha e das cabras, a degradação dos biomas que levam à desertificação continua a ocorrer diariamente: vegetação e terra sofrem com queimadas frequentes para preparação dos solos para agricultura e para pecuária, destruição de matas que protegem as nascentes e os rios do assoreamento e até os sistemas de irrigação, que captam água em excesso, comprometendo cursos d’água e causando salinização do solo, além da mineração e extração de argila do leito de rios para abastecer a indústria de cerâmica. Os solos desertificados que surgem, tem suas areias carregadas pelos ventos e pelas águas das poucas chuvas, contribuído cada vez mais para o assoreamento dos raros rios permanentes da região, como o Rio São Francisco. 

Apesar de ser um problema gravíssimo no Semiárido, os processos de desertificação estão em andamento em todas as regiões do Brasil. Trataremos disso em futuras postagens. 

OS GADOS E AS GENTES DO SERTÃO NORDESTINO

Boi magro na caatinga

Prosseguindo como tema que abordamos na última postagem, a invasão das áreas de vegetação de caatinga pelos bois expulsos do litoral, precisamos falar dos diversos desdobramentos dessa nova realidade ecológica, que passou a mudar substancialmente as condições do bioma. 

Existiam dois “caminhos” principais dessa rota dos bois rumo aos sertões,  um caminho em Pernambuco e outro na Bahia, que também era a rota dos bois gordos que eram trazidos de volta ao litoral para serem vendidos nas feiras livres. Toda a energia das populações litorâneas estava concentrada no plantio da cana e na produção do açúcar – essas pessoas precisavam comer, mas não havia produção de alimentos em larga escala na faixa litorânea. Os moradores das cidades tinham suas próprias hortas de fundo de quintal, onde se conseguia produzir alguma mandioca, verduras e legumes, além da criação de aves e suínos. Os pobres escravos que trabalhavam nos canaviais, muitas vezes eram obrigados a usar o pouco tempo de folga das suas exaustivas jornadas de trabalho, para plantar algum roçado às escondidas em algum canto das terras dos patrões, conseguindo assim algumas calorias extras. O sertão nordestino, especialmente a região do Agreste, acabou transformado num importante centro de produção de alimentos para as populações do litoral – farinhas de madioca, carne seca, queijos, mel, entre outros alimentos, além é claro dos bois vivos.

Essa circulação de boiadas pelos longos caminhos dos sertões começou a estimular alguns empreendedores, sem espaço para trabalhar no litoral, a montar pequenas pousadas e empórios voltados para os vaqueiros – muitas vezes eram as suas próprias casas que eram abertas para hospedar esses viajantes, onde os serviços eram trocados por algumas moedas ou até mesmo por um novilho. Com o tempo, muitas dessas paradas acabaram se transformando em cidades – de memória posso citar Caruaru, no Agreste pernambucano, e Feira de Santana, na Bahia. Além das pequenas cidades e vilas que surgiam por todos os lados, muitas famílias buscavam o sertão para conseguir um espaço para viver e produzir alguma cultura ou produto que pudesse ser vendido nas cidades. Não tardou muito para o Sertão ficar cheio de gentes e de gados. 

A palavra gado, normalmente, é usada para falar de rebanhos de bovinos – porém, ela também descreve rebanhos de cabras, bodes, ovelhas, cavalos, burros, galinhas e outros animais criados pelo homem. A queima dos caatingais, que começou a ser feita pelos criadores de gado para a ampliação dos campos, agora também passou a ser uma rotina para esses pequenos agricultores, que precisam abrir áreas para os seus roçados de subsistência e para a criação de pastagens e espaços para seus animais domésticos. A Caatinga também passou a fornecer lenha para os fogões, madeira para a construção de casas, cercas, móveis e demais utensílios. Um bioma reconhecidamente com baixa disponibilidade de água e de recursos naturais, a Caatinga passou a sustentar cada vez mais bocas, de gentes e de animais domésticos. Uma pequena amostra dessa sobrecarga:

De acordo com informações de especialistas em zootecnia e em agronomia, é necessário 1 hectare de pastagem para atender as necessidades nutricionais de 5 a 15 kg de peso vivo – isso significa que uma cabra com um peso de 60 kg vai necessitar de, pelo menos, 4 hectares ou 40 mil m² de pastagem para sobreviver – isso corresponde a área de 4 campos de futebol no padrão FIFA. Essa grande área é necessária para que o ambiente tenha tempo para se recuperar, ou seja, enquanto a cabra come a vegetação em um lado deste campo, a vegetação do outro lado terá tempo para crescer e se regenerar. Um boi magro, para efeito de comercialização, tem um peso de 360 kg e vai necessitar de uma área de pastagem bem maior – 24 hectares ou 244 mil m². Observe que este cálculo foi feito usando o valor mais baixo do consumo – 5 kg de peso vivo/hectare: o valor mais alto é três vezes maior. Se você por acaso já teve oportunidade de viajar pela região do semiárido nordestino, lembrará de ter visto rebanhos com dezenas e mais dezenas de cabras, bodes, carneiros e bois pastando em áreas bem menores do que a recomendação dos especialistas, o que lhe dá uma ideia da sobrecarga no bioma.

Há um outro detalhe importante – a região do Semiárido está sujeita a secas sistemáticas. Nessas ocasiões, a vegetação e os pastos secam, deixando a maioria dos animais domésticos sem ter o que comer. Os bois, nessas ocasiões, definham lentamente (vide foto) e acabam por morrer de fome. Os caprinos, ao contrário, começam a comer qualquer coisa mastigável que apareça pela frente, inclusive a raiz de plantas e de gramas. Os expertos animais cavam o solo e saem roendo as raízes com muito gosto.

Os solos finos e já esgotados de muitas regiões do Semiárido, acabam ficando estéreis e sujeitos aos processos de desertificação. Aqui é importante lembrar que os solos férteis combinam matéria orgânica, minerais, água e ar – sem a presença de vegetação para formar a matéria orgânica e sem água, o que resta nos solos são os resíduos minerais como a areia, o silte e a argila. Mesmo com a volta das chuvas, esses trechos estéreis não apresentam mais as condições para suportar qualquer vida vegetal, ficando assim sujeitos à erosão pelas águas das chuvas e pelos ventos.

Estimativas indicam que uma área total de 230 mil km² da Caatinga (1/4 do bioma) está em processo extremo de desidratação (graves ou muito graves), estágios em que os solos tendem a se tornar imprestáveis para qualquer uso. No Norte do Estado de Minas Gerais, existe uma área de 69 mil km² em risco extremo de desertificação, englobando um total de 59 municípios nas regiões do Vale do Jequitinhonha e Mucuri.

Vamos falar desse gravíssimo problema em detalhes na próxima postagem.