BACIA E SUB BACIA HIDROGRÁFICA

Topografia

Antes de se iniciar o projeto de uma Rede de Esgotos em uma cidade, é necessário que se faça um levantamento topográfico detalhado, ou seja, a determinação das variações de nível de cada rua, avenida, praça e demais logradouros. Como já havia comentado, as Redes Coletoras de Esgotos funcionam utilizando a força da gravidade – os esgotos fluem sempre de um ponto mais alto do terreno na direção do ponto mais baixo – é justamente o levantamento topográfico que vai permitir o determinar o “caminho” a ser seguido pelos efluentes. Com esses dados em mãos, os projetistas da Rede de Esgotos dividirão a cidade em bacias e sub-bacias hidrográficas. De uma forma bem simplificada, você pode imaginar a bacia hidrográfica como um grande telhado de uma casa – por força da gravidade, a água da chuva corre do ponto mais alto, a cumeeira, para o ponto mais baixo do telhado, os beirais; as sub-bacias são as subdivisões de um bacia hidrográfica.

No caso de uma região geográfica, os pontos mais altos são os topos dos morros ou os bairros mais altos da cidade e os pontos mais baixos são os vales onde ficam os córregos e rios. O “desenho” ou a topografia do solo foi criado pela erosão feita pelas chuvas, pelas águas dos córregos e rios, além da força dos ventos e os desgastes dos movimentos de geleiras (extensas áreas do território do Brasil já foram cobertas por espessas camadas de gelo em antigas eras geológicas), num trabalho que levou alguns milhões de anos para ser concluído. Quando o traçado da sua rua, do seu bairro ou da sua cidade foi planejado, essas diferenças de níveis ou altitudes do terreno foram cuidadosamente estudas e avaliadas por uma questão bem elementar – planejar o futuro escoamento das águas pluviais ou de chuva (a famosa drenagem das águas pluviais), disciplina das mais elementares do urbanismo. O projeto das Redes de Esgotos segue pela mesma linha – é preciso estudar as bacias e sub-bacias hidrográficas da região onde a cidade está inserida para determinar o melhor caminho para o escoamento dos efluentes, ou seja, para desenvolver o projeto desta Rede.

Como a topografia de um terreno nunca é totalmente regular, são necessários ajustes nas direções que as Redes de Esgotos seguirão e também na profundidade de instalação das tubulações, de forma a potencializar o uso da força da gravidade. Para permitir que os esgotos fluam adequadamente, as tubulações da Rede necessitam de uma declividade mínima de 2% – isso significa que para cada 1 metro que a tubulação avança, a profundidade deve variar o equivalente a 2 cm, religiosamente; para que você entenda isso melhor, imagine um trecho de Rede com 100 metros de comprimento – se no início da escavação a profundidade da tubulação estava em 1 metro, o final do trecho deverá ter 3 metros de profundidade – essa diferença de 2 metros na profundidade corresponde exatamente a 2%. É essa declividade que faz com que os esgotos fluam naturalmente.

Durante as obras de escavação das ruas e avenidas para implantação das tubulações, os trabalhadores precisam medir constantemente a profundidade das valas e conferir a todo o momento a declividade das tubulações; caso haja algum erro nessas medições, o trabalho terá de ser refeito. É por isto que a execução de um trecho de apenas 100 metros de uma rede de esgotos levará vários dias para ser concluído, enquanto que a implantação de um trecho de uma rede pressurizada de abastecimento de água do mesmo tamanho será feito em poucas horas. Redes de Esgotos são muito mais caras, complexas e demoradas, além de raras, se comparadas com as Redes de Abastecimento de água, por causa destas particularidades, apesar de serem similares em importância.

Continuamos no próximo post.

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A REDE COLETORA DE ESGOTOS

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A Rede Coletora de Esgotos é formada pelo conjunto de tubulações que recebe as águas servidas do imóvel (água suja proveniente das pias, tanques e ralos e o esgoto do vaso sanitário). Essa água é afastada dos imóveis e é encaminhada através das tubulações da Rede Coletora para as Estações de Tratamento de Esgoto (ETE), onde os efluentes são tratados antes de serem despejados em corpos de água. Além das tubulações, a Rede Coletora de Esgotos necessita de uma série de instalações complementares e tubulações especiais para o seu perfeito funcionamento: Estações Elevatórias de Esgoto (EEE), coletores tronco, interceptores, linhas de recalque, emissários entre outros.

As tubulações da Rede Coletora de Esgotos têm diâmetro entre 15 cm (mais de 80% de uma Rede típica utiliza esse diâmetro de tubulação) e 50 cm. A grande maioria dos tubos é fabricada em PVC (Poly Vinyl Chloride – Poli Cloreto de Vinila), resinas plásticas de alta qualidade e durabilidade e também em PEAD (Poli Etileno de Alta Densidade); em alguns trechos a tubulação utilizada pode ser de ferro fundido, concreto especial, cerâmica entre outros materiais construtivos. As tubulações desta Rede são instaladas, normalmente, em profundidades entre 1 e 4 metros. Profundidades maiores, sempre que possível, são evitadas, uma vez que se torna necessário o uso de escavadeiras de maior porte; valas profundas estão sujeitas a riscos maiores de desmoronamentos e necessitam de escoramentos reforçados nas paredes para a segurança dos trabalhadores.

Diferente das tubulações da Rede de Abastecimento de Água, que trabalham por pressão, as tubulações da Rede Coletora de Esgotos funcionam por força da gravidade – o esgoto corre de um ponto mais alto para um ponto mais baixo de um terreno, similar ao que acontece com a enxurrada de uma chuva, que corre na direção da sua drenagem natural que são os rios e córregos. Essa característica torna a construção das Redes de Esgotos um verdadeiro desafio técnico, que encarece muito a sua construção.

Uma rede de água pressurizada utiliza torneiras e registros nos pontos de saída, que são abertos e fechados conforme as necessidades de uso; já os pontos de saída de esgotos de um imóvel são abertos (possuem apenas o fecho hídrico, assunto que já tratamos por aqui). Se, eventualmente, alguém pressurizar um determinado trecho de uma Rede de Esgotos , todo o volume de esgotos presente nas tubulações vai retornar para o interior dos imóveis – imagine a imagem de vasos sanitários se transformando em pequenos vulcões e expelindo “lava” – seria um verdadeiro desastre.

Durante os trabalhos de escavação das valas e instalação das tubulações de esgotos, há um controle rigoroso da profundidade e da inclinação das tubulações, seguindo-se à risca as instruções do projeto técnico. Esse é o principal motivo para a diferença de velocidade na execução das Redes de Esgotos e de Abastecimento de Água Potável. Também é por esse motivo que, em alguns pontos dos bairros da cidade, a população vai se surpreender com o grande volume de terra escavada e com a profundidade na qual a tubulação vai ser assentada, podendo chegar à marca dos 4 metros. Sempre que as tubulações da Rede atingem essas profundidades, é necessária a construção de uma Estação Elevatória de Esgotos (EEE) – essas Estações Elevatórias recebem todos os esgotos de um bairro, por exemplo, e utilizando de um sistema de bombas elétricas os encaminham por força de pressão (nesses trechos são utilizadas tubulações de ferro fundido) para um ponto alto de outro bairro, de forma que os esgotos voltem a correr por força da gravidade. O bombeamento dos esgotos por Estações Elevatórias é repetido várias vezes, conforme o projeto da Rede de Esgotos, até que chegue finalmente na Estação de Tratamento de Esgotos – vamos detalhar isso em outros posts.

ESGOTO CORRENDO A CÉU ABERTO – O PIOR DOS MUNDOS

Favela

Anos atrás, tive como vizinhos de porta no meu prédio um simpático casal de turcos islamitas. A princípio, estranhava os costumes das mulheres que entravam e saiam com o véu na cabeça e corpo totalmente coberto, a língua estranha soando pelos corredores, a fobia que a presença do meu cachorro provocava nessas pessoas e, principalmente, a pilha de sapatos que se amontoava na porta do apartamento – em hipótese alguma, os moradores e os visitantes entravam na residência calçados. Com o tempo, fiquei amigo deste casal e descobri finalmente o porquê dos sapatos na porta: muçulmanos rezam cinco vezes ao dia ajoelhados no chão, que tem de estar impecavelmente limpo.

Comecei descrevendo essa pequena memória afetiva para relembrar o meu último post, onde comentei sobre doenças associadas ao despejo de esgotos sem maiores cuidados e falando especificamente da diarreia, uma doença covarde que ceifa a vida de milhares de criancinhas ano após ano – os patógenos desta e de outras doenças são carregada para dentro das casas nas solas dos sapatos – nós, ao contrário dos meus amigos islamitas, chegamos das ruas e entramos em nossas casas carregando  em nossos calçados tudo de ruim dos lugares em que pisamos. Seguir este costume oriental seria algo bastante proveitoso aqui em nosso país.

Dos problemas criados pelos esgotos, o despejo em ruas e sarjetas, correndo a céu aberto, é de longe um dos mais maléficos para a saúde das pessoas. Além da contaminação ambiental e do solo, com os problemas já descritos associados aos pedestres, esses efluentes atrairão hordas de insetos, ratos, espalhará mau cheiro entre outros problemas sanitários. Em dias de chuva irão se misturar com as águas pluviais, aumentando ainda mais o alcance da contaminação e dos problemas associados.

Efluentes correndo a céu aberto são comuns em “comunidades”, nome politicamente correto que vem sendo usado para descrever “aglomerações de moradias subnormais” – favelas, mocambos e palhoças (dependendo da região), cortiços e outros conjuntos de moradias improvisadas, onde famílias de baixíssima renda constroem suas moradias. Essas comunidades normalmente ocupam terrenos ou imóveis invadidos, ou então encostas de morros e terrenos de áreas de várzea. As técnicas construtivas são das mais precárias, utilizando-se os materiais disponíveis – no caso das favelas, é muito comum um barraco se apoiar no outro, ocupando-se assim praticamente toda a área do terreno: não há sobra de espaços para a escavação e uso de fossas. Nessas localidades, raramente há condições técnicas e financeiras para a instalação de tubulações que permitam o afastamento dos esgotos de maneira adequada. Usualmente, é feita a escavação de um canal de drenagem no leito das vielas, de forma a facilitar ao máximo o escoamento dos efluentes e nada mais. Em comunidades que ocupam áreas alagadiças como várzeas, planícies de maré e manguezais, é comum as construções serem apoiadas em paliçadas de madeira – os esgotos são lançados diretamente no terreno abaixo, esperando-se que a correnteza ou a maré arraste os esgotos para longe. Nos demais casos, a correnteza de efluentes procurará sempre um corpo d’água terreno abaixo ou o sistema de drenagem de águas pluviais na busca de um “destino” final.

Dados do Censo 2010 do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, mostram que 6% da população brasileira, ou 11 milhões de pessoas, vive nestas condições, o que torna o problema um desafio gigantesco, que extrapola a área do Saneamento Básico e avança na problemática do deficit habitacional. Essas populações se somam àquelas dos bairros “urbanizados” que não possuem redes de coletas de esgotos implantadas e que se utilizam de todos os tipos de improvisos para descartar seus efluentes

Existe muito, muito o que se fazer em infraestrutura básica neste nosso país.

DIARREIA: ASSASSINA SILENCIOSA DE CRIANÇAS

Bebe engatinhando

A diarreia é a segunda causa de morte entre crianças com menos de 5 anos em todo o mundo. No Brasil, 80% dos casos são provocados pelo consumo de água contaminada, retirada de poços, cacimbas e riachos. Em 2011 o país registrou 1,6 milhão de ocorrências – dados oficiais indicam que a doença matou mais de 3.000 crianças com menos de 5 anos no Brasil naquele ano – provavelmente, o número real de mortes é bem maior que isso: em regiões rurais, os pais demoram a fazer o registro civil de nascimento das crianças – sem esse documento não é possível emitir as certidões de óbito.

Entre outras causas, a diarreia é provocada por toxinas bacterianas como a do estafilococus, infecções por bactérias como a Salmonella e a Shighella, infecções virais e parasitas intestinais causadores de amebíase e giardíase, transportados para o sistema gastrintestinal por água ou comida contaminada. Os sintomas variam da simples dor estomacal à diarreia persistente ou à presença de fezes pastosas.

Em localidades em que não há rede de abastecimento de água potável, as populações não tem outra opção senão utilizar águas de rios, riachos, açudes, cacimbas e de poços; não são raras as vezes em que essas águas estão contaminadas por fezes de animais e por esgotos domésticos gerados nas casas dos próprios moradores dessa localidade e despejados nas ruas, corpos de água ou em fossas negras que podem contaminar o lençol freático – a ingestão ou uso dessa água com contaminantes é um dos maiores causadores da diarreia. Na falta de uma infraestrutura de saneamento básico, soluções simples podem evitar grande parte das contaminações: ferver a água que será consumida, especialmente pelas crianças, lavar as mãos antes de preparar e consumir alimentos, além de desinfectar a água com bactericidas como o hipoclorito de sódio – governos que não se preocupam com políticas de saneamento básico raramente irão se preocupar com outras ações sanitárias como a educação ambiental e sanitária.

Uma das faces mais tristes dessa estatística mostra que crianças a partir de um ano de idade são as mais vulneráveis aos efeitos devastadores da diarreia. A causa é muito simples: é a partir dessa idade que as crianças começam a engatinhar pelo chão das casas e são expostas aos patógenos que foram trazidos para dentro das casas na sola dos sapatos dos moradores, solas estas impregnadas pelos esgotos que correm a céu aberto nas ruas e calçadas das chamadas “comunidades carentes”. Quem já viu uma criança engatinhando sabe que elas alternam as mãos entre o chão e a boca – havendo patógenos no piso, a contaminação será inevitável.

As crianças pequenas são sempre as maiores vítimas das precárias condições do saneamento básico. As estatísticas das taxas de mortalidade infantil sempre são frias e tentam mostrar racionalmente o tamanho da tragédia. Para ter-se uma dimensão humana do que é esse verdadeiro morticínio de criancinhas, foi selecionado um trecho de Rachel de Queiroz (1910-2003), talvez a maior escritora brasileira de todos os tempos e primeira mulher a entrar para a Academia Brasileira de Letras. O texto foi escrito na década de 1950 para um jornal de Fortaleza e é de uma atualidade impressionante:

Quando, em um simples número, nos dá conta do índice de mortalidade infantil nas capitais do Brasil, e assinala aquelas em que esse índice é mais alto […], a gente vê logo o morticínio desadorado das criancinhas pobres que se acabam como pinto quando dá um ar no criadeiro. A frutificação inútil das mulheres, os penosos meses de gestação sofridos à-toa, as dores do parto, as noites de insônia com o menino doente que chora, a caminhada sem fim para os raros ambulatórios de socorro – e tudo isso só para dar de comer à terra do cemitérios.”

É preciso dar um fim na triste sina destes pequenos brasileiros. Precisamos fazer o saneamento básico avançar cada vez mais no nosso país.

CONHECENDO AS FOSSAS ECOLÓGICAS

Fossa ecológica

Por maiores que venham a ser os investimentos em saneamento básico, em especial nos serviços de abastecimento de água e de coleta e tratamento de esgotos, nunca será possível atingir a tal “universalização dos serviços”. A razão para isto é muito simples – atender comunidades isoladas e moradores de áreas rurais com esses serviços é economicamente inviável – soluções locais devem ser buscadas, de forma a garantir a saúde e a qualidade de vida das pessoas no quesito abastecimento de água e esgotos. Uma solução interessante são as chamadas fossas ecológicas.

Como falamos em publicações anteriores, as fossas negras permitem que se resolva o problema do afastamento dos esgotos, porém não possibilita qualquer tipo de tratamento nos efluentes, que podem contaminar as águas do lençol freático. As fossas sépticas realizam o pré-tratamento dos esgotos, reduzindo a carga poluidora na média em até dois terços. Numa ETE – Estação de Tratamento de Esgotos, o nível de tratamentos dos efluentes é superior a 90%.

As fossas ecológicas são estruturas que complementam o processo de pré-tratamento realizado pelas fossas sépticas, resultando em efluentes com baixíssimo nível de contaminantes. Vamos analisar três modelos:

Filtro biológico: nesse tipo de estrutura, bactérias aeróbicas, que são microrganismos que necessitam respirar oxigênio diretamente do ar, complementam o trabalho de biodigestão dos esgotos iniciado pelas bactérias anaeróbicas presentes no tanque séptico; essas últimas bactérias obtém o oxigênio a partir dos processos de decomposição da matéria orgânica. Os efluentes que saem da fossa séptica são lançados em um tanque com fundo e paredes impermeáveis. Esse tanque é totalmente preenchido com pedras – na superfície destas pedras existe uma camada gelatinosa denominada biofilme, que na realidade são colônias de bactérias aeróbias. Os efluentes são filtrados pelas pedras e o material orgânico retido será consumido pelas bactérias, complementando assim o processo de tratamento dos esgotos. O efluente resultante pode ter até 90% da carga poluidora reduzida (dependendo do projeto e da construção do filtro, além de uma temperatura ambiente adequada à atividade biológica) e pode ser infiltrado no solo sem risco de contaminação do lençol freático.

Filtro biológico com plantas aquáticas: dependendo das estrutura física do terreno, os efluentes da fossa séptica são lançados em um tanque com fundo e paredes impermeáveis. Esse tanque deve permitir a formação de um espelho d’água com profundidade de, pelo menos, 20 cm. Nesse espelho d’água são cultivadas plantas flutuantes como os aguapés (também chamada de jacinto-de-água, mururé, orelha-de-veado, pavoá, rainha-do-lago, uapé e uapê), ou outras espécies de plantas com sistemas de raízes que filtram a água na busca de matéria orgânica e nutrientes dissolvidos.

Filtro biológico com tanque “seco”: o tanque dessa estrutura é similar ao modelo anterior, com a diferença que não é preenchido por um espelho d’água – o fundo do tanque é forrado com uma camada grossa de pedregulhos, que depois é recoberta com terra. Mudas de bananeiras, por exemplo, são plantadas no local e usarão os resíduos orgânicos como nutrientes para o seu crescimento. O efluente filtrado pelas raízes das plantas (nesse modelo de filtro e no anterior) é praticamente isento de resíduos orgânicos e pode ser direcionado para um corpo d´água ou para um ponto de infiltração no terreno, sem oferecer qualquer risco de contaminação para o meio ambiente.

Observe que em nenhum dos exemplos mostrados (vale ressaltar que existem muitas outras alternativas) não há necessidade de uso de produtos químicos ou de qualquer forma de energia. Também não há necessidade de nenhum material construtivo especial – qualquer material disponível pode ser utilizado na construção das fossas ecológicas, tornando esse processo de tratamento de efluentes acessível à todas as camadas sociais da população, especialmente as mais carentes. O grande desafio é fazer com que essas informações cheguem até essas populações.

FOSSAS SÉPTICAS E O PRÉ TRATAMENTO DOS ESGOTOS

Fossa séptica

O historiador francês Marc Bloch (1886-1944) afirmava que “nada melhor para um historiador do que uma fossa honesta.” Usadas desde o início da civilização, as fossas eram uma ótima alternativa para a eliminação dos esgotos de uma residência. Para um historiador ou um arqueólogo, a “leitura” das diferentes camadas de resíduos possibilita visualizar como era a vida dos antigos moradores – a análise química dos sedimentos permite que se identifique os padrões de alimentação ao longo de cada uma das gerações que ali viveram, os tipos de doenças que afetavam as pessoas, períodos de fome e de carência de alimentos; essas informações íntimas das famílias, associadas a relatos escritos e aos vestígios arqueológicos permitem que se reescreva o passado de diferentes povos.

As fossas sanitárias, conforme comentado no post anterior, podem ser dividas em dois grupos básicos: as fossas negras, que nada mais são do que um poço cavado no solo e que serve para filtrar os dejetos sólidos dos esgoto – os efluentes líquidos infiltram livremente no solo; o segundo grupo são as fossas sépticas – essas instalações são mais complexas e tem como importante diferencial a capacidade de tratar grande parte dos esgotos sanitários. Vamos entender melhor isso.

A fossa séptica é construída na forma de um tanque com fundo e paredes impermeáveis, tampa lacrada e com capacidade para armazenar o volume de esgotos de um dia de uma residência. Só para relembrarmos, considerando o consumo diário de água por pessoa entre 150 e 200 litros ao dia, uma família com cinco pessoas vai gerar até 1.000 litros de esgotos por dia. Os esgotos lançados entram por uma tubulação em uma das laterais do tanque, se misturando com os efluentes que já estão acumulados . O material sólido presente nos esgotos vai se depositar no fundo do tanque e passa a ser consumido pelas bactérias anaeróbicas; essas bactérias não dependem do ar atmosférico para respirar – retiram oxigênio a partir dos processos de decomposição da matéria orgânica. Tratar esgotos domésticos é, em essência, convidar as bactérias decompositoras para o jantar – essas bactérias consomem toda a matéria orgânica presente nos efluentes, transformando-a no chamado lodo sanitário, que nada mais é que um composto de materiais inertes que vão se depositando no fundo do tanque.

Uma fossa séptica bem projetada e bem construída realiza o chamado tratamento primário dos esgotos. Esse tratamento permite a remoção dos sólidos em suspensão entre 50 e 70%, eliminação entre 40 e 60% dos bacilos e bactérias e a redução entre 70 a 90% das gorduras presentes nos efluentes – isso representa uma redução muito significativa da carga poluidora e contaminante dos esgotos. É importante observar que esse processo de tratamento dos esgotos é totalmente natural e não requer a adição de nenhum tipo de produto químico ou uso de energia.

No topo do tanque da fossa é instalado uma tubulação para drenar gradativamente o excesso de efluentes à medida que novos volumes de esgotos são lançados a partir do imóvel. Nos modelos mais simples de fossa séptica esse efluente, com a carga de poluentes já bastante reduzida, é lançado dentro de um tanque menor com fundo permeável para a infiltração da água no solo. Modelos mais sofisticados de fossa possuem de 2 a 3 tanques sépticos em sequência, onde o processo de tratamento é repetido, conseguindo-se assim uma redução ainda maior dos níveis de matéria orgânica e contaminantes dos esgotos; a água que vai ser lançada no solo terá um nível de contaminantes muito reduzido, apresentando um risco menor de contaminação das águas do lençol freático.

Um dos inconvenientes das fossas sépticas é a necessidade de limpeza periódica para a remoção do lodo sanitário que foi se acumulando ao longo do período de uso. Essa limpeza é feita através de um caminhão limpa-fossa, que faz a sucção do lodo através de uma bomba e de mangueiras – por esta razão, as fossas sépticas devem ficar em um local acessível para a entrada deste caminhão.

FOSSA: UMA VIZINHA PERIGOSA

Limpa Fossa

Os fundamentos do saneamento básico, como comentamos há vários posts atrás, são: abastecimento de água potável, coleta e tratamento de esgotos, manejo de águas pluviais e a limpeza pública e gestão dos resíduos sólidos – o controle de vetores é uma atividade transversal entre todas as atividades descritas.

Já falamos bastante sobre o abastecimento de água – falaremos a partir de hoje sobre o problema dos esgotos. Como estávamos a falar do uso de águas de poços para o abastecimento, é importante falar de fossas para o descarte dos esgotos – poços e fossas muito próximos representam grandes riscos para a saúde humana e cuidados se fazem necessários.

Para a construção de uma fossa negra (que é o tipo mais simples de fossa) é feito um buraco no solo, onde as águas servidas são lançadas; as águas infiltram no solo e os sólidos ficam retidos no fundo da fossa. Quando essa fossa atinge o nível máximo de sua capacidade em reter o material sólido dos esgotos, ela é aterrada e uma nova fossa é aberta, repetindo-se o ciclo do esgotamento sanitário. Como o material sólido representa em média 3% dos volume total dos esgotos sanitários, a maior parte das águas servidas lançadas na fossa corre diretamente para o lençol freático. Se estivermos falando, por exemplo, de uma família que utiliza a água de um poço para o seu abastecimento e que utiliza uma fossa para o despejo dos esgotos, teremos uma situação grave: a família pode estar consumindo uma água contaminada por seu próprio esgoto – saiba que isso acontece com muita frequência.

Aqui é necessário fazer um parêntese: o problema não é necessariamente a presença de contaminantes na água – o grande problema é a concentração. Uma família vivendo em uma área rural com um poço e uma fossa na propriedade é uma coisa; outra coisa bem diferente é uma família nas mesmas condições porém dentro de uma área urbana, com centenas ou milhares de famílias lançando esgotos no solo e consumindo a água de poços. O grande volumes de esgotos lançados no solo nesta última situação pode resultar em uma forte contaminação das águas do lençol freático e representar grande risco para a saúde da comunidade.

Um dos indicadores utilizados para se controlar a qualidade da água é o estudo do número de coliformes fecais presentes numa amostra coletada, especialmente a bactéria Escherichia coli. Os coliformes fecais são grupos de bactérias que vivem no intestino de animais como bois, porcos, cachorros, gatos, homens etc, sem lhes causar maiores problemas de saúde. Essas bactérias estão presentes em pequenas concentrações em alimentos (se você observar com atenção os rótulos de alguns alimentos como queijos e leite, poderá encontrar o nível de coliformes fecais máximos que podem ser encontrados neste produto) e na água consumida (inclusive água mineral), sendo constantemente liberadas em grande quantidade junto com as fezes; esgotos possuem grandes quantidades de coliformes fecais e, conforme a concentração de esgotos num determinado volume de água, a concentração de bactérias passa a apresentar riscos à saúde dos consumidores. Pior: havendo coliformes fecais na água, podem existir também outros patógenos causadores de doenças como a diarréia, o cólera, a tuberculose, a hepatite entre outros.

Caso não haja outras alternativas para a eliminação dos esgotos sanitários em uma residência, o uso de uma fossa é uma das alternativas, indicando-se preferencialmente a construção de uma fossa séptica (falarei sobre elas no próximo post). Outra observação importante é que esta fossa deverá ser construída o mais longe possível dos poços (o seu e os dos seus vizinhos). As duas instalações devem ser devidamente lacradas para evitar que, num eventual transbordamento (na época das chuvas por exemplo), não haja troca superficial de fluídos e a intensa contaminação do poço. Também é importante o monitoramento constante da fossa – percebendo que ela está no limite da capacidade, é necessário fazer a retirada do lodo sanitário acumulado (no caso de uma fossa séptica) ou escavar uma nova fossa (no caso de uma fossa negra).

Continuaremos este assunto no próximo post.