OS IMPACTOS AMBIENTAIS DA GRANDE MURALHA VERDE DA CHINA

Plantar uma larga faixa com bilhões de árvores ao longo de 4.500 km entre as regiões Noroeste e Nordeste da China, de forma a conter o avanço dos desertos rumo ao Sul do país. Esse é um dos principais objetivos do projeto da Grande Muralha Verde da China, que está em execução desde 1978 e cuja previsão de término é o ano de 2050. 

À primeira vista, a ideia parece ótima e a iniciativa dos governantes chineses é louvável. A desertificação de solos é um dos grandes problemas ambientais de nosso tempo – somente em território chinês, cerca de 1,7 milhão de km² de solos já foram perdidos para processos de desertificação e, de acordo com os especialistas, cerca de 530 mil km² desse total podem ser recuperados com apoio de projetos como a Grande Muralha Verde. 

Lembrando aqui de um velho ditado que diz que “de boas intenções o inferno está cheio”, é impossível levar a cabo um projeto dessa magnitude sem provocar grandes impactos ao meio ambiente. Falo isso sem diminuir em nada as grandes virtudes da iniciativa.  

Um dos principais impactos desse projeto se dá justamente nos recursos hídricos – plantar bilhões de árvores significa disponibilizar muitos bilhões de litros de água para garantir a sobrevivência das plantas. E água é um elemento que falta nas regiões mais ao norte da China. 

A China é o país mais populoso do mundo – 1/5 da população mundial é composta por chineses, o que representa um total de 1,4 bilhão de pessoas. Apesar dessa formidável população, o território chinês possui apenas 7% dos estoques de água doce do planeta. Para efeito de comparação, o Brasil, que tem um território um pouco menor do que a China e uma população 6,6 vezes menor, possui 12% das reservas de água doce do planeta. 

Além da baixa disponibilidade, os recursos hídricos são muito mal distribuídos no território chinês. A faixa Norte da China é tomada por uma série de desertos, como o Deserto de Gobi, e também por grandes regiões de clima semiárido. Essas regiões concentram cerca de 42% da população da China, porém, possuem apenas 14% das reservas de água do país. Há gente demais para pouca água. 

Não é preciso ser um especialista em ecologia ou recursos hídricos para perceber rapidamente que a implantação da Grande Muralha Verde numa região com pouca água criou uma disputa muito desequilibrada do recurso entre pessoas e árvores. Um estudo publicado pela revista Nature Sustainability deixou isso muito claro. 

Conduzido por cientistas da Universidade da Califórnia em Irvine, o estudo combinou dados da missão do satélite GRACE – Gravity Recovery and Climate Experiment, da NASA – Administração Norte-americana de Aeronáutica e Espaco, na sigla em inglês, de relatórios do Governo da China, além de observações ambientais e de resultados de simulações climáticas. Os resultados obtidos mostram que o esgotamento dos recursos hídricos é alarmante. 

Um exemplo: na região do Deserto de Mu Us, no Norte da China, o aumento no consumo de água vem provocando uma redução de 16 milímetros/ano no nível do lençol freático desde o início do plantio das árvores na região. Isso pode parecer pouca coisa, mas corresponde a uma perda de 21 km³ de água, um volume imenso considerando que se trata de um deserto. 

Um outro exemplo, citado na nossa última postagem, é a região de Minqin, no Noroeste do país – estudos realizados pelo Governo chinês indicam que o nível do lençol freático baixou de 12 para 19 metros desde o início do plantio maciço de árvores na região. Esses números mostram claramente que a demanda pela água está muito acima da capacidade de reposição natural dos estoques. 

A espinha dorsal do estudo são as imagens geradas pelo satélite GRACE, que foi lançado ao espaço em 2002. Os dados coletados pelo satélite entre 2003 e 2016 permitiram determinar que o rebaixamento médio do nível do lençol freático nas regiões de reflorestamento foi de 7 milímetros/ano. Comparando esses dados com informações coletadas entre 1982 e 1998, que mostravam que o nível do lençol freático estava subindo, percebe-se claramente o tamanho da tragédia ambiental. 

Uma forma de entendermos esse vigoroso rebaixamento no nível do lençol freático nas regiões onde a floresta está crescendo é analisarmos as espécies de árvores que estão sendo plantadas. Uma das principais espécies usadas é o choupo, um grupo que reúne mais de 40 espécies arbóreas ou arbustivas da família Salicaceae, conhecidas popularmente com álamos. Essas espécies se distribuem pela Ásia, Europa e América do Norte. 

Uma característica dos choupos são suas raízes altamente desenvolvidas, muito semelhantes à de espécies do Cerrado brasileiro. Essas raízes alcançam grandes profundidades em busca de água, permitindo que as árvores consigam sobreviver em ambientes de extrema aridez. Essas raízes permitem, inclusive, o surgimento de novas mudas de árvores, levando a um adensamento da espécie em florestas. 

Além das raízes de centenas de milhões de árvores insaciáveis, os depósitos subterrâneos de água da China também atendem a uma infinidade de sistemas de irrigação de plantações de todos os tipos. Conforme comentamos anteriormente, o país dispõe de áreas agricultáveis bastante modestas diante da necessidade de produção de alimentos para sua gigantesca população. Uma parte expressiva dos solos agrícolas do Norte da China são semiáridos, onde o uso intensivo da irrigação é fundamental para a produção. 

O aumento da disponibilidade de recursos hídricos em algumas regiões da China é uma das grandes prioridades do Governo. Um dos maiores projetos de infraestrutura em andamento no país é a construção de um sistema com 2.500 km de canais, que permitirá a transposição de mais de 40 bilhões de metros cúbicos de água/ano do rio Yangtzé para as regiões do Norte do País. Os investimentos previstos são de US$ 62 bilhões, divididos em três fases e com previsão de conclusão para o ano de 2050. 

Há aqui um ponto polêmico – para aumentar os caudais do rio Yangtzé, o Governo chinês tem feito estudos para a transposição de águas de outras bacias hidrográficas. Entre os rios estudados estão o Mekong, o rio mais importante do Sudeste Asiático, e o rio Brahmaputra, que corre na direção da Índia e de Bangladesh. As nascentes desses rios ficam dentro do trecho chinês da Cordilheira do Himalaia e, para os burocratas de Pequim, não existe nenhum problema em desviar parte dessas águas para atender as demandas do seu país. 

Só que, do outro lado, existem países com populações que superam a marca de centenas de milhões de habitantes, gente que precisa de água para abastecimento de cidades, para a agricultura e geração de energia elétrica. Ou seja – o plantio da Grande Muralha Verde ao longo dos desertos do Noroeste, Norte e Nordeste da China poderá ter repercussões graves em todo o Sudeste Asiático e também no Subcontinente Indiano. 

Essa disputa pela água poderá, inclusive, descambar para um conflito armado entre os países. Nosso mundo está ficando cada vez mais complicado… 

A DESERTIFICAÇÃO E A RECUPERAÇÃO DE ÁREAS DESERTIFICADAS NO NORTE DA CHINA

Notícias sobre a China ocupam espaços cada vez maiores nos portais de notícias na internet, nos jornais, em revistas e também nos canais de televisão. Essas notícias falam do impressionante crescimento econômico do país nas últimas décadas, da sua expansão militar pela Ásia, da importação crescente de alimentos de países como o Brasil, da absurda poluição e degradação ambiental, da epidemia da Covid-19, que muitos chamam de “vírus chinês”, entre muitas outras informações. 

Os registros sobre o início da civilização chinesa remontam há mais de 8 mil anos atrás e, há pelo menos 4 mil anos, o país é considerado como uma grande potência regional – o Reino do Meio, como é chamado em chinês. O brilho milenar dessa civilização foi bastante ofuscado a partir do século XIX por grandes potências estrangeiras como a Inglaterra, a França, a Rússia e os Estados Unidos, porém, desde meados do século XX, o país não tem poupado esforços para reassumir o seu grande papel em nosso mundo. 

Uma história tão longeva, é claro, teve graves impactos sobre os recursos naturais do país. Por causa da superexploração, a China perdeu grande parte da sua cobertura florestal, principalmente no Norte do país – no final da década de 1970, restava apenas 5% da cobertura vegetal da região Norte da China; na década de 1990, após uma série de programas de reflorestamento, a situação havia melhorado um pouco e a cobertura florestal do Norte do país se aproximou dos 10%. 

O país também se destaca pelos altos níveis de poluição do ar em suas cidades. Relatórios com dados sobre a qualidade do ar em 2018, mostraram que o índice médio de partículas mais finas, conhecidas como PM2.5, nas 338 maiores cidades chinesas ficou em 60 microgramas por metro cúbico de ar. O valor máximo recomendado pela OMS – Organização Mundial de Saúde, é de 25 microgramas por metro cúbico de ar. Em grandes regiões metropolitanas da China como Pequim, Hebei e Tianjin já foram detectados níveis dessas partículas até 40 vezes acima do nível recomendado pela OMS. 

Quando se fala em recursos hídricos, a situação não é muito melhor – calcula-se que entre 60 e 70% dos rios chineses estejam poluídos, com níveis de degradação que transformam os poluídos rios brasileiros em “regatos das montanhas”. Um relatório oficial do governo chinês, divulgado em 2012, informava que “cerca de 40% dos rios chineses estão seriamente poluídos” e “20% estão tão poluídos que suas águas são tóxicas e impróprias ao contato humano”.   

Desde 2014, felizmente, vem ocorrendo uma verdadeira guinada nos rumos das políticas ambientais da China e o antigo “vale tudo em prol do desenvolvimento” parece ter ficado para trás. O país vem adotando políticas rígidas para a proteção ambiental. Um exemplo dessa mudança pode ser observado no aumento das emissões de Certificações Ambientais ISO 14000 – empresas da China são as líderes mundiais na obtenção dessa certificação. Apesar das ótimas intenções, os passivos ambientais são gigantescos e serão necessárias muitas décadas para colocar “alguma ordem na casa”. 

Uma área altamente problemática na China é a agricultura. O país abriga a maior população do mundo – cerca de 1,4 bilhão de habitantes, e alimentar tantas bocas é um desafio contínuo. Apesar de possuir a terceira maior extensão territorial do mundo, com 9,6 milhões de km², pouco mais de 14% desse território é formado por terras agricultáveis. A maior parte dos solos na China são áridos, semiáridos ou rochosos. Apesar da produção agrícola chinesa ser maior que a dos Estados Unidos, ela ainda é insuficiente para atender a demanda da população. 

Além da pouca disponibilidade de áreas agrícolas, parte importante dos solos ocupados pela agricultura sofre com a degradação. De acordo com informações da agência de notícias oficial do país, a Xinhua, de 2014, mais de 40% das terras agricultáveis da China estavam em processo de degradação. Entre os problemas podemos citar a poluição, a erosão de solos e a desertificação

A maior parte das regiões Noroeste, Norte e Nordeste da China são ocupadas por grandes desertos, como é o caso do Deserto de Gobi. Esse deserto se divide entre a China e a Mongólia, ocupando uma área com 1,3 milhão de km². Também merecem destaques o Deserto de Taklamakan, com cerca de 270 mil km², o Deserto de Baidan Jaran, com 50 mil km², e o Deserto de Mu Us, com 32 mil km². Além desses, existem alguns desertos menores como Lop, Dsootoyn Elisen, Hami e Tengger

O Deserto de Gobi, citando apenas um exemplo, está em expansão e avança cerca de 3.600 km² rumo ao Sul a cada ano. As grandes tempestades de areia que ocorrem nessa região de deserto lançam sedimentos a distâncias de até 2.000 km ao Sul, atingindo importantes áreas agrícolas

Parte desse problema teve sua origem em grandes desmatamentos feitos numa extensa faixa entre Noroeste e o Nordeste da China. Além da derrubada de florestas para o aproveitamento da madeira ao longo da grande história da China, é preciso destacar épocas mais recentes, quando houve um verdadeiro ataque frontal a esses recursos florestais. Falo aqui dos tempos do Grande Salto Adiante, um conjunto de políticas iniciadas em 1958, que tinham como objetivo transformar a China em um país desenvolvido em tempo recordo. 

Essas políticas resultaram em verdadeiros fracassos e, entre outras graves consequências, criaram a chamada Grande Fome de Mao, que levou a um número de mortos por inanição entre 15 e 55 milhões entre 1959 e 1961 (lembro aqui que as estatísticas oficiais na China são um problema – o “sistema” esconde dados negativos). Existem imagens registradas há época que mostram verdadeiros “exércitos” de trabalhadores derrubando e carregando troncos de árvores nessas regiões. 

Ciente da gravidade do avanço do Deserto de Gobi e dos problemas criados pela desertificação em extensas faixas de terras nas regiões Noroeste, Norte e Nordeste, o Governo Central da China lançou ainda em 1978, o Programa da Grande Muralha Verde (三 北 防護林 em chinês tradicional), que tinha como objetivo o aumento da cobertura florestal dessas regiões, passando de 5% para 15%. Esse programa deverá estar concluído em 2050, quando se terá plantado uma faixa de floresta com 4.500 km de extensão. Em 2009, a área plantada já cobria cerca de 500 mil km², formando a maior floresta artificial do mundo.  

Apesar dos aparentes ótimos resultados, o projeto apresenta uma série de problemas. Em 2008, por exemplo, as fortes tempestades de inverno destruíram 1/10 das árvores plantadas naquele ano. Já em 2009, foram plantados 53 mil hectares de floresta e cerca de ¼ das plantas morreram. Outro grave problema é o aumento do consumo das águas do subsolo pelas árvores em crescimento. Um exemplo é a região de Minqin, no Noroeste do país – estudos feitos em 2016, indicavam que o nível do lençol freático havia baixado de 12 para 19 metros

Outro problema apontado por especialistas estrangeiros é o plantio de espécies de rápido crescimento como os choupos (gênero Popolus) e que resultam na formação de florestas com baixa biodiversidade e suscetíveis ao ataque de pragas e fungos. No ano 2000, cerca de 1 bilhão de choupos plantados foram atacados por uma doença e morreram, uma perda que deverá resultar em um atraso de 20 anos no projeto

Os especialistas chineses afirmam que existem cerca de 1,7 milhão de km² de terrenos com solos desertificados em toda a China e cerca de 530 mil km² desses solos podem ser recuperados. Apesar das críticas, esses especialistas acreditam que o grande “quebra vento” que está sendo criado com o plantio da Grande Muralha Verde ajudará na contenção das areias dos desertos e na recuperação desses solos. Além disso, o Governo Central da China não admite críticas aos seus projetos – ou se segue com o plantio das árvores ou se segue com o plantio das árvores: simples assim e sem opções! 

Como diz um velho ditado: só quem viver, verá! 

A AGRICULTURA IRRIGADA DESTRUIU O MAR DE ARAL NA ÁSIA CENTRAL

Na última postagem fizemos um breve resumo da trágica história do Mar de Aral. Localizado numa grande depressão entre o Cazaquistão e o Uzbequistão, na Ásia Central, o espelho d’água desse lago ocupava uma área total de 68 mil km², o que equivale a três vezes e meia a área do Estado de Sergipe. Com a retirada de grandes volumes de águas dos seus principais rios formadores para uso em projetos de agricultura irrigada, o lago praticamente secou. 

O Mar de Aral era a parte final da grande bacia hidrográfica endorreica formada pelos rios Amu Daria e Syr Daria. Nesse tipo de bacia hidrográfica, as águas não correm na direção dos oceanos, mas sim na direção de uma depressão no terreno, onde forma um lago ou uma planície alagável – a água se perde por evaporação.  

Como exemplos de bacias hidrográficas endorreicas podemos citar o Mar Morto, ponto terminal do rio Jordão, no Oriente Médio; o Lago Chade, na África Subsaariana; o Lago Titicaca, entre o Peru e a Bolívia, e também o Delta do rio Okavango, na África Austral. 

Os rios Amu Daria e Syr Daria são formados a partir de nascentes com origem no degelo de glaciares no alto da Cordilheira do Himalaia. O rio Syr Daria se forma a partir de duas nascentes no Quirguistão e uma no leste do Uzbequistão, percorrendo um total de 2.212 km até o Mar de Aral. O rio Amu Daria nasce nas Montanhas Pamir, na fronteira entre o Tadjiquistão, a China e o Paquistão, percorrendo cerca de 2.400 km até desaguar no Mar de Aral. 

Esses dois rios de águas permanentes são os maiores e mais importantes da Ásia Central. Desde tempos imemoriais, suas águas, juntamente com as águas do Mar de Aral, vêm sendo usadas pelas populações nômades e das cidades para dessedentação de rebanhos de animais, para o abastecimento de populações e para uso na agricultura. 

A história da Ásia Central e dos seus rios mudaria completamente com a formação da URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, após a Revolução de 1917. Desde meados do século XIX, a região já se encontrava dentro da área de influência política e econômica da Rússia, uma situação que se ampliou após a formação do grande bloco de repúblicas socialistas. 

Dentro da estrutura organizacional criada pelo Governo Central da URSS, cada região do bloco recebia um determinado grupo de atribuições econômicas. À Ásia Central coube o papel de produção de commodities agrícolas como trigo, cevada, milho e algodão. Os planejadores do Governo Central decidiram que a grande disponibilidade de água nos rios Amu Daria e Syr Daria viabilizaria o uso intensivo de sistemas de irrigação agrícola. 

Sem maiores estudos sobre os impactos ambientais e sem maiores questionamentos ao poder central da URSS, os Governos das Repúblicas Satélites da Ásia Central obedeceram cegamente às determinações de Moscou. Inicialmente, as grandes plantações se concentravam ao longo das margens dos rios. Grandes sistemas de adutoras e tubulações captavam a água e bombeavam até campos a poucos quilômetros da margem dos rios. 

Visando aumentar o total de terras irrigadas, os planejadores iniciaram diversos programas para a construção de grandes canais de irrigação. O primeiro desses projetos foi o Grande Canal de Ferghana, no Uzbequistão. Esse canal tem 270 km de extensão e foi construído em apenas 45 dias ao longo de 1939. Cerca de 160 mil trabalhadores uzbeques e tadjiques trabalharam na obra, “mostrando ao mundo a força dos povos da União Soviética

Ao longo dos anos seguintes, outros grandes canais de irrigação foram construídos por toda a Ásia Central. No final da década de 1940 foram concluídos canais em Kizil-Orda no Cazaquistão e na região de Taskent no Uzbequistão. Na década de 1950, foram construídos o Kara Kum, um canal com 800 km de extensão entre o rio Amu Daria e Ashkhadab, o sistema de irrigação de Mirzachol Sahra, o canal Chu no Quirguistão e o Reservatório de Bahr-i Tajik no Tadjiquistão. 

Com o uso intensivo de água em sistemas de irrigação, a produção agrícola das repúblicas da Ásia Central aumentou exponencialmente, um feito comemorado a extremos na propaganda oficial da União Soviética. Os altos custos ambientais desse triunfo agrícola, entretanto, jamais foram citados pelos dirigentes do Partido Comunista. 

O volume total de água do Mar de Aral era calculado em 1.100 km³ antes do início do uso da água dos rios Amu Daria e Syr Daria em grandes projetos de irrigação. Cerca de 10% desse volume de água se perdia anualmente por evaporação e era reposto pelos aportes de água desses dois rios. Com o início dos grandes projetos de agricultura, cerca de 20 km³ de água passaram a ser retirados a cada ano dos rios, um volume que foi crescendo ao longo das décadas seguintes. 

No início da década de 1960, a maior parte da água dos rios Amu Daria e Syr Daria já era desviada para uso em sistemas de irrigação por toda a Ásia Central. Entre os anos de 1961 e 1970 passou a ser observada uma redução anual de 20 cm no nível do Mar de Aral, uma redução que cresceu 350% até 1990. A partir de 1987, toda a faixa central do lago passou a ser tomada por grandes bancos de areia e o espelho d’água se dividiu em duas áreas distintas, uma ao Norte e outra ao Sul. 

Entre os anos de 1960 e 2000, o desconhecido Uzbequistão, país sem qualquer tradição na produção de grandes volumes de produtos agrícolas, passou a ocupar o 3º lugar entre os maiores produtores de algodão do mundo. As vizinhas Repúblicas do Cazaquistão, Tadjiquistão, Uzbequistão e Quirguistão também passaram a se destacar na produção agrícola, especialmente a de algodão. Por trás de todo esse sucesso se encontravam os ineficientes sistemas de irrigação agrícola da URSS. 

A redução do volume de água do Mar de Aral foi seguida pelo colapso da indústria pesqueira local, que chegou a responder por 1/6 de todos os pescados consumidos pelas populações da URSS. Além da redução dos volumes, as águas do Aral passaram a apresentar níveis de salinidade até cinco vezes acima do normal, condições inadequadas para a sobrevivência de peixes de água doce. A redução do espelho d’água também levou à destruição de bosques e florestas que circundavam todo o Mar de Aral. 

Duas regiões que perderam a maior parte de sua cobertura vegetal foram os deltas dos rios Amu Daria e Syr Daria. Um animal que abundava nessas matas era o rato-almiscarado (Ondatra zibethicus), um mamífero de origem norte-americana que foi introduzido na Ásia no início do século XX. A caça desse animal rendia uma produção de cerca de 500 mil peles por ano, uma “indústria” que foi completamente destruída junto com o Mar de Aral. Também se extinguiram inúmeras outras espécies de mamíferos, aves e répteis que viviam nas matas e águas dessa região. 

A maior parte da área que antes era ocupada pelo Mar de Aral agora forma um grande deserto de areias salgadas, conhecido entre os locais como Aral Kum. Além dos elevados níveis de sal, essas areias concentram grandes quantidades de resíduos de fertilizantes e defensivos agrícolas que foram usados nas plantações ao longo de várias décadas. Essas areias tóxicas são espalhadas pelos fortes ventos, provocando inúmeras problemos respiratórios nas populações remanescentes das poucas cidades que resistiram na região, problema semelhante ao que ocorre na região do Lago Salton, no Sul da Califórnia. 

O único trecho remanescente do lago é conhecido como Mar do Norte de Aral e corresponde a apenas 10% da área original. Esse pequeno corpo d’água sobreviveu graças aos esforços do Governo do Cazaquistão, que construiu uma barragem com cerca de 13 km nas proximidades do delta do rio Syr Daria, permitindo o acúmulo dos reduzidos caudais que chegam ao Aral. 

Resumindo – a agricultura irrigada em alta escala da antiga URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, destruiu o Mar de Aral e provocou uma das maiores tragédias ambientais de nossos tempos! 

AS AREIAS E AS ÁGUAS DOS DESERTOS DA ÁSIA CENTRAL

A Ásia Central é, por definição geográfica, a região que se estende do Mar Cáspio até o Centro-Oeste da China, no sentido Oeste-Leste, e entre o Norte do Irã e do Afeganistão até o Sul da Sibéria, no sentido Sul-Norte. Considerando apenas as Repúblicas da Ásia Central – Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão, Turcomenistão e Uzbequistão, a região possui mais de 4 milhões de km². 

As paisagens da Ásia Central reúnem montanhas, estepes e, especialmente, grandes desertos como o Kara Kum, ou deserto das “areias negras”, que ocupa uma área com quase 500 mil km². Desde os tempos imemoriais, essa região de clima inóspito e solos difíceis vem sendo habitada por uma infinidade de povos nômades, principalmente de origem mongol e altaica, grupo que inclui os turcos. Aliás, dizem que é possível “ir de Istanbul, na Turquia, até Pequim, na China, falando somente o turco.” 

A lendária Rota da Seda, que permitia o comércio entre o Oriente Médio e o Extremo Oriente, tinha um dos seus principais caminhos cruzando a Ásia Central. Naqueles tempos, o Mar de Aral era um grande oásis com muita vegetação e água, que servia de posto de parada e descanso para as grandes caravanas de mercadores. Um dos principais produtos que circulavam por essa rota eram as magníficas sedas fabricadas na China, produto que acabou associando o seu nome ao caminho. O algodão é outro produto com tradição milenar na região (vide foto)

O Mar de Aral era um grande lago de águas salobras que se formou numa grande depressão entre o Cazaquistão e Uzbequistão. As águas que alimentavam esse lago vinham dos rios Amu Daria e Syr Daria, rios com nascentes nas Montanhas Himalaias. Nas línguas locais, Aral significa “ilhas” – existiam mais de 1.100 ilhas no espelho d’água com cerca de 68 mil km². As margens do Mar de Aral abrigavam diferentes grupos étnicos como tadjiques, uzbeques e cazaques, que sobreviviam como agricultores, pescadores, pastores, mercadores e artesãos numa região rica em água, plantas e vida animal.  

A Ásia Central teve, ao longo de sua história, dois momentos de grande relevância: no passado, a região formou parte do Império Mongol (1206-1368), o segundo maior de todos os tempos em terras contiguas. O grande líder desse Império foi Gengis Khan. Em tempos mais recentes, a região passou a ganhar relevância a partir de meados do século XIX, quando o Império Russo passou a expandir suas fronteiras e áreas de influência rumo ao Sul. Esse domínio foi consolidado com a Revolução Russa de 1917, quando as Repúblicas da Ásia Central passaram a fazer parte da URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. 

Desde os primeiros anos da sua chegada na Ásia Central, os russos perceberam o grande potencial econômico do Mar de Aral. Navios militares e pesqueiros da Rússia foram transportados desmontados em caravanas de camelos e montados nas águas do Aral. Após a conquista, foi iniciada uma nova etapa da sua história – o Mar de Aral foi transformado numa fonte de pescados para toda a Rússia, chegando a fornecer, em meados do século XX, 1/6 do volume total dos peixes consumidos pelos soviéticos – destaque aqui para o esturjão-kaluga (Huso dauricus) e seu caviar

O ar puro, o clima quente e úmido, além das paisagens pitorescas ao redor das praias de águas salobras, criou um verdadeiro contraponto ao inóspito clima russo, transformando a região num dos maiores destinos turísticos de verão dos eslavos. Nas últimas décadas do século XIX e princípio do século XX, a região foi o destino de verão da elite burguesa da Rússia Imperial. Após a Revolução Russa, o Aral se transformou num refúgio para o proletariado comunista. 

As estradas de ferro, construídas originalmente para escoar os pescados da região, passaram a transportar um número cada vez maior de pessoas, dinamizando ainda mais a economia regional. Hotéis, acampamentos de verão e colônias de férias, marinas, restaurantes e lojas surgiram ao lado dos grandes complexos industriais de processamento de pescados. A população cresceu acompanhando o progresso regional – passou de 8 para 50 milhões de habitantes entre os anos de 1900 e 1960. 

O “paraíso de verão” dos povos soviéticos, entretanto, tomaria rumos totalmente diferentes após a decisão do Governo Central da URSS de transformar toda a Ásia Central no celeiro do grande bloco comunista. Os planejadores de Moscou elaboraram os mais diferentes planos para o aproveitamento das águas dos rios Amu Daria e Syr Daria para irrigação de campos agrícolas, onde seriam produzidas grandes quantidades de grãos como trigo, cevada, milho e arroz, além do importante algodão para a indústria têxtil. 

A partir da década de 1920, a área de agricultura irrigada na República do Turcomenistão foi extensivamente ampliada a fim de atender a uma proclamação de Vladimir Lenin (1870-1924), solicitando o aumento da produção do algodão. Na década de 1930, já sob o comando de Joseph Stálin (1878-1953), o Ministério da Água iniciou a implantação de gigantescos projetos de construção de canais de irrigação no Uzbequistão, Cazaquistão e Turcomenistão, com o objetivo de transformar suas estepes nos celeiros da União Soviética, alcançando a autossuficiência na produção de grãos e algodão.  

O primeiro grande canal de irrigação foi concluído em 1939 no Vale de Ferghana no Uzbequistão; no final da década de 1940 foram concluídos canais em Kizil-Orda no Cazaquistão e na região de Taskent no Uzbequistão. Na década de 1950, foram construídos o Kara Kum, um canal com 800 km de extensão entre o rio Amu Daria e Ashkhadab, o sistema de irrigação de Mirzachol Sahra, o canal Chu no Quirguistão e o Reservatório de Bahr-i Tajik no Tadjiquistão.  

A partir do final da década de 1950, Moscou decidiu que toda a região irrigada da Ásia Central passaria a se ocupar exclusivamente com a monocultura do algodão. Essa nova resolução inspirou uma frase que passaria a ser usada na propaganda oficial soviética – “quando o branco da neve cobre Moscou, o ouro branco do algodão cobre as Repúblicas Soviéticas da Ásia Central”. 

Às custas de grandes volumes de água, os planejadores do Governo Central em Moscou conseguiram transformar os desertos da Ásia Central em grandes áreas de produção agrícola. Em alguns lugares, onde as areias inertes dos desertos não permitiam o crescimento de praticamente nenhuma planta, eram apenas os sedimentos e os sais minerais dissolvidos nas águas que permitiam o desenvolvimento das culturas. 

As grandes intervenções na dinâmica das águas dos grandes rios, entretanto, tiveram impactos ambientais desastrosos no Mar de Aral. O grande lago era o ponto terminal da grande bacia hidrográfica endorreica (ou seja, sem saída para o mar) formada pelos rios Amu Daria e Syr Daria. O Mar de Aral perdia todos os anos cerca de 10% do seu volume de águas para a evaporação. Essas perdas eram repostas continuamente pelos aportes de água dos rios Amu Daria e Syr Daria

Com o desvio da maior parte das águas da bacia hidrográfica para os sistemas de irrigação, o Mar de Aral começou a secar rapidamente. O lago só não secou completamente porque o Governo do Cazaquistão, com financiamento do Banco Mundial, construiu uma barragem com 13 km de extensão na década de 1980, e conseguiu manter um pequeno trecho lago com água. Esse trecho, mais conhecido como Mar do Norte de Aral, corresponde atualmente a apenas 10% da área original do corpo d’água

Na próxima postagem vamos mostrar como a ótima ideia de transformar os desertos da Ásia Central em uma grande região de produção agrícola foi fatal para o Mar de Aral e para os milhões de habitantes da região. 

A FORMAÇÃO E O COLAPSO DO LAGO SALTON NA CALIFÓRNIA

O Lago Salton, localizado no Deserto de Sonora no Sul do Estado norte-americano da Califórnia, surgiu a partir de erros de engenharia durante a construção do Canal do rio Álamo. Conforme comentamos em postagem anterior, esse Canal foi concluído em 1901 e tinha como principal objetivo a transposição de águas desde o rio Colorado até o Imperial Valley

Em 1905, fortes chuvas assolaram a região e as enchentes destruíram uma parte das margens do Canal – as águas então passaram a correr na direção de uma depressão do terreno, criando a partir de então um grande lago que, em sua cheia máxima, forma um espelho d’água com mais de 970 km². O lago, que é o maior do Sul da Califórnia, recebeu o nome de Lago Salton. 

Localizado em uma região árida e desértica, onde as temperaturas ao longo do dia superam fácil a marca dos 40° C e onde as chuvas são raríssimas, o Lago Salton tinha tudo para evaporar completamente em poucos anos. Só que, graças às intervenções involuntárias dos agricultores da região do Imperial Valley, o lago continuou recebendo volumes significativos de água e se manteve “vivo”. 

O Imperial Valley, considerado uma das regiões agrícolas mais produtivas dos Estados Unidos, se consolidou a partir de 1901, quando as águas do rio Colorado passaram a chegar na região através do Canal do rio Álamo. Desde a passagem das primeiras caravanas de pioneiros que se dirigiam para a Califórnia a partir da segunda metade do século XIX, foi observado que esse trecho do Deserto de Sonora possuía terras férteis – só faltava água. 

A solução para esse problema surgiu nos últimos do século XIX, quando o Governo dos Estados Unidos iniciou a construção do Canal do rio Álamo. Essa obra utilizou o canal de um antigo leito de um rio seco, que num passado remoto canalizava as águas excedentes do rio Colorado durante os períodos de cheia e as conduzia para o Deserto de Sonora. Foram as águas dessas antigas cheias que carrearam os sedimentos férteis que cobrem o Imperial Valley

Com a chegada das águas, centenas de quilômetros de canais de irrigação passaram a ser abertos por todo o Imperial Valley, transformando o escaldante deserto em uma região agrícola extremamente produtiva ao longo de todo o ano. Em 1942, o Governo americano construiu um novo canal – o All-American, aumentando ainda mais a oferta de água para o Imperial Valley. Graças às águas abundantes, os agricultores passaram a se valer da irrigação por inundação – ao longo dos canais são instaladas comportas, que são abertas quando as plantas necessitam de irrigação.  

Essa técnica de irrigação utiliza volumes de água muito maiores do que a necessidade real das plantas. O excedente de água, normalmente, se perde por evaporação. No caso do Imperial Valley, uma parte substancial desse excedente de águas escorria na direção da parte mais baixa do terreno, justamente a depressão onde se formou o Lago Salton. Esse aporte de águas compensava as perdas do Lago por ação da evaporação, mantendo assim o seu nível relativamente estável. 

Essa “parceria” entre os agricultores e o Lago Salton se manteve ao longo de todo o século XX e primeiros anos do século XXI. O Lago acabou se transformando em uma importante área de lazer para a população local. Aves migratórias também descobriram o Lago Salton e transformaram suas margens em uma importante área para descanso e alimentação ao longo de suas jornadas anuais de migração. 

Logo após a sua formação, o Lago Salton apresentava águas levemente salobras. A salinidade das águas foi aumentando gradativamente até que se tornaram mais salgadas que as águas do Oceano Pacífico. Isso ocorre por que os solos e as rochas da superfície da Terra possuem depósitos de sal, que sofrem erosão com as chuvas e os caudais dos rios. Esse sal surgiu há bilhões de anos durante a formação do nosso planeta. 

Com a erosão provocada pelas chuvas e pela drenagem das águas superficiais, esses sais foram sendo dissolvidos e carregados na direção dos Oceanos e, ao longo de sucessivas eras, foram concentrando fabulosas quantidades de sal – algumas estimativas indicam que existe um volume de 5,5 trilhões de toneladas de sal nas águas e no leito dos oceanos. Na região do Lago Salton, as águas transpostas desde o rio Colorado e/ou das plantações do Imperial Valley encontraram solos com depósitos de sal, o que acelerou muito esse processo. 

Além do sal, as águas que passaram a chegar até o Lago Salton carreavam também grandes volumes de resíduos de fertilizantes e pesticidas usados pelos agricultores em suas plantações. Essas substâncias passaram a se misturar com o sal e foram se acumulando na forma de uma grossa crosta mineral decantada no fundo do Lago. A lâmina d’água do Lago Salton manteve essa crosta mineral isolada do meio ambiente por décadas a fio. 

A relativa “estabilidade” desse sistema foi bruscamente alterada a partir de 2010, época em que todo o Sul do Estado da Califórnia e grande parte da Região Sudoeste dos Estados Unidos passavam pela mais grave seca em 1.200 anos. Todos os reservatórios de água que abasteciam grandes cidades californianas como Los Angeles, San Diego e San Bernardino, entre muitas outras, entraram em colapso e, em muitos casos, as prefeituras foram obrigadas a decretar um inédito racionamento de água. 

Sem contar com outras fontes de abastecimento, tanto o Governo do Estado da Califórnia quanto as prefeituras das cidades voltaram os seus olhos para as águas usadas em sistemas de irrigação pelos produtores do Imperial Valley. Esses sistemas consumiam cerca de 83% da cota de águas do rio Colorada a que o Estado da Califórnia tinha direito

Após uma disputada queda de braços com os produtores rurais, as cidades ganharam o direito de receber volumes maiores dessas águas, reduzindo assim a disponibilidade para os agricultores. Essa redução na disponibilidade forçou os agricultores a mudarem seus métodos de trabalho, adotando sistemas de irrigação mais eficientes e com menor desperdício de água nas suas plantações. 

Essa redução do consumo de água nas plantações, por sua vez, levou a uma redução substancial dos volumes percolados na direção do Lago Salton que, com menores aportes de água, passou a ter seu volume gradativamente reduzido devido às perdas não repostas para a evaporação. 

Com o recuo do espelho d’água, a crosta de areia contaminada por agrotóxicos e fertilizantes passou a ficar exposta aos fortes ventos, que passaram a espalhar uma nuvem tóxica pela região. Como resultado, a região do Imperial Valley passou a conviver com uma baixa qualidade do ar ao longo de 200 dias no ano e agora detém o triste recorde norte-americano de casos de asma, com um índice três vezes superior à média dos Estados Unidos. Crianças e pessoas idosas são os mais afetados pelo problema

Esse fato dramático não é novo – problemas semelhantes ocorreram em diversas partes do mundo onde grandes lagos secaram. Dois exemplos: o Lago Poopó, no Altiplano Boliviano, que secou completamente em 2017, e o Mar de Aral, na Ásia Central, que começou a secar ainda na década de 1950 após a construção de uma infinidade de sistemas de irrigação pela antiga URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. 

Esse é um problema de difícil solução – para controlar a exposição das areias venenosas aos ventos, é preciso manter o Lago Salton com o maior nível de água possível, o que significa desviar quantidades substanciais de água de outros usos, algo que nem sempre é possível. 

O Imperial Valley é mais um caso de sucesso na transformação de um deserto em região de grande produtividade agrícola. Porém, assim como aconteceu em outros áreas áridas e semiáridas por todo o mundo, os efeitos colaterais foram dramáticos para o meio ambiente. 

IMPERIAL VALLEY: UMA DAS REGIÕES AGRÍCOLAS MAIS PRODUTIVAS DOS ESTADOS UNIDOS

Um outro exemplo de região desértica que foi transformada em uma grande produtora agrícola é o Imperial Valley na Califórnia – Costa Oeste dos Estados Unidos. Esse pedaço do Deserto de Sonora, que se espreme na divisa entre os Estado Unidos e o México, tem um índice de pluviosidade anual abaixo dos 76 mm e já possuía alguns trechos com terras muito férteis – só faltava a água. 

Aqui, ao contrário do uso altamente racional dos recursos hídricos que foi adotado em Israel, partiu-se para um uso “bruto” das águas do rio Colorado, que passaram a ser transpostas a partir de um canal construído no leito seco do rio Álamo em 1901. Usando e abusando dessa água, o Imperial Valley foi transformado em um grande celeiro agrícola – os custos ambientais, porém, foram altíssimos. Vamos entender essa história. 

O Deserto de Sonora entrou no “mapa” dos pioneiros americanos a partir de meados do século XIX, época em que começou a vigorar a política da “Marcha para o Oeste” do Governo Americano. Relembrando um pouco da história, a maior parte das regiões Sudoeste e Oeste dos Estados faziam parte do território do México até então.  

Entre 1846 e 1848, os dois países travaram uma guerra pela posse da região, com os americanos vencendo a disputa. Os atuais estados americanos de Utah, Nevada, Arizona, Califórnia, Texas e Novo México, além da parte oeste do Colorado, foram criados nesse território incorporado aos Estados Unidos. 

Após a vitória no embate, o Governo dos Estados Unidos buscou desenvolver políticas para estimular a colonização dessa extensa região e consolidar assim a posse dos territórios. O Deserto de Sonora era o caminho a ser atravessado pelas caravanas de pioneiros que se dirigiam para a Califórnia e, partir daí, começou a chamar a atenção pelo seu imenso potencial agrícola. 

A paisagem desoladora do deserto começou a mudar nos primeiros anos do século XX após a chegada da água transposta pelo canal do rio Álamo. Gradativamente, os agricultores que se instalaram na região, que ficou conhecida como Imperial Valley, passaram a construir toda uma rede de canais para a distribuição da água para a irrigação dos seus campos. Em 1942, o Governo americano construiu um novo canal – o All-American, aumentando ainda mais a oferta de água para o Imperial Valley

De acordo com as últimas estimativas, a região já conta com mais de 2.300 quilômetros de canais de irrigação e 1.800 quilômetros de tubulações. Esse grande sistema distribui por todo o Imperial Valley um volume de água correspondente a 83% da cota de água do Rio Colorado a que tem direito o Estado da Califórnia. Com fartura de água, terras férteis e muito sol, a região foi transformada na principal fornecedora de frutas e de vegetais de inverno dos Estados Unidos, produzindo duas colheitas a cada ano, feito raro em um país de clima temperado.  

A região também é grande produtora de alfafa, vegetal utilizado na alimentação do gado, especialmente nos meses de inverno quando as pastagens naturais ficam cobertas por grossas camadas de neve ou secam. A Califórnia, que tem uma população de mais de 40 milhões de habitantes e é o estado mais populoso dos Estados Unidos, é um dos maiores mercados para os alimentos produzidos no Imperial Valley

Durante todo o século XX e primeiros anos do século XXI, o Imperial Valley foi sinônimo de produção farta e de alto lucro no meio de um deserto. Sem praticamente nenhuma restrição ao uso dos recursos hídricos do rio Colorado, as águas transpostas corriam em abundância através dos canais e tubulações dos sistemas de irrigação e a terra respondia com grandes colheitas.  

A situação, porém, mudou radicalmente a partir do ano 2000, quando todo o Sudoeste dos Estados Unidos passou a enfrentar uma severa seca que, de acordo com especialistas, foi a maior seca na região em 1.200 anos. A Califórnia seria o Estado mais afetado por essa seca e sofreria com as mais graves consequências entre os anos de 2010 e 2014. 

A forte seca regional começou a afetar os rios formadores dos reservatórios de água de todo o sul do Estado da Califórnia, reduzindo fortemente a oferta de água pelos sistemas produtores e, consequentemente, a disponibilidade de água para abastecimento de cidades importantes como Los Angeles, San Diego e San Bernardino. A partir de 2010, quando a seca atingiu seu auge, grandes cidades do Sul da Califórnia foram obrigadas a impor uma redução compulsória de 25% no consumo de água das famílias, medida inédita na história americana. 

Sem fontes de abastecimento alternativas, estas grandes cidades voltaram sua atenção para as águas do Rio Colorado, que desde muito tempo já chegavam ao Sul da Califórnia através de sistemas de transposição e alimentavam parte dos sistemas de abastecimento e distribuição. Porém, entre o Rio Colorado e as cidades havia o Imperial Valley e seus organizados agricultores, que já estavam tendo seus próprios problemas com a redução dos volumes de água disponíveis (a seca também afetou o rio Colorado) e que não estavam dispostos a ceder nem mais um mísero litro de água para o abastecimento das cidades. 

Desde os primeiros anos da formação do Imperial Valley, os produtores agrícolas locais se valeram da irrigação por alagamento – uma comporta é instalada entre o canal de irrigação e o campo agrícola. Quando o produtor precisa irrigar sua plantação, ele simplesmente abre a comporta e deixa a água fluir “à vontade”, saturando e alagando rapidamente o solo.  

As plantas absorvem toda a água que necessitam e a maior parte do líquido vai acabar se perdendo, ou por evaporação (que é muito alta num deserto) ou por percolação para trechos mais baixos do terreno. Se existe uma técnica de irrigação irracional do ponto de vista do alto consumo de água, essa é a irrigação por alagamento. 

Uma espécie de subproduto criado pelo Imperial Valley e seu consumo abusivo de águas foi a formação do Lago Salton, um grande espelho de águas salgadas que surgiu numa depressão da região, para onde os excedentes de águas das plantações escorria (é o lago aparece no fundo da imagem que ilustra esta postagem). Falaremos mais sobre esse lago e os inúmeros problemas ambientais que ele criou numa próxima postagem. 

As grandes cidades da Califórnia acabaram vencendo a queda de braços e os produtores rurais do Imperial Valley foram obrigados a ceder uma boa parte de sua quota de água para o abastecimento dessas populações. Com a adoção de sistemas de irrigação por aspersão, mais racionais e econômicos quando comparadas ao sistema de alagamento, os produtores do Imperial Valley conseguiram manter sua produção gastando muito menos água. 

Apesar da partilha da água entre as cidades e os produtores rurais ter sido resolvida sem maiores problemas, a redução dos volumes de água usados no Imperial Valley criou uma série de problemas ambientais e de saúde pública para os moradores das cidades da região – falaremos disso na próxima postagem. 

OS GRANDES IMPACTOS DA AGRICULTURA DE ISRAEL NO MAR MORTO

Nas duas postagens anteriores fizemos um breve resumo da história da fundação do moderno Estado de Israel e dos impressionantes avanços técnicos que o pequeno país conseguiu em sua agricultura. Com pouco mais de 20 mil km² de território e com mais de 2/3 de suas terras formadas por solos semiárido e desérticos, Israel se transformou numa impressionante potência agrícola. 

Um dos feitos mais extraordinários dos israelenses foi o de fazer, literalmente “o deserto florescer”. O Deserto do Neguev, no Sul do país, ocupa mais da metade do território de Israel e conta com índices pluviométricos anuais entre 30 e 50 mm, valores 15 vezes menores que aqueles encontrados no Semiárido Nordestino. Mesmo assim, o Neguev é um grande celeiro agrícola, onde se usa intensivamente sistemas de irrigação por micro gotejamento. 

A moderna tecnologia em sistemas de irrigação, o uso altamente racional dos escassos recursos hídricos disponíveis e os grandes esforços para o desenvolvimento de cultivares adaptados ao clima e aos solos do país são as chaves do sucesso de Israel na agricultura. Esse sucesso, é claro, não veio de graça, e, entre outros inúmeros problemas, o alto consumo de água pelas atividades agrícolas e pecuárias está provocando a redução gradual do Mar Morto

O Mar Morto é um grande lago com águas extremamente salgadas que se formou numa grande depressão localizada a 430 metros abaixo do nível do mar na fronteira entre Israel e a Jordânia. O lago é alimentado exclusivamente pelas águas do Jordão, o principal rio de Israel. Formando uma grande bacia hidrográfica endorreica, ou seja, sem saída para o mar, o Mar Morto perde suas águas por evaporação.  

As águas do Mar Morto têm uma característica única – elas possuem dez vezes a quantidade de sal encontrada nos oceanos. Por essa razão essas águas não são utilizadas para consumo humano ou irrigação agrícola. O lago é, já há muitas décadas, uma das grandes atrações turísticas de Israel (vide foto). Entretanto, o uso intensivo das águas do rio Jordão para fins agrícolas está reduzindo gradativamente o Mar Morto

Em 1930, quando foi feita a primeira medição criteriosa do Mar Morto, a superfície do espelho d’água era de 1.050 km² – em 2014, a superfície total estava reduzida a 650 km² e o seu nível está se reduzindo em até 1 metro a cada ano. A razão para isso é simples: após a independência de Israel em 1948 e com o grande aumento da população do país, a retirada de água do rio Jordão para fins agrícolas chegou a consumir até 98% dos caudais do rio.  

Conforme o nível do lago foi baixando, o antigo fundo coberto por uma grossa camada de sal foi exposto. Conforme essa camada de sal foi se dissolvendo, começaram a surgir grandes crateras no leito rochoso. As atuais margens do Mar Morto estão tomadas por grandes crateras, algumas com até 100 metros de diâmetro e 50 metros de profundidade. Calcula-se que existam cerca de 6.500 dessas crateras nas áreas de entorno do Mar Morto. 

As águas densas e extremamente salgadas do Mar Morto ganharam fama de medicinais e toda a região de entorno do lago foi ocupada por elegantes resorts e hotéis, que recebiam dezenas de milhares de turistas a cada ano. Com o recuo cada vez mais intenso das águas, muitas dessas instalações agora estão a vários quilômetros das margens do lago – muito negócios acabaram falindo. E sem a reposição dos grandes volumes de água perdidos para a forte evaporação, a tendência será de uma redução cada vez maior do espelho d’água do Mar Morto. 

O Mar Morto é uma das principais atrações turísticas de Israel, um setor que gera importantes receitas para o país. Empresários dos setores de turismo e hospedagem vem fazendo uma pressão cada vez maior sobre o Governo israelense para que se encontre uma solução para o problema. A Suprema Corte de Israel, inclusive, já tomou decisão contra o Governo, recomendando que se encontre uma solução para o problema. 

A situação crítica do Mar Morto é muito semelhante à de outros grandes “mares” internos sem saída para o mar como o Mar de Aral, na Ásia Central, e o Lago Chade, na África Subsaariana. Grandes projetos de agricultura irrigada foram implantados nas suas proximidades, passando a consumir uma parte importante da água de seus rios formadores. Sem conseguir as perdas de água para a evaporação, esses lagos começaram a ter seus espelhos d’água em uma redução constante. 

Uma alternativa que vem sendo estudada há vários anos em conjunto com o Governo da Jordânia, que compartilha a bacia e os problemas do Mar Morto com Israel, e com acompanhamento da Autoridade Nacional Palestina, é a construção de um canal entre o Mar Vermelho e o Mar Morto, permitindo o fluxo de água do mar por força da gravidade (lembrando que o Mar Morto está abaixo do nível do mar) para compensar o volume de águas do Rio Jordão que deixa de desaguar no lago.  

O projeto inclui a construção de uma usina hidroelétrica para o aproveitamento da força da água. A ideia, que parece muito boa, encontra forte resistência entre grupos de ecologistas, que temem a introdução de espécies marinhas no ambiente fechado do Mar Morto, e também de empresas que exploram minerais na região do Mar Morto. Com o recuo das margens do lago e a exposição do seu fundo coberto de minerais facilitou, e muito, o trabalho dessas empresas. 

Uma outra solução, que ganhou uma enorme visibilidade nas últimas semanas, é a retomada de um projeto, ainda da década de 1960, para a construção de um canal de navegação marítima entre o Golfo de Aquaba, também conhecido como Golfo de Eliat, e o Mar Mediterrâneo. Esse canal seria uma alternativa ao Canal de Suez do Egito e poderia enviar parte de suas águas para “abastecer” o Mar Morto. 

Há poucos dias atrás, um gigantesco navio cargueiro – o Ever Given, encalhou no Canal de Suez, bloqueando totalmente a passagem de embarcações por cerca de 5 dias. De acordo com as notícias divulgadas, cada dia de bloqueio no Canal de Suez representou um prejuízo de quase US$ 10 bilhões ao comércio mundial. Criar uma via de navegação alternativa ao Canal de Suez através do território de Israel voltou a ser considerada uma ótima ideia e poderá ser a tábua de salvação do Mar Morto. 

A questão do Mar Morto, que na realidade é uma espécie de efeito colateral do sucesso da agricultura em Israel, mostra como as questões ambientais são complexas e precisam ser pensadas e discutidas com extrema cautela. A recuperação de grandes extensões de terrenos semiáridos e desérticos do país, o que aparentemente seria altamente positivo para o meio ambiente, desencadeou uma crise nos já escassos recursos hídricos da região. 

O rigor dos diferentes órgãos na análise dos impactos ambientais de grandes obras de infraestrutura como usinas hidrelétricas, rodovias, projetos de mineração e ferrovias, entre muitos outros, o que muita gente crítica por acharem rigorosos demais, tem sua razão de ser. Por melhores que sejam as boas intenções desses projetos, como no exemplo da agricultura de Israel, sempre há riscos de esconderem importantes impactos ambientais. 

A história nos ensinou que depois da Caixa de Pandora ser aberta, não dá mais para voltar a prender os males que ela guardava… 

ISRAEL: FAZENDO O DESERTO FLORESCER, OU A ”TERRA QUE MANA LEITE E MEL”

Na última postagem fizemos uma rápida apresentação das origens do moderno Estado de Israel. Nas últimas décadas do século XIX, movimentos nacionalistas começaram a “pipocar” por toda Europa, influenciando fortemente as diversas comunidades judaicas, em especial do Centro e do Leste do continente. O antigo sonho dos judeus de um dia retornar à sua terra de origem no Oriente Médio levou à criação do movimento sionista e os primeiros colonos começaram a desembarcar na Palestina nos últimos anos daquele século. 

O sucesso na recolonização da Palestina por toda uma nova geração de imigrantes judeus foi baseado no desenvolvimento e no domínio de técnicas agrícolas que permitiram fazer o “deserto florescer”, um slogan que acabou sendo adotado por Israel com o passar dos anos. Essa era uma imagem ou figura de linguagem já bastante enraizada na cultura judaica – nos antigos livros sagrados da Torá hebraica, Moshe, mais conhecido entre nós ocidentais como Moises, se referia à região onde encontramos a atual Israel como a “terra onde mana leite e mel”., ou seja, uma terra de fartura.

Essa referência literária corresponde a uma área equivalente a 20% do atual território de Israel, mais especificamente ao vale do rio Jordão, onde o clima e qualidade dos solos são adequados para a prática agrícola e onde seria possível essa “fartura”. A colonização da moderna Israel, entretanto, começou a partir de regiões com solos áridos e semiáridos, que já há muito tempo eram considerados imprestáveis pelos árabes que venderam as terras. Ao longo de várias décadas, esses vendedores se gabariam de ter feito um excelente negócio vendendo terras inúteis para judeus “imbecis”.

O modelo de colonização adotado pelos imigrantes foi baseado em produção pelo sistema de cooperativas, com dois tipos de assentamentos: o kibutz, comunidades coletivas em que os meios de produção, as responsabilidades e os eventuais lucros são de propriedade geral, e o moshav, vila agrícola onde cada família tem o direito a manter sua própria casa e trabalhar em sua própria terra, vendendo a sua produção para uma cooperativa.  

Cada uma dessas unidades recebeu uma área de terras para trabalhar. Essas terras eram cheias de problemas e, para cada caso, foi buscada e desenvolvida uma solução técnica que permitisse transformar os solos secos e esturricados em terras férteis. Como exemplo podemos citar a construção de terraços agrícolas, uma técnica muito usada no Extremo Oriente, no Sudeste Asiático e em amplas regiões montanhosas da Cordilheira dos Andes. São construídos muros de pedra em diferentes níveis de uma encosta íngreme e os diferentes níveis são preenchidos com sedimentos finos – o preenchimento é finalizado com uma fina camada de terra fértil. 

Um insumo vital para a agricultura é a água, um elemento raro na então Palestina. No Norte, a precipitação média anual é de 700 mm, índice que cai para apenas 50 mm no Sul. Para efeito de comparação, o nosso complicado Semiárido Nordestino tem uma precipitação média de 750 mm, ou seja, as áreas mais chuvosas da Palestina são mais secas que a nossa Caatinga

A principal fonte de água da região é o famoso rio Jordão, tão citado na Bíblia cristã. Com pouco mais de 200 km de extensão, o rio Jordão tem suas principais nascentes na região do Monte Hérmon ao Norte, mais conhecido como Colinas de Golã e que foi tomada da Síria por israel após a Guerra dos Seis Dias em 1967. O rio Jordão também recebe contribuições de pequenos rios com nascentes no Líbano como o e o Hasbani. As dimensões do rio Jordão lembram mais os córregos e ribeirões que encontramos por todo o Brasil – a largura média é de 18,3 metros, a profundidade máxima é de 5,2 metros e a vazão média é de apenas 16 m³/s. 

Desde os primeiros tempos da formação do Estado de Israel, a utilização racional dos escassos recursos hídricos disponíveis foi a prioridade máxima. Em sistemas de irrigação em regiões de clima árido é comum que as perdas de água por evaporação superem a marca dos 90%. Um exemplo fácil que podemos citar são os sistemas irrigados da Ásia Central construídos ainda nos tempos da URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Usando e abusando das águas dos rios Amu Daria e Syr Daria, esses sistemas de irrigação destruíram o Mar de Aral

Sem poder se dar ao luxo de desperdiçar água, os judeus criaram sistemas de irrigação altamente eficientes, onde destacamos o micro gotejamento – linhas de mangueiras são instaladas nos campos agrícolas e apenas pequenas quantidades de água são lançadas diretamente nas raízes das plantas, reduzindo as perdas de água para valores inferiores a 5%. 

Em décadas mais recentes, o país conseguiu aumentar a oferta de água potável a partir do uso de água dessalinizada. Em 1973, uma empresa privada passou a construir usinas com operação por osmose reversa para o atendimento de populações de comunidades isoladas. O grande salto tecnológico se deu em 2008, quando o Governo central decidiu construir cinco grandes usinas de dessalinização ao longo da costa do Mar Mediterrâneo. Esse ambicioso projeto estabeleceu como meta a produção de 505 milhões de m³ de água dessalinizada até o ano de 2013, chegando a 750 milhões de m³ até o ano de 2020.  

Os planos do Governo israelense foram facilitados após a descoberta de grandes campos de gás natural no país, combustível que passou a ser utilizado em substituição à eletricidade, o que fez os custos de produção, estimados anteriormente em US$ 1,00 para cada 1 m³ de água dessalinizada, caírem pela metade. E não é só isso – as tarifas cobradas dos usuários, especialmente dos produtores rurais, são “salgadas”, o que força a todos ao uso cada vez mais racional do recurso

Além dos esforços para aumentar a oferta e controlar a demanda, os israelenses não descuidaram do reuso da água – mais de 2/3 das águas servidas são reutilizadas. Na agricultura, atividade que consome perto de 75% dos recursos hídricos do país, mais de 45% da água utilizada tem sua origem em efluentes de estações de tratamento de esgotos

Graças ao alto grau de desenvolvimento tecnológico em irrigação, sistemas de cultivo e no desenvolvimento de espécies vegetais altamente adaptadas às condições de solo e clima, Israel consegue uma produção por hectare até 30 vezes maior que a maioria dos países. Entre as espécies vegetais desenvolvidas em institutos de pesquisa do país são destaques o tomate-cereja, o melão Gália, diversas espécies de frutas cítricas e uvas, além de morangos, caquis e framboesas que crescem fora das estações. As variedades de algodão desenvolvidas também são destaque, com uma produtividade de 55 kg por hectare. 

Um exemplo do alto grau da tecnologia agrícola de Israel pode ser visto em Arava, no Deserto de Neguev, Sul do país. As 600 famílias que vivem em oito assentamentos da região conseguem produzir até 300 toneladas de vegetais por hectare/ano. Essa produção é feita em estufas com cobertura plástica e dotadas de sistemas de ventilação (vide foto). A produção anual da região chega a impressionantes 150 mil toneladas de vegetais, que são exportados majoritariamente para a Europa

O Deserto de Neguev ocupa mais da metade do território de Israel e tem índices anuais de pluviosidade entre 30 e 50 mm. Afirmar que Israel “faz o deserto florescer” não é apenas uma figura de linguagem – é a mais pura realidade. 

ERA UMA VEZ UM SONHO CHAMADO ”ERETZ YISRAEL”

O Estado de Israel possui um território com apenas 20 mil km², algo equivalente ao nosso Sergipe. Além de muito pequeno, o país possui um clima árido na maior parte do seu território – perto de 80% de suas terras são formadas por terrenos semiáridos, desérticos e também por formações rochosas. Um complicador extra é a grande escassez de recursos hídricos. As chuvas são reduzidas e muito mal distribuídas, e o único rio importante do país é o lendário Jordão. 

Apesar da natureza, literalmente, conspirar contra Israel, o pequeno país é um gigante agropecuário e um dos líderes mundiais no desenvolvimento de tecnologias agrícolas. Um exemplo – os tomates-cereja que muitos dos leitores devem apreciar foi criado em centros de pesquisas em Israel. Outra grande conquista do país, essa no campo tecnológico, são os modernos sistemas de irrigação por micro gotejamento usados em todo o mundo. 

Antes de falarmos dos verdadeiros “milagres” que os israelenses vêm fazendo há mais de um século nas disputadas terras da Palestina, transformando “desertos em jardins”, é preciso entender as raízes históricas que levaram à recolonização das terras do antigo Reino de Israel, ou Eretz Yisrael em hebraico, por judeus depois de quase 2 mil anos de diáspora (ou dispersão) pelos quatro cantos do mundo. 

Sem entediá-los demais com detalhes históricos, a saga da dispersão dos judeus pelo mundo teve início no ano 70 d.C., quando tropas romanas destruíram Jerusalém e forçaram os judeus a abandonar suas terras. Essa migração forçada levou à criação de inúmeros núcleos judeus por todo o Oriente Médio, Ásia Central, Europa e Norte da África. Desde então, falando de uma forma muito resumida, um eventual retorno à terra de origem, ou o Eretz Yisrael, passou a fazer parte da cultura e, de certo modo, até de dogmas religiosos dos judeus. 

A ideia de um retorno organizado dos judeus para as antigas terras da Palestina ganhou muita força entre as comunidades de judeus da Europa Central e do Leste Europeu a partir de meados do século XIX. Esse foi um período de forte nacionalismo entre diversos povos da região e as comunidades judaicas acabaram sendo “contaminadas” pelas novas ideias, em especial a partir da década de 1880

Dois marcos importantes desse período foram a criação da revista Selbstemanzipation (Autodeterminação) por Nathan Birnbaun, um escritor judeu natural de Viena, em 1885, e também pelo lançamento do livro Der Judenstaat (O Estado Judeu) por Theodor Herzl, um escritor judeu de nacionalidade austríaca, em 1895. Esses escritos seriam determinantes para a criação do “movimento sionista”. Também foram destaques os rabinos (líderes religiosos judeus) Judá Alkalai, Naftali BerlinTzvi Kalisher, Samuel Mohiliver e Isaac Jacob Reines

Uma forma de se perceber a força que as ideias sionistas ganharam no período foi a popularização da expressão Vaiter yor in Irushilim – Ano que vem em Jerusalém, um cumprimento que passou a ser usado pelos membros das comunidades judaicas. Em 1897, foi organizado na cidade de Basileia, na Suíça, o Primeiro Congresso Sionista. Reunindo mais de duzentos participantes, o Congresso discutiu, entre outros temas, o local onde seria fundado o novo Estado Judeu.  

Entre as alternativas estavam a Ilha de Chipre, a Patagônia argentina, colônias europeias na África como o Congo e Uganda e também a Palestina Otomana. Por razões históricas, venceram os partidários da Palestina. O Congresso também resultou na criação da Organização Sionista Mundial, entidade que viabilizaria economicamente a compra de terras na Palestina e o assentamento de comunidades judaicas na região. 

Os primeiros imigrantes judeus que se estabeleceram na Palestina dentro do sionismo moderno eram de origem russa e começaram a chegar na região em 1882. Eles formavam um movimento chamado Bilu (Pioneiros) e buscaram asilo na sua terra ancestral fugindo das leis antissemitas introduzidas pelo Czar Alexandre II da Rússia. Esse grupo era formado por 14 estudantes universitários, tendo como líder Israel Belkind. Após muitos altos e baixos, o grupo conseguiu apoio financeiro e, em 1886, fundou uma vinícola em Rishon Lezion

A partir dos últimos anos do século XIX, milhares de imigrantes originários de toda a Europa, Rússia e Estados Unidos passaram a chegar na Palestina com apoio da Organização Sionista Internacional. Esses imigrantes passaram a se estabelecer em terras compradas de árabes da região por companhias internacionais. Essas terras eram, na sua imensa maioria, formadas por solos semiáridos e considerados “imprestáveis” para qualquer tipo de prática agrícola por seus antigos proprietários. 

Contando com apoio internacional de seus pares, esses pioneiros passaram a se dedicar a trabalhos de pesquisas técnicas para a recuperação desses solos – limpeza de campos rochosos, construção de terraços agrícolas, drenagem de áreas pantanosas, dessalinização de solos, reflorestamento e contenção de encostas, desenvolvimento de sistemas de irrigação, entre outras intervenções. Foram esses esforços que criaram as bases da agricultura israelense moderna. 

O movimento migratório de judeus para a Palestina ganhou muita força ao longo e após a Segunda Guerra Mundial, quando milhares de pessoas, fugindo principalmente da perseguição político/religiosa da Alemanha Nazista, tentavam recomeçar a vida na Palestina (vide foto). A entrada desses refugiados foi bastante dificultada pela Inglaterra e pela França, potencias coloniais que assumiram o controle da Palestina com a derrocada do Império Otomano após a Primeira Guerra Mundial.  

Em 1948, a Assembleia Geral da ONU – Organização das Nações Unidas aprovou, sob muita pressão, a polêmica criação do Estado de Israel. A consolidação da pequena nação levaria ainda muitas décadas e demandaria muito esforço – especialmente militar. Para os amantes de cinema, recomendo os filmes “Exodus”, de 1960, dirigido por Otto Preminger, e “À sombra de um gigante” (Cast a giant shadow), de 1966, dirigido por Melville Shavelson, que contam emocionantes histórias dos primeiros anos do Estado de Israel. 

Sem nos envolvermos nas questões políticas com os países vizinhos e, especialmente, com a importante causa do povo palestino, o Estado de Israel se transformou em uma referência mundial em agricultura. Desde 1948, a área agrícola do país aumentou de 165 mil hectares para 435 mil hectares, ocupando principalmente áreas de deserto com sistemas de irrigação. A produção agrícola aumentou 16 vezes nesse período

A produção de frutas é um dos destaques de Israel – são mais de 40 tipos. Além de frutas cítricas como laranjas, grapefuits e tangerinas, se incluem ameixas, nectarinas, morangos, peras, caquis e romãs. Também merecem destaque a produção de uvas e vinhos, verduras, legumes e grãos como sorgo, trigo e milho. Também são relevantes as produções de leite e de flores. A produção agrícola representa 2,5% do PIB – Produto Interno Bruto, e 3,6% das exportações do país, principalmente para Europa

Na próxima postagem vamos detalhar melhor os fundamentos que levaram Israel ao grande êxito nessa área, principalmente com o apoio de sistemas de irrigação e uso racional dos escassos recursos hídricos. 

SERAPIUM: UMA FLORESTA REGADA A ESGOTOS NO EGITO

Nas postagens anteriores falamos dos problemas que a desertificação de solos vem provocando em todo o mundo, especialmente na América Latina. O uso inadequado dos solos por atividades agrícolas e pecuárias, a devastação de áreas florestais, o aumento das temperaturas globais, entre outros problemas, tem levado à destruição de grandes extensões de solos férteis. Em um mundo com recursos naturais finitos e com uma população humana que não para de crescer, isso não é um bom sinal. 

Para não ficarmos repetindo mais do mesmo, vamos mudar o enfoque das postagens – ao invés de mostramos outros casos de desertificação de solos em diferentes países, vamos mostrar algumas soluções que vêm sendo criadas para se reverter o problema. Vamos começar falando da Floresta Serapium, no Egito. 

Como todos devem se lembrar das aulas de história nos tempos do ensino fundamental, o Egito foi uma das maiores e mais poderosas civilizações do passado. Essa história de sucesso começou no ano 3.220 a.C., quando Menés unificou os reinos do Alto e Baixo Egito, criando a Primeira Dinastia de faraós. O declínio tem início por volta do ano 670 a.C., quando o Egito é invadido e dominado, primeiro pelos assírios, depois pelos persas, macedônicos e finalmente pelos árabes. 

Falando de uma forma bem simplificada, o território do Egito é praticamente uma sucessão de desertos e regiões semiáridas – uma exceção é o Vale do Rio Nilo, que corta o país de Norte a Sul. Desde os tempos imemoriais dos primeiros assentamentos humanos no Egito, a vida tem sido regulada pelos ciclos anuais de cheias e de vazantes do rio Nilo, que fertilizam as margens e permitem a prática da agricultura. A região do Delta do Nilo, onde o rio se abre em inúmeros canais e forma grandes campos de solos férteis, é outra exceção à aridez dos desertos. 

As águas do rio Nilo sempre foram e ainda são o sangue e a vida do Egito. O rio proporciona água, alimentos, transportes, turismo e geração de energia elétrica. A usina hidrelétrica da Represa de Assuã no rio Nilo, concluída em 1967, já respondeu por 50% de toda a eletricidade usada pelo país. Atualmente, esse percentual caiu para 15%. 

E o que os quase 100 milhões de egípcios oferecem ao bom e velho rio Nilo por todas as benções que ele provê? Esgotos, muitos esgotos – mais precisamente: sete bilhões de metros cúbicos de águas residuais a cada ano, isso sem falar nas centenas e mais centenas de toneladas de resíduos sólidos que são despejados diretamente na calha do rio ou que são arrastados pelas enxurradas. 

Esses problemas, desgraçadamente, extrapolam as fronteiras do Egito e se repetem em países como Etiópia, Sudão, Uganda, Tanzânia, Quênia, República Democrática do Congo, Burundi e Ruanda, todos inseridos dentro da bacia hidrográfica do rio Nilo. São no total cerca de 250 milhões de pessoas que dependem das águas do rio e que, como os egípcios, retribuem todos os seus bons serviços com muito esgoto e lixo. 

Um exemplo de como as coisas andam muito mal no Egito – até bem poucas décadas atrás, cerca de 123 espécies de peixes eram encontradas na bacia hidrográfica do rio Nilo. De acordo com estudos de pesquisadores do Egito, 35 dessas espécies já desapareceram do Baixo Rio Nilo. 

Como parte dos esforços para reduzir a intensa poluição das águas do rio Nilo, o Programa Nacional do Egito para o Uso Seguro da Água de Esgoto, uma organização criada há cerca de 25 anos atrás para buscar alternativas para o uso das águas residuárias no país, teve a ideia de plantar florestas e usar os despejos de águas das estações de tratamento de esgotos para uso na irrigação dessas florestas

Esgotos são ricos em nitrogênio e fósforo, dois elementos essenciais para a nutrição de plantas, Mesmo após passar por todos os processos de tratamento, as águas residuárias ainda apresentam grandes concentrações desses elementos. Conduzidas por tubulações até as florestas, essas águas permitem irrigar e nutrir as plantas ao mesmo tempo. 

Contando com apoio da Universidade Técnica de Munique na Alemanha, o projeto teve início na década de 1990. As águas residuárias de uma estação de tratamento de esgotos passaram a ser usadas na irrigação de florestas artificias em 36 áreas do deserto. Uma dessas áreas é conhecida como Floresta Serapium (vide foto) e já apresenta excelentes resultados. 

A Floresta Serapium fica em Al Ismailia, uma localidade a cerca de 16 km a Oeste do Canal de Suez. A cidade tem cerca de 400 mil habitantes e as águas residuárias dos seus esgotos estão sendo utilizadas para regar e nutrir diversa áreas de florestas artificiais – a de Serapium é uma floresta de eucaliptos com cerca de 500 acres de área. As árvores estão com cerca de 15 metros de altura. O frescor surreal dessa floresta contrasta com a aridez escaldante do deserto ao seu redor. 

O projeto tem apoio financeiro da Forest Finance, uma empresa alemã especializada em investimento florestais. Uma das razões para o interesse dos alemães por essa região é o tempo de crescimento das árvores, que atingem o ponto ideal de corte em apenas ¼ do tempo do que o equivalente na Alemanha. Um eucalipto, por exemplo, leva até 60 anos para completar o seu desenvolvimento no clima temperado da Alemanha – no desértico Egito, a mesma árvore pode estar pronta para o corte em menos de 15 anos com o uso da irrigação

Além do eucalipto, a floresta também abriga outras espécies de grande valor comercial como o mogno. O transporte da água até a floresta é feito por um sistema de adutoras. A irrigação das plantas é feita por gotejamento localizado, a partir de uma rede de tubulações flexíveis distribuídas no solo. Cada uma das árvores recebe, em média, 5 litros de água a cada dia. 

O território do Egito ocupa uma área com mais de 1 milhão de km², sendo que 95% desses solos são desérticos e/ou semiáridos, existindo espaço de sobra e grandes volumes de águas residuárias para a formação de inúmeras outras florestas como a de Serapium. Isso abre inúmeras possibilidades para a produção de madeira, papel e celulose, além de criar milhares de postos de trabalho num país em crise. 

Até alguns anos atrás, o turismo era uma das principais fontes de receita do Egito. Pessoas de todo o mundo vinham se maravilhar com os inúmeros museus e com monumentos e sítios arqueológicos espalhados por todo o país. A partir de 2010, depois de uma série de ataques de radicais islâmicos a grupos de turistas e também pela instabilidade política, o país viu o fluxo de turistas diminuir em cerca de 80%. Em 2020, a epidemia da Covid-19 afetou ainda mais o setor e as receitas geradas pelo turismo despencaram perto de 67%

Florestas comerciais regadas a esgotos podem ajudar nessa complicada situação financeira do Egito, gerando emprego e renda para milhares de trabalhadores. Além das valiosas madeiras e seus produtos e subprodutos, essas florestas ajudam a formar camadas de solos férteis sobre a areia do deserto – as folhas e os galhos que caem sobre os solos são transformados em húmus, o que futuramente poderá criar novos espaços para uma agricultura sustentável. 

Quem sabe, essas florestas poderão em breve se transformar em uma nova atração turística do país. Inshallá (Que Deus permita)!